História Shadowhunter: The mortal instruments! ABO - Capítulo 18


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Categorias Bangtan Boys (BTS)
Personagens Jeon Jeongguk (Jungkook), Jung Hoseok (J-Hope), Kim Namjoon (RM), Kim Seokjin (Jin), Kim Taehyung (V), Min Yoongi (Suga), Park Jimin (Jimin)
Tags Abo, Blackpink, Bottom!tae, Bts, Exo, Kookv, Kpop, Lgbt, Mpreg, Namjin, Ômegatae, Shadowhunters, Taegui, Taekook, Top!jk, Vkook, Yaoi, Yoonmin, Yoonseok
Visualizações 93
Palavras 7.644
Terminada Não
NÃO RECOMENDADO PARA MENORES DE 18 ANOS
Gêneros: Ação, Aventura, Drama (Tragédia), Fluffy, Hentai, Lemon, LGBT, Luta, Magia, Romance e Novela, Shoujo (Romântico), Sobrenatural, Suspense, Universo Alternativo, Violência, Yaoi (Gay)
Avisos: Álcool, Bissexualidade, Gravidez Masculina (MPreg), Heterossexualidade, Homossexualidade, Insinuação de sexo, Linguagem Imprópria, Mutilação, Sexo, Tortura, Violência
Aviso legal
Os personagens encontrados nesta história são apenas alusões a pessoas reais e nenhuma das situações e personalidades aqui encontradas refletem a realidade, tratando-se esta obra, de uma ficção. Os eventuais personagens originais desta história são de minha propriedade intelectual. História sem fins lucrativos, feita apenas de fã para fã sem o objetivo de denegrir ou violar as imagens dos artistas.

Notas do Autor


oi oi gente
a gente passou do 100 favorito aeee, queria agradecer a todos que favoritaram e menina que divulgou a minha fanfic no twitter, também quero agradecer as pessoas que estão comentando, eu amo ler o comentário de vocês.
enfim espero que gostem do capitulo e não se esqueçam de comentar o que acharam e desculpem qualquer erro de edição
boa leitura!!

Capítulo 18 - O Cálice Mortal


Jungkook estava deitado na cama fingindo dormir — para não falar com ninguém — quando as batidas na porta finalmente se tornaram demais para ele. Ele se arrastou para fora da cama, franzindo o rosto. Por mais que ele tivesse fingido que estava tudo bem na estufa, ainda tinha dores no corpo inteiro por tudo que havia sofrido na noite anterior. Ele sabia quem era antes de abrir a porta. Talvez Yoongi tivesse conseguido se transformar em um rato outra vez. Dessa vez, ele podia continuar um maldito rato pelo resto da vida, porque ele, Jeon Jungkook, não ia fazer nada a respeito.

 Taehyung trazia o caderno de desenho, os cabelos estavam brilhantes. Jungkook se apoiou na porta, ignorando o jorro de adrenalina produzido ao vê-lo. Ele imaginou o porquê, e não foi a primeira vez. Jimin utilizava a beleza como utilizava o chicote, mas Taehyung não fazia a menor ideia de que era lindo. Talvez fosse por isso. Jungkook só podia pensar em uma razão para ele estar lá, embora não fizesse o menor sentido depois do que Jeon dissera a ele. Palavras são como armas, seu pai alfa lhe ensinara, e ele quis machucar Taehyung mais do que jamais havia desejado machucar um ômega. Em geral, ele apenas os queria, e depois queria que o deixassem sozinho.

  — Não diga — Jungkook disse, proferindo as palavras daquele jeito que ele sabia que Taehyung detestava. — Yoongi se transformou em uma jaguatirica e você quer que eu faça alguma coisa a respeito antes que Jimin o transforme em uma estola. Bem, você vai ter que esperar até amanhã. Estou fora de expediente. — Ele apontou para o pijama azul com um buraco na manga que estava usando. — Veja. Pijama.

 Taehyung parecia mal tê-lo escutado. Ele percebeu que o ômega estava carregando alguma coisa nas mãos — o caderno de desenhos.

 — Jungkook — ele disse. — É importante.

 — Não me diga — Jungkook respondeu. — Você está com uma emergência artística. Precisa de um modelo nu. Na verdade, não estou a fim. Você pode pedir para Daesung — acrescentou, como uma ideia que tivesse ocorrido depois. — Ouvi dizer que ele faz qualquer coisa por...

 — JUNGKOOK! — Taehyung interrompeu, com a voz se elevando a um grito. — QUER CALAR A BOCA POR UM SEGUNDO E OUVIR, POR FAVOR?

Jungkook piscou. Taehyung respirou fundo e olhou para ele, a expressão cheia de incerteza. Um impulso estranho surgiu em Jungkook: o impulso de colocar os braços em volta dele e dizer que estava tudo bem. Não o fez. Pela sua experiência, as coisas raramente estavam bem.

 — Jungkook — ele disse, tão suavemente que Jungkook teve de se inclinar para a frente para ouvir —, acho que sei onde a minha mãe escondeu o Cálice Mortal. Está dentro de um quadro.

— O quê? — Jungkook ainda a estava olhando como se ele tivesse dito que havia encontrado um dos Irmãos do Silêncio dando estrelas no corredor. — Quer dizer que ela escondeu atrás de uma pintura? Todas as pinturas da sua casa foram arrancadas das molduras.

 — Eu sei. — Taehyung olhou para o quarto de Jungkook. Não parecia haver mais ninguém ali, para alívio do ômega. — Então, posso entrar? Quero te mostrar uma coisa.

 Jungkook deu passagem a ele.

 — Se precisa...

 Ele se sentou na cama, equilibrando o caderno nos joelhos. As roupas que Jungkook estava usando antes estavam espalhadas por cima das cobertas, mas o resto do local estava impecável, como o quarto de um monge. Não havia fotos na parede, pôsteres ou fotos de amigos ou familiares. Os lençóis eram brancos e estavam esticados sobre a cama. Não era exatamente o quarto típico de um adolescente.

 — Aqui — disse Taehyung, virando as páginas até encontrar o desenho da xícara de café. — Veja isso.

 Jungkook se sentou ao lado dele, jogando para o lado a camiseta que estava ali.

 — É uma xícara de café.

 Taehyung podia ouvir a irritação na própria voz.

 — Eu sei que é uma xícara de café.

 — Mal posso esperar pelo dia em que você vai desenhar alguma coisa realmente complicada, como a Insadong Bridge, ou uma lagosta. Você provavelmente vai me mandar um telegrama cantado.

 Taehyung o ignorou.

 — Veja, era isso que eu queria que você visse. — O ômega passou a mão sobre o desenho; depois, com um rápido movimento, alcançou dentro do papel. Quando retirou a mão um instante mais tarde, lá estava a xícara de café, pendurada nos dedos dele. Ele havia imaginado Jungkook saltando da cama espantado e dizendo algo do tipo “Minha Nossa Senhora!”. Isso não aconteceu — principalmente, Taehyung suspeitava, porque Jungkook já vira coisas mais estranhas na vida, e também porque ninguém mais utilizava esta exclamação. Mas os olhos dele se arregalaram.

— Você fez isso?

 Taehyung fez que sim com a cabeça.

 — Quando?

 — Agora mesmo, no meu quarto, depois... depois que Yoongi foi embora.

 Seu olhar ficou duro, mas Jungkook não insistiu no assunto.

 — Você utilizou símbolos? Quais?

 O ômega balançou a cabeça, colocando o dedo na página que agora estava em branco.

 — Não sei. Eles vieram à minha cabeça e eu desenhei exatamente como os vi.

 — Aqueles que viu mais cedo no Livro Gray?

 — Não sei. — Taehyung ainda estava balançando a cabeça. — Não posso afirmar.

 — E ninguém nunca ensinou você como fazer isso? Sua mãe, por exemplo?

 — Não. Já disse, minha mãe sempre disse que mágica não existia...

 — Aposto que ela ensinou — Jungkook o interrompeu — e fez com que você esquecesse em seguida. Seokjin disse que suas lembranças voltariam lentamente.

 — Talvez.

 — Claro que sim. — Jungkook se levantou e começou a andar de um lado para o outro. — Provavelmente é contra a Lei utilizar símbolos desse tipo, a não ser que seja licenciado para tal. Você acha que a sua mãe escondeu o Cálice em um quadro? Do mesmo jeito que você acabou de fazer com essa xícara?

 Taehyung fez que sim com a cabeça.

 — Mas não em um dos quadros que estavam lá em casa.

 — Onde mais? Numa galeria? Pode estar em qualquer lugar...

 — Não em um quadro — disse Taehyung. — Em uma carta.

 Jungkook fez uma pausa, virando em direção a ele.

 — Uma carta?

 — Lembra daquele baralho de tarô da Madame Yuju? O que a minha mãe pintou para ela? — Jungkook fez que sim com a cabeça. — E lembra quando peguei o Ás de Copas? Mais tarde, quando vi a estátua do Anjo, o Cálice me pareceu familiar. Era porque já tinha visto antes, no Ás. Minha mãe pintou o Cálice Mortal no baralho de tarô da Madame Yuju.

 Jungkook estava um passo atrás dele.

 — Porque ela sabia que estaria seguro com um Controle, e foi o jeito que ela encontrou de entregá-lo a Yuju sem ter de dizer o que era ou a razão pela qual precisava mantê-lo escondido. Ou mesmo que precisava mantê-lo escondido. Yuju nunca sai, ela nunca daria a ninguém...

 — E sua mãe estava convenientemente perto para vigiá-la e também o Cálice. — Jungkook parecia quase impressionado. — Nada mal.

 — Pois é. — Taehyung teve de se esforçar para conter o tremor na própria voz. — Quem dera ela não tivesse escondido tão bem.

 — Como assim?

 — Quer dizer, se eles tivessem encontrado o Cálice, talvez tivessem deixado minha mãe em paz. Se só o que queriam era o Cálice...

 — Eles teriam matado a sua mãe, Taehyung — disse Jungkook. O ômega sabia que ele estava falando a verdade. — São os mesmos alfas que mataram meu pai. A única razão pela qual ela talvez esteja viva é o fato de eles não terem encontrado o Cálice. Agradeça por ela tê-lo escondido tão bem.

                                                  -x-

— Não vejo o que isso tem a ver conosco — disse Namjoon, com uma expressão confusa sob o cabelo. Jungkook havia acordado o resto dos moradores do Instituto ao amanhecer e os arrastara para a biblioteca, para, como ele disse, “conceber as estratégias de luta”. Namjoon ainda estava de pijama, e Jimin vestia um roupão cor-de-rosa. Daesung, com o terno impecável de sempre, estava tomando café em uma xícara de cerâmica azul lascada. Somente Jungkook, com os olhos brilhantes apesar dos hematomas que já estavam desaparecendo, parecia realmente acordado. — Pensei que a busca pelo Cálice estivesse nas mãos da Clave agora.

 — É melhor se fizermos isso pessoalmente — disse Jungkook com certa impaciência na voz. — Eu e Daesung já discutimos e foi isso que decidimos.

 — Bem... — Jimin colocou uma mecha de cabelo atrás da orelha. — Estou dentro.

 — Eu não — disse Namjoon. — Há cooperativas da Clave na cidade agora procurando pelo Cálice. Passe a informação e deixe que eles façam o serviço.

 — Não é tão simples assim — disse Jungkook.

 — É simples. — Namjoon virou-se para a frente, franzindo o rosto. — Isso não tem nada a ver conosco e tudo a ver com o seu... o seu vício pelo perigo.

 Jungkook balançou a cabeça, claramente irritado.

 — Não sei por que você está brigando comigo.

 Porque ele não quer que você se machuque, pensou Taehyung, e ficou pensando na total incapacidade dele em ver o que realmente se passava com Namjoon. Mas, verdade seja dita, o ômega também não percebeu o que acontecia com Yoongi. Quem era ele para julgar?

 — Vejam, Yuju, a dona do Santuário, não confia na Clave. Ela os detesta, para falar a verdade. Mas confia na gente.

 — Ela confia em mim — disse Taehyung. — Quanto a você, eu não sei. Não tenho certeza se ela gosta de você

. Jungkook ignorou-o.

 — Vamos, Namjoon. Vai ser divertido. E pense na glória que teremos se trouxermos o Cálice Mortal de volta para Idris! Nossos nomes jamais serão esquecidos.

 — Não ligo para a glória — disse Namjoon, sem desgrudar os olhos de Jungkook em nenhum momento. — Preocupo-me em não fazer nada estúpido.

 — Mas, neste caso, Jungkook tem razão — disse Daesung. — Se a Clave fosse ao Santuário, seria um verdadeiro desastre. Yuju fugiria com o Cálice e provavelmente jamais seria encontrada. Não, Taeyeon claramente queria que somente uma pessoa pudesse encontrar o Cálice, e essa pessoa é Taehyung, somente ele.

 — Então deixe que ele vá sozinho — disse Namjoon. Até Jimin se espantou com isso. Jungkook, que estava inclinado para a frente, olhou friamente para Namjoon. Jungkook era a única pessoa, pensou Taehyung, capaz de ter uma aparência legal em uma calça de pijama e uma camiseta velha, mas ele conseguia, provavelmente por pura força de vontade.

 — Se você tem medo de alguns Renegados, por favor, fique em casa — Jungkook disse calmamente. Namjoon ficou pálido.

 — Não tenho medo — ele disse.

 — Ótimo — disse Jungkook. — Então não temos problema algum, certo? — Ele olhou em volta do quarto. — Estamos juntos nessa.

 Namjoon resmungou afirmativamente, enquanto Jimin assentiu vigorosamente.

 — Claro — Jimin concordou. — Parece divertido.

 — Não sei de diversão — acrescentou Taehyung. — Mas estou dentro, é claro.

 — Mas Taehyung... — Daesung advertiu rapidamente. — Se você está preocupado com o perigo, não precisa ir. Podemos notificar a Clave...

 — Não — disse Taehyung, surpreendendo a si mesmo. — Minha mãe queria que eu encontrasse. Não o Minhyuk, nem eles. — Não era dos monstros que ela estava se escondendo, Seokjin dissera. — Se ela realmente passou a vida inteira tentando manter Minhyuk afastado do cálice, é o mínimo que posso fazer.

 Daesung sorriu para ele.

 — Acho que ela sabia que você ia dizer isso — ele sugeriu.

 — Mas não precisa se preocupar — disse Jimin. — Você vai ficar bem. Nós conseguimos dar conta de alguns Renegados. Eles são loucos, mas não são muito inteligentes.

 — E muito mais fáceis de lidar do que demônios — lembrou Jungkook. — Não tão traiçoeiros. Ah, e vamos precisar de um carro — acrescentou. — De preferência, um grande.

— Por quê? — perguntou Jimin. — Nunca precisamos de um carro antes.

 — Porque nunca tivemos que nos preocupar com um objeto de valor incomensurável. Não quero ter que arrastá-lo pela linha L do metrô.

 — Existem táxis — disse Jimin. — E vans para alugar.

 Jungkook balançou a cabeça.

 — Quero um ambiente que possamos controlar. Não quero ter que lidar com motoristas de táxi ou empresas mundanas que aluguem veículos quando estivermos fazendo algo dessa importância.

 — Você não tem carteira de motorista e carro? — Namjoon perguntou a Taehyung, olhando para ele com ódio mascarado. — Pensei que todos os mundanos tinham essas coisas.

 — Não aos 15 anos — Taehyung disse secamente. — Eu ia tirar a carteira esse ano, mas não ainda.

 — Que grande utilidade você tem!

 — Pelo menos meus amigos podem dirigir — retorquiu Taehyung. — Yoongi tem carteira.

 Imediatamente, ele se arrependeu de ter dito aquilo.

 — Tem? — disse Jungkook, em um tom perigosamente pensativo.

 — Mas ele não tem carro — Taehyung acrescentou rapidamente.

 — Mas ele dirige o carro dos pais? — perguntou Jungkook. Taehyung suspirou, encostando-se na mesa.

 — Não. Geralmente ele dirige a van do Sehun. Para shows e coisas do tipo. Às vezes o Sehun empresta para outros fins. Se ele tiver um encontro com algum ômega, por exemplo.

 Jungkook riu desdenhosamente.

 — Ele busca ômegas de van? Não é à toa que faz tanto sucesso com eles.

 — É um carro — corrigiu Taehyung. — Você só está com raiva porque ele tem algo que você não tem.

 — Ele tem várias coisas que eu não tenho. Miopia, falta de postura e uma falta de coordenação assustadora.

 — Sabe — disse Taehyung —, a maioria dos psicólogos concorda que hostilidade é, na verdade, atração sexual mascarada.

 — Ah — Jungkook disse alegremente —, isso pode explicar o motivo de tantas pessoas que encontro parecerem desgostar de mim.

 — Eu não desgosto de você — Namjoon declarou rapidamente.

 — Isso é porque partilhamos uma afeição de irmãos — explicou Jungkook, aproximando-se da mesa. Ele pegou o telefone preto e entregou-o a Taehyung.

 — Ligue para ele.

 — Para quem? — disse Taehyung, tentando enrolar. — Sehun? Ele jamais me emprestaria o carro.

— Yoongi — disse Jungkook. — Ligue para ele e pergunte se pode nos levar até a sua casa.

 Taehyung fez uma última tentativa.

 — Você não conhece nenhum Caçador de Sombras que tenha carro?

 — Em Seul? — O sorriso de Jungkook se desmanchou. — Olhe só, todo mundo está em Idris por causa dos Acordos, e independente disso, insistiriam em vir conosco. É isso ou nada.

 Taehyung encontrou o olhar dele por um instante. Havia um quê de provocação neles, como se ele estivesse o desafiando a explicar a relutância. Com o rosto franzido, o ômega foi até ele e pegou o telefone de sua mão. Não teve de pensar antes de discar. O número de Yoongi era tão familiar quanto o seu próprio. Ele se preocupou em ter de lidar com a mãe ou a irmã dele, mas ele atendeu no segundo toque.

 — Alô?

 — Yoongi?

 Silêncio.

 Jungkook estava olhando para ele. Taehyung fechou os olhos com força, tentando fingir que ele não estava lá.

 — Sou eu — ela disse. — Taehyung.

 — Eu sei quem é.

 — Ele parecia irritado.

 — Eu estava dormindo, sabia?

 — Eu sei. Está cedo. Desculpe. — Ele enrolou o fio do telefone no dedo. — Preciso de um favor seu.

 Do outro lado da linha, fez-se silêncio antes de ele rir.

 — Você está brincando.

 — Não estou — Taehyung disse. — Sabemos onde está o Cálice Mortal, e estamos prontos para pegá-lo, e estamos prontos para buscar. A única questão é que precisamos de um carro.

 Ele riu de novo.

 — Desculpe, você está me dizendo que seus amiguinhos matadores de demônios precisam de carona para o próximo assassinato com forças sombrias, e você está pedindo a ajuda da minha mãe?

 — Na verdade, pensei que você poderia pedir ao Sehun a van emprestada.

 — Taehyung, se você acha que eu...

 — Se conseguirmos o Cálice Mortal, terei como resgatar a minha mãe. É a única razão pela qual Minhyuk não a matou ou soltou ainda.

 Yoongi suspirou profundamente.

 — Você acha que vai ser fácil fazer uma troca? Taehyung, eu não sei.

 — Eu também não. Só sei que é uma chance.

 — Essa coisa é poderosa, não é? Em RPG, geralmente é melhor não mexer com os objetos poderosos até você saber o que eles fazem.

 — Não vou mexer com ele. Só vou usar para resgatar a minha mãe.

 — Isso não faz o menor sentido, Taehyung.

— Isso não é RPG, Yoongi! — ele quase gritou. — Não é um joguinho em que, na pior das hipóteses, você consegue um lance de dados desfavorável. É da minha mãe que estamos falando, e Minhyuk pode estar torturando-a. Ele pode matá-la. Tenho que fazer o possível para resgatá-la, assim como fiz por você.

 — Talvez você tenha razão. Não sei, esse não é o meu mundo. Para onde vamos, exatamente? Preciso falar para Sehun.

 — Não leve Sehun — Taehyung disse rapidamente.

 — Eu sei — respondeu com paciência exagerada. — Não sou burro.

 — Vamos para a minha casa. Está na minha casa.

 Fez-se um breve silêncio — dessa vez de espanto.

 — Na sua casa? Pensei que a sua casa estivesse cheia de zumbis.

 — Guerreiros Renegados. Não são zumbis. Seja como for, Jungkook e os outros podem cuidar deles enquanto eu pego o Cálice.

 — Por que você tem que pegar o Cálice? — ele parecia alarmado.

 — Porque sou o único que pode — Taehyung disse. — Busque-nos na esquina assim que puder.

 Yoongi resmungou algo inaudível e depois: — Tudo bem.

 Taehyung abriu os olhos. Era difícil focar o mundo em meio às lágrimas.

 — Obrigado, Yoongi — ele disse. — Você é...

 Mas Yoongi havia desligado.

— Ocorre a mim — disse Daesung — que os dilemas de poder são sempre os mesmos.

 Taehyung olhou de lado para ele.

 — O que você quer dizer?

                                                      -x-

O ômega se sentou à janela na biblioteca, Daesung na cadeira com Daehyun no braço. O resto do café da manhã — biscoito com geleia, farelos de torrada e manchas de manteiga — estava sobre um prato na mesa baixa que ninguém parecia interessado em limpar. Após o café, eles se dispersaram para se arrumar, e Taehyung tinha sido o primeiro a voltar. O que não era surpresa alguma, considerando que tudo que tinha de fazer era vestir um jeans e uma camiseta, e passar uma escova no cabelo, enquanto os outros tinham de se armar da cabeça aos pés. Tendo perdido a adaga de Jungkook no hotel, o único objeto remotamente sobrenatural que o ômega possuía era a pedra enfeitiçada no bolso.

— Estava pensando no seu Yoongi — disse Daesung — e em Namjoon e Jungkook, entre outros.

 Taehyung olhou através da janela. Estava chovendo, pingos grossos batendo na vidraça. O céu era de uma cor cinza impenetrável.

 — O que eles têm a ver entre si?

 — Onde há sentimentos não correspondidos — disse Daesung —, há um desequilíbrio de poder. É um desequilíbrio fácil de ser explorado, mas não é um curso sábio. Onde há amor, frequentemente também há ódio. Podem existir lado a lado.

 — Yoongi não me odeia.

 — Mas pode odiar, com o tempo, se sentir que você o está usando. — Daesung levantou a mão. — Sei que não é sua intenção, e em alguns casos a necessidade se sobrepõe aos sentimentos. Mas a situação me trouxe outra à mente. Você ainda tem aquela foto que eu lhe dei?

 Taehyung balançou a cabeça.

 — Não comigo. Está no meu quarto. Posso buscá-la...

 — Não. — Daesung acariciou as penas negras de Dahyun. — Quando sua mãe era jovem, tinha um melhor amigo, assim como você tem Yoongi. Eles eram tão próximos quanto irmãos. Aliás, eram frequentemente confundidos como tal. Ao crescerem, tornou-se claro para todo mundo que ele estava apaixonado por ela, mas ela nunca percebeu isso. Ela sempre se referiu a ele como um “amigo”.

 Taehyung olhou fixamente para Daesung.

 — Você está falando do Siwon?

 — Estou — disse Daesung. — Siwon sempre achou que ele e Taeyeon fossem ficar juntos. Quando ela conheceu e se apaixonou por Minhyuk, ele não suportou. Depois que eles se casaram, ele deixou o Ciclo, desapareceu e permitiu que todos nós pensássemos que ele estivesse morto.

 — Ele nunca disse, nunca sequer deu a entender nada nesse sentido — disse Taehyung. — Todos esses anos e ele poderia ter tentado...

 — Ele sabia qual seria a resposta — disse Daesung, olhando através dela em direção ao céu chuvoso. — Siwon nunca foi o tipo de alfa a se iludir. Não, ele se contentava em estar perto dela, presumindo, talvez, que com o tempo os sentimentos dela pudessem mudar.

 — Mas, se ele a amava, por que disse àqueles alfas que não se importava com o que acontecesse a ela? Por que ele se recusou a permitir que dissessem onde ela estava?

 — Como disse antes, onde há amor, também há ódio — disse Daesung. — Ela o machucou muito há alguns anos. Ela deu as costas para ele. E, mesmo assim, ele bancou o cão fiel desde então, nunca demonstrando, confrontando ou falando com ela sobre seus sentimentos. Talvez ele tenha encontrado uma oportunidade de virar a mesa. De machucá-la tanto quanto ela o machucou.

 — Siwon não faria isso — mas Taehyung estava se lembrando do tom gelado que Siwon utilizou quando disse a ele para não lhe pedir favor algum. Ele viu o olhar duro nos olhos de Siwon quando encarou os alfas de Minhyuk. Aquele não era o Siwon que ele conhecia, o Siwon com quem havia crescido. Aquele Siwon nunca teria querido punir Taeyeon por não tê-lo amado o suficiente do jeito certo. — Mas ela o amava — disse Taehyung, falando em voz alta sem perceber. — Apenas não do mesmo jeito que ele a amava. Será que isso não basta?

 — Talvez ele achasse que não.

 — O que irá acontecer quando pegarmos o Cálice? — perguntou Taehyung. — Como vamos entrar em contato com Minhyuk para informá-lo de que estamos com ele?

 — Daehyun irá encontrá-lo.

 A chuva batia forte nos vidros. Taehyung tremeu.

 — Vou pegar um casaco — ele disse, saindo de onde estava. Ele encontrou o casaco verde de capuz no fundo da mochila. Quando o puxou, ouviu alguma coisa se mexer. Era a foto do Ciclo, de sua mãe e Minhyuk. Ele olhou para a fotografia durante um longo tempo antes de colocá-la de volta na mochila. Quando voltou para a biblioteca, os outros estavam todos reunidos lá: Daesung, sentado vigilante à mesa com Daehyun no ombro, Jungkook todo de preto, Jimin com as botas de atacar demônios e o chicote dourado, e Namjoon com uma bolsa de flechas cruzada no ombro e uma pulseira de couro cobrindo o braço direito do pulso até o cotovelo. Todos, exceto Daesung, exibiam Marcas recém-aplicadas, Cada centímetro de pele nua tatuado com desenhos curvilíneos. Jungkook estava com a manga esquerda dobrada, queixo no ombro, e estava franzindo o rosto enquanto fazia uma Marca octogonal na pele do braço. Namjoon olhou para ele.

 — Você está fazendo errado — ele disse. — Deixe comigo.

 — Eu sou canhoto — disse Jungkook, suavemente e estendeu a estela. Namjoon parecia aliviado ao pegá-la, como se até então não tivesse certeza se havia sido perdoado por seu comportamento anterior. — É iratze básico — disse Jungkook enquanto Namjoon inclinava a cabeça sobre o braço de Jungkook, desenhando cuidadosamente as linhas do símbolo de cura. Jungkook franziu o rosto enquanto a estela deslizava sobre sua pele nua, estreitando os olhos, cerrando os punhos até os músculos do braço direito sobressaírem como cordas. — Pelo Anjo, Namjoon...

 — Estou tentando ser cuidadoso — disse Namjoon. Ele soltou o braço de Jungkook e se afastou para admirar o próprio trabalho. — Pronto.

 Jungkook relaxou o punho, abaixando o braço.

 — Obrigado. — Ele então pareceu sentir a presença de Taehyung, olhou para o ômega e cerrou os olhos castanhos. — Taehyung.

 — Você parece pronto — Taehyung disse enquanto Namjoon, repentinamente enrubescido, se afastava de Jungkook e se ocupava com as flechas.

 — Estamos — disse Jungkook. — Você ainda está com aquela adaga que eu te dei?

 — Não. Perdi no Dumort, lembra?

 — É verdade. — Jungkook olhou para ele, satisfeito. — Quase matou um lobisomem com ela. Lembro.

 Jimin, que estava junto à janela, revirou os olhos.

 — Tinha me esquecido de que é isso que o anima e chama sua atenção, Jungkook. Ômegas matando coisas.

 — Gosto de qualquer um matando coisas — disse ele. — Principalmente eu.

 Taehyung olhou ansiosamente para o relógio na mesa.

 — É melhor descermos. Yoongi chegará a qualquer instante.

 Daesung se levantou da cadeira. Ele parecia muito cansado, pensou Taehyung, como se não dormisse há dias.

 — Que o Anjo olhe por todos vocês — ele disse, e Daehyun alçou voo chiando alto, na hora em que os sinos do meio-dia começaram a tocar.

                                                 -x-

Ainda estava chovendo quando Yoongi parou a van na esquina e buzinou duas vezes. O coração de Taehyung saltou — parte dele estava preocupado com a possibilidade de Yoongi não aparecer. Jungkook cerrou os olhos através da chuva pesada. Eles quatro haviam se abrigado sob uma cornija de pedra esculpida.

 — Essa é a van? Parece uma banana apodrecendo. Isso era inegável — Sehun havia pintado a van com um tom de amarelo néon, e ela estava toda manchada de ferrugem e arranhões, como algo decadente. Yoongi buzinou novamente. Taehyung conseguia vê-lo, uma forma embaçada através das janelas molhadas. O ômega suspirou e puxou o capuz sobre a cabeça.

 — Vamos.

 Eles pisaram nas poças imundas que se haviam formado no asfalto, as botas enormes de Jimin emitiam um ruído alto cada vez que ele tocava o chão com os pés. Yoongi, deixando o volante, se arrastou até a parte de trás para abrir a porta, revelando assentos cujos forros estavam praticamente podres. Molas de aparência perigosa passavam pelo buraco. Jimin franziu o nariz.

 — É seguro sentar?

 — Mais seguro do que ser amarrado ao teto — Yoongi disse de maneira simpática —, que é sua outra opção — ele acenou com a cabeça um cumprimento para Jungkook e Namjoon, ignorando Taehyung completamente. — E aí?

— E aí? — repetiu Jungkook, e levantou a bolsa de lona que trazia todas as armas. — Onde podemos colocar isso?

 Yoongi o direcionou para a parte de trás, onde os alfas geralmente guardavam os instrumentos musicais, enquanto Namjoon e Jimin se arrastavam pelo banco e se empoleiravam nos assentos.

 — Tiro!* — anunciou Taehyung quando Jungkook apareceu de volta ao lado da van. Namjoon pegou o arco, preso às costas dele.

 — Onde?

 — O que ele está dizendo é que quer o banco da frente — disse Jungkook, tirando o cabelo molhado dos olhos.

 — É um belo arco — disse Yoongi, com um aceno de cabeça para Namjoon. Namjoon piscou, com a chuva escorrendo dos cílios.

 — Você sabe alguma coisa sobre arco e flecha? — ele perguntou em um tom que sugeria dúvida.

 — Participei de um acampamento de arco e flecha — disse Yoongi. — Por seis anos consecutivos.

 A resposta foram três olhares vazios e um sorriso de apoio de Taehyung, que Yoongi ignorou. Ele olhou para o céu, que estava desabando.

 — É melhor irmos antes que comece um dilúvio.

 O banco da frente do carro estava coberto por sacos vazios de Doritos e pedaços de bala. Taehyung afastou o que podia. Yoongi ligou o carro antes que ele tivesse terminado, lançando-o contra o assento.

 — Ai — Taehyung exclamou, em tom de reprovação.

 — Desculpe — disse Yoongi, sem olhar para ele. Taehyung podia ouvir os outros conversando suavemente entre si — provavelmente, discutindo estratégias de batalha e a melhor maneira de decapitar um demônio sem sujar as botas de couro novas. Apesar de não haver nada separando os bancos dianteiros do traseiro, Taehyung sentiu um silêncio desconfortável entre ele e Yoongi, como se eles estivessem sozinhos.

 — Então, qual é a do “E aí”? — Ele perguntou para Yoongi enquanto o alfa manobrava a van pela FDR, na autoestrada.

 — Que “e aí”? — Yoongi respondeu, fechando um carro utilitário preto cujo ocupante, um alfa de terno com um telefone celular nas mãos, fez um gesto obsceno para eles por trás do vidro fumê.

 — Essa coisa do “e aí” que os alfas fazem. Como quando viu Jungkook e Namjoon, você disse “e aí”, e eles disseram “e aí” de volta. O que há de errado com “oi”?

 Taehyung pensou ter visto um músculo se contrair na face dele.

— “Oi” é coisa de ômega — Yoongi informou. — alfas de verdade são diferentes. Falam “e aí”.

 — Então, quanto mais alfa você for, menos educado?

 — Isso mesmo — Yoongi fez que sim com a cabeça. À sua frente, Taehyung podia ver o nevoeiro que descia sobre a rua, blindando a margem do lago com uma névoa cinzenta. A água em si tinha cor de chumbo, agitada como creme de chantilly pelo vento forte. — É por isso que, quando os alfas mais broncos se cumprimentam nos filmes, não dizem nada, apenas acenam com a cabeça. O aceno significa “eu sou bronco e reconheço que você também é”, mas eles não dizem nada porque são o Wolverine e o Magneto, e explicar isso estragaria o clima.

 — Não faço ideia do que você está falando — disse Jungkook, do banco de trás.

 — Ótimo — retrucou Taehyung, e foi recompensado com um sorriso contido de Yoongi, enquanto ele virava na Seul Bridge, em direção a Insadong e à casa dele.

Até chegarem à casa de Taehyung, finalmente já havia parado de chover. Raios de sol penetravam o restante da névoa e as poças nas calçadas estavam diminuindo. Jungkook, Namjoon e Jimin fizeram Taehyung e Yoongi esperarem perto da van enquanto foram checar, conforme dissera Jungkook, “os níveis de atividade demoníaca”. Yoongi observou enquanto os três Caçadores de Sombras foram até o caminho alinhado de rosas que levava à entrada da casa.

 — Níveis de atividade demoníaca? Por acaso, eles têm um dispositivo que mede se os demônios dentro da casa estavam fazendo power yoga?

 — Não — respondeu Taehyung, tirando o capuz para poder aproveitar a sensação da luz do sol sobre o cabelo molhado. — O Sensor diz a eles o quão poderosos são os demônios, se houver demônios.

 Yoongi parecia impressionado.

 — Isso é realmente útil.

 Taehyung virou para ele.

 — Yoongi, sobre ontem à noite...

 Ele levantou a mão.

 — A gente não precisa falar sobre isso. Aliás, prefiro não falar.

 — Só me deixe dizer uma coisa — Taehyung continuou rapidamente. — Eu sei que, quando você disse que me amava, a minha resposta não foi exatamente o que queria ouvir.

 — É verdade. Eu sempre esperei que, quando finalmente resolvesse dizer “eu te amo” a um ômega, que ele fosse dizer “eu sei” em resposta, como a princesa Leia disse para o Han em O retorno de Jedi.

 — Que coisa mais nerd — disse Taehyung, sem conseguir se conter.

Yoongi olhou fixamente para ele.

 — Desculpe — ele disse. — Olhe, Yoongi, eu...

 — Não — ele disse. — Olhe você, Taehyung. Olhe para mim, e me veja de verdade. Você consegue fazer isso?

 Taehyung olhou para ele. Olhou para os olhos escuros, marcados com uma cor mais fraca no limite da íris, e para as sobrancelhas levemente desiguais, os cabelos escuros e o sorriso hesitante e as mãos musicais, tudo parte de Yoongi, que era parte de Taehyung. Se ele tivesse de falar a verdade, será que realmente diria que nunca soubera que Yoongi o amava? Ou simplesmente que nunca soubera o que faria a respeito se ele se declarasse? Taehyung suspirou.

 — Ver através do feitiço é fácil. As pessoas é que são difíceis.

 — Todo mundo vê o que quer ver — Yoongi disse tranquilamente.

 — Jungkook não — Taehyung observou, sem conseguir se controlar, pensando naqueles olhos castanhos e frios. — Ele consegue mais do que ninguém.

 Taehyung franziu o rosto.

 — O que você...

 — Certo. — Veio a voz de Jungkook, interrompendo-os. Taehyung se virou rapidamente. — Checamos todos os quatro cantos da casa: nada. Atividade baixa. Provavelmente só os Renegados e eles podem até não nos incomodar, a não ser que tentemos entrar no apartamento de cima.

 — E, se incomodarem — disse Jimin, com um sorriso tão brilhante quanto o chicote —, estaremos prontos para eles. Namjoon arrastou a bolsa de lona para fora da van, jogando-a sobre a calçada.

 — Pronto — ele anunciou. — Vamos acabar com alguns demônios!

 Jungkook olhou para ele de um jeito estranho.

 — Você está bem?

 — Estou. — Sem olhar para ele, Namjoon descartou o arco e a flecha em favor de um bastão de madeira polida com duas lâminas brilhantes que surgiram ao leve toque de dedos. — Assim é melhor.

 Jimin olhou preocupado para o irmão.

 — Mas o arco...

 Namjoon interrompeu-o.

 — Sei o que estou fazendo, Jimin.

 O arco estava no banco de trás, reluzindo ao sol. Yoongi se esticou para pegá-lo, depois puxou de volta a mão, enquanto um grupo de jovens ômegas empurrando carrinhos passava na direção do parque. Elas não perceberam os três adolescentes fortemente armados perto da van amarela.

 — Como eu consigo ver vocês? — perguntou Yoongi. — O que aconteceu com a mágica da invisibilidade de vocês?

 — Você consegue nos ver — disse Jungkook — porque agora sabe a verdade sobre o que está vendo.

 — É — disse Yoongi. — Acho que sim.

 Ele protestou um pouco quando pediram para que ele ficasse junto à van, mas Jungkook o convenceu de que era importante haver um carro de fuga posicionado na esquina.

 — A luz do sol é fatal para os demônios, mas não atinge os Renegados. E se eles nos perseguirem? E se o carro for rebocado?

 A última coisa que Taehyung viu de Yoongi quando virou para acenar da varanda foram suas longas pernas sobre o painel do carro enquanto ele remexia a coleção de CDs de Sehun. Taehyung suspirou aliviado. Pelo menos Yoongi estava seguro. O cheiro a atingiu assim que atravessaram a porta da frente. Era quase indescritível, como ovos podres, carne estragada e algas apodrecendo na praia. Jimin torceu o nariz e Namjoon ficou verde, mas Jungkook parecia estar inalando um perfume raro.

 — Demônios passaram por aqui — ele anunciou seco, mas com deleite. — E recentemente, por sinal.

 Taehyung olhou ansioso para ele.

 — Mas eles não estão...

 — Não. — Ele balançou a cabeça. — Teríamos sentido. Ainda — ele apontou com o queixo para a porta de Yuju, completamente fechada, sem qualquer feixe de luz emitido por baixo. — Ela pode ter algumas satisfações a dar para a Clave se descobrirem que anda recebendo demônios.

 — Duvido que a Clave queira saber disso — disse Jimin. — Em média, ela provavelmente vai se sair melhor do que nós.

 — Eles não vão se importar, contanto que a gente acabe com o Cálice nas mãos. — Namjoon estava olhando em volta, seus olhos castanhos estavam absorvendo o saguão, a escadaria curvada que dava lá em cima, as manchas na parede. — Principalmente se mutilarmos alguns Renegados no processo.

 Jungkook balançou a cabeça.

 — Eles estão no apartamento de cima. Meu palpite é que eles não vão nos incomodar, a não ser que tentemos entrar.

 Jimin tirou uma pequena mecha de cabelos da face e franziu o rosto para Taehyung.

 — O que você está esperando?

 Taehyung olhou involuntariamente para Jungkook, que lhe lançou um sorriso de lado. Vá em frente, a expressão dele dizia. Taehyung atravessou o saguão em direção à porta de Yuju, caminhando cuidadosamente. Com a claraboia escurecida com sujeira e a lâmpada da entrada ainda apagada, a única luminosidade provinha da pedra enfeitiçada de Jungkook. O ar estava quente e pesado, e as sombras pareciam se erguer diante dela como plantas que crescem magicamente em uma floresta de pesadelo. Taehyung estendeu a mão para bater à porta de Yuju, primeiro levemente, depois com mais força.

 A porta se abriu, entornando uma onda de luz dourada no saguão. Yuju estava lá, grande e imponente, em tons de verde e laranja. Hoje, o turbante que usava era amarelo brilhante, adornado com um canarinho empalhado e aba de penas. Brincos de candelabro batiam nos cabelos, e os pés estavam descalços. Taehyung se surpreendeu — ele jamais vira Yuju descalça, nem calçando algo que não fossem chinelos desbotados. As unhas dos pés estavam pintadas em um tom de rosa-claro de muito bom gosto.

 — Taehyung — exclamou ela, e tomou-o em um forte abraço. Por um instante, Taehyung se debateu, sufocado por um mar de perfume, veludo e as pontas do xale de Yuju. — Por Deus, ômega — disse a bruxa, balançando a cabeça de modo que os brincos sacudiram como moinhos de vento em uma tempestade. — Da última vez em que o vi, você estava desaparecendo pelo meu Portal. Onde você foi parar?

 — Em Williamsburg — disse Taehyung, recuperando o ar. As sobrancelhas de Yuju se ergueram alto.

 — E ainda dizem que não há transporte público eficiente em Insadong. — Ela abriu a porta e gesticulou para os outros entrarem. O local parecia inalterado desde a última vez em que Taehyung o tinha visto: as mesmas cartas de tarô e bola de cristal sobre a mesa. Seus dedos coçaram para alcançar as cartas, pegá-las e ver o que poderia estar escondido sob as superfícies pintadas. Yuju sentou-se agradecida em uma poltrona e olhou para os Caçadores de Sombras com um olhar tão certeiro quanto os olhos do canarinho empalhado do chapéu. Velas aromáticas queimavam em pratos em ambos os lados da mesa, o que não adiantava muito para conter o cheiro horrível que impregnava o restante da casa.

 — Suponho que ainda não tenha localizado a sua mãe? — ela perguntou a Taehyung. Taehyung sacudiu a cabeça.

 — Não. Mas eu sei quem a levou.

 Os olhos de Yuju passaram de Taehyung para Namjoon e Jimin, que estavam examinando a Mão do Destino na parede. Jungkook, parecendo completamente despreocupado no papel de guarda-costas, estava no braço da cadeira. Satisfeita por nenhum de seus bens estar sendo destruído, Yuju voltou o olhar novamente para Taehyung.

— Foi...

 — Minhyuk — confirmou Taehyung. — Foi ele.

 Yuju suspirou.

 — Era o que eu temia — ela se ajeitou novamente sobre as almofadas. — Você sabe o que ele quer com ela?

 — Eu sei que ela foi casada com ele...

 A bruxa rosnou.

 — Amor tomando rumos adversos. A pior coisa.

 Jungkook fez um barulho suave, quase inaudível ao ouvir isso — uma risada. As orelhas de Yuju se mexeram, como as de um gato.

 — Qual é a graça, menino alfa?

 — O que você sabe sobre o assunto? — ele perguntou. — Digo, sobre amor.

 Yuju cruzou as mãos macias e pálidas sobre o próprio colo.

 — Mais do que você possa imaginar — ela respondeu. — Eu não li suas folhas de chá, menino? Por acaso você já se apaixonou pela pessoa errada?

 Jungkook disse:

 — Infelizmente, Dama dos Refugiados, meu único verdadeiro amor permanece sendo eu mesmo.

 Yuju sorriu desdenhosamente ao ouvir isso.

 — Pelo menos — ela disse —, você não precisa se preocupar com rejeição, Jeon Jungkook.

 — Não necessariamente. Eu mesmo às vezes me dispenso, só para manter as coisas interessantes.

 Yuju sorriu novamente. Taehyung a interrompeu.

 — Você deve estar imaginando o que estamos fazendo aqui, Madame Yuju.

 A senhora recuou, esfregando os olhos.

 — Por favor — ela disse —, sinta-se à vontade para dar a mim meu título adequado, como o menino alfa o fez. Você pode me chamar de Dama. E presumo — ela acrescentou — que vocês vieram pelo prazer da minha companhia. Por acaso estou errada?

 — Não tenho tempo para o prazer da companhia de ninguém. Tenho que ajudar a minha mãe, e para isso preciso de uma coisa.

 — E que coisa é essa?

 — Algo chamado Cálice Mortal — respondeu Taehyung — e Minhyuk achou que minha mãe o tivesse. Foi por isso que a levaram.

 Yuju parecia verdadeiramente surpresa.

 — O Cálice do Anjo? — ela disse, com a voz carregada de descrença. — O Cálice de Raziel, no qual ele misturou o sangue de anjos e humanos e deu essa mistura para um alfa beber, e criou o primeiro Caçador de Sombras?

 — Esse mesmo — disse Jungkook, com o tom levemente seco.

 — E por que ele acharia que sua mãe estava com o Cálice? — perguntou Yuju. — Logo Taeyeon? — A percepção recaiu sobre seu rosto antes que Taehyung pudesse falar.

 — Porque ela não era Kim Taeyeon, de jeito nenhum — ele disse. — Ela era Lee Taeyeon, ômega dele. A que todos pensavam que estivesse morta. Ela pegou o Cálice e fugiu, não foi?

 Algo se acendeu no fundo dos olhos da bruxa, mas ela abaixou as pálpebras tão depressa que Taehyung achou que pudesse estar imaginando.

 — Então — disse Yuju —, você sabe o que vai fazer agora? Onde quer que ela tenha escondido, não vai ser fácil de achar, mesmo que você queira. Minhyuk poderia fazer coisas terríveis se tivesse o Cálice em mãos.

 — Quero encontrá-lo — afirmou Taehyung. — Nós queremos...

 Jungkook interrompeu-o suavemente.

 — Nós sabemos onde está — ele acrescentou. — Só precisamos resgatá-lo.

 Os olhos de Yuju se arregalaram.

 — Bem, e onde está?

 — Aqui — disse Jungkook, em um tom tão convicto que Jimin e Namjoon abandonaram a análise da estante de livros para ver o que estava se passando.

 — Aqui? Quer dizer que está com você?

 — Não exatamente, cara Dama — respondeu Jungkook, que estava, Taehyung sentiu, adorando aquilo tudo de um jeito muito assustador. — Quero dizer que está com você.

 A boca de Yuju se fechou.

 — Isso não tem a menor graça — ela disse, tão brutalmente que Taehyung se preocupou com a possibilidade de que isso tudo tivesse tomando um rumo muito errado. Por que Jungkook sempre tinha de antagonizar a todos?

 — Está com você, sim — Taehyung interrompeu apressadamente —, mas não...

 Yuju se levantou da poltrona, recompondo-se em sua altura plena e magnífica, e olhou para eles.

 — Vocês estão enganados — ela disse friamente. — Tanto por imaginarem que eu estou com o Cálice quanto por ousarem vir até aqui e me chamarem de mentirosa.

 A mão de Namjoon foi para a sua arma.

 — Oh, Deus — ele disse a si mesmo. Espantado, Taehyung balançou a cabeça.

 — Não — Taehyung disse rapidamente. — Não a estou chamando de mentirosa, juro. Estou dizendo que o Cálice está aqui, mas você nunca soube.

 Madame Yuju encarou-o. Seus olhos quase escondidos nas dobras do rosto eram duros como bolas de gude.

 — Explique-se — ela disse.

 — Estou dizendo que minha mãe o escondeu aqui — disse Taehyung. — Há anos. Ela nunca contou por não querer envolvê-la.

 — Então ela o deu disfarçado — explicou Jungkook —, sob a forma de um presente.

 Yuju o encarou com olhos vazios. Será que ela não se lembra?, pensou Taehyung, confuso.

 — O baralho de tarô — Taehyung disse. — As cartas que ela pintou para você.

 O olhar da Bruxa se voltou para as cartas, dispostas na mesa sobre os embrulhos de seda.

 — As cartas? — enquanto os olhos dela se arregalavam, Taehyung foi até a mesa e pegou o baralho. As cartas estavam mornas, quase escorregadias. Agora, de um jeito que não havia conseguido antes, ele sentiu o poder dos símbolos pintados nas partes de trás pulsando nas pontas de seus dedos. Ele encontrou o Ás de Copas pelo toque e o pegou, deixando as demais cartas sobre a mesa.

 — Aqui está — ele disse. Todos estavam olhando para ele, com expectativa, absolutamente parados. Lentamente, ele virou a carta e admirou mais uma vez o trabalho artístico da mãe: a mão fina pintada, com os dedos envoltos no caule dourado do Cálice Mortal. — Jungkook — ele disse. — Me dê a sua estela.

 Jungkook a pressionou, morno e vibrante contra a palma da mão de Taehyung. O ômega virou a carta e passou a estela sobre os símbolos desenhados na parte de trás — um giro aqui e ali e eles passavam a significar alguma coisa inteiramente diferente. Quando virou a carta outra vez, a figura havia mudado sutilmente: os dedos haviam soltado o Cálice, e a mão parecia estar oferecendo-o a ele, como se dissesse: Aqui, pegue-o. Ele pôs a estela no bolso. Depois, apesar de o quadrado pintado não ser maior que sua mão, ele alcançou dentro da carta como se fosse um buraco amplo. Ele segurou o Cálice pela base — com os dedos cerrados em torno dele — e, ao puxar a mão de volta, com o Cálice firmemente preso a ele, pensou ter ouvido leves suspiros ante a carta, agora branca e vazia, transformada em cinzas que escorreram por entre seus dedos, para o carpete no chão.



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