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História Singular - Capítulo 1


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Notas do Autor


[contém gatilhos, como: bullying e depressão]

Capítulo 1 - Capítulo Único


Kyungsoo sempre fora um rapaz fora dos padrões. Seus cabelos eram cortados no tamanho mais curto possível. Seus olhos, maiores que o normal, escuros. Seu corpo sempre fora mais rechonchudo que o dos outros rapazes da sua idade.

Em sua infância, preferia livros à brinquedos; chorava quando via um animalzinho machucado ou quando assistia filmes sobre cachorros. Não tinha muitos amigos, apenas Jongin, o qual conhecia desde que se entendia por gente. 

Gentil, frágil e culto, exatamente como sua aparência sugeria. Um “rapaz especial”, como seu melhor amigo lhe dizia constantemente. 

Naquele tempo, aos seus dezoito anos, toda essa “especialidade” lhe incomodava demasiadamente. Não exatamente si próprio, mas, sim, às vozes. Vozes essas que habitavam sua mente. 

Sentado ao chão de seu banheiro, escorado à porta e com um pedaço de lâmina entre os dedos, o tal tentava decidir se aquela era mesmo sua única opção, porém, mais uma vez, aquelas malditas vozes não lhe deixavam pensar direito.  

Se completavam quatro dias, nos quais, Kyungsoo não havia dormido.

Uma vermelhidão já típica e bolsas escuras abaixo de seus olhos davam uma expressão cansada e abatida ao seu rosto.

Havia uma semana que ele não frequentava a escola; simplesmente não conseguia encarar aquelas malditas pessoas. 

Não entendia o porquê de elas serem tão más.

Por que caçoavam de sua aparência e seu jeito de ser?

Qual era o problema em ser singular, afinal? 

“Você é um fracassado! É por isso que ninguém gosta de você!” - O som ecoava em sua mente. 

Talvez a voz estivesse certa.

Talvez o problema realmente fosse ele mesmo.

Nunca fora bom com críticas e não suportava submeter-se a qualquer tipo de pressão.

Ele era fraco e pessoas fracas não merecem viver. 

Disposto à pôr um fim ao seu sofrimento e silenciar as vozes em sua cabeça, Kyungsoo ampara a pequena gilete entre seu dedo polegar e o indicador, logo posicionando sobre a fina linha azul translúcida na pele alva, já com algumas cicatrizes, de seu pulso. 

Contudo, um barulho vindo de dentro do seu quarto o impede de concretizar a ação.

Eram passos. 

“Você não trancou a porta? Será que é tão inútil ao ponto de nem isso conseguir fazer?” - A voz ressoara em seus pensamentos mais uma vez. 

ㅡ Kyungsoo? – Seu nome é chamado do outro lado do compartimento. 

Automaticamente todo o seu corpo perde a estabilidade e suas mãos começam à tremer. A voz tinha saído abafada, mas ele sabia quem o chamava.

Era ele.

Era Jongin.

ㅡ Kyungsoo, abre a porta, por favor! Eu preciso conversar com você! 

ㅡ Vá embora, Jongin! – O Do vocifera com a voz nitidamente embargada. 

Com dores, cerra as pálpebras úmidas fortemente e fecha as mãos em forma de punho, prensando a lâmina em sua palma. Lhe ocorreu então uma pequena ardência ao momento em que o líquido vermelho e quente começou a percorrer entre seus dedos, indicando que sua mão estava ferida.

Contudo, nem ligava.

Já estava acostumado àquela sensação e agora tinha uma dor bem maior.

A dor de ter que afastar Jongin

Kyungsoo e Jongin são grudados desde que ainda eram bebês. Consideram-se quase irmãos, pois, a única coisa que os separavam era não haver ligação sanguínea. Sempre confidenciaram tudo um ao outro; seus medos, suas paixões, suas primeiras experiências...

Mas daquela vez, ele não queria envolvê-lo em seus problemas. Não queria que ele também sucumbisse aos seus demônios.

Jongin não merecia aquilo. 

Seu melhor amigo sempre fora um garoto muito alegre, simpático e extrovertido e por isso tinha, quase que involuntariamente, vários amigos; Kyungsoo não queria que ele os perdesse por ser visto andando com o “esquisito”. O Do não entendia como o dito ainda tinha coragem de perder seu tempo consigo. Duvidava que se o Kim tivesse o conhecido naqueles dias atuais, mal a dirigiria o olhar nos corredores da escola. 

Seu coração dizia-lhe que ele nunca o abandonaria, não importava o que acontecesse. Porém sua mente gritava em ordem obrigatória para Kyungsoo se afastar. E felizmente (ou infelizmente), se havia uma coisa que ele havia aprendido durante a sua vida, era à não seguir seu coração em hipótese alguma.

Com um peso extremo em sua consciência, decidiu ignorar todas as suas ligações e mensagens durante aquela semana.

Tomar tal decisão doeu tanto, que quase fazia seu coração latejar. 

ㅡ Eu não vou te julgar, Soo! Só... Me deixa entrar! 

Sem nenhuma resposta do amigo e frustrado por não ser capaz de ajudá-lo, o rapaz mais novo suspirou cansado e se sentou ao chão, apoiando sua cabeça na porta, com os olhos fechados. O rapaz em questão sentia-se extremamente impotente por não saber o que fazer. Kyungsoo era uma das pessoas mais importantes de sua vida e lhe partia o coração saber que se sentia tão mal a ponto de querer se machucar ou tirar a própria vida.

Desejava poder fazer tudo aquilo desaparecer. Queria ver seu amigo feliz e sorrindo de novo. 

Uma brisa gelada atravessa a janela e atinge o corpo de Jongin, trazendo-lhe à memória um momento antigo, porém ainda muito vivido em sua mente. 

ㅡ Lembra de quando nós éramos pequenos e você me disse que odiava o frio e me pediu para te abraçar e esquentar? – O rapaz sorri com a lembrança. ㅡ Aquele dia eu prometi que te protegeria de tudo e de todos, lembra? Queria muito poder fazer isso agora.
Um soluço audível escapa pela garganta de Kyungsoo, provocando um aperto no peito de seu melhor amigo.

Ele odiava vê-lo chorar.

Nunca sabia como agir, então apenas abraçava-o fortemente, até o seu choro cessar.

Porém, naquele momento estava incapacitado de consolar-lhe e esse fato matava-o por dentro. Antes de conseguir se conter, vestígios de lágrimas eram deixados por suas bochechas. 

Sentia-se profundamente culpado, pois sabia que se não houvesse deixado Kyungsoo sozinho, nada daquilo estaria acontecendo.

Logo temia perdê-lo para sempre. 

Por favor, Soo... – A súplica atravessa seus lábios em um sussurro quase imperceptível. 

No entanto, o Do havia ouvido e isso só acarretou a intensificação do pranto que banhava seu rosto. Não suportava saber que seu amigo sofria, ainda mais por sua causa.

Preferia morrer à fazê-lo sofrer.

Kyungsoo reuniu as poucas forças que ainda lhe restavam e destrancou a porta, afastando-se dela. 

Ao perceber que a porta havia sido aberta, o mais novo se deslocou abruptamente para dentro do cômodo, engatinhando em direção à seu melhor amigo, que estava encolhido ao lado da pia.

Àquela hora, tão frágil.

Tão vulnerável.

Vê-lo daquele jeito lhe embrulhava o estômago. 

Sem perder nem mais um segundo, o rapaz lhe envolveu vigorosamente com os braços, depositando naquele ato todo o seu amor, seu carinho, sua compaixão e sua segurança.

Gostaria que através daquele feito, pudesse tirar toda a sua dor e sofrimento. 

As lágrimas que já saiam com intensidade dos olhos de Kyungsoo, pareciam a correnteza de um riacho, lavando o seu rosto e ensopando a camisa de seu melhor amigo. Entretanto, nenhum dos dois estava dando importância à este detalhe, somente queriam aproveitar aquele momento de companheirismo e amizade.

Logo, permaneceram desse jeito por alguns minutos, abraçados, aos prantos, em silêncio, esperando toda aquela angústia passar. 

Jongin percebe a mão ensanguentada do outro e uma onda de desespero atravessa seu corpo. Esperava não ter chegado tarde demais. Todavia, o sentimento de alivio se apossa de seu coração quando ele constata ser um corte superficial na palma de sua mão. 

O rapaz mais novo auxilia o corpo debilitado de Kyungsoo à se levantar e o assenta sobre a tampa da privada. Segura sua mão com cautela e a põe sob a água corrente da torneira. 

O tal não demonstrou nenhum sinal de dor ou aflição. Seu olhar era distante e opaco, como se não habitasse mais no mundo real. 

Jongin estava seriamente preocupado.

Não conseguia decidir se deveria comunicar alguém, pedindo ajuda. Deveria ligar para os pais dele? Os de Kyungsoo estavam totalmente fora de questão; seu pai era alcoólatra e sua mãe se transformara em uma fanática religiosa depois da separação. 

Não, melhor não, pensou.

O Do lhe odiaria caso contasse a alguém.

Então o rapaz decidiu que cuidaria do melhor amigo por conta própria.

Se pôs a procurar pelo kit de primeiros socorros e aprontou todo o material necessário para tratar o ferimento. Secou a mão do mais velho cuidadosamente e aplicou o líquido antisséptico sobre o corte, cobrindo-o com um curativo imediatamente. 

Jongin sustentou o peso de Kyungsoo em seus braços e fez o caminho de volta ao quarto do mesmo. Depositou-o sobre os lençóis da cama e se deitou ao seu lado, cobrindo ambos os seus corpos com o edredom, aninhando-o de volta aos seus braços e iniciando uma carícia em seu cabelo logo em seguida.

E isso se seguiu até o Do cair no sono. 

Todavia, Jongin não conseguiu não conseguiu pregar os olhos nem por um segundo durante aquela noite.

Sua cabeça estava cheia demais.

Cheia de preocupações.

Cheia de dúvida.

Cheia de perguntas não respondidas.

Ansiava ajudar seu amigo, mas não conhecia nenhum modo de fazê-lo sem envolver um especialista.

Kyungsoo realmente precisava da droga de um especialista. 

Jongin tinha ciência de que somente a sua assistência não seria suficiente.

Um dia ele poderia chegar tarde demais e só em cogitar essa possibilidade, já sentia todo o corpo estremecer e uma forte pontada no peito. 

O rapaz virou-se para o lado e se pôs a observar o rosto do outro, tão calmo e sereno. Kyungsoo era tão jovem, bonito e inteligente. Não merecia estar passando por nada daquilo.

Ninguém merecia, na verdade.

O sonho do mais velho era se tornar médico veterinário, para assim poder ajudar animais doentes e feridos.

O mais novo sorriu com um pensamento.

Até as intenções do tal eram as mais puras possíveis.

Ele simplesmente não compreendia como alguém era capaz de fazer qualquer maldade contra ele.

Estava tão perdido em pensamento que só percebeu quanto tempo havia se passado quando feixes de luz atravessaram a janela, iluminando o quarto e indicando que já estava amanhecendo.

Jongin sentiu a movimentação ao seu lado e retornou a atenção à seu melhor amigo, constatando que Kyungsoo havia acordado. 

ㅡ Ei! Bom dia! Se sente melhor? – O Do balança a cabeça, afirmando. ㅡ Que bom! Você me deu um susto e tanto, sabia? 

ㅡ Desculpa... – A voz de Kyungsoo sai como um sussurro e sua expressão estava carregada em culpa. 

ㅡ Você não tem de se desculpar! – Jongin diz em um tom quase ofendido. ㅡ Eu é que deveria me desculpar! Isso foi tudo culpa minha, não deveria tê-lo deixado sozinho! 

ㅡ Nini... 

ㅡ Não, Kyungsoo! Eu deveria ter vindo antes, deveria ter insistido mais! Eu pensei que você queria um espaço! Eu... ㅡ O rapaz mais velho lhe interrompe, segurando seu rosto entre as mãos fofinhas e olhando-o profundamente nos olhos. 

ㅡ Não foi culpa sua, tudo bem? Eu estava com a cabeça cheia demais, não conseguia dormir, não conseguia pensar. Só... Aconteceu. 

ㅡ Isso não pode continuar assim, Soo! Promete que vai procurar ajuda? 

ㅡ Prometo, Jongin! 

ㅡ E promete que não vai mais se afastar desse jeito? Nem vai mais me expulsar da sua vida? – O Do assente, fazendo com que uma última lágrima caia sobre sua bochecha. Jongin a seca de seu rosto, onde permanece com sua mão. ㅡ Meu Deus, Kyungsoo, eu fiquei com tanto medo! Quero tanto te ajudar! Me diz como eu posso te ajudar! 

E foi então que Kyungsoo percebeu que Jongin era seu porto seguro, sua válvula de escape.

Ele era o que o mantinha consciente, afastava as vozes em sua cabeça e unia os seus pedaços novamente.

Enquanto ele tivesse sua amizade, nada poderia atingir-lo.

Enquanto Jongin estivesse ali, Kyungsoo estaria à salvo. 

ㅡ Só me abraça, me aqueça; seja meu amigo, como você sempre fez. 

E o Kim assim fez. E faria de novo e de novo e quantas vezes mais fossem necessárias, até o fim de suas vidas.

Nunca o deixaria sozinho com seus pensamentos de novo e faria o possível e o impossível para protegê-lo.

Iria sustentá-lo, envolvê-lo, descobrir-lo, aquecê-lo e, até mesmo, respirá-lo, se fosse preciso.

Porque, mesmo com a sua singularidade, Kyungsoo sempre fora a pessoa na qual Jongin mais se admirava.


Notas Finais


infelizmente, esta é outra história baseada em fatos reais.
peço desculpa às pessoas que me lêem pela minha falta de segurança, e também por minha insuficiência. os tempos atuais estão difíceis para mim, e uma melhora já é algo quase inconcebível ao meu ver. por favor, não me abandonem... prometo tentar fazer com que essa onda de pensamentos e sentimentos ruins não atrapalhe em minha escrita e em minha competência. agradeço à cada uma (e um) que me enviou mensagens de motivação, me desejando melhoras e encorajamento. ficarei apenas um pouco mais afastado por conta da exaustão mental que me assola. sou eternamente grato por tudo. obrigado por chegar até aqui.<3


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