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História Sinestesia - Capítulo 3


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Notas do Autor


Olá bolinhos! Depois de um pequeno problema técnico, trago aqui o cap atrasadinho. O próximo virá na sexta ou no sábado, tudo igual.
Boa leitura!

Capítulo 3 - II. vênus


Minha cabeça descansava em seu ombro enquanto você apontava Vênus, nossas palavras sussurradas – uma história de amor escrita pelas estrelas.

- Quando você olha nos meus olhos, o que eles dizem?

- Eu estou obcecado por você. Totalmente, voluntariamente e maravilhosamente.

- Michael Faudet

 

- Superar não é olhar para o outro lado e fingir que não aconteceu, Taehyung. – jogou em minha cara, impiedoso. – Por que você me afastou?

Então, com a determinação se apossando de mim, invoquei uma tempestade só minha ao perceber que o que eu via através dos olhos de Jungkook, eram os meus. Eles refletiam a mesma ansiedade, a confusão e o nervosismo que começava a sufocar. Mas, quando falei, me forcei a soar firme e calmo.

- Jungkook, você lembra daquela noite da festa da Sunhee?

Ele piscou, surpreso, e desfez o aperto que prendia meu pulso. Puxei minha mão de volta e ele ficou observando meus dedos ao assentir, devagar.

- Lembra o que eu te disse? – agora, engolir era uma tarefa um pouco mais difícil. – O que eu confessei?

A festa de Sunhee foi a primeira para a qual fui convidado em muito tempo. Ao aceitar a amizade de Jungkook, acabei socializando mais com as pessoas que eram amigas dele, e Sunhee era uma próxima. Ela era uma menina legal e nem hesitou em me chamar para sua comemoração, que aconteceu em sua casa de gente rica.

Enquanto nossos colegas estavam dentro da casa fazendo uma bagunça tremenda, nós dois saímos para o pátio dos fundos. Deitamos na grama, lado a lado, e eu podia ver a luz refletida pela Lua se escondendo atrás das nuvens carregadas. A chuva cairia logo e teríamos de voltar, mas era tão bom ficar sozinho com ele perto daquele jeito.

- Nosso efeito borboleta*. – ele sussurrou, enfim.

Assenti.

- Eu expliquei pra você que no momento que te conheci, criamos um efeito borboleta só nosso. Foi a partir dali, Jungkook, que eu gostei de você e quis te manter do meu lado, o que acabou mudando algumas de minhas ações futuras. Mas eu estava errado.

Jungkook permanecia calado, ainda duvidoso de onde minha fala iria terminar.

- Te conhecer não foi o evento pequeno que provocou consequências no modo como eu teria levado a vida, Jungkook. – ele ergueu a cabeça para me olhar e eu juntei todo o ar e coragem que pude. – Foi por ter visto Jimin te fazendo um oral que fez tudo desandar, porque eu gostava de você. Gostava tanto que fiquei assustado demais pra seguir com nossa amizade.

E foi isso. Ele conseguiu a verdade que queria, mesmo que ela fosse pela metade. Jungkook não ficaria sabendo quão doente eu sou, nunca.

 

Ainda nenhuma reação. Isso estava me deixando agoniado demais e um pouco de medo me atingiu, junto com o aroma de alcaçuz. Eu detesto alcaçuz por ele acompanhar essa emoção ruim.

- Você... – ele engoliu a seco, afetado pela minha confissão desastrosa. – Você viu aquilo?

Apertei minha mão em punho e fiz que sim com a cabeça.

- Meu deus. – Jungkook passou a mão no rosto, afastando-se de mim. – Porra, Taehyung. Mas que porra!

Agora eu que não estava entendendo mais nada. Qual é o problema desse pirralho, afinal?

- Por que não conversou comigo? Por que não contou que gostava de mim?

- Eu era um moleque de quinze anos estranho que se isolava de todo mundo e tinha acabado de descobrir que era gay. – ponderei, tentando aliviar a situação. Jungkook continuou sério, então suspirei. – Eu ia te contar naquele dia, mas vi vocês dois e, bom, entrei em parafuso.

Ele me deu as costas. Jungkook parecia realmente irritado, e eu não fazia ideia do que fazer a seguir, de como agir. Achei que ele aceitaria minha explicação e ficaria por isso mesmo, só um mal entendido bobo.

Fiquei em silêncio enquanto ele continuava a caminhar para longe de mim, até parar atrás da mesa. Se inclinou sobre ela, apoiando as mãos na madeira, e me encarou com os olhos em chamas.

- Sabe o que me deixou puto desde que você colocou os pés nessa sala?

Seu tom de voz era tão baixo e rouco que a única coisa que consegui foi negar.

- Não sei se fico mais bravo por toda a culpa que sinto, ou por toda a excitação que você me provoca, Taehyung.

Eu pisquei como um tonto, desacreditado.

- O quê?

Jungkook passou a língua pelo lábio inferior devagar, agora passando os olhos felinos por todo meu corpo. Meu deus do céu, acho que acabei de pecar sem fazer absolutamente nada.

- Você sempre foi bonito, Tae, mas agora... Que inferno, eu quero você inteiro.

Isso parece um sonho muito esquisito, juro. Sinto que vou acordar a qualquer momento, mas nada acontece antes dele prosseguir.

- E então você vem me dizer que gostava de mim no colegial. Isso é crueldade.

Franzo o cenho porque, sério, ele não ouviu a outra parte? De que fiquei magoado por vê-lo em um momento sórdido com outro cara? Sonso.

- Deixa de ser sonso, Jungkook. – eu digo, mas estou quase rindo da situação cômica. – Eu não quero mais nada com você.

Isso foi o bastante para trazê-lo de volta à Terra. Jungkook piscou, pigarreando, e afastou os olhos de mim. Nossa conversa informal tinha acabado.

- Pode ir para casa, agora. Vejo você na segunda-feira, Kim.

Eu assenti, ainda achando graça, e caminhei para fora de sua sala. Pelo resto do final de semana fiquei completamente bobo, achando ridículo que falar para ele sobre minha mágoa tenha sido tão fácil. Quer dizer, no começo eu achei que fosse sucumbir, mas então ele veio com aquele papo de desejo e eu relaxei instantaneamente. Porque, bem, Jungkook me queria e eu não sou bobo de perder a chance de provoca-lo um pouquinho.

Mas, assim que coloquei meus pés em seu escritório na segunda, eu travei. Nossa conversa terminara de um jeito inusitado e não acho que algum de nós tenha entendido bem o que aconteceu. Se me perguntarem, eu culpo a mente humana por ser tão complexa e só dar trabalho desnecessário.

Por isso, me contentei em abrir um sorriso distante e deixar a pasta que carregava em sua mesa. Ao menos o clima entre nós tinha melhorado um pouco e não era mais tenso, só levemente desconfortável. Mas acho que isso era porque agora eu sabia que ele tinha desejo sexual por mim.

Pirralho idiota e gostoso do cacete que só me bagunça.

- Mais alguma coisa? – pergunto.

- Por enquanto não.

Ele mal me olha e eu quero muito rir, mas me seguro até chegar na sala que divido com Hoseok.

- Ué, o que te deu?

- O desgracinha é engraçado. – respondo, bem humorado.

Ele arqueou as sobrancelhas em surpresa e soltou um assovio baixo.

- Já vi o Jeon ser acusado de muita coisa, mas disso definitivamente não.

Eu dei de ombros, sem querer prolongar o assunto. E, como na semana passada, o dia passou se arrastando enquanto eu fazia várias coisas. Se Hoseok não tivesse me cutucado para avisar que estava indo, eu nem perceberia que também já devia ir pra casa.

Assim que levantei, o telefone fixo tocou e deixei meu corpo cair na cadeira outra vez antes de atender.

- Kim, venha até minha sala para rever os dados do Rh.

Desgracinha linda e filha da puta.

- Sim, senhor.

Dei duas batidas em sua porta antes de abrir e encontra-lo em pé perto de sua janela enorme. Eu tinha pavor de chegar perto dela e ter uma visão da rua lá embaixo que estava muito, muito longe de mim. Estremeço só de pensar.

- Vamos fazer isso rápido, já está na sua hora de ir embora. – ele falou, então, mas não se virou para mim. – Os papéis estão na minha mesa.

Com isso, percebi que na verdade isso fazia parte de meu treinamento e ele queria que eu analisasse sozinho. Suspirei e sentei em uma das cadeiras, pegando as folhas para dar uma espiada. Enquanto eu lia, ouvi os passos de Jungkook se aproximando.

- Sobre sexta à noite – ouviu sua voz tocar meus ouvidos com certa incerteza. – não terminamos aquela discussão do jeito que eu queria.

- Como assim? Não era sua intenção me deixar saber que quer meu corpo nu? – me faço de chocado. – Nossa!

Jungkook fica ao meu lado e ergo o rosto para fita-lo. Tão lindo de roupas sociais que deveria ser proibido de vesti-las, sinceramente, isso tira o foco de qualquer pessoa.

- Desde quando você ficou tão debochado, Taehyung? – resmungou, claramente incomodado.

- Relaxa, Jungkook. – eu disse, largando os papeis na mesa. – Não vou contar pra ninguém.

- Não me preocupo com isso. – ele se escorou na mesa, ficando de frente para mim, e cruzou os braços. – Quero pedir desculpas pelo que aconteceu e, sabe, tentar me reaproximar de você.

Alerta vermelho. Tão vermelho que chega a ser berrante.

Levantei em um pulo, já pensando em uma desculpa para ir embora. Grande adulto que sou lidando com meus problemas, eu sei.

- Não precisamos voltar a ser amigos. – Jungkook se explicou apressadamente. – Só bons colegas de trabalho, Taehyung, é tudo o que peço. Por favor.

Encarar ele agora seria um erro, mas foi exatamente o que fiz. E que erro, porque porra, seus olhos me desarmaram sem esforço algum.

- Nós já somos colegas, Jungkook, e não vou deixar de me comportar de modo profissional só porque revelei minha atitude impensada da adolescência.

Aí eu estava mentindo, mas ele não precisava saber. Se eu tivesse contado da Sinestesia, Jungkook entenderia melhor minhas razões. Como só falei sobre gostar dele, explicar como se fosse um erro eu ter me afastado dele tão bruscamente era menos complicado.

- Certo. – ele não estava satisfeito, eu podia perceber. – Tudo bem, então.

Voltei a sentar depois de um momento de hesitação, e ele se inclinou para frente. Agora ele estava bem perto de mim, e isso afetou até o compasso do meu coração. Acho que eu estou tendo um ataque cardíaco, só pode.

- Taehyung...

Seu chamado suave me fez olhar para ele outra vez, para seu rosto a centímetros perigosos do meu.

- O quanto você me xingaria se eu te beijasse agora?

Meu deus.

Eu te processo, pirralho, nem pense em encostar essa boca gostosa na minha!

- Depende do quanto você vai demorar pra fazer isso. – é o que respondo, na verdade.

Jungkook parece muito satisfeito, porque ele se ajoelha na minha frente sem cerimônia e segura meu rosto com as mãos fortes de dedos longos. Eu não consigo mais raciocinar direito, meu cérebro deve ter pulado alguma cena que explique estarmos aqui, desse jeito.

Ele acaricia minha bochecha, chegando seu rosto para mais perto do meu. Posso sentir sua respiração que saí pelos lábios entreabertos e vermelhos, e vejo cada marca de seu rosto quando seu nariz quase toca o meu.

- Esse é o troco por ter me chamado de sonso, Vante.

Eu me estremeço inteiro, e Jungkook me solta depois de dar um beijo demorado no canto de minha boca. Seria muito desespero agarrar sua camisa e roubar seus lábios? Sim, então não faço isso, preferindo me focar em outra coisa.

Vante.

Jungkook me dera essa denominação muito tempo atrás. Quando descobriu que eu pintava como hobby, mostrei para ele algumas de minhas telas e ele ficou animado e todo orgulhoso. Insistiu por semanas que eu deveria tentar carreira quando crescesse e que, para isso, teria de ter um nome artístico.

Eu não me importava muito na época, então deixei que ele escolhesse e foi esse que sugeriu. Vante. Assim como era caidinho por Jungkook e tudo nele, sua escolha também me deixou mais do que satisfeito.

E ele disse esse nome nesse momento para me mostrar que lembra de tudo, e que aquele tempo pode ter significado tanto para ele quanto para mim.

- Você pode analisar esses dados amanhã. – sua voz firme me tirou de meu devaneio. – Não vou te segurar por mais tempo, Kim.

Era meio assustador como ele era meu Jungkook em um momento e, no próximo, virava meu chefe carrasco. Pigarreei, ainda tonto pelo desejo provocado por sua provocaçãozinha barata.

- Sim, senhor.

Me levantei todo atrapalhado e fiz uma reverência rápida. Quando me reergui, Jungkook me observava com um olhar malicioso, beliscando o lábio inferior com seus dedos.

Foi só um olhar, só isso, e foi o que bastou. Eu estava com tesão por ele, e a sensação veio acompanhada por um aroma que vinha sempre como um tapa na cara. O perfume masculino que Jungkook usava na adolescência, e que pelo visto continua usando, invadiu meu olfato. E essa foi minha confirmação final de que eu estava queimando de desejo por ele e precisava ir embora.

Sem falar mais nada, então, saí da sala. E eu levei duas certezas, que não tinha antes, comigo.

A primeira era de que eu e Jungkook teríamos uma interação menos tensa a partir desse momento, mas também mais difícil se continuássemos nesse joguinho de provocação. A segunda, que me pegou de surpresa mesmo, era de que eu queria voltar a pintar.


Notas Finais


*Efeito borboleta: uma das partes principais da Teoria do Caos. Basicamente, é a crença de que pequenas mudanças nas condições iniciais de grandes sistemas (como a interação entre pessoas) podem levar a mudanças drásticas nos resultados.
Foi isso por hoje, amores. Estão gostando?


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