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História Shine Forever - Capítulo 1


Escrita por:


Notas do Autor


°ೋ•❀ —Annyeong, xingus.

Capa por @Misuzu_
Betagem por @Fillira

Espero que gostem

Capítulo 1 - Capítulo Único


 “O ser humano é imperfeito. Se ele não tiver alguém que perdoe seus pecados e o ajude a acertar, ele continua a pecar”

Lorenzo H.

 

                Os momentos que antecederam a escuridão ainda estão claros em minha mente.

...

                Minhyuk estava mais agitado do que nunca, como se isso fosse possível, já que ele era o mais barulhento e animado de todos nós sete. Mas ele tinha motivo para tal animação, já que, aos vinte e três anos, ele era o último do grupo que havia tirado sua carta de motorista, o que era uma grande vitória.

                Lee Minhyuk era muito ansioso e avoado e, por isso, havia reprovado no teste algumas vezes, o que nos levara a pensar que ele nunca conseguiria.

                Talvez eu devesse ter acreditado mais nele.

                Resolvemos sair em viagem para a praia noturna, que era seu lugar favorito, para comemorarmos que agora ele não seria mais o único que não sabia dirigir.

                No carro da frente foram: Shownu no volante, acompanhado de Wonho no carona, com Jooheon e Hyungwon no banco de trás. No outro carro fomos eu e Minhyuk na frente, e Changkyun atrás. Entreguei as chaves na mão do recém motorista e me sentei no banco do carona, mesmo hesitante quanto a isso.

                Suas mãos tremiam e suavam um pouco quando coloquei meu cinto e, por pouco, consegui notar isso, o que me deixou com ainda mais medo.

                 ―Todos colocaram o cinto? – Ele disse, todo animado, e agitado demais para ficar sem se mexer em frente ao volante, como uma criança em um passeio de escola.

                ―Sim, hyung, agora siga aquele carro! – Chang apontou o carro que estava à nossa frente, em tom de brincadeira –  Eu sempre quis dizer isso.

                ―Minhyuk, você verificou e ajustou os retrovisores, para colocá-los na posição certa? Encaixou bem o cinto? Colocou na primeira marcha? Está com calçados apropriados?

                 ―Sim, Kihyun omma, não fique tão preocupado -Ele me dirigiu um sorriso sincero e assenti, evitando olhá-lo depois disso.

                Nós nascemos no mesmo ano e, embora o loiro fosse apenas alguns dias mais velho que eu, Minhyuk sempre se referia a mim como mãe dele e dos outros, por ser o mais responsável, em todos os sentidos.

                Shownu deu partida, e o rapaz ao meu lado fez o mesmo, começando a seguir lentamente atrás. Eu estalava os dedos e pescoço de forma nervosa, desconfortável em estar ali naquele carro, por algum motivo.

                 O começo da viagem foi calmo e passou rápido, eu até podia ver o mais novo dormindo no banco de trás. O rádio estava ligado, tocando uma música americana aleatória, que me deixava com um pouco de sono, mas não consegui dormir.

                 Assim que o asfalto liso e reto deu lugar a serras íngremes, curvas fechadas e chão sem pavimento e esburacado, os problemas começaram. Pelo menos, na minha cabeça:

                ―Minhyuk, a marcha, não se esqueça de trocar agora – Eu disse, assim que percebi que ele estava nervoso em aumentar a velocidade e em fazer curvas mais fechadas do que as da via expressa.

                 ―Pode deixar, eu sei – A resposta saiu um pouco mais alta do que ele planejava, visto que me olhou assustado em seguida, e acordou Changkyun, que permaneceu calado, sem entender direito o que estava acontecendo.

                Eu devia ter deixado o loiro em paz depois do primeiro comentário que soltei pois, no fundo, eu sabia que ele teria conseguido. Mas eu não parei.

                ―Eu acho que se você fizer assim... – Tentei trocar a marcha, na intenção de ajudá-lo a trocá-la novamente, mas ele colocou a mão antes, afastando a minha.

                ―Kihyun-ah, está me deixando nervoso. Eu consigo fazer sozinho.

                Mas eu não conseguia controlar aquele sentimento ruim que estava em meu coração naquela hora. Se eu tivesse permanecido quieto e guardado minhas preocupações para mim, tudo teria sido diferente naquele dia, mas nem sempre sabemos o que nos está reservado. Se eu soubesse, teria feito de outra maneira.

                ―MINHYUK! Assim você vai acabar batendo no carro da frente – Grito, exasperado, quando o vejo brecar uma vez, se desculpando em seguida.

                 ―Eu já me desculpei, hyung, o que mais espera que eu faça? – Ele disse entredentes, sem me encarar.

                ―Acho melhor não atrapalhá-lo, Kihyun hyung – Foi a primeira vez que Changkyun se pronunciou depois de acordar, quando começamos a entrar na serra.

                ―Na próxima parada eu irei pegar o volante, já chega – Foram as últimas palavras que eu disse naquela tarde.

                Senti o sorriso do rapaz morrer e seus ombros se encolherem, como se ele estivesse se punindo por me decepcionar, ou estivesse triste pelo fato de que eu não acreditava nele.

                 A próxima coisa que me lembro é de vê-lo acelerar, enquanto passávamos pela subida íngreme. Ele estava olhando fixamente para frente, com a expressão chateada que eu tanto odiava ver.

                ―Min hyung, acho que deveria ir mais devagar... – Chang sussurrou.

                Mas ele não teve tempo de terminar, porque ouvimos um baque alto, e nossos corpos começaram a ser jogados em direções diferentes. Olhei para o lado, assustado, e ouvi Minhyuk gritar quando, ao perder o controle do volante, percebeu que o carro caía monte abaixo.

                Minha visão ficou turva e senti as lágrimas se acumulando em meus olhos, enquanto tentava procurar as mãos de ambos com as minhas, na esperança de acalmá-los, tentando fazer com que eles vissem que ia ficar tudo bem.

                Mas, ao invés de seus dedos quentes, o que eu encontrei foi a escuridão. E não me lembro de mais nada.

...

 

                 Levanto-me calmamente, e avalio meu corpo, à procura de qualquer ferimento que seja, ou contusão, ou dor. Não acho nada.

                 Minhas roupas estão limpas e meus cabelos arrumados, o que me assusta um pouco. Olho em volta, procurando o carro, ou algum dos meninos que poderia estar me procurando ou ferido, mas não acho nada nem ninguém, e o único barulho que consigo escutar entre as árvores são os pássaros.

                O tempo está nublado e parece já ser tarde, perto do horário do jantar, e finalmente me pergunto quanto tempo eu dormi depois que caímos. Ou será que dormi mesmo? E se a queda não passou de sonho, e já estávamos todos na casa de praia?

                Ando pelo que parece ser uma eternidade, sem nenhum sinal dos seis que estavam comigo, ou de casa, ou de comida. Mas, de forma impressionante, eu não me sentia cansado – eu ainda podia andar por mais horas e horas nesse ritmo.

                Finalmente avisto uma coisa ao longe, e reconheço o lugar onde estou. Era próximo da casa de campo de Minhyuk, que ficava na divisa da cidade, ao lado de uma floresta. Mas o que estou fazendo aqui?

                Escuto um choro e me viro lentamente, sem conseguir achar a origem do som. Ando até uma pedra e começo a escalá-la, para conseguir ver melhor, já que a noite estava começando a ir embora e o dia a amanhecer, quando escuto passos a minha direita e me viro, a tempo de ver Changkyun correndo, sem rumo, enquanto seus soluços altos preenchiam o ambiente e calavam as aves.

                 Eu começo a segui-lo, para saber o porquê de seu choro, apenas para vê-lo se ajoelhar em frente a uma grande árvore e gritar. As lágrimas caíam de seu rosto em cascatas e me espanto, já que nunca o havia visto assim.

                Começo a andar lentamente em sua direção, temendo que meus passos pudessem despertá-lo e assustá-lo, quando vejo-o começar a sussurrar:

                ―Por quê, Kihyun hyung? -Ele chorava, se engasgando com as palavras, o que me dava um aperto no peito, e me fazia querer abraçá-lo com força – YOO KIHYUN!

                Seu grito é agonizante de escutar e ele segura com força em sua camisa, o que me faz perceber que ambos seus punhos estão enfaixados, e seu rosto tem algumas escoriações que eu não havia notado antes. Ele parecia ter se ferido há algum tempo.

                Sinto meu queixo tremer e me ajoelho, sem conseguir respirar, sentindo uma dor aguda atravessar meu corpo, me fazendo ficar curvado. Se Changkyun já tinha suas feridas cicatrizando... O que me aconteceu? Onde eu estava?

                Antes que eu pudesse me recompor, a escuridão me toma novamente mas, dessa vez, permaneço consciente da mesma, acordado no escuro.

                Eu estou morto?

                Eu me recuso a acreditar nisso. Eu não posso estar morto, não posso. Eu estava no carro, com Minhyuk, nós estávamos... Discutindo.

                A realidade me atinge, e ela doí mais do que as pontadas agudas em meu coração, que me colocaram de joelhos.

                Eu o havia feito perder o controle da direção do carro. Por minha culpa ele havia capotado, e eu paguei com a vida por isso. Meu coração doía e eu precisava encontrar Minhyuk e saber como ele estava depois de tudo isso.

...

 

                 Assim que acordo novamente, percebo que estou na mesma floresta, com as mesmas roupas, mas dessa vez o dia já estava claro há bastante tempo, o que faz novamente com que eu me pergunte quantos dias se passaram desde o acidente. Eu tinha milhões de perguntas como essa em minha mente, desde onde estavam os outros, até onde meu corpo estava, se estava enterrado ou não, se meus pais já sabiam ou não.

                Sou tirado de meus pensamentos ao avistar duas pessoas na direção da casa do loiro e caminho até elas, percebendo que ambas estavam muito exaltados e pareciam brigar, e resolvo me aproximar mais, finalmente as reconhecendo:

                ―E por que não me deixa ir? – Jooheon tenta se soltar dos braços de Wonho, que o empurrava na direção contrária a que estavam indo.

                ―Para quê? Pra você ir até ele e o socar? Acha que isso vai mudar o fato de que Minhyuk já se sente culpado pelo que aconteceu ao Kihyun?

                 ―Ele não tem culpa... – Tento dizer, andando ao lado deles, mas nenhum dos dois me escuta.

                ―Ele o quê? – O mais novo encarou o jovem a sua frente, com o queixo tremendo –  Min hyung o quê?

                ―Changkyun me contou o que aconteceu aquele dia – Wonho continuou, ainda segurando o amigo pelos ombros – Lee Minhyuk estava no volante, ele que tirou os outros dois de dentro do carro, antes de desmaiar.

                ―Então foi isso que aconteceu com eles...

                 ―Acho que você devia dar o tempo que ele precisa. Já está sendo muito difícil pra ele.

                 ―Difícil pra ele? – Jooheon apontou na direção da casa – Ele sequer teve coragem de assumir sua responsabilidade para nós!

                 ―Parem com isso! A culpa não é dele! – Grito, já soluçando, sentindo as lágrimas descerem por meu rosto.

                Mas recebo apenas o silêncio como resposta. Eles não conseguiram me ver.

                O barulho de um motor desperta nossa atenção, e corremos para alcançar o carro que estava indo em direção à casa de Minhyuk, que até então estava calma.

                Consigo avistá-lo saindo pela porta, de muletas, com a perna direita engessada, ao mesmo tempo em que Shownu bate a porta da picape e segue na direção do loiro, acompanhado de Jooheon e Wonho, que conseguiram alcançá-lo.

                ―Shownu hyung... – O rapaz tenta falar, mas o soco que o mais velho dá em seu rosto, na altura do maxilar, o derruba antes que ele possa continuar.

                 ―Parem de fazer isso! – Tento gritar mais uma vez, ajoelhado próximo a Minhyuk, que já tinha várias marcas roxas em seu corpo, e agora um corte jazia no canto de sua boca, pingando sangue – Parem, por favor... Ele não tem culpa. Por favor!

                Wonho tenta segurá-lo, ao mesmo tempo que tenta impedir Jooheon de ir para cima dele, algo muito trabalhoso. Minhyuk apenas fica de cabeça baixa, sem responder ou se defender.

                A briga apenas não continua porque outro carro, dessa vez um menor, estaciona na entrada da casa, ao lado do carro de Shownu e, de dentro dele, saem Hyungwon e Changkyun.

                Assim que Hyungwon vê o que está acontecendo, ele vai correndo ajudar o loiro, que ainda estava no chão, a se levantar. Mas o mais novo dos sete fica ali, parado, assustado demais para falar.

                 Por um momento, eu penso que ele pode me ver, mas então ele se recompõe e vai até o núcleo da briga.

                ―Vocês não respeitam o luto e a dor de ninguém? – O rapaz diz, sem encarar nenhum dos presentes ―Acham que sabem o que aconteceu só porque ele estava no volante?

                 ―Desculpem, mas isso já passou dos limites! – Hyungwon completa, ajudando Minhyuk a se sentar no chão, já que o mesmo se encontrava sem forças pra se levantar.

                ―Ele não tem mais o direito de ir vê-lo! – Shownu diz, enquanto apontava o dedo no rosto do loiro.

                ―E você não tem o direito de decidir isso – O corpo esguio e alto de Hyungwon parecia muito pequeno perto do rapaz à sua frente, mas ele permaneceu em frente a Minhyuk, falando por ele.

                ―Eu não tenho o direito? Você acha? – O mais velho o olha, com a cabeça erguida, e dá meia volta, em direção ao carro, acompanhado de Jooheon.

                ―Shownu hyung! Pense antes de fazer alguma coisa – Wonho corre para alcançá-los e entra no carro com eles, antes de arrancarem para longe.

                ―Nós não vamos deixá-los fazer nenhuma besteira, Minhyuk hyung – Chang abaixa-se e dá um sorriso caloroso para o loiro, antes de se afastar com Hyungwon na direção do outro carro, para seguir pelo mesmo caminho de Shownu.

                Antes que o carro desse partida, eu pude jurar que Changkyun estava me encarando.

                 A casa estava quase no silêncio de antes, a não ser pelo choro baixinho de Minhyuk, que permanecia sentado no chão, limpando as lágrimas que insistiram em cair.

                ―Desculpa, Kihyun omma – Abaixo-me, até sentar ao seu lado, e passo os braços por seus ombros, na tentativa de confortá-lo, mesmo sabendo que ele não poderia sentir.

                ―Eu queria poder te dizer que você não tem culpa...

                ―Eu não devia ter pago pra passar no teste final. Mas vocês já tinham parado de acreditar que eu conseguiria...

                Sinto as lágrimas vindo aos meus olhos e as seguro. Eu sabia o quanto era importante para ele provar para nós que ele não era só uma pessoa avoada que não conseguia passar na auto-escola. A culpa era nossa.

                ―Eu queria poder pedir perdão por ter brigado com você e o pressionado aquele dia.

                 O rapaz ao meu lado se curva, até se deitar no chão, chorando copiosamente. Novamente, assim que começo a sentir a agonia de ouvir seus gritos, a dor lasciva em meu peito me puxa de volta para a escuridão.

...

 

                ―Yoo Kihyun? É você? – Sinto alguns raios de luz atravessando minhas pálpebras e me notificando que eu já havia voltado a floresta, mas eles já não me incomodam.

                Abro os olhos preguiçosamente, apenas para me espantar ao dar de cara com Changkyun, de pé sobre mim. Sento-me em um pulo e sussurro para ele.

                ―Você consegue me ver?

                 ―É claro que consigo te ver... É por isso que estou falando com você agora – Ele disse, com a sobrancelha arqueada – Eu te vi ao lado de Minhyuk ontem, mas não acreditei que fosse verdade.

                ―Você-

                 ―Pra ser sincero, eu ainda não acredito que seja verdade... Eu estou com medo de você ser uma alucinação, hyung.

                ―Eu não sei como explicar, Kyun... Mas sou eu. Desde aquele dia que chorou pela floresta –  Vejo-o me olhar, assustado, e abaixar a cabeça com vergonha – Quanto tempo faz que o acidente aconteceu?

                ―Fazem quase quatro semanas...

                ―Eu morri? Eu estou enterrado? – Assim que ele abre a boca para responder, balanço a cabeça, o interrompendo – Eu não quero saber. Não é pra isso que estou aqui.

                ―Então por que, exatamente, você está... Aqui? – Ele dá uma boa olhada pela floresta.

                ―Para impedir que continuem fazendo aquilo com Minhyuk, é claro –  Dou de ombros, com um sorriso seco – Eu preciso que eles saibam que a culpa é minha.

                ―Mas aí você estaria errando tanto quanto eles – Changkyun me responde, com a cabeça baixa e os ombros encolhidos.

                 ―Mas a culpa é minha-

                ―Não, hyung. Você está errado –  Ele me olha, o rosto obstinado e triste – Vocês dois erraram, mas nenhum deve levar a culpa pelo acidente... Ele comprou a carteira de motorista pra nos agradar e você brigou com ele enquanto ele estava dirigindo, pensando que o estivesse protegendo...

                ―Mas eu não devia...

                ―Não há “mas” nessa história, hyung. O Minhyuk levando toda a culpa não nos deixa dormir, e não te deixa ir embora... Você levar toda a culpa pode te levar embora, mas ainda não nos deixa dormir. Não é isso que precisamos.

                ―Então o quê? Por que me sinto tão inútil? O que eu tenho que fazer, Changkyun? – Levanto-me, andando de um lado para o outro enquanto ele permanecia quieto, com as mãos no bolso.

                ―Eu não tenho essa resposta pra te dar... Isso é algo que deve descobrir sozinho.

                ―Quando o mais novo de nós se tornou tão sábio? – Sussurro, parando de andar e o encarando.

                ―Vocês me ensinaram. Fazer vocês se lembrarem de tudo que trabalharam para me tornar uma pessoa melhor é minha forma de dizer obrigado.

                 ―Você deve ir agora. Já irá anoitecer – Vejo-o fazer uma mesura em respeito e me viro, começando a ir embora floresta adentro.

                ―Hyung! – Viro-me, vendo Changkyun já de costas para mim. Eu sabia que ele já estava chorando – Eu perdoei Minhyuk hyung, e eu te perdoo. E eu estava lá com vocês... Então vocês podem, por favor, se perdoarem antes de perdoarem um ao outro?

                E ele continuou andando, me deixando pensar sozinho enquanto a noite caía.

...

 

                ―Quem quer que esteja aí, eu imploro... – Ajoelho-me naquela escuridão que me tomara mais uma vez, sem saber para onde olhar – Eu imploro que me deixe falar com eles apenas uma vez...

                Sim, eu estava falando com Deus, ou deuses, ou quem quer que fosse que estivesse acima de nós, humanos. Eu estava pedindo que intercedesse por mim mais uma vez.

                 ―Talvez fosse o meu destino morrer agora. E eu não estou reclamando disso... – Fecho os olhos, com lágrimas caindo por eles, em direção ao meu queixo – Mas eu não posso deixá-los sozinhos antes de falar com eles mais uma vez...

                Eu havia pensado muito, por muito tempo, no que Changkyun havia falado, na tentativa de entender. Havia pensado tanto que perdera a noção do tempo – não sabia mais quanto tempo havia se passado desde o último encontro.

                Eu havia finalmente, afinal nunca é tarde, entendido que eu precisava me deixar ir, e deixá-los ir... E, pra isso, não poderia haver culpa entre nenhum de nós.

                ―Eles são tudo que eu tenho, então, se alguém ainda está me escutando... Por favor, me deixe fazer algo por eles, como eu sei que eles fariam por mim...

                Silêncio. O eco da minha voz era seco e não ia muito longe, mas, mesmo assim não desisti.

                ―Eu posso não merecer. Eu posso não ter sido a melhor pessoa todos esses anos... Mas eu os amo, e eu prometi que sempre faria o melhor a eles... Eu cometi um erro, eles cometeram erros, e esses erros resultaram no que você está vendo agora. Mas preciso que eles entendam que podem seguir em frente sem mim... Preciso que eles se perdoem como eu me perdoei...

                O som agudo de estilhaços em meus tímpanos me fez cair em posição fetal, segurando a cabeça na esperança de parar de ouvir.

                Eu me lembro de ver o rosto de cada um dos meus meninos antes de perder a consciência.

...

 

                ― Changkyun, acorde –  Chamo-o, o coração palpitando de expectativa –  Vamos, deixe de ser preguiçoso.

                Encaro o rapaz enquanto ele abre os olhos, desnorteado, e se põe de frente para mim, confuso:

                ―Kihyu- –  Ele abaixa a voz para um sussurro, olhando para os lados, verificando se havia alguém acordado – Kihyun hyung! O que está fazendo aqui? Se eles me verem falando com o nada, vão achar que eu estou louco!

                ―Preciso de um favor seu, Kyun – Ele acena com a cabeça, mesmo confuso, concordando em fazer seja lá o que eu ia propor – Preciso que os acorde e os leve agora para a casa de Minhyuk...

                ―Mas Shownu ainda está muito bravo e-

                 ―Confie em mim. Eu preciso que você faça isso por mim, e preciso que seja agora – Suplico, me ajoelhando ao lado de sua cama, e eu tinha certeza que meu rosto denunciava o quanto eu estava assustado – Eu tenho pouco tempo... Preciso que se apresse enquanto acordo Minhyuk.

                Ele ficou em silêncio por um momento, mas logo em seguida concorda com a cabeça, se levantando.

                Sorrio e o observo mais uma vez antes de ir até a casa de Minhyuk.

                O caminho era calmo e eu preferia correr ao invés de realmente aparecer lá de surpresa como um fantasma, embora eu acreditasse que era isso que eu sou agora.

                Por pouco tempo. Em breve eu poderei ir.

                Respiro fundo e entro no quarto do loiro, parando para observá-lo antes de ir até ele. Eu não podia realmente tocá-lo, e isso fazia parte do acordo. Mas ele poderia me ver e eu poderia chamar sua atenção.

                Abro a janela com um estampido, para fazer bastante barulho, e vejo-o apenas se mexer, sem acordar. Vou até ele e começo a chamá-lo em voz alta, colocando minhas mãos em seu rosto, esperando que ele sentisse a sensação gelada.

                No momento em que ele abre os olhos, seu corpo me repele e ele se afasta bruscamente, quase caindo da cama.

                ―Minhyuk, calma, sou eu-

                ―Não, não, não, não, sai daqui! – Ele diz, tremendo, com o rosto já manchado pelas lágrimas – Eu finalmente consegui dormir, isso não pode estar acontecendo novamente...

                 Minhyuk coloca as mãos no cabelo loiro, balançando a cabeça em negação e meu coração aperta. Ele achava que eu era mais uma de suas alucinações e que estava aqui para culpá-lo.

                ―Sou eu mesmo, sua omma Kihyun.

                ―Isso não pode estar acontecendo novamente...

                Escuto o barulho de motores ao longe e me sinto aliviado, sabendo que Changkyun conseguira trazer os outros para cá.

                ―Minhyuk, me escuta! – O loiro na minha frente me encara com os olhos bem abertos, de susto – Sou eu. Preciso que confie em mim e que venha comigo até o lado de fora.

                 Ele parecia em transe, como se não acreditasse no que estava vendo, mas assente e se levanta calmamente, indo cambaleante até as muletas, visto que ainda estava com perna enfaixada.

                Acompanho-o até o lado de fora calmamente, prometendo que iria explicar tudo que ele quisesse saber assim que chegássemos no quintal.

                 Assim que passamos pela porta, os outros quatro, acompanhados de Changkyun, pararam onde estavam, estáticos, mal acreditando em seus olhos.

                ―Kihyun? – Shownu sussurrou, arfando, hesitante em se aproximar – Como...?

                 ―É você mesmo, hyung? – Jooheon se aproxima, tentando me tocar, mas dou alguns passos para trás, para alertá-lo.

                ―Eu não estou aqui em carne e osso...

                Então começo a explicar calmamente, depois de fazer todos se sentarem no chão do quintal, tudo que aconteceu desde o começo daquele dia.

                 Os vagalumes que passavam entre nós pareciam deixar a cena mágica, como algo que não pode ser descrito.

                 Eu começo contando sobre o dia do acidente: como eu estava hesitante, como o caminho foi difícil. Chego no momento da briga com Minhyuk já soluçando ao meu lado.

                 Passo para a batida e o modo como acordei como se estivesse em um sonho no exato momento em que Changkyun estava gritando meu nome na floresta.

                 Falo sobre vê-los brigar, e estar ao lado deles o tempo todo e, por último, digo sobre o fato de que o mais novo pudesse me ver desde o início, de seus conselhos, e do meu acordo para vê-los mais uma vez.

                 ―Então essa... – Hyungwon começa, com a voz embargada – Essa é a última vez que vamos nos ver?

                 ―Eu não sei.

                 O silêncio foi aterrador, até Minhyuk abaixar sua cabeça na terra e, soluçando, começar a falar.

                 ―Me desculpe, Kihyun – Ele soluçava como uma criança, por isso era difícil entender suas palavras com clareza – Eu devia ter lhe obedecido...

                 ―Não sou eu que deve lhe perdoar – Sorrio, tocando sua cabeça, como um carinho que ele não poderia sentir, e vejo-o levantar os olhos em minha direção – Mas, se precisa disso para que você mesmo se perdoe, então sim, eu te desculpo.

                 Todos se encaram, surpresos e com a confusão estampada no rosto. Apenas Changkyun estava calmo, e sorria em minha direção.

                 ―Eu queria poder abraçar todos vocês agora – Sorrio tristemente, com lágrimas nos olhos ―Para saberem o quanto eu os amo... Mas, infelizmente, isso não é possível. Então eu vou fazer meu papel de mãe para vocês uma última vez.

                 Encaro cada rosto, e sorrio ao saber que eles ficariam bem.

                 ―Eu amo vocês, e sei que sentem o mesmo por mim e pelos outros. É por isso que eu peço que me deixem ir – Vejo as primeiras lágrimas caírem dos olhos de Wonho, que tremia levemente de medo – Eu quero que parem de culpar Minhyuk, pois ele não tem culpa...

                 ―Nós não sabemos o que nos é reservado – Continuo, controlando o nó na garganta – O que tinha de me acontecer iria acontecer de qualquer maneira... Todos nós erramos. Mas nenhum de nós tem culpa.

                 ―Eu quero pedir desculpas ao Minhyuk – Sinto minha voz falhar e me obrigo a continuar – Eu devia ter confiado mais em você. E desculpe a todos, por deixá-los pensando que ele era o culpado...

                 ―Kihyun hyung... -Jooheon tenta falar, sem sucesso.

                 ―Eu sei que todos vocês sentem aí dentro que deviam ter feito algo a meu respeito antes... Eu também me senti assim quando vi como deixei vocês. Mas não usem esse medo que vocês sentem como motivos para se tornarem ruins uns com os outros.

                 ―Vocês se amam. E terão que seguir em frente sem mim agora – Fungo levemente, limpando o rosto ―Por isso vocês devem deixar qualquer culpa que sentem aqui, e seguir sem ela... Como irão seguir sem mim.

                 ―Eu não devia ter brigado com você – O loiro sussurrou.

                 ―Eu me sinto mal por não ter ajudado Minhyuk quando ele precisou – Wonho abaixa a cabeça, chorando.

                 ―Eu devia tê-lo escutado quando ele tentou me dizer o que aconteceu –  Shownu colocou a mão no ombro de Minhyuk, que não conseguia encarar ninguém.

                 ―Eu não devia ter zombado dele por dirigir mal e nunca passar nos testes – Jooheon sussurrou ―Eu não sabia que ele compraria a carta para nos impressionar...

                 ―E está tudo bem... – Retomo a fala, com as mãos frias em frente ao meu corpo – Todos erramos, mas não podemos seguir em frente se estivermos guardando isso.

                 ―Vocês devem se perdoar, como eu faria por vocês, e devem permanecer juntos, mesmo que eu não esteja mais por perto, estão me entendendo?

                 Eles confirmam com a cabeça e permanecem em silêncio.

                 ―Kihyun hyung... V-Você está sumindo – Hyungwon diz, espantado, enquanto se levanta.

                 Olho meu próprio corpo e sorrio de forma melancólica, assentindo para eles.

                 ―Então acho que devo me despedir agora – Os rostos espantados de um por um enquanto se levantavam, como se pudessem fazer algo para que eu ficasse, me partiam o coração – Eu queria poder tocá-los agora...

                 Vejo todos acenando para mim, com os rostos tristes, e sinto uma última lágrima cair por meu olho esquerdo. Eram meus meninos.

                 Sinto como se meu coração estivesse sendo puxado com um anzol, e tudo fica branco ao meu redor. Eu tento gritar, e falar, mas da minha boca não sai som algum.

                 A dor é, dessa vez, mais forte do que qualquer coisa que eu já havia sentido, e seguro meu peito, tentando arrancá-la dali.

                 Minha mente se torna uma confusão de vozes e imagens que eu sabia que eram reais.

                 Eu vi os seis brincando na praia, enterrando meu boné favorito na areia, como se um dia eu fosse buscar. Vi Shownu abraçado a Minhyuk, andando por entre as pedras, ambos rindo.

                 A vida deles seguiu, e estava na minha hora.

                 Sinto um puxão e logo depois abro os olhos, escutando um som agudo e rítmico, que logo começa a acelerar. Minha visão turva começa a ganhar forma e vejo um contorno branco e limpo, com luzes que machucam meus olhos.

                 Mexo minha mão e sinto os músculos reclamarem por não serem usados há muito tempo, e tiro a máscara que estava em meu rosto.

                 Tento olhar para o lado, mas minha cabeça lateja em resposta e me limito a tentar levantar a mão esquerda até meu rosto.

                 ―Kihyun hyung? – Eu conseguia escutar a voz de Changkyun por entre o que parecia ser uma parede de vidro, e rapidamente a voz dos outros se juntou à voz dele.

                 ―Doutor! – Eu ouvi eles gritarem – Ele finalmente acordou! Enfermeira!

                 Entre uma mistura de seis vozes chamando meu nome, vejo alguém colocar uma lanterna pequena em meus olhos, o que me deixa confuso.

                 O homem me dá as boas vindas de volta. Finalmente sei porque ele está sorrindo como se eu fosse um milagre.

                 Eu estava vivo.

 


Notas Finais


°ೋ•❀ — Espero que tenham sido tocados ao ler essa história como eu fiquei ao escrevê-la.
Até a próxima, xingus <3


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