História Seu Único Desejo (Adaptação Delena) - Capítulo 20


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Categorias The Vampire Diaries
Personagens Damon Salvatore, Elena Gilbert
Tags Adaptação Delena
Visualizações 131
Palavras 4.586
Terminada Sim
NÃO RECOMENDADO PARA MENORES DE 18 ANOS
Gêneros: Aventura, Famí­lia, Luta, Mistério, Romance e Novela, Violência
Avisos: Adultério, Álcool, Heterossexualidade, Insinuação de sexo, Nudez, Sexo, Tortura, Violência
Aviso legal
Alguns dos personagens encontrados nesta história e/ou universo não me pertencem, mas são de propriedade intelectual de seus respectivos autores. Os eventuais personagens originais desta história são de minha propriedade intelectual. História sem fins lucrativos criada de fã e para fã sem comprometer a obra original.

Capítulo 20 - Capítulo 20


Escondido em uma garganta na região de East Midlands, Damon aguardava notícias dos espiões que tinha enviado a Stony Stratford. Kol também devia reunir-se ali com eles, depois de sua visita a Northampton. Depois de várias noites de perseguição a Gloucester por meia Inglaterra, o protetor do reino finalmente tinha levado o jovem soberano à residência da rainha.

A luz das fogueiras de Northampton refletiam-se no rio Nenê. A lua iluminava o acampamento situado a margem do rio. Os homens de Gloucester tinham montado e desmontado tantos acampamentos que Damon perdeu a conta. Se não viajassem com tantos luxos, teriam chegado a Londres há dias.

            Lutou uma vez mais contra o instinto de rasgar o tecido de todas as barracas até encontrar Lena. Sabia que estava ali. Seu coração dizia. Sentia-se tão unido a ela, que juraria que sentia quando chorava. Sentia seu medo. Levou uma mão ao peito. Cada dia que tinham ficado separados, a dor que sentia aumentava.

            — Juro por Deus que não falharei, Lena. — sussurrou, beijando o crucifixo de ouro que tinha pendurado ao pescoço.

            — Encontrei-a. — disse Kol, aparecendo atrás dele vestido com o uniforme dos homens de Gloucester — Está na quarta barraca passando a ponte.

            — Quantos guardas?

            — Dois. Os que vigiam a entrada. Quer que os mate? — perguntou Kol, cujo rosto recuperou-se quase por completo da surra e voltava a estar tão bonito como sempre.

            — Talvez. — Damon ocultou seis armas em diferentes partes do corpo. Tirou a túnica escarlate e só usava uma camisa negra sobre calças e botas da mesma cor. Seria uma sombra na noite — Vou aproximar-me pelo rio. Se não voltar, mate-os, resgate Elena e retorne para casa.

            Despediu-se do jovem com uma inclinação de cabeça, agradecido de contar com sua ajuda. O batalhão de cem homens do clã Salvatore não podia fazer frente aos trezentos yorkistas que faziam parte do exército de Gloucester. Por mais que desejasse atacar e levar Lena pela força, não podia retornar para casa com mais mortes sobre sua consciência. Não podia obrigar  seus homens a enfrentarem um combate tão desigual.

            Deslizou entre as árvores, silenciosamente, até que não restou lugar para ocultar-se, e então continuou até o rio, arrastando-se entre a grama alta. Afundou na água gelada sem fazer ruído e a cruzou, guiando-se pelo reflexo dourado das fogueiras, que lhe recordavam os olhos de Elena. Ao chegar à ponte, começou a contar as barracas: uma, duas, três, quatro. Saiu à superfície e respirou, tentando fazê-lo em silêncio. Uma olhada aos seus arredores confirmou que não havia ninguém na parte de trás do acampamento. A melodia de um histrião cantando uma balada em honra ao rei falecido cobriu o ruído que fez ao sair do rio. Com a roupa pesada pela água, arrastou-se pelo barro  até chegar à parte de trás da barraca.

            Do outro lado da mesma, um homem ria, um som que recordava uma galinha.

            — Tratei-a bem, disso não resta dúvida. Tinha os seios tão inchados que me enchiam a mão!

            —  Seguramente que era virgem.

            — Oh, sim, por aquele buraco tão apertado não tinha passado ninguém.

            Damon golpeou a cabeça com uma mão para tirar a água das orelhas. Se ouviu corretamente, Elena estava a salvo, ao menos das atenções de um dos guardas. Ignorando-os, aproximou-se ainda mais e escutou. Embora tudo estivesse virtualmente em silêncio, ouviu que alguém respirava lá dentro. Era a respiração de seu anjo; não parecia que houvesse ninguém mais dormindo ao seu lado.

            Queixou-se em sonhos e Damon desejou abraçá-la e mantê-la a salvo de seus pesadelos. Mas controlou-se e se concentrou na missão que tinha diante de sí. Rezou para que não resistisse a entrar na água. Não havia outro modo de levá-la até a segurança da outra margem; até a segurança de seus braços, de onde nunca deveria ter saido.

            Tirou uma faca da bota e rasgou a lona. O aroma de Elena o golpeou como uma  onda de prazer: doce, embriagador, dele, provocando-lhe uma ereção quase que instantânea. Revirou os olhos. Não era momento para ereções. Mas não podia controlar-se.

            Retirou o tecido devagar e esperou que seus olhos se adaptassem à escuridão. Um candil proporcionava a única luz. Lena estava deitada de costas, diante dele. Se estendesse o braço, poderia tocar-lhe o cabelo. Aos seus pés, perto da entrada, havia uma bandeja de comida.

            Damon aproximou-se e cobriu-lhe a boca com uma mão.

            Ela resistiu e o candil caiu no chão, deixando-os em uma escuridão absoluta.

            —Chis, sou eu, anjo. Tudo vai ficar bem. — sussurrou, beijando-lhe a cabeça e gotejando água.

            Elena rodeou-o com os braços e o estreitou com força. Damon sentiu que voltava para a vida. Mas então ela começou a tremer e pôs-se a chorar em silêncio. Beijou-lhe o rosto banhado em lágrimas. Nunca havia se sentido tão cheio de amor. Aquela mulher era sua companheira diante de Deus, e faria tudo para protegê-la.

            Incapaz de negar-se esse pequeno prazer, beijou-lhe sob a orelha, enquanto com a outra mão tocava-a.

            Deteve-se ao ouvir um som metálico que recordou-lhe ao das correntes de uma ponte levadiça ao erguer-se.

            Voltou a tocá-la, mas não se moveu.

            Os guardas se calaram fora da barraca, mas não entraram.

            Pelos pregos de Cristo! Estava acorrentada! Tinha Lena tão perto que até os ossos doíam pela necessidade de libertá-la. Acariciou-lhe o queixo e os lábios com o polegar enquanto esperava que os soldados retomassem sua conversa. Apoiando sua face na suave bochecha de Elena, falou-lhe no ouvido

            — Diga que tem uma chave. — Ela negou com a cabeça.

            — Tem que partir em seguida ou o matarão. Já morreram muitas pessoas por minha culpa. Não deixarei que matem você também. — Damon imaginou o calvário que devia ter sofrido, preocupada com todo mundo exceto consigo mesma.

            — Klaus sobreviveu ao ataque, como Duffy e Reynold. Acompanham-me trinta guerreiros, Kol entre eles. Estamos aqui para levá-la pra casa. —   Elena respirou aliviada e deu graças a Deus.

            — Tem que ir à Torre.

            — Não penso deixá-la aqui, moça. — Ela o abraçou com força, contradizendo com seus atos suas valentes, suas palavras.

            — Eu não posso ajudar meus sobrinhos, mas você sim. Trouxe o documento?

            — Sim.

            — Lorde Shane planeja matar Martin e Eli em sua volta. Despreza-os e já pode prescindir deles agora que tem a mim. Enquanto o documento estiver em seu poder, manterá-me com vida.

            — Não, virá comigo agora mesmo. Iremos juntos à Torre e ao diabo com o documento. — Tinha que tirá-la dali mas agora, além disso, estava preocupado pelos meninos. Nada impediria que Shane os matasse assim que chegasse a Londres.

            Quando o histrião acabou a canção, ficaram quietos e imóveis. Um dos guardas de Elena pediu uma canção mais alegre e o cantor não se fez de rogado.

            — Não deixe que lorde Shane saia bem dessa. Deve ser castigado.

            — Matarei-o com minhas próprias mãos. — disse Damon. Pensava fazê-lo embora ela não o tivesse pedido.

            — Mas então Buckingham ganhará. — Elena passou os dedos pelo cabelo húmido, aliviando a tensão que ele sentia na nuca — Vá à Torre. Procure os meninos e tire-os dali. Lorde Shane encerrou-me uma vez no hall de uma das celas da Torre que serve de guarda-roupa. Talvez tenha feito o mesmo com eles. Gloucester planeja chegar a Londres no domingo. Leve o documento. Tem a oportunidade de conseguir a paz para Escócia. Vale a pena tentar.

            — Não! — protestou ele, esquecendo-se de sussurrar. Maldita mulher, como conhecia suas debilidades.

            Os soldados ficaram em silêncio e Damon conteve a respiração. A princípio, somente ouvia era o batimento do seu coração, mas em seguida aproximaram-se e a lona da entrada da barraca deixou passar uma fresta de luz.

            — Precisa de algo, lady Gilbert? — perguntou uma voz anasalada.

            — Obrigada, Manfred. Logo vou precisar que esvazie o urinol. As ameixas...

            — Bem, milady, avise quando tiver terminado. — Momentos depois, os homens continuaram com seu bate-papo.

            — Estou a salvo. Lorde Shane passa todo o tempo tentando ganhar o favor de Buckingham, e este faz o mesmo com Gloucester.

            — Então, porque está acorrentada?

            — Escapei de lorde Shane várias vezes no passado e isso, como carcereiro, mortifica-o. Gosta de impor sua autoridade, mas o que de verdade gosta é degradar às pessoas. Sou imune a suas ameaças. Não me fará nada até que cheguemos a Londres.

            Damon levantou-lhe a mão e beijou a palma. Seria consciente do inferno que tinha passado pensando nela, durante aqueles últimos dias?

            — Então, não têm feito mal a você? — Sua pausa o fez suspeitar do pior.

            — Não. — negou Elena, finalmente — Deixaram-se aos cuidados de Manfred, e  asseguro que não sou o seu tipo.

            Damon apoiou a fronte contra a dela, agradecendo por não ter sido violada, embora não se tranquilizando totalmente.

            — Como pode me pedir que a deixe aqui?

            — Por favor, vá. Vá resgatar os meninos. Encontraremo-nos na bifurcação do túnel dentro de dois dias. A meia-noite. Lembra-se dos passos?

            — Lembro. — Devia estar mais louco do que acreditava para estar sequer considerando o plano.

            — Por favor. — repetiu Lena, segurando-lhe o rosto com as mãos e aproximando-se mais dele.

            Damon beijou-a e não pôde resistir ao impulso de sugar o lábio inferior. Queria dizer tantas coisas, mas não havia tempo.

            — Colocarei homens na Torre. Estarão vestidos como soldados yorkistas e usarão uma corda entre os cadarços das botas. Vá com eles. Vão trazê-la de volta para mim. — disse, antes de despedir-se beijando-lhe as pálpebras — Não falharei.

            — Sei. Salve Eli e Martin e venha buscar-me.

            Damon não soltou sua mão até que não restou mais alternativa, já do outro lado da lona. Se acontecesse alguma coisa com ela, não iria poder perdoar-se nunca. A culpa que carregava por ter falhado com sua família  deixou uma profunda cicatriz em sua consciência, mas se falhasse com Elena, iria ter que aprender a viver com uma ferida aberta na alma.

            «Boa viagem, meu amor», despediu-se Lena em silêncio, com os olhos cheios de lágrimas. Estava aterrorizada, mas se mostrasse debilidade diante de Damon, este teria se negado a abandoná-la.

            Se os tivessem descoberto juntos, não restaria ninguém capaz de ajudar seus sobrinhos. Sentou-se na rede, abraçou os joelhos e ficou olhando a escuridão. Lorde Shane havia voltado a torturá-la mentalmente. Tinha jurado acabar com a vida de seus sobrinhos de um modo limpo e rápido. A outra alternativa era a tortura.

            Ela, por sua vez, não teria sua misericórdia.

            O homem se mostrou exultante ao informá-la essa manhã de qual tinha sido sua condenação: penteie forte et dure: ser esmagada até morrer. Sem dúvida, a sentença não seria executada até que Damon chegasse com o documento. Nesse momento, lorde Shane ordenaria que carregassem os pesos de ferro sobre seu peito. Não sabia como iria enfrentar  isso, mas pelo menos teria um pouco de tempo para suplicar a seu pai que a libertasse. Se conseguisse salvar os meninos, tudo teria valido a pena. Gloucester por sua vez se encarregaria de acabar com a vida de Shane e de Buckingham. «Tudo ficará bem.»

            Mecanicamente, sua mão foi em busca do rosário de sua mãe sob a saia de lã que uma donzela de Buckingham tinha lhe proporcionado, mas claro, não o encontrou. «Proteja meu marido», pediu a Deus. Damon  demonstrou que era um homem forte e com capacidade de resistência; tinha ensinado o que era sentir-se amada, e sobretudo, dava-lhe valor.

            Em sua mente viu a imagem de um campo cheio de flores, onde Eli e Martin corriam com os filhos e filhas de Lena. Seu pai, por fim em paz com sua consciência, olhava-os de longe. Damon, a suas costas, abraçava-a e beijava-lhe o cabelo, enquanto murmurava suaves palavras no ouvido. Palavras que só escutava em seus sonhos, palavras de amor.

            Escondido entre as sombras do penhasco, Damon escolheu dez homens para que o acompanhassem a Londres. Os vinte restantes seguiriam  Elena.

            Com Kol ao seu lado, cavalgou à luz da lua até chegar a Stony Stratford, onde uma fileira de guardas de Gloucester guardava a estrada. Vestidos como soldados de York, não tinham motivo para esconder-se.

            Disseram que eram um pelotão de reconhecimento que chegava adiantado do duque e seguiram adiante até o amanhecer. Enquanto a Inglaterra dormia, Damon e seus homens faziam tremer o chão com os cascos de seus cavalos a galope. Povos, botequins e bosques passavam a toda velocidade diante de seus olhos.

            Com a alvorada, viram aparecer a ponte de Londres. Damon golpeou os flancos do cavalo com os joelhos e seguiu galopando como um demente, açoitado por sua própria alma delirante.

            Kol adiantou-se e fez dar a volta no cavalo, obrigando Damon a deter-se. O cavalo deste protestou, relinchando e levantando-se sobre as patas traseiras.

            — Para já! — gritou o jovem.

            — Pelos pregos de Cristo! O que está fazendo? — Quando o garanhão finalmente ficou quieto, Damon percebeu que tremiam todos os músculos de seu corpo. Sentia-se possuido por uma estranha febre. Tinha a pele suada, a respiração ofegante e não pensava com clareza.

            — Pensa cruzar as portas de Londres voando? — perguntou Kol franzindo o cenho, e secando o suor com o dorso da mão, quase sem fôlego.

            Seu primo nunca franzia o cenho e nunca ficava sem fôlego. Damon voltou-se para olhar o resto de seus homens e viu que se achavam em um estado semelhante. Nunca tinha duvidado de que o seguiriam até o inferno, se um dia precisasse. E esse dia tinha chegado.

            — Tenho que urinar. — disse Kol, dirigindo-se ao rio com passos decididos — Acha que teremos tempo?

            — Sim. — respondeu Damon, inclinando a cabeça em direção aos seus homens, para que desmontassem também. Ao fazê-lo, Damon quase caiu no chão. Precisava descansar tanto quanto os outros. Nesse estado não conseguiriam ajudar os sobrinhos de Elena.

            Levou seu cavalo até a água e aproximou-se de Kol.

            — Talvez pudessemos descansar um pouquinho, não?

            — Talvez. —admitiu o jovem, sem traços de aborrecimento na voz — Desculpe minhas palavras, milorde.

            Damon custou para manter-se sério. Era a primeira vez que Kol o chamava por seu novo título.

            — Não se preocupe, primo. Alguém tinha que me deter. Fechamos os olhos umas horas e pensamos o que fazemos a seguir, de acordo? Alguma ideia para entrar na Torre?

            —OH, sim. — respondeu Kol, com um sorriso travesso — Vamos ter que derramar rios de sangue

 

            Damon puxou as rédeas de seu cavalo para seguir pela rua Watling e, levantando uma mão, indicou a seus homens que fizessem o mesmo. A cidade estava abarrotada de gente que aguardava a chegada do jovem soberano acompanhado de seu tio. Os vendedores ambulantes preparavam seus postos de venda, cera de abelha ou cordas enquanto o conselho municipal enviava pergaminhos a todos os lugares da cidade para anunciar a iminente chegada do novo rei.

            Os guerreiros Salvatore, com suas túnicas escarlate e seus cavalos enfeitados, passavam desapercebidos naquele torvelinho de cores. Ao cruzar com dois soldados yorkistas que carregavam bandeiras com o escudo de Gloucester, saudaram-se e seguiram seu caminho.

            Damon guiou Kol e outro de seus primos até a entrada do túnel coberto de trepadeiras. Gregor amarrou os cavalos na entrada de uma casa, perto de onde Elena e Damon tinham roubado o cavalo da guarda real, semanas antes.

            Uma vez que ambos os homens entraram dentro do túnel, Damon guiou o resto de sua pequena tropa até a entrada da Torre. Ao ouvir o som de seus cascos atrás, sentiu-se culpado mas orgulhoso ao mesmo tempo. Tinham cavalgado sem descanso e sem queixar-se durante toda a noite. Tinham-no obedecido em tudo e ele devia-lhes a vida por sua lealdade.

            O grasnido de um corvo recebeu-os em sua chegada na Torre. Com as asas estendidas, voava em círculos sobre eles, como se os estivesse avisando de algo. Um calafrio percorreu-lhe as costas. Teria pensado em todos os detalhes? A princípio planejou fazer todos os homens entrarem pelo túnel, mas precisavam de liberdade de movimentos para procurar Eli e Martin, sem ter que esconder-se pelos cantos. Uma vez livres, levariam-nos a Escócia, onde conheceriam, por fim, o que era o amor de uma família, embora não fosse a sua própria.

            — Alto! Quem são e o que querem? — gritou o guarda atrás da grade de ferro.

            Damon voltou a colocar-se em seu personagem.

            — Sou sir Julian Ascott. Devo comprovar as medidas de segurança para a chegada do duque de Gloucester. — Um dos guardas aproximou-se, vestido com um colete cor de cobre, calças marrons, sapatos em ponta e um chapéu negro.

            — Onde estão suas ordens?

            — Minhas ordens foram verbais. — respondeu ele, olhando-o com toda a nobre arrogância de que foi capaz — Seu carcereiro real me envia para comprovar que tudo esteja seguro para a chegada do jovem soberano e seu tio.

            O homem franziu as sobrancelhas com um gesto de preocupação. Colocou-se de lado para examinar os soldados que acompanhavam Damon e disse

            — Não posso deixar passarem, a menos que tenham ordens por escrito.

            — E o que o faz pensar que eu entraria, por vontade própria, neste horrível lugar se não tivessem me ordenado? Levante a grade e nos deixe passar ou terá que se ver com lorde Shane e seu mau gênio. — ameaçou ele, esperando que o carcereiro tivesse mais inimigos que amigos na Torre.

            O guarda agarrou a lança que carregava com tanta força que os nódulos ficaram brancos.

            — Embora não possa dizer que goste de enfrentar o mau gênio de milorde, tenho ordens estritas.

            — Muito bem. Nesse caso, reúna você a todos e assegure a Torre. Transporte os prisioneiros para algum lugar do pátio interno e coloque-os nas masmorras. Avise às lavadeiras e faxineiras de que nessa mesma noite vão chegar muitos convidados. Nós esperaremos aqui. — concluiu ele, cruzando os braços sobre o peito.

            — Esta noite?

            — Esta noite. — Damon levantou um dedo — E uma coisa mais: que preparem os aposentos de lady Gilbert. Informe ao verdugo que resgataram sua filha das garras desse sujo escocês e que está a caminho.

            — É verdade? — Os olhos do homem iluminaram-se — Lena volta para casa? — Ao que parecia, nem todos odiavam à filha do verdugo. Só os que não a conheciam.

            — Sim. Falei com ela ontem a tarde em Northampton. Um de meus homens embebedou-se e lady Gilbert ofereceu-lhe uma mistura de ervas para a dor de cabeça. É uma moça muito amável, com os olhos de uma cor muito estranha.

            — Ouro, seus olhos são da cor do ouro. — disse o soldado, dando a ordem com a mão de que levantassem o restelo da ponte levadiça — Lady Gilbert salvou meu pé. Bom, quase todo.  Perdi o mindinho, mas tinham que ver como estava antes que ela me curasse. A carne estava caindo aos pedaços.

            Deveria ter mencionado o nome de Elena antes. Damon e seus homens desmontaram e cederam as rédeas ao rapaz dos estábulos, que tinha saído ao seu encontro. Damon caminhou ao lado do guardião, fingindo estar muito interessado em sua conversa. À entrada da torre Branca, voltou-se para ele.

            — Obrigado por nos acompanhar, senhor. Posso pedir que se ocupe pessoalmente dos aposentos de lady Gilbert?

            — É obvio. E se precisarem de qualquer outra coisa, envie um de seus homens para me buscar. Meu nome é Godfrey, acredito que não havia dito. — despediu-se com um sorriso que fez com que se formassem rugas nas bochechas.

            — Obrigado, Godfrey. Foi de grande ajuda. — Damon assegurou de que se afastasse o suficiente antes de voltar-se para seus homens — Cada um procure em uma das torres. Procure por todos os lugares. Quando encontrarem os meninos, levem ao túnel e entreguem a Kol. Não podemos falhar.

            Eles concordaram com a cabeça antes de sair para a torre atribuída.

            Damon guiou-se pelo seu olfato até a base da torre onde eram guardadas as vestimentas e armaduras. Era fácil entender por que não havia ninguém perto. Todo o lugar cheirava a latrina. Precisamente por isso guardavam ali os objetos mais luxuosos. Acreditava-se que o aroma manteria afastadas às traças. Acendeu uma tocha, tentando lutar contra o forte fedor que já começava a irritar sua garganta. Não queria pensar em Eli e Martin vivendo nessas condições.

            A escada de caracol dividia-se e havia diferentes locais para guardar munições, ricas vestimentas e jóias. Durante horas esteve revistando os halls de cada um dos aposentos, mas não encontrou rastro de que ninguém estivesse vivendo ali. No terceiro andar havia um quarto cheio de cofres. O sol da tarde, que entrava pela janela, iluminou dois pássaros esculpidos em madeira. Onde tinha visto pássaros como aqueles antes?

            Levantou um e depois o outro para examiná-los, perguntando-se se teria sido em algum mercado. Então lembrou-se. O suporte da lareira de Edlynn estava cheio de pássaros desses, grandes e arredondados. E Elena também os tinha mencionado. Inspecionou o lugar com mais atenção.

            Em um canto havia um tamborete, ao pé do qual amontoavam-se restos de madeira esculpida, e quase escondida. Atrás de três cofres viu um arco que levava até uma porta. Arrepiou-lhe os cabelos da nuca, enquanto retirava a barra de ferro da porta e a abria.

            O penetrante aroma da morte quase o fez vomitar.

            Entrou com a espada a frente. Dois corpos pequenos, meio decompostos, vestidos com roupas claras, jaziam abraçados sobre um colchão de palha. Cobriu a boca com o antebraço e tentou não olhá-los. Como ia dizer a Elena que Shane havia mentido? Estava utilizando o amor que sentia por seus sobrinhos para conseguir sua submissão.

            Ajoelhando-se junto aos corpos dos meninos que teria criado como se fossem dele, fez o sinal da cruz sobre suas cabeças e rezou uma oração pela salvação de suas almas.

            À luz da tocha, viu que na parede tinham escritos três nomes: Eli, Martin e Lena. Pequenas linhas brancas rodeavam os nomes formando um círculo. Ao aproximar-se mais, viu que marcas cobriam as quatro paredes: eram números, os números de Elena.

            O bastardo a tinha encerrado ali. Completamente às escuras.

            — Maldito seja! —amaldiçoou Damon em voz alta, desejando ter o bastardo diante de si, para arrancar-lhe os olhos e deixá-lo cego. Ele havia mentido a Elena.

            — Quem está aí? — Surpreso pela voz, Damon desembainhou a espada e voltou-se.

            — Sou sir Julian Ascott e vim  preparar a Torre, seguindo instruções de lorde Shane. — disse, antes de perceber que estava diante do pai de Lena.

            O grande lorde e verdugo do reino tinha um aspecto muito diferente do que ele recordava no calabouço. O homem que tinha diante  de si era um ancião de têmporas prateadas e rosto enrugado. Em vez da capa, luvas e látego negros usava calças marrons, uma túnica clara e tinha uma garrafa de licor na mão.

            — Conheço você. — replicou o ancião, inclinando a cabeça — Não é nenhum inglês. É o escocês que levou minha filha.

            — Eu não a levei. Ela me resgatou da Torre.

            — E, entretanto, voltou. Para quê?

            — Para salvar seus sobrinhos. — Lorde Gilbert baixou o olhar até o colchão onde seus netos dormiam seu último sonho.

            — Chegou tarde. Meses tarde, de fato. — deixou-se cair no tamborete e olhou o céu esbranquiçado que se via pela janela — Nem sequer soube que eram meus netos, até que meu filho voltou da guerra.

            — Matou Eli e Martin para salvá-los de sua maldição? — perguntou Damon com tom acusador, embora uma parte dele queria conhecer melhor aquele homem ao qual Elena acreditava que valia a pena salvar.

            Os olhos do verdugo encheram-se de lágrimas, enquanto perdia-se em seus pensamentos. Suspeitou que o velho devia passar muitas horas naquele tamborete.

            — Não fui capaz de protegê-los.

            Essa não era a resposta que queria ouvir. Lilian e Mattie tinham morrido porque ele não foi capaz de protegê-las. Como Stefan. Mas isso não significava que fosse ele que tinha empunhado a arma que pôs fim a suas vidas.

            — Baixe essa espada e conte-me como vão as coisas com a minha Lena. — disse o ancião, depois de dar um longo gole do líquido da garrafa.

            A conduta do verdugo era tão estranha que Damon supôs que sua mente já não funcionava como devia. Surpreso, saiu do hall fechando a porta atrás de si, embainhou a espada e deixou a tocha no suporte da parede. O homem não representava nenhum perigo. Se necessário, poderia matá-lo com suas próprias mãos.

            — Conseguiu chegar a um lugar seguro? — insistiu, ao ver que não respondia.

            — Pode-se dizer que sim. — Lorde Gilbert ergueu o olhar e inclinou a cabeça.

            — O que disse? Fale mais alto.

            — Disse que pode-se dizer que sim. —repetiu Damon. Elena não havia dito que seu pai fosse meio surdo.

            — Então, está bem? — insistiu o ancião, fechando os olhos.

            — Chora enquanto dorme, conta na escuridão e reza por sua família. É a pessoa mais generosa que conheci e custa-me entender que alguém como você tenha tido uma filha como ela. —   O verdugo deu outro gole e secou a boca com a manga.

            — Esteve na guerra? Matou algum homem com essa espada?

            — Matei no campo de batalha, nunca a traição. — respondeu ele em voz alta, para que o ouvisse bem.

            — Então não somos tão diferentes. Ambos somos assassinos. Você mata para proteger seu país. Eu mato para castigar os que cometem crimes contra o meu. — Damon  zombou da comparação.

            — Ah, sim? Que delito cometeu seu filho contra seu país? — Lorde Gilbert fechou os olhos, sem dúvida mortificado por seus pecados.

            — Jeremy não cometeu nenhum crime.

            — E entretanto, empunhava a espada que o matou. — O homem apoiou os cotovelos nos joelhos e a cabeça nas mãos.

            — Não, não o fiz.

            — Então, foi Shane? — Era possível, levando-se em conta o ódio que este sentia pelo irmão de Elena.

            — Não. Shane ordenou a um dos guardas que o fizesse, enquanto eu estava acorrentado na masmorra. Ele o teria feito encantado, mas não tem estômago para execuções. É pelo sangue. Vi-o vomitar na câmara de tortura por uma simples amputação. Mas não se engane, adora seu cargo e o poder que este outorga. Desfruta ordenando execuções. Sobretudo, adora ler a sentença.

            «Por todos os demônios!». Damon não queria sentir pena do pai de Elena. Queria odiá-lo. Queria esconder esse segredo dela para que também pudesse odiá-lo, mas sabia que seu senso de honra o impediria.

            — Porque deixou que sua filha acreditasse que matou Jeremy?

            — Prefiro que me odeie. Parece-se muito com sua mãe. É uma idealista. Sempre está sonhando com coisas que não pode ter.

            — Como um marido e uma família?

            — Lena não pode casar-se. — respondeu o homem, franzindo o cenho e olhando-o como se estivesse louco, o que não deixava de ser irônico.

            — Muito tarde, lorde Gilbert. Já me casei com ela.

            — Não! — O ancião levantou-se e começou a repuxar o rosto. As pálpebras  moviam-se de maneira descontrolada, como a mandíbula — Não pode ter filhos! Carregarão a maldição!

            Damon estava ficando nervoso só de vê-lo. Não estranhava que Elena tivesse os nervos destroçados.

            — Sua profissão não é uma maldição, mas não passará a seus netos.

            Lorde Gilbert não pareceu ouvi-lo. Jogou a garrafa no chão e levou a mão ao quadril. As veias do pescoço tinham inchado de um modo nada normal. Fez menção de fechar a mão ao redor de uma arma e preparou-se para lutar, entreabrindo muito os olhos. Realmente pensava que estava empunhando uma arma?

            Desconcertado, Damon desembainhou sua espada.

            Um sino começou a soar e ouviram-se passos que subiam pela escada. Antes que o ancião pudesse atacar com sua espada imaginária, uma dúzia de homens armados apareceram na porta.

            Godfrey, que vinha na frente, apontou para Damon com sua lança.

            — É um impostor. — disse ao verdugo, dirigindo a ele um olhar de decepção.

            Só tinha trocado algumas palavras com ele e já sentia-se culpado por haver mentido?

            — O que o faz duvidar do que  disse?

            — Disse que devia assegurar a Torre em nome do carcereiro chefe, mas lorde Shane acaba de chegar para ocupar-se pessoalmente.

    



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