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História She's out of my Life - Capítulo 18


Escrita por: mjmoscow

Notas do Autor


Esse é um capitulo q eu estava ansiosa pra escrever ha algum tempo, como disse agr a historia entra numa nova fase. Ainda n estamos no final, mas nos preparando pra chegar lá em breve; tudo começa a se caminhar pra onde deve ir. Espero q gostem.

Capítulo 18 - - Piscar de olhos.


Os jatos gélidos da água do chuveiro me atingiram ao mesmo tempo que a martelada de um pensamento insistente. Deveria eu sentir culpa? 

Teria eu o direito a sentir culpa? 

Meus olhos ocasionalmente terminavam de encontrar o telefone na pia e, num efeito imediato, as vozes dentro de mim ressoavam com mais força; como se o pobre aparelho fosse a própria figura exata de Alec. Ou até de Elton. 

Para alguém que facilmente se descreveria como uma pessoa leal, eu parecia ter uma inclinação inusitada pela infidelidade de vez em quando. Em ambos os casos coincidentemente aconteceram com a mesma pessoa. 

Se eu era uma infiel ou Michael me fazia uma seria um questionamento digno do “foi o ovo ou a galinha”, no fim o resultado inevitável era que já havia sido feito. No passado minha reação imediata fora encerrar de uma vez o que tinha com Elton, fosse ficar ou não com Michael. Dessa vez, minha consciência estava mais disposta a saber como me resolveria com Michael antes de tomar uma decisão do que fazer com Alec. 

Sim, pelo visto o tempo havia mesmo me mudado. Deixou-me mais cínica e dissimulada.

Apaixonada pelo ex, mas não muito certa de estar disposta a viver sem o atual. Que coisa mais trágica, horrivelmente condenatória de se sentir. 

Deveria ligar para Alec e saber como foi esse tal jantar de ontem à noite e do que se tratava, mas com que coragem? Com que descaramento? 

Desliguei o chuveiro. O relógio estava próximo às oito da manhã, o que significa que o avião de Camila, Daisy e Elton já deveria ter pousado e em alguns minutos eles estariam aqui. 

--x--

Os eventos seguintes foram altamente previsíveis; ao ponto de parecerem dejavu. Fui até a recepção para esperá-los, sendo atingida por um abraço caloroso de Camila e impessoais acenos de cabeça de Daisy e Elton. 

Camila, como de costume, era uma bolha de alegria e animação. Falou sobre o voo, perguntou sobre o trabalho, sobre Michael, sobre o hotel, tudo antes de chegarmos ao quarto. Eu não reclamaria, era bom ter contato com um pouco de vida com tantas razões para se desanimar. Um andar separava eu e ela de onde minha irmã e cunhado ficariam, mas Daisy como adorava ser útil se candidatou a ajudar Camila com suas malas enquanto Elton levava a deles. 

- Rosie pode me ajudar. – A mais nova argumentou contrariada. 

Daisy insistiu. Camila insistiu de volta. Até eu interferir dizendo que seria ótimo que Daisy estivesse lá, já que eu teria que fazer algumas ligações para a coordenação da feira. 

Elton não disse uma palavra, porém apertava e beijava a mão da esposa a cada cinco segundos. Talvez o único sinal de imprevisibilidade de toda aquela cena. 

Aquela situação estava me fazendo chegar ao limite, não por agonia, mas por irritação. Até quando ficaríamos assim? Tudo por que eu pedi que tivéssemos mais espaço, que não trouxesse seus problemas até mim a seu bel prazer. Isso já estava se estendendo mais do que deveria. 

Com Elton não me incomodava, na verdade era até recomendável que mantivéssemos uma distância, caso tudo que ele me disse sobre seus sentimentos do passado continuarem, mas goste Daisy ou não, éramos irmãs e não havia chance alguma de que eu deixasse de estar os meninos.

- Daisy! – A chamei, no corredor do meu andar. Ela havia “terminado” de “ajudar” Camila e estava indo para o elevador.  

Tudo que fez foi pegar o que estava dobrado na mala e deixar em cima da cama e interromper cada vez que Camila falasse algo para mim e não para ela. 

Paramos em frente ao ascensor. 

- Até quando vamos continuar desse jeito? Pretende me ignorar pra sempre? – Perguntei, incisiva. 

Ela fez cara de desentendida. 

- Mas não era isso que você queria? Não ser mais incomodada com os meus problemas? Só estou fazendo o que me pediu. 

- Por que você insiste em complicar as coisas assim? Tudo que eu pedi foi pra que você não me obrigasse mais a colocar as suas questões acima das minhas. Que não me sobrecarregasse, que não me desrespeitasse, mas se pra você ser capaz de fazer isso significa precisar ignorar totalmente a minha existência então me avisa de uma vez. 

De braços cruzados, ela riu cética. 

- O que me surpreende que você queira tanto assim na sua vida alguém que te explora, te sobrecarrega e te desrespeita. – Apertou o botão do elevador com frustração pela demora. 

Eu bufei exausta e prestes a jogar as mãos para o alto. Mas em algo ela estava certa, se meu objetivo era me fazer respeitar mais essa conversa estava beirando a violação da minha dignidade. 

Respirei fundo, fechei os olhos por alguns segundos – até que não visse mais tudo vermelho – recomecei. Maneirada. 

- Olha... Se essa é a forma que você quer levar a situação, então ok. Eu sei que você é esperta o bastante pra entender o que eu quis dizer. Que tudo o que eu queria era que pudéssemos recomeçar a nossa relação, não como a que tínhamos antes e nem muito menos como a que temos agora. Se isso for possível, então me deixe avisada, mas se não for então seguimos como estamos. E aí eu também posso começar a te tratar como se não te conhecesse. 

Foi meu ultimato antes de virar-me e tomar rumo até a suíte onde Camila já havia se enfiado no chuveiro. Não podia esperá-la ficar pronta, precisava urgentemente ir até a feira para dar os últimos retoques ao stand de Michael. Em uma hora e meia os portões do evento se abririam e ele teria que estar lá, com tudo pronto, para assinar seus livros para o público. 

Ou seja, em uma hora e meia Camila poderia ser livre para ter seu reencontro com Michael. O brilho em seus olhos e a agitação em seu espírito denunciava que não havia pensado em nada mais desde então. 

Quando Michael enfatizou a Camila que o primeiro dia continha o trabalho mais pesado, foi provavelmente um pretexto para que eles não viessem. Ele não podia estar mais enganado. Eu tinha de organizar os livros no stand, fiscalizar a fila, direcioná-lo durante o lugar, quando o evento terminasse tinha cuidar de que os livros que sobrassem fossem bem empacotados e enviados de volta à editora, além de ter que enviar todo o material de apresentação da sua palestra para a organização; o que por sorte eu já fiz dias atrás para evitar acumulações. 

Com tanto que se fazer quando Michael chegou mal houve tempo para o clima pesar. Claro, houve olhares tímidos, silêncios hesitantes, dificuldade de encontrar as palavras e tudo que ordenasse o cardápio, mas a velocidade com qual tudo passou foi tanta que em um piscar de olhos ele já estava em sua cadeira, atrás de uma mesa assinando exemplares para uma fileira de pessoas, comigo dando conta de chamar o próximo e não deixando que se acumulassem. Ele sorria, dizia algumas palavras simpáticas de boas vindas e desejos de que se satisfizesse com a leitura.

Ambos nos concentrávamos ao máximo no que tínhamos que fazer e evitávamos ter que encontrar o olhar do outro, entretanto as vezes se tornava inevitável; e sempre que um fazia era como se o outro sentisse. Ao nos encontrarmos, eu rapidamente desviava e ele suspirava com uma resignação desagradada. 

Acho que nós merecíamos. Não pelo que fizéssemos, mas pelo que tínhamos fora daquele quarto. Eu com Alec, ele com... Talvez Camila, talvez essa tal Laura. Se Michael não tinha nada sério com nenhuma não significava que gostaria que qualquer uma delas soubessem o que passou. 

Quando Camila apareceu, junto de Elton e Daisy o horário das assinaturas estava chegando ao fim. Eram duas horas no total até o próximo autor com o próximo lançamento vir ocupar o stand. A demora ela justificou ter sido por Daisy querer parar para comer. 

Elton brincou que Michael estava tendo um dia de superestrela e tanto ele quanto Camila compraram o livro e ficaram na fila para que ele assinasse. Daisy ficou ao lado do esposo ainda alheia a minha presença, novamente era possível observar os dois numa troca de carinhos e afetos que nunca lhes foi comuns. As vezes o olhar de Elton decaia sobre mim antes de beijá-la ou tocá-la, não sei se como uma maneira chula de provocação ou por querer provar um ponto; seja qual for eu rezaria para que aquele casamento seguisse assim. 

Após conseguirem a assinatura de Michael, o tédio deles ficou um tanto obvio e antes que Daisy começasse a reclamar de qualquer tipo de dor, falei para Camila os sugerir que andassem em procura de livros para colorir para os meninos e os indicasse o caminho da cantina. Ao que tudo aquilo terminasse, poderíamos todos nos encontrar de novo. 

Camila rondava os arredores, entrava numa loja, saia, entrava em outra, saia, sem parecer muito atenta. Ela teria que fazer um melhor trabalho e começar a adquirir algo se queria fazer jus ao pretexto da mãe para sua vinda “Camila precisa comprar livros para a faculdade”. 

Ao que a primeira parte acabou, nós três nos olhamos como quem perguntasse o que fazer agora. 

- Bem, agora eu tenho aquela palestra chata pra ir. E você o que quer fazer? – Ele começou, instável, perguntando à Camila. Previsivelmente ela o expôs o quanto gostaria de acompanhá-lo e de assisti-lo discursar. Mas ao contrário de quando sugeriu sua presença na viagem, dessa vez Michael aceitou sua companhia de bom grado. – Rosie, não se preocupe por mim. A parte que eu precisava da sua ajuda basicamente já foi. Vou pedir a organização que recolha o que sobrou e leve pro armazém. Se quiser passear com a sua irmã pela feira, levá-la pra vê a cidade, o que for, fica a vontade. Daqui pra frente eu dou conta. 

Desde o principio esse era o nosso combinado. Que meu auxilio seria necessário na organização das assinaturas e para que ele pudesse ter sua sobrecarga diminuída e se dividir entre isso e o trabalho da universidade. Entretanto, havia um diferenciar inconfundível em seu tom. Uma urgência, uma mordida, um desconforto; tudo ao mesmo tempo. 

Se isso significava que ele fosse me evitar pelo resto do dia automaticamente também significava que não teria minha situação resolvida com ele. E eu precisava de uma resposta sobre o que aconteceu, ou melhor, sobre por que ele fugiu. Se apenas dependesse do meu bem estar e paz de espírito, eu engoliria esse impulso e seguiria as regras do jogo que Michael ordenasse, entretanto, era minha relação com Alec que estava em perigo. Como encará-lo novamente, sem ter essas perguntas respondidas? O que fazer com esse namoro, com tantas dúvidas sem serem atendidas? 

- Posso falar com você um segundo? – Sussurrei sem alarme, porém firme; e sem o dar chances de dizer não, imediatamente me afastei alguns metros de onde estávamos esperando que ele me seguisse e Camila ficasse. 

Ele veio, ela não. 

- O que houve? 

- Isso é por causa do que aconteceu ontem à noite? – Fui mais direta do que de costume. 

Michael se impactou momentaneamente, uma de suas sobrancelhas subiu pela surpresa, mas logo estava de volta no lugar; assim como sua estabilidade e dureza. 

Ele deu os ombros. 

- Acho que não tem como ser por outra coisa, não é? – Estando tão perto um do outro eu notei como sua barba ainda estava falha. Ele não havia usado meu presente aquela manhã. – Mas não tem o que se preocupar, tudo ficou muito claro. Estávamos bêbados e cometemos um erro, um deslize, nada além. – Sorriu um sorriso frio e espinhoso - Melhor atender esse telefone. 

Então Michael se foi e como um ilusionista despertando a assistente de seu transe hipnótico, eu percebi que meu celular esteve tocando esse tempo todo. 

Droga. Minhas mãos abriram a bolsa numa pressa desorganizada, chacoalhando tudo que encontrasse pela frente. Eu estava tremendo e piscando frenética ainda tentando acordar todos meus sentidos. 

Atendi sem olhar quem era, mas conscientemente sabendo quem era. 

- Alec. Oi. – Michael e Camila já haviam desaparecido de meus olhos. 

- Tá podendo falar agora? – Confirmei que sim e comecei a andar sem muita direção de onde ir ou do que fazia. Minha cabeça ainda pesada. – Eu contei que tinha um jantar importante ontem não é? Pois bem. Você não sabe a sorte que eu tive. No avião, quando estava voltando pra Raleigh, acabei me sentando ao lado de Daniel Wallis. Não sei se você o conhece, ele é o... – O interrompi para dizer que sim o conhecia. Daniel Wallis era o herdeiro da Ponto Car. Uma rede de postos de abastecimento no sul do país, extremamente bem sucedida. – Acontece que eles estão querendo expandir o mercado na cidade. Enfim, conversa vai e conversa vem, ele mencionou que estava em busca de uns bons terrenos para poder negociar a construção de novos postos. Então, lógico, eu falei da gente; que estamos pra liquidar a empresa, que pretendemos arrendar os terrenos, que estamos abertos a negociação, enfim, enfim... 

Muito empolgado, como poucas vezes o vi, ele seguiu contando que teria outra reunião com Wallis hoje para lhe mostrar os terrenos e, se ele gostasse, darem inicio a uma conversa. O homem tinha pressa, segundo Alec, e com toda certeza preferiria ter em mãos um local onde já não estivesse ativo e, portanto, pronto para iniciar obras. Com a gente, havia a desvantagem de ter que negociar, demolir tudo e só então começar a construção. Porém Alec estava confiante em sua lábia e na ligação de ambos estarem no mesmo mercado. Ele ansiava por minha volta, alegando que comigo ali nosso armamento seria redobrado.  

Eu confirmei meu interesse no negocio, embora em muitos momentos a fraqueza da minha voz me traísse. Porém, isso não parecia nada que Alec notasse; sua ansiedade não permitia. O incentivei que insistisse em fechá-los e reconfirmei minha volta em menos de dois dias; e não havendo mais nada que dizer um para o outro, desligamos. 

Agora com a minha atenção livre, me restava pouco além de refletir o que passou. Mas o que havia para refletir? Questionei. Ele não poderia ter se expressado com maior lucidez. Bebamos demais e fizemos besteira, algo que acontece todos os dias. Por sorte, seu lapso de realidade veio rápido o bastante antes que estendêssemos o erro até a cama. 

Não poderia me lamentar, não tinha o direito. Não por um homem que não era meu e não estando em outro relacionamento. Isso não era nada mais, nada menos, do que uma dose implacável e severa do que significa estar na vida real. 

Ao estar prestes a me decidir o que faria agora, um chamado alheio me atraiu. 

- Rosie! Rosie! – A voz da minha irmã. Sem perceber, eu já havia andado até a área da cantina. Eles estavam no mesmo lugar onde me sentei com Michael e com Benwick ontem. 

Por pura educação e formalidade, acenei e fui até ela e o marido. Imaginando que Daisy houvesse me chamado pelo mesmo motivo e obrigação. Mas então, quando ela disse que estavam cansados de olhar livros e que queriam fazer alguma coisa, me chamando para acompanhar, eu soube o que significava. Que estava disposta a remediar as coisas comigo. 

Elton olhou minha presença com indiferença, contudo eu não me importei com ele e aceitei, feliz e aliviada. Eu sabia o que “fazer alguma coisa” significava no vocabulário de Daisy e isso era shopping. Ela e Angela no geral compartilhavam os mesmos interesses por compras e centros comerciais, porém com a caçula sendo uma versão bem menos exagerada. Angela era viciada nas roupas e acessórios, já Daisy em produtos de casa dos canais de anuncio da Polishop. 

Passamos boas horas lá. Elton na loja de esportes enquanto eu e ela víamos potes que se transformavam em trituradores, aspiradores que limpassem aspiradores, fitas isolantes capazes de conter até mesmo furos de pneus e etc. Falávamos pouco, mas no momento em que ela me fez uma reclamação preocupada sobre o estado que encontraria os filhos (deixados com a avó) quando voltássemos, me fez ter a certeza de que tudo muito em breve ficaria bem. 

Era perto das cinco horas ao que já estávamos prontos para retornar ao hotel e encerrar o dia, quando Camila me mandou a seguinte mensagem. 

“Encontramos um amigo do Michael hoje na palestra. Ele nos convidou para jantar no apartamento dele daqui a pouco. Ele disse que te conheceu ontem e gostaria que você fosse junto. Daisy e Elton podem ir também. Esse é o endereço... ”. 

Daisy imediatamente insistiu em marcar presença, por mais que lhe desgostasse conhecer estranhos dessa forma. Mas se eu o fui apresentada e Camila o foi apresentada, ela que não iria ficar de fora. 

- Se é amigo do Michael deve valer a pena conhecer. – Disse Elton, sem se importar em aceitar. Passaríamos rapidamente no hotel para deixar as sacolas de Daisy e tomar um digno banho. 

Eu encarei o plano com normalidade. Nesse ponto já não era mais incomum encarar Michael após uma situação embaraçosa, era mais bem ocorrência; e eu havia gostado de Thomas Benwick o suficiente para querer revê-lo mais uma vez antes de ir embora amanhã de noite. 

--x--

O apartamento de Benwick era diferente do que eu esperava que fosse. Localizado em uma região pouco modesta de Atlanta, os cômodos eram espaços e a decoração alegre e feminina. O sofá era grande e acolhedor e a mesa de jantar parecia ter sido desenhada para uma família de dez filhos; quando só viviam ali pai e um bebê que apenas andava. 

O lugar não refletia o humor introspectivo e modesto do dono. Eu sabia o porquê. A casa muito provavelmente havia sido decorada pela esposa, que tinha em mente receber pessoas, amigos, família e fazer todos se sentirem bem vindos e à vontade, mas Natalie havia-se ido e os resquícios dela e de seus sonhos ficaram. Ele provavelmente não tinha coragem de se desfazer nada. Nem sequer das fotos dela junto a ele nas estantes, paredes e mesas de café. 

Thomas recebeu os convidados com cortesia e cavalheirismo, tanto que ninguém poderia questionar a educação de seus cumprimentos. Mas apesar de destilar educação, não sorria e pouco tinha o que adicionar nas conversas, embora parecesse ouvi-las com atenção. Ninguém que o observasse diria que estava dando essa reunião por obrigação, diria que era um homem reservado e só. Mas eu pressentia que era essa a razão; fazer da estadia de Michael algo mais animador. 

Kyle, o bebê, era uma graça. Risonho e desperto, apesar de um tanto manhoso. Adorava ficar no colo e receber carinho e Michael, Camila e eu parecíamos dispostos a conceder seus desejos nesse aspecto. Eu principalmente, já que os outros se prendiam muito em seus assuntos. Assim como o anfitrião, eu também pouco falava; além de que não estava com fome – meu prato logo se terminou e pude me dedicar a brincar com Kyle enquanto os demais se ocupavam entre si. 

- Ele parece ter gostado de você. – Disse Thomas, nas minhas costas; o que eu rapidamente me virei. O bebe dormindo aos meus braços. – Ele normalmente vai e brinca fácil com todo mundo, mas não é com qualquer um que ele consegue dormir. 

Em seu rosto os resquícios de um quase sorriso. Então, eu sorri. 

- Tenho um pouco de experiência. Dois sobrinhos. Muito mais eufóricos do que o seu. E se eu consigo fazer aqueles dois dormir, acho que consigo o mesmo com qualquer criança. 

Agora sim ele sorriu. 

- Então é uma sorte que esteja aqui. Achei que com tanta gente ele ficaria muito agitado e que não conseguiria dormir. – Seus olhos estão foram até a mesa onde todos conversavam com vozes altas e desinibidas. Nós dois afastados do outro lado do cômodo, perto da varanda. – Ele não está muito acostumado a esse tipo de ambiente, mas imagino que deva fazer bem de vez em quando. 

- Não só para as crianças. Ter amigos por perto faz bem pra qualquer um.

Percebendo-o mais relaxado, engatei uma confortável conversa sobre seu apartamento, os lugares em que vi ontem pela cidade e o agradeci pelo cuidado com minha recepção, o que não tive oportunidade na outra vez. 

Percebi que apesar de falar pouco, ele era do tipo que gostava de escutar as pessoas falando. Thomas recebeu minhas graças com humildade, comentou de maneira banal e pouco intima sobre suas primeiras impressões sobre quando veio morar em Atlanta aos catorze anos, sendo originário da Florida. Suas respostas sobre a casa foram ainda mais genéricas, provavelmente por terem mais haver com Natalie. 

Quando sugeri que me levasse até o quarto de Kyle para que o pudesse deixar lá, o cenário de estarmos sozinho junto a um quadro na parede azul dele com a mulher tornou impossível que eu não falasse nada. 

- Sua esposa, imagino. – Observei, retraída. 

- Sim. Natalie. Minha... Falecida esposa. – Confirmou, desgostoso, enquanto cobria o menino. Ficamos ali sob a grade do berço observando o sono tranquilo do pequeno. Eu comentei o quão bonita ela era e como se parecia com Kyle, extremamente desconfortável com o teatro em ter que fingir que não a conhecia. Houve uma curta pausa. Benwick provavelmente esperava que eu perguntasse como ela morreu e dissesse o quanto sinto muito, mas isso eu não faria. Meu descaramento não chegaria a tanto. – Acho que ele parecerá com ela no jeito também, Natalie era bastante animada, extrovertida, a alegria de todo lugar que estava. Espero que ele não perca isso. Espero que eu consiga incentivá-lo a seguir assim. – Nessa parte em particular sua voz soou áspera, chegando a mim com dificuldade. 

- Não há nada de errado em ter um caráter mais reservado, Thomas. – O tranquilizei. Além de um viúvo em luto, aquele também era um pai temeroso do que poderia significar para o filho crescer sem mãe. – Reserva, introspecção, nada disso necessariamente significa tristeza ou desanimo de espírito. E tenho certeza que você está dando seu máximo com ele, não há duvidas.

- Ele é a única coisa que ainda me mantém respirando. – Confessou, doloroso. Sua primeira confissão intima até aqui. E que provavelmente seria uma das únicas. 

Virei-me para seu lado, tocando-o no ombro com segurança. 

- Isso sim é o tipo de coisa que poderia fazê-lo infeliz. Saber que a pessoa que mais se ama no mundo não está bem. Infelizmente não basta só está aqui por ele, você tem que se levantar, seguir em frente, ser feliz de novo, por si só. 

Thomas soltou uma risada sarcástica, cheia de ar e descrença. Ele agradecia minhas palavras, mas não as via como algo possível e tangível. Poderia apostar que já ouvira o mesmo uma e outra vez de amigos e parentes. 

- Escuto muito isso. – Disse. Como se adivinhasse o que acabei de pensar. – Mas até agora ninguém me diz como fazer isso. 

- Bem... Talvez ler livros mais felizes seja um bom começo. – Brinquei, causando-lhe um riso sincero e aberto. Ele revelou ter percebido a careta que eu fiz para sua coleção. Depois, falei sério. – Terapia é sempre o primeiro caminho indicado, por mais clichê que seja. Fazer coisas que você gostava de fazer antigamente, tentar descobrir novos hobbies, lugares, amigos, pessoas. Não viver apenas como um pai, mas também como um homem. É um passo de cada vez, muitos passos pra trás, novos pra frente, pra trás de novo. Nada na vida nunca vai ser linear, nem as recuperações, mas também não se pode ficar na zona de conforto. Às vezes a gente perde muito mais estando nela do que no fundo do poço. E esse é o conselho de alguém que ficou muito tempo nessa posição. 

Houve uma longa pausa. Dessa vez, ele assentiu com mais seriedade e autenticidade as minhas palavras, até mesmo com uma dose de curiosidade pelo meu passado. Que assim como ele, eu também era reservada demais para revelar. 

Nossas últimas palavras antes de sair do quarto foram: 

- Se você tivesse uma mínima noção do que foi que eu perdi... 

Naquele momento, a imagem de Michael veio a minha cabeça. 

- Acredite, eu tenho. 

De volta aos adultos, novamente mais observamos do que interagíamos e nossa falta não era sentida o bastante para diminuir ou aumentar o ritmo da conversa, mas dois momentos interessantes foram notáveis. De todo o grupo, Michael e Camila eram quem presidiam os assuntos, mas principalmente Camila. O que não passou despercebido por Thomas. 

- Antes de vocês chegaram – Ele me sussurrou. - Ela passou vinte minutos me fazendo mais perguntas e me contando mais sobre a vida dela do que se faz numa entrevista de emprego. 

Aquilo, entretanto, estava longe de ser uma critica de sua parte. Eu sorri. 

- Com ela nunca tem tempo ruim. É ótima de se estar por perto. 

- Eu percebi. Vou agradecê-la na saída, fazia muito tempo que não se escutava tanta risada nessa casa. – Sua cabeça então indicou para Michael. – Acho que vou torcer pra que dê certo entre eles, assim ele traz mais ela aqui. 

- Eu acredito que dará certo. – Nesse momento, eles dois se levantaram indo rapidamente até a cozinha para trazerem mais vinho. 

- Provavelmente. Eles têm muito em comum. 

Com a ausência dos animadores de torcida, a sala se calou brevemente; até Elton puxar conversa com o dono do imóvel, lhe perguntando sobre o que mais gostava de falar. Golfe e se havia um clube familiar ou um campo de golfe por ali por perto. 

Thomas lhe falou sobre um clube familiar muito elogiado na região, porém que nunca tinha frequentado. Elton quis saber o quão bem elogiado era e com suas antenas de empresário se acendendo, o que raramente acontecia, pediu o endereço e expressou o desejo de conhecer o lugar; provavelmente para comparar com o da família e vê o quão bom era se os colocassem lado a lado. 

Em menos de cinco minutos após Camila voltar com Michael, ela conseguiu convencer todos a irmos ao clube amanhã bem cedinho para aproveitarmos o último dia em Atlanta. 

--x--

- Eu acho que o amigo do Michael gostou de você. – Disse Camila quando estávamos sozinhas, cada uma em sua cama, debaixo do edredom do hotel, prontas para dormirmos a qualquer momento. 

- Como é? – Exclamei, jurando que ouvi mal. Ela confirmou que falava sério. Eu ri. – Acho que você bebeu demais e está é com sono. 

- O que eu sei é que você era a única pessoa lá que ele parecia disposto a trocar mais de duas palavras. Vai dizer que não reparou? 

- Talvez seja por que você monopolizou o único amigo dele lá. – A provoquei. - E nós já tínhamos sido apresentados na noite anterior. Nem todo mundo se sente confortável em conhecer gente nova, Camila. – Algo que ela poderia ter dificuldade em entender. 

- Mas teve aquilo que ele te falou na hora que estávamos indo embora... Como foi mesmo?...  – Ao recordar começou a gargalhar sem descrição. – “Quero dizer que gostei muito da sua conversa”. Ah meu Deus, ele é tão desajeitado, coitadinho. – Eu rolei meus olhos, esportiva e ela seguiu rindo e insistindo. – E o homem ainda se ofereceu pra alugar uma vã pra que possamos ir todos juntos ao clube amanhã. Ele poderia simplesmente nos encontrar lá, deixar que fossemos de táxi, mas não. E eu acho que foi por você; até o Michael concordou comigo. 

- QUE? – Quase gritei. De repente, aquilo já não era mais divertido. 

Ela deu os ombros em descaso. 

- Quando fomos até a cozinha, perguntei pra ele se achava possível um interesse do Thomas em você. Ele não soube o que dizer no começo, mas admitiu que poderia ser provável. 

 - Dizer que pode ser provável está muito longe de concordar. – Um intruso pensamento sabotador me veio, dizendo que Michael nesse ponto deveria achar absurda a ideia do interesse de qualquer homem por mim. Balancei a cabeça estressada, que coisa mais juvenil e dramática. – E como estão as coisas entre vocês? – Mudei a direção do tema. 

Sua expressão se confundiu, primeiro com a duvida e depois com o otimismo. 

- Eu não percebi nada de muito diferente desde a festa. Pelo menos não até agora pouco. – Ela apertou o cobertor contra seu corpo, como se o quisesse impedir de tremer e se chacoalhar de excitação. – Ainda na cozinha. Ele me convidou pra um almoço amanhã, depois com toda a ideia do clube tivemos que mudar pra um café da manhã; aqui mesmo nessa cafeteria em frente ao hotel. Ele vai ter que passar aqui mais cedo antes do Thomas chegar. Disse que tem algo muito importante pra conversar comigo. – Conforme ela falava, mais seus olhos brilhavam. Pediu que não avisasse nada nem para Daisy ou para Elton. Tinha medo da cunhada se meter no plano e arruinar tudo. - Rosie, eu acho que ele vai me pedir em namoro. Tenho certeza. O que mais poderia ser?

O que mais poderia ser? 

A pergunta fez eco na minha cabeça. Teoricamente poderia haver milhões de outras possibilidades, mas aos observá-los havia poucas restantes e essa era a uma grande probabilidade. 

Eu sabia que eu tinha perdido. Na verdade, eu já admitia isso sem problema e sem dor, desde muito tempo. Eu nunca me vi competindo, nunca me vi tendo esperança, duvidava que me via querendo-o de volta. Mas aquele beijo mudou tudo. 

Eu senti lágrimas começarem a se reunir na lateral dos meus olhos, se não quisesse ser vista era melhor desligar o abajur. 

- Fico muito feliz por você, Camila. – Desejei com o máximo de felicidade que poderia reunir. – Você merece, ele é um bom rapaz. – Aqui, fui mais sincera. – E se quiser acordar amanhã, linda e sem olheiras pro homem dos seus sonhos é melhor irmos dormir. 

Ela sorriu em concordância e nos despedimos pela noite. O quarto inteiro se escureceu completamente. Mas duvido que ambas tenhamos conseguido dormir muito. Ela pela inquietação do que estava prestes a ganhar e eu pela angústia do que estava prestes a perder. 

--x-- 

Após muito esforço para conseguir adormecer, acordar nunca foi tão fácil. Quase que junto ao apitar do celular de Camila minha consciência estalou de volta para a realidade, quase como se o convite para aquele café fosse meu, tivesse sido feito para mim. 

Entretanto, meus olhos não se abriram. Eu senti ela receber a mensagem dele, correr para o banheiro onde lavou o rosto, escovou os dentes, penteou os cabelos e se trocou com o que provavelmente era um vestido com um casaco por cima. 

A porta do quarto bateu, ela saiu, meu olho abriu e eu encarei o branco do teto por alguns minutos sem pensar em nada, como se não existisse, como se fosse alguém sem um passado que me arrepender. Como se houvesse acabado de nascer, acabado de morrer ou como se nem sequer existisse. 

Deixei a autopiedade vir, a deixei me arrastar, me permitir xingar a mim mesma de todos os piores adjetivos que me coubessem, mas fiz uma promessa. Assim que retirasse o pé dessa cama e colocasse no chão, isso acabaria e eu nunca mais me deixaria atingir por ele ou pelo que viesse dele ou do que essa manhã resultasse. Aquela seria a minha única chance de sentir pena de mim e então eu aproveitei. 

O piso estava um gelo, mas nunca me pareceu tão receptivo. Tomaria um banho mais longo caso não tivesse com tanta fome – comer tão pouco ontem de noite estava fazendo minha barriga roncar. E foram em trivialidades como essa; comida e temperatura do ambiente que minha cabeça foi se ocupando, nada além. 

Vesti uma bermuda branca jeans apropriada para um dia num clube familiar e tênis. Se conhecesse melhor as avenidas por aqui, tiraria esse começo de manhã para uma corrida rápida; um pouco de exercício faria bem. Mas teria que deixar para amanhã quando já estivesse em casa. 

Fiz uma anotação mental. Amanhã, fim de tarde, depois do trabalho, corrida de vinte minutos pela praça. 

Desci até a recepção em rumo ao restaurante do hotel para aproveitar um pouco do Buffet do café da manhã. Era 08h15 da manhã e Benwick ficou de passar as 08h30 o que significava que Elton e Daisy já deviam ter acordado e nesse momento estavam tomando café no quarto ou tomando banho. Em hotéis eu sempre gostei de descer para comer ao invés de pedir serviço, afinal, qual a vantagem de viajar senão conhecer os lugares ao máximo? Isso inclui o lugar onde se está hospedado. 

Poderia ter continuado a pensar em mais generalidades como aquelas e seguir com meu objetivo, mas o acaso não quis ir de acordo comigo. No saguão as portas e janelas de vidro permitiam a total vista para a avenida. Carros, motos, ônibus, pessoas, animais, postes, asfalto, pavimento, calçadas, prédios, lojas... A cafeteria do outro lado da rua. Onde, naquele exato momento, um casal estava parado à frente. Enquanto um mundo de vida passava ao redor deles, ambos estavam demasiado distraídos. Mas não da forma como eu pensei que estariam; alegres, bobos, aos beijos. Não. Estavam discutindo. E qualquer que fosse o assunto não era agradável. 

Me aproximei da janela por instinto, sem perceber o que fazia, ao mesmo tempo que queria me aproximar. Camila gesticulava com tudo de si; com ânsia, nervosismo, desespero, raiva, frustração. Enquanto Michael ao mesmo tempo em que tentava acalmá-la parecia tentar se explicar. 

Ela pegava no cabelo, batia o pé, ele tentava apanhá-la pelo braço, com delicadeza, para que não se alterasse. Algumas pedestres ao redor davam uma breve parada para assistir antes de seguir seu rumo, o que significava que as vozes estavam altas. 

Aquilo seguiu por mais alguns minutos, eu já não estava mais perdida na cena e no vendaval da coisa toda. O que quer que tenha acontecido apesar de não ser da minha conta estava passando dos limites, eu deveria ir lá e acalmá-la e pedir que tivessem a paciência de conversar, sobre o que quer que estivessem conversando, depois, com mais intimidade e com a cabeça fria. 

E era o que estava prestes a fazer quando, de repente, Camila pareceu atingir seu limite. Sem olhar para trás, ela deu as costas para Michael, pronta para voltar ao hotel de piso firme e com lágrimas nos olhos. Porém, também lhe faltou olhar para os lados. Sua inconsequência a fez pular no meio da avenida para, logo depois, voar e ser derrubada por um carro em alta velocidade.

Tudo que ouvi foram os gritos. 


Notas Finais


Espero que tenham gostado, muita coisa vai acontecer de agr em diante. Deixem comentarios, sempre gosto de ler suas opiniões, me incentiva mto. Até a próxima.


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