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História Sigilo Médico-paciente - Capítulo 1


Escrita por: acasmurra

Capítulo 1 - Sigilo Médico-paciente


Fanfic / Fanfiction Sigilo Médico-paciente - Capítulo 1 - Sigilo Médico-paciente

Voltar para o Brasil não estava em seus planos. Malu saiu do país dizendo que jamais voltaria, que aqui já não tinha mais lugar para ela, já não havia vida para uma mulher como ela. Mas precisava de colo, precisava de uma certa companhia que não tinha em Paris. Precisava de sua irmã. Desembarcou no Rio de Janeiro e foi direto para o apart hotel que sua agente havia reservado. Não queria que sua família descobrisse que regressara. Se refrescou e dirigiu-se até a sessão que haviam marcado para ela. Disseram que o cara era bom, esperava que a curasse desse tormento em que vivia.

Clarice era uma obstetra renomada, que se dividia entre o trabalho numa maternidade pública, seu consultório na zona sul carioca e seu casamento. Sentia falta de sua irmã, mas entendia seu afastamento. Seus pais também tentavam fazer com ela, o que fizeram com sua irmã mais nova. Saiu de casa atrasada, depois de perder a hora com seu esposo conversando sobre a paciente nova dele, que veio recomendada por uma colega sua. Sua rotina seria exaustiva no dia de hoje. 

Renato estava eufórico com a nova paciente que a amiga de sua esposa lhe indicou. Uma mulher rica, que vinha de fora do país somente para se tratar com ele. Assim que chegou, notou que a ilustre paciente já o aguardava. Se desculpou e começou o atendimento. Sua paciente vinha de consecutivas gravidezes emocionais e transtornos de ansiedade. Era um desafio e tanto, ainda mais pela idade de sua paciente. Uma mulher jovem, no auge dos seus trinta e cinco anos, mas que tinha uma urgência em ser mãe.

Malu saiu de sua consulta médica e reparou numa mulher que parecia-se com sua irmã. Se perguntava o que ela estaria fazendo agora, se continuava trabalhando com a obstetrícia, se havia conseguido abrir seu consultório e se havia se casado com o tal homem misterioso com quem saía.  Não tinha coragem de procurá-la pois sabia que ela falaria aos pais sobre seu retorno. 

Passou esses mais de trinta dias no Brasil dividida entre procurar seus parentes ou permanecer sigilosamente no país. Ainda pesava nessa decisão a vontade de ter um pouco de liberdade que sua estadia discreta lhe proporciona. Não queria que as editoras para qual trabalhava soubessem onde estava passando sua temporada de descanso. Se arrumou mais do que o costume e foi para sua décima sessão. A terapia estava fazendo bem a ela, mas não era só isso. O terapeuta se tornou um motivo a mais. Os constantes encontros acidentais que tinham fora do ambiente médico só fizeram estreitar mais a ligação que desenvolveram desde o primeiro dia de sessão. Ao chegar no consultório dele, notou que havia algo diferente, porém tentava não pensar sobre. Não podiam ultrapassar os limites. Ou não queriam? 

Aquela décima sessão trouxe-lhe experiências novas para sua vida. Saiu de lá sem saber se o que ocorrera ali era certo. E quais consequências aquele ato trariam para a sua vida. Saiu andando pelas calçadas pensando naquilo. Esbarrou-se numa mulher e ao se desculpar não escondeu o susto. Não era uma simples mulher. 

- Clara? - Questionava-se se era sua irmã ou uma mulher muito parecida.

- Malu? É você? 

A mulher devolvia um olhar de assombro. Custava acreditar no que via. Ainda hoje conversara por telefone com sua mãe sobre a irmã e o quanto lhe fazia falta. E agora ela se materializa em sua frente. Abraçaram-se, como se nesse abraço pudessem recuperar doze anos de distanciamento.  Saíram dali e foram ao café localizado do outro lado da rua. Sentaram-se uma de frente para a outra, com as mão sobre a mesa, entrelaçadas uma na outra. Não se atreviam a dizer uma palavra que fosse, apenas se olhavam tentando enxergar uma na outra algo que lhes remetesse aos vinte e três anos que conviveram.

Doze anos se passaram e eram praticamente duas estranhas íntimas. Ao pedirem seus cafés, derrubaram o muro que as impediam de se reconectar. Lembraram qual era o café preferido uma da outra. Lembraram dos muitos cafés que tomaram juntas enquanto estudavam para o vestibular. Lembraram de coisas da infância, as descobertas da adolescência e até do que fizeram se afastar por doze anos. Combinaram de se encontrar no dia seguinte. Malu pediu que Clara não contasse para os pais que estava de volta, pelo menos por enquanto, até que se preparasse para encontrá-los.

Esse dia seguinte não chegou. Malu não apareceu no café. Clara ficou desapontada, as poucas horas de conversa no dia anterior não foram suficientes para aplacar a saudade que sentia. E assim seguiu os dias. Um, dois, três meses. Sempre indo ao café, no mesmo horário, na esperança de reencontrar sua irmã. Em uma conversa com o marido contou sobre como se encontraram e o quanto sua irmã escondeu seu passado e como vivia atualmente. Renato a aconselhou a esperar, a respeitar o momento dela, pois o trauma que a fez sair do país, poderia estar impedindo de se encontrarem novamente. Resignada, Clara voltou para a sua rotina.

- Bom dia, marquei uma consulta com a doutora Clara Tavares.

- Seu nome, por favor?

- Maria Lúcia Laurent. 

- Vou avisar a doutora que chegou. - Conversou no telefone com a chefe e logo desligou. - Me acompanhe, por favor.

Seguiu a recepcionista até o consultório. Estava ansiosa, mal conseguia disfarçar. Assim que viu o rosto de sua paciente, Clara não escondeu a emoção. Como seu marido havia lhe dito, sua irmã a procuraria. Se abraçaram. 

- Desculpa o sumiço. Eu fiquei com medo. Eu não consegui ir até você. Eu os vi lá, achei que você não tivesse cumprido com a promessa e tivesse levado-os. - Clara sorriu sem mostrar os dentes.

- Eles apareceram por acaso, trabalham ali perto. Me viram e se sentaram. - Tratou de aclarar a situação. - Vem, senta aqui. - Puxou sua irmã para sentar no sofá em frente à sua mesa de trabalho. - O que te trouxe aqui?

- Estou grávida. - Clara a olhou. - E dessa vez é sério. Estou realmente grávida e não é do meu marido. - Clara não sabia o que dizer e apenas apertou a mão de sua irmã. Era muita novidade para processar. Primeiro, que sua irmã estava grávida, depois do histórico de gravidezes psicológicas que tivera nos últimos dois anos que viveram juntas antes do hiato de doze anos. Segundo, que não era do marido dela, era fruto de uma traição.

- Como isso aconteceu? - Não sabia o que perguntar.

- Eu acabei me apaixonando pelo meu psiquiatra e nós…

- Entendi. - Respirou fundo. - E o que pretende fazer? Contar para seu marido? Para o pai da… O psiquiatra?

- Não sei. No momento eu só quero saber como ele - acariciou  barriga - ou ela está. E, Clara, não fale disso para ninguém. Nem da gravidez e nem como aconteceu. Não é um pedido de irmã, é de paciente.

Clara sorriu para a irmã assentindo e tratou de ajudá-la. Um laço novo estava sendo construído entre elas. Clara fez todos os procedimentos para saber como estava a gestação da irmã e explicava à própria o que estava sendo feito. Desmarcaram seus compromissos e decidiram aproveitar o resto do dia juntas. Ao saírem do consultório se surpreenderam com três visitas inesperadas.

Seus pais e o marido de Clara conversando na recepção sobre um novo restaurante que queriam conhecer. Olharam-se. Não haviam para onde fugir e o embaraço tomou o lugar do clima descontraído em que ambos os grupos estavam. Malu cumprimentou os pais.

- Quanto tempo, Maria Lúcia. - Seu pai quebrou o silêncio. A mãe ainda processava o encontro. - Veio visitar a família?

- Sim. Na verdade, vim visitar minha irmã e descansar um pouco. Como vocês estão? - Perguntava mais por educação e para evitar olhar para seu cunhado.

- Estamos bem. - Sua mãe enfim falou com ela.

- Malu, esse é meu marido, Renato. O tal homem misterioso que você queria conhecer, lembra? - Malu apenas assentiu, tamanho seu desconforto ao descobrir que o psiquiatra e pai da criança que espera é seu cunhado.

- Então, você é a famosa Malu? - Renato tentou dizer sem transparecer o nervosismo com a situação. Ofereceu a mão para cumprimentá-la

- Talvez. - Repetiu o gesto dele e logo se endireitou. - Acho melhor deixarmos para outro dia o nosso jantar.

- Ah, por quê? - Clara não escondeu seu descontentamento.

- Você deve ter suas coisas, seu marido. Não quero atrapalhar.

- Por que não vamos todos? Assim conversamos e conhecemos esse novo restaurante?

A fala da matriarca pegou todos de surpresa e ninguém conseguiu esquivar. Seguiram para o restaurante tão comentado. Cada um acompanhado de seus questionamentos, de suas angústias e de suas culpas. O jantar seguiu relativamente bem. Ninguém falou do passado. Ou de certas coisas do presente. Amenidades que conversavam, desconfortos, lembranças do passado, sejam distantes ou recentes, saias justas, algumas trocas de carinho, desciam com as garfadas que davam dos pratos que saboreavam. Ao final, cada um seguiu para seus respectivos destinos, trazendo consigo coisas não ditas que a qualquer momento os sufocarão.

Malu cogitou sair definitivamente do país. Não queria sofrer tampouco fazer sua irmã sofrer. Havia se apaixonado e engravidado do homem que vinha ser o marido de sua irmã. O terapeuta com quem discutira, antes de se consultar com ela, ao contar que esperava um filho dele e que não queria que ele contasse para alguém. Não sabia o que fazer. Não sabia a quem recorrer. Se viu sozinha como nos meses que antecederam sua partida para Paris.

Renato dirigia até sua casa completamente disperso. Não tinha coragem de olhar para sua esposa. Não tinha coragem de olhar para ela pois seu rosto estamparia a traição com a própria irmã, ainda que não soubessem o grau de parentesco entre eles. Clara também não estava alheia ao ambiente. No primeiro encontro sua irmã disse que fazia terapia ali perto de onde se encontraram. Só havia um local com esse tipo de atendimento ali e era onde seu marido trabalhava. Martelava, também, em sua cabeça, brigando consigo, sobre contar aos pais que eles teriam seu primeiro neto, que realizariam seu sonho de ter um herdeiro, já que ela não podia ter filhos, ou atender a esse pedido de sua irmã. Não queria prejudicar sua caçula novamente. Seus pais se intrometeriam outra vez, pois acreditavam que Maria Lúcia não apresentava capacidade de se cuidar e cuidar de outra pessoa.

Se prepararam para dormir, pensando se quebravam o sigilo médico-paciente e contassem o que tanto os afligiam. Malu pediu que não contassem. Se tratava de um segredo ou de uma confidência trocada entre o paciente e seu médico? Se deitaram, mas nenhum dos dois estava com sono. A cabeça gritava. Renato queria contar sobre a traição. Clara queria saber qual dos colegas do marido poderia ser o pai de seu sobrinho. Era o cérebro e o coração brigando internamente. Não sabiam o que fazer, precisavam de ajuda. 

- Precisamos conversar. - Disseram juntos.

 



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