História Sinner Like You - Capítulo 14


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Categorias Originais
Tags Adolescência, Califórnia, Festa, Futebol Americano, Gay, Los Angeles, Romance, Yaoi
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Palavras 10.774
Terminada Não
NÃO RECOMENDADO PARA MENORES DE 18 ANOS
Gêneros: Esporte, Famí­lia, Festa, Ficção, Ficção Adolescente, Lemon, Romance e Novela, Yaoi (Gay)
Avisos: Álcool, Bissexualidade, Heterossexualidade, Homossexualidade, Incesto, Insinuação de sexo, Nudez, Pansexualidade, Sexo, Transsexualidade
Aviso legal
Todos os personagens desta história são de minha propriedade intelectual.

Capítulo 14 - Homens não choram


Steven Engel
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   A chuva caía torrencial em Houston, no Texas.

   Agarrado à perna do meu pai, protegido sob o mar de guarda chuvas pretos que impediam a água gelada de tocar as pessoas em suas vestes escuras, eu observava com olhos embaçados o caixão de madeira clara suspenso por cordas enquanto o padre pregava no que me parecia outra língua, já que eu era incapaz de entender uma palavra.

   Meu corpo inteiro tremia, mas não era de frio. Minhas mãos pequenas e infantis amassavam o tecido grosso da calça de meu pai, as lágrimas rolavam pelo meu rosto, tão furiosas quanto a própria chuva e eu podia sentir minha garganta se apertando dolorosamente, dificultando a respiração.

    - Você precisa parar de fazer escândalo, Steven! - A voz de minha mãe soou num sussurro imperativo próximo à mim.

    - Deixe o menino em paz, Esther! - Meu pai a repreendeu - Ele é só uma criança…

    - Deixá-lo em paz? - Seu sussurro agora parecia irritado - Já está na hora de fazer essa criança virar um homem! Até quando irá tratá-lo como um bebê?

    - Eu não sou um bebê! - Afirmei entre soluços - Sou um homem!

    - É claro que é, querido… Um homem forte e corajoso! - Burkhard afirmou se abaixando ao meu lado para acariciar meus cabelos mas seu sorriso não era como antes, já não possuía o calor característico; na verdade, parecia triste, quebrado, e naquele momento, mesmo com apenas sete anos de idade, eu podia afirmar que entendia de tristeza.

    - Você precisa parar de mimá-lo - Esther afirmou do alto - Sempre passou a mão na cabeça dela e olhar como terminou…

    - Já chega, Esther! - Burkhard exigiu com firmeza - Eu sei que você está sofrendo, mas todos nós estamos. Isso não te dá o direito…

    - Não se atreva a me dizer quais direitos eu possuo! - Ela rebateu entre os dentes cerrados, seus olhos vagando na direção do caixão por alguns instantes, parecendo um tanto perdida antes de curvar seu corpo magro para perto de mim. Eu ainda era capaz de me lembrar da forma como o decote quadrado de seu vestido preto se destacava contra a pele clara, como o chapéu de mesma cor criava sombras quase assustadoras em suas íris azuis frias e como sua voz soou dura quando me encarou diretamente nos olhos - Se você quer, algum dia, ser um homem de verdade, precisa antes aprender algumas lições… Em primeiro lugar; homens protegem a família e em segundo, homens não choram!

   “Homens não choram!”, aquela frase me causou um arrepio na nuca.

   Senti meu pai me abraçar com força, quase como se quisesse assim me proteger das palavras dela, mas Esther já havia arrumado sua postura novamente, levando para longe seu perfume doce e enjoativo enquanto puxava a estola de veludo azul marinho sobre os ombros e seguia para longe de nós por sob a cobertura improvisada.

   “Homens não choram…”. Mas eu era homem, não era? Eu queria ser, mesmo sem saber ao certo o que significava… Meu pai era homem e eu queria ser igual à ele…

   Burkhard ainda me abraçava com força repetindo palavras de conforto que, para mim, não passavam de zumbidos sem significado algum. Minha atenção estava perdida em mim mesmo, meus olhos fixos no caixão à minha frente, que nesse momento começava a ser baixado lentamente para dentro da terra.

   “Homens não choram…”, era a primeira vez que aquele mantra se repetia na minha cabeça mas, com certeza, não seria a última.

   Instantes depois, quando me aproximei para jogar o pequeno buquê de rosas brancas dentro da cova, senti as últimas lágrimas rolando nas minhas bochechas em direção ao chão recém escavado.

   “Homens não choram…”, engoli o nó sufocante na garganta com um gemido doloroso enquanto secava as bochechas na manga do casaco uma última vez.

    - Tchau, Boo… Vou sentir muitas saudades! - Me despedi com a voz entrecortada graças ao meu queixo trêmulo.

   “Homens não choram!”

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   TOC TOC TOC

   As batidas na porta me despertaram de minhas lembranças mórbidas.

    - Engel? Você está bem? - A voz preocupada de Michael soou abafada através da madeira e eu suspirei abrindo meus olhos finalmente.

   Observei meu reflexo no espelho emoldurado em prata envelhecida por um tempo; os olhos extremamente vermelhos, a testa suada, o maxilar travado em uma linha rígida que impedia meu queixo de tremer enquanto meus dedos, completamente brancos, apertavam a borda da pia…

    - Homens não choram! - Sussurrei entre os dentes para minha imagem turva, ignorando o soluço preso no meu peito.

   Eu tinha a impressão de poder ouvir o silvo do ar circulando por minhas vias respiratórias - além do ribombar agressivo do sangue nas têmporas - quando abri a torneira sobre a pia de pedra arenosa em formato de flor.

   Eu ainda estava impressionado com o modo como tudo naquela casa parecia saído diretamente de um conto de fadas, mas sabia que não tinha tempo para me prender àqueles detalhes; então apenas respirei fundo, aparando a água fria com minhas mãos doloridas em concha para levá-la ao rosto repetidas vezes:

    - Engel? - A voz aflita viajou até mim novamente - Está tudo bem? Precisa de alguma ajuda?

   Inspirei profundamente, me permitindo observar com uma atenção desmedida o caminho que a água fazia, girando em um pequeno redemoinho até ser sugada pelo ralo e lavei meu rosto mais uma vez antes de me secar de qualquer jeito com a toalha branca felpuda:

    - Eu demorei tanto assim que você veio ao resgate? - Perguntei tentando forçar um sorriso para Mike quando abrí a porta.

   Seus olhos âmbar me avaliavam minuciosamente, parecendo preocupados, e isso só serviu para me deixar mais desconfortável:

    - Está tudo bem? - Perguntou finalmente - Você parecia…

    - Não foi nada! - O impedi de prosseguir, sentindo a dureza na minha voz destruir meu sorriso falso imediatamente. Inspirei o mais fundo que pude, massageando minha nuca por um instante à procura de calma - Olha… Me desculpe por aquilo - Pedi, finalmente encarando-o antes de conseguir prosseguir com um suspiro - Eu só… Ela me lembrou alguém… Alguém do passado.

    - Alguém muito importante, eu suponho… - Mike insinuou parecendo interessado e pude sentir meu rosto enrijecer mais uma vez, meus punhos cerrados com força nas laterais do meu corpo.

    - Me desculpe, Mike - Pedi em um tom que, apesar de baixo, possuía firmeza - Não me force a falar sobre isso… Por favor!

   Ele me encarou por algum tempo novamente, suas íris calorosas queimando minha pele por onde quer que passassem:

    - Eu nunca tentaria te obrigar a nada, Engel, nunca! - Afirmou categórico e meus lábios se entortaram em um sorriso mínimo ao perceber o quanto de verdade havia naquela afirmação.

    - Obrigado! Mesmo! - Respirei aliviado, sentindo meus ombros relaxarem minimamente, o tremor no meu queixo sendo sufocado por uma mordida no lábio inferior - Obrigado por entender…

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    - Você cozinha Steven?

   Foi a primeira pergunta que o sr. Pierce fez assim que me viu entrar na cozinha ampla e bem iluminada acompanhado de Mike.

    - Como? - Perguntei, realmente confuso diante dos olhos empolgados do homem que, nesse momento, mais parecia uma criança eufórica, andando descalço de um lado para o outro em seus jeans claros e pulôver bordô com mangas arregaçadas até os cotovelos.

    - Cozinhar… - Ele prosseguiu de forma lenta e didática - Hoje é a noite dos Pinguins então, se você souber cozinhar algo e quiser contribuir…

    - Pinguins? - Eu não pretendia parecer um idiota que só respondia perguntas com outras perguntas, mas estava ainda mais confuso e não pude evitar.

    - Creio que ele não faça ideia do que você está falando, pai… - Mike tentou ajudar enquanto mordia uma maçã verde que havia pescado da fruteira de vidro sobre o balcão.

    - Oh, céus… É claro, não há como você saber! - Ele revirou os olhos âmbar de forma jovial antes de explicar - Todo domingo nós nos juntamos para cozinhar o jantar… É como uma tradição de família…

    - Onde, obviamente, os convidados especiais não podem faltar! - Uma voz que não pude reconhecer soou do corredor e em poucos instantes a figura musculosa de Joey, o guitarrista nu, surgiu no vão de entrada. E eu apenas agradeci à Deus por ele não estar nu naquele momento.

    - Você quis dizer que os penetras não podem faltar, certo? - Corrigiu Mike com seriedade e Joey levou a mão ao peito em uma expressão ofendida.

    - Não seja tão cruel, Mickey - Valquíria surgiu logo atrás do guitarrista parecendo se divertir com a cena, seu corpo pequeno quase escondido pelo dele.

    - Mas eu não disse nenhuma mentira… - O moreno se defendeu dando de ombros; só então eu pude perceber que tanto ele quanto o rapaz negro sustentavam sorrisos laterais debochados.

    - Você não deveria me tratar assim depois de ter me abandonado aqui o verão inteiro enquanto fazia um tour pelas belezas naturais do Brasil… - Joey fez um bico antes de se aproximar de Mike, mordendo sua maçã.

    - Como se você não tivesse gastado seu tempo desbravando as “belezas naturais” de Los Angeles também… - Mike rebateu em tom de implicância, empurrando-o para longe com um soquinho no braço. Só então me dei conta de que eles não estavam falando de natureza realmente e levei um grande susto.

   Olhei para Christopher imediatamente, procurando em seu rosto algum tipo de reprovação diante da conversa mal disfarçada dos dois, mas ele apenas sorria minimamente acenando a cabeça em negativa enquanto separava mantimentos sobre a bancada de madeira crua - quase como se já tivesse presenciado aquela mesma conversa diversas vezes.

    - Ciúmes, Michael? - Perguntou Joey alargando seu sorriso branco, e eu podia estar ficando louco ou seu ar de escárnio escondia no fundo uma esperança velada.

   Michael apenas o encarou por alguns instantes em uma conversa silenciosa, as expressões de divertimento de ambos morrendo como se aquele também fosse um assunto velho demais para ser discutido novamente e eu parecia o único completamente perdido enquanto Christopher cumpria sua tarefa silenciosamente - buscando alimentos na geladeira azul bebê que, àquele ponto do dia, já não me surpreendia ou espantava com sua cor excêntrica - e Valquíria entortava o rosto delicado com um ar de pura consternação.

   Havia alguma coisa ali… Algum problema que apenas eu desconhecia. A tensão no ar era praticamente palpável antes que Joey desse de ombro de forma estranha - quase como se estivesse espantando algo para longe -, se aproximando de Mike novamente, suas mãos grandes envolvendo a cintura dele em um abraço apertado que foi imediatamente correspondido na mesma intensidade e finalizado com um longo selinho.

   E aquilo me atingiu como um soco no peito.

   “Eles estão mesmo se agarrando na cozinha?”, eu beirava o estado de choque enquanto os observava de olhos arregalados.

   Como tinham coragem? Que eles fizessem suas… coisas em um quarto eu até podia entender, mas eles não se incomodavam que eu estivesse ali? Não tinham vergonha que eu visse? Não se importavam com a presença do pai de Mike? Ou da irmã caçula que parecia tão doce e inocente… Aliás, por que o sr. Pierce não dissera nada? Ele não deveria estar furioso com essa falta de respeito? Deveria dizer que era um absurdo… Um pecado… Certo?

   Ergui meus olhos na direção do homem tendo a certeza de que meu rosto entregava meu espanto mas, ao invés de similaridade, encontrei um sorriso grande e genuíno de divertimento, como se aquele fosse apenas mais um dia comum em sua vida, e isso me deixou ainda mais espantado.

   “Como ele pode estar calmo diante disso?”, eu precisava saber… À essa altura, meu pai já teria posto a casa abaixo caso visse algo assim, e era quase como se eu precisasse de uma reação negativa de Christopher apenas para validar as ações de Burkhard; apenas para comprovar que nem tudo sobre minha família era tão ruim quanto parecia, que não estava tudo perdido.

   Eu já havia entendido que o mundo não era exatamente como haviam me ensinado em casa ou naquela maldita escola cristã em Austin, conhecera todo tipo de gente na Alemanha graças à Blink, e isso havia me mostrado que nem todas as pessoas agiam da mesma forma à respeito de casais homossexuais, os jovens nas festas às quais nós frequantávamos costumavam tratá-la bem, assim como sua namorada, Riley.

   Mas eu também sabia que a sexualidade de Blink não era bem aceita por seus pais e que a família de Riley não podia nem ao menos sonhar com seu relacionamento… Então, eu supunha que esse fosse o padrão. Talvez apenas um conflito de gerações… Era nisso que eu me agarrava. Era nisso que eu precisava acreditar.

   Mas Christopher não parecia ser muito mais novo que Burkhard, talvez tivessem seis ou sete anos de diferença, o que queria dizer que faziam parte da mesma geração - praticamente - e isso derrubava minhas verdades por terra mais uma vez.

    - Então… Você sabe cozinhar? - O sr. Pierce me perguntou novamente e eu o encarei quase sem realmente vê-lo.

    - Eu… - Pigarreei, meus olhos se voltando para Mike que, ao perceber minha atenção sobre ele, se desvencilhou de Joey, encarando atentamente a maçã mordida. Observei Christopher mais uma vez antes de prosseguir em voz baixa - Eu sei fazer panquecas de iogurte…

    - Panquecas de iogurte? - Ele parecia a ponto de bater palmas em sua empolgação - São as minhas favoritas!

    - Poderíamos aproveitar e fazer um “brunch” - Valquíria deu a idéia, mas eu estava completamente alheio ao fato de que “brunch”, por definição, era uma refeição diurna, meus olhos ainda presos em seu irmão que mastigava a fruta calmamente - O que acham?

    - Ótima idéia, princesa! - Christopher anuiu quando os outros dois concordaram, parecendo também não se importar com etiqueta, e em pouco tempo a cozinha já estava uma completa loucura com todos vestindo aventais coloridos enquanto iam de um lado para o outro, abrindo as portas entalhadas dos armários de madeira branca e dando ideias de pratos que queriam para o jantar.

   Michael finalmente se desencostou do balcão, jogando o miolo de sua maçã verde no lixo e seguindo para a pia, onde lavou as mãos para dar início ao processamento de morangos, framboesas e bananas congeladas com um pouco de iogurte; Joey travava uma batalha contra a casca de uma abóbora extremamente laranja, mas não sem antes mexer em seu celular até fazer uma música calma, que eu era simplesmente incapaz de reconhecer, soar pelos auto falantes embutidos no teto da cozinha - e eu gastei menos de um segundo para notar o nível de intimidade entre ele e a família - mas fui distraído pela visão de Valquíria, que ainda me causava calafrios, lavando uma quantidade simplesmente absurda de frutas na torneira da “ilha” à minha frente, algumas eu nem ao menos conhecia, mas ela e o irmão não perdiam a chance de fisgá-las e levá-las à boca entre sorrisos cúmplices quando o sr. Pierce se distraía demais em sua função de desossar um peito de frango.

   “Eles devem fazer isso à muito tempo…”, pensei sozinho, avaliando a agilidade com a qual cumpriam suas funções e até auxiliavam uns aos outros.

   Em pouco tempo - quando funções mais complexas, como o preparo de massas, começaram a ser desenvolvidas - ficou claro que eram Christopher e Michael que comandavam a cozinha, o que, obviamente, me surpreendeu mais uma vez.

   Eu nunca tinha ido para a cozinha com meus pais… Na verdade, podia apostar que Madame Esther não saberia nem ao menos acender um fogão, enquanto que o famoso e renomado dr. Engel afirmaria, como sempre, que aquele não era um ambiente próprio para homens - ignorando completamente o fato de que nos melhores restaurantes do mundo, justamente os que ele tanto amava frequentar, os chefes eram, em sua grande maioria, homens.

   Mas os Pierce, mais uma vez, pareciam habitantes de um universo paralelo; onde casas reluzem como palácios encantados, geladeiras são azuis, filhos beijam amigos na cozinha e pais gastam seu tempo preparando a própria comida ao invés de contratarem um bufê…

    - Hey, Apolo… - A voz de Joey quebrou minha linha de pensamentos - Você prometeu panquecas…

    - Apolo? - Christopher perguntou em visível confusão, desviando sua atenção da tarefa de desfiar o frango para nos observar por um momento.

   Encarei Joey em seu ar “descolado” que parecia tão natural; recostado na ilha de frente para mim, os braços musculosos cruzados sobre o avental preto - onde se lia “CUIDADO! WHEY NÃO É COMIDA!” em uma placa amarela de perigo - e um sorriso sacana nos lábios.

    - Foi a Danny quem “batizou”... - Ele deu de ombros e as lembranças de nosso primeiro encontro me vieram à mente como um flash…

   Danny rebolando com a expressão de prazer estampada no rosto, os ombros do próprio Joey se movendo sobre o corpo que eu não era capaz de identificar e - finalmente - Michael, surgindo do mar de lençóis e corpos com as faces coradas e o peito ofegante…

   Essa imagem mental subiu como um arrepio estranho na minha coluna, minhas bochechas esquentando imediatamente. Mike estava lindo naquela cama… Parecia tão livre, tão selvagem… Tão…

   Os olhos de Mike me miraram por um instante antes de se voltarem novamente para o pote onde misturava a abóbora já cozida e amassada com a farinha e os outros ingredientes; mesmo em tão pouco tempo, tive certeza de que ele estava pensando exatamente no mesmo que eu…

    - Eu acho que combina… - Valquíria se pronunciou com a voz animada acima do barulho do juicer que ela própria operava, transformando pedaços de mamão em suco.

    - É claro que combina - Afirmou Christopher com um tom gentil olhando para mim - Agora só lhe falta encontrar sua Lua…

    - É… Acho que sim… - Sorri em retorno, mesmo não fazendo idéia do que aquilo queria dizer e me sentindo extremamente incomodado diante do sorriso de Joey, que parecia debochar de mim a todo tempo.

    - Então, Menino Apolo… - Christopher me apressou, passando a argola de um avental com estampa de vaquinha pela minha cabeça - Mãos à obra! - E deu de ombros com uma risada - Ou à panqueca…

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   Meia hora depois, superada a minha falta de jeito inicial, eu tinha uma massa de panqueca bonita na vasilha à minha frente e já me sentia um pouco mais “parte” daquele momento em família que, apesar de tão diferente de tudo o que eu conhecia, me deixava cada vez mais encantado.

    - Eu preciso de uma frigideira… - Pedi à ninguém em particular e vi Mike caminhar para junto de mim a fim colocar duas panelas sobre o fogão de seis bocas - Obrigado - Agradeci com um sorriso antes de franzir as sobrancelhas para ele - Mas… Eu só preciso de uma…

    - Ah, sim… - Mike parecia mais tranquilo agora, com uma postura relaxada quando abriu seu raro sorriso largo - Pensei em fazer uma calda rústica de frutas para as suas panquecas… Gosta de morango?

    - É a minha fruta favorita - Afirmei em voz baixa.

    - Ótimo! - O sorriso dele se abriu mais ainda me fazendo sorrir também - Espero que não se importe em dividir o fogão…

   Acenei uma negativa com a cabeça e começamos a cozinhar lado à lado; e eu precisava lembrar de me manter focado em minha própria frigideira já que a clara habilidade de Mike ao cortar frutas e manuseá-las junto às espátulas e facas insistia em fisgar minha atenção, além de sua voz calma que à todo tempo cantarolava trechos das músicas que ainda reverberavam pelas paredes da cozinha.

    - Vai queimar… - Ele indicou calmamente enquanto acrescentava mirtilos à sua própria mistura e eu corri para virar a massa ouvindo-o voltar a cantar -My lover, she's waiting for me just across the bar, my seat has been taken by some sunglasses asking about a scar…”

   Eu também não conhecia aquela música - obviamente - mas a melodia era calma, agradável, a letra falava sobre juventude - sobre viver a juventude e ter amigos de verdade… Tudo o que eu pensei que tinha e que agora tentava ter realmente.

    - Carry me home tonight… Just carry me home tonight…” - O moreno prosseguia em sua voz límpida, me fazendo perceber que ele era muito melhor do que eu supunha.

   Na noite anterior, sobre o palco, Mike havia cantado bem aquelas músicas pop mas, no fim das contas, havia muitas pessoas por aí que cantavam “bem”... Mas só agora eu podia perceber que ia além disso… Na verdade, ele era muito melhor do que eu pudera imaginar.

   Michael possuía doçura e suavidade em sua voz levemente rouca e incrivelmente límpida. Sustentava as notas mais altas com perfeição por um tempo surpreendente e, mesmo cantando em voz baixa, não desafinava em momento algum.

   Eu sabia que ao nosso redor os outros ainda se moviam de um lado para o outro; retirando tortinhas de abóbora e mini quiches do forno na parede, assando waffles, grelhando bacon e finalizando pratos mas eu estava concentrado demais na minha missão de não queimar as panquecas enquanto prestava atenção na voz de Mike e me perguntava como ele ainda conseguia ser másculo mesmo vestindo um avental preto estampado com enormes girassóis amarelos - que parecia fazer uma espécie de par com o de Valquíria, onde o tecido exibia a mesma estampa, porém em uma escala bem menor.

    - Será que esse jantar sai hoje ainda? - Uma voz feminina fisgou minha atenção, fazendo com que eu me voltasse para o vão de entrada, de onde uma mulher linda nos observava com olhos animados e ansiosos.

   Ela era baixa, provavelmente não passava de 1,65m, os pés descalços não contribuindo em nada para sua altura diminuta. O corpo era delicado, esguio, com músculos magros nos lugares certos; os seios pequenos quase não fazendo volume no decote V da camisa cor de vinho com mangas curtas que usava por baixo do macacão jeans claro de pernas compridas dobradas nos tornozelos.

   Aquela só podia ser a senhora Pierce, sua semelhança com os gêmeos era visível para qualquer um; os ângulos de seu rosto idênticos ao que me lembrava de ter visto em Brittany, assim como seus olhos, praticamente livres de maquiagem, que só diferiam dos da menina por serem extremamente verdes; já os lábios, cheios e levemente avermelhados, possuíam o delicado formato de coração que eu reconhecia nos do próprio Michael - o sorriso largo, que nele era tão raro, parecia não estar disposto a sair do rosto dela, apertando seus olhos de maneira adorável na linha das sobrancelhas.

    - Estamos quase finalizando, querida - o sr. Pierce afirmou enquanto retirava a última fatia de bacon da grelha elétrica no outro lado da cozinha - Resolvemos fazer um “brunch”... - Comentou empolgado e ela imediatamente se contagiou com isso.

    - Amo café da manhã! - A mulher sorriu divertida, seus olhos se apertando em fendas ao observar melhor o marido - “BEIJE O COZINHEIRO”? - Ela leu no avental dele com ar de provocação - Isso é um convite, sr. Pierce?

    - Sinta-se à vontade para entender como um, sra. Pierce… - Christopher respondeu com a voz rouca, seus braços envolvendo a cintura delicada da mulher e puxando-a para perto de seu corpo.

   Ela apenas sorriu, os olhos preguiçosos presos no rosto do marido, e disse algo próximo do ouvido dele, em um sussurro que mais ninguém pôde compreender. Os dois se encaravam com ar cúmplice e malicioso que evidenciava todo o sentimento entre eles.

    - Nós somos mesmo obrigados a presenciar isso? - Michael resmungou, derramando a calda pronta em um belo pote de vidro.

    - Você sempre pode fechar os olhos, querido… - A sra. Pierce deu a ideia com ar inocente - Ou pode arrumar alguém para si mesmo e deixar de ser um estraga prazeres intrometido! - Até eu tive que acompanhar nas risadas que se espalharam pela cozinha, aquela mulher era divertidamente afiada.

    - Podia dormir sem essa… - Joey alfinetou, retirando as luvas térmicas. Mike revirou os olhos bufando, tentando esconder seu sorriso ao virar de costas.

    - Enfim… Espero que não tenham se esquecido do meu suco de mamão com laranja! - A sra. Pierce prosseguiu como se nada tivesse acontecido.

    - Já está na geladeira, mãe - Valquíria afirmou e em troca recebeu um beijo na testa.

    - Essa é a minha garota! - Ela bateu palmas animada antes de voltar suas íris cor de jade na minha direção, abrindo uma expressão contagiante de contentamento - Então esse é o nosso convidado especial da noite? - Perguntou se aproximando de mim, e assim, com a distância entre nós reduzida, pude notá-la melhor.

   Seu rosto pontilhado de minúsculas sardas claras era livre de qualquer marca de idade, como se o tempo não houvesse passado para ela, permitindo que se mantivesse presa ao início da casa dos 30 anos por tempo indeterminado. Os cabelos modelados em ondas largas possuíam um tom de dourado bem semelhante ao de Valquíria e pareciam extremamente naturais, como se ela nem ao menos os tivesse penteado após o banho - exceto pelo grande prendedor de prata em formato de borboleta, adornado com o que eu julgava ser pequenas lapidações de lápis lazúli e água marinha, que servia para manter toda a lateral esquerda de seus fios presa junto à cabeça e comprovava que ela havia sim se arrumado para o jantar.

   Pensei em Esther pela milésima vez naquele dia… Sempre em seus vestidos caros, sapatos de salto e pele carregada de produtos que, no fim das contas, pareciam efetuar um efeito rebote, deixando-a mais velha do que seus 48 anos sugeriam. Ela ficaria escandalizada com os minúsculos brincos de conta azuis, trajes simples e pés descalços da sra. Pierce…

   Eu estava simplesmente encantado!

    - Steven Engel - Me apresentei, cumprimentando-a com um aperto de mãos - É um prazer conhecê-la, sra. Pierce!

    - Oh, meu Deus! Que menino educado! Acho que temos um lorde entre nós… Você se dará muito bem com a nossa princesa! - Ela indicou Valquíria, divertida, antes de baixar a voz para um tom de ameaça - Mas, me chame de “senhora” mais uma vez, e serei obrigada a colocar pimenta no seu suco… - E me deu uma piscadela, como se falasse do tempo - Sou apenas “Agatha”!

    - Mas… A senhora…

    - Prefere caiena ou jalapeño?

   Olhei ao redor um pouco assustado, procurando por ajuda, mas Joey ria abertamente com aquele ar superior que já estava me irritando, Christopher dava de ombros simplesmente, como um pedido de desculpas silencioso, Valquíria cobria a boca em um gesto delicado, os olhos brilhando em divertimento, e Michael apenas mordia o lábio inferior à fim de impedir um sorriso.

   Encarei a sra. Pierce novamente, a expressão serena de bondade contrastando com o olhar determinado.

    - Acho que não tenho escolha… - Comentei calmamente e ela acenou uma negativa com a cabeça, o que me fez respirar fundo e rir também - Sendo assim… Muito prazer, então… Agatha!

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   Quando o “Pink Penguins Team” - que agora eu sabia ser o nome da equipe de cozinha encabeçada por Christopher e Michael - comunicou que estava tudo pronto, uma espécie de mutirão se iniciou a fim de transportar toda comida.

   À bem da verdade, não foi um grande espanto para mim quando, ao invés de nos reunirmos na sala de jantar, seguimos de volta para a sala de música, onde os móveis oficiais haviam sido afastados para junto das paredes. Aos poucos os pratos largos de porcelana branca desenhada em rosa claro foram sendo dispostos sobre uma mesinha de centro realmente espaçosa; as tortinhas e quiches arrumados em pilhas ainda soltavam fumaça, assim como as tiras de bacon dourado e os discos macios que eram as panquecas. Entre eles, em travessas delicadas de vidro, compridos palitos de metal uniam fatias e pedaços de frutas variadas, deixando-os expostos para quem os quisesse, suas cores me parecendo mais convidativas do que nunca; o lindo pote com a calda de morango brilhava vermelho ao lado de um outro, amarelado, que me parecia ser de mel, e das jarras de cristal que exibiam uma variedade de sucos; eu podia reconhecer, pela cor forte, o de mamão com laranja citado por Agatha e, pelo aroma inconfundível, um de maçã - os outros dois me eram incógnitas.

   Todos começaram à se ajeitar ao redor da pequena mesa, sentando-se no chão com naturalidade, apoiando seus pratos no próprio colo ou em algum espacinho sobre o tampo de vidro.

   O sr. e a sra. Pierce se encontravam na ponta mais distante, sorrindo um para o outro e conversando com Valquíria que, sentada à direita do pai, já esticava o guardanapo de linho sobre as coxas cobertas pela saia clara.

    - Não vai se sentar, querido? - Uma mulher gordinha, que me fora apresentada como “Jane, a babá” me perguntou com um sorriso gentil nos lábios rosados.

   Eu ainda não fazia ideia das funções de uma babá em uma casa com três adolescentes sem nenhuma limitação física, mas resolvi não perguntar; apenas correspondi ao seu sorriso, tentando parecer solicito ao pegar parte das taças que ela equilibrava nas mãos pequenas, e seguindo direto para a mesa, me sentando próximo à cabeceira vazia, o espaço mais distante possível da garota loira que me incomodava mesmo parecendo nem ao menos notar minha presença.

   Eu não sabia exatamente como me portar ao me sentar no chão já que aquilo não fazia parte da minha realidade, mas resolvi relaxar e embarcar na experiência que, até então, estava sendo ótima.

   Entrementes, Danny acabou vindo se postar à minha direita, exibindo um sorrisinho insinuativo que fez minhas bochechas esquentarem imediatamente; do seu outro lado, em uma conversa empolgada com Agatha, Jane já se servia de um suco amarelo com cheiro forte e o adoçava com mel - foi quando percebi que não havia açúcar ou adoçante na mesa.

    - Michael, Brittany e Joseph! - Agatha chamou em voz alta de forma repentina - Vocês vêm ou vou precisar buscá-los?

    - “Joseph” não, Agatha, por favor! - Joey entrou na sala resmungando.

    - Nunca entendi tanta rejeição à um nome tão bonito… - Ela rebateu escondendo o sorriso por trás de sua taça com ar travesso.

   Joey não se dignou a responder, apenas revirou os olhos enquanto se sentava diante de mim e, apesar de sua atitude me parecer extremamente grosseira, a sra. Pierce simplesmente riu em silêncio, como se nada tivesse acontecido.

   Michael surgiu logo depois, parando próximo ao piano com uma expressão claramente irritada. Ele observou a sala por um instante, seu rosto franzindo de nojo ao pairar os olhos sobre mim e eu me encolhi por um instante antes de perceber - com um alívio estúpido - que, na verdade, sua aversão era direcionada ao prato de bacon fumegante logo à minha frente.

   “Mike é vegetariano, seu grande idiota!”, estapeei minha própria testa mentalmente, observando-o enquanto se sentava do outro lado da mesa, ente Valquíria e Joey - que imediatamente levou a mão grande até a coxa de Mike, se inclinando para sussurrar algo em seu ouvido de forma extremamente íntima.

   “Eles realmente precisam se tocar tanto?”, me perguntei quando Joey afastou uma mecha do cabelo negro de Mike para trás da orelha, aproveitando para afaga-lo na bochecha com as costas dos dedos.

   Baixei meus olhos imediatamente ao perceber que estava olhando demais, minhas bochechas esquentando de vergonha pela simples ideia de ser pego no flagra, e me concentrei em esticar meu próprio guardanapo sobre as pernas, meus dedos brincando com uma linha solta freneticamente.

Não há nada de errado nisso… Você sabe, não é? - Uma voz suave praticamente sussurrou no meu ouvido e eu quase pulei com o susto.

   Encarei Danny com os olhos arregalados, mas ela apenas me mirava com ar de compreensão em seus calorosos olhos cor de mel.

    - O que? - Meu sussurro saiu esganiçado.

    - Desejar, meu doce Apolo… - Seu sussurro sensual veio acompanhado de uma mordida provocante no lábio inferior - Desejar nunca é errado e sempre pode ser prazeroso…

   Olhei ao redor engolindo em seco, nervoso com a ideia de que mais alguém pudesse ouvi-la, mas ninguém parecia reparar em nós, então me voltei para Danny novamente:

    - Eu não sei do que você está falando! - Respondi confuso; em troca, recebi um sorriso enigmático.

    - Apolo… Se você pretende conviver conosco precisa estar ciente de algumas coisas importantes primeiro… Precisa saber quem somos… - Ela sorriu ainda mais e eu tive vontade de dizer que tudo o que eu queria era manter distância deles, de TODOS eles, mas seu dedo comprido de unha azul deslizou pelo meu braço, me lembrando de que eu ainda vestia a jaqueta de Michael, e eu simplesmente travei, deixando-a continuar - Os irmãos Pierce são muito diferentes entre si… É bem interessante observá-los, sabia? Valquíria, por exemplo… - Ela indicou a menina loira com um movimento de cabeça, tomando um gole de seu suco de maçã - É quem você deve procurar se precisar de um conselho livre de segundas intenções ou críticas, ela é criatura mais delicada e perfeita que você vai conhecer, e mesmo que um apocalipse zumbi esteja arrasando tudo lá fora, você pode apostar a sua mãe na certeza de que não irá vê-la despenteada ou fazendo uma cena… - Eu estava alucinando ou seus olhos brilharam ao falar sobre a menina? Não tive tempo de pensar à respeito, já que ela continuou o monólogo - E chega a ser engraçado se você parar para reparar o quão diferente ela é da irmã mais velha… Brittany é uma ótima pessoa, não há como negar! Tem um coração de ouro, ama ajudar à todos, é uma ótima amiga, sempre disponível quando você precisa; mas a Rainha do Drama exige atenção 24h, 7 dias na semana e essa tendência narcisista pode torná-la um tanto quanto… egoísta. - Danny entortou a boca, pensativa, e eu passei os olhos ao redor mais uma vez e mais uma vez ninguém parecia reparar em nós - Por fim… Temos Michael, é claro… - Isso fisgou minha atenção imediatamente. Tentei manter a postura relaxada, tentei desviar os olhos do moreno que sorria intimamente para Joey, mas a verdade é que eu nem ao menos respirava, concentrado em ouvir o que a menina negra falava - Nosso querido primogênito é a pessoa mais fria e bloqueada que você um dia vai conhecer! - Me voltei para ela com um tranco, franzindo a testa em confusão. Suas íris cor de mel encontrando as minhas quando ela começou a falar em tom de segredo - Ou, pelo menos, é isso que ele quer que todos pensem… - Deu de ombros - Mike é realmente complicado, se esforça para não deixar ninguém ver por trás da armadura de gelo; mas o que quase ninguém tem perseverança suficiente para encontrar é a criatura irritantemente apaixonante que há por trás dela - Danny pescou um morango em um dos pratos sobre a mesa, enfiando-o na boca, mastigando preguiçosamente - Esteja ciente de que ele é uma força da natureza, Apolo… Nada seria capaz de contê-lo! - O mirei novamente enquanto Danny prosseguia - Mas talvez seja justamente essa intensidade que o faça ver o mundo através de um telescópio… Tudo é maior do que deveria, mais brilhante ou mais obscuro… Coisas que nós esquecemos facilmente, se tornam mágoas profundas na alma dele… Pequenas felicidades, que nós nem notamos, são comemoradas com fogos de artifício… Saiba que, se você conquistar a chance, ele passará na sua vida como um furacão, mas a destruição vai ser a coisa mais linda que você um dia verá.

   Engoli em seco novamente. Minha garganta arranhando como se eu tivesse comido areia.

    - Eu não entendi… - Minha voz saiu grossa - Por que você está me falando tudo isso?

    - Por que eu gostei de você - Respondeu simplesmente, e senti meus olhos se arregalando sobre minhas bochechas quentes - Não! Não assim! - A risada escandalosa de Danny atraiu alguns olhares ao longo da mesa, fazendo minhas orelhas ferverem. Eu não sabia se devia me sentir aliviado ou ultrajado com seu tom, o que ela notou imediatamente - Não se ofenda, Apolo… Você é realmente “beeem” gostoso… - Seus olhos queimavam minha pele e eu senti meu pescoço esquentar ainda mais por saber que Michael nos observava - Mas a questão não é essa…

    - Então qual é a questão? - Resmunguei entre dentes, finalmente começando a me irritar com o tom condescendente da garota - Por que está me contando todas essas coisas?

   Suas íris quentes me avaliavam minuciosamente, o sorrisinho lateral parecendo zombar de mim:

    - Você ainda não entendeu? - Ela revirou os olhos, impaciente - Porque eu sou a pessoa que observa, Apolo, e posso garantir que, mesmo em tão pouco tempo, eu já observei vocês​ dois… - Decretou - O modo como agem à respeito um do outro… - Seu sorriso se abriu lentamente, com um ar felino antes de prosseguir - E já vi também que você realmente precisa se permitir, Apolo… Parar de abaixar a cabeça, de reprimir o que sente! Até porque, eu aposto que não é só aqui que você anda fazendo isso…

   “OK… Essa garota é bruxa, por algum acaso?”, eu queria perguntar. Eu não sabia como ela havia notado ou de onde tirara a ideia, mas o fato era que o que eu mais fizera na minha vida - desde a morte de Arianna - foi me reprimir, abaixar a cabeça, me manter em silêncio quando tudo o que eu queria era chorar e gritar.

   Mas, no fim das contas… “Homens não choram”, o maldito mantra ainda se repetia.

    - Eu não sei do que você está falando! - Foi o que consegui dizer em uma atitude defensiva.

   A expressão de Danny passou de sexy para resignada em uma velocidade vertiginosa:

    - Todos nós já passamos por isso, querido… - Seu sorriso parecia cansado sob os olhos atentos, suas mãos envolvendo meus dedos em um aperto que parecia querer dizer algo, mas eu não era capaz de captar a mensagem - Um dia você vai entender!

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   Minha cabeça ainda flutuava na conversa com Danny quando Brittany tomou o último assento bem ao meu lado e ainda procurava o significado, o propósito por trás daquelas revelações, quando a garota Pierce anunciou que seria ela a abrir o “Piquenique Musical”.

   Eu demorei um instante para entender do que se tratava e, por fim, acabei achando interessante a ideia de termos música ao vivo durante o jantar - podia ser divertido. Mas agora, enquanto ela cantava animada com sua voz suave, meu cérebro distraído ainda revirava as palavras de Danny, que dava o ritmo da canção batucando em uma caixa estranha de madeira, e meus olhos vagavam entre os dedos habilidosos de Mike e Joey, que dedilhavam violões negros, lustrosos. Os outros haviam parado de conversar, mas comiam suas tortinhas tranquilamente com as mãos, apreciando o show particular que eu não era capaz de dar a devida atenção.

   “Desejar nunca é errado e sempre pode ser prazeroso”… Mais um ensinamento que ia contra tudo o que me ensinaram… Mordi a língua para não bufar exasperado.

   “Ele passará na sua vida como um furacão, mas a destruição vai ser a coisa mais linda que você um dia verá”, engoli em seco, sentindo um gelo na boca do estômago. Eu definitivamente não queria destruir nada. Na verdade, estava em um lento processo de reconstrução e não precisava de mais escombros se acumulando.

   “Todos nós já passamos por isso… Um dia você vai entender!

   “Isso” o que? O que diabos eu deveria entender?

    - Ótima escolha, Ratinha! - A voz empolgada de Christopher me despertou e só então eu notei que a música havia acabado.

   Os meninos deitaram os instrumentos sobre as pernas, Danny desceu da “caixa”, voltando para o meu lado enquanto Brittany abria um sorriso enorme e radiante:

    - Obrigada, papai! - Ela agradeceu, alargando ainda mais o sorriso, que parecia prestes a rasgar seu rosto, antes de se voltar para mim com grandes olhos inocentes - O que você achou, Steven? Gostou da minha voz?

   Senti minha pulsação acelerar ao notar que todos prestavam atenção em mim repentinamente:

    - É… - Comecei incerto, já que não ouvira nada da música - Vocês todos foram muito bem… - Investi numa evasiva, aproveitando para tentar desviar do assunto - Só não entendi exatamente como funciona o caixote… - Indiquei o possível instrumento com um aceno tímido.

   Pude ver a risada presa de Mike, que tentava disfarçar pondo uma uva na boca, e o olhar de desdém no rosto de Joey, mas resolvi me concentrar na explicação de Danny, que inclinou o corpo para trás, alcançando a caixa de madeira clara e arrastando-a para junto de nós:

    - Não é um “caixote”, Apolo! - Danny riu, divertida - É um cajón

    - Cajón? - Testei a palavra na língua, mas ela não me lembrava nada.

    - É um instrumento de percussão muito usado em shows acústicos. Teve origem no Peru, se eu não me engano… - O sr. Pierce explicou - Você nunca tinha ouvido falar?

    - Não que eu me lembre… - Encolhi os ombros, desconfortável com toda a atenção.

    - Foram o Chris e a Agatha que me deram essa belezinha aqui, no meu último aniversário… - A menina negra acariciou o instrumento com ar apaixonado e eu observei alguns detalhes que não havia notado antes: como a almofadinha fina presa sobre ele com tachinhas em tom de prata envelhecida, o furo redondo do tamanho da boca de um copo que havia em uma das faces e o grande desenho da cabeça de um panda gravado a fogo em outra.

    - Um panda? - A pergunta me escapou em meio à um sorriso.

    - Sim. Por que eu…

    - Ela era capitã do time no ano passado… - Brittany se intrometeu cortando o que Danny ia dizendo. Suas mãos pequenas voaram para o meu braço a fim de chamar minha atenção, mas nem seu olhar inocente, que agora me parecia extremamente forçado, foi capaz de disfarçar o modo insinuativo como ela apertava meus músculos.

    - Time de que? - Me voltei para Danny novamente, tentando não demonstrar todo o meu desconforto com o modo como estava sendo tocado.

    - Cheerleaders, é claro! - A voz de Brittany retrucou às minhas costas e Danny apenas me lançou um olhar significativo, acompanhado de um sutil dar de ombros, como se dissesse: “eu te avisei” - Mas esse ano eu serei a nova capitã do time e você vai me ver no topo da pirâmide… Não é incrível?

    - É realmente incrível! - Michael deu um sorriso esfuziante, que não combinava nada com ele, antes de ficar sério repentinamente - À menos que Valquíria finalmente faça o teste… - Prosseguiu em tom de conversa - Você sabe que ela é uma ótima ginasta, além de ser menor e bem mais magra…

   Brittany se voltou para o irmão com um olhar assassino que destoava totalmente de seu rosto delicado, a expressão mudando tão rápido que me assustou, mas ele se limitou a levar a taça aos lábios, mantendo o ar blasé desinteressado que eu já estava acostumado a ver sendo direcionado aos jogadores insubordinados do time - ou, mais frequentemente, aos que tentavam irritá-lo com piadinhas homofóbicas idiotas. Mike estava erguendo sua armadura de gelo - como Danny havia chamado - contra a própria irmã, o que era completamente diferente do clima leve e caloroso que eu o vira usar com ela no campo de futebol, ou mesmo por telefone.

   Joey se remexeu desconfortável entre os gêmeos que se encararam por um tempo aparentemente interminável; pude sentir o ar pensando na sala imediatamente, o desconforto se espalhando em ondas sobre nós. Tinha alguma coisa errada entre os dois, era visível, e acho que eu não fui o único a perceber já que foi Valquíria quem tratou de se pronunciar:

    - Você não vai comer, Steven? - Ela perguntou com as bochechas vermelhas e eu reparei que meu prato ainda estava limpo.

   Em meio à presença incômoda de Valquíria, a conversa estranha com Danny e o clima tenso entre os gêmeos, eu nem ao menos havia parado para pensar no banquete à minha frente…

    - Claro… - Tentei sorrir enquanto pegava uma tortinha de abóbora com recheio de frango para começar a comer finalmente.

    - Prova o suco de abacaxi com hortelã, Apolo - Brittany ordenou em tom de sugestão, com uma voz melosa capaz de me irritar rapidamente.

   Pude ver Michael revirando os olhos enquanto respirava fundo, visivelmente tentando se conter, e não tive opção senão provar o tal suco, já que a senhorita “capitã-no-topo-da-pirâmide” havia enchido minha taça sem realmente se importar com a minha opinião.

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Why do birds suddenly appear
Everytime you are near?
Just like me, they long to be
Close to you

   O sr. Pierce cantava enquanto tocava o violão entregue a ele por Mike. Joey o acompanhava nos acordes, assim como Danny que batucava seu cajón novamente, mas todos os olhares eram direcionados à bela mulher loira que recebia a “serenata” com um sorriso no rosto - ela própria só tendo olhos para o marido, não parecendo se importar com tanta atenção.

Why do stars fall down from the sky
Everytime you walk by?
Just like me, they long to be,
Close to you

On the day that you were born
The angels got together
And decided to create a dream come true
So they sprinkled moondust in your hair
And golden starlight in your eyes of green*

   Ele fez uma careta engraçada na última palavra, um franzido no nariz seguido de uma piscadela que arrancou de Agatha um enorme sorriso derretido e luminoso.

That is why all the boys** in town
Follow you, all around
Just like me, they long to be
Close to you

   Christopher não era um grande cantor… A bem da verdade, ele não era cantor e ponto final. Chegava a desafinar levemente em alguns pontos da canção, mas ninguém se importava realmente com isso.

   O verdadeiro show ali não era a música calma e romântica, e sim o romance propriamente dito - o sentimento que transbordava daquele casal, fazendo Jane suspirar, Valquíria sorrir com ar apaixonado e Michael encarar os pais com um lindo brilho nos olhos que eu nunca vira antes…

On the day that you were born
The angels got together
They decided to create a dream come true
So they sprinkled moondust in your hair
Of gold and starlight in your eyes of green*

   Fui atingido em cheio pela constatação de que Christopher e Agatha realmente se amavam. Estava mais do que nítido ali - no modo como ele cantava, parecendo expor a própria alma em cada palavra, cada acorde; no modo como ela sorria de volta, os olhos úmidos, as bochechas coradas como uma adolescente tímida…

That is why all the boys** in town
Follow you, all around
Just like me, they long to be
Close to you

   Mais uma vez a família Pierce me surpreendia e encantava com sua simplicidade e afeto e eu só podia olhá-los com uma pontada amarga de inveja no peito, me perguntando por que minha própria família era incapaz de ser assim também…

Just like me, they long to be
Close to you
Woo... close to you…

   As palmas irromperam na sala quando os últimos acordes se dissiparam no ar.

   Agatha se inclinou para frente, dando um selinho em Christopher, que a abraçou com força enquanto depositava um beijo casto em sua testa e esticava um dos braços para os lados, trocando high fives com Joey e Danny.

    - Meta de vida… - Danny comentou em tom de piada quando voltou para a mesa - “Ser a Agatha de algum Christopher”...

   Todos riram mas não deixaram de acenar em concordância enquanto a sra. Pierce se acomodava ao lado do marido, o braço dele envolvendo seus ombros magros e a mantendo mais perto, de um jeito quase protetor.

    - Um dia você vai encontrar a “sua pessoa”, querida - A mulher sorriu gentil para a garota negra, e então assumiu um ar divertido de mistério - Só precisa ficar atenta… Manter os olhos bem abertos!

    - Eu sempre mantenho os meus “beeem” abertos! - Brittany praticamente ronronou se inclinando para mais perto de mim. Me remexi desconfortável novamente, começando a perder a paciência com aquela invasão do meu espaço, mas não tive tempo de dizer qualquer coisa já que minha atenção foi capturada pelo som solitário de um violão.

   Era Michael… Dedilhando com precisão, espalhando as notas suaves no ar, abafando as conversas até que elas morressem de fato, restando apenas sua música delicada.

   Todos o olhavam atentamente, parecendo ávidos pelo que ele tinha à mostrar - exceto Brittany, que eu era capaz de sentir se retesando ao meu lado após uma sonora bufada. Mas o moreno se mantinha alheio à tudo e todos à volta; a cabeça inclinada para baixo, na direção do violão negro, a cortina de cabelos cobrindo parte do rosto pálido… A própria imagem da serenidade!

    - Yesterday…” - Sua voz preencheu o ambiente de forma pacífica, e era como se a própria sala segurasse o fôlego, todos absolutamente atentos ao moreno - All my troubles seemed so far away, now it looks as though they're here to stay… Oh, I believe in yesterday…” - Essa música também exalava tristeza, o que me fez lembrar instantaneamente de mais cedo; Mike ao piano se derramando em melancolia… Era tão bonito… - Suddenly, I'm not half the man I used to be…”

   Mas então, como uma pedra arremessada contra uma vidraça, a voz afetada de Brittany soou no cômodo, destruindo o momento:

    - Mickey, o que aconteceu com o seu braço? - Ela questionou, com uma preocupação extremamente forçada, enquanto arrancava o membro do irmão de perto do instrumento, puxando-o para si.

   Meu sangue ferveu.

   Eu não podia acreditar que Brittany havia interrompido a música apenas por ver toda aquela atenção destinada à ele mas, ao mesmo tempo, não era capaz de encontrar qualquer outro motivo que  suas ações…

   “A Rainha do Drama exige atenção 24h, 7 dias na semana e essa tendência narcisista pode torná-la um tanto quanto… egoísta”, as palavras de Danny voltaram à mim imediatamente.

   “Será possível…?”, eu me perguntava, meus olhos avaliando o rosto de Mike atentamente - suas sobrancelhas bem feitas franzidas na direção da irmã, o olhar duro de irritação.

    - Como se isso te importasse… - A voz dele saiu baixa, entre os dentes, enquanto tentava puxar o braço de volta, mas então meus olhos caíram sobre seu pulso e eu mesmo o segurei por sobre a mesa, em um movimento impensado.

   Quatro vergões arroxeados manchavam a parte interna de sua pele branca. Hematomas claros - mais para a vermelhidão que para o roxo, propriamente dito - mas que não deixavam brecha para contestação… Eram marcas de dedos, sem sombra de dúvidas, e eu me perguntei como diabos eu não as vira antes:

    - O que foi isso? - A pergunta pulou dos meus lábios, assim como dos de Agatha praticamente em uníssono.

   Mike apenas se remexeu no próprio lugar, visivelmente desconfortável, levando o braço para perto do peito enquanto descia a manga do pulôver cinzento; mas não tão rápido que Joey não pudesse puxá-lo de volta, observando as marcas atentamente antes de erguer os olhos para o rosto rígido à sua frente. Os dois se encarando com firmeza no que parecia uma intensa conversa silenciosa.

    - Não entendo tanto drama com essa bobagem… - Brittany comentou desinteressada, comprovando que suas motivações realmente não eram mais que puro egoísmo, mas a voz firme de Joey a interpelou.

    - Eu não acredito que aquele filho da puta fez isso!

   Senti meus olhos se arregalarem com seu linguajar à mesa - e pude ver Valquíria exibindo a mesma expressão surpresa - mas Christopher e Agatha, por outro lado, estavam interessados em coisa mais importante:

    - Quem fez isso no seu braço, Michael? - O sr. Pierce perguntou com uma voz extremamente séria, completamente diferente do tom brincalhão que havia usado até então.

   Mike o encarou por não mais que um segundo antes de se voltar para Joey novamente, suas íris âmbar parecendo implorar para que o garoto se mantivesse em silêncio:

    - Joseph, você sabe o que aconteceu? - A voz firme de Agatha exigia uma resposta imediata e o guitarrista bufou para Mike, negando minimamente com a cabeça antes de responder.

    - Bruce Simpson… - Joey ainda encarava o moreno profundamente - Foi ele, não foi?

    - Tinha que ser o troglodita! - Danny resmungou entre os dentes.

    - E quem é Bruce Simpson? - O sr. Pierce perguntou, empurrando os óculos sobre a ponte do nariz.

   “O imbecil que se acha superior à todo mundo!”, eu queria responder enquanto viajava de volta para minha própria discussão com aquela montanha de músculos estúpida, mas a voz entediada de Brittany se ergueu novamente - e eu me perguntei se era um poder especial esse dom que ela tinha de me irritar toda vez que abria a boca:

    - Ele é o DT do nosso time…

    - DT? - Jane questionou, confusa.

    - Defensive Tackle”… - Danny explicou em um sussurro apressado - É uma posição no centro da defesa…

    - Creio que as regras de futebol possam esperar - Christopher a cortou, ainda extremamente sério e a menina se encolheu ao meu lado - Michael, estamos esperando uma explicação…

    - Não foi nada, pai!

    - Eu pensei que você não mentia, filho… - Agatha rebateu, calando-o imediatamente; e foi com absoluta surpresa que observei os olhos de Mike baixando em sinal de vergonha, as bochechas ficando avermelhadas rapidamente.

   A ideia de um “Michael tímido” era surreal demais para minha concepção. Mesmo conhecendo-o a pouco tempo, “vergonha” era algo que não parecia parte de seu vocabulário - mas ali estava ela… Incontestável nos dedos que remexiam nos colares delicados sobre o peito, no lábio inferior que era mordido repetidas vezes ou nas faces levemente coradas que o tornavam mais humano - menos gelado que o habitual…

   “Simplesmente adorável!”

   Sacudi a cabeça para afastar esses pensamentos inconvenientes junto com o sorrisinho mínimo que havia curvado meus lábios; totalmente impróprio diante do clima na sala, que se tornava ainda mais pesado enquanto nós apenas observávamos aquela conversa tensa que não se desenrolava…

   Quando Mike respirou fundo, finalmente se preparando para responder, eu poderia jurar tê-lo visto direcionando suas íris quentes na minha direção por não mais que um segundo - tão rápido que só podia ser fruto da imaginação:

    - Simpson e eu temos… - Mike procurou a palavra ideal por um instante, bufando antes de prosseguir - divergências, por assim dizer… Nós acabamos nos desentendendo ontem, na festa, e quando eu tentei me afastar ele me segurou pelo pulso - Concluiu cansado, e a raiva que eu senti ao imaginar Bruce machucado-o aqueceu minhas veias - O Joey chegou logo depois… Realmente não aconteceu nada demais, e eu adoraria se pudéssemos ter essa conversa em outro momento…

    - É claro que o Príncipe Encantado chegou ao resgate… - Brittany debochou em um sussurro ao meu lado, criando em mim o desejo profundo de que eu pudesse estapeá-la.

    - Obrigado por confiar em nós, querido - Christopher agradeceu com um tom mais brando após uma troca de olhares bem significativa com a esposa - Nós conversaremos mais tarde.

   Mike respirou fundo novamente, visivelmente mais calmo:

    - Obrigado! - Seu agradecimento saiu carregada de alívio e eu me perguntei o que diabos acontecera entre ele e Bruce para deixá-lo tão abalado.

    - Ótimo, estamos acertados... - A voz de Agatha subiu uma oitava enquanto ela batia palminhas, quebrando a tensão quase imediatamente - Agora esqueçam os problemas e comam! - Ela praticamente ordenou à todos nós; sua expressão voltando à animação juvenil anterior, como se nada tivesse acontecido.

   E assim, com um sonoro suspiro coletivo, a sala inteira voltou a respirar normalmente e o jantar seguiu sem mais imprevistos - o clima pesado se dissipando de vez quando Danny e Joey decidiram compartilhar uma música conosco.

   É claro que eu ainda podia sentir a irritação mal disfarçada de Brittany, pairando como uma nuvem negra sobre a garota que insistia em me tocar e puxar assunto a todo tempo - mas meu foco se concentrava inteiramente em Michael, que estava realmente mais relaxado comendo suas panquecas em silêncio, apesar de se remexer desconfortável à cada vez que Joey lançava olhares para seu braço, já coberto novamente.

    - Apolo… Você está me escutando? - Brittany ronronou próximo ao meu ouvido, me obrigando a encará-la quando senti seu corpo muito perto de mim.

   Ela me olhava de baixo, com ar provocante. Seus grandes olhos castanhos eram bonitos, eu não podia negar, mas o modo como ela passava as pontas dos dedos na borda do decote profundo, ou como mordia o lábio inferior lentamente, se insinuando…

   “Vulgar!!”

   Essa era a única palavra que brilhava dentro das paredes do meu cérebro, acionando um alerta.

    - Sou todo ouvidos… - Foi o que respondi finalmente, lutando para esconder meu desconforto.

--------

   Mais tarde naquela mesma noite, quando finalmente estacionei meu carro na garagem e entrei naquele maldito museu que meus pais chamavam de casa, toda a felicidade e animação remanescentes da noite incrível na companhia dos Pierce murcharam no meu peito como um balão de gás furado.

   Atravessar aqueles cômodos cinzentos, frios e completamente vazios pareceu ainda mais difícil após conhecer um lar de verdade. Não uma casa, ou uma residência; definitivamente, não uma casca oca… Mas um lar!

   Um lugar caloroso onde músicas e gargalhadas se erguem a todo momento… Onde irmãos se desentendem à mesa… Onde mães são divertidamente peculiares e pais gastam seu “tempo precioso” cozinhando com os filhos…

   Subi as escadas bufando, com meus passos ecoando de forma quase ensurdecedora nos ouvidos, amargando minha própria solidão que parecia se condensar ao meu redor, me sufocando enquanto seguia na direção do meu quarto - onde não pensei duas vezes antes de me abaixar ao lado da cama e puxar, de debaixo dela, a pequena mala antiga que me acompanhava onde quer que eu fosse à quase dez anos.

   Me sentei sobre o colchão com as pernas cruzadas, depositando o objeto diante de mim - acariciando a madeira azul clara, estampada com dezenas de nuvens fofinhas já amareladas pelo tempo…

   Meus dedos tocando delicadamente as iniciais douradas bordadas em uma das nuvens próxima ao canto da base.

   A.S.E.

   A pontada no peito me fez suspirar, sentido meus olhos arderem enquanto abria a mala com o cuidado de sempre, que quase beirava a adoração, para encontrar os objetos dela que eu já conhecia de cór; fotos, pôsters, um diário, um globo de neve e algumas poucas jóias, todos misturados aos meus materiais de desenho, repousados sobre minha pasta de arquivos…

   Precisei respirar fundo ao erguer uma das polaróides de nós dois abraçados; minha franja caindo sobre os olhos, meu sorriso banguela extremamente feliz, simplesmente por estar ao lado de Arianna, que dava língua para a câmera com um dos olhos fechados, os dedos fazendo o “chifrinho” do Rock, a camiseta preta do AC/DC praticamente engolindo seu corpo magro e a pulseira prateada, repleta de pingentes, brilhando no pulso.

   “Será que você teria mesmo me quelevado para Nova Iorque com você, como sempre prometeu que faria?”, essa pergunta me ocorrera frequentemente no último ano e meio e agora, após dividir a mesa com Valquíria, os questionamentos sobre como seria a vida se Arianna ainda estivesse por perto eram ainda mais frequentes - e dolorosos.

   Mas não havia como saber a resposta, então apenas me remexi desconfortável até finalmente conseguir pescar meu celular no bolso da calça justa - e confesso que não pensei de verdade no que estava fazendo antes de discar aquele número e pôr para chamar.

   Ele atendeu no oitavo toque, quando eu já estava quase desistindo:

    - Steven? - A voz grossa questionou do outro lado.

    - O-oi, pai… - Cumprimentei incerto.

   “Eu não deveria ter ligado…”

    - Oi, Steven… - Burk praticamente bufou - Precisa de alguma coisa?

    - Não, pai… E-eu… eu só estava… - Travei com um nó crescendo na garganta.

    - “Estava…”?? - Ele pressionou, completamente impaciente - Vamos logo com isso! Você sabe que eu não posso desperdiçar meu tempo com bobagens…

   Engoli com extrema dificuldade, meu queixo tremendo, meus olhos queimado…

    - Você… - Minha voz arranhava e eu percebi que não sabia o que dizer - Você volta hoje?

    - Não, Steven - Burk resmungou, irritado - O que aconteceu? Você precisa de alguma coisa? Precisa de dinheiro?

   “Dinheiro… Sempre a merda do dinheiro!!”

   Ele realmente não conseguia ouvir? Não era capaz de perceber que eu estava à beira das lágrimas? Será que que ele havia se irritado com minha fraqueza…? Ou simplesmente não se importava mais?

   “Como idolatrei esse homem por tantos anos?”, eu me questionava, pensando em Christopher imediatamente, em toda a sua preocupação com os hematomas no pulso de Michael… O que ele faria se o visse chorando?

   “Será que Michael tem permissão para chorar em paz?”

    - Olha… Se o problema é dinheiro, você pode pegar no escritório, tem mais do que o suficiente na gaveta da minha mesa… - A voz de Burkhard me trouxe de volta, sua indiferença transformando a tristeza que eu sentia em mágoa mais uma vez - Agora me deixe trabalhar, por favor. Boa noite!

   E o som da ligação encerrada foi o golpe final para que uma lágrima escorresse sobre a minha bochecha.

   “Homens não choram!”, o alarme soou na minha cabeça pela milésima vez.

   Sequei meu rosto e meus olhos imediatamente, engolindo a pedra que atrapalhava minha respiração - minha cabeça parecia à ponto de explodir com a pressão que isso causou, mas me mantive em um silêncio designado, encarando o nada por tanto tempo que quando meu celular vibrou entre meus dedos eu quase o deixei cair, sobressaltado, antes de conseguir verificar a mensagem:

Almoçamos juntos amanhã?
Prometo que vai ser divertido… 😉😉
Ps: não aceito “não” como resposta!!

   Revirei​ os olhos para a prepotência de Brittany.

   “Maldita hora em que me permiti passar meu número à ela!", praguejei em silêncio. “Mas, afinal...”, me consolei tristemente, “Como eu poderia negar quando ela havia me pedido isso em alto e bom som, diante de todos?”

    - Garota irritante! - Rangi os dentes, não me dando ao trabalho de responder já que muito provavelmente não faria diferença alguma para ela.

   Me joguei para trás sobre os travesseiros com um baque fofo.

   Honestamente, era difícil acreditar que aquela garota excessivamente tagarela e esfuziante fosse irmã gêmea de Michael, ou até que tivesse um parentesco tão próximo com a delicada e silenciosa Valquíria…

   No fim das contas, se em todo o resto ela estivesse errada - o que eu duvidava seriamente após conhecer um pouco mais de Brittany - pelo menos​ em uma coisa Danny tinha absoluta razão… Os Pierce, não só os três irmãos, eram criaturas realmente interessantes de se observar com todas as suas peculiaridades.

   “Se você conquistar a chance, ele passará na sua vida como um furacão…”, pensar na garota negra trouxe seu sussurro de volta ao meu ouvido novamente, como uma mosca intrometida. “Mas a destruição vai ser a coisa mais linda que você um dia verá”

   Inspirei profundamente, fechando os olhos, completamente esgotado, na tentativa de afastar todos esses pensamentos estranhos para bem longe de mim - mas só o que consegui foi fixar a imagem calma de Mike tocando violão na parede interna dos meus olhos.

    - Mas que merda…? - Eu queria gritar de frustração, entretanto, o que fiz de fato foi chutar meus tênis para o outro lado do quarto ainda mais irritado, arrancando​ a jaqueta de Michael, que também voou dentro do cômodo, antes de tentar me aconchegar melhor na cama com um resmungo contrariado.

   Meus dedos buscaram a Polaroid entre as cobertas novamente, o lindo sorriso de Arianna acalentando uma ínfima porcentagem da solidão no meu peito:

    - Tenho certeza de que as coisas seriam mais fáceis se você ainda estivesse por aqui… - Suspirei para a foto - Eu ainda sinto a sua falta, Boo!!


Notas Finais


Hello, my little monkeys...

* Me protegendo das pedras * (HSUDHSUD
Ainda tem alguém aí?? 
Demorou - quase o tempo de uma gestação - mas chegou.. 
¡¡E com mais de 10k palavras que é para recompensar!!

Ps: espero que tenha valido à espera...  :)


XOXO, Nathy

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Mudanças feitas pelo​ Christopher para que a música se “encaixe” melhor:
*   = no original, “blue”
** = no original, “girls”

MÚSICAS DO CAPÍTULO:
Michael cantarolando na cozinha:
We Are Young - Fun (feat. Janelle Monáe)
Christopher cantando para Agatha:
(They Long To Be) Close To You - The Carpenters
Mike sozinho com o violão: 
Yesterday - Beatles


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