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História Sim, senhora - Capítulo 1


Escrita por: e +maitagarri


Notas do Autor


‹ NOTAS DA ADMINISTRAÇÃO [♡]:
Exaustos da realidade, as vezes falamos coisas que jamais cogitamos em formular, mas a noite chega e com ela os sentimentos. Boa leitura.

‹ NOTAS DO AUTOR [♡]:
Olá, unicórnios!

Já fazia muito tempo que queria escrever um Yuri com essa temática, e a era da regência proposta pelo ggn me deu essa oportunidade enfim. Fiquei muito feliz >.< Também tinha muita vontade de escrever com miss a, principalmente esse shipp maravilhoso, que na minha cabeça casou muito bom com o enredo. Espero que gostem também.

A história não expande muito alguns sentimentos das personagens, principalmente da Min, mas eles estão aí de modo muito sutil. Foi um estilo que quis tentar para essa fic em especial, então é necessário bastante atenção.
Boa leitura!

Capítulo 1 - A criada


Querido Wang, 

Já faz um ano e ainda não há nenhuma notícia sobre o fim da guerra. Sinceramente, não entendo bem o que a causou, porém sei que não é o suficiente para afastar tantos homens de suas famílias. Nunca é. 

Não quero desmerecer seus serviços, longe de mim, só tenho muito medo de perdê-lo.

Há uma semana, Lady Jieqiong recebeu uma carta. Marido e filho faleceram juntos em batalha. Desde então, não consigo tirar isso da mente. É muito triste tudo que está a acontecer. Espero ouvir boas notícias sobre um fim em breve. E, espero que volte logo para que iniciemos nossa família.

Tirando esses infelizes acontecimentos, está tudo quieto. Não de um jeito bom, infelizmente. Está simplesmente silencioso, mórbido. A guerra pode não ter nos atingido diretamente, todavia estamos a senti-la diariamente.

De um modo geral, estou cuidando bem da casa. Tive dificuldades no início, porém a governanta ensinou-me tudo. Minyoung trabalha perfeitamente, ajuda-me mais do que pensei que ajudaria. Agradeço profundamente esse presente.

Mas, como você está? Suas últimas cartas não deram-me muita informação, estou preocupada. De qualquer modo, espero que esteja bem. Aguardo notícias suas.

Com carinho,

Feifei

A senhora Wang tentou por muitas vezes finalizar com "amor", no entanto a palavra simplesmente não parecia fazer muito sentido em sua mente. Claro que nutria grande carinho por ele, respeito também não faltava, porém, em sua consepçăo, ao contrário do senso comum, amor é uma palavra de extrema força, ainda mais para ser usada com um homem que viu pouquíssimas vezes antes de casar-se e que foi para a guerra logo após as núpcias.

Já o vira sem as vestes, contudo não sabia muito além de seu nome e posses. Isso não podia ser chamado de amor. Esse era um dos motivos para tanto querer seu retorno, conhecer devidamente aquele que a desposara e pai de seus futuros filhos. Ser mãe também seria esplêndido.

Após um longo tempo encarando o conteúdo da epístola, adornou-a com o envelope e selou. Duas das criadas apareceram em seguida, pois tratava-se do horário que costumava levantar-se. Não havia dormido bem essa noite, portanto aproveitou para escrever.

— Você — Feifei chamou uma delas e, assim que esta aproximou-se com uma reverência, entregou a carta em suas mãos. — Mande que entreguem imediatamente, por obséquio.

— Sim, senhora. — Com outra reverência, retirou-se a passos apressados.

Feifei levantou-se e moveu o olhar para a outra criada, Minyoung, a qual sempre ajudava-a pela manhã a vestir-se. A dita cuja não demorou a buscar seu espartilho, vestiu-o por cima da camisola e puxou os cordões que não eram fáceis de amarrar, quase sufocando-a para que destacar a cintura fina. Já estava acostumada, no fim das contas.

— Está bem, senhora? Parece distraída. — Apesar de não conversarem quase nada, possuía uma mínima liberdade ao falar com Feifei, afinal fora presente de casamento do marido e dono da casa. Uma moça habilidosa, treinada e habituada com o ambiente para tornar-se governanta em breve.

— Seu esposo está na guerra? — a pergunta repentina surpreendeu-a. A lady não possuía o costume de questionar sobre sua vida pessoal, na verdade não conseguia recordar se já acontecera. Minyoung umedeceu os lábios e foi escolher um dos vestidos no baú, optando por um azul mais simples para o dia a dia. Era um assunto estranho para ela em particular, porque, sinceramente, não sabia bem o que sentir sobre.

— Ele faleceu há dois meses em batalha.

— Sinto muito. — E sentia mesmo. A guerra a sensibilizou mais do que julgava saudável. Sempre que recebia notícias do tipo, não conseguia parar de pensar no sofrimento que devia ser e como seria se fosse com ela, o que poderia tornar-se um fato a qualquer instante. Poderia estar acontecendo agora e só saberia dias depois.

— Tudo bem… Não o conhecia muito bem.

— É a mesma situação que a minha? Ele partiu após o casamento? — Feifei não podia negar, ter alguém que sabia exatamente o que era não ter nem ao menos tempo para jantar decentemente com o marido, deu-lhe esperanças de possuir uma amiga; uma confidente. 

— Temo que não, senhora. Ficamos algum tempo casados, todavia isso não mudou nossa falta de intimidade. Ele era um homem de poucas palavras, muitas ações e mais sentimentos autodestrutivos ainda. Não era uma boa combinação. — O sorriso rápido nos lábios de Minyoung demonstrou que já havia superado, ainda que a situação não tivesse sido fácil.

Feifei ainda não compreendera muito bem o que estava a dizer. 

— Por que não tentou uma conversa? Talvez ele estivesse esperando por você. Esperando que ficasse pronta.

— Acredite, ele não importava-se tanto comigo — respondeu com certo divertimento na voz.

— Casamento requer esforço de ambas as partes. Você ao menos tentou?

— Perdão, senhora, mas podemos mudar de assunto? — Minyoung deu as costas, puxando a cadeira da penteadeira para que a alguns anos mais nova se sentasse.

Esta última surpreendeu-se com o comportamento, pois nunca tinha visto nenhuma de suas criadas agir assim. É claro que o fato de nunca ter avançado tanto em uma conversa com nenhuma delas possa ser a razão para tal. Portanto, deixou isso para lá e sentou-se. Minyoung passou a escova por seus longos cabelos escuros.

— Os Cheng confirmaram o chá? — perguntou Feifei, como se a tensão de segundos atrás nunca tivesse existido, nem a conversa invasiva.

— Sim, senhora, hoje à tarde.


[...]


Minyoung fechou as portas do casarão um pouco depois dos Cheng saírem e voltou-se à Lady Wang, a qual sentava-se no sofá. Durante todo o chá, demonstrara plena presença de espírito, como se nada a abalasse, no entanto, assim que os convidados saíram, a personagem se foi, deixando uma Feifei ainda mais abalada para trás.

Os Cheng eram amigos próximos seus há muito tempo, uma família de muita honra no conceito de muitos, sempre a postos para ajudar os amigos no que quer que fosse. Quandos os maridos foram para a guerra, as duas senhoras das famílias, Feifei e Xiao, apoiaram-se mutuamente na medida do possível, mesmo com a considerável diferença de idade entre as duas e a distância, empecilho na relação.

Por isso a visita repentina avisada por carta dois dias antes alegrou Feifei de modo que não acontecia há um bom tempo, contudo a notícia trazida não fora nada agradável. Zhan, filho mais velho de Lady Cheng, um moço doce e muito inteligente com o sonho de ser médico, acabara de atingir a maioridade e ser convocado para a guerra. A visita foi uma despedida.

O modo como isso atingiu Feifei foi muito maior do que ela própria poderia imaginar. Seu estado de fragilidade já era grande demais para ser ignorado. Assim, subiu para o quarto. Precisava ficar sozinha por um tempo para processar tudo.

Minyoung, claramente, percebeu o estado da senhora, no entanto, achou melhor dar um espaço à ela e ir cuidar de suas tarefas. O tempo passou enquanto supervisionava a preparação da ceia; fizera questão do prato preferido de Feifei. Talvez assim se sentisse um pouco melhor.

Quando já estava tudo quase pronto e outras criadas cuidavam de colocar a mesa, Minyoung subiu as escadas e foi ao encontro de Lady Wang no último quarto do corredor e maior da casa. Primeiro, bateu uma vez, só então abriu a porta para visualizá-la caminhar de um lado para o outro; mania que possuía quando estava nervosa.

— Senhora?

Seu chamado provocou um leve susto em Feifei, tão distraída que estava com as preocupações a respeito do marido. O pior era que as coisas que Minyoung havia dito pela manhã provocaram nela questionamentos que não eram corretos, principalmente se ele pensava nela da mesma forma que ela pensava nele. Seria possível que Lorde Wang não a tivesse em seus pensamentos durante a batalha?

Feifei olhou-a com certo assombro no olhar, levando algum tempo para colocar a mente no lugar. — Sim?

— A ceia logo será servida. Precisa de algo?

— Não, está tudo bem. — Feifei sentou-se na ponta da cama, as mãos juntas no colo, os dedos movendo-se ansiosamente uns contra os outros.

— Não é o que parece — observou Minyoung sem hesitar, o que surpreendeu a outra. Já era a segunda vez que Feifei recebia uma resposta incomum vindo de uma criada e não sabia como reagir a isso. Qualquer um ficaria irritado e aplicaria uma punição, porém não foi essa a sua vontade.

Mas, o que a deixou completamente sem fala, boquiaberta, foi a ação seguinte de Minyoung, a qual sentou-se ao seu lado; os ombros chegando a se tocar. Feifei encarava-a desacredita, contudo a outra não demonstrou nenhum receio na atitude.

— Meu esposo e eu sempre fomos muito pobres. Não temos terras, nome, nada — começou Minyoung. — Por esse motivo, ele foi colocado na linha de frente. Morreu em poucos dias, é claro, mal sabia segurar uma arma. Ele me mandou uma carta reclamando sobre isso pouco antes. Não entendi muita coisa do que estava escrito, ele também não pareceu entender tudo o que disse, mas entendi que os lordes cuidavam mais da burocracia e sequer pegavam nas armas. Quanto maior o nome, menor o risco. Lorde Wang ficará bem.

Feifei levou ainda um tempo para processar suas palavras, no entanto, quando tudo fez sentido, sorriu minimamente. Sua futura governanta importava-se consigo e isso era bom. Ao menos possuía alguém ao seu lado.

Havia uma grande distância entre as duas. Classe social, status, posses, meios, educação, tudo isso separava-as, com exceção de uma coisa que tinham em comum. Talvez não fossem tão diferentes quanto pensavam.

— Obrigada… — De repente, Feifei notou que não sabia, nem nunca havia se preocupado em perguntar seu nome. Engoliu em seco, envergonhada, todavia a outra não importou-se. Conhecia a própria posição. O instante de proximidade não deu-lhe falsas expectativas.

— Chamo-me Minyoung, senhora.

Feifei não esqueceria, tinha certeza. — Minyoung… Posso fazer-lhe uma pergunta pessoal?

— Sim, senhora.

— Quando soube do seu esposo, o que sentiu? — Podia parecer uma pergunta óbvia, porém o modo como ela falou do assunto, nas duas vezes, deixou Feifei confusa.

— Medo — respondeu sem pensar. — Não tínhamos um vínculo emocional significativo, mas ele ainda era meu esposo. Quando recebi a notícia, eu soube o que seria de mim: uma mulher viúva e sem filhos para cuidar dela. Sabia como seria tratada. É por isso que ainda uso a aliança, para sentir menos medo quando estou sozinha.

— E funciona?

— Um pouco. 

— Parece assustador.

Minyoung suspirou. Parecia ter dificuldade para formular as falas em sua mente. Feifei não conseguia visualizar tão claramente o que lhe era dito, pois tratava-se de uma realidade que não conhecia, ainda assim esforçava-se ao máximo em ser compreensiva. Recebeu atenção antes, era sua vez de retribuir.

— É sim, senhora.


[...]

   

Era sempre difícil dormir. Os pensamentos ruins não cessavam, sua mente nunca descansava. Não havia trégua nem mesmo para uma noite de sono e, se conseguisse um cochilo que fosse, os pesadelos seriam ainda piores.

Portanto, Feifei vagava pelo quarto, folheava livros sem conseguir prestar a devida atenção às palavras e vislumbrava o horizonte pela janela. Havia uma fagulha de esperança em seu coração de que, uma noite, vislumbraria o retorno do esposo. 

Minyoung já a havia tranquilizado muitas vezes nos últimos dias, mas nem por isso deixava de preocupar-se. Nem havia como cobrar algo de tamanha magnitude. Ainda assim, ajudou muito sua senhora com a amizade que desenvolveram. Revelaram uma à outra sentimentos, preocupações e segredos que nunca revelaram a ninguém. 

Tornaram-se confidentes.

Em vista disso, naquela noite, Minyoung foi aos aposentos de Lady Wang, portando uma vela na mão direita. Sabia que estaria acordada. Não precisou bater antes de entrar, esse tipo de formalidade já fora deixada para trás, no entanto ainda cumpria a maioria delas, principalmente na frente de outrens para manter as aparências.

Feifei não surpreendeu-se ao vê-la. Diferente de outras vezes nas quais se assustou, sorriu. Sentada na cama sob os cobertores, vestia somente uma camisola e o cabelo longo caía nos ombros, assim como os de Minyoung. Era a primeira vez que Feifei via-a assim, o que lhe deu uma sensação de conforto.

Sem nada dizer, a mais nova depositou a vela sobre a escrivaninha e foi sentar-se ao lado de sua senhora. Esta chamou-a para se aproximar mais, com um gesto, e deitar-se embaixo dos cobertores consigo. Talvez essa fosse a primeira vez na história que uma lady teria tal intimidade com uma criada, e, por esse motivo hesitou, mas obedeceu. 

Feifei suspirou casualmente, encarando o teto, como se não fosse nada de mais. Minyoung observou-a atentamente durante um longo período. Era tudo muito novo, e não sabia dizer com exatidão se era bom ou ruim.

— Foi um longo dia, não foi? — comentou a lady, sem pretensão real de iniciar um assunto com algo tão trivial, somente queria quebrar o silêncio.

— Acredito que sim, senhora — respondeu Minyoung da mesma forma. 

— Pare de chamar-me assim. — Feifei empurrou-a com um movimento discreto do braço, enfim olhando-a. — Nunca gostei muito de formalidades. Infelizmente, são necessárias, porém não quando estamos só você e eu.

O assentir de Minyoung foi rápido.

— Você tem cabelos bonitos — observou Feifei a respeito dos fios negros e espessos da criada, cuja reação imediata foi um riso curto e nasal. 

— Obrigada. Gosto de cuidar deles, mesmo não tendo para quem mostrar.

— Pode mostrar para mim. De qualquer forma, nada a impede de casar-se outra vez. Existem homens muito interessantes pela cidade. Oh, o cocheiro! Ele sempre olha para dentro da janela da sala procurando por você quando passa pela entrada. 

— Deus… — A face de Minyoung avermelhou-se imediatamente, junto de um negar tímido com a cabeça. Feifei parecia obstinada em provocá-la. — Que loucura. 

— Não, é sério! Deveria falar com ele um dia. Talvez fingir tomar um ar fresco no jardim e acidentalmente encontrá-lo justo no horário em que estará por lá. Só não seja indiscreta.

— Você parece empolgada com a ideia de eu encontrar um alguém.

— Só quero que seja feliz, amigas fazem isso. — Deu de ombros. — Você é jovem, bonita, pode construir uma família linda.

— Parece bom, mas… — O termo escolhido por Minyoung confundiu a senhora, a qual juntou as sobrancelhas. — Após um casamento apressado com alguém que não conhecia bem e que não deu certo, desejo deixar que as coisas aconteçam naturalmente. Se eu tiver que conhecer alguém, conhecerei.

— E se nunca acontecer? 

— Não aconteceu. Algumas pessoas não são feitas para amar.

— O amor é algo que se constrói — insistiu Feifei. — Dá para sentir quando conhecemos a pessoa certa e, após o casamento, o amor floresce com os esforço do casal. Então, os filhos. Foi assim com todos os que conheço, não há outra forma.

— Como tem certeza de que essas pessoas todas se amam de verdade?

— É o que parece.

— Sentimentos de todos os tipos podem ser simulados para os olhos alheios. Não é necessário muitas habilidades para simular o amor, e nem mesmo o melhor observador sabe distinguir o falso do real.

Feifei não pareceu convencida. — Como sabe disso?

— Porque, em todos os lugares que íamos, acreditavam veementemente que meu esposo e eu nos amávamos. Só nós sabíamos a verdade. As coisas não são tão simples.

Por um instante, Feifei estancou, afetada com a frieza que havia no mundo e só passou a conhecer minimamente agora. As coisas pareciam estranhas em sua mente depois de saber a visão que Minyoung possuía sobre coisas que sempre foram-lhe tão belas. 

Piscou algumas vezes, recobrando a consciência. Precisava continuar insistindo na verdade. Ela tinha razão, sem sombra de dúvidas! Precisava ter.

— Pois eu sei distinguir muito bem os sentimentos de qualquer pessoa só olhando para elas! Sempre fui exímia observadora.

— É mesmo? — Minyoung sorriu de lado, divertindo-se com a insistência de Feifei. Já esta última sorriu pela confiança que tinha em si mesma e em suas convicções. — Bem, então o que estou sentindo agora?

— Está dizendo tudo isso apenas para fugir do assunto principal, que é a sua vida amorosa. Está com medo, mas tenta encobrir.

— Errado. — Transformou seu sorriso de diversão em um de vitória, fazendo Feifei entortar a boca. — Neste momento, tenho vontade de fazer sexo, o que torna a ideia do casamento tentadora, contudo o que pode vir com ele, além do sexo, me assusta.

Lady Wang arregalou olhos, afastando-se da criada; só não caiu da cama pelo tamanho que esta possuía. Poderia passar mal com tamanha falta de senso de uma moça. Jamais, em um milhão de anos, pensou que ouviria algo tão desonroso.

— Céus! Como pode pronunciar tais palavras com tanta tranquilidade? Não se diz tais coisas em voz alta, é errado até mesmo pensar nisso, ainda mais perto de outrem. Não pensei que fosse tão despudorada.

— Sinto muito se a ofendi, senhora. — Apesar de suas palavras, Minyoung não parecia arrependida. — Mas pensei que possuíssemos intimidade o bastante para revelar tudo uma para a outra. É óbvio que não falaria sobre isso normalmente com mais ninguém.

Se era a coisa certa acreditar nela, Feifei não sabia, contudo, se negasse interesse, ou melhor, curiosidade, por menor que fosse, em suas palavras, estaria sendo hipócrita; coisa que não gostava nem um pouco. Chegara a um impasse.

Receosa, voltou a aproximar-se. Ao menos ninguém ficaria sabendo dessa conversa. Minyoung não era assim, todavia, mesmo que usasse esse momento para tentar difamá-la, ela acabaria sendo a errada da história, afinal seriam as palavras da criada contra às de Lady Wang. De qualquer forma, não estava realmente preocupada sobre a lealdade da outra. 

— Bem… — Limpou a garganta, ajeitando a postura. — Não entendo o propósito do que diz.

— O propósito? — Minyoung viu graça na escolha peculiar de palavras.

— Sim. Sexo é a intimidade máxima de um casal, um momento de grande beleza para aumentar a família — pronunciou as palavras com firmeza, apesar do rosto vermelho como um pimentão. Dava graças mentalmente pela escuridão da noite.

— Oh, é mesmo, você só fez isso uma vez — debochou Minyoung, o que foi respondido com um estreitar de olhos de Feifei. — Sexo não é só para se ter filhos. Aliás, essa foi a única coisa interessante que tive no casamento. Apesar de meu esposo não ter possuído muito interesse em agradar-me, pude descobrir muitas formas de melhorar nossas intimidades por mim mesma e foi deveras agradável, devo dizer.

— Fala de prazer?

— Sabe o que é isso? 

— Não sou estúpida. — Feifei revirou os olhos.

— Certo. — Riu-se. Era divertido causar o constrangimento da senhora ainda tão inocente.

— Nesse sentido, sexo não possui nada de especial.

— As primeiras vezes dificilmente possuem algo de especial. Muitas vezes, acho que nem a experiência ajuda nisso, porém, se nos aperfeiçoamos, as coisas são bem diferentes.

— E como se faz isso?

— De várias formas. Uma delas é dando-se prazer, por exemplo. 

A explicação não melhorou em nada a confusão de Feifei, muito pelo contrário. Suas palavras não faziam sentido, não se encaixavam uma na outra. Soava como outra língua. E, mesmo se tivesse entendido algo, de qual maneira poderia fazer tal coisa? Era possível?

— Tudo bem, feche os olhos. — O que quer que Minyoung quisesse com isso, Feifei não pareceu muito suscetível. — Confie em mim.

Com o lábio preso entre os dentes, Lady Wang obedeceu sua criada, porém pulou ao senti-la desamarrar a frente de sua camisola. O interessante foi que, mesmo com o susto, não ousou abrir os olhos.

— O que está fazendo?

— Fique calma, já saberá. — O tom suave e ligeiramente rouco usado por Minyoung tão próximo dela acalmou-a por completo logo após respirar fundo para relaxar o corpo. Confiar na amiga era a coisa certa.

Lentamente, o fio que prendia sua camisola foi solto, deixando que o tecido largo caísse o bastante para que seus ombros pálidos fossem revelados à meia luz das velas. Uma brisa bateu na pele exposta, arrepiando-a por inteiro.

— Imagine Lorde Wang — narrou Minyoung, a voz baixa, ébria. Afastou mais um pouco o tecido, ao ponto de ver um dos seios firmes de sua senhora. A ponta de seus dedos tocou a carne tão de leve que provocou cócegas. — Ele está aqui, admirando-a; pensando em tudo o que quer fazer com você. Ele quer tirar sua veste, vê-la por inteira. Quer tocá-la, senti-la, fazê-la dele.

De repente, um beijo queimou a pele do pescoço de Feifei. Não era nada de mais, no entanto o que sentiu foi forte, quase incontrolável, sendo que sequer sabia o que realmente significava. As reações de seu corpo para algo tão singelo não faziam sentido. Estaria doente? 

Um segundo beijo, mais abaixo dessa vez, próximo ao ombro, ao passo que os dedos deslizaram tão suavemente pela curva do seio que, por pouco, não poderia sentir. Mas sentiu, e isso a fez apertar os lençóis por baixo dos cobertores, longe da vista de Minyoung.

Então, a palma da mão resvalou o bico eriçado, o que resultou em uma fisgada forte no pé da barriga. Céus, o que estava acontecendo?

— Lorde Wang toca um ponto que o atrai especialmente e o estimula. O modo como fica sensível rapidamente em suas mãos deixa-o mais desejoso de agradá-la cada vez mais. Seu objetivo é fazer com que se sinta especial. — Minyoung sussurrou a última frase.

A respiração de Feifei, nesse ponto, já não funcionava normalmente. Estava definitivamente ficando doente. Teria que chamar o médico pela manhã. No momento, todavia, queria aproveitar as sensações. Por esse motivo, quase protestou quando Minyoung retirou a mão de seu corpo. Só não o fez por notar que colocou-a por debaixo dos cobertores. 

— Lorde Wang levanta sua veste, toca suas pernas, sente a textura macia e as afasta bem devagar. — Feifei permite que a criada faça tudo consigo; os olhos fechados aumentando a percepção de cada toque. Minyoung aproximou-se ainda mais, a ponto da respiração lamber seu rosto e o peito apoiar-se em seu braço. — Ele sente sua intimidade com os dedos, explora seu formato, e surpreende-se com o fato de já estar tão úmida com tão pouco. Mas isso é bom. Sua falta de experiência não assusta-o, pelo contrário, apenas melhora as coisas.

Feifei tinha quase certeza de que Minyoung estava sorrindo ou ao menos queria acreditar nisso. Alguma coisa pulsava em seu pulso, gritava que era errado, mas não queria parar. Queria ir até o fim,  descobrir mais e só parar quando estivesse satisfeita, se é que isso era possível.

Contudo, a melhor parte foi quando o indicador e o médio de Minyoung escorregaram para dentro com a ajuda do líquido melado, este que produzia um som que, por algum motivo, Feifei adorou, no entanto não mais que a sensação do toque em seu interior. 

Os primeiros movimentos foram lentos. Estava ainda experimentando, testando velocidade e força, e observando o modo como Feifei reagia a eles. Bem, ela gostou de todos; prova disso foi ter agarrado o braço de Minyoung para descontar o prazer, os rostos tão próximos que chegava a ser perigoso. Mais um centímetro e seus lábios se tocariam. Se um acidente como esse acontecesse, Lady Wang não lamentaria.

A senhora abriu os olhos, desobedecendo Minyoung e a si mesma. Não queria imaginar Lorde Wang, queria ver sua criada. O que quer que significasse, esta última sorriu, aumentando a destreza nos dedos contra seu interior.

Feifei não conteve os sons confusos que escaparam de seus lábios entreabertos, gemidos roucos, revelando certa manha e até desespero. Se tivesse tentado segurá-los, sinceramente, não conseguiria. Que bom que essa não era a sua vontade.

Esse som misturou-se ao produzido pelo choque entre os dedos ágeis de Minyoung contra a umidade sensível de seu sexo, formando uma sinfonia. A cada segundo que se passava, a sanidade de Feifei tornava-se somente uma palavra sem sentido, assim como o que estava acontecendo.

Uma vontade enorme de retribuir tomou conta dela, ainda que não tivesse a menor ideia de como fazer. Somente queria que Minyoung sentisse o mesmo, contudo não possuía coragem para tomar uma iniciativa. O melhor era apenas aproveitar o momento que a criada proporcionava-lhe.

A forte sensibilidade abaixo de Feifei aumentou gradativamente, junto ao desespero dos gemidos que precisavam permanecer baixos — a luta para tal necessitava de grande concentração —, ao ponto de já não saber mais quem era ou onde estava. Só existia o prazer e Minyoung diante de seus olhos. Até algo inacreditável acontecer.

Foi como se aquela sensação se expandisse repentinamente por todo seu corpo, levando-o a arquear-se e chocar-se com o da criada. Isso não impediu-a de continuar, somente fez com que diminuísse lentamente os movimentos, e parou apenas quando Feifei amoleceu em seus braços.

Lady Wang foi atingida pelo cansaço de modo a confirmar a hipótese da estranha doença que apossou-se dela, no entanto permaneceu com forças o bastante para alimentar a curiosidade do que viria depois. O que quer que fosse, seria de tirar o fôlego.

Estava entregue.

A    água fria que se seguiu, no entanto, não passou nem perto de suas expectativas. Apressada, Minyoung levantou-se, pegou sua vela e dirigiu-se à porta, como se sua vida dependesse disso.

— Espere! — pediu Feifei automaticamente. Não sabia como interpretar a atitude repentina, sabia somente que não sentia-se bem com ela. Minyoung, como pedido, estagnou sem olhar para trás. — Onde vai?

— Não devia ter aberto os olhos, senhora. — Abriu a porta e fechou-a logo atrás.


[...]


A sala encheu-se com os risinhos das duas damas entretidas na conversa tranquila que travavam, enquanto tomavam do chá da tarde. Feifei recebeu a visita de Meiqi, uma das filhas de Lady e Lorde Meng e grande amiga sua.

A jovem era alegre, de conversa fácil e belíssimos dotes musicais, os quais sempre encantaram Lady Wang. Infelizmente — ou felizmente, dependendo do ponto de vista —, não teve a oportunidade de casar-se antes das ameaças de Bonaparte, no entanto, quando tudo estivesse bem, não teria dificuldade em encontrar um marido.

Não via-a desde a cerimônia de casamento há um ano, pois morava à uma distância considerável, por isso a visita repentina deixou Feifei extremamente contente; até a fez esquecer ligeiramente da humilhação que passou na noite anterior.

— O casamento a fez bem, Fei, suas feições estão mais maduras e está muito elegante — elogiou Meiqi.

Sua beleza nesse dia em especial não era devido ao casamento. Acordara naquela manhã com uma estranha vontade de arrumar-se o melhor possível, talvez isso pudesse ajudar, porém ver uma velha amiga foi muito mais eficaz. Mas não usou essas palavras, somente agradeceu, não deixando de, sem nem perceber, olhar de esguelha para a criada presente.

— Soube da novidade? — Meiqi alargou o sorriso de empolgação, os olhos brilhando como a garota apaixonada que era. — Alguns militares ficarão na cidade por alguns dias. Deus, estou tão ansiosa para vê-los!

Normalmente, Feifei teria dito que tal acontecimento não era motivo de empolgação para uma mulher casada — seu instinto por pouco não a fez dizer —, contudo, com o olhar de Minyoung sobre ela, acabou por simular um enorme sorriso.

— Esplêndido! É tão estranho passar tanto tempo apenas na companhia de mulheres. Não é saudável.

— Concordo plenamente, apesar de uma preferência injusta por minhas amigas — Meiqi brincou com um riso discreto. Tomou o último gole de chá e depositou a xícara sobre a bandeja na mesa de centro. Depois, voltou novamente o olhar para Feifei, dessa vez sério e com um vislumbre de piedade. — Como está lidando com tudo?

De fato, não queria pensar nisso agora. Queria apenas esquecer por um instante e aproveitar o momento de descontração, todavia não contaria isso à ela.

— É difícil, preocupo-me, mas vou levando. E o seu pai, como está? 

— Muito bem. Recebemos uma carta há dois dias. Ele foi dispensado, Fei! Mamãe está tão contente que parece dez anos mais jovem; nunca a vi tão bem. As coisas estão melhorando, acho que pode ser que acabe em breve.

— Isso é sério? — Feifei arregalou os olhos, o coração disparado batendo no peito. A visão do esposo retornando no horizonte estava mais próxima do que imaginou. Não deveria criar esperanças antes de maiores informações, mas como poderia evitar? 

— Sim! Em breve, a vida voltará a ser como sempre foi. — Um suspiro fugiu pelos lábios de Meiqi. Seus olhos estavam distantes, sem olhar para nenhum ponto específico. — Já posso imaginar.

— Oh, Deus! — Deixou o chá de lado pela metade mesmo. A única coisa relevante era o fim de toda essa tortura para que pudesse retornar aos braços do marido, de onde nunca devia ter saído. Em pouco tempo, iniciariam juntos a família que Feifei sempre sonhou.

Planos, entretanto, nem sempre se cumprem. Tudo foi por água abaixo com uma simples batida na porta. Minyoung foi atender, porém o mensageiro tinha ordens específicas de entregar a carta diretamente à Lady Wang.

Feifei não precisou de mais nenhuma informação para saber o que estava acontecendo.


[...]


Ter uma família é mais do que o sonho de toda jovem, é o dever, e com Feifei não foi diferente. Quando conheceu Lorde Wang em um baile e viu o modo como seus olhos eram puros, especialmente para ela, a qual dançava como nenhuma outra, soube no mesmo instante que era ele.

Encontraram-se algumas vezes após a noite em questão, e sua imaginação só foi ainda mais longe. Até que, um dia, a proposta de casamento aconteceu. Não foi difícil para Feifei imaginar-se entrando na Igreja com Lorde Wang à sua espera no altar. Mas algo que, definitivamente, não foi capaz de imaginar foi o dia em que o perderia para a morte, muito menos que sequer poderia enterrar o corpo. 

Os futuros filhos permaneceriam na imaginação.

Em um só dia, Feifei perdeu a família inteira, a inocência e a fé. Mesmo com tanta dor, teve que receber a multidão da alta sociedade, a qual veio prestar condolências, e conversar com um por um. Queria apenas deitar-se na cama e chorar até não possuir mais nenhuma gota de água no corpo. Queria ser deixada em paz.

Contudo, possuía um papel a cumprir: deixar-se ser consolada por pessoas que não importavam-se realmente em consolá-la, quando não queria ser consolada. Não teve ânimo nem perto de suas amigas mais queridas.

Levou horas até que houvesse cumprimentado a todos, mas enfim a tortura terminou. Só precisava aguardar que fossem embora após comerem e beberem. Ao menos, poderia aproveitar o momento de distração para escapar momentaneamente até o quarto. Alguns minutos de solidão já seriam o suficiente para respirar fundo e colocar a cabeça no lugar.

Com uma taça de vinho em mãos, dirigiu-se aos seus aposentos — sem importar-se em fechar a porta, já que não demoraria — e sentou-se na cama com um longo gole. Fechou os olhos, respirando fundo três vezes, ao que o agridoce desciam por sua garganta. Quando os abriu, lembrou: esse também era o quarto de Lorde Wang.

— Senhora? — Feifei não esboçou reação ao ouvir a voz de Minyoung. Não ficou surpresa, nem feliz. Era como se todas as emoções além da tristeza não existissem mais. 

— Você ficou com raiva porque abri os olhos. Porque menti. Mas você também mentiu — ditou Feifei, o olhar distante. Uma ardência irritante tomou conta de seus olhos, tornando a vista embaçada. — Você disse que ele ficaria bem

Minyoung suspirou e, mesmo não pedindo permissão, caminhou até sua senhora e sentou-se ao seu lado. Feifei não protestou, então arriscou-se mais um pouco tocando sua mão. Foi algo singelo, no entanto, se dissesse que não ajudou-a, ainda que minimamente, seria uma mentirosa. 

Minyoung tinha um poder estranho sobre ela.

— Sinto muito. — Feifei ouvira essa frase tantas vezes desde que recebera a notícia há alguns dias que já não parecia ter sentido, porém essa foi a única entre todas que guardou em seu coração, pois foi a única sincera em todos os sentidos. Minyoung realmente sentia, e por muito mais do que podia ser dito.

— Por que saiu daquele modo na outra noite? Por que ficou tão distante, como se nada tivesse acontecido? — As questões vieram de repente e em um momento peculiar, todavia Minyoung não ficou surpresa. 

— Não sei se é certo falar sobre isso.

— Não foi certo o que fizemos, nem o que conversamos, mas aconteceu assim mesmo. Deve-me uma explicação. — Feifei, enfim, olhou-a. Foi difícil para Minyoung manter o contato visual, porém esforçou-se ao máximo.

— Porque eu não deveria ter sentido nada naquela noite.

— Como assim? O que poderia ter sentido em um momento como aquele? — O coração de Feifei falhou uma batida. 

— Eu só… Gostei.

Foi melhor que o assunto fosse encerrado por aí, apesar do silêncio desconcertante que o substituiu. Feifei, então, nada respondeu. Ver sua mão sob a de Minyoung, ao abaixar a cabeça, e prestar mais atenção ao formigamento não contribuiu em nada com seu plano.

 Por sorte, qualquer vontade de continuar a conversa com coisas que não deviam ser ditas foi sanada com a atitude da outra. Infelizmente, não foi da forma mais prudente, o que era a última coisa que Feifei queria ser nesse instante, pois toda sua sanidade se foi com o toque suave dos lábios de sua criada nos seus.


Notas Finais


Muito obrigada a todos que leram, especialmente ao beta e ao capista, pois sem eles isso não seria possível 💕 Espero que tenham gostado desse enredo feito com muito carinho. Até a próxima o/

‹ CRÉDITOS [♡]:
▪ CAPA — @pinknique.
▪ BETAGEM — @nemoratrix.
▪ PLOT — @maitagarri.


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