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História Shadows Over Chaos - jikook - Capítulo 3


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Capítulo 3 - Capítulo Dois


Park Jimin              

Me lembro de ter sonhado com olhos vermelhos.

Acordei antes de meu alarme programado a me despertar para o meu último primeiro dia de aula do ensino médio tocar. Fitei o teto de gesso por um tempo, transportando-me para universos de pensamentos bagunçados e incongruentes

Mesmo assim abafei os ouvidos com o travesseiro e deixei um grunhido de descontentamento escapar quando o despertador começou a tocar e o peguei da bancada ao lado da cama para por fim ao som irritante. Tomei coragem para me erguer da cama e andei para perto da janela.

Pude admirar a vista de um dia ensolarado no instante que abri as cortinas. Meu olhar desceu para a água suja da piscina e algum ânimo apossou de meu corpo. Hoje era dia de Abigail limpar a piscina e eu iria poder começar a preparar minha última festa de volta às aulas. E qualquer motivo para dar uma festa era bem vindo. 

Analisei o quarto grande ao meu redor. As paredes de tom bege claro eram enfeitadas de pisca pisca, fotos e pôsteres aleatórios esteticamente colocados, o chão em piso laminado tinha boa parte coberta por um tapete felpudo, closet, móveis modernos, televisão, escrivaninha com meu computador e a minha cadeira gamer cor de rosa. Por último e não menos importante: Um pouco mais longe do lado esquerdo da cama havia uma cadeira de balanço onde eu ficava apenas me balançando e olhando para o nada, perdido em meus pensamentos, em momentos importantes de reflexão ou quando estava simplesmente entediado. 

Fiz tudo o que todo mundo faz ao acordar pela manhã: mijei, tomei banho, escovei os dentes vestindo apenas a toalha na minha cintura e desse jeito caminhei em direção ao closet. Decidir a roupa para o primeiro dia de aula, definitivamente, era a tarefa difícil. 

Terminei de secar o cabelo e optei por uma camisa escura cuja as mangas eram longas e listradas, calça preta e folgada que continha uma corrente presa ao meu cinto feito colar seguindo pela lateral da minha perna e ao me aproximar do compartimento de sapatos peguei um par de coturnos plataforma e os calcei. 

Fiz minha mesma maquiagem de sempre, não era nada muito elaborado e pesado. Esfumei levemente a linha d'água com sombra lilás, destacando meus olhos castanhos esverdeados e com o delineador desenhei dois e pequenos  " x " em minha bochecha, pouco abaixo do olho esquerdo e no olho direito colei um único adesivo de strass na mesma região que o outro e pronto. Dava um toque legal em mim. 

Por último acrescentei alguns acessórios como anéis, pulseiras e uma gargantilha. 

Antes de descer para a cozinha, me vi em frente ao espelho adornado de pisca pisca. Impecável, óbvio. Chequei tudo uma última vez e saí do quarto. 

Pulando de dois em dois degraus e mais alguns passos até chegar à cozinha, podia-se ouvir as vozes de minha mãe, meu pai e vovó Rosie conversando misturando ao som do noticiário na televisão. 

— Bom dia, família — contornei a mesa, animadamente e beijando o topo da cabeça ou o rosto de cada um deles. Minhas mudanças de humor são confusas, instantâneas. Posso parecer incapaz de ficar bravo por muito tempo, mas é melhor do que ser um rabugento. — Menos para você — falei para a minha irmã, Tory. A pirralha me mostrou a língua em resposta e voltou a atenção para o seu cereal colorido. 

Minha mãe me avisou sobre o café estar quente, mas eu escolhi o suco de cranberry, enquanto isso papai falava sobre mais de suas filosofias de vida e vovó acendia um baseado na mesa do café da manhã. 

Abigail, como sempre ficava em pé no seu cantinho durante as refeições. Já a repreendemos sobre isso, não era necessário, mas ela insistia em "manter as éticas". 

— ... Aristóteles cita a Hamartia, que tem como significado "falha trágica de um herói". Hamartia se relaciona com o erro, o pecado, a culpa. Ela está presente em nosso cotidiano: quando tudo vai bem... até que por um pequeno deslize, puff! — ele finge uma explosão com os dedos. — Tudo começa a desmoronar. Não é algo que possa ser evitado, acontece com todas as pessoas, independente de suas virtudes. A hamartia é uma lei natural. — Park Applegate explicava com fascínio nos olhos oblíquos. Ele era completamente apaixonado por filosofia, não é atoa que Applegate atua como professor de filosofia em uma das melhores universidades do país. 

— Para mim, isso é tudo uma grande bobagem — Vovó diz, soltando arcos e mais arcos de fumaça. Mamãe fez uma careta, desaprovando as atitudes da sogra e abanando com uma mão para a fumaça que ia em sua direção fosse para bem longe. 

— Hmm, hamartia acontece comigo o tempo inteiro, então... — Brinquei ao pensar em voz alta. Coloco uma panqueca no prato e despejo a calda de mel por cima. 

Avistei o frasco do molho de shoyu sobre a bancada e tive meu momento lâmpada acendendo sobre minha cabeça. Estiquei-me para pegar. 

Essa combinação eu nunca tinha experimentado antes. Digamos que eu tenha uma certa mania de fazer combinações estranhas com comidas quando vou comer, mas obviamente que não é toda vez e a maioria que já provei ficaram super deliciosas, sério. Todo mundo devia experimentar pelo menos uma vez na vida batata frita com sorvete. 

— Eca, totalmente nojento — Tory diz, vendo-me colocar shoyu numa panqueca

Eu iria retrucar, mas a voz da advogada renomada Park Litzy interrompeu as conversas naquela mesa. Era sobre o noticiário na TV. 

— Vocês viram isso? — Litzy soou indignada. — Que tipo de maluco ataca o Space Needle e consegue quebrar as vidraças desse jeito? 

A torre de observação de Seattle teve grande parte do vidro de proteção quebrado essa manhã, ninguém fazia ideia de como aquilo havia sido feito. 

A repórter entrevistava o casal de turistas que conseguiram sair vivos. 

— Me lembro que eram quatro homens encapuzados. Estavam atrás de alguma coisa... — A mulher holandesa depôs abalada. 

— Você poderia nos dizer o que era? — indagou a repórter, intercalando o foco com seu microfone ao homem e a mulher. 

— Disseram que estavam atrás de uma tal de divindade. Foi o que entendi, aconteceu tudo muito rápido. — O turista respondeu pela esposa e a entrevista se encerrou ali poucos segundos depois. 

Percebi meu pai assumir uma postura tensa em sua cadeira e logo depois se colocar de pé. Minha mãe o observa vestir seu paletó, cheia de perguntas a fazer pelo que seu olhar transmitia. 

— Eu tenho que passar no escritório. — explicou-se. Mais apressado impossível. 

— Amor, você nem terminou o café da manhã — Litzy proferiu, buscando compreensão nas ações de meu pai ao seguí-lo com o olhar sair da cozinha. 

— Que estranho — murmurou a Park caçula com quem eu tinha um carinho especial em implicar. 

— Aposto que foi ver vídeos de sexo — vovó falou de repente. 

Tory e eu rimos discretamente. 

— Rosie! — Mamãe repreendeu. — Tem crianças na mesa. 

— Ora, como se eles não soubessem o que é isso. 

Dei uma mordida na minha panqueca. Estava com um gosto horrível. Cuspi de volta no prato a massa triturada feita meus dentes. 

Fiz uma careta e usei o dorso da mão para limpar a boca. 

— Eu falei que era nojento — Tory disse para mim. 

— Cuida da sua vida! 

— Cuida da sua vida — Ela me imitou infantilmente. 

— Vocês dois parem de brigar! — Nossa mãe ordenou irritadiça. — Todo dia é a mesma coisa. Quando vão finalmente aprender a se darem bem? 

Nós nos damos bem, só não é o tempo todo. Coisa de irmãos. Park Litzy jamais entenderia porque sempre foi filha única. Eu amo a minha irmãzinha e sei que ela também me ama. Constantemente estamos demonstrando nosso afeto um pelo outro através de ofensas, trollagem, arranhões e outros gestos super amorosos. 

— Rosie, será que você pode levar eles para o colégio? — Litzy pedira, enquanto tirava os fios não tão longos e nem curtos de tom castanho médio de dentro do blazer vinho ao vesti-lo. — Eu ainda preciso ir no Scaffer para assinar umas papeladas e não posso me atrasar para o caso de hoje. 

— Mãe?! — Tory protestou. — Eu posso muito bem ir no ônibus escolar. 

— Não vejo a hora de morrer — vovó resmungou, dessa vez bebia um copo de conhaque. Ela é a pessoa mais empenhada que já conheci. 

— Nem pensar, mocinha. Se lembra de quando recebi uma ligação no meio de um tribunal e era o diretor Frank dizendo sobre suas misteriosas faltas constantes? Você quase repetiu o ano, Tory! Estava mentindo para mim e para o seu pai que ia à escola. 

Caramba. 

— Isso nunca mais vai acontecer! — ela falava alto, em desespero pela perda de sua independência de poder andar sozinha. — Eu juro. 

Encarei minhas unhas curtas e precisando urgentemente serem lixadas. Até que um esmalte não cairia mal. 

— Regras são regras — Senhora Park insistiu nas suas ordens de restrições severas, passando uma alça da bolsa estilosa por seu corpo esbelto e caminhando da cozinha à sala atrás do que imagino ser as chaves do carro ou qualquer outra coisa essencial a se levar ao sair para algum lugar. 

— Quando vai confiar na gente de novo? — perguntei fazendo beicinho. 

Enquanto minha irmã era punida por um erro do ano passado, eu era punido por um mais recente. Do tipo recente de duas semanas atrás...

Talvez, só talvez, sem querer eu tivesse invadido o quintal de um desconhecido com o carro e tenha passado a noite na delegacia. Mas como eu ia saber que ter um pouco mais de 2,5 g/l de concentração de etanol no meu sangue enquanto eu dirigia a 60 km/h causaria um dano assim? 

— Talvez, quando vocês tiverem uma casa própria e contas para pagar. 

Mesmo assim, Senhora Park volta para a cozinha e deposita um beijo no topo da cabeça de seus dois amados filhos, despedindo-se carinhosamente e desejando que tenhamos um ótimo primeiro dia de aula. 

                      ☠ ☠ ☠ 

Nem vovó quanto Tory e eu queríamos ir ao colégio a pé. Por isso tive a brilhante ideia de pegarmos o Corvette reserva do papai. 

Ao meu lado, no banco da frente, Rosie dirigia ao som de Another Brick in the Wall de Pink Floyd. 

Para Park Rosiealy não existia restrições de terceira idade. Com suas roupas justas de couro, ou às vezes estampadas demais, tatuagens simbólicas quase que pelo corpo inteiro, dois piercing's na boca e seu icônico cabelo vermelho sangue raspado só de um lado causavam estranhamento nos incomodados por ela simplesmente ser ela mesma e foda-se o resto. 

— Hey! Teacher! Leave us kids alone! — Vovó e eu cantávamos. Eu fingia que minha mão era um microfone e ela batia a mão no volante nas vezes que se empolgava. — All in all, you're just another brick in the wall. All in all, you're just another brick in the wall... — Rosie bateu o ombro contra o meu e eu deixei um riso escapar. 

O percurso para o colégio nos garantia a vista além da região metropolitana do grande polo tecnológico que era Seattle. Com parques, montanhas, florestas perenes, cercada pelo lago Washington a leste e pelo Puget Sound a oeste. 

— É meio macabro escutar essa música enquanto estamos indo à escola — minha irmã comentou, sentada ao centro do banco de trás. 

Vovó estacionou o carro na calçada em frente à escola. Encarei a extensão da construção de arquitetura rústica e moderna de Autumn High como se fosse a primeira vez. Alunos de todas as séries ocupavam o gramado e as arcadas, alguns sorridentes ao reencontrarem os amigos e outros nem tanto. 

— Tenham uma boa aula, pirralhos — Vovó dizia quando já saíamos do veículo. — Estudem bastante e dêem orgulho aos seus pais. Não sejam vagabundos como o avô de vocês, que morreu de infarto por cair da cadeira. 

A história da morte do vovô nunca perderia a graça. Quem sabe eu fosse ao inferno por isso e outras coisas mais. 

Minha irmã e eu acenamos para vovó, lado a lado. Esperamos Rosie sumir de vista com o Corvette para nos separarmos e cada um ir em direção a seu grupo de amigos. 

Sou cumprimentado por uma generosa quantidade de conhecidos pela escola adentro. 

Uma das desvantagens de ser popular é: não tem desvantagem. E isso também não é uma desvantagem. 

Eu não estaria exatamente ferrado se não fizesse parte do grupo dos populares. Sou faixa preta em karatê, então nenhum valentão meia boca que tem por aqui teria alguma chance comigo. Além de minha inegável beleza, ser bom no hóquei foi um dos fatores que contribuiriam para a minha popularidade. 

Sou pego de surpreso quando sinto alguém me agarrar pela cintura e esse gesto me faz desconfiar que estava faltando alguma coisa, mas não fazia ideia do que poderia ser. 

Chad. Não a coisa que eu achava estar esquecendo, mas sim a pessoa que me agarrou do nada. 

— Oi. Não retornou minhas ligações durante o verão inteiro — Disse o garoto branquelo de cabelos loiros descoloridos e  bagunçados, trajando vestimentas gastas e folgadas demais para ele. Chad tenta alcançar minha boca para um beijo e eu me esquivo prevenidamente. 

— Pois é, eu perdi meu celular — menti descaradamente. Sorrindo, para variar. — Dá para acreditar? 

— Mas eu vi um stories seu de quinze minutos atrás — seus olhos cor de mel me analisavam interrogatórios, olheiras escuras em contraste a pele branca e levemente sardenta já eram marca registrada de seu visual desleixado. Era charmoso nele. — Uma foto. Você estava no carro e na legenda tinha um emoji de panda. 

Oops. 

— Parece que eu encontrei — um riso sem graça me foi arrancado. Eu não sabia identificar por sua expressão se de fato ele havia acreditado em mais uma de minhas mentiras. 

Chad e eu "ficamos" uma vez, antes disso eu trocava mensagens carinhosas com ele até o momento que fôssemos para os finalmentes e depois que eu consegui o que queria passei a lhe presentear com vários vácuos e foras subliminares. 

Não achei que ele se importaria já que se dizia ser "hetéro". 

— Jimin, olha eu sei que... 

Ih, começou. 

— ... Meus pais querem muito te conhecer. 

— Ah... — ele estava em expectativa de que eu desse uma resposta relevante. Eu não tinha. 

— Fala aí, Park! — Yoongi havia chegado para me resgatar. Ele passa o braço por meu ombro, encarando Chad com um sorriso amigável no rosto e depois se volta para mim. — Se lembra daquele nosso compromisso? 

— Oh, aquele compromisso. 

Eu nem sabia que compromisso era esse. 

Sem nem poder me despedir do loirinho bonito, Yoongi já foi me puxando para um canto quase nada mais afastado de onde os estudantes circulavam. 

— Meu herói! — abracei Yoongi. Ele me soltou abruptamente. — Você me salvou. 

— Era só você dizer "não" — Min rolou os olhinhos pequenos. 

— Não sei dizer não. 

— Não sabe ou só tem o prazer em brincar com os sentimentos das pessoas? 

— Eu não brinco com os sentimentos de ninguém! — respondi na defensiva. 

— Tá, tanto faz — cortou o assunto para evitar gerar uma discussão. — Não foi para isso que te chamei. Enfim, tem alguma coisa muito estranha acontecendo com o Namjoon, se lembra de quando eu disse que ele estava ignorando minhas mensagens as férias inteiras? Bom... 

Enquanto eu escutava o que Yoongi queria me dizer senti a ponta de meu dedo queimar e não pude evitar um grunhido de dor porque a sensação que tive foi de ter triscado meu dedo próximo a uma fogueira e foi   assustadoramente real para mim, embora nada tenha me afetado no sentido físico. Yoongi para de falar, me olhando preocupado e pergunta se estou bem. Respondo monossilábicamente um sim sobre algo que nem eu mesmo havia entendido que tinha acontecido comigo. 

A ardência de uma quase queimadura passou, mas não o espanto e a estranheza gerou a curiosidade.   

Isso foi bem estranho.

— Gente, vocês não vão acreditar! — Hoseok chegou, parecendo eufórico em contar alguma novidade. O ruivo para de andar ao já estar próximo de nós e por algum motivo seu olhar pousou primeiro em mim e nisso sua expressão se torna estranha e engraçada à medida que fraze o cenho. — Cadê sua mochila? 

Como assim?

Ah, fala sério. Eu bem estranhei a ausência de um leve peso em minhas costas e a sensação de algo faltando claramente não foi por nada. Que droga, por que a vovó e nem  a Tory me avisaram? 

Minha sorte era que minha casa não ficava tão longe assim da escola, se eu saísse daqui agora correndo rápido ao máximo só para pegar minha mochila e voltar, chegaria a tempo para a primeira aula. Pelo menos era o que minhas esperanças me diziam. 

Então, o sinal para o primeiro tempo de aula tocou.

— Eu já volto! — Disse para os meus amigos.

As aulas começam às oito. 

Eu saí da escola para minha casa às oito. 

                          ☠ ☠ ☠ 

Estou na sala do diretor. 

Resumindo o que aconteceu: Fui para casa e busquei minha mochila, no caminho de volta para o colégio quase fui atropelado por uma bicicleta. Quando cheguei vi que os portões já estavam fechados, sendo assim tentei pular o muro que os alunos usam para matar aula, mas eu me ferrei lindamente porque Park Azarado Jimin havia sido pego em flagrante pela cuidadora de Elliott quando ela estavam saindo para tomar sorvete em uma sorveteria que ficava a duas quadras da escola. Claro que passou pela cabeça dela a ideia de que eu estivesse cabulando e agora eu estava aqui, encrencado. 

Tudo o que eu menos precisava era dar mais um motivo a minha mãe para que ela me prendesse em uma gaiola de vez. 

— Diretor, eu posso explicar! 

— Não há nada para explicar, Park — Frank diz com a voz grossa, arrumando os papéis em uma pasta. Ele era um homem negro, tinha pouco mais de trinta anos,  careca e possuía uma barba por fazer. Sabia ser bem rigoroso quando queria, mas tinha um lado muito mais divertido nas horas vagas. — Essa não seria a primeira vez que você faz coisas desse tipo. É o aluno mais bagunceiro desta escola e tem um longo histórico de presenças na diretoria. 

Que exagero. Eu nem sou tão bagunceiro assim! 

— Mas... 

— Senhor Reyes, temos um aluno novo — a voz da inspetora ecoa atrás de mim. O diretor ergue os olhos para a chegada de mais outra presença em seu ambiente, e como o curioso que sou, eu também me viro para olhar quem era. 

Por pouco não deixei meu queixo cair no instante que coloquei meus olhos em Jungkook. 

Ele usava uma camisa preta com as mangas longas dobradas aos cotovelos, revelando algumas das tatuagens que sei que ele tinha. Seus cabelos pretos estava um pouco umidos e penteados para um lado de forma que a mecha da frente sobre a testa caísse algumas vezes em seu olho. Ele era ainda mais belo do que eu me lembrava.

Oh, isso não é bom... Não quando me lembro perfeitamente bem de como seus olhos ficaram vermelhos naquela noite.  Foi a  experiência mais assustadora da minha vida. Prometi a mim mesmo que não pensaria  nunca mais sobre aquilo e muito menos comentaria com alguém uma vez que tudo que eu faria seria apenas deixar pra lá. Iria esquecer disso, bem como esqueci o que aconteceu entre a gente. 

E lá estava ele, com o olhar estreito na minha direção enquanto eu tentava não demonstrar o meu impacto em vê-lo de novo. Tive que engolir em seco.  

Estou começando a ficar seriamente preocupado com minha segurança em questão. 

Não sou neurótico, mas também não sou burro. Eu acho. 

Mas por que ele veio estudar aqui? Quer dizer, logo aqui?! 

Não que eu esteja reclamando... Eu adoro ter alguém aos meus pés e correndo atrás de mim. Até que é bonitinho, sabe? tipo até onde é saudável. Isso começava a ficar emocionante. 

— Como se chama, rapaz? — Indagou o diretor. 

— Jeon Jungkook, senhor. — o tom obediente de voz quase me fez cruzar as pernas. 

A mulher que havia chegado com Jungkook saiu da sala, e ao que em pedido do diretor, Jeon sentou-se na cadeira ao lado da minha e eu pude sentir mais de perto o perfume masculino e característico. 

Fiquei brincando com os anéis que cobrem meus dedos durante o breve diálogo do diretor com o aluno novo. Em alguns momentos eu percebia o olhar discreto do novato em mim, embora eu nunca o olhasse de volta. 

— E quanto a você... 

Hum, tava demorando. 

— Esqueci minha mochila quando vim para a escola e tive que voltar em casa para buscar, mas os portões já estavam fechados, então minha única opção foi pular o muro. Como você sabe, eu sou um aluno exemplar e nunca perco uma aula — Eu estava falando mais rápido que o meu amigo, Yoongi. — Foi tudo um engano. Eu não estava matando aula. 

O diretor ainda me olhava desconfiado, enquanto Jungkook me encarava com um olhar que dizia "quem vai para a escola e esquece de trazer a mochila?". 

— Para a sua sorte, Park. — Reyes começou. — Eu sou uma pessoa muito empática, compreensíva e sujeita a dar segundas chances para aqueles que dificilmente merecem — ele dizia e eu assentia com a cabeça repetidas vezes desesperado pelo seu perdão. — Não quero ouvir mais uma reclamação sobre você. 

Pode deixar, nem eu quero! 

— O senhor não vai se arrepender! — Mostrei um sorriso radiante. — Serei um aluno nota dez e você até irá se esquecer que eu existo de tão quietinho que eu vou ser de agora em diante — fiz um gesto que imitava o ato de fechar um zíper imaginário em minha boca. — Promessa de dedinho. 

Pude perceber de olhar de relance a expressão risonha no rosto de Jungkook e consideravelmente gentil. 

— Sem promessa de dedinho — Frank  recusou friamente, concentrando-se na tela do computador a sua frente. Abaixei meu dedo mindinho e pequenininho. — Preciso que leve Jeon à sala de aula — pediu-me, entregando um papel. 

Travei por um momento, mas logo forcei um sorriso. 

— Sim, senhor! — levantei-me, batendo continência. 

Saí da diretoria junto com o novato. 

Passei pela porta na frente de Jungkook, que me seguia logo atrás durante o caminho iniciado rumo à sala de aula, lendo apressadamente aquele papel até saber qual era a sala dele que eu teria de levá-lo. 

Eu ainda precisava passar no meu armário, mas faria isso depois que cumprisse a missão de deixar Jungkook em seu destino. 

— Então... — Jungkook quebrou o silêncio da nossa breve caminhada para o segundo andar. — Eu acho que o universo quer a gente junto. 

A forma brincalhona como ele disse me fez expor um sorriso involuntário. Sorrindo de nervoso. 

— O universo... Ou você? — Seu sorriso retribuiu o meu. — Cuidado para eu não entender isso como uma perseguição. Aí teremos problemas. 

— O único problema aqui seria eu te querer, loirinho — ele pisca para mim e há um toque debochado na maneira como faz. Ele sabe que isso me pegou desprevenido. 

— Sinto muito — entrei no seu joguinho. — Mas não repito figurinha. 

— Veremos até quando — ele se aproxima de mim só para dizer, como se me contasse um segredo, está sorrindo e me olhando do modo mais depravado que já vi.

Me sinto exposto aos seus olhos. A temperatura em meu corpo se eleva junto ao ambiente. Está muito quente.

Ótimo, encontrei alguém tão convencido e inconveniente quanto eu.

— Hum, não vai rolar — falei cinicamente. — Lide com isso e volte mais tarde.

Meu pé foi de encontro com o primeiro degrau da escadaria que nos destinaria ao andar de cima. 

Escutei a risada anasalada de Jungkook ecoar na escadaria. Acho que alguém estava ficando impaciente. 

—  Engraçadinho. Agora é sério — de fato, ele estava bem mais sério. Ao contrário de mim que levava tudo para o lado da brincadeira. — Sabe o que aconteceu naquela noite e não finja que se esqueceu — engoli em seco. — Quem é você? 

— Por que quer saber? O que quer de mim? — questionei de volta. — Por que veio para cá? 

Chegamos no ponto onde imagino que ele queria.

Paramos em frente à porta mais próxima ao fim da escada. Jungkook se virou para mim, seus olhos se mantiveram no meu rosto. Ambos parados. Me perguntei o que se passava em sua cabeça para ele ainda não ter entrado na sala. 

A verdade é que nem mesmo ele parece saber a resposta. Ainda sim, ele me deixa em um estranho tipo de alerta. Mas eu finjo não me abalar, principalmente quando ele ergue os olhos para a minha boca, nariz, olhos... Ficamos presos no olhar um do outro por algum tempo. 

Minha mente viaja para a noite na boate, a cabine marcada como nossa. Eu me lembro da forma selvagem de como as mãos de Jungkook percorriam por meu corpo, como ele me beijava com vontade e me fodia com uma fome quase insaciável. 

Todavia, me contive ao voltar para a realidade. E Jungkook parece finalmente saber a resposta:

— Porque... — Ele busca as palavras, escolhe as que estão ao alcance do que seria o mais próximo do certo para ele, mas não foi o suficiente porque algo em sua voz se nega a isso. — Você mexeu comigo.

Um arrepio subiu na minha espinha e eu me senti como se tivesse perdido capacidade de falar. Mas só consegui rir. 

— Acho que seu problema é carência — é tudo que digo.

Jungkook sorri amargamente. Ele sorri sem mostrar os dentes e sinto que faz um esforço para não se aproximar mais que o necessário. 

— Nos vemos por aí, loirinho. 

Tive a atenção de seus olhos completamente escuros aprisionados em mim por um bom tempo e aquilo tornou a minha manhã muito mais interessante do que eu esperava. Minha carga de energia recarregada ocasionada pelos arrepios que subiram por minha coluna, espantando qualquer desânimo que alguém poderia ter num primeiro dia de aula. Jeon Jungkook era minha nova fonte de energia e observá-lo de perto era perigoso para minha sanidade. 

Girei em meus calcanhares, lhe dando as costas, caminhando para o corredor. 

Esse vai ser um ano interessante.  


Notas Finais


Eai pessoas! Como vcs estão?

Espero que tenham gostado do capítulo :)

Contem para mim o que estão achando, quais são as suas teorias, alguma crítica construtiva e etc. Eu vou adorar saber 😊

Beijos e até o próximo capítulo 💜


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