História Shadowhunter: The mortal instruments! ABO - Capítulo 19


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Categorias Bangtan Boys (BTS)
Personagens Jeon Jeongguk (Jungkook), Jung Hoseok (J-Hope), Kim Namjoon (RM), Kim Seokjin (Jin), Kim Taehyung (V), Min Yoongi (Suga), Park Jimin (Jimin)
Tags 2ne1, Abo, Blackpink, Bottom!tae, Bts, Chanbaek, Exo, Kookv, Kpop, Lgbt, Mpreg, Namjin, Ômegatae, Shadowhunters, Taegui, Taekook, Top!jk, Vkook, Yaoi, Yoonmin
Visualizações 127
Palavras 6.346
Terminada Não
NÃO RECOMENDADO PARA MENORES DE 18 ANOS
Gêneros: Ação, Aventura, Drama (Tragédia), Fluffy, Hentai, Lemon, LGBT, Luta, Magia, Romance e Novela, Shoujo (Romântico), Sobrenatural, Suspense, Universo Alternativo, Violência, Yaoi (Gay)
Avisos: Álcool, Bissexualidade, Gravidez Masculina (MPreg), Heterossexualidade, Homossexualidade, Insinuação de sexo, Linguagem Imprópria, Mutilação, Sexo, Tortura, Violência
Aviso legal
Os personagens encontrados nesta história são apenas alusões a pessoas reais e nenhuma das situações e personalidades aqui encontradas refletem a realidade, tratando-se esta obra, de uma ficção. Os eventuais personagens originais desta história são de minha propriedade intelectual. História sem fins lucrativos, feita apenas de fã para fã sem o objetivo de denegrir ou violar as imagens dos artistas.

Notas do Autor


oi oi gente
o capitulo de hoje ta bem tenso sugiro que vcs preparem o coração de vocês pq muita coisa vai rola nesse capitulo, enfim n vou comentar muito sobre apenas tenham uma boa leitura haha

Capítulo 19 - Abbadon


Taehyung não tinha certeza quanto ao que estava esperando — exclamações de deleite, talvez uma onda de aplausos. Em vez disso, fez-se silêncio, que só foi quebrado quando Jungkook falou.

 — Por algum motivo, pensei que fosse maior.

 Taehyung olhou para o Cálice que tinha em mãos. Era do tamanho, talvez, de uma taça de vinho normal, só que muito mais pesado. O ômega sentia o poder que corria por ele, como sangue através das veias.

 — É um tamanho muito bom — disse Taehyung, indignado.

 — Bem, é grande o bastante — disse Jungkook em tom de consolo —, mas por algum motivo eu esperava alguma coisa... você sabe. — Ele fez um gesto com as mãos, indicando algo aproximadamente do tamanho de uma casa de gato.

 — É o Cálice Mortal, Jungkook, não a Latrina Mortal — disse Jimin. — Acabamos? Podemos ir?

 Yuju estava com a cabeça inclinada para um dos lados, com os olhos acesos e interessados.

 — Mas está danificado! — exclamou ela. — Como isso foi acontecer?

 — Danificado? — Taehyung olhou espantada para o Cálice. Parecia em perfeito estado para ele.

 — Aqui — disse a bruxa —, deixe-me mostrar a vocês — e ela deu um passo em direção a Taehyung, estendendo as mãos com longas unhas vermelhas para o Cálice. Taehyung, sem saber a razão, recuou. De repente, Jungkook estava entre eles, com a mão passeando por perto da espada que trazia na cintura.

 — Sem querer ofender — Jungkook disse calmamente —, mas ninguém além de nós toca no Cálice.

 Yuju olhou para ele por um instante, e aquela estranha negritude voltou a seus olhos.

 — Bem — ela disse —, não sejamos precipitados. Minhyuk ficaria muito aborrecido se alguma coisa acontecesse ao Cálice.

 Com um leve chiado, a espada de Jungkook surgiu. A ponta balançou logo abaixo do queixo de Yuju. O olhar de Jungkook era firme.

— Não sei o que há — ele disse —, mas nós já estamos indo. Os olhos da senhora brilharam.

 — Perfeitamente, Caçador de Sombras — ela disse, recuando para a parede de cortina. — Vocês gostariam de utilizar o Portal?

 A ponta da espada de Jungkook balançou enquanto ele a encarou momentaneamente confuso. Então Taehyung viu sua mandíbula enrijecer.

 — Não encoste nisso...

 Yuju sorriu, e rápida como um flash, puxou as cortinas que cobriam a parede. Eles caíram com o leve som de um colapso. O Portal atrás deles estava aberto. Taehyung ouviu Namjoon, atrás dela, respirar fundo.

 — O que é aquilo? — Taehyung só viu levemente o que era visível através da porta: nuvens vermelhas cortadas com raios negros, e uma forma escura e terrível que avançava em direção a eles, quando Jungkook gritou para se abaixarem. Ele se jogou ao chão, derrubando Taehyung consigo. De barriga para baixo, o Kim levantou a cabeça a tempo de ver a coisa escura atingir Madame Yuju, que gritou, lançando os braços ao alto.

 Em vez de derrubá-la, a coisa escura a envolveu como tinta absorvida por papel. Suas costas monstruosamente corcundas, o formato dela se alongou enquanto ela se elevava e se elevava pelo ar, com a estrutura se alongando e mudando de forma. Um barulho agudo de objetos atingindo o chão fez com que Taehyung olhasse para baixo: eram as pulseiras de Yuju, deformadas e quebradas. Em meio às joias, havia o que pareciam pequenas pedras brancas. Taehyung levou um instante para perceber que eram dentes. A seu lado, Jungkook sussurrou alguma coisa. Parecia uma exclamação de descrença. A seu lado, Namjoon engasgou e disse:

 — Mas você disse que não havia muita atividade demoníaca. Você disse que os níveis estavam baixos!

 — Eles estavam baixos — rosnou Jungkook.

 — Seu entendimento de baixo deve ser bem diferente do meu! — gritou Namjoon, enquanto a coisa que outrora fora Yuju uivava e girava. Parecia estar se ampliando, corcunda e saliente, grotescamente disforme... Taehyung desgrudou os olhos quando Jungkook se levantou, e foi atrás dele. Jimin e Namjoon se levantaram cambaleando, pegando as armas. A mão que segurava o chicote de Jimin estava ligeiramente trêmula.

 — Ande! — Jungkook empurrou Taehyung para a porta do apartamento. Quando tentou olhar para trás por cima do ombro, o ômega viu algo espesso e cinza girando, como nuvens de tempestade, uma forma escura no centro... Eles quatro correram pelo saguão de entrada, Jimin à frente do grupo. Ele correu em direção à porta da frente, tentou abri-la e virou para os outros com a expressão assustada.

— Está resistente. Deve ser um feitiço...

 Jungkook resmungou e apalpou o próprio casaco.

 — Onde diabos está a minha estela...?

 — Está comigo — disse Taehyung, lembrando-se. Enquanto alcançava o bolso, um trovão explodiu no recinto. O chão tremeu sob os pés dele. Ele cambaleou e quase caiu, mas conseguiu se segurar no corrimão. Quando olhou para cima, ele viu um novo buraco se abrindo na parede que separava o saguão do apartamento de Yuju, completamente alinhado por suas pontas desbotadas com madeira e gesso, através do qual alguma coisa estava subindo, quase vazando...

 — Namjoon! — Era Jungkook, gritando: Namjoon estava na frente do buraco, pálido e horrorizado. Resmungando, Jungkook correu para cima e o agarrou, arrastando-o bem no instante em que a coisa se libertou da parede e se lançou ao saguão. Taehyung ouviu o próprio fôlego voltar. A carne da criatura era viva e parecia cheia de hematomas.

 Através da pele fina, os ossos apareciam — não ossos novos e brancos, mas ossos que pareciam estar embaixo da terra há mil anos, pretos, rachados e imundos. Os dedos eram descascados e esqueléticos, os braços finos eram cheios de machucados pretos através dos quais se viam ossos amarelados. O rosto era uma caveira, o nariz e os olhos eram buracos. Os dedos enormes esfregaram o chão. Enrolados nos pulsos e ombros, a coisa tinha pedaços de tecido brilhante: tudo o que sobrava das echarpes e do turbante de seda de Madame Yuju. Tinha, no mínimo, dois metros e meio de altura. Olhou para baixo, para os quatro adolescentes com aqueles buracos dos olhos vazios.

 — Me dê — disse, com uma voz que parecia vento soprando lixo sobre asfalto vazio. — O Cálice Mortal. Entregue-o a mim, e permitirei que viva.

 Em pânico, Taehyung olhou para os outros. Jimin estava com a aparência de quem tinha sido atingido por um golpe no estômago ao ver a criatura. Namjoon estava imóvel. Foi Jungkook que, como sempre, falou:

 — O que é você? — ele perguntou, com a voz firme, embora parecesse mais estarrecido do que Taehyung jamais vira. A coisa inclinou a cabeça.

 — Sou Abbadon. Sou o Demônio do Abismo. São meus os lugares vazios entre os mundos. São meus o vento e a escuridão uivante. Sou tão diferente daquelas coisas chorosas que vocês chamam de demônios quanto uma águia de uma mosca. Vocês não têm a menor chance de me derrotar. Entreguem o Cálice ou morram.

 O chicote de Jimin tremeu.

 — É um Demônio Maior — Jimin disse. — Jungkook, se nós...

 — E Yuju? — A voz de Taehyung veio aguda, antes que ele pudesse conter. — O que aconteceu com ela?

 Os olhos vazios do demônio balançaram para olhar para ela.

 — Ela era apenas um veículo — disse a coisa. — Ela abriu o Portal e eu me apossei dela. Sua morte foi suave. — O olhar dele se voltou para o Cálice na mão de Taehyung. — A sua não será.

 A criatura começou a se mover em direção a ele. Jungkook bloqueou a passagem, com a espada em uma das mãos e uma lâmina serafim aparecendo na outra. Namjoon o observava, com a expressão completamente horrorizada.

 — Pelo Anjo — disse Jungkook, olhando o demônio de cima a baixo. — Eu sabia que Demônios Maiores eram feios, mas ninguém me alertou quanto ao cheiro.

 Abbadon abriu a boca e sibilou. Tinha duas fileiras de dentes afiados como cacos de vidro.

 — Não tenho certeza quanto a essa história de vento e escuridão uivante — prosseguiu Jungkook. — Me parece mais um aterro. Tem certeza de que não é de Daegu?

 O demônio saltou em sua direção. Jungkook moveu as lâminas para cima e para fora com uma velocidade quase assustadora; ambas afundaram na parte mais carnuda do demônio. Ele uivou e o atacou de volta, empurrando-o, jogando-o de lado do jeito que um gato poderia jogar um filhote. Jungkook rolou e se levantou, mas Taehyung podia ver pela maneira como estava segurando o braço que ele se machucara.

 Isso bastou para Jimin. Lançando-se para a frente, ele atacou o demônio com o chicote. Atingiu as costas cinzas do demônio, e um inchaço vermelho apareceu, formado por sangue. Abbadon ignorou-o e avançou em direção a Jungkook. Com a mão que estava boa, Jungkook sacou a segunda lâmina serafim. Ele sussurrou para ela, que se libertou, brilhante e intensa. Levantou-a enquanto o demônio se erguia perante ele; ele parecia absurdamente pequeno em comparação, como uma criança tornada anã pela presença de um monstro. E estava sorrindo, mesmo enquanto o demônio se estendia tentando pegá-lo. Jimin, gritando, o atacou, e o sangue dele jorrou em um spray grosso pelo chão. O demônio atacou, com as mãos que pareciam lâminas avançando na direção de Jungkook.

 Jungkook cambaleou para trás, mas não sofreu qualquer dano. Alguma coisa fora atirada entre ele e o demônio, uma sombra magra e escura com uma lâmina brilhante nas mãos. Namjoon. O demônio gritou — a arma de Namjoon havia perfurado sua pele. Com um rugido, ele atacou novamente, agarrando Namjoon, jogando-o perfidamente para o alto, lançando-o contra a parede oposta. Ele bateu com um barulho horrível e deslizou para o chão. Jimin gritou o nome do irmão. Ele não se moveu. Abaixando o chicote, o ômega moreno começou a correr para ele. O demônio, girando, acertou-o com um golpe que o jogou no chão. Tossindo sangue, Jimin começou a se levantar; Abbadon voltou a derrubá-lo e, dessa vez, ele ficou deitada imóvel. O demônio avançou em direção a Taehyung.

Jungkook estava congelado, olhando para o corpo esmagado de Namjoon como alguém preso em um sonho. Taehyung gritou enquanto Abbadon se aproximava dele. Ele começou a recuar para as escadas, pisando nos degraus quebrados. A estela queimava sua pele, se ao menos ele tivesse uma arma, qualquer coisa... Jimin se arrastara até conseguir sentar. Colocando os cabelos cheios de sangue para trás, ele gritou para Jungkook.

 Taehyung ouviu o próprio nome nos gritos de Jimin e viu Jungkook, piscando como se tivesse sido estapeado até acordar, virar em direção a ele. Jeon começou a correr. O demônio agora estava perto o bastante para que Taehyung pudesse ver os machucados pretos que ele tinha na pele, podia ver que havia coisas se arrastando dentro deles. O monstro se esticou para pegá-lo... Mas Jungkook estava lá, empurrando a mão de Abbadon. Ele atacou o demônio com a lâmina serafim; atingiu a criatura no peito, ao lado das duas lâminas que já estavam lá. O demônio rosnou como se as lâminas não fossem mais do que uma irritação.

 — Caçador de Sombras — ele rosnou. — Terei prazer em matá-lo, em ouvir seus ossos quebrando como os do seu amigo...

 Pendurando-se no corrimão, Jungkook se lançou ao Abbadon. A força do pulo empurrou o demônio para trás; ele cambaleou e Jungkook se agarrou às suas costas. Ele puxou uma das lâminas serafim do peito, que lançou um spray escuro, atacando as costas do demônio repetidas vezes com ela e, deixando os ombros da criatura cheios de fluido escuro. Rosnando, Abbadon recuou para a parede, Jungkook tinha de se soltar ou seria esmagado. Ele caiu no chão, pousou levemente, e ergueu a lâmina mais uma vez. Mas Abbadon foi rápido demais para ele; suas mãos se estenderam, empurrando Jungkook pela escada. Ele caiu, com um círculo de tacos de madeira na garganta.

 — Diga para me darem o Cálice — rugiu Abbadon, com os tacos quase soltos logo acima da pele de Jungkook. — Diga para me darem o Cálice e permitirei que vivam.

 Jungkook engoliu em seco.

 — Taehyung...

 Mas Taehyung nunca saberia o que ele teria dito, pois naquele instante a porta da frente se abriu. Por um instante, só o que ômega viu foi um brilho intenso. Depois, piscando para espantar aquela imagem flamejante, ele viu Yoongi parado na entrada. Yoongi. O Kim se esquecera de que ele estava lá fora, quase se esquecera de que ele existia. Yoongi o viu, abaixado nas escadas, e desviou o olhar dele para Abbadon e Jungkook. Esticou a mão para trás do ombro. Estava segurando o arco de Namjoon, e a bolsa das flechas estava pendurada nas costas. Ele sacou uma flecha, ajeitou-a na corda, levantou o arco como um expert, como se já tivesse feito aquilo centenas de vezes. A flecha se soltou. Emitiu um ruído que parecia um zumbido, como uma abelha-rainha, ao passar por cima da cabeça de Abbadon, voar em direção ao telhado... E atingir o teto.

  Pedaços de vidro preto e sujo caíram como chuva e, através da parte quebrada, a luz do sol penetrou, grande quantidade de luz solar, grandes barras douradas entrando e inundando o saguão com sua luminosidade. Abbadon gritou e cambaleou para trás, protegendo a cabeça deformada com as duas mãos. Jungkook pôs as mãos na garganta, que estava intacta, encarando, descrente, enquanto o demônio se contorcia no chão, uivando. Taehyung quase esperava que ele fosse começar a pegar fogo, mas em vez disso começou a se encolher.

 As pernas foram em direção ao torso, o crânio oscilando como papel em chamas, e em um minuto desapareceu completamente, deixando apenas algumas marcas para trás. Yoongi abaixou o arco. Ele estava piscando por trás dos óculos, com a boca ligeiramente aberta. Parecia tão espantado quanto Taehyung. Jungkook estava na escadaria, onde o demônio o havia jogado. Estava lutando para se levantar enquanto Taehyung escorregava pelos degraus e caía de joelhos a seu lado.

 — Jungkook...

 — Estou bem — ele se sentou, limpando o sangue da boca. Ele tossia e cuspia vermelho. — Namjoon...

 — Sua estela — Taehyung interrompeu, alcançando o bolso. — Você precisa dela para se curar?

 Ele olhou para o ômega. A luz do sol que entrava pelo teto quebrado iluminava o rosto dele. Ele parecia estar se contendo com grande esforço para não fazer alguma coisa.

 — Estou bem — ele disse novamente, e o empurrou de lado, sem grandes gentilezas. Ele se levantou, cambaleou e quase caiu; a primeira coisa que já o vira fazer sem graciosidade.

 — Namjoon?

 Taehyung o observou enquanto ele mancava pelo saguão em direção ao amigo que estava inconsciente. Então Kim colocou o Cálice Mortal no bolso do casaco e se levantou. Jimin havia se arrastado para o lado do irmão e apoiado a cabeça dele no colo, acariciando seus cabelos. O tórax de Namjoon subia e descia lentamente, mas ele estava respirando. Yoongi, apoiado na parede assistindo àquela cena, parecia esgotado. Taehyung segurou a mão do amigo ao passar por ele.

 — Obrigada — ele sussurrou. — Foi incrível.

 — Não agradeça a mim — ele disse. — Agradeça ao programa de arco e flecha do acampamento de verão B’nai B’rith.

 — Yoongi, eu não...

 — Taehyung! — Era Jungkook, gritando. — Traga a minha estela.

 Yoongi o soltou, relutante. O ômega se ajoelhou ao lado dos Caçadores de Sombras, com o Cálice Mortal apertado na lateral. O rosto de Namjoon estava pálido, marcado com gotas de sangue, os olhos ganharam um tom artificial de castanho. Ele estava agarrando o pulso de Jungkook com tanta força que deixou marcas vermelhas.

 — Eu... — Ele começou, depois pareceu ver Taehyung, como se fosse pela primeira vez. Havia alguma coisa em seu olhar que o Kim não estava esperando. Triunfo.

 — Eu o matei?

 O rosto de Jungkook contorceu-se dolorosamente.

 — Você...

 — Sim — disse Taehyung. — Está morto.

 Namjoon olhou para ele e riu. Ele estava cheio de sangue na boca. Jungkook puxou de volta o pulso, e tocou a face de Namjoon com os dedos.

 — Não — ele disse. — Fique parado, apenas fique parado. Namjoon fechou os olhos.

 — Faça o que tiver que fazer — ele sussurrou. Jimin estendeu a estela para Jungkook.

 — Aqui.

 Jungkook assentiu com a cabeça e colocou a ponta da estela na frente da blusa de Namjoon. O material se partiu como se tivesse sido cortado com uma faca. Jimin assistiu com olhos vidrados enquanto rasgava a blusa, deixando o tórax de Namjoon nu. Sua pele era muito branca, marcada em alguns pontos por antigas cicatrizes transparentes. Havia outras feridas ali também: um emaranhado escuro de marcas de garras, cada buraco vermelho e vazando. Com o maxilar rígido, Jungkook pôs a estela na pele de Namjoon, movendo-a para cima e para baixo com a facilidade de quem tinha prática. Mas alguma coisa estava errada. Mesmo enquanto desenhava as marcas de cura, elas pareciam desaparecer como se ele estivesse escrevendo em água. Jungkook jogou a estela de lado.

 — Droga!

 A voz de Jimin estava absolutamente aguda.

 — O que está havendo?

 — Ele o cortou com as garras — disse Jungkook. — Ele está com veneno de demônio no corpo. As Marcas não vão funcionar — ele tocou o rosto de Namjoon outra vez, suavemente. — Namjoon — ele disse. — Você está me ouvindo?

 Namjoon não se moveu. As sombras sob seus olhos pareciam azuis e tão escuras quanto hematomas. Não fosse pela respiração, Taehyung pensaria que ele já estava morto. Jimin abaixou a cabeça. Ele estava com os braços à sua volta.

 — Talvez — Jimin disse — nós pudéssemos...

 — Levá-lo a um hospital. — Era Yoongi, de pé, sobre eles, com o arco na mão. — Eu ajudo a carregá-lo para a van. O Hospital Metodista fica na 28 Yeon Gun...

 — Nada de hospitais — disse Jimin. — Precisamos levá-lo para o Instituto.

 — Mas...

 — Não vão saber como cuidar dele em um hospital — disse Jungkook. — Ele foi cortado por um Demônio Maior. Nenhum médico mundano saberia como curar esses ferimentos.

 Yoongi concordou com a cabeça.

 — Tudo bem. Vamos levá-lo para o carro.

 Por sorte, a van não havia sido rebocada. Jimin esticou um cobertor sujo no banco de trás e puseram Namjoon sobre ele, com a cabeça no colo de Jimin. Jungkook se agachou ao lado do amigo. Sua camisa estava manchada na frente e nas mangas com sangue, humano e de demônio. Quando ele olhou para Yoongi, Taehyung viu que todo o castanho se esvaíra dos olhos, em função de alguma coisa que Kim nunca tinha visto neles antes. Pânico.

 — Depressa, mundano — Jungkook disse. — Dirija como se o diabo o estivesse seguindo.

Yoongi dirigiu. Ele acelerou pela Sejong-ro e voou pela ponte, mantendo o ritmo com o trem Q, enquanto ele rugia pela água azul. O sol brilhava dolorosamente nos olhos de Taehyung, com faíscas quentes que vinham do rio. Ele se agarrou na cadeira enquanto Yoongi fez a curva na saída da ponte a 80km/h. Kim pensou nas coisas horríveis que dissera a Namjoon, no jeito como ele se jogara na frente de Abbadon, o olhar de triunfo em seu rosto. Quando virou, ele viu Jungkook ajoelhado ao lado do amigo, e o sangue pingando pelo cobertor. O ômega pensou no garotinho alfa com o falcão morto. Amar é destruir. Taehyung se virou mais uma vez, com um nó na garganta. Jimin era visível no retrovisor, enrolando o cobertor no pescoço de Namjoon. Ele levantou os olhos e encontrou o olhar de Taehyung.

 — Quanto tempo falta?

 — Talvez uns dez minutos. Yoongi está indo o mais rápido possível.

 — Eu sei — disse Jimin. — Yoongi, o que você fez, aquilo foi incrível. Você foi extremamente rápido. Eu jamais acharia que um mundano fosse capaz de pensar uma coisa daquelas.

 Yoongi não pareceu tocado pelo elogio de uma fonte tão inesperada; estava com os olhos fixos na estrada.

 — Você está falando sobre a flechada no teto? Tive a ideia logo depois que vocês entraram. Pensei no telhado e no que vocês haviam dito sobre demônios não suportarem a luz do sol. Então, na verdade, demorei um pouco para agir. Não se sinta mal — ele acrescentou —, nem dá para ver aquela claraboia, a não ser que você saiba que está lá.

Eu sabia que estava lá, pensou Taehyung. Deveria ter feito alguma coisa. Mesmo não tendo um arco e flecha como Yoongi, poderia ter jogado alguma coisa, ou ter falado para Jungkook. Ele se sentiu burra, inútil e oco, como se sua cabeça estivesse cheia de algodão. A verdade era que ele havia ficado assustado. Assustado demais para pensar corretamente. Ele sentiu uma onda de vergonha queimar atrás das pálpebras, como um pequeno sol. Então Jungkook falou.

 — Agiu muito bem — ele disse. Os olhos de Yoongi franziram.

 — Então, se você não se importa em me falar, aquela coisa, o demônio, veio de onde?

 — Era Madame Yuju — disse Taehyung. — Quero dizer, era mais ou menos ela.

 — Ela nunca foi nenhum colírio para os olhos, mas não me lembrava de ela ser tão feia assim.

 — Acho que ela foi possuída — disse Taehyung, lentamente, tentando formular tudo em sua mente. — Ela queria que eu desse o Cálice a ela. Depois abriu o Portal...

 — Foi esperto — disse Jungkook. — O demônio a possuiu, depois escondeu a maior parte de sua forma etérea logo atrás do Portal, onde o Sensor não registraria. Então entramos preparados para lutar com alguns Renegados. Em vez disso, ficamos cara a cara com um Demônio Maior. Abbadon, um dos Anciãos. O Lorde dos Incididos.

 — Bem, parece que os Incididos terão que aprender a se virar sem ele de agora em diante — disse Yoongi, entrando na rua.

 — Ele não está morto — disse Jimin. — Praticamente ninguém consegue matar um Demônio Maior. É preciso matá-los em sua forma física e etérea antes de eles morrerem. Nós apenas o espantamos.

 — Oh! — Yoongi pareceu desapontado. — E Madame Yuju? Ela vai ficar bem agora que...

 Ele parou de falar, pois Namjoon começou a se engasgar, com o ar fraco no peito.

 — Por que ainda não chegamos? — praguejou Jungkook para si mesmo.

 — Já chegamos. Só não quero entrar pela parede. — Enquanto Yoongi parava cuidadosamente na esquina, Taehyung viu que a porta do Instituto estava aberta. Daesung estava de pé sob o arco de entrada. A van parou e Jungkook saltou apressado, esticando os braços para levantar Namjoon, como se ele não pesasse mais do que uma criança. Jimin o seguiu até a entrada, segurando a arma sangrenta do irmão. A porta do Instituto bateu atrás deles. Sentindo a exaustão, Taehyung olhou para Yoongi.

 — Desculpe. Não sei como você vai explicar todo aquele sangue para Sehun.

 — Dane-se o Sehun — Yoongi disse com convicção. — Você está bem?

— Nem um arranhão. Todos se machucaram, menos eu.

 — É o trabalho deles, Taehyung — disse ele, gentilmente. — Combater demônios, isso é o que eles fazem. Não o que você faz.

 — O que eu faço, Yoongi? — Taehyung perguntou, examinando o rosto do alfa à procura de uma resposta. — O que eu faço?

 — Bem, você pegou o Cálice — ele disse. — Não pegou?

 Ele fez que sim com a cabeça e apalpou o bolso.

 — Peguei.

 Ele pareceu aliviado.

 — Quase não tive coragem de perguntar — Yoongi disse. — Isso é bom, não é?

 — É — Taehyung respondeu. Ele pensou na mãe, e apertou a mão em torno  do Cálice. — Eu sei que é.

                                                                              -x-

 Mochi o encontrou no topo da escadaria, miando como uma Maria Fumaça, e a levou para a enfermaria. As portas duplas estavam abertas e, através delas, Taehyung podia ver a figura parada de Namjoon, imóvel em uma das camas. Daesung estava curvado sobre ele; Jimin, ao lado do tutor, segurava uma bandeja de prata nas mãos. Jungkook não estava com eles. Estava do lado de fora da enfermaria, apoiado na parede, com as mãos ensanguentadas junto ao próprio corpo. Quando Taehyung parou na frente dele, suas pálpebras se abriram, e o Kim viu que ele estava com as pupilas dilatadas, todo o castanho engolido pelo preto.

 — Como ele está? — Taehyung perguntou, o mais gentilmente possível.

 — Ele perdeu muito sangue. Envenenamento por demônio é muito comum, mas, como era um Demônio Maior, Daesung não tem certeza se os antídotos que geralmente aplica serão eficazes.

 O ômega se esticou para tocar o braço dele.

 — Jungkook...

 Ele se esquivou.

 — Não.

 Taehyung respirou fundo.

 — Jamais desejaria algo de mal a Namjoon. Sinto muito.

 Jungkook olhou para ele como se estivesse o vendo ali pela primeira vez.

 — Não é sua culpa — ele disse. — É minha.

 — Sua? Jungkook, não, não é...

 — Ah, é sim — ele insistiu, com a voz frágil como uma camada de gelo. — Mea culpa, mea maxima culpa.

— O que isso quer dizer?

 — Minha culpa — Jungkook disse. — Culpa unicamente minha, minha culpa mais terrível. É latim. — Ele tirou uma mecha do cabelo dela da testa com extrema naturalidade, como se nem percebesse o que estava fazendo. — Parte da Missa.

 — Pensei que você não fosse ligado em religião.

 — Posso não acreditar em pecado — ele disse —, mas sinto culpa. Nós, Caçadores de Sombras, vivemos por um código, e esse código é inflexível. Honra, culpa, penitência, isso tudo é verdadeiro para nós, e não têm nada a ver com religião, e tudo com o que somos. Isso é o que eu sou, Taehyung — ele disse, alterado. — Sou parte da Clave. Está no meu sangue e nos meus ossos. Então me diga: se você está tão certo de que isso não foi minha culpa, então por que o meu primeiro pensamento ao ver Abbadon não foi pelos meus companheiros, mas por você? — Ele levantou a outra mão; estava segurando o rosto do ômega, prendendo-o entre as palmas. — Eu sei, eu sabia que Namjoon não estava agindo normalmente. Sabia que alguma coisa estava errada. Mas a única pessoa em quem conseguia pensar era você...

 Jungkook curvou a cabeça para a frente, de modo que a testa de ambos se tocou. Taehyung podia sentir a respiração dele sobre os cílios. O ômega fechou os olhos, deixando a proximidade de Jungkook lavá-lo como uma onda.

 — Se ele morrer, será como se eu o tivesse matado — ele disse. — Deixei meu pai alfa morrer, e agora matei o único irmão que já tive.

 — Isso não é verdade — Taehyung sussurrou.

 — É sim. — Eles estavam próximos o suficiente para se beijar. Mesmo assim, Jungkook o segurou com firmeza, como se quisesse se certificar de que ele fosse real. — Taehyung — ele chamou. — O que está acontecendo comigo?

 Taehyung pesquisou a mente em busca de uma resposta — e ouviu alguém limpar a garganta. Então, abriu os olhos. Daesung estava na porta da enfermaria, o terno sujo com algumas manchas de ferrugem.

 — Fiz o que pude. Ele está sedado, não está sentindo dor, mas... — ele balançou a cabeça. — Preciso contatar os Irmãos do Silêncio. Isso está além da minha capacidade.

 Jungkook se afastou lentamente de Taehyung.

 — Quanto tempo eles vão levar para chegar aqui?

 — Não sei. — Daesung começou a caminhar pelo corredor, balançando a cabeça. — Vou mandar Dahyun imediatamente, mas os Irmãos vêm quando bem entendem.

 — Mas para isso... — Mesmo Jungkook estava com dificuldade para acompanhar as passadas longas de Daesung; Taehyung estava muito atrás deles e teve que se esforçar para escutar o que ele estava falando. — Ele pode morrer.

 — Pode. — Foi tudo que Daesung disse em resposta.

                                              -x-

A biblioteca estava escura e tinha cheiro de chuva: uma das janelas havia sido deixada aberta, e uma poça d’água se formara sob as cortinas. Dahyun chiou e se mexeu no poleiro ao ver Daesung se aproximar, pausando somente para acender a luz da mesa.

 — É uma pena — disse Daesung, puxando um papel e uma caneta-tinteiro — que vocês não tenham recuperado o Cálice. Traria, penso eu, algum conforto para Namjoon, e certamente para...

 — Mas eu recuperei o Cálice — Taehyung disse, surpreso. — Você não contou a ele, Jungkook?

 Jungkook estava piscando, mas, se foi por surpresa ou pela luz súbita, Taehyung não sabia.

 — Não tive tempo, estava levando Namjoon lá para cima...

 Daesung estava completamente paralisado, com a caneta imóvel entre os dedos.

 — Você está com o Cálice?

 — Estou. — Taehyung tirou o Cálice do bolso: ainda estava frio, como se o contato com o corpo dele não pudesse aquecer o metal. Os rubis piscavam como olhos vermelhos. — Está aqui.

 A caneta caiu da mão de Daesung e atingiu o chão. A lâmpada, que iluminava para cima, não favorecia o rosto espantado dele: mostrava cada linha de severidade, preocupação e desespero.

 — Esse é o Cálice do Anjo?

 — O próprio — disse Jungkook. — Estava...

 — Nada que possa dizer importa agora — disse Daesung. Ele repousou o papel na mesa e foi em direção a Jungkook, pegando o aluno pelos ombros. — Jeon Jungkook, você sabe o que fez?

 Jungkook olhou para Daesung, surpreso. Taehyung percebeu o contraste: o rosto enrugado do alfa mais velho, e o do menino alfa, intacto, os cabelos escuros caindo nos olhos, fazendo-o parecer ainda mais jovem.

 — Não tenho certeza do que você está falando — disse Jungkook. O hálito de Daesung sibilou entre os dentes.

 — Você se parece tanto com ele...

 — Com quem? — disse Jungkook, estupefato; claramente nunca tinha ouvido Daesung falar daquele jeito.

 — Com o seu pai alfa — disse Daesung, e levantou os olhos para onde Dahyun, cujas asas negras batiam pelo ar úmido, sobrevoava logo acima. Daesung cerrou os olhos. — Dahyuni — ele disse, e com um chiado estranho o pássaro voou direto para o rosto de Taehyung, com as garras esticadas.

Taehyung ouviu Jungkook gritar, em seguida o mundo não era nada além de penas girando e bico e garras atacando. O Kim sentiu uma dor absurda na bochecha e gritou, jogando as mãos para cima instintivamente, a fim de cobrir o rosto. Ele sentiu o Cálice Mortal ser arrancado de suas mãos.

 — Não! — Taehyung gritou, agarrando com força. Uma dor agonizante passou pelo braço dele. Suas pernas pareceram ter sido arrancadas do chão. Ele escorregou e caiu de joelhos no chão. Garras atacaram sua testa.

 — Basta, Dahyun — disse Daesung com sua voz tranquila. Obediente, o pássaro se afastou de Taehyung. Gaguejando, ele piscou o sangue para fora dos olhos. Ele tinha a sensação de que o rosto estava completamente rasgado. Daesung não se havia mexido; ficou onde estava, segurando o Cálice Mortal. Dahyun o rodeava em círculos amplos e agitados, chiando suavemente. E Jungkook — Jungkook estava deitado no chão aos pés de Daesung, completamente parado, como se tivesse caído no sono repentinamente. Todos os outros pensamentos se esvaíram da mente de Taehyung.

 — Jungkook! — falar doía, a dor na bochecha era aguda e ele sentia gosto de sangue na boca. Jungkook não se mexia.

 — Ele não está machucado — disse Daesung. Taehyung começou a se levantar, desejando lançar-se contra ele, depois caiu para trás como se alguma coisa invisível, porém dura e forte como vidro, a tivesse atingido. Furioso, Kim começou a socar o ar.

 — Daesung — Taehyung gritou. Ele chutou, quase quebrando os pés na mesma parede invisível. — Não seja tolo. Quando a Clave descobrir o que você fez...

 — Já terei desaparecido há muito tempo — Daesung disse, ajoelhando-se sobre Jungkook.

 — Mas... — Taehyung foi dominado por uma sensação de choque, uma onda elétrica de percepção. — Você não mandou mensagem nenhuma para a Clave, mandou? Foi por isso que você agiu de um jeito tão estranho quando perguntei. Você queria o Cálice.

 — Não — disse Daesung —, não para mim.

 A garganta de Taehyung estava seca como poeira.

 — Você trabalha para o Minhyuk — ele sussurrou.

 — Eu não trabalho para o Minhyuk — disse Daesung. Ele levantou a mão de Jungkook e pegou alguma coisa que ele estava segurando. O anel gravado que Jungkook sempre usava. Daesung o colocou no próprio dedo. — Mas sou o alfa de Minhyuk, isso é verdade. Com um rápido movimento, ele girou o anel três vezes em torno do próprio dedo. Por um momento, nada aconteceu; depois Taehyung ouviu o som de uma porta se abrindo e virou instintivamente para ver quem estava entrando na biblioteca. Quando virou mais uma vez, viu que o ar em volta de Daesung estava brilhando, como a superfície de um lago vista a distância. O véu brilhante do ar se partiu como uma cortina de prata, em seguida um alfa alto estava ao lado de Daesung, como se tivesse sido conjurado a partir do ar úmido.

 — Son — ele disse. — Você está com o Cálice?

Daesung ergueu o Cálice com as mãos, mas nada disse. Ele parecia paralisado, por medo ou por espanto, era impossível dizer. Taehyung sempre tivera a impressão de que ele era alto, mas agora parecia encolhido e pequeno.

 — Meu Lorde Minhyuk — ele disse afinal. — Não o esperava tão rapidamente.

 Minhyuk. Ele quase não se parecia com o menino alfa bonito da foto, embora os olhos ainda fossem pretos. O rosto não era como o que Taehyung esperava: era contido, fechado, introspectivo, rosto de padre, com olhos tristes. Saindo do terno feito sob medida, estavam as cicatrizes brancas que relatavam anos de estela.

 — Eu falei que viria a você por um Portal — ele disse. A voz era ressonante e estranhamente familiar. — Você não acreditou em mim?

 — Acreditei. Eu só... pensei que enviaria Shin ou Kang, não achei que viesse pessoalmente.

 — Você acha que eu os mandaria para buscar o Cálice? Não sou tolo. Conheço o valor desse objeto. — Minhyuk estendeu a mão, e Taehyung viu, brilhando, um anel igual ao de Jungkook. — Dê-me.

 Mas Daesung segurou o Cálice com firmeza.

 — Primeiro quero o que me prometeu.

 — Primeiro? Você não confia em mim, Son? — Minhyuk sorriu, bem-humorado. — Farei o que você pediu. Trato é trato. Mas devo confessar que fiquei surpreso em receber sua mensagem. Não achei que fosse se incomodar com uma vida de contemplação oculta, por assim dizer. Você nunca foi muito de campo de batalha.

 — Você não sabe como é — disse Daesung, soltando o ar com uma exclamação sibilante. — Sentir medo o tempo todo...

 — É verdade. Não sei. — A voz de Minhyuk era tão triste quanto os olhos, como se ele sentisse pena de Daesung. Mas também tinha desgosto no olhar, um traço de desdém. — Se não tinha a intenção de me entregar o Cálice — ele disse —, não deveria ter me convocado.

 Daesung fechou a cara.

 — Não é fácil trair aquilo em que se acredita, aqueles que confiam em você.

 — Você está falando dos Park ou dos filhos deles?

 — Ambos — disse Daesung.

 — Ah, os Park. — Minhyuk esticou a mão e acariciou o globo metálico sobre a mesa, os longos dedos contornando as linhas dos continentes e mares. — Mas o que você deve a eles, realmente? Você ficou com o castigo que deveria ter sido deles. Se eles não tivessem contatos tão influentes na Clave, teriam sofrido o mesmo destino que você. Hoje, eles estão livres para voltar para casa.  — Sua voz quando disse “casa” vibrou como todo o significado da palavra. O dedo dele havia deixado de se movimentar pelo globo; Taehyung tinha certeza de que ele estava tocando o lugar no qual Idris estaria. O olhar de Daesung se desviou.

 — Eles fizeram o que qualquer um teria feito.

 — Você não teria feito. Nem eu. Deixar um amigo sofrer em meu lugar? E você certamente deve ter algum rancor, Son, por saber que deixaram esse destino cair sobre você sem qualquer hesitação...

 Os ombros de Daesung balançaram.

 — Mas não é culpa das crianças. Elas não fizeram nada...

 — Nunca soube que você gostava tanto de crianças, Son — disse Minhyuk, como se achasse graça daquilo. Ele segurou o ar no peito.

 — Jungkook...

 — Você não vai falar sobre Jungkook. — Pela primeira vez, Minhyuk parecia bravo. Ele olhou para o menino alfa parado no chão. — Ele está sangrando — observou. — Por quê?

 Daesung segurou o Cálice contra o próprio coração. As juntas dos dedos estavam brancas.

 — O sangue não é dele. Ele está inconsciente, mas não está ferido. Minhyuk levantou a cabeça com um sorriso agradável.

 — Imagino — ele disse — o que ele vai pensar a seu respeito quando acordar. Traição nunca é uma coisa boa, mas trair uma criança... é uma traição dupla, você não acha?

 — Você não irá machucá-lo — sussurrou Daesung. — Você jurou que não iria machucá-lo.

 — Nunca fiz isso — disse Minhyuk. — Agora vamos. — Ele se afastou da mesa, em direção a Daesung, que recuou como um animal pequeno, encarcerado. Taehyung podia ver a tristeza dele.

 — E o que você faria se eu dissesse que planejava machucá-lo? Lutaria contra mim? Manteria o Cálice longe de mim? Mesmo que pudesse me matar, a Clave nunca retiraria seu castigo. Você se esconderia aqui até morrer, com medo até mesmo de abrir uma janela. O que você não faria para não ter mais que sentir medo? O que você não daria em troca de poder voltar para casa?

 Taehyung desviou o olhar. Ele não podia mais suportar a expressão na face de Daesung. Com a voz engasgada, ele disse:

 — Diga que não vai machucá-lo e entrego a você.

 — Não — disse Minhyuk. — Você vai me entregar independentemente disso. — Ele estendeu a mão. Daesung fechou os olhos. Por um instante, o rosto dele parecia de um dos anjos de mármore sobre a mesa, sofrida, pesada e esmagada sob um peso terrível. Depois resmungou, de forma patética, para si mesmo, e esticou a mão para entregar o Cálice Mortal a Minhyuk, embora estivesse com a mão tremendo como folhas ao vento.

 — Obrigado — disse Minhyuk. Ele pegou o Cálice e o examinou pensativo. — Acho que você danificou a borda.

 Daesung não disse nada. Estava com o rosto sombrio. Minhyuk se curvou e pegou Jungkook; ao levantá-lo gentilmente, Taehyung viu o paletó impecável esticar nos braços e nas costas e se deu conta de que ele era um alfa encorpado, com um torso que parecia o tronco de um carvalho. Jungkook, com os braços caídos, parecia uma criança.

 — Logo estará com o pai — disse Minhyuk, olhando para o rosto pálido de Jungkook. — Onde tem que estar.

 Daesung estremeceu. Minhyuk se afastou dele e andou de volta à cortina de ar brilhante através da qual havia entrado. Ele provavelmente deixara o Portal aberto, percebeu Taehyung. Olhar para a passagem era como olhar para a luz do sol refletida em um espelho. Daesung esticou uma mão suplicante.

 — Espere! — ele gritou. — E a sua promessa? Você jurou acabar com a minha maldição.

 — Isso é verdade — disse Minhyuk. Ele fez uma pausa, olhou fixamente para Daesung, que exclamou e recuou, com a mão voando para o peito, como se tivesse sido atingido no coração. Fluido escuro passou por entre os dedos esguios do tutor e atingiu o chão. Daesung levantou o rosto marcado para Minhyuk.

 — Pronto? — ele perguntou, ansioso. — A maldição se foi?

 — Sim — respondeu Minhyuk. — E que sua liberdade comprada lhe traga alegria. — E com isso ele atravessou a cortina de ar brilhante. Por um instante, ele parecia reluzir, como se estivesse embaixo d’água. Depois desapareceu, levando Jungkook consigo.


Notas Finais


iai gente me contem aqui nos comentários se vocês ja desconfiavam do Daesung? Me contém aqui o acharam que eu vou ta respondendo alguns comentários.


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