1. Spirit Fanfics >
  2. Simplesmente amor >
  3. Quando te faço uma surpresa

História Simplesmente amor - Capítulo 16


Escrita por:


Notas do Autor


Oi beninx!
Demorei um pouquinho mais que o de costume dessa vez, tive um bloqueio básico nos últimos dias mas finalmente consegui terminar esse capítulo!
Ainda não respondi alguns comentários, sou enrolada demais mas prometo responder todos! Obrigada de coração por todo feedback de vocês, é muito importante saber o que estão achando do andar da carruagem hihi
Já somos 85 e eu não tenho nem palavras pra agradecer! Confesso que eu mesma não colocava muita fé que chegaria até aqui, mas o apoio de vocês tem me ajudado muito a continuar e não desistir dessa trama. Obrigada por estarem aqui, de coração!
Não revisei o capítulo ainda porque fiquei muito ansiosa para postar, então peço que relevem qualquer erro!
Sem mais enrolações, aproveitem o capítulo ❤️

Capítulo 16 - Quando te faço uma surpresa


Regina

 

Pouco mais de uma semana se passou desde que voltei para casa. Por algum motivo que ainda não descobri ao certo, demorei a me adaptar à minha antiga rotina e até mesmo ao meu próprio quarto. Faltava algo ali.

Ou alguém.

Consegui o meu emprego de volta por uma puta sorte. Conversei com a senhora Bennett e fiz questão de me desculpar por minha falta de profissionalismo e até mesmo por tê-la deixado tão preocupada. Jane sempre me tratou com uma filha, me senti realmente culpada por dar um chá de sumiço sem nenhuma explicação à ela, mas ouvi de muito bom grado o seu sermão de meia hora sobre como minha mãe e ela ficaram agoniadas durante uma semana inteira.

E por fim ela me deu um abraço tão apertado que pude sentir os meus ossos doerem. 

Graças a qualquer força divina, Jane conseguiu se virar bem sem mim naqueles dias, já que o movimento não fora tão grande ela deu conta das vendas sozinha e fiquei extremamente aliviada por não ter causado nenhum dano maior. No final das contas, eu estava de volta à Secret garden bookstore. 

E como nem tudo na vida são flores, meu turno teve que se estender por algumas horas devido ao belo estoque de livros que se acumulou para serem cadastrados e devidamente posicionados nas prateleiras.

Também nesse curto espaço de tempo pude notar que minha mãe e eu estávamos mais próximas. Dona Cora diminuiu o seu tempo no trabalho e não fazia mais tantas horas extras como de costume. Tinha me esquecido de como era bom ter mamãe só para mim durante um tempo. Bom, isso e o fato de ter que dividi-la com Gold. Acho que o relacionamento entre eles está evoluindo e fico satisfeita em ver a pessoa mais importante da minha vida feliz novamente. Mamãe merece toda felicidade do mundo.

Ontem mesmo fomos visitar Graham na prisão e, para minha completa surpresa, meu irmão me recebeu com um abraço acalorado. Foi a primeira vez que conseguimos conversar sem ter nenhuma discussão, apenas eu, mamãe e meu irmãozinho. 

Ele havia mudado um bocado. Estava mais forte e havia deixado a barba crescer, parecia quase um homem de verdade se não fosse pela sua carinha de criança.

Ficamos sabendo que aparentemente o juiz estava considerando uma redução na pena de Graham por bom comportamento, fiquei feliz com isso, apesar de toda situação era nítida a mudança que ele sofreu. Já não estava tão rebelde como antes e não tentava justificar seus erros culpando a outras pessoas por seus impulsos. Já era um bom começo, tudo que eu mais quero é ter meu irmão mais novo de volta a nossa casa.

Desde que voltei de São Francisco, Robin e eu temos nos falado todos os dias por ligações, mensagens ou até chamadas de vídeo. Praticamente criamos uma rotina, mesmo com a distância que se tornava mais incômoda a cada dia. Locksley fazia questão de me mandar uma mensagem todas as manhãs me desejando um bom trabalho, e eu? Eu sorria feito uma tonta só de ver o seu nome brilhar na tela do meu celular. Em termos mais precisos, nos falamos sempre que possível, em meus horários livres e quando ele não estava muito ocupado com suas coisas de menino -como ele mesmo costuma chamar. Me tornei o tipo de pessoa que contava as horas para voltar para casa apenas para conversar com um cara.

Cá estou eu, completamente derretida por um loiro gostoso e pagando a minha língua afiada mais uma vez.

O que posso dizer? Passamos horas conversando por vídeo chamada durante a noite, e não é nem um pouco fácil controlar os meus pensamentos impuros com a visão de Robin Locksley vestindo apenas uma calça de moletom, com seu abdômen musculoso completamente nú, em toda sua glória e quase implorando para que eu o tocasse. Sinto meu corpo esquentar apenas de recordar a cena.

É ótimo manter contato com ele por todo esse tempo, mas sinto falta dele, da presença dele mais especificamente. Longe de mim reclamar do que temos no momento, mas não era a mesma coisa que poder brigar com ele por suas implicâncias ou até mesmo sentir seus braços ao redor do meu corpo durante a noite. Ainda me custa acreditar que me apeguei tanto á ele em tão pouco tempo, mas a essa altura do campeonato já nem me importo com explicações lógicas. Robin me fazia sentir incrivelmente bem e isso é o que me basta.

Com relação ao seu pai, ele tem lidado com a situação de uma forma melhor, estava mais aberto ao apoio de sua família e eu não poderia me sentir mais contente por isso. Ele já estava até mesmo trabalhando em um projeto secreto que se recusa a me contar até hoje. 

—É algo extraordinário demais para contar por mensagem, prefiro dizer pessoalmente.

Eu quis esganá-lo por me deixar tão curiosa, mas aparentemente esse era o hobby favorito dele: me irritar a qualquer custo.

 

 

Acordei um pouco mais cedo essa manhã, sequer esperei o toque do despertador. Eram pouco mais que 6h40 da manhã e eu ainda me recusava a deixar minha cama aconchegante para ir fazer minha higiene matinal. Portland sempre foi uma cidade fria, e mesmo estando praticamente no final do inverno, esse frio do cacete não nos dá trégua nenhuma. 

Após procrastinar por alguns minutos, saí debaixo das cobertas muito a contragosto, mas precisava me arrumar logo, tinha algumas coisas para organizar antes de sair para o trabalho. Me dirigi até o banheiro e liguei o chuveiro, deixando a água correr e esquentar um pouco enquanto escovava meus dentes e fazia minhas necessidades fisiológicas. Nunca fui fã de tomar banho logo ao acordar, mas ultimamente tem sido muito necessário para me fazer despertar de vez, nunca pensei que uma semana de férias em outro estado me deixaria tão mal acostumada.

Não fiquei muito debaixo da água, apenas o suficiente para relaxar os meus músculos e arrancar minha preguiça á força. Depois de fazer o meu ritual sagrado com cremes e perfume -devo ressaltar o quanto senti falta disso-, coloquei uma roupa quentinha composta por um jeans escuro, a primeira camiseta preta que encontrei em minha frente e meu inseparável casaco de lã. Antes que pudesse calçar meus sapatos, minha atenção se desviou para a única foto que ainda restava na parede da minha escrivaninha.

A última foto que iria direto para a caixa de papelão que estava bem ao lado.

Comecei a recolher as fotografias e demais coisas relacionadas a Daniel e guardá-las naquela caixa. Sua camisa do time de basquete favorito, o moletom que roubei de seu guarda-roupa sem que ele percebesse e até mesmo o boné que acabou esquecendo em uma das vezes que veio me ver. Já era hora de me desfazer daquelas coisas. Eu não as jogaria fora, de maneira alguma. Por isso comecei a empacotá-las, eu iria levar até a casa de Anne, mãe dele. 

Quando adentrei meu quarto uma semana atrás, já não me sentia mais confortável tendo todas aquelas fotos e recordações por perto. Não que eu estivesse me desfazendo dele ou algo do tipo, era só o meu coração me pedindo para seguir em frente. Já me resolvi aqui dentro sobre essa situação, Daniel foi uma parte muito importante na minha vida, mas nada mudaria a fatalidade de que ele não voltaria mais e que manter todas aquelas coisas ali não fazia mais sentido. 

Ele sempre dizia que queria me ver feliz e agora, mais do que nunca, eu estava trabalhando nisso.

Caminhei até o canto do meu quarto e peguei a pequena foto em polaroide nas minhas mãos e a guardei junto com as outras. Anne ainda mantinha o quarto do filho completamente intacto, acredito que vai guardar nossas recordações com o mesmo carinho que eu o fiz durante quase dois anos.

Sai da minha bolha de pensamentos ouvindo o meu celular apitar, anunciando uma nova mensagem, peguei o aparelho no bolso traseiro do meu jeans e o nome de Robin já se fazia presente.

 

“Bom dia morena, já acordada?”

 

Um sorriso bobo se formou em meus lábios como de costume.

 

“Bom dia, Rob! Já estou acordada sim, mas você acordado antes das oito da manhã é uma novidade :P”

 

Sua resposta não tardou a chegar.

 

“Assim você me ofende :( mas vou relevar o seu comentário e dizer que tenho uma novidade!

 

“Ah é?! Resolveu me contar sobre seu projeto secreto?”

 

Arrisquei, a verdade era que eu não me aguentava de curiosidade e ele me provocava exatamente por saber disso.

 

“Tenha um pouco mais de calma, senhorita impaciente! Não é sobre isso... ainda. A novidade é que na semana que vem já estarei em Portland para poder te provocar bem de perto ;)”

 

Sorri sozinha com a notícia.

 

“Que ótimo, Rob! Me dói admitir isso, mas sinto sua falta.”

 

Sua resposta veio quase que imediatamente.

 

“Também sinto a sua, morena! Agora vou deixar que se arrume, não quero te atrasar. Tenha uma bom dia e um ótimo trabalho :)”

 

Respondi com um emoji e tratei de desfazer a grande feição tola que certamente enfeitava meu rosto. Fiquei realmente feliz em saber que ele logo estaria aqui, apesar de estar um pouco apreensiva sobre como nossa... relação seria daqui para frente. Espantei minhas preocupações e peguei minha bolsa e a caixa com os pertences de Daniel e desci até a cozinha.

 

Era costumeiro encontrar minha mãe enchendo seu copo térmico de café e me esperando pra me juntar à ela no balcão da cozinha, mas até agora apenas o barulho de talheres foi ouvido e logo encontrei Rose sozinha no recinto. 

—Oi. —Disse um tanto sem graça. —Minha mãe não desceu ainda?

A loira me olhou tão sem graça quanto eu. Ainda era difícil não saber lidar com aquela que costumava ser uma irmã para mim.

—Bom dia, Regina! Tia Cora saiu para caminhar hoje, mas já deve estar voltando.

Cora Mills saindo para uma caminhada matinal? Antes do trabalho? Que mundo novo é esse que eu já não reconheço mais?

—Ten certeza que ela foi caminhar? —Questionei franzindo o cenho.

—Isso é uma novidade é tanto, não é? 

—E como! —Dei de ombros, mamãe deve ter seus motivos. —Você precisa de ajuda?

Já havia virado uma rotina Nolan preparar o café da manhã, minha mãe tentou impedi-la nos primeiros dias já que não costumávamos comer nada e tomar apenas um bom e forte café, mas seus esforços foram em vão. E cá entre nós, era até bem divertido sentar à mesa e desfrutar da companhia das duas.

—Bom, se puder pegar a manteiga para mim... já estou quase terminando.

Atendi seu pedido e logo a mesa já estava montada com pães, torradas, geleias e um bolo de nozes que era o nosso preferido. Sentamos juntas na mesa, uma de frente a outra, mas evitávamos fazer contato visual. Essa é uma das partes mais idiotas de quando brigamos com alguém. Parti duas fatias do bolo que tinha uma aparência ótima, coloquei um pedaço em meu prato e o outro no de Rose, que agradeceu prontamente. 

Começamos o desjejum no mais completo silêncio, era sempre assim quando estávamos sozinhas em casa, não nos falávamos muito e o contato visual era quase inexistente. Não vou ser hipócrita e dizer que estou indiferente a tudo isso, me dói muito não reconhecer mais a nossa amizade e não enxergar o nosso companheirismo de sempre. Nolan errou feio e acredito que ela sabe disso e está reconhecendo seus erros, tudo que eu mais quero é perdoá-la mas todos sabemos como isso não é fácil.

Tomei um gole generoso do meu café e quase gemi em satisfação, forte e saboroso como sempre. Olhei para Rose por um instante, tinha vontade de perguntar algumas coisas mas não sabia ao certo se deveria fazê-lo.

—Está... tudo bem? —Ela questionou e só então percebi que a encarei por tempo demais e acabei sendo pega.

—Oh, está! Está sim. Bom...—Pigarreei antes de continuar.—Você já falou com seu pai sobre aquele assunto?

—Ainda não. Na verdade ele tem ignorado todas as minhas ligações, já não sei mais o que fazer.

Notei que a loira mordeu o lábio inferior e seu par de olhos azuis marejaram. Não consegui conter o meu impulso e uni minha mão á sua que estava sobre a mesa, ela não recusou o contato e me senti feliz por isso.

—Tenho falado com a minha mãe todos os dias, ela está tentando baixar a guarda do meu pai mas aparentemente ele está irredutível. —Ela fungou e secou uma lágrima que teimou em cair. —Voce sabe como o Senhor Sebastian é...

E de fato eu sabia. O senhor Nolan era um empresário extremamente devoto ao trabalho e um tanto rígido. Desde que Rose e eu entramos na adolescência e começamos a querer sair para festas do colégio, as brigas entre eles se tornaram rotineiras. Sebastian é um pai super protetor, daqueles que só deixam os filhos irem a festas de pessoas conhecidas e ditam as 22h00 como horário limite para estar em casa. Obviamente sempre demos nossas escapadas, era tudo muito bom e divertido até Killian aparecer na história. Não preciso de muito esforço para explicar o porquê do pai de Rose ser tão contra o namoro: ele sempre teve um pé atrás com Jones e seu caráter duvidoso.

Eu mesma desejava ter esse desconfiômetro antes daquele filho da puta colocar minha própria amiga contra mim.

—Você vai dar um jeito, Rose. Sei que vai.—Afaguei sua mão por breves segundos antes de desfazer o contato. —Já disse e volto a repetir: não precisa se preocupar com um lugar para morar, fique aqui o tempo que precisar! Minha mãe está amando ser mimada por uma segunda filha.

—Eu nem tenho como agradecer o suficiente, Regina. —Ela sorriu. —De qualquer forma, estou procurando um trabalho, quero ajudar vocês pelo tempo que eu ficar aqui.

—Um trabalho? Rose Katherine Nolan está procurando um trabalho? —Disse em tom de brincadeira e ela me jogou um guardanapo. —Esse é um avanço e tanto, Tinker!

—Vou fingir que você não me ofendeu. Vai ser difícil, você sabe que fui mimada a vida toda, mas está na hora de crescer.

—Como disse Mônica Geller: Bem vinda ao mundo real, é uma droga! Você vai amar! —Acabamos rindo juntas. —Já tem algo em mente?

—Na verdade eu tenho uma entrevista hoje, precisam de um atendente naquele café que costumávamos ir.

—Isso é ótimo! Espero que consiga.

Antes que Rose pudesse responder, o barulho da porta principal chamou nossa atenção e logo uma Cora completamente suada adentrou a cozinha com um belo sorriso no rosto.

Aquela era mesmo minha mãe?

—Bom dia, bom dia! —Ela disse mandando beijos no ar e retirando os fones de ouvido.

—Bom dia! —Respondemos em uníssono. —Foi uma caminhada e tanto. —Disse apontando para sua blusa de frio um tanto molhada pelo suor.

—Achei que seria bom fazer um pouco de exercício antes do trabalho, vi em uma matéria da revista que isso aumenta a disposição.

Rose e eu trocamos um olhar curioso e prendemos o riso, certamente a loira pensava o mesmo que eu. Logo minha mãe sentou com a gente e eu lhe entreguei uma xícara com café sem açúcar ou adoçante, do jeito que ela gosta. 

—Desde quando a senhora tem disposição para caminhadas? —Rose questionou olhando-a de soslaio.

—Ora, eu acordei bem disposta e achei que poderia gastar um pouco de energia. Pode me passar as torradas, querida? 

Peguei o pequeno cesto e estendi à ela, que tinha uma expressão tão inocente no rosto que quase me convenceu a esquecer do seu date na noite anterior.

—Hm, então a noite com Gold foi realmente muito boa. —Afirmei prendendo um sorriso ao notar a face de minha mãe corar violentamente.

—Regina! 

—Ora, não se faça de desentendida, mãe. Vocês saíram para jantar ontem e eu nem vi a senhora voltar para casa. Você viu, Rose?

Nolan negou, se divertindo tanto quanto eu.

—Vocês duas perderam completamente o respeito por mim, não é?

A essa altura, Rose e eu já gargalhávamos em alto e bom som, ignorando completamente as repreensões de mamãe. 

—Quer saber? Eu vou me arrumar para o trabalho, me recuso a ouvir isso vindo de duas crianças!

—Não somos mais crianças, tia Cora! A senhora sabe disso melhor que ninguém. 

A loira provocou e acabamos rindo novamente, dessa vez com Dona Cora se juntando a nós.

—Mãe, preciso ficar com o carro hoje. Tenho que resolver alguns problemas no horário do meu almoço e a senhora sabe como está corrido essa semana.

—Claro, querida. Só preciso que me deixe no trabalho, posso voltar com o Gold no fim da tarde.

—Depois não quer que eu faça comentários a respeito... Ei! —Fiz uma careta ao receber um tapa em meu ombro. —Tudo bem, não está mais aqui quem falou. Vá se arrumar logo, já aproveito o caminho e deixo Rose na cafeteria também.

 

***

 

Robin

 

 

Se passavam das 04h20 quando resolvi levantar da cama. Não dormi muito bem durante a noite, estava cansado para um diabo mas mesmo assim animado já que voltaria para casa hoje. Como de costume, deixei minhas coisas para serem arrumadas de última hora, nosso voo para Portland seria as 09h30 e eu não tinha guardado nem um par de meias dentro da mala. Coloquei uma blusa de moletom para afastar o frio desgraçado que estava naquela manhã, me surpreendia muito a temperatura continuar tão baixa mesmo já estando no final do inverno, mas não reclamo. Não sou uma pessoa muito fã de calor e suor. Peguei a mala em cima do meu guarda-roupa e a joguei sobre minha cama, minha mãe fez questão de lavar todas as roupas que eu havia levado na pequena viagem que fiz com Regina, dona Eloise e suas manias.

Para minha sorte, todas as minhas camisas e calças já estavam dobradas dentro das gavetas, não era muita coisa já que eu mal ficava por ali. Coloquei a pequena pilha de tecidos dentro da mala de uma só vez, não tinha porquê guardar uma de cada vez, ficariam amassadas da mesma forma. Regina me mataria se me visse fazendo isso, lembro muito bem da sua mania de guardar roupas por cores e todas devidamente dobradas, como se tivesse um espaço certo para cada item dentro de sua mala. Apesar de ter implicado tanto com ela por esse mesmo motivo, eu achava adorável sua concentração quando se colocava a organizar suas coisas.

Aparentemente todas as manias de Regina Mills haviam se tornado adoráveis para mim. Me tornei um homem bocó e boiola demais.

Já fazia pouco mais de uma semana que eu estava em São Francisco com a minha família. Surpreendentemente foram dias ótimos, algumas dias da semana fui até o parque com Mary levar Emma para alimentar os patos. Eu estava gostando de passar mais tempo com a minha sobrinha, aquela garotinha estava crescendo rápido e ficando cada vez mais esperta, uma Locksley de verdade! David e Mary estavam fazendo um ótimo trabalho.

Por falar em David, senti que nossa relação melhorou em níveis consideráveis nos últimos dias, ele já havia voltado ao trabalho na delegacia mas não abria mão de almoçar todos os dias com a gente. Já não nos provocávamos tanto e apesar de me doer profundamente admitir isso, era bom ter o meu irmão de volta. Infelizmente ele teria que ficar na cidade por mais algum tempo para resolver assuntos de trabalho antes de se mudar definitivamente para Portland, entramos todos em um acordo de que ficaríamos mais próximos da nossa mãe.

Minha pequena ruiva saiu da faculdade o mais rápido que pôde, Zelena sequer disfarçava sua felicidade por ter finalmente uma desculpa boa o suficiente para deixar de lado a engenharia civil que papai tanto insistiu que ela cursasse. Mamãe apoiou prontamente a sua ideia de trabalhar com seus jogos e outras paradas que eu nem me dou ao trabalho de entender. Eloise sempre apoiaria os filhos, era uma mãe incrível e estaria satisfeita se todos os seus filhos estivessem felizes com seus trabalhos.

E eu?

Eu tenho alguns planos em mente.

Já que Zelena vai morar com a nossa mãe, pensei em voltar para o meu apartamento. Não era muito longe das duas e tinha espaço de sobra para uma família inteira viver muito bem, além de poder ter a minha privacidade e trabalhar no meu novo projeto com mais tranquilidade. Cheguei a comentar com Regina sobre ele, mas o fiz apenas para ter o gostinho de vê-la se descabelando toda tentando tirar alguma informação de mim. Mas era uma surpresa, tenho certeza que ela irá gostar.

Bom, pelo menos estou contando com isso.

Temos nos falado todos os dias em seus horários livres, geralmente pela manhã, no almoço e durante a noite. A morena havia recuperado seu emprego sem maiores complicações e eu fiquei muito feliz por ela, Regina adora sua independência. Ela continua me dando muita força com relação à morte do meu pai mesmo com toda a distância, o apoio dela e da minha família tem me ajudado a lidar de uma forma melhor com o acontecido. A dor ainda estava ali, mas já não era tão intensa quanto antes, assim como Mills me alertou. Tenho evoluído bastante e se até eu posso ver isso, é porque se trata de um avanço do caralho! Essa coisa toda de se “permitir sentir” era muito nova pra mim, levando em conta minha criação não era de se esperar o contrário. Mas tenho me dado bem até agora. Essa parada de sentimentos e coisa e tal já não era tão assustadora assim.

 

Assim que terminei de guardar minhas roupas, tratei de tomar um banho quente para acordar de vez e terminar de me preparar para a viagem. Seriam longas horas tomando chá de cadeira até finalmente chegar em terra firme outra vez, e mesmo assim eu teria de sair e resolver alguns problemas antes do final da tarde. Fiquei de visitar um velho amigo que era dono de uma pequena gravadora, ele se disponibilizou em me ajudar com aquele tal projeto, sabe? Pois é, vou me dedicar um pouco mais à música. Mas não vou deixar o meu trabalho na mecânica de John de lado, ele havia adiantado minhas férias de um mês por conta de toda a situação com meu pai, daqui mais alguns dias e eu teria de voltar para a luta.

Fiquei encarando o relógio se mover devagar demais, queria mandar uma mensagem para Regina mas ainda era cedo demais, então esperei passar um pouco das sete da manhã para mandar um bom dia ao modo Locksley. Merda! Vejam só o tipo de homem que me tornei: fico contando as horas para mandar mensagem para uma garota.

Me sinto quase um adolescente idiota.

A minha viagem de volta estava marcada fazia uns bons dias, mas disse a Regina que voltaria apenas na próxima semana. Eu queria fazer uma surpresa para ela, imaginar a sua carinha de surpresa quase faz o meu coração disparar.

Eu disse quase! Posso ter me tornado um idiota mas não vou me apossar desse título tão fácil assim.

Após trocar breves mensagens com a morena, deixei que ela se arrumasse para o trabalho e terminei de organizar minhas coisas. Peguei minha mala, a minha caixa de sapatos onde estavam os meus cds favoritos e o violão de David. (Eu disse que nossa relação tinha melhorado, não é? Meu irmãozinho teve o bom coração de me deixar tomar conta dessa belezinha). Chequei se não estava esquecendo mais nada e quando constatei que já havia pegado tudo que queria, rumei até a cozinha para tomar o último café da manhã com a gangue toda reunida.

Logo das escadas já era possível ouvir a conversa animada lá de baixo, Emma estava gargalhando com tanta vontade que fiquei com pena dos tímpanos dos que estavam mais próximos à ela. Assim que cheguei no recinto, deixei minhas coisas no chão, ao lado do batente da porta e me dirigi até a mesa.

—Bom dia, querido! Vejo que finalmente entraram em um acordo sobre o violão.

Mamãe alternou seu olhar entre David e eu e deu um pequeno sorriso. Me aproximei dela e deixei um beijo em sua testa antes de me acomodar ao seu lado.

—David me cedeu a custódia do nosso bebê. —Brinquei.

—O que posso fazer? Já não tenho mais tempo para brincar de estrela da música country.

—Tio Robin canta muito bem, papai. O senhor mal sabe mexer nas cordas do violão. —Emma se pronunciou causando uma risada coletiva.

—Minha própria filha está ficando contra mim. Não posso acreditar nisso!

—Ela é uma Locksley com “L” maiúsculo, irmãozinho. Tenho tanto orgulho dessa garota, as vezes acho que ela saiu de mim e não de vocês. —Zelena pegou nossa pequena diabinha no colo e a ajudou com seu café da manhã.

Continuamos o desjejum no mesmo clima descontraído, fazendo piadas uns com os outros e agindo como uma família de verdade depois de tanto tempo. Era muito bom ter todos eles por perto, talvez reunir a família toda em Portland não fosse de todo ruim.

 

***

 

Regina 

 

 

Talvez eu estivesse começando a me arrepender amargamente daquela viagem completamente maluca que fiz. Nunca pensei que perder alguns dias de trabalho fossem me prejudicar tanto, mas cá estou eu, em plenas 17h00 da tarde ainda cadastrando o maldito estoque de livros que se acumulou na minha ausência. Pelo menos Jane estava me ajudando, ela se dispôs a ficar no caixa e atender os clientes até que eu terminasse de cadastrar e etiquetar tudo, mas caralho! Eram centenas de livros que pareciam não acabar nunca.

Estou me sentindo um tanto zonza, certeza que é pela falta de comida já que gastei o meu horário de almoço inteiro na casa de Anne. Longe de mim estar reclamando, ela foi um anjo pra mim durante todos esses anos e me senti feliz por reencontrá-la depois de tanto tempo. Conversamos muito durante mais de uma hora, ela ainda estava muito abalada apesar de já estar quase fazendo dois anos da fatalidade de Daniel. Mas ela era a mãe dele, eu não posso nem imaginar a dor que ela deve sentir diariamente por ter perdido o único filho. No final das contas, quando dei por mim, a única coisa que me deu tempo de comprar foi um café duplo com creme e isso é a única coisa que tenho no meu estômago até agora.

Não tive nem tempo de mandar mensagem para o Robin como fazia todos os dias, e me impressiona muito como saber dele e ouvir suas piadinhas ruins fez falta do meu dia.

Cacete, olha o tipo de pessoa que me tornei! O mais piegas possível.

Mas, em minha defesa, ele é Robin Locksley. Qualquer garota que resistisse aos encantos dele ganharia o reino dos céus. Felizmente - ou não - eu não sou uma delas.

Quando terminei de etiquetar os últimos volumes de Julia Quinn, peguei a caixa quase mais pesada que eu e me dirigi até a prateleira de romances históricos para poder organizá-los por ordem alfabética, como manda a minha chefe. Apesar que a minha vontade mesmo era organizar aqueles benditos por cores!

 

Demorei um pouco mais do que devia para terminar o trabalho, como eram reposições de livros que já estavam nas prateleiras eu tive um trabalho extra já que os que tinham restado estavam completamente bagunçados. Graças à qualquer força superior, o dia que parecia não passar nunca se aproximava do fim e eu já estava aprontando minha bolsa para voltar finalmente para casa e ligar para Robin. Eu me pergunto diariamente quando foi que esse garoto tão cheio de si se tornou o foco dos meus pensamentos em um nível tão absurdo que a primeira coisa que fazia quando chegava em casa era mandar uma mensagem para ele.

 

Não contive um suspiro cansado quando ouvi a campainha da porta principal ressoar, anunciando que um daqueles clientes filhos de uma puta chegou apenas cinco minutos antes da loja fechar. Como eu estava usando o computador dos fundos da loja, perto da área reservada para crianças, Jane foi a responsável por atender o indivíduo desprovido de qualquer bom senso, mas quase chorei ao ouvir a voz da minha patroa pedindo para que a pessoa se dirigisse até mim.

 

Inspirei e expirei várias vezes. Contei até dez e voltei a deixar minha bolsa debaixo do balcão, coloquei novamente um sorriso amigável no rosto e me preparei para não ser mal educada.

 

—Será que a senhorita poderia me ajudar? Eu procuro um exemplar de Romeu e Julieta, mas a senhora muito simpática do caixa não faz ideia de onde ele fica.

 

Imagino como está minha expressão agora: ridícula! Com os olhos arregalados e os lábios entreabertos em surpresa. 

 

Ele estava mesmo ali? Em carne e muitos músculos bem definidos?

 

—Robin?! —Foi a única coisa que consegui dizer.

—Olá, Mills! Ora, não faça essa cara. Não está feliz por me ver?

Seu sorriso convencido se alargou e logo suas covinhas ficaram em evidência. Não sabia que sentia tanta falta de contemplar isso até poder fazê-lo novamente. Não contive meu impulso e dei a volta no balcão, me jogando em seus braços como a garota tola que eu havia me tornado.

—Como assim? O que está fazendo aqui? Achei que tinha dito que voltaria apenas na semana que vem! —Despejei as palavras em cima dele ainda tentando conter minha felicidade desmedida.

—Talvez eu tenha dito uma pequena mentira. Queria te fazer uma surpresa! —Ele acarinhou meu rosto e eu sorri, apreciando o contato.

—E conseguiu! 

—Isso é para você. —Ele disse, estendendo sua mão esquerda que segurava uma única rosa branca. —Eu não queria aparecer de mãos vazias mas também não sabia o que te dar, isso foi uma sugestão da minha mãe.

—É linda, Robin! Obrigada. —Peguei a flor em sua mão e levei-a próxima ao meu nariz, inalando o cheiro inconfundível de uma rosa. —Está se tornando o que mais temia, Locksley. Um romântico e tanto.

—Ei, não exagera! Não sou romântico, estou sendo apenas educado já que apareci aqui para atrapalhar o seu trabalho.

—Por falar nisso, como sabia onde me achar? —Questionei, realmente intrigada. Robin não era o tipo de cara que frequentava livrarias.

—Eu prometo te contar, mas tenho uma proposta para te fazer. —Arqueei a sobrancelha e ele sorriu. —Tem um parque de diversões na cidade e eu pensei que... bom, que a gente pudesse dar uma volta por lá. Juntos. Sabe?

Não pude deixar de reparar no seu acanhamento, era bem nítido que Robin não chamara muitas garotas para sair.

—Está me chamando para um encontro, Robin? —Arrisquei.

—Talvez... se eu estivesse você aceitaria?

Robin conseguia ser adorável mesmo quando não tinha essa intenção. Eu não me aproveitaria de seu momento embaraçoso para continuar com minhas provocações, afinal de contas eu desejei sua presença todos esses dias e ele estava finalmente ali. Eu poderia beijá-lo agora. 

E foi o que fiz.

Me aproximei sob seu olhar atento e me estiquei um pouco, ficando na ponta dos pés para alcançar seus lábios finos. Ele me olhou com aquela imensidão azul, tão intensamente quanto eu me lembrava e senti o meu coração saltar descontroladamente. Seja lá onde essa história nos levaria, eu já estava completamente rendida por Robin, isso era nítido e eu já não fazia mais tanta questão de negar. Deixei um selinho rápido em sua boca e sorri quando ele inclinou-se em minha direção, querendo mais.

—Eu aceitaria sim, Rob... e nem precisaria me pedir duas vezes!

 

 

 

Tenho plena consciência de que, como qualquer outra relação, podemos não dar em lugar nenhum e até mesmo nos machucarmos no caminho. Mas se tem algo que eu aprendi nas últimas semanas é que você não perde nada se não se arriscar, mas também não ganha. Então eu estava disposta a tentar. 

 

 

Sem medos e pela primeira vez na vida, sem pensar nos vários “e se” que me esperam no meio do caminho.


Notas Finais


Me digam o que acharam! Até a próxima 🥰


Gostou da Fanfic? Compartilhe!

Gostou? Deixe seu Comentário!

Muitos usuários deixam de postar por falta de comentários, estimule o trabalho deles, deixando um comentário.

Para comentar e incentivar o autor, Cadastre-se ou Acesse sua Conta.


Carregando...