História Sherlock e os Noivos Demoníacos da Rua Fleet - Capítulo 16


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Categorias Benedict Cumberbatch, Hannibal, Hugh Dancy, Mads Mikkelsen, Martin Freeman, Sherlock, Sweeney Todd: O Barbeiro Demoníaco da Rua Fleet
Personagens Abigail Hobbs, D.I. Greg Lestrade, Dr. John Watson, Freddy Lounds, Hannibal Lecter, Jack Crawford, Jim Moriarty, Margot Verger, Mary Morstan, Mason Verger, Molly Hooper, Mrs. Hudson, Mycroft Holmes, Personagens Originais, Rosamund Mary Watson, Sherlock Holmes, Will Graham
Tags Amizade, Amor, Assassinato, Baker Street, Canibalismo, Chesapeake Ripper, Drama, Estripador De Chesapeake, Fleet Street, Gay, Hannibal, Hannigram, Heterossexualidade, Homossexualidade, Jack Estripador, Jack O Estripador, Jack The Ripper, Johnlock, London, Londres, Love, Lovett, O Silêncio Do Inocentes, Serial Killer, Sherlock, The Silence Of The Lambs, Violencia, Will Graham, Yaoi
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Palavras 4.708
Terminada Não
NÃO RECOMENDADO PARA MENORES DE 18 ANOS
Gêneros: Ação, Crossover, Ecchi, Ficção, Lemon, LGBT, Mistério, Policial, Romance e Novela, Shonen-Ai, Slash, Terror e Horror, Universo Alternativo, Violência, Yaoi (Gay)
Avisos: Álcool, Bissexualidade, Canibalismo, Drogas, Heterossexualidade, Homossexualidade, Insinuação de sexo, Linguagem Imprópria, Mutilação, Nudez, Sexo, Violência
Aviso legal
Os personagens encontrados nesta história são apenas alusões a pessoas reais e nenhuma das situações e personalidades aqui encontradas refletem a realidade, tratando-se esta obra, de uma ficção. Os eventuais personagens originais desta história são de minha propriedade intelectual. História sem fins lucrativos, feita apenas de fã para fã sem o objetivo de denegrir ou violar as imagens dos artistas.

Notas do Autor


Olá gente, este capítulo será o primeiro baseado exclusivamente no Cão dos Baskervilles do mestre Conan Doyle e também vai dar início ao esquentar da relação Johnlock.

Espero que apreciem a leitura.

Capítulo 16 - O Cão dos Baskervilles - Parte I


Sexta-feira, 19 de outubro de 1888.

O doutor John Watson olhou, através de sua janela, para a plataforma da Estação Waterloo, vendo-a ficar cada vez mais distante, conforme o trem se movimentava. A figura alta e austera de Sherlock Holmes permanecia imóvel no local, observando o imenso veículo desaparecer de seu campo de visão. Se a viagem fosse tranquila, estaria em Devonshire dentro de algumas horas, provavelmente pouco após o anoitecer. O médico decidiu dedicar as horas que se seguiriam a tarefa de conhecer melhor seus acompanhantes: o doutor Mortimer – um jovem médico morador de Devonshire –, Sir Henry – que viera do Canadá para assumir suas funções como herdeiro da família Baskerville – e Will Graham que, tal como Watson, fora designado pelo detetive da Rua Baker, como seu agente para solucionar o mistério que circunda a trágica morte de Sir Charles Baskerville, tio de Henry.

Os últimos dias, desde as mortes de Catherine Eddowes e Elizabeth Stride, não haviam trazido qualquer novidade – excetuando-se as cartas – que pudesse trazer alguma luz sobre o caso do estripador. Então os dias de Holmes, Graham e Crawford se resumiam em auxiliar Lestrade em outros casos de menor importância e aproveitar as atividades da cidade, sobretudo, realizando as sempre deliciosas visitas ao Lovett. Foi um grande alívio, quando, no dia 16 de outubro, o doutor Mortimer apareceu na Rua Baker solicitando a ajuda de Sherlock Holmes em um caso que vinha tirando o seu sono. Watson já estava ficando louco com o mau humor do companheiro, que nada fazia além de tocar suas tristes e belas músicas improvisadas enquanto reclamava da dor em seu nariz ferido.

A tenebrosa lenda do Cão dos Baskervilles atraíra imediatamente a atenção de Will Graham, que por coincidência visitava o 221B e já se preparava para ir embora. Sherlock Holmes, ao contrário do outro detetive, bocejava em sinal de extremo desinteresse pela história do cachorro de boca e olhos flamejantes que supostamente perseguia a infeliz família. O interesse do detetive consultor fora fisgado, porém, quando o doutor Mortimer o informou sobre a presença da pegada de um cão gigantesco em uma posição próxima ao local em que o cadáver de Sir Charles Baskerville, que morrera por causa de um ataque cardíaco provavelmente causado pelo medo, fora encontrado.

Após serem apresentados a Sir Henry, no dia 17 de outubro, e constatarem que o baronete e o médico estavam sendo seguidos por uma figura misteriosa, que supostamente fora responsável pelo desaparecimento de um sapato pertencente ao Baskerville e pelo envio de uma estranha carta a ele, os três homens concluíram que seria prudente realizar uma investigação, combinando então de viajarem para Devon a fim de solucionarem o mistério.

Holmes pediu desculpas aos seus dois novos clientes, alegando não poder se ausentar de Londres nos próximos dias, deixando tal tarefa a cargo de Graham e Watson, que seriam seus olhos e ouvidos a partir dali. No dia combinado, Lecter e Abigail fizeram questão de acompanhar Will até a estação, rindo enquanto o detetive brincava com o spaniel do doutor Mortimer antes da barulhenta locomotiva anunciar sua chegada.

Conforme o trem se movia sobre os trilhos, as imponentes construções londrinas ficavam para trás, sendo substituídas por exuberantes pastos verdes, terra vermelha e granito. Os olhos escuros de Sir Henry olhavam para a paisagem com extremo interesse e ele soltava exclamações de alegria cada vez que reconhecia algum lugar.

– É natural de Devon, Sir Henry? – Perguntou Watson, vendo o entusiasmo do homem.

– Sim. Fui embora quando me tornei adolescente, após a morte de meu pai. – Respondeu o baronete.

– Ah, então imagino que vá ficar contente por rever a mansão de sua família. – Disse John.

– A verdade é que a mansão é tão desconhecida para mim quanto é para o senhor, doutor Watson. – Respondeu Sir Henry. – Antes de partir, costumava viver em um chalé na costa.

– Entendo. Então creio que nos surpreenderemos juntos. – Riu John.

– Agora estou mais ansioso para ver o pântano. – Informou o baronete.

– Pois olhe para ele então. – Disse Graham, desviando sua atenção do cachorro do doutor Mortimer e apontando pela janela do vagão. – Sua primeira visão em muito tempo de Dartmoor. O que acha?

– Impressionante! – Respondeu Sir Henry. – Impressionante!

Como a paisagem de um sonho, as terras pantanosas se erguiam cinzentas e melancólicas por detrás dos campos verdejantes e bosques que coloriam a visão de Sir Henry, que permanecia com os olhos fixos no local, berço de sua família. O doutor Watson observava o baronete, que vestia roupas bonitas e tinha um sotaque americano, olhando para tudo como se fosse a primeira vez e tagarelando sobre as mudanças que faria, quando assumisse seu posto na mansão. John concluía que aquele era um bom homem para se ter ao lado em situação de perigo. Seu rosto bronzeado e cheio de força era um contraponto agradável a soturnidade que o pântano trazia para Devon.

Quando saíram do trem, numa pequenina estação, o sol já começava a se esconder, espalhando rajadas de luz laranja e rosa por todos os lados, o que levou Sir Henry a exclamar de surpresa ao notar a beleza daquele céu. Um homenzinho robusto chamado Perkins já os esperava com sua carruagem e tão logo os quatro homens adentraram nela, ele a arrastou velozmente pelo caminho coberto de folhas amarelas que apodreciam sobre o chão úmido. Homens uniformizados e armados com rifles eram visíveis através das janelas da carruagem, guardando o caminho com suas caras enfezadas.

– Parece que um prisioneiro de Princetown escapou, pelo que pude observar em um jornal na estação. – Comentou Will enquanto virava o rosto para olhar um dos homens armados.

– Muito observador, senhor Graham. – O doutor Mortimer falou. – Eu mesmo já estava para perguntar ao senhor Perkins do que se tratava tudo isso.

– O assassino de Notting Hill, meu senhor. – Disse o cocheiro. – Escapou há três dias e parece que está se escondendo no pântano.

– Não é perigoso? – Perguntou John.

– Para ele e para nós, doutor! – Exclamou Mortimer.

– A Mansão Baskerville! – Berrou o cocheiro, informando seus passageiros da proximidade de seu destino. Ao longe, duas torres negras se erguiam imponentes e rapidamente a imensa construção de granito ficara visível, exibindo suas paredes cobertas por heras, exceto pelos locais em que haviam varandas, janelas e brasões de família. Conforme a carruagem se aproximava da casa, mais sinistro o caminho se tornava. De repente, os homens se viram rodeados pelas tristes árvores que cercavam a alameda que dava acesso a mansão e conseguiam avistar, ao longe, o portão que separava a propriedade do lúgubre atoleiro. O doutor Mortimer continuou com o cocheiro até sua casa, alguns quilômetros à frente, enquanto Watson, Graham e Sir Baskerville caminharam pelo pequeno espaço que os separava da mansão. O senhor Barrymore, um velho alto, branco e com uma barba quadrada e escura abriu a porta para recebe-los, fechando-a após receber os chapéus e casacos de seu novo patrão e convidados.

– Esse lugar é exatamente como eu imaginava que seria! – Comentou Henry. – Quase não acredito que minha família tem vivido neste lugar há quinhentos anos.

– Parece mesmo um lugar cheio de histórias. – Disse Graham, observando a decoração rústica do ambiente.

– Deseja que o jantar seja servido agora, meu senhor? – Perguntou o velho Barrymore.

– Tão logo estiver pronto. – Respondeu sir Henry gentilmente. – Estou faminto!

– O jantar estará servido então em alguns minutos. – Informou o empregado, enquanto agarrava as alças das bagagens trazidas pelos recém-chegados, levando-as em seguida para os quartos que a senhora Barrymore, uma mulher robusta e de cabelos grisalhos, havia preparado.

Os três homens observavam atentamente o ambiente, desprendendo bastante atenção a fileira de quadros pendurados nas paredes da casa, ostentando os retratos orgulhosos dos antigos membros da família Baskerville. Watson estava surpreso com quão parecido o Sir Henry era com seus ancestrais. Não havia dúvidas de que o jovem homem era mesmo parte do grupo de pessoas que governavam aquele pequeno espaço. Mas mesmo tentando se concentrar em coisas práticas, o doutor não conseguia deixar de sentir um pequeno desconforto. Desde que deixara Londres, uma sensação melancólica se apossara dele e apenas aumentara conforme as formas do pântano o cercavam. Toda a viagem tinha uma aura lúgubre, talvez pelo fato de estarem investigando um suposto assassinato. A paisagem úmida e escura não ajudava, tampouco o interior da mansão, que em sua imensidão, parecia vazia e triste. A luz amarela que bruxuleava, lançando sombras trêmulas sobre as paredes deixava o lugar com um ar fantasmagórico. A presença conhecida de Will Graham trazia certo conforto para John, no entanto, o médico sentia uma falta crescente da presença de Sherlock Holmes. Desde que passaram a viver juntos, nunca haviam ficado tão distantes. Uma pequena mágoa era ignorada. Um pedaço de John estava chateado por Holmes ter pedido para que ele protegesse o baronete. Se o herdeiro dos Baskervilles estava mesmo correndo perigo de morte, então Watson também estaria. O ex-soldado não gostava da perspectiva de Sherlock estar sendo negligente com sua segurança. E gostava ainda menos destes sentimentos que o faziam querer cobrar explicações do detetive consultor. Tudo seria mais fácil se Holmes simplesmente estivesse ali, tagarelando suas teorias. A ausência dele apenas fazia aquele lugar parecer ainda maior, ainda mais triste e ainda mais desolado.

Após o jantar, todos concordaram em dormir cedo. A impressão que tiveram nas últimas horas fora realmente incômoda e eles estavam exaustos. Cada homem se trancou em seu quarto, permitindo que o silêncio reinasse absoluto por um tempo. No entanto, os três escutaram, quando a madrugada já estava alta, um choro agudo e baixinho. Um soluçar tristonho. Por alguma razão, a senhora Barrymore estava chorando.

Na manhã seguinte, Watson e Sir Henry se encontraram na mesa de café da manhã, sendo imediatamente informados que Graham havia se levantado cedo e saído para caminhar.

– Doutor Watson, perdoe-me pela minha indiscrição. – Começou o Sir Henry após desejar ao médico um bom dia. – Mas, que tipo de homem é o detetive Graham?

– Como assim?

– Apesar de ter sido muito gentil comigo durante todo o tempo em que estivemos juntos, percebo que ele pouco se interessa pelo que tenho a dizer. Às vezes sinto que o estou incomodando.

– Oh, não se preocupe com o detetive Graham. – Disse Watson, tentando parecer gentil. – Ele é um pouco reservado, apenas.

– Entendo. – Disse o baronete, suspirando. – Bem, após esta refeição terei que dar atenção aos documentos relacionados a minha posse como herdeiro dos Baskervilles. Fique à vontade para fazer o que lhe agradar hoje, pois não acho que poderei me juntar ao senhor tão cedo.

– Vou caminhar então. – Disse John. – Conhecer os arredores.

Assim que terminou sua refeição, Watson se preparou para desbravar os segredos de Devon. Apesar de aquela ser uma manhã fria, o dia parecia mais alegre do que a noite anterior. Provavelmente o cansaço da viagem fora um grande responsável pelo incômodo que sentira. O médico caminhou tranquilamente, sentindo o ar tocar em seu rosto e enregelar sua pele. Uma rua barrenta e estreita se estendia a frente dele, primeiro cercada por árvores eternamente molhadas e depois ladeada pelo solo horrendo do pântano, que exibia as cores da natureza quando morre. Sentado sobre uma pedra posta à beira da estrada, estava Will Graham, com seu comprido casaco negro e com os cabelos cacheados balançando ao vento. Sua pele branca quase se misturava as nuvens do céu, tamanha a palidez e seus olhos azuis pareciam buscar algo na imensidão do atoleiro.

– Senhor Graham! Will! – Chamou John.

O detetive olhou para o médico e deu um sorriso torto.

– O que está fazendo aí sentado?

– Achei ter ouvido um latido. – Disse Graham. – O som veio do pântano.

– Acha que o cão... – Watson parecia um pouco confuso.

– Não, não... – Riu Graham. – Não acho que escutei o latido do Velho Shuck.

– Velho Shuck? – Questionou John.

– Não são apenas os Baskervilles que possuem um cão demoníaco para os assombrar. – Comentou Will enquanto se levantava para cumprimentar o médico. – Também há histórias assim no leste e no norte.

– Então essa é mais uma daquelas lendas que se espalham e mudam de nome. – Riu John. – Enfim, imagino que não achou o dono do latido.

– Este é o atoleiro Grimpen. – Informou Will, apontando para o pântano. – Um lugar muito traiçoeiro. Se o cachorro entrou aí, nunca sairá.

– Não sabia que conhecia tão bem este lugar. – Disse John, começando a caminhar ao lado de Graham.

– Costumava vir aqui com meu pai, quando ele não navegava mais. – Disse Will, mantendo seus olhos no caminho à sua frente. – Ele tinha amigos na região. Eu aproveitava para ganhar alguns xelins iluminando o caminho das pessoas que passavam pelo pântano à noite. Me chamavam de Will-o’-the-Wisp.

– E você não se perdia?

– Eu carregava a lanterna. – Riu Graham. – Conhecia este pântano como ninguém.

– Bom, que bom que pelo menos um de nós aprecia este fim de mundo. – Disse John, olhando em volta.

– Tenho certeza de que Sherlock não vai demorar. – Disse Graham, deixando um sorriso brotar em sua face.

– O que disse?

– Olhe, um vizinho! – Will apontou para um homem baixo, loiro e branquelo, que corria pelo caminho, agitando uma rede, numa tentativa de capturar um inseto que voava por ali e a atenção de John ficou presa nas ações daquela pessoa estranha.

Quando os dois se aproximaram do homem com a rede, este parou de dar atenção ao inseto, esticando seu magro braço para cumprimentar os desconhecidos. Stapleton era seu nome, um entomologista que vivia quase ao lado da casa do doutor Mortimer e, por isso, era muito amigo deste. Sua personalidade era bastante animada e ele tinha ótimas maneiras, sendo sempre muito gentil com seus interlocutores. Parecia ser bastante esperto também, já que assim que ouviu os nomes de John e Will, concluiu que os dois estavam ali para investigar a morte de Sir Charles Baskerville e que Sherlock Holmes também estava envolvido. Will o deixou sem graça quando recusou sua generosa oferta de ajuda na investigação.

– Nós apenas preferimos contar com sua discrição, senhor Stapleton.

– Oh, claro. É natural que queiram manter suas descobertas em segredo. – Stapleton riu amargamente. – Perdoem minha intromissão.

John nunca havia trabalhado ao lado de Will Graham e agora que tinha a oportunidade de fazê-lo, sentia ainda mais a falta de Holmes. Will não era do tipo de homem que fazia muitas perguntas, mas se olhasse o suficiente, com certeza encontraria todas as respostas. Ao contrário das outras pessoas, que geralmente se esforçavam para agradar, Graham não fazia qualquer questão de deixar confortáveis os seus interlocutores. Na verdade, uma das coisas mais óbvias a respeito de Will Graham é que a perspectiva de ter que ser sociável o incomodava em demasia. Então ele apenas arrancava das pessoas o que precisava e as deixava, sem cerimônias. Como naquele momento, com Stapleton: o homem oferecera ajuda e Will simplesmente disse não. Recusou sem sequer agradecer a oferta. Rude, para dizer o mínimo. Para Watson, era surpreendente que uma pessoa de espírito tão selvagem como Will tenha conseguido a amizade de um homem requintado como Hannibal Lecter. O homem era o oposto de Graham em quase todos os aspectos e, mesmo assim, eles se davam bem. Tal como o próprio John se dava bem com Sherlock, mesmo sendo tão diferente dele.

Quando Stapleton voltou a dar atenção aos insetos que voavam aqui e acolá, perto dos pequenos arbustos que margeavam alguns pontos da estrada, Watson e Graham se puseram no caminho de volta para a mansão Baskerville.

– Acho que deveria incluir uma informação em seu relatório, doutor. – Disse Will, virando o rosto para encarar John.

– Do que se trata?

– Hoje conheci uma mulher que diz ser a senhorita Stapleton. – Começou Will. – Apesar de ser morena e corpulenta, diz ser a irmã caçula do homem que acabamos de conhecer. Além disso, ela me pediu algo interessante, pois me confundiu com Sir Henry, que acredito que ela não tenha tido a chance de conhecer.

– O que ela lhe pediu? – Questionou Watson.

– Pediu para que eu voltasse a Londres imediatamente. Pediu que eu me mantivesse longe da mansão e de qualquer coisa que envolvam os Baskervilles.

– O que respondeu para ela?

– A verdade. Disse que não era a pessoa a quem ela queria dar estes conselhos.

– Entendo. – Disse John. – Pretende contar isso ao sir Henry?

– Não. E peço para que também não conte. Apenas insira este fato no relatório que enviará para Holmes.

– Está certo. – Concordou John. – Além disso, gostaria de falar com você sobre algo que escutei durante a madrugada.

– O choro.

– Então o senhor também escutou.

– Vamos ficar de vigia hoje. – Sugeriu Will. – Me encontre em meu quarto, após o casal Barrymore se recolher.

– Combinado.

A tarde e a noite correram bem, com Sir Henry, John e Will compartilhando um farto jantar preparado pela senhora Barrymore. O mordomo, sempre muito agradável, alegrava-se em mostrar para seus senhores todos os cantos da mansão e ensinar para eles todas as histórias sobre a antiga família Baskerville. Graham prestava particular atenção ao quadro de Hugo Baskerville, aquele que dera origem a sinistra lenda do cão que assombra seus parentes. John viu um sorriso sincero brotar nos lábios do detetive, enquanto este admirava o retrato. O médico não entendeu a razão disso e preferiu não perguntar. Quando a lua já estava alta no céu e a névoa branca já cobria todo o exterior da mansão, seus habitantes se recolheram em seus aposentos e Watson caminhou sorrateiro para o quarto em que Will o aguardava, sentado numa poltrona próxima a uma janela.

– Então, Will... – Cochichou John para o detetive. – Quais são suas impressões sobre o caso?

– Me parece que o casal Barrymore sempre foi muito fiel aos Baskerville. – Respondeu Graham. – Não acho que tenham alguma relação com a morte de Sir Charles. A irmã de Stapleton, porém, parece saber da existência de um perigo vindouro.

– Sobre o choro da senhora Barrymore. Espero que seu marido não seja um tirano. – Disse John, ainda em sussurros.

– Ele não é. Mas esconde algo. – Comentou Will. – Escutei os passos de Barrymore na madrugada. Pretendia seguí-lo, mas recuei ao escutar o choro da esposa.

– Bom, se repetirem suas ações hoje, nós os faremos contar a verdade.

Algumas horas se passaram e os dois homens no quarto já estavam enfiados em um esquisito e incômodo silêncio. Will mantinha seus olhos fixados na lua, que lançava seu raio prateado através da janela, dando ao detetive um ar etéreo e gelado. John quase não conseguia manter os olhos abertos. O sono o tentava levar para uma terra de sonhos onde o médico encontrava o rosto de Sherlock Holmes, fumando seu charuto, deixando anéis de fumaça flutuarem pelo ar. Em seu devaneio, John via o detetive consultor se levantar da poltrona em que estava, aproximando seu rosto do dele, tornando inexistente a distância entre seus corpos. Os pêlos de Watson se arrepiavam, conforme a respiração gelada de Holmes tocava seu rosto. A boca deles se tocaram, lentamente, suavemente. Mesmo com os olhos fechados, John podia ver o rosto de Holmes, lindo, suave, com seus lábios compridos abrindo-se para devorar-lhe com seus beijos.

– John, vamos! – A voz de Graham se fez ouvir. – Acorde!

– Sim, sim... – John arregalou os olhos e olhou em volta, vendo Graham grudado a porta, com uma mão sobre a maçaneta. Depois voltou os olhos para si, sentindo o corpo estremecer levemente. Seu pênis se erguia, rígido, contra o tecido de suas calças e a lembrança de seu rápido sonho corou as bochechas do médico.

– Desculpe interromper seu sonho... – Disse Will, olhando para o médico e imediatamente pousando os olhos sobre o volume em suas calças. – Barrymore acabou de passar. Tente não fazer barulho.

– Sim. – Foi tudo o que John conseguiu dizer. Devagar e silenciosamente os dois se esgueiraram pela escuridão dos corredores da Mansão Baskerville, guiados apenas pelo círculo amarelo que a vela carregada por Barrymore lançava sobre as paredes. A surdez do mordomo os acobertava e dentro de instantes, Will e John jaziam escondidos, observando o velho criado agitar sua vela diante da janela de um quarto vazio. Lá dentro, a senhora Barrymore terminava de empacotar algo que parecia uma caixa. O semblante da mulher estava pesado e seus olhos inchados. John queria saber o que estava acontecendo. A ideia de que os empregados de Sir Henry poderiam estar conspirando contra seu novo e gentil patrão fazia ferver o sangue em suas veias. A impaciência para descobrir a resposta fez o médico saltar diante da entrada do cômodo, assustando as duas pessoas ali dentro.

– Por Deus! – Berrou o velho Barrymore, virando-se para encarar Watson.

– Senhor Barrymore, preciso que responda a minha pergunta com honestidade. – Começou John, assumindo uma postura rígida. – O que está fazendo?

– Isto é um assunto pessoal meu e de minha esposa. – Respondeu o homem, tentando parecer cortês. – Peço que entenda.

– Ontem ouvimos o choro de sua mulher, senhor Barrymore. E sabemos que o senhor passeia sorrateiramente pela casa à noite. Exigimos que nos conte a verdade!

– Perdoe-nos, doutor Watson. Mas nós respondemos apenas ao Sir Henry agora. Os senhores não podem fazer exigências. – Disse Barrymore, lançando um olhar para Will, que se mantinha imóvel, bloqueando a porta.

– Então responda a pergunta do doutor, Barrymore. – A voz de Henry surgiu por detrás dos ombros de Graham e quando este se virou, encontrou o rosto sisudo do herdeiro dos Baskervilles.

– Sir Henry, por favor. – O semblante sério de Barrymore transformou-se em uma expressão de súplica. A esposa, estava extremamente pálida. – Este é um assunto muito pessoal. Juro que não temos qualquer intenção de prejudicá-lo. Permita-nos manter nosso segredo.

– Responda a pergunta ou pegue suas coisas e deixe a mansão. – Sir Henry deu um ultimato.

– Vamos então! – Barrymore se voltou para a esposa que tremia com o embrulho nas mãos.

– Por favor, sir Henry, tenha misericórdia. – Suplicou a senhora. – Responderei a pergunta, se isso puder demonstrar nossa boa fé. Tudo o que fizemos foi por meu irmão, Selden.

– E quem é este? – Questionou o Baskerville.

– O fugitivo. – Respondeu Graham, se aproximando do mordomo e tomando para si a vela que este carregava. – O assassino de Notting Hill. Imagino que este embrulho seja uma caixa de suprimentos. Estou errado? – Disse Graham olhando para a esposa do criado.

– Por favor, perdoem-me senhores. – Pediu a mulher. – Selden é meu irmão e eu não poderia virar as costas para ele. Então temos enviado suprimentos até que ele tenha condições de fugir.

– Está ajudando um criminoso. – Disse Watson, indignado. – Ele pode ferir alguém.

– Esta é uma coisa muito grave, senhora Barrymore. – Disse Sir Henry, irritado.

– Meu marido nada fez além de me apoiar, sir Henry. Somos pessoas honestas e nunca faríamos mal a qualquer ser humano neste mundo. Mas não posso entregar meu irmão. Eles vão enforcá-lo e... eu não posso suportar isso.

– A luz no pântano. É ele? – Perguntou Graham.

– Sim senhor. – Disse Barrymore.

– O que faremos? – Questionou Watson.

– Barrymore. Leve os suprimentos para o seu cunhado. E, por favor, peça para que ele não demore a deixar este lugar. Não é certo que ele permaneça aqui, trazendo sofrimento e perigos desnecessários para os moradores. – Pediu Sir Henry e o mordomo acatou as ordens do baronete.

– Oh, abençoado seja! – Vociferou a mulher. – Obrigada meu senhor!

– O senhor é mesmo um homem muito gentil por decidir guardar o nosso segredo, meu patrão. – Confessou Barrymore, antes de sair para encontrar o bandido.

Sir Henry Baskerville mantinha o semblante sério quando a senhora Barrymore deixou os três homens a sós naquele quarto. Agora todos haviam se tornado cúmplices de Selden e esse fato parecia incomodá-los fortemente. Concluindo que não havia nada mais a ser descoberto ali, Will se despediu e voltou para seu quarto e John correu para seus aposentos, com a intenção de começar a escrever o próximo relatório que mandaria para a Rua Baker.

***

Sábado, 27 de outubro de 1888.

Durante os seis dias subsequentes a revelação do paradeiro de Selden, John e Will haviam descoberto mais alguns fatos interessantes sobre o caso que investigavam: Barrymore, em agradecimento pelo silêncio dos três homens, contara que, no dia da morte de Sir Charles Baskerville, uma única carta foi enviada para seu endereço, seu remetente seria uma mulher cujas iniciais eram L.L e por algum motivo, a carta fora queimada pelo próprio baronete antes de sair para o que seria sua última caminhada. Procurando saber quem era a tal mulher, Watson viajou até Coombe Tracey, onde encontrou Laura Lyons, que enviara a carta para Sir Charles, solicitando um encontro com este, mas supostamente não comparecendo. Frustrado pela postura arisca da mulher, John se perguntava se Will teria tido mais sorte em arrancar informações dela.

O detetive por sua vez presenciou uma incômoda discussão entre o baronete e o entomologista. Na manhã do dia 21 de outubro, a irmã de Stapleton fora apresentada ao Sir Henry, que se apaixonou imediatamente por ela e desde então, vinha buscando meios de se aproximar da moça que também parecia apreciar sua companhia. Possuindo boa aparência, boa índole e muitas posses, o baronete tinha convicção de que nada poderia impedir o romance entre eles. Mas no dia em que decidiu pedir a mão da mulher de faces morenas, foi surpreendido pelo surto de ódio do irmão dela, que lhe insultou e ameaçou, deixando o Baskerville extremamente magoado e desconcertado.

A presença de Will ali tornou a coisa toda ainda mais desagradável, uma vez que a vergonha do baronete agora possuía uma testemunha e certamente que a história chegaria ao conhecimento de Sherlock Holmes. No mesmo dia, Stapleton visitou o baronete e pediu perdão por seu comportamento, alegando que o medo de perder a companhia da irmã era o culpado por sua atitude.

Durante a noite do dia 27, Sir Henry persuadiu John a tentar encontrar e capturar Selden, pois não suportava a ideia de deixa-lo fugir e por em risco mais vidas. Will teria sido convidado a participar da caçada humana que se seguiria, caso já tivesse retornado da caminhada noturna que realizava após encaminhar para Londres, os relatórios de Watson.

Na escuridão, Watson e Baskerville se embrenharam na direção em que Selden agitava sua lanterna, inadvertido da presença de seus dois perseguidores e tentando apenas ser notado pela irmã mais velha. Não muito distante do atoleiro, construções pré-históricas se erguiam, rústicas e despedaçadas pelo tempo. Sinais dos que provavelmente foram os primeiros homens a caminharem sobre a ilha britânica. O assassino de Notting Hill provavelmente estava usando uma daquelas construções como esconderijo, sofrendo com inúmeras privações enquanto tentava se safar da justiça da Inglaterra. A coragem de John e Henry os tornava capazes de ignorar os arrepiantes sons que pareciam vir de lugar nenhum. Ora o som era um assobio agudo e sinistro, provavelmente o vento a dançar por entre as árvores, ora era como um uivo horrível, que gelava o sangue nas veias e evocava a imagem grotesca do maligno cão negro que supostamente assombrava a região.

Decididos, os dois homens seguiram a luz trêmula da lanterna de Selden, agachando-se atrás de pedras ao verem o bandido, que muito se assemelhava aos antigos homens que habitavam as casas pré-históricas. O fugitivo, que esperava ver seu cunhado, se surpreendeu quando os dois homens apareceram diante dele e começou a correr com extrema velocidade, saltando pedras e barrancos para fugir de seus perseguidores. Incapazes de alcançar o bandido, John e Henry pararam para descansar sobre o topo de uma colina, vendo o homem desaparecer por entre as centenas de casas de pedra. Ofegantes, o médico e o baronete começaram a caminhar de volta para a mansão. John tentava recuperar o fôlego, pois havia se passado muito tempo desde a última vez que ele correra tanto. Seu peito subia e descia com força, empurrando o ar gelado para fora de seus pulmões e enregelando sua garganta. Em sua boca, porém, o ar ficava quente, projetando-se como vapor para fora, dispersando-se na noite negra. Além dos topos das colinas mais distantes, a lua surgia, redonda e prateada, lançando sua luz gélida sobre o pântano cinzento. Na frente dela, uma silhueta humana, alta e magra, aparecia como um fantasma sombrio. John tomou um susto ao vê-la. Piscou os olhos e então os arregalou o máximo que pode, suas pupilas se dilatando para enxergar na escuridão, mas a silhueta esguia que avistara havia sumido, deixando-o em dúvida sobre a veracidade da imagem que agora estava gravada em sua mente.


Notas Finais


Bem, gostaram?

Vamos as curiosidades:
O Velho Shuck, que o Will cita é uma das várias lendas de cães sinistros que existem na Inglaterra. Esta especificamente é a de um cão negro, gigantesco, com algo entre um e três olhos assustadores (depende de quem conta a história). Ver esta criatura era um sinal de maus presságios, como a ideia de que a morte estava próxima. Dizem que a lenda deste cachorro foi uma das inspirações para o Sir Arthur Conan Doyle escrever O Cão dos Baskervilles.

Além disso, o Will também fala que era chamado, quando criança, de Will-o'-the-Wisp.
Will-o'-the-Wisp é um dos nomes do que conhecemos como fogo fátuo (ignis fatuus). Para quem não sabe, o fogo fátuo é uma bolinha de luz que ocorre em pântanos e áreas semelhantes, supostamente por causa de gases liberados nos processos químicos realizados por bactérias. A graça com essa luzinha é que, aparentemente, quanto mais você tenta chegar perto dela, mais ela se afasta de você. Isso fez com que as pessoas do passado a associassem a existência de fadas e espíritos, geralmente mal intencionados, pois acreditava-se que o Will-o'-the-Wisp era um espírito que carregava uma lanterna e atraia viajantes imprudentes para longe de seus caminhos, fazendo com que eles se perdessem.

Quem já jogou Child of Light da Ubisoft vai se lembrar do Ignis, o companheiro da Aurora, que usa sua luz para imobilizar os inimigos. Assim como quem já assistiu Brave / Valente, vai lembrar que a Mérida é guiada pelo fogo fátuo até determinado local. Ambos são representações dessa luzinha fantasmagórica que virou apelido do Will por ele correr a noite com uma lanterna nas mãos.
Essa lenda eventualmente se desdobrou no que conhecemos como Jack-o'-Lantern, que nada mais é do que a abóbora transformada em lanterna, geralmente com um rosto recortado nela, presentes no Halloween.

Obrigada por acompanhar esta história e até o próximo capítulo, que espero poder postar ainda esta semana.


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