História Sharpened Soul - Capítulo 1


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Categorias Monsta X
Personagens I'M, Joo Heon, Won Ho
Tags Dark, Jooheon, Malsuk!mention, Monsta X, Wonheon, Wonho, Wonhoney
Visualizações 11
Palavras 4.855
Terminada Sim
NÃO RECOMENDADO PARA MENORES DE 16 ANOS
Gêneros: Drama (Tragédia), LGBT, Mistério, Sobrenatural, Suspense, Violência
Avisos: Homossexualidade, Insinuação de sexo, Linguagem Imprópria, Violência
Aviso legal
Os personagens encontrados nesta história são apenas alusões a pessoas reais e nenhuma das situações e personalidades aqui encontradas refletem a realidade, tratando-se esta obra, de uma ficção. Os eventuais personagens originais desta história são de minha propriedade intelectual. História sem fins lucrativos, feita apenas de fã para fã sem o objetivo de denegrir ou violar as imagens dos artistas.

Notas do Autor


Como outubro tem todo aquele clima dark do Halloween, eu decidi postar essa fic este mês. O esboço é de 2016, mas eu nunca tinha conseguido terminá-la no outro fandom, até que encaixei WonHeon e encontrei o couple perfeito?

Espero que vocês gostem!

observação: Malsuk é a cachorrinha que aparece no reality do Monsta X "Puppy Day".

Capítulo 1 - Capítulo único


Hoseok tinha seis anos quando conheceu aquele que viria a se tornar o seu melhor amigo. Saíra da casa dos avós, onde passava as férias com a família, e fora brincar com seu aviãozinho de papel, deparando-se com os extensos gramados tomados por mato e pedrinhas. Ele sempre se recordava desse momento, de ter sentido curiosidade ao avistar um menino ao longe, sentado perto de um monte de terra que ele percebeu ser parte de um buraco cavado há pouco tempo, quando se aproximou e perguntou o que estava acontecendo.

 

O nome daquele menino era Jooheon e, embora estivesse tomado de uma grandiosa tristeza, tinha a expressão séria e a voz controlada quando respondeu a Hoseok que sua cachorrinha havia morrido e que ele estava fazendo uma cerimônia para enterrá-la naquele local. Hoseok se sentou junto a Jooheon e chorou pelos dois durante muito tempo, até o momento em que Jooheon se levantou e se ajoelhou em seguida, empurrando a terra de volta ao buraco, cobrindo a pequena caixa de sapatos que ali ele depositara. As mãos pequenas de Hoseok também se sujaram, pois o que mais ele faria a não ser ajudar? Sem saber rezar, ambos prestaram suas condolências ao filhote com o silêncio mais respeitoso possível e quando Jooheon agradeceu a Hoseok pela companhia, eles conseguiram sorrir um para o outro e se despediram.

 

Depois de quinze anos, tal cena continuou registrada na mente de Hoseok como numa fotografia antiga: pouca alteração, algum detalhe perdido nas bordas, cores um tantinho enfraquecidas, mas com a mesma capacidade de trazer memórias à tona em um segundo. E se não quisesse desgastar tal preciosidade, simplesmente procurava um entre seus tantos álbuns para encontrar fotografias daquele lugar, tiradas ano a ano, em todas as vezes em que fora passar as férias com os avós e aproveitava para estreitar laços com Jooheon.

 

Com vinte e um, Hoseok trabalhava com mais dois amigos, Lee Minhyuk e Chae Hyungwon, e não estavam longe de se tornar membros de um estúdio de renome, o que não parecia importar nem um pouco. Suas fotos haviam sido publicadas em diversas revistas e sites, mas o que lhes dava mais orgulho eram as pequenas exposições das quais participavam. Dividindo espaço com outros grandes artistas, eles se sentiam completos ao receberem todo tipo de olhares sobre suas obras.

 

O grande momento, assim eles o chamavam, estava muito perto de se concretizar e era isso o que deixava Hoseok extremamente nervoso e contente ao mesmo tempo. Na semana anterior, tinha se encontrado com Son Hyunwoo e Yoo Kihyun, parceiros de seus amigos no projeto atual do estúdio, e os resultados trazidos eram nada menos que fantásticos. Cabia a Hoseok, que partiria dali uma semana, trazer ao estúdio a cereja do bolo, as obras que criaria junto ao seu lugar preferido na Terra e também junto da pessoa que era a mais importante para ele, aka seu melhor amigo, Jooheon. Hoseok mal podia esperar por esse acontecimento.

 

-------

 

Em uma semana, Hoseok estaria naquela sala, suas malas no quarto e o que sempre fora comum para Jooheon, ao menos nos últimos anos, de repente lhe causava um pequeno desespero interno difícil de se explicar. Na última vez, depois que Hoseok foi embora e a casa foi novamente tomada pelo vazio de um homem só, Jooheon se lembrava de ter se sentado naquela mesma poltrona e chorado por nenhum motivo específico. Toda vez que tentava encontrar uma razão para tal momento de fraqueza e vergonha, pensava em alternativas que iam da suposta imediata saudade até o desenvolvimento de um sentimento mais pegajoso; do medo de que o contato via telefone e internet não fosse suficiente até a lembrança do corpinho do filhote que descansava dentro de uma caixa de sapatos no terreno vizinho.

 

A verdade é que Jooheon não entendia e não queria entender o que sentia. Nunca pôde fazê-lo, desde que era pequeno, muito antes de conhecer Hoseok. Quando Jooheon estava triste, não conseguia chorar e quando chorava não sabia o que lhe levava às lágrimas. Quando sorria, nem sempre era por estar feliz e quando estava tranquilo era, ao mesmo tempo, tomado de uma angústia raza que martelava dentro de si como uma dor de cabeça fraca que o irritava durante horas. Apenas o cansaço era uma sensação única, que o lançava sobre qualquer móvel e até mesmo sobre o chão e lhe pedia para que fechasse os olhos e adormece um pouco, até ter energia para se levantar e voltar a fazer o que bem entendesse.

 

Quando Hoseok vinha passar as férias e depois, quando ele vinha apenas para encontrar-se com seu melhor amigo, Jooheon parava de prestar atenção à essas suas pequenas estranhezas. Hoseok lhe fazia bem, era uma boa companhia, era como se brilhasse e como se o coração dele pulsasse por ambos, como se Jooheon fosse um rim com problemas e Hoseok a máquina de hemodiálise.

 

Mas, no último ano, dois meses depois da última visita de Hoseok, Jooheon conheceu Changkyun e alguma coisa diferente pairou no ar desde então. Ele parou de se ater às bizarras reações de seu corpo e deu lugar ao fascínio de estar ao lado de alguém que tinha fala rude, mas gestos sutis; olhar maldoso, mas semblante angelical. Changkyun, que era um enigma, também lhe era o modelo perfeito. E se não pudesse tirar-lhe uma foto todos os dias, então isto lhe soava torturante. Havia momentos em que desapegava de suas horas de sono sagradas para trabalhar com as fotos que tirava e desejava que Changkyun ficasse, mas ele nunca podia passar a noite. Jooheon estava sempre de olho em sua nova companhia, sempre alerta às possíveis boas capturas, a câmera parecia não descansar assim como sua admiração pela beleza única do garoto.

 

Jooheon talvez não se importasse em admitir que agora ele tinha um vício, mas não deixava isso claro através de palavras. Quando Hoseok lhe propôs fazer parte do projeto do estúdio, numa colaboração, Jooheon aceitou apenas porque seria a melhor oportunidade de apresentar Changkyun a seu melhor amigo.

 

Ele só não tinha certeza se esta era a coisa certa a se fazer.

 

-------

 

Hoseok desceu do táxi e sacou o celular para avisar aos amigos que havia chegado são e salvo a seu destino. Minhyuk lhe respondeu de forma animada, desejando boa sorte, e Hoseok riu, pois sabia que não era disso o que precisava. Espreguiçou-se, apreciando a brisa daquele lugar tão familiar, do qual tinha sentido imensa saudade e avistou a casa onde Jooheon morava, em meio a terrenos vazios e árvores com as poucas folhas alaranjadas do outono. Chamou por Jooheon quando alcançou o alpendre, a decoração rústica lhe abrindo os braços como sempre fazia, a familiaridade do lugar lhe aumentando o sorriso. Mas não era Jooheon quem vinha e sim outro rapaz, de cabelos loiros curtos e sobrancelhas escuras, de calças largas na cor magenta, regata branca e um casaco listrado de branco e preto que mais parecia parte de um conjunto de pijama. Estendeu-lhe a mão, o estranho, e disse que ele podia entrar, sem cerimônia.

 

Hoseok estranhou e não se moveu, estava prestes a chamar por Jooheon novamente quando percebeu que a porta estava aberta. O garoto lhe deu as costas depois de ter o aperto de mãos ignorado e gritou:

 

- Hoseok está aqui!

 

A sala de estar não tinha muitos móveis - apenas dois sofás pretos de dois lugares cada, mesinha de centro e de lateral, um aparador com as bebidas do avô de Jooheon, quadros e uma cadeira vintage. Era pouco por conta da extensão exagerada do cômodo - setenta metros quadrados ou mais - e Hoseok se distraiu com o grande lençol branco estendido na segunda metade da sala, talvez sendo usado como cenário para fotografias. As grandes janelas laterais estavam abertas e as cortinas também se movimentavam criando cenas e fazendo coçar os dedos de Hoseok, que estava louco para captar aqueles instantes.

 

Jooheon apareceu pelo corredor e o visitante sorriu, deixando de lado seus pensamentos. Tudo o que Hoseok podia enxergar agora era seu melhor amigo com os cabelos negros - que o deixavam diferente da figura que o detivera em sua última estadia ali, de cabelos descoloridos, mas sempre igual ao garoto que conhecera quinze anos antes -, a magreza natural e o olhar sincero. As habituais roupas pretas lhe deixavam ainda mais franzino e Hoseok quis abraçá-lo porque era sempre melhor quando ele estava ali.

 

Naquele mesmo dia eles começaram com o projeto, esboços de cenários surgiram em pedaços de papel branco e grafite e Hoseok ficou sabendo que Changkyun era o modelo preferido de Jooheon, senão o único em meses, a quem havia conhecido por acaso, no centro da cidade. Naedong era pequenina, talvez uma das menores cidades da província. Jooheon também contou que Changkyun morava com os avós há cinco terrenos dali, mais ou menos cinco minutos a passos lentos, vinha todos os dias e ficava durante horas. Deveria ser um bom rapaz, Hoseok pensou, mas algo nesta história lhe atiçava certo receio.

 

Quando Jooheon e Hoseok finalmente ficaram sozinhos, de noite, o mais novo deles quis saber se o visitante se importaria em dividir o quarto consigo, uma vez que o segundo quarto da casa tinha sido transformado em estúdio. Era uma pergunta simples, apenas para certificação de que as coisas ainda eram as mesmas entre eles, portanto, a resposta era óbvia.

 

Hoseok dormiu com um sorriso no rosto, com as mãos quentes de Jooheon sobre seu corpo e com o cheiro de seu melhor amigo por toda parte.

 

-------

 

Enquanto Changkyun espairecia sentado no chão ao lado das grandes janelas, brincando com as cortinas que balançavam com o vento, Jooheon e Hoseok analisavam algumas das fotografias tiradas pelos outros membros do estúdio para compor o projeto. Jooheon admirava o trabalho deles e tinha imaginado, algumas vezes, como seria fazer parte da equipe. O grande empecilho era ter de se mudar dali, ir para a cidade grande, ter de aceitar fotografar coisas de que ele não gostava apenas por causa do dinheiro e de contratos. Jooheon não era do tipo que se amarrava, embora estivesse criando raízes no chão que seus pés nunca abandonaram. Naedong sempre foi a sua cidadezinha triste, onde toda a sua família descansava.

 

Era ali que estava a sua cachorrinha, a quem não tivera tempo de dar um nome. Ele tinha nove anos quando contou a Hoseok como ela morreu: três dias de vida, o filhote mais fraco, o único que sobreviveu depois que a mãe matou toda a ninhada. Era minúscula e Jooheon queria lhe dar um nome especial, mas se ela não podia mais ouvir e nem reagir, então não havia sentido em criar um para chamá-la.

Era ali que Changkyun vivia e Jooheon não tinha certeza se desistiria tão facilmente de um modelo como aquele.

 

Hoseok lhe explicou sobre a temática adotada, sobre as cores fortes que ganhavam destaque nas fotografias de Minhyuk, imagens misturando movimento e alegria, assim como o garoto era, cheio de vida e falante. As fotos de Hyungwon traziam imagens que se referiam à descoberta, ao que estava lá fora, paisagens que gritavam pela liberdade, justamente por conta de sua pouca idade, mostrando talvez os próprios desejos. Kihyun tinha imagens mais escuras e sombrias, mas sempre havia um objeto destacado que reluzia em meio à sensações, algo para surpreender, tal como ele era, intelectual; também sempre havia alguma palavra escrita de forma discreta, como uma pista. Hyunwoo, como oposto, fotografava coisas mais puras, paisagens claras e que quase podiam cegar, e sempre havia algo macabro como detalhe, uma cor quente atolada em tons pastéis, agridoce e um tanto quanto brincalhão. Hoseok achava que ele era confuso e por isso terminava com fotografias como aquelas.

 

- Estou obcecado pela água - Hoseok comentou. Planejava ir até a casa dos avós, agora vazia, e aproveitar os móveis cobertos de poeira para criar a atmosfera perfeita para suas fotos, mas o que ele mais desejava era a chuva que não viria tão cedo. Jooheon sorriu e contou que estivera brincando com fogo em um breve ensaio, mas sua fixação havia cessado quando Changkyun se queimou por acidente.

- A cicatriz lhe tirou a inspiração. - Changkyun se intrometeu e deu um risinho que fez Jooheon revirar os olhos.

- Os detalhes são importantes - Jooheon explicou. - O ensaio era sobre ser tomado interna e mentalmente, não fisicamente.

 

Hoseok sorriu amarelo e brincou sobre suas escolhas opostas na temática das imagens.

- Água e fogo têm uma relação direta com a tentação, a meu ver - ele disse. - São elementos que pensamos poder controlar, mas que nos escapam…

- Como certos desejos - Jooheon completou -, sonhos, planejamentos…

- E como Hoseok, não é, hyung? - Changkyun brincou, deixando Jooheon ligeiramente zangado.

- O que foi? - Hoseok quis saber.

- Não ouviu o que Changkyun disse? - Jooheon estranhou e o amigo respondeu que não.

 

Hoseok parecia nunca prestar atenção em nada do que Changkyun fazia.

 

-------

 

Foi apenas no terceiro dia que Jooheon percebeu que o comportamento de Hoseok para com Changkyun não era mera desatenção, mas uma quase rejeição. Era como se Changkyun falasse sozinho quando se aproximava de Hoseok e este sequer lhe dirigia o olhar, pedindo desculpas sempre que Jooheon repetia as falas do outro. Changkyun não reclamava, mas fitava Hoseok durante longos segundos, talvez esperando por qualquer tipo de interação ou apenas o julgando por ignorá-lo tão severamente.

 

Isso chateou Jooheon, principalmente quando mostrou alguns ensaios que fizera com seu modelo preferido e Hoseok se portava como um crítico que se importa apenas com a paisagem e não com o foco principal da imagem.

Havia fotografias de todos os cômodos da casa e de todas as partes do corpo de Changkyun no que se podia chamar de ensaio completo do modelo, fotografias dedicadas às mãos e aos ombros do rapaz, às pintinhas de seu braço e seus joelhos, aos seus lábios e os olhos escuros; nem mesmo o nu frontal tirou a expressão ordinária da face de Hoseok.

- É um ótimo trabalho, hyung - ele dissera apenas, deixando o olhar vagar pelos registros como se neles nada houvesse de importante.

 

Jooheon teve vontade de questionar qual era o problema, mas se conteve.

- Hoseok deve estar com ciúmes - Changkyun sussurrou para ele e se retirou, deixando os dois amigos sozinhos.

Um trovão soou ao longe e Hoseok esboçou um meio sorriso. Fez menção de sair para ver o tempo, mas a voz de Jooheon o impediu.

- É isso mesmo?

- O quê? - O mais velho não entendeu.

- Você está com ciúmes do Changkyun?

Não era algo que Hoseok negaria, pois, sempre que seu melhor amigo falava daquele garoto, a admiração mostrada era tamanha que fazia o peito de Hoseok doer um pouquinho. Sim, seria a resposta, mas antes de dá-la ele precisava saber o motivo da pergunta.

- Por que essa dúvida assim, tão de repente? - Outro trovão soou, um pouco mais alto. Jooheon respirou fundo e passou reto por Hoseok, deixando-o. O mais velho soltou um longo suspiro, mas não foi atrás dele. Tocou em algumas das fotografias, sentindo-se patético por nada ter dito, mas o que ele poderia fazer?

 

Saiu e pegou sua câmera, rumando até o terreno vizinho, vazio, os sons de uma possível tempestade se distanciando e o céu ganhando clareza novamente. A chuva que Hoseok tanto queria parecia assustada demais para se aproximar. Hoseok avistou as pedrinhas que cobriam o túmulo da cachorrinha de Jooheon e se sentou de frente para elas, batendo uma foto dali para guardá-la com as demais, tiradas ano após ano. Nada parecia mudar, no entanto, seu melhor amigo estava diferente. Mesmo tendo-o consigo todas as noites, qualquer contato não o aquecia como antes. Talvez sua visita não fosse mais tão excitante, Hoseok pensou, talvez tivesse chegado a hora de parar com uma história que se tornara longa demais.

Hoseok não percebeu, mas seu rosto estava molhado pelas lágrimas. Ele ouviu um latido e fechou os olhos com força antes de abrí-los de novo para enxergar um filhote branco correndo a seu redor, sem muito equilíbrio, vez ou outra batendo o queixo no chão e em suas pernas. Hoseok estendeu as mãos para acariciá-la e a pequenina se acalmou com o toque. Ela era tão fria, mas os pêlos eram macios. Ele a chamava de Malsuk e sabia que nada daquilo era real, porque um filhote de três dias não tinha aquele tamanho, nem era capaz de manter os olhos abertos.

E também porque ela jamais havia aparecido em nenhuma das fotografias que ele havia tirado.

 

“Você está com ciúmes do Changkyun?”

Hoseok, na verdade, não sabia como responder. O que ele sentia não tinha descrição e, afinal, como poderia ter ciúmes do nada? Malsuk latiu uma última vez e num piscar de olhos ela havia desaparecido. Hoseok achou que talvez estivesse ficando louco, mas loucura maior era o fascínio que Jooheon tinha por Changkyun, quase uma obsessão por sua imagem.

- Eu tenho ciúmes dele? - Hoseok questionou a si mesmo, porque estava repleto de dúvidas. 

Changkyun não era real, mas para Jooheon ele era.

Hoseok era real, mas para Jooheon o que ele era?

 

-------

 

- Por que está tão chateado? - Changkyun quis saber e quando Jooheon lhe deu as costas para ajustar o cenário na sala, sorriu.

Jooheon não disse nada. Puxou o tecido quase transparente para o lado e indicou o lugar onde seu modelo deveria ficar. Changkyun deu de ombros e seguiu as orientações, sentindo-se ser coberto pelo que chamava de imenso véu. Era a segunda vez que fotografavam ali, com aqueles apetrechos, uma tentativa de retratar a curiosidade, o desejo da descoberta em relação às coisas que se mantém sob panos, vultos que querem ser tocados, sentimentos que estão sufocados por algo fino e leve, por um emaranhado de linhas que parece não ter dobra final.

Um retrato de como Jooheon era por dentro.

A primeira foto foi tirada e Jooheon levou mais de cinco minutos analisando-a no visor de sua câmera. Algo estava errado, algo na imagem e também dentro dele mesmo.

- Jooheon? - Changkyun chamou por seu nome, ainda imóvel sob o tecido e o fotógrafo voltou a se posicionar, dessa vez num ângulo novo, ajoelhando-se para obter mais firmeza uma vez que estava trabalhando sem o tripé. O obturador fez seu ruído e ele voltou a checar a imagem.

Seu modelo não estava na fotografia. Não havia nada além do cenário.

- Alguma coisa errada? - Changkyun perguntou e no mesmo instante Jooheon sentiu o par de mãos cobrirem seus olhos. - Será que você finalmente voltou a enxergar?

 

-------

 

Hoseok não sabia o porquê, mas ao entrar na casa de seus avós e ser tomado pelo silêncio, um peso enorme pareceu ser descarregado sobre suas costas. Percorreu os cômodos como se todos aqueles móveis não representassem lembrança alguma e alcançou o segundo andar depressa, como se estivesse sendo atraído por uma energia invisível. Parou em frente ao quarto que costumava usar quando passava as férias ali e abriu a porta lentamente. Não havia nada diferente: lençóis brancos cobriam a cama, a mesa de estudos e uma pequena poltrona. O tapete estava se desfazendo assim como a parte inferior das cortinas. Hoseok pegou a câmera para registrar a cena, o dormitório que parecia ter sido abandonado há décadas quando estava sem uso por apenas dois anos. O som do obturador foi acompanhado pelo som de água corrente, mas não era a chuva - essa ainda pairava no céu cinzento como se tivesse medo de cair -; vinha do banheiro.

Cuidadosamente, outra porta foi aberta e Hoseok vislumbrou o que lhe parecia ser uma miragem: ali dentro havia apenas uma torneira jorrando a água azulada para dentro de uma banheira e diversos vasos com plantas altas e folhagens distintas em sua volta, pétalas mortas por todos os lados, coladas às paredes como se tivessem saído de uma bomba de tinta fresca, pétalas sobre a água que alcançou a borda da banheira e começou a vazar para o chão. Hoseok não teve reação nem quando a água lhe tocou os sapatos, mas queria fotografar aquilo. Quando finalmente se moveu e direcionou a lente da câmera ao cenário, tomou um susto: não havia nada de mágico na tela, apenas um banheiro normal coberta de poeira. Não era isso o que seus olhos viam e ele já não conseguia entender qual das duas visões era real.

Atordoado, deu alguns passos à frente, a banheira parecendo distanciar-se como numa ilusão de ótica impedindo Hoseok de ver o que havia dentro dela. Tudo estava sendo enegrecido pela água escura, mas ele estava ficando fora de si, sedento para descobrir de onde vinha aquela cor. Suas mãos tocaram a borda branca da banheira, o que foi o suficiente para auxiliá-lo quando suas pernas ficaram bambas ao enxergar o conteúdo do móvel.

 

Havia um corpo. Ele não sabia, mas algo gritava dentro de sua mente indicando quem era aquele garoto. Uma voz alta e rouca, ensurdecendo-o internamente. Hoseok fechou os olhos e caiu sentado no chão, tapando os ouvidos em vão. Ele estava tremendo, claramente perdido no meio de um pesadelo no qual não sabia como havia se infiltrado.

- Pare, pare, por favor…

Então, de repente, o barulho cessou e deu lugar aos latidos de Malsuk. Hoseok abriu os olhos e viu a pequena criatura saltitando a seu lado e toda a miragem havia sido desfeita. Malsuk colocou uma das patas sobre a perna do garoto e lá deixou uma marca vermelha antes de desaparecer. 

 

Foi apenas quando sentiu as pernas formigando que ele recobrou totalmente os sentidos e parou de observar a patinha de Malsuk em sangue.

Changkyun foi o nome que havia escutado.

 

-------

 

Jooheon tremia, mas Changkyun não parecia querer soltá-lo tão depressa. Abraçando-o por trás, acariciava toda a extensão do tronco de Jooheon como se ele fosse sua pelúcia preferida. Changkyun tinha um sorriso malicioso nos lábios, mas não pôde segurar sua presa por muito tempo.

- Por que não me toca então? - Changkyun sugeriu quando Jooheon lhe escapou dos braços e correu em direção à parede oposta. - Ao invés de salvar minha imagem em suas fotos, por que não salva o meu gosto na sua boca?

Jooheon não sabia como agir tendo um milhão de lembranças lhe invadindo de uma vez. Era como se parte de sua vida tivesse sido compactada e armazenada num arquivo oculto para só agora estar sendo acessada às pressas.

- O que é você? - ele perguntou abismado, assistindo enquanto Changkyun se aproximava devagar, mas convicto.

- Você realmente não se lembra? - o outro perguntou, erguendo uma das sobrancelhas, incrédulo. Todo esse tempo, todos os sinais… Ele esperava realmente que Jooheon descobrisse no momento em que Hoseok chegasse à casa, mas isso não havia acontecido. - Por que acha que Hoseok está me ignorando? Acha mesmo que é ciúmes?

Jooheon apenas concordou com um aceno de cabeça.

- Não seja idiota, Jooheon! - Changkyun riu, agora chegando muito perto - Hoseok não consegue me ver. Ele não me vê nem nas suas fotografias. Ele me rejeita porque não sabe que eu estou aqui... Ninguém consegue me ver, afinal, eu não existo mais.

- C-como assim? - Jooheon estava muito pálido, como se seu sangue tivesse sido drenado para fora de seu corpo - C-como assim não existe?

 

E nesse instante, Hoseok apareceu correndo pela porta. Parou com as mãos nos joelhos para tentar recuperar o fôlego e, ao voltar os olhos para Jooheon, soube que ali também havia algo errado. 

- Jooheon! Você está bem?

O desespero na voz do mais velho fez o garoto cair de joelhos, segurando as laterais da própria cabeça com as mãos como se sentisse uma dor terrível. Hoseok se apressou em alcançá-lo e o tomou nos braços num abraço apertado, ambos sem entender o que estava acontecendo. Jooheon procurou por Changkyun, mas era tarde: ele estava tão próximo que poderia quebrar o pescoço de Hoseok se quisesse. Assim que ergueu suas mãos, Jooheon precipitou-se e agarrou-se aos braços de Changkyun, empurrando-o para trás, surpreso com a força do garoto que não se moveu um centímetro sequer. Fechou os olhos com força e continuou indo para a frente, escutando os gritos de Hoseok que pedia para que ele parasse, mas Jooheon não podia, ele tinha que proteger seu amigo à todo custo.

Um baque o levou ao chão sobre o corpo do outro, mas quando Jooheon finalmente abriu os olhos, percebeu que não era Changkyun quem estava sob si e sim Hoseok. Os olhos molhados pelas lágrimas, o rosto vermelho e os engasgos causados pelo aperto das mãos de Jooheon em seu pescoço.

Hoseok foi solto e Jooheon caiu para trás, escutando a risada alta de Changkyun.

- Sempre vai terminar assim, hyung - ele disse em tom de deboche, mas havia tristeza na sua voz. - É sempre assim que você acaba com tudo.

- Não - Jooheon resmungou, encolhendo-se como podia. - Não, não, não…

Ele fitou as próprias mãos horrorizado, sendo invadido por cada lembrança antes desbotada, cada grito rebatido em seus ouvidos e esquecido com o tempo, cada imagem distorcida e manchada de sangue, de água e de um ódio tão grande que ele não sabia de onde vinha.

Mas agora entendia para onde era descarregada e isso lhe corroeu o coração como ferrugem em aceleração, a verdade tomando cada partícula de seu corpo como castigo por seus atos.

 

Fora de si, Jooheon apagava por completo. Acordava atordoado, geralmente deitado dentro da banheira, embaixo do chuveiro aberto ou perto do riacho. Ficava perplexo com as roupas ensanguentadas ou rasgadas, mas não conseguia se lembrar de nada do que havia acontecido.

Agora, porém, escutando a risada de Changkyun e visualizando o medo nos olhos de Hoseok, ele sabia tudo o que tinha feito.

 

-------

 

Malsuk estava correndo de um lado para o outro enquanto Hoseok auxiliava Jooheon com a mala. Ambos mantiveram o silêncio que se instalara na casa desde o episódio com Changkyun, que os observava também quieto, os braços cruzados e os pés descalços, costas apoiadas na esquadria da janela e mãos que brincavam com as cortinas como se estivesse tudo bem assim. Hoseok ainda não podia vê-lo, mas sabia que ele estava presente pois sentia o quão tenso Jooheon se mostrava.

Seu melhor amigo havia lhe contado sobre as lembranças que tinha e juntos procuraram evidências a fim de provar que tudo não passava de uma grande alucinação, mas o corpo de Malsuk enterrado na caixinha de sapatos sempre foi real, bem como a mochila de viajante que pertencia a Changkyun e que estava escondida dentro de um armário velho. Havia roupas sujas de sangue no armário de Jooheon, arranhões por toda a casa e fotos. Fotos tão perturbadoras que Hoseok vomitou ao encontrá-las e, junto do amigo, decidiu se livrar de tudo amontoando os pertences com lenha na parte dos fundos da casa.

 

- Você não tem medo de mim? De tudo o que eu fiz? - Jooheon perguntou e Hoseok disse que não. - Eu matei um cara, uma ninhada inteira de cachorros… O que mais eu posso ter feito e não me lembro?

- Eu não me importo - Hoseok disse, querendo colocar um ponto final na conversa, mas sem noção de que palavras usar para isso. - Não vai mais acontecer.

- Como você sabe?

- Eu não sei - Hoseok explicou, encaixando a última peça de roupa na mala e a fechando em seguida. - Vou te tirar desse lugar. Vamos deixar tudo isso para trás.

- Mas, hyung… - o olhar de Jooheon viajou pelo quarto de encontro a Changkyun, que parecia alheio à conversa. Hoseok percebeu o que ele queria dizer com o gesto.

- Você tem que deixar tudo isso para trás.

 

Quando o táxi estacionou e as malas foram postas no veículo, Hoseok ajudou Jooheon a entrar e virou-se para tirar uma última foto mental daquele espaço. Eles não voltariam nunca mais para Naedong e não se podia negar que era triste abandonar o lugar que, um dia, eles chamaram de lar. Hoseok assistiu enquanto a imagem de uma Malsuk agitada distanciava-se e teve a impressão de enxergar o reflexo de um garoto acenando adeus. Talvez fosse Changkyun, mas ele nunca teria certeza.

- O que acontece agora, hyung? - Jooheon perguntou, sua voz ainda no mesmo tom choroso como há dias.

Hoseok segurou uma de suas mãos e engoliu em seco porque não fazia ideia, mas implorava com todas as forças para que eles pudessem apagar todo o passado e recomeçar. E jurou para si mesmo que jamais deixaria transparecer o pavor que sentia sempre que fitava Jooheon nos olhos e via a alma brilhante como uma lâmina lhe ameaçar pelas entranhas.

Jooheon ainda era a pessoa mais importante para si e ele clamou para que esse sentimento fosse recíproco o bastante para mantê-los a salvo até o fim.

 


Notas Finais


Tomara que não tenha ficado muito confuso, caso tenham alguma questão, podem perguntar sem medo!
Mas só por desencargo de consciência: o Honey não é mal. Ele só não sabe se controlar e não faz ideia das coisas que acontecem quando está fora de si.

Espero que tenham gostado! Me deixem saber o que acharam ^^'


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