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História Sinergia - Capítulo 12


Escrita por: anggieparra

Capítulo 12 - Quatervois


 

Quatervois: uma encruzilhada; uma decisão crítica ou um ponto de viragem na vida de alguém.

§§§

Álvaro 

Casa, Madrid 

Deixar os estúdios, sem ao menos conversar sobre o que havia acontecido, foi algo sufocante e angustiante para mim. Sou um homem de princípios e nunca pensei que algo assim fosse acontecer justamente comigo, -  muito menos deixar as coisas guardadas, - eu sempre gostei de resolver meus problemas e de deitar no travesseiro sem preocupações; o que definitivamente hoje não aconteceria.

Alcanço a porta de casa, rodo a chave e aquele simples clic me deixa nervoso.  Como eu iria entrar na minha casa, ver meus filhos e minha mulher depois de passar uma noite e um dia fora de casa sob as circunstâncias que aconteceram.

- Papá - sentir os pequenos braços dos meus filhos me tocando foi o suficiente para me sentir mais feliz por voltar para casa, mas ao mesmo tempo a consciência estava começando a pesar. 

- Hola mis vidas, senti muita falta de vocês.

Olhei na direção da cozinha e ali estava Blanca, - me olhando, - ela não era muito expressiva então sempre era uma tarefa difícil saber o que ela pensava; mas sabia que nada estava bem.

- Chicos vamos, o jantar está pronto, precisam comer para depois dormir, que já passou da hora de vocês estarem deitados. - ela falou rapidamente sem ao menos me dizer algo, ou dirigir-me a mirada.

Como eu havia passado algum tempo fora de casa, lavei as mãos e fiz questão de sentar-me na mesa fazendo companhia a eles, apesar de eu estar sem fome e preferir comer algo antes de deitar.

A hora de jantar sempre era como uma terapia para mim, Julieta sempre contava sobre o seu dia e Leon também, mas com menos falatório. Minha pequena adorava conversar, enquanto Leon era mais observador. Soube dos quase dois dias ausentes, e fiquei feliz em saber que a Julieta estava começando a fazer pinturas.

Blanca não abria um sorriso sequer, como eu a conhecia, sabia que depois que as crianças não estivessem entre nós dois, a conversa não seria agradável.

Após terminarem de jantar, os levei para escovar os dentes e se deitarem. Estava escolhendo a história daquela noite, Leon e Julieta já estavam deitados esperando que eu voltasse, mas antes que eu pudesse escolher a história, ouvi Julieta de longe.

- Papá,  conta sobre o seu dia. Nós queremos saber esses dias que ficou longe. - sorri e sentei entre uma cama e outra.

- Ambos sabem que estou trabalhando muito, sim? Passei o dia hoje no set, cheio de câmeras. - abri um sorriso me lembrando de gravar tomas e tomas com ela em meus braços.

- Qual foi a cena de hoje? Usou aqueles óculos? - Leon perguntou já com os olhos fechados.

- Sim, mi amor. A cena hoje foi muito cansativa, mas conseguimos terminar.

- Como foi na casa do seu amigo, papá? - Julieta abriu os olhos e me olhou fixamente.

- Foi ótimo! A noite foi ótima! - sorri e acariciei a cabeça dela.

Leon já estava dormindo em poucos minutos, sabia  que  Julieta ainda  demoraria  um  pouco;  deitei ao lado  dela  e acariciei a sua cabeça, cantarolando Angel Of Harlem dos U2 que ela adorava.

Deitado ali  com ela, eu tinha a certeza de que tudo poderia ser mais fácil. Julieta me passava uma avantajada tranquilidade, assim como Leon. Esperei que ela apagasse e não demorou muito, logo me levantei e a vi encostada na porta; nossa conversa começaria ali.

- Quase dois dias fora de casa. - Blanca estava com o tom de voz um pouco alterado.

- Aqui em cima não. - fechei a porta, a direcionei para descer as escadas e ir até a sala. - Ambos foram explicados e te avisei.

- Álvaro tu sumistes por DOIS DIAS! 

- Blanca, queres mesmo entrar nessa discussão? Errei por ter ficado quase dois dias sem aparecer, mas eu não consegui passar aqui pela manhã. - a culpa estava começando a cair sob meu corpo.

- Tu que sempre te desperta temprano, tu que sempre precisa de um banho e de roupas novas para ir trabalhar, tu que odeia sair e não ter planos de ficar, TU ÁLVARO!! Como queres que eu me sinta? - as lágrimas começaram a se formar em seus olhos; eu era um grande hijo de puta.

- Blanca, perdão, sei que tens razão. Mas imprevistos podem acontecer e foi o que passou na noite em que dormi no Pedro.

- TU NUNCA FIZESTES ISSO, em nenhum trabalho no qual esteve. E eu posso dizer com propriedade, já que eu te conheço quase como que a mim. - ela estava com razão, Blanca carregava uma fúria que eu conhecia muito bem.

- Estou te pedindo perdão, Blanca, não queres me ouvir? - minha cabeça estava começando a ser tomada pela culpa, tentei de todas as formas me desculpar, mas Blanca não me ouvia.

- Até quando a palavra PERDÃO vai resolver tudo pra ti? Estou cansada de ficar em casa sem saber se terei meu marido de volta na mesma noite, ou se ele chegará apenas no dia seguinte, entendes? NÃO CASEI PARA ESTAR SOZINHA! - sua voz estava cada vez mais embargada, por mais que eu tentasse manter a paciência naquele momento, eu não podia, eu não conseguia.

- E NÃO ESTÁS SOZINHA, JODER! - falei em um tom mais alto do que pude controlar. - Blanca acreditas mesmo que isso está funcionando? 

Gostaria de alguma forma mudar aqueles nossos encontros, passava a maior parte do dia fora, e quando chegava tinha que aguentar reclamações e brigas? Já estava farto!

- O que? Nosso casamento? - sua voz estava embargada.

Nós dois sabíamos que nosso casamento não estava dos melhores, precisávamos conversar, mas naquele momento eu precisava de espaço para pensar.

- Blanca, preciso de um banho. Voltamos a conversar quando os dois estiverem mais tranquilos e de cabeça fria.

- NÃO CONTESTOU! ENTÃO JÁ SEI, QUERES ACABAR COM NOSSO CASAMENTO. APÓS ANOS E ANOS! - ela tinha se transformado em uma Blanca que eu quase nunca a vi.

- Blanca, mira-me! - a segurei pelos braços - Não é isso, eu só preciso esfriar a cabeça, e assim vamos conversar melhor. Sem brigas. - dei um beijo em sua testa e ela logo me empurrou, me tirando dos seus braços.

A deixei falando na sala e subi até meu quarto para poder tirar todo aquele cansaço das noites na qual não preguei os olhos. Meu corpo exalava o perfume do meu corpo com o dela. Ainda não tive tempo o suficiente para poder pensar em tudo que aconteceu naquele camarim.

Me despi e entrei no chuveiro, deixei com que a água escorresse pelo meu corpo e deixasse toda aquela memória ir ralo abaixo; como já tinha imaginado, era impossível. Itziar tinha entrado em minha vida de maneira repentina e tinha se tornado uma das melhores companhias naquele set. Passei as mãos pelos fios molhados do cabelo e tentei de alguma maneira não pensar nela.

§§§

Assim que saí do banheiro, Blanca estava deitada em nossa cama, na qual eu sentia falta de estar nos últimos dias. Eu amava a minha mulher, - não podia negar, - mas com os acontecimentos anteriores, minha cabeça estava cada vez mais confusa.

Desci e fui até a sala, observei que na sacada estava frio, recuei a minha saída até lá e permaneci na sala de estar. Sentei-me no sofá e peguei meu celular, desbloqueei a tela e fui diretamente ao chat dela; eu e todos que me conhecessem saberiam que em nenhuma hipótese eu iria dormir sem tentar conversar com Itziar.

Respirei fundo e vi que ela não entrava no WhatsApp há alguns minutos, fui até a cozinha colocar um pouco de café na xícara e voltei para o mesmo lugar que eu estava. Saí do chat dela e fui até a do Pedro, ele estava online - ele sempre estava - até que pensei em enviar um “Oi” e esperar que ele com a sua visão tão ampla, descobrisse o que estava passando. Mas isso se tornaria mais real do que já estava naquele momento, nós precisávamos esquecer e não tornar ainda mais vívido.

Itziar era uma mulher que merecia meu respeito, era uma mulher que merecia tudo que há de melhor no mundo, e naquele momento eu percebi que falhei com ela. Falhei como homem, como amigo, como companheiro de cena, eu simplesmente falhei. Não deveria ter tomado-a como fiz. Mas não posso dizer que foi ruim, o toque dela, a respiração dela contra minha pele… Eu estava jodido!

Esquecer aquele incidente seria a coisa mais certa a se fazer, não queria atrapalhar meses de cumplicidade por um mal entendido, precisava me acertar com ela e seria naquele momento.

§§§

Itziar

Casa, Lavapiés

Estava deitada na minha cama e não conseguia pregar os olhos, dei graças aos céus que não estaria de pé no primeiro horário da manhã seguinte. Jesus havia me dado a manhã livre, visto que as gravações do dia tinham sido intensas - e como.

Olhava para o teto do cômodo, olhando para o nada e pensando nele. Como era difícil acreditar que aquilo estava acontecendo. Como era difícil explicar como meu corpo reagia ao vê-lo, tudo estava confuso.

Meu celular começou a vibrar e logo olhei, naquele horário só poderia ser algo com urgência.

(1) Mensagem não lida, Álvaro Morte

Pensei em ignorar e fingir que estava dormindo, mas a curiosidade que estava em mim não me deixava apenas virar-me e dormir. Assim como eu, ele também estava pensando em nós, na verdade no imprevisto.

Respirei fundo e sentei-me na cama, segurei o celular e estava buscando coragem para abrir aquela mensagem dele.

Álvaro Morte: “Buenas noches, Itzi! Acredito que não queira saber de mim por esses dias, e que também não quer conversar. Mas gostaria que me ouvisse por alguns minutos, sei que é tarde, mas não consigo dormir sem resolver o que passou. Se tiver disponibilidade de uma chamada agora, ficaria mais tranquilo.”

Não estava à espera de algo naquele momento, não após o ocorrido horas antes, mas se ele queria conversar, eu teria que estar pronta para ouvir e resolver. No fundo, eu sabia que queria escutar a voz dele, precisava ficar mais tranquila de saber que nem tudo estava perdido. Ter o Álvaro no meu cotidiano mudava tudo, ele me fazia rir, me dava conselhos, me apoiava e além de tudo, era um grande companheiro de cena; nós precisávamos um do outro.

Itziar Ituño: “Hola Álvaro, claro, podemos sim!”

Meu coração batia cada vez mais forte, tê-lo ali em chamada, por mais que fosse loucura, estava me deixando mais tranquila. Que cojones está passando? Esperei que ele retornasse a chamada, estava sentada, enquanto tentava normalizar a respiração.

O telefone começou a tocar e de imediato atendi, não esperei que chamasse mais uma vez.

- Hola. - sua voz estava relativamente baixa, calma e rouca.

- Hola. - retribui e tentei passar confiança.

- Chegastes bem em casa?

- Sim, e tu? - perguntei buscando manter a linha normalizada da nossa conversa.

- Bem também. Nada do que estar em casa, a noite na casa do Pedro apesar de ser confortável, não foi uma das melhores. - sorriu.

Ele era assim, conseguia fazer com que uma chamada tensa e muito séria fosse mais leve. Ele era assim, cheio de assuntos e motivos para soltar um sorriso dos meus lábios, mesmo estando com a porra da culpa me consumindo.

- Concordo contigo, sinto falta de dormir na minha cama em Basauri, gosto tanto daquele cantinho. Apesar de estar aqui e me sentir muito confortável, nada melhor do que a nossa casa.

- Verdade. - o silêncio permaneceu alguns segundos mas ele logo recuperou a nossa conexão. - Como está se sentindo agora?

- Acho que… bem. A cabeça um pouco pesada, mas bem. - soltei. - E tu?

- Queres saber tudo? Ou que camufle? - sorriu.

- Queres que eu saiba tudo? Ou preferes camuflar? - tentava me policiar para não flertar com ele, mas era algo tão nosso, sabíamos que não passava de uma brincadeira.

- Que tramposa! - nós dois sorrimos, gostava de como nós éramos leves juntos. - Bueno, estou me sentindo um pouco nervoso no momento, vergonhoso, culpado, injusto e uff vários outros sentimentos negativos.

- Sabes que não tens que se sentir assim, sim? - na realidade eu estava sentindo tudo e mais um pouco.

- Preciso pedir-te perdão. Errei contigo duas vezes e preciso que me perdoe. - sua voz saiu como uma súplica.

- Não é necessário. - eu estava sendo sincera, sabia que não partiu dele, a provocação partiu de mim, na cena em que eu o beijei.

- Itzi, o que mais prezo é nossa amizade, a sensação de perder-te é assustador. Ainda mais por ações que nem deveriam ser possíveis em nossa realidade.

- Álvaro, tranquilo. Quero que saibas que o que temos não vai mudar. Claro, precisamos evitar que isso aconteça.

- Aquela emoção toda da cena, me deixei levar. Perdona. - ele estava tão pleno, como se tivesse tirado um peso de cima das suas costas.

- Te perdoo se me disseres que estaremos normal, esqueceremos tudo isso e voltaremos com o que temos.

- O melhor que temos! Só não queria dormir achando que tudo poderia ter sido destruído, Itzi - antes que eu pudesse responder ouvi a voz de uma mulher no fundo.

“Que fazes acordado a este horário, no telefone?”

Antes que as coisas piorassem para o meu lado e o dele também, desliguei a chamada e deitei-me. Tudo estava resolvido, isso era o que a minha mente martelava e fazia meu coração cético acreditar.



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