História Sinônimos perfeitos - Capítulo 10


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Terminada Não
NÃO RECOMENDADO PARA MENORES DE 18 ANOS
Gêneros: Ação, Comédia, Drama (Tragédia), Ecchi, Hentai, Lemon, LGBT, Orange, Romance e Novela, Shonen-Ai, Universo Alternativo, Violência, Yaoi (Gay), Yuri (Lésbica)
Avisos: Adultério, Álcool, Bissexualidade, Cross-dresser, Drogas, Estupro, Heterossexualidade, Homossexualidade, Incesto, Insinuação de sexo, Linguagem Imprópria, Nudez, Pansexualidade, Sadomasoquismo, Sexo, Spoilers, Suicídio, Tortura, Violência
Aviso legal
Alguns dos personagens encontrados nesta história e/ou universo não me pertencem, mas são de propriedade intelectual de seus respectivos autores. Os eventuais personagens originais desta história são de minha propriedade intelectual. História sem fins lucrativos criada de fã e para fã sem comprometer a obra original.

Notas do Autor


Opaaaaa!!!!
Só duas semanas dessa vez!!!! Tô melhorando *-*
hasuahushaushaus

Não tenho muito pra falar além de: pqp de título -.-'
Enfim, eis o capítulo e espero que gostem

Capítulo 10 - O dia em que nos beijamos


Emma e Gillian encontravam-se logo na entrada do refeitório, analisando o jornal da escola. A ruiva até tentou se distrair com as notícias, mas não podia evitar de ficar olhando para o corredor, na esperança de que Norman e Ray aparecessem logo. Era uma garota bastante paciente, mas ver a fila do almoço crescer mais a cada segundo a deixava inquieta

Em uma das suas conferidas, avistou Nat e Anna indo em direção ao refeitório. Na mesma hora percebeu que havia algo muito errado com o ruivo. Porém, foi somente quando os mais novos perceberam a sua presença e tentaram disfarçar que a ruiva percebeu que havia acontecido algo muito errado. Como ela não podia simplesmente ir até eles e abordá-los, limitou-se à encará-los com um olhar de "Eu quero explicações depois" enquanto passavam. Após isso, foi uma questão de minutos até que Ray e Norman chegassem.

– Ah, chegaram finalmente! Por que demoraram tanto?

Os dois garotos ficaram em silêncio por alguns instantes.

– O horário do almoço acabou de começar. – Disse o albino.

– E você já foi mais pontual do que isso, Norman.

– Não posso discordar... – Pontualidade era uma das únicas características da qual sentia falta do Norman de dez anos.

– Está mesmo reclamando de atraso depois do que fez comigo ontem? – Ray se pronunciou, fazendo a garota adquirir um semblante pensativo.

– Bom, podemos dizer que estamos quites agora. – Ela sorriu sem jeito e o moreno fechou a cara. – Bem, a fila está crescendo e eu já esperei demais, então é melhor irmos logo.

Emma empurrou os garotos para dentro do refeitório antes que Ray começasse uma lista sobre todos os vacilos que ela já deu e depois pôs todos em seus devidos lugares no final da fila.

– Ei, Norman, lembra da Gillian? – Perguntou passando o braço pelo pescoço da amiga, que estava estranhamente quieta desde que os garotos chegaram.

– Claro. É a… Goleira do time.

– É, isso… Caramba, você lembrou mesmo de mim… – Comentou a loira.

– Tenho uma boa memória. E também não esqueceria de uma pessoa que a Emma me apresentou… Apesar de ter sido uma apresentação relâmpago.

– Não é culpa minha se a treinadora apareceu. – A ruiva se defendeu. – Mas não tem problema, eu tenho treino hoje, então pode conhecê-las melhor se quiser.

– Vocês têm treino todo dia? – Perguntou da maneira mais normal e espontânea possível. Não lhe agradava nem um pouco a ideia de ficar mais de uma hora vendo a ruiva correr atrás de uma bola de novo. Esportes não eram exatamente o seu passatempo favorito.

– Só nas terças, quartas e quintas.

– Ah, então amanhã tem a tarde livre.

– É… Mais ou menos. Gosto de ficar aqui nas tardes livres pra fazer tarefas e estudar. – Ray soltou uma pequena risada de deboche ao ouvir aquilo (o que não passou despercebido pela garota). – Enfim, vamos deixar isso pra lá e nos concentrar em algo melhor. Se liga no que a Gillian trouxe… – Mostrou o jornal para o albino. – “Norman Ratri faz crítica à sistema de Educação”. Título bem direto, né?

O garoto encarou o papel sem esboçar qualquer tipo de reação. Emma aguardou alguns instantes, esperando que ele falasse algo à respeito ou, no mínimo, demonstrasse interesse, mas nada disso aconteceu.

– E então? O que tem a dizer sobre isso, Norman?

– Eu estou na primeira página. – Sorriu.

– ...Alguma coisa além disso?

– Hm… Eu estou muito lindo nessa foto. Quando foi que tiraram?

– Qual é? Diz alguma coisa à respeito do assunto! Tem uma textão aí falando sobre o que você “disse” ontem.

– Hm… É fofo.

– ...Fofo?!

– O que mais espera que eu diga de um jornal de escola?

– E o que é que você tem contra jornais de escola? – Cruzou os braços.

– Não é exatamente o tipo de mídia que importe muito pra mim...

– Ei, não desmerece o jornal da escola! – Disse pegando a folha da mão do albino. – Até que é legal. Eu gosto de ler de vez em quando...

– Tudo bem. Eu te respeito mesmo assim.

Logo chegou a vez dos quatro se servirem. Assim que terminaram, foram todos se sentar em uma mesa qualquer pelo centro do refeitório. Emma de frente para Gillian e Norman de frente para Ray.

A ruiva estava prestes a começar a comer quando percebeu o albino encarar a comida com um olhar vago. A princípio pensou que ele só estivesse pensando em algo, mas quando percebeu que tratava-se da típica frescura com comida de Norman, a risadinha foi inevitável.

– Parece que hoje vai ter que almoçar aqui, Norman. – A garota comentou em um tom estranhamente divertido.

– É...

– Eu sei que a comida não parece tão ruim, mas não se engane. Tem muito mais aí do que você imagina.

– Eu já vou comer de graça e nem estudo aqui. Acho melhor eu não reclamar…

– Concordo plenamente… Mas sabe, não tem problema fazer só algumas críticas. Até porque a cozinha daqui não é lá essas coisas… – Comentou como quem não queria nada. – Sabia que uma vez encontraram um rato morto na caixa de verduras? O lado bom é que no dia não teve nenhuma cenoura pra estragar a o almoço. De vez em quando você pode achar alguma coisa estranha na sua salada de frutas, tipo um besouro ou um fio de cabelo gigante (experiência própria). Tem gente que nunca pega gelatina porque acredita que eles guardam as sobras e fazem durar o ano inteiro. Ah! E não podemos nos esquecer dos sucos. Sempre ruins, sempre suspeitos…

– Eu sei o que está fazendo. Não vai me assustar com isso. – Disse com um de seus sorrisos contidos e a garota riu.

– Será?

– Ela não estava brincando sobre o rato. – Confirmou Gillian e o albino encarou a comida com desconfiança.

Norman cutucou uma almôndega com seu garfo, pensativo. Por algum motivo, só conseguia associar comida de escola com comida de cadeia. Não sabia de onde vinha, por onde passou, quem preparou… Ou se tinha vestígios de ratos…

Por que estava tendo essas paranoias de higiene? Era um problema que já devia ter superado. Não podia se deixar levar tão facilmente pelas historinhas de Emma, era óbvio que a garota só estava brincando.

– Ray, posso ficar com suas almôndegas? – A ruiva perguntou.

– Pega...

– Uh! Obrigada!

– Fica com as minhas também… – Falou Norman, empurrando a bandeja em direção à garota. – Na verdade, pode ficar com tudo…

– Caramba, eu te assustei mesmo.

– Não, só estou com fome…

– Ah, não! Nem pense nisso, Norman! Deixa de frescura, eu só estava brincando! – Empurrou a bandeja de volta. – É pra comer tudo!

– ...Tudo bem. – Falou depois de algum tempo pensando. – Eu corro o risco. Mas se eu pegar uma salmonelose ou alguma outra coisa, você será a responsável por causa disso.

– Tá, eu me responsabilizo… E aceito uma almôndega.

 

Não importava o quanto Norman tentasse, simplesmente não conseguia pôr o garfo na boca sem sentir dor. Nem prestou atenção no sabor, pois estava ocupado demais pensando em ratos. Ratos, ratos, ratos, leptospirose, febre, desidratação, vômitos…

Por que tinha que ser tão ridículo à esse ponto?

Para a sua sorte (ou azar), Gillian era uma garota curiosa e cheia de dúvidas. Ela perguntava sobre gravações, detalhes técnicos, viagens, a sua relação com outros atores e milhares de outras coisas que lhe vinham à cabeça. Os questionamentos mantiveram o albino distraído, não porque queria conversar, mas porque precisava escolher bem cada palavra para cada resposta.

Uma hora, Emma resolveu acabar com aquele interrogatório. Havia se lembrado do amigo ter dito que não podia "responder qualquer pergunta”, então resolveu mudar de assunto da maneira mais discreta e planejada possível.

– Entããããooo, Gillian. – Disse a ruiva. – Falando de efeitos visuais… Como foi o seu dia?

– Ahn, bem… Eu levei um esporro do meu professor de História porque eu perdi meu livro. E eu acho que, só de sacanagem, ele passou um resumo dos capítulos pra entregar semana que vem. Em poucas palavras: estou ferrada.

– Que horrível.

– Eu já tinha até me esquecido disso… Algum de vocês está com o livro de História aí pra me emprestar?

– O meu está no armário. Depois do almoço nós vamos lá buscar.

– Muito obrigada. Você é uma salva-vidas… Está com aquelas folhas com pauta, Ray? Pode me dar algumas?

– ...O quê? – O moreno só voltou a prestar atenção na conversa quando ouviu seu nome.

– Folhas com pauta, por favor. É pro meu trabalho.

– Acho que eu tenho na mochila...

– Posso pegar?

– Uhum.

– Obrigada. – A garota abriu o bolso da mochila e, na mesma hora, viu a pasta onde provavelmente estariam as folhas. Estava quase pegando ela quando também viu a máquina fotográfica do moreno. – Ah, essa câmera… Já testou ela?

– Não.

– Posso testar?

– ...Faz o que quiser.

– Valeu! – Ligou o aparelho, animada, e apontou a lente da câmera para a amiga. – Emma, sorria e diga: "Eu vou me casar com um velho rico e machista!".

A ruiva soltou o garfo na mesma hora e fez uma sinal de paz com a mão.

– Eu vou me casar com um velho rico e machista! – Sorriu e Gillian tirou a foto.

– Muita linda, amiga… Sua vez, Norman.

– ...Posso só dizer "X"? – Questionou em um tom divertido.

– Pode. – Riu.

– Tudo bem. Sem flash, por favor.

– Como quiser… – Apontou o aparelho para o garoto de olhos azuis. – Diga X!

– Y!

– ...Y?!

– Foi mal, eu me empolguei. – A garota riu e tirou a foto.

– Se importa se eu encher a memória, Ray?

– Já está fazendo isso. – Comentou com desinteresse.

Gillian ficou entretida com a máquina fotográfica e começou a tirar fotos de tudo, enquanto isso Emma continuou a puxar conversa.

– Mas e então, Norman? O que você e o Ray fizeram essa manhã? – Questionou curiosa.

Os dois garotos se encararam por alguns segundos. O moreno não pareceu transmitir nada em especial, então o albino entendeu aquilo como um “Diz o que você quiser, eu não me importo”.

– Resolvemos um problema de moda.

– ...Problema de moda?

– Uma pessoa precisava de ajuda, então o Ray foi lá e salvou a vida dela com uma bolsa de maquiagem.

O moreno revirou os olhos e a ruiva fez uma cara confusa 

– Essa história está estranha...

– Isso me faz lembrar que eu ainda quero te maquiar, Ray. – Gillian comentou.

– Você também?! – Disse Norman.

– Sim! Faz um tempão que eu e as meninas estamos tentando convencê-lo a passar uma sombra nos olhos ou algo do tipo.

– Ia combinar tanto, não é?

– Exatamente!

– Eu tentei suborná-lo, mas ele não quis.

– A gente tentou ameaçar… Também não deu muito certo.

– Eu proponho uma aliança.

– Ajuda é sempre bem-vinda. – Os dois apertaram as mãos.

– Vocês são ridículos… – Falou Ray.

– Por que não me disse que eu não era o único com essa missão, Ray? – Questionou Norman.

– Ah, foi mal. Eu não sabia que você queria montar um grupinho. – Respondeu sarcástico.

– A minha proposta ainda está de pé. Subo pra dez dólares.

– Vai se foder.

– Oowwwwn, o Ray já está te insultando, Norman. – Disse Emma estranhamente feliz. – Daqui a pouco ele já vai começar a te chamar de inútil e talvez até te bata!

– Nossa, que grande avanço. – Falou o albino, direcionando um sorriso contido para Ray. O moreno, por sua vez, respondeu com um olhar de "Eu ainda não vou com a sua cara".

– Não, não. Avanço mesmo é quando ele começar a partir pra cima, que nem aconteceu com a Violet. Esse sim foi um dia memorável… – Emma começou a falar sobre como Ray era um anjo de pessoa e antes que o garoto se desse conta, mais um complô contra ele havia começado.

Aquilo o irritava tanto...

A cisma das jogadoras com a sua aparência, as piadinhas maliciosas de Violet, as histórias super exageradas de Zack e os comentários "inocentes" de Emma já eram coisas habituais. Mas tudo isso não era mais o suficiente para desgraçar as suas refeições, foi necessário adicionar um novo elemento: Norman, com seus sorrisinhos estúpidos e olhares de julgamento. O que viria depois? Um promotor de justiça para analisar a sua vida? Um apresentador de circo? Ou, quem sabe, um âncora de jornal?

Emma estava dando ainda mais motivos para que Norman o visse da forma errada. Não que se importasse com o que o albino achava de verdade, mas podia sentir que ele estava gostando de ouvir suas desgraças.

Queria sair dali… Olhou de relance para trás, apenas para admirar a bela vista da saída, e percebeu que uma garota se aproximava com uma bandeja… Por algum motivo desconhecido, achou aquilo bem conveniente.

E se, hipoteticamente, ela tropeçasse e derrubasse tudo em cima do albino? Seria uma grande pena, não é?

Ray cogitou a ideia em sua cabeça, mas logo a descartou. Até parece que desceria à esse nível. Não tinha que fazer nada contra Norman. Ele não valia seu tempo, muito menos a sua atenção…

Infelizmente, o seu corpo não obedeceu a sua consciência daquela vez. Seu pé, involuntariamente, se colocou no caminho da garota, fazendo-a tropeçar “do nada” e derrubar tudo em cima de Norman. Emma não corria muito perigo de ser atingida, mas por causa dos seus reflexos, acabou se afastando para o lado bem à tempo de se salvar de alguns respingos.

Todos do refeitório ficaram estáticos, principalmente a estranha, que parecia ter entrado em um estado vegetativo por alguns segundos. Era uma situação ruim, num lugar ruim e com espectadores piores ainda. Ela com certeza se lembraria daquele dia como um dos mais doidos da sua vida.

– M-M-Minha nossa, eu… Eu sinto muito… – Disse a estranha.

– Está tudo bem... – Norman falou com a maior gentileza que conseguiu forçar naquele momento.

– Desculpa mesmo, eu… Não sei o que aconteceu… Eu só...

– Essas coisas acontecem. Não tem problema.

– E-Eu juro, foi sem querer…

Norman passou um bom tempo ouvindo "Desculpa" sem parar e tentando convencer a estranha de que estava tudo bem. Demorou um pouco, mas, por sorte, conseguiu se livrar da garota antes que perdesse ainda mais a sua paciência com ela.

– Vem, Norman. Vamos dar um jeito nisso. – Disse Emma se levantando e o obrigando a fazer a mesma coisa.

Ray observou os dois saírem do refeitório, ainda sem acreditar no que tinha acontecido. Não era do seu feitio fazer aquele tipo de coisa. Não lidava com incógnitas jogando comida nelas...

– Uau! Isso foi… Trágico. – Gillian quebrou o silêncio, fazendo-o voltar à realidade.

Trágico… – Repetiu em sua mente e depois começou a rir.

– ...O que foi?

– Na verdade, foi um ótimo showzinho

– Ray! – Cruzou os braços, sorrindo e adotando uma postura de "repreensão". – Está dizendo que gostou de ver aquilo?

– Ah, e como! Eu adoraria ver aquilo de novo. 

– Hm… Não sei se é exatamente o que você quer, mas eu tirei algumas fotos do Norman falando com a garota. Olha. – Entregou a câmera para Ray.

– Tá brincando… Eu nem vi você fazendo isso.

– Ninguém viu. Eu sou discreta, tipo um espião colhendo informações… – Disse fazendo uma ceninha com as mãos. – E aí, ficaram boas?

– Ficaram ótimas...

Enquanto isso...

Norman encontrava-se no banheiro, tentando inutilmente limpar a sujeira de sua camisa, mas não importava o quanto esfregasse ou passasse água, a enorme mancha de molho de tomate se recusava a sair.

Isso nunca vai dar certo. – Desligou a torneira e encarou seu reflexo pelo espelho... Como podia continuar tão lindo mesmo estando tão ferrado? – Para com isso, não é hora de pensar nessas coisas!

Não se permitiria sentir raiva naquele momento, então respirou fundo. Precisava se convencer de que era só molho, não o fim do mundo. Não podia simplesmente desejar a morte de uma estranha por derrubar o almoço… Ela não teve culpa de nada.

Repassou o acidente em sua cabeça algumas vezes, associando-o, de alguma forma, ao universo cinematográfico que era a sua vida. Acabara de sofrer as consequências de um clássico tropeço repentino, e esse tipo de acontecimento rendia tantas cenas clichês e convenientes! Como quando a mocinha tropeça e acidentalmente conhece o galã ou quando uma pessoa está correndo na floresta, tropeça em alguma pedra, cai e é assassinada ou quando valentões colocam um pé onde não deveriam e fazem os outros estudantes caírem, só para atormentá-los…

Não havia nenhum valentão para atormentá-lo, mas havia um certo moreno com uma posição favorável para fazer tudo acontecer na hora H.

Até aquele momento Ray havia ficado na dele e tentado ignorar o albino a todo custo. Será que finalmente havia decidido reagir? Seria um ato de guerra? Uma vingança? Uma reação ruim? Ou apenas mais uma paranóia de Norman?

Não… O "acidente" foi proposital e Ray havia sido o responsável, podia sentir!

– Não se preocupe, Norman, a ajuda chegou! – Emma disse em um tom divertido e entrando no banheiro junto com Zack.

– Minha nossa, quando ela disse que a coisa estava feia, eu não pensei que fosse tanto. – Disse o moreno. – Ah, e também é muito bom te ver de novo, cara. Você é tipo um colírio pros olhos...

– Obrigado. – O albino disse gentilmente.

– Zack, o que eu falei sobre não bajular o Norman, hein? Vai deixá-lo ainda mais convencido!

– Desculpa. É que ele é lindo demais, eu me distraio. – Brincou.

– Então se controle, porque quem sofre depois sou eu.

– Emma, não tem problema você entrar aqui? É o banheiro masculino… – Falou Norman.

– Relaxa, qualquer um que for mais homem do que eu tem o direito de entrar aqui. – Explicou Zack.

– Oh, sendo assim, então tudo bem. – Sorriu.

– Certo, eu vou ver o que é que eu tenho aqui… – Pôs a mochila no chão e começou a vasculhar suas coisas. – Ahn… Eu tenho essa camisa azul, essa aqui escrito “oppai” e… Essa verde… Qual prefere?

– Qualquer uma, eu não me importo.

– Certo… Eu não vejo essa camisa verde faz alguns… Meses, então ela é meio suspeita… – Falou colocando a camisa de volta na mochila. – Sabe o que significa “oppai”?

– Não.

– Eu até poderia te emprestar essa, só de sacanagem, mas como eu sou uma boa pessoa não vou fazer isso com você… – Guardou a outra camisa. – Sobrou a azul.

– Obrigado. – Sorriu.

Assim que Norman terminou de se trocar Emma e Zack começaram a encará-lo, pensativos. O moreno era um pouco maior que o albino, então a camisa havia ficado um tanto folgada. Não era algo muito alarmante, mas deixava o garoto com uma aparência um pouco desleixada.

– Hm… Dá uma voltinha. – Pediu Emma e Norman o fez. – Está meio… Diferente.

– Não gostou? – Pôs a mão no peito, fingindo estar magoado.

– Não, não é isso… E aí? O que você acha? – Perguntou para Zack.

– Coisa linda! Coisa bem feita! – Ele respondeu.

– Está falando de mim ou da camisa? – Norman questionou divertido e o moreno riu.

– O conjunto em geral. Enfim, eu também tenho perfume, desodorante, pente, gel, pasta de dente, sabonete líquido, fio dental, soro, esmalte… E um monte de outras coisas. O que precisar eu tenho aqui.

– Esmalte?! Você não pinta as unhas. – Disse Emma.

– Às vezes eu passo um nudezinho.

– ...Está brincando, não é?

– Minhas unhas são frágeis, tá querida? – Pôs a mão na cintura, fazendo Emma gargalhar e Norman rir um pouco. – Tá bom. Riam de mim. Mas depois vocês estão aí com unhas quebradas e horrorosas, enquanto eu estarei pleníssimo com as minhas unhas muito bem cuidadas.

As risadas continuaram até o momento em que um garoto qualquer entrou no banheiro. Os três encararam o estranho na mesma hora, deixando-o confuso. Ele não sabia o porquê de haver tantos olhares sobre ele… Mas logo esse questionamento sumiu, pois sua atenção focou-se em Emma e no fato de haver uma garota ali.

– O que é que ela está fazendo aqui? – Perguntou.

Norman e Zack encararam Emma e ela apenas ficou parada, pedindo socorro silenciosamente.

– ...Meu vô morreu. – Disse Zack em um tom choroso e abraçando Emma. – Ele disse que ia me levar pra pescar esse final de semana. Agora eu nunca vou pegar aquela porcaria de enguia! Era o nosso sonho e agora acabou! Nunca vou ser um homem de verdade!

– Ah, não fica assim não. Vai dar tudo certo... – A garota retribuiu o abraço, fingindo estar consolando o amigo.

– Minha avó tá depressiva, não come nada desde terça. E minha tia nem vai poder ir no enterro porque pegaram ela cheirando uma e agora vai ser deportada! A família já era!

– Eu sinto muito...

– Não está sendo um dia muito fácil pra ele. – Disse Norman ao estranho, que resolveu sair dali o mais rápido possível e sem questionar.

Alguns segundos depois os três começaram a rir novamente.

– Ai, caramba. Eu levei um susto tão grande quando ele entrou. – Falou a ruiva.

– Acho que ele não notou toda a sua masculinidade. – Disse Norman.

– Até parece! – Cruzou os braços. – Ainda bem que o Zack é um bom mentiroso e pensou em algo rápido.

– Ah, para. Assim me deixa com vergonha… – Falou o moreno.

– Ela tem razão, você é um ótimo mentiroso. Estou impressionado. – Comentou o albino.

– Muito obrigado. É uma honra ouvir isso de você… Mas acho melhor terminarmos essa conversa lá fora. Não sei se estou preparado psicologicamente pra matar o meu avô de novo.

*****

Após o momento muito agradável no banheiro masculino, Emma voltou ao refeitório para procurar por Gillian e Ray. A ruiva até insistiu para que Zack e Norman fossem com ela, mas os dois sabiam que depois do almoço viria o treino, então resolveram unir forças e escapar dessa furada juntos. Bastou que o moreno dissesse que estava ocupado e que queria companhia e que o albino concordasse em se encontrar com a garota após o treino. Bum! Estavam livres!

Só teve uma coisa da qual o albino não pôde se livrar ao se separar de Emma e que estragou parcialmente a sua alegria: o maldito guarda-chuva. Como odiava ter que carregar aquela porcaria pra todo lugar! Tirando isso, foi uma grande vitória!

Zack foi o melhor guia que Norman teve até aquele momento. O moreno não se preocupava muito em mostrar os lugares e comentar sobre eles, se preocupava em falar sobre as pessoas e fofocar. Graças à ele, o albino ficou sabendo de festas e confusões que aconteceram nos últimos três anos! Era como ter um diário falado de Goldy Pond e Norman não poderia pedir por um material de informação melhor para alimentar a sua fantasia sobre o ensino médio.

O tempo passou muito rápido e, quando se deram conta, o treino de Emma estava quase chegando ao fim. Norman não estava a fim de se "atrasar" novamente, então resolveu ir para o campo assim que possível.

– Então, depois daqui vocês… Vão voltar juntos? – Zack questionou.

– Sim.

– Certo, não vou mentir... Isso é meio bizarro. Às vezes não acredito que o Ray e a Emma moram num orfanato. Agora, você tá aqui e… Acredito menos ainda. Caramba, é tão estranho… – Norman não disse nada, apenas observou o moreno, esperando que ele dissesse mais alguma coisa. – Ah, foi mal. Eu não deveria tocar no assunto...

Zack era legal e também já sabia sobre o seu passado em Grace Field. Talvez não houvesse problema em conversar um pouco mais abertamente com ele...

– Não tem problema.

– É que a Emma e o Ray não parecem gostar muito de falar sobre isso, então pensei que você também não e tals...

– Não me importo em falar sobre o orfanato.

– Ufa! Ainda bem! Por um momento pensei que tinha vacilado! – Suspirou. – Sabe, eu tenho que dizer isso: você tem oportunidades de ouro nas mãos.

– Tenho?

– Sim! Já que vocês moram na mesma casa, fica mais fácil pra você se vingar…

– ...Me vingar de quem? – Perguntou interessado.

– Da Emma! – Aquilo foi um tanto chocante para o albino.

– …Da Emma?! Por quê?

– Ó, a parada é secreta, hein? Não vai sair espalhando porque demorou muito pra galera esquecer.

– Ok...

– No ano passado, a Emma e a tropa de elite me jogaram na piscina e depois tacaram um galão de suco em mim. Eu ainda hoje penso em me vingar, mas nada legal me vem à cabeça e também falta oportunidades...

– Tropa de elite?

– O time dela. Todas aquelas garotas são loucas! Não pode confiar nelas, porque senão você acaba molhado no dia da festa de final de ano. E eu tava lindo, cara. Tinha passado até um gel. – Norman começou a rir. – Tem gente do quarto ano que ainda hoje me chama de Meladão por causa disso. Mal posso esperar pra esses desgraçados se formarem e saírem da minha vida. – Norman riu ainda mais. – Ei, aquilo me traumatizou, tá?

– Desculpa, desculpa… Não esperava que a Emma fosse tão… Maléfica à esse ponto.

– Ah, pode apostar que ela é...

Os dois chegaram ao final do corredor e pararam na porta de saída. De lá, puderam ver as garotas jogando uma partida e, um pouco mais longe, Ray lendo embaixo de uma árvore. Norman se sentiu tentado a ir até o moreno, mas estava um pouco sem ideias. Era difícil lidar com alguém tão desafiador...

– Você e o Ray são bem próximos, não é?

– Eu e o my best? Claro.

– Só por curiosidade… Como se tornaram amigos?

– Ah, é uma história muito romântica. Vou guardar ela pro casamento. – Brincou e Norman apenas deu um de seus sorrisos contidos. – Ele não tem nenhuma implicância com você não, né?

– Digamos que nós não somos... Nada próximos.

– Caramba, ele é mesmo bem rigoroso com tratamento especial… – Falou pensativo. – O Ray não é uma pessoa fácil. Com ele é na base da insistência. Uma hora ele se cansa de te mandar embora.

– A Emma me disse algo parecido…

– Mas olha, pra alguém que não gosta de pessoas, o my best conhece muita gente. Ele é fechado sim, mas pode se aproximar dos outros se quiser… – Começou a fazer alguns alongamentos. – Ou se precisar de algo… Geralmente é quando precisa de algo. Só que pelo visto, esse não é o seu caso…

– Interessante…

– Bom, pacote entregue. Acho que vou indo... Boa sorte! E lembre-se: fique de olho naquelas doidas. Não participe, não ajude, não comemore, nem ouse fingir estar interessado em futebol. Elas vão te sugar! Que nem um aspirador de pó!

– Certo… Obrigado pelo aviso e pela camisa. Vou devolver amanhã. E ela vai estar limpa, não se preocupe.

– Ah, não precisava lavar não. Ela vai ser mais valiosa assim… – Norman o encarou neutro. – Isso soou estranho, né?

– Sim.

– É porque estando usada, eu posso vender...

– Isso continua estranho.

– ...É melhor eu parar de falar. Tenha um bom dia e manda um beijo pro my best.

– Uhum. Pode deixar...

Norman voltou a observar Ray e depois de pensar por algum tempo percebeu que tudo estava errado. Deparou-se com uma situação diferente da que estava esperando. Uma situação da qual não tinha controle. E isso era inaceitável.

Insistir, insistir, insistir, insistir… Não tinha percebido o peso dessa palavra até conversar com Zack. Simplesmente passou a odiá-la! Não lhe agradava nem um pouco a ideia de insistir (apesar de ter feito isso a manhã inteira). Nunca precisou se dar à esse trabalho antes, então por que começaria justo naquele momento? Deveria ser o contrário, Ray é quem deveria estar correndo atrás...

Mas se o que havia acontecido no horário do almoço fosse mesmo proposital, então aquilo poderia significar muita coisa...

Talvez não tivesse levado tudo à sério o suficiente ou talvez tivesse se preocupado muito apenas em se divertir… Só que nada disso importava mais. Precisava inverter os papéis, dar um novo rumo à trama… E como faria isso?

Por mais que não gostasse de admitir, realmente precisava insistir um pouco mais. Até porque, do jeito que tudo estava, sem a sua iniciativa nada iria para frente...

Respirou fundo, abriu seu guarda-chuva e caminhou até onde Ray estava.

– O que está lendo? – Perguntou se sentando ao lado do moreno.

– Cuida da sua vida.

– Título interessante. Sobre o que se trata? – Brincou.

– Um cara chato que fica enchendo o saco dos outros porque não tem nada melhor pra fazer.

– Legal. Acho que me identifico. Fale mais...

O moreno suspirou.

– O que é que você quer agora?

– Só conversar.

– Não sei se você ainda não percebeu, mas toda vez que a gente conversa nunca acaba bem. Então é melhor você ficar calado. – Norman riu um pouco.

– Quem sabe um "por favor" não me ajude a fazer isso? – Ray apenas fez uma expressão carrancuda e ficou em silêncio. Até parece que gastaria a pouca educação que tinha com Norman. Não diria esse "por favor" nem brincando. – Não? Ok, você que sabe… Falei com o Zack agora a pouco. Ele me contou uma história bem estranha sobre um globo de plástico, abelhas e um professor. Você com certeza já deve saber do que estou falando. Fico me perguntando se ele não ouviu nada enquanto colocava o globo no carro, quer dizer, deve ter feito bastante barulho... Isso daria uma ótima cena de comédia...

– Para com isso. – Interrompeu.

– ...Algum problema?

– Sim! Para com esse teatrinho. Eu não aguento mais!

– Teatrinho?

– Não adianta ficar fingindo e conversando comigo como se fossemos amiguinhos. Não tem absolutamente ninguém aqui pra você enganar. Eu sei que você é doido e você sabe que eu te odeio.

– É, você deixou isso bem claro na hora do almoço...

– Nem tanto pelo visto, afinal você está aqui.

– ...Então não vai negar? – Questionou divertido.

– Ahn… Não. – Respondeu simplista e sem dar muita importância. – Você já sabe, vou fingir pra quê?

– É um bom argumento… – Observou o outro, extremamente interessado. – Você me deve uma camisa. Eu adorava aquela, sabia?

– Own! Quer que eu peça desculpas também? – Perguntou debochado. – Que eu diga que estou arrependido? Que sinto muito pela sua maldita camisa?

– Não. Seria fácil demais...

– Então o que é que você quer? Satisfações? Quer revidar?

– Sinceramente… Só acho legal te irritar. É bom pro tédio. – Sorriu e o moreno permaneceu calado, o encarando com os olhos semicerrados. – Mas a ideia de revidar me parece ser interessante… Se eu revidasse, o que você faria?

Ray fechou o livro que tinha em mãos e observou a capa por alguns segundos, pensando no que fazer.

– ...Resolveria do meu jeito.

– E como seria esse "seu jeito"?

– Quer mesmo saber?

– Quero.

– Seria algo mais ou menos assim… – Disse acertando a cabeça do albino com o livro. Norman levou a mão à área atingida e encarou o moreno com um olhar incrédulo.

– Bateu em mim com um livro?!

– Oh, desculpa. Foi rápido demais pra você assimilar? Quer outra demonstração?

– Você é mesmo bem corajoso...

– Não estou nem um pouco interessado nesses seus “joguinhos”, então supondo que nós tenhamos um problema hipotético… É desse jeito que eu resolveria. Sacou?

– E foi desse jeito que resolveu o problema do Nat?

Os dois se encararam por um tempo.

– Não é da sua conta...

– Bem, você me deixou bastante curioso sobre isso, então não pode me culpar por querer saber mais.

– Por que é que está tão interessado nisso? Que diferença faz pra você saber ou não?

– Quero saber mais como lida com as coisas, pode ser útil. – Sorriu.

O que Norman queria dizer com aquilo? Era algum tipo de aviso? Ele estava lhe observando? Tentando usar algo contra o moreno? Era difícil dizer o que o albino queria só de olhar pra ele, pois o maldito estava sempre com aquela expressão ridícula e calma.

– Agora que já me bateu, posso considerar isso um avanço? Ou preciso ser chamado de inútil também? – Sorriu.

– ...Você é chato pra caralho.

– E você… Tem uma coisa no cabelo. – Disse tirando um pedaço de folha do cabelo do moreno. – Nossa, que macio.

– Não toca em mim. – Disse afastando a mão do albino e o fazendo rir.

– Foi um elogio, caso não tenha entendido.

– Ah, legal. Guarda o próximo pra você.

– Eu já me elogio muito, na verdade. Não sei se precisaria…

De repente a treinadora soou o apito, marcando o final do treino. Ray guardou seu livro na mochila e, em seguida, os dois garotos foram até o campo. Assim que chegaram perto, Emma correu até eles.

– Olha só! Já estão aqui! Como foi o passeio, Norman?

– Maravilhoso.

– Que bom! E você, Ray? Como foi a leitura?

– Um saco.

– Que bom!

– Pega as suas coisas e vamos embora.

– Mas eu nem tomei banho ainda.

– Banha quando a gente chegar. Não vai te matar se fizer isso.

– Aí, Emma… – Gillian se aproximou. – A treinadora deixou a chave do depósito com a Denise. As meninas estão te chamando pra mais uma. Quer ir?

– Sim!

Não! – Os dois garotos pensaram.

– Certo, mas lembra elas de guardarem a bola depois. Da última vez que esqueceram a treinadora ficou uma fera…

– Você não vai?

– Não...

– Ah, vamos… – Disse em um tom manhoso e a loira fez uma cara pensativa.

– Só se os atletas aí participarem. – Gillian apontou para Ray e Norman. – Dois dias seguidos só observando. Eles devem estar doidos pra jogar.

– Eu acho que não. É perigoso. – Falou Norman.

Isso seria um desastre. – Pensou Ray.

– Ah, vamos! Vai ser legal! Vocês vão gostar! – Emma disse animada, mas os garotos se mantiveram imóveis e completamente indispostos. – Nerds não jogam bola, Norman. – Cantarolou.

– Eu também não. Sabe o estrago que uma bola pode fazer na minha cara?

– Já levei muita bolada na cara e ainda estou viva.

– Mas acontece que a sua cara não é tão valiosa quanto a minha cara.

– Está com medo de sair ruim em alguma foto, por acaso? – Cruzou os braços.

– Não que isso seja algo possível, mas vamos dizer que seja esse o motivo.

– Ah, qual é? Não pode estar falando sério. É só uma bola, não é uma arma.

– É fácil pra você falar já que é feita de ferro. – Disse Ray.

– ...Como assim?

– A bola bate em você e é ela que se machuca. – A garota começou a rir.

– Como podem ser tão frescos? – Sonya disse em um tom alto para que os outros a escutassem bem. Estava um pouco afastada, ainda dentro do campo, e tentando equilibrar a bola com o pé. – É típico de homem mesmo. Todos estúpidos e medrosos, com medo de assumir qualquer risco. Por que não compram uma daquelas bolhas de plástico? A vida deve ser bem segura lá dentro! – Falou com certa raiva e chutando a bola com força em direção ao gol.

Todos ficaram parados por algum tempo, sem saber como reagirem àquilo.

– Não sei vocês, mas isso me pareceu bem perigoso. – Comentou Norman.

– Não liguem muito pra ela. Está chateada por causa do término. – Explicou Gillian em um tom baixo para que apenas eles pudessem ouvir. – O lado bom disso tudo é que a raiva ajuda ela a se concentrar no jogo. O lado ruim é que depois vem a depressão, aí ela fica péssima.

– Gillian! Isso não é… – Emma tentou retrucar, mas não tinha um argumento. – Quer saber? Você tem razão… Acho que ela precisa de ajuda...

– Acho que ela precisa dar uma surra naquele cara.

– Isso também.

– E então? Vamos jogar? – Questionou Sonya, pegando a bola de volta.

– Não. Os meninos não querem. – Gillian respondeu.

– Qual é? Deixem de ser sedentários! Vamos lá! Ray, eu sei que você sabe!

– Não. Eu tô bem aqui…

– Você devia fazer isso por ela, Ray. A Sonya está sofrendo muito com o término. – Falou Emma.

– Não é o primeiro nem o último. Ela já está acostumada.

– ...Isso não foi legal. – Fez uma cara emburrada e o moreno revirou os olhos.

– Segura aí! – Sonya disse em um tom alto e chutando a bola em direção aos quatro.

Antes que Ray pudesse fazer alguma coisa, havia sido acertado pela bola, perdido o equilíbrio e caído no chão.

Norman encarou o moreno deitado na grama, um pouco assustado e perplexo. Estava do lado dele, a bola poderia tê-lo acertado… Diante de tanto perigo e das probabilidades, a reação do albino não poderia ter sido outra: começou a gargalhar. Gargalhar muito. As garotas do time também tiveram a mesma reação.

Ray sentou-se no chão e encarou o albino com um olhar mortal.

– Olha… Isso é o que eu chamo de karma. – Norman falou ainda rindo.

– Cala a boca. – Disse irritado e jogando a bola em direção ao outro garoto, que conseguiu se desviar a tempo.

– Desculpa, saiu sem querer… – Respirou fundo algumas vezes, tentando se acalmar. Em seguida, estendeu a mão. – Você está bem?

– Fica longe de mim. – Levantou-se sozinho.

– Gostei da defesa, Ray! – Gritou Sonya e o moreno mostrou o dedo do meio como resposta. – Atrevido você, hein? Olha que eu te dou outra.

– Vai jogar o quê agora? O seu sapato?

– É uma chuteira! E eu te garanto que ela machuca.

– Ok, ok. Já tivemos acidentes demais por um dia, então vamos tentar evitar mais um... – Emma começou a empurrar os garotos pra longe dali antes que Sonya ficasse brava de verdade.

A ruiva não queria fazer Ray esperar mais, principalmente porque ele não estava de bom humor, então resolveu tomar banho somente quando chegasse ao orfanato. Despediu-se rapidamente das amigas e, após isso, o trio finalmente pôde ir embora.

Norman passou o caminho inteiro rindo do moreno. Não conseguia olhar para ele sem sentir uma tremenda vontade de rir. Na verdade, fez questão de não esconder isso, só para irritá-lo ainda mais (o que deu certo).

*****

O albino optou por ficar no orfanato naquela manhã, resultando em um ótimo começo de sexta-feira para Ray. Depois de muita tensão e conflitos com o albino, o moreno não poderia pedir por um dia melhor! Um dia de “aula” normal e longe daquele babaca sem cor era tudo o que precisava…

Quem dera se o dia de Ray estivesse tão relaxante assim. Por mais que não quisesse, passou a manhã inteira pensando em Norman…

“E se eu revidasse?”

Essa frase ecoava pela cabeça de Ray desde o dia anterior.

Não que realmente estivesse preocupado com o que o albino poderia fazer, mas levando em conta que ele era um louco criativo e imprevisível, o moreno não sabia o que esperar. Sequer tinha certeza se Norman havia falado sério ou se estava só curtindo com a sua cara de novo. E quanto mais tentava esquecer essa dúvida, mais pensava sobre ela. Passou a noite anterior vendo as fotos que Gillian havia tirado, tentando se manter distraído para não bolar teorias malucas da conspiração.

O quão ridículo ainda poderia ser?

Após o término das aulas, almoçou e voltou para Grace Field. Não tinha nada demais pra fazer na escola e Emma estaria ocupada com seus ditos “estudos”, então não precisaria esperá-la.

Assim que abriu a porta do orfanato pôde ouvir o barulho de crianças rindo e sentir o cheiro de felicidade no ar. Fechou a cara na mesma hora. Não havia nada mais suspeito do que pirralhos se divertindo.

Foi até a sala mais próxima e assim que entrou, se deparou com caixas jogadas pra todo lado, materiais no chão, papéis cortados e um monte de crianças badernando.

– Mas que porra é essa? – Todos o encararam e, na mesma hora, começaram a apontar uns para os outros aleatoriamente, tentando indicar quem era o "culpado". Ray apenas cruzou os braços, achando tudo aquilo um pouco cômico. – Quebraram o quê dessa vez?

– Não quebraram nada! Não quebraram nada! – Lani se levantou do chão e começou a falar como se fosse um soldado. Sabia que, caso Ray se irritasse, seria o primeiro para quem o moreno iria fazer reclamações. – Nada de vasos quebrados ou objetos perdidos, tapetes sujos, pernas machucadas, crianças desaparecidas, dedo no olho, puxão de cabelo, dever de casa enterrado no quintal, paredes riscadas, armários invadidos, janelas puladas e bolas chutadas.

– Uau! Então você andou fazendo o seu trabalho, hein? – Disse um pouco sarcástico.

– Não querendo me gabar, mas… Dessa vez eu mandei bem.

– Não leve todo o crédito sozinho, eu te ajudei. – Falou Norman enquanto passava carregando uma caixa.

– Hm… Ééééé. O Norman ajudou, mas eu fiz a parte braçal. – O mais novo parecia bastante orgulhoso com seu trabalho, então o albino apenas riu e continuou a andar em direção às mesas. Não queria atrapalhar o momento de Lani.

– E por que é que estão sujando a sala? – Ray questionou, observando Norman discretamente com o canto do olho. A presença dele ali não lhe agradava nem um pouco...

– Estamos preparando a festa de aniversário.

– ...Aniversário de quem? – Lembrava-se perfeitamente da data de aniversário de todos ali, não era possível que tivesse esquecido algum.

– Megalodonte.

– Quê?

– Megalodonte… Aaaaahhhh! Você não deve saber quem é. Espera aí... Ô, MAYA! TRÁS O ANIVERSARIANTE! – Gritou e Ray fez uma expressão de desconforto.

Foi questão de segundos para que a garotinha aparecesse com um ursinho de pelúcia em mãos.

– Pronto. Esse é o Megalodonte.

– ...O nome dele é Megalodonte. – Falou o moreno.

– É! – A garotinha confirmou.

– E ele é um urso.

– É! Está fazendo um ano!

– ...Tá bom.

– Vai ajudar com a festa também, Ray? – Perguntou com brilho nos olhos.

– Não.

– Por que não?

– Porque isso é idiota… – A garota fez um biquinho e uma expressão de quem estava prestes a chorar. – Para com essa merda, comigo não rola.

– Mas é o aniversário dele!

– E daí? É um urso de pelúcia.

– Shhhh! Não fala isso! – Cobriu as orelhas do ursinho. – Ele não sabe!

O mais velho suspirou.

– Tá, vou pensar sobre o seu caso.

– Certo! – Sorriu animada. – Mas é pra trazer um presente, hein? O Megalodonte não gosta de gente que só vem pra comer.

– Então eu e ele não vamos nos dar muito bem... – Revirou os olhos e deu meia volta.

O moreno foi para o seu quarto, pegar uma outra roupa e depois tomar um banho.

Entrar no cômodo e perceber que não havia nenhum barulho de pátio foi como música para os seus ouvidos. Poderia muito bem ficar ali e aproveitar o silêncio que raramente possuía durante aquele horário… Uma pena que se recordou de Norman na sala, com todos os outros. Aquele demônio branco com cara de inofensivo...

Talvez estivesse na hora de se preocupar em ser mais amoroso com os menores, já que tinha um concorrente… Nãããão. Nem Ray conseguia se imaginar tratando alguém tão bem assim. Essa ideia com certeza estava descartada. Ou, quem sabe, ser mais presente… Mas fazer uma festa para um urso de pelúcia era tão ridículo! Por que as crianças não poderiam ser menos infantis? Se tinham tanto tempo assim para gastar, então por que não faziam algo mais útil?

Talvez nem precisasse participar de verdade… E se tirasse algumas fotos? Isso seria o bastante? Se bem que não estava muito a fim de bancar o fotógrafo…

Abriu o armário para pegar sua roupa, mas acabou sentindo falta de um certo objeto que se recordava perfeitamente de ter deixado ali na noite passada. Vasculhou cada pedaço do armário, a sua mochila e qualquer outro possível local de seu quarto em que sua máquina fotográfica poderia estar, mas simplesmente não conseguiu encontrá-la. 

Estava começando a ficar irritado...

Pensou por alguns segundos na possibilidade de alguém ter pego. Só que ninguém no orfanato se atreveria a entrar em seu quarto e pegar sua câmera. Exceto Emma, mas ela não estava ali… Ah, claro! Havia mais uma outra pessoa com essa coragem: Norman! Tinha certeza de que havia sido o albino. Então ele havia mesmo falado sério sobre revidar? Mas o que ele planejava fazer com sua câmera? Chantagem?

Ray não se deu muito ao trabalho de pensar em um porquê, apenas queria o seu aparelho de volta. Desceu as escadas e voltou para a sala onde todos estavam reunidos. Não foi difícil encontrar o borrão de corretivo sentado em uma das mesas que havia no canto e fazendo alguns recortes de papel. Aproximou-se dele com uma cara não muito boa e Norman logo percebeu sua presença.

– Veio mais cedo hoje. Emma resolveu ficar por lá, não é? – Perguntou normalmente e voltando à fazer seus recortes. – E a camisa do Zack? Vocês devolveram?

– Cadê a minha câmera? – Perguntou firme.

– Sua… Câmera?

– Eu sei que você pegou.

– ...O quê?

– Acha que eu não sei porque decidiu, espontaneamente, ficar no orfanato hoje? Ou esperava mesmo que ia me enganar com essa historinha de que queria apenas "ajudar a Krone"?

– Ahn… Sim, eu esperava, porque… Foi isso o que eu fiz...?

– Ah, claro... – Ironizou.

– Ajudei ela depois do café, lavei a louça, fiz o almoço, limpei as mesas, as salas e alguns outros cômodos...

– Tipo o meu quarto. Depois mexeu nas minhas coisas e roubou minha câmera. – Completou.

– Hm… Eu não me lembro de ter feito isso… Mas você está falando com tanta certeza que até me faz duvidar da minha própria memória. Será que eu fiz isso mesmo? – Brincou.

– É sério? Vai ficar com essa brincadeirinha agora?

– Bem, você chegou do nada e começou a me acusar, o que me parece ser uma brincadeira também. Quer dizer, dois roubos em dois dias seguidos? Uau! Seria meu record...

– Eu quero ela de volta.

– Sinto muito te desapontar, mas ela não está comigo.

– Mentira.

– Por que eu pegaria a sua câmera? Se eu quiser tirar uma foto, eu tenho meu celular.

– Eu não faço ideia, só sei que foi você.

– Vou falar de um outro jeito. Ahn… Eu não entrei no seu quarto e não mexi nas suas coisas… Exceto ontem de manhã, mas acho que isso não conta, né?

O moreno o encarou com uma expressão neutra e um olhar de desconfiança. Não acreditava em Norman, mas não havia como provar que ele estava mentindo…

– E aí? Acha que o Megalodonte vai gostar? – Mostrou o floco de neve de papel que havia acabado de fazer.

Ray não respondeu, apenas continuou observando-o.

– Norman, fizemos bonecos e estrelas! – Zemima e Ivete foram até a mesa e colocaram todos os enfeites ali em cima.

– Nossa! Andaram bem ocupadas, hein? – Falou o albino. 

– Você gostou?

– Eu adorei.

– ...Fez um floco de neve?! Ensina a gente a gente a fazer?

– Claro que sim. – Sorriu.

O moreno não estava com paciência para ver aquilo, então saiu dali com passos largos.

*****

Ray passou a tarde inteira alimentando as suas paranóias. Ficou tão possesso que até mesmo cogitou em ir até o quarto dos garotos e verificar as coisas de Norman, mas teve que se controlar para não fazer isso. Só o fato de chegar perto dos dormitórios já era algo estranho, considerando que não costumava ir muito àquela parte da casa. Sem falar que Norman não seria idiota a ponto de esconder algo roubado em suas coisas…

Resumindo: não tinha provas nem ideias, e estava enlouquecendo por causa disso.

Era exatamente em situações como aquela que precisava de açúcar. Porém, como não tinha mais nenhum doce consigo, Ray não teve escolha a não ser vasculhar a cozinha e tentar encontrar alguma coisa na sorte. Foi abrindo as portas dos armários, uma por uma.

Enquanto isso, Norman observava o moreno atentamente da porta. Krone havia pedido para que fosse começando a preparar o jantar enquanto buscava algumas coisas na despensa, mas o garoto acabou ficando curioso quanto ao que Ray estava fazendo e resolveu observá-lo por um tempo. Quando se certificou de que nada demais aconteceria, resolveu se pronunciar.

– Perdeu o parabéns e o bolo de mentirinha. – Comentou enquanto caminhava até o balcão.

– Hm, que pena… – Não deu importância.

– Uma pena mesmo. Estava uma delícia, apesar de baunilha com jujuba não parecer ser uma boa combinação. – Se o bolo fosse de verdade, Ray com certeza o comeria naquele momento. – ...O que está procurando? Sua câmera? Não sou especialista em câmeras desaparecidas, mas acho bem improvável que ela esteja na cozinha.

– ...Você é muito audacioso. – Fechou a porta do armário e encarou Norman.

– Oh, obrigado. – Sorriu e o moreno soltou um muxoxo.

Norman deixou Ray de lado e conferiu o que havia sobrado do almoço. Após isso, fez uma rápida lista mental de tudo o que precisava e começou a pegar diversas coisas de dentro dos armários. Entretanto, por um grande desastre, assim que abriu a porta de um dos armários, um pacote de farinha caiu e despejou todo o pó no albino.

O moreno desviou o olhar da gaveta que estava vasculhando na mesma hora em que ouviu o barulho. E ao ver aquela cena abençoada começou a rir do seu jeito irônico de sempre.

– Sério? Farinha? Sério?! – O albino disse incrédulo e o moreno riu mais ainda.

– Olha… Quase nem dá pra notar, eu diria até que… Combina com você.

– Você tem algum tipo de tara em jogar comida em mim? – Passou a mão pelo cabelo, tentando tirar a farinha que havia ali.

– Não é minha culpa se você está rasgado.

– ...Rasgado?

– Pacote. De. Farinha. – Falou pausadamente e em um tom sarcástico.

– ...Preferia "pó de arroz". – Ray encolheu os ombros e Norman o fitou por uns instantes. – Até entendo que esteja zangado...

– ...Ah é?

– Mas eu não tenho culpa se cozinho melhor e, por isso, a Krone prefere a minha ajuda.

– Nossa! Era exatamente nisso que eu estava pensando! Como adivinhou? – Falou repleto de ironia.

– Só pra deixar claro, isso aqui não é Orange Is The New Black e eu não sou uma latina tentando roubar a sua cozinha… – Comentou fazendo Ray arquear uma sobrancelha. – Mas ainda assim eu posso colocar coisas na sua comida.

– Se for botar pimenta, então fique à vontade. Eu não me importo... – Abriu outra gaveta.

O albino aproveitou o momento de distração para se aproximar do moreno. Quando chegou bem perto, Ray percebeu sua presença e passou a encará-lo com uma expressão desconfiada.

– Não precisa se preocupar com coisas estranhas na sua comida, prefiro nos deixar quites de outra forma… – Encarou-o nos olhos.

– Vai jogar macarrão em mim?

– Seria uma boa, mas não estou com essa opção disponível, então é melhor tentar algo mais prático. – Abriu sua mão e soprou farinha no rosto do moreno.

A primeira reação de Ray foi de fechar os olhos e tentar se proteger com as mãos (o que não adiantou muito). Norman começou a rir do susto que havia tomado e isso o deixou puto.

– Branco não combina muito com você. – Disse entre risos.

– Você… Tá maluco? – Passou a mão em seu rosto, tentando limpá-lo.

– Olho por olho.

– Eu nem mexi naquela merda de farinha! Eu não tenho culpa se você teve azar!

– Não. Azar é você ser acertado por uma bola e cair graciosamente no chão, que nem a Jennifer Lawrence. Já aquilo foi bem proposital.

– E que tal falarmos de outra coisa bem proposital? Tipo a câmera que você roubou.

– Já te passou pela cabeça que, além de mim, tem outras... Quarenta pessoas nessa casa?

– Mais ninguém aqui é idiota o suficiente pra entrar no meu quarto e pegar as minhas coisas.

– Hm… Esse é um bom motivo. Mas sabe, eu também tenho uma teoria bem interessante quanto ao misterioso sumiço da câmera: e se, na verdade, você perdeu ela? Oh! – Fingiu surpresa. – Não mataria admitir isso.

– Para de tentar me enganar. Eu sei que foi você.

– E continua me acusando…

Naquele momento, Norman pôde ouvir Krone cantarolar pelo corredor. Ela estava perto… Encarou o chão sujo e depois observou Ray tentar tirar a farinha de seu rosto por alguns instantes. Poderia se aproveitar da situação, só precisava pensar rápido e bolar alguma coisa... 

Quando constatou que a mulher estava prestes a entrar resolveu agir.

– Não vai cair de verdade, hein? – Disse segurando as mãos do moreno e colocando elas em seus ombros.

– O que você… – Antes que Ray terminasse de fazer a pergunta, o albino se jogou para trás puxando seu corpo junto e fazendo com que caísse sentado por cima dele. Krone entrou na cozinha no exato momento em que toda a cena aconteceu e pode-se dizer que a mulher levou um grande susto.

– Mas o que é que é isso? – Disse ela.

Ray encarou a mais velha e depois observou Norman, que possuía uma expressão bem acuada em seu rosto. Aquilo, à princípio, deixou o moreno confuso, mas bastou que entendesse melhor a posição e a situação em que se encontrava para entrar em estado de alerta. O albino queria causar um mal entendido.

Levantou-se imediatamente e se afastou do outro garoto.

– O que foi que acabou de acontecer aqui? – A mulher não parecia muito contente.

– O Ray tropeçou, só isso... – Disse Norman em um tom baixo e se levantando.

– Tropeçou é? Não foi isso que eu vi. – Cruzou os braços. – E que sujeira é essa? O que aconteceu aqui?

– Ahn… Não foi nada. Está tudo bem, pode deixar que eu limpo…

– ...Não. Você vai se limpar. E você… – Apontou para o moreno. – Eu estou muito desapontada com você, Ray.

– O quê?! – O garoto disse incrédulo.

– Eu jamais esperei que um dia veria um dos meus meninos se comportando desse jeito. Quantas vezes eu tenho que dizer que não se resolve nada com violência?

– Mas eu não fiz nada!

– Nós vamos ter uma conversa muito séria. E depois você vai dar um jeito nessa bagunça e limpar os banheiros para refletir sobre as suas ações.

O menor encarou a mulher, ainda perplexo com a situação. Krone não era uma pessoa que se irritava facilmente, mas daquela vez ela estava bem alterada. Em seguida, direcionou sua atenção para Norman, que apenas se segurava para não rir da situação.

Filho da puta...

*****

Depois de ter levado uma das maiores broncas da sua vida e de ter sido obrigado a limpar a bagunça (que não havia causado) da cozinha, Ray foi para banheiro, refletir sobre suas ações e fazer uma bela de uma faxina. O moreno não conseguia pensar numa condenação pior do que aquela. Porém, o que mais lhe irritava naquilo tudo não era o castigo injusto, e sim o fato de Norman ter se oferecido, em um ato de boa fé, a “ajudá-lo na limpeza”.

Não bastava apenas ter ferrado com o resto do seu dia, o albino tinha que ter ido junto para ver sua desgraça de camarote! Como queria jogar aquele mentiroso escada à baixo...

Porra! – Pensou impaciente e jogando uma esponja no chão.

Norman observou aquela pequena irritação com um semblante divertido e um olhar com pequenos indícios de . No começo se arrependeu um pouco por ter decidido ajudar a limpar aquele lugar tão sujo e cheio de germes, mas depois percebeu que havia valido a pena. Podia deixar sua frescura de lado por aquilo...

– Não é tão ruim assim, se parar pra pensar. – Comentou apoiando o esfregão que segurava na parede. – Não tem nada mais Cinderela do que limpar um banheiro imundo.

– É, eu me sinto mesmo como a porra de uma princesa agora. – Ironizou.

– O suficiente pra cantar? Porque, particularmente, eu acho que cantar em um um banheiro sujo é bem inspirador.

– Ah é, eu me sinto bem inspirado. Mas eu tenho uma ideia melhor: por que você não cala a boca e sai daqui?

– Eu me ofereço pra te ajudar e é assim que você me trata? – Fingiu estar magoado.

Foi uma provocação óbvia, mas naquela altura do campeonato, Ray nem ligava mais. O seu ódio o impedia de pensar com coesão.

– Tá de sacanagem, não é? – Falou indignado. – Isso tudo é culpa sua! Você armou isso! Você me trouxe pra cá!

– E agora quero te ajudar a sair mais rápido.

– Não veio aqui me ajudar, veio curtir com a minha cara!

– Isso também. – Sorriu e o moreno começou a balançar a cabeça, como se tentasse espantar pensamentos ruins.

– Por que não procura algo mais útil pra fazer? Ou outras pessoas pra encher a porra do saco? Não deveria estar na cozinha?

– Não. A Krone me dispensou depois que você tentou me atacar. Ela é bem atenciosa, não é?

– Eu não tentei nada! – Elevou o tom de voz e por alguns instantes se sentiu estar fora do controle. Contou até cinco mentalmente. – Eu não quero a sua ajuda...

– Já percebi que gosta de fazer as coisas sozinho. Mas trabalho em grupo também é muito importante...

– Tsc. Tu é um mentiroso do caralho e já deixou bem claro que quer foder com a minha vida. Não quero ter que limpar essa porcaria de banheiro e ainda ter que olhar pra essas suas duas caras...

– Gostei dessa.

– Meu Deus, você é tão sem noção... – Pôs a mão no rosto. – Acha mesmo tudo isso divertido?

– Um pouco… Penso nisso mais como uma vingança. Nada mais justo do que fazer você limpar manchas no banheiro também. – Sorriu e o moreno fechou a cara. – Agora, queimar a sua imagem e te colocar de castigo foi apenas uma trajetória que tivemos que percorrer pra chegar até aqui. É um pouco engraçado porque… Eu realmente não esperava que a Krone fosse ficar tão zangada...

– Por sua causa eu passei quase quarenta minutos ouvindo a Krone reclamar e recebendo bronca por algo que eu não fiz. E sabe o que é o mais engraçado de tudo isso? – Aproximou-se tanto do albino que a pouca distância que separava os dois os impossibilitava de olhar para outra coisa que não fosse a cara um do outro. – Depois de todo esse sermão sobre como a violência é ruim, eu nunca senti tanta vontade de matar alguém.

– Que contraditório.

– ...Você quer tanto assim arranjar problema?

Norman até tentou formular uma resposta, mas acabou se distraindo com a expressão de abominação do moreno. Aqueles olhos negros lhe chamavam bastante atenção. Eles pareciam brilhar de raiva e as pupilas se contraíam devido à repulsa que Ray sentia ao olhar para o albino. Era uma reação interessante de se observar...

Só havia chegado tão perto assim do outro no dia em que se conheceram e, mesmo naquela vez, não teve a oportunidade de examiná-lo com tanta calma... Era uma pena que não pudesse fazer um check-up completo no moreno. Apesar de considerá-lo uma pessoa inconveniente, ainda o achava muito fascinante...

Estava começando a se sentir desconfortável com aquela proximidade. Uma parte de si dizia para se afastar e deixar Ray em paz de uma vez, mas a outra dizia para continuar ali, o encarando, e ver no que tudo iria dar. Obviamente o orgulho e a curiosidade obrigaram Norman a ficar mais um pouco. Não poderia simplesmente sair e permitir que o moreno tivesse aquela vitória após ter chegado tão longe. Não deixaria a entender, de forma alguma, que se sentia intimidado pelo outro.

Sem falar que era isso o que queria, não é? Que Ray viesse até ele. Bem, lá estava o moreno, o mais perto possível...

Esse tipo de confusão era típico do Norman. Por que tudo tinha que ser tão dramático para ele? Por que tinha que achar conflitos tão emocionantes? Por que tinha que gostar tanto da espontaneidade?

Ah, sim. Se tinha uma coisa que adorava, era ser espontâneo...

– Eu gosto de um problema… – Comentou afastando a franja de Ray para o lado com a sua mão, descobrindo completamente o rosto dele e o fazendo mudar seu olhar de raiva para um olhar confuso.

Talvez estivesse sendo muito insensato. No entanto, ver o outro com uma expressão tão perdida no rosto deixava o albino extremamente tentado a provocá-lo ainda mais… E daí se era imprudente? Fazia o que queria, sempre foi assim.

Antes que o moreno resolvesse reagir ou se afastar, Norman pôs um fim à distância mínima que havia entre eles com um beijo calmo.

Ray travou na hora.

Esperava por alguma piadinha ou uma resposta que não tivesse nada a ver com o que havia perguntado, não por um beijo!

Foi um momento de grande desespero. O que deveria fazer? Se afastar? Empurrar Norman pra longe? Mas e depois? O que iria fazer depois? Discutir com o albino? Mal podia se mover, como poderia sequer encará-lo após aquilo?

Não conseguia pensar direito com Norman movimentando seus lábios. A sensação de beijar alguém era tão estranha. Por mais que fosse algo terno e calmo, só o fato de saber que era o branquelo maldito fazendo aquilo lhe causava um desconforto...

Tentou reunir toda a coragem que ainda lhe restava para acabar com o beijo, mas antes que fizesse isso, Norman moveu a mão dos seus cabelos até o seu rosto. O toque repentino assustou o moreno e fez com que suas bochechas começassem a esquentar. Ficou constrangido demais para fazer alguma coisa.

No que diabos aquele branquelo estava pensando, afinal? Por que estava o beijando?

Bem, o albino não pensava em nada especificamente. Estava ocupado demais desfrutando da fricção causada pelo contato entre os dois para refletir sobre alguma coisa.

O beijo por si só era uma sensação boa, mas Ray tinha um certo calor nos lábios que fazia Norman querer experimentar mais um pouco e o induzida a continuar. Chegou à um ponto em que sentiu a necessidade de aprofundar o beijo. Até tentou fazer isso, porém, não deu muito certo. O moreno não cederia…

Claro que não cederia!

E foi nesse momento em que finalmente percebeu o quão longe aquilo já havia ido.

Mas o que é que eu estou fazendo? – Pensou, levemente assustado e recobrando a sua consciência.

O albino se separou aos poucos, ainda atônito quanto ao que havia acabado de fazer. Encarou o outro, esperando que ele lhe xingasse ou até mesmo lhe batesse, mas ao invés disso, Ray ficou parado, o observando com um semblante apavorado/confuso/envergonhado que tanto contrastava com a expressão de ódio de um tempo atrás.

A falta de uma reação mais grotesca por parte moreno foi um fenômeno bem fascinante de se testemunhar. Norman até poderia considerar aquilo uma vitória e aproveitar aquela expressão inibida, se não estivesse tão desnorteado quanto Ray.

Como queria enterrar sua cabeça de baixo da terra naquele momento…

Não, não podia fraquejar depois de tudo. Era uma queda muito grande para o seu orgulho. Precisava se recompor.

– Você fica uma graça corado. – Riu cinicamente e Ray se manteve quieto. – Se quer que eu vá embora, então tudo bem. Mas se mudar de ideia, pode me chamar.

Ray acompanhou cada movimento do albino até ele sair. Após isso, continuou encarando a porta por um longo tempo, como se ela fosse uma coisa de outro mundo ou como se um monstro fosse entrar a qualquer momento. Demorou alguns segundos até que processasse tudo o que havia acabado de acontecer.

Levou sua mão à boca e começou a olhar para vários pontos aleatórios no chão, procurando por algo inexistente. Havia sido seu primeiro beijo e a única coisa em que conseguia pensar era na risadinha irônica de Norman.

Maldito, maldito, maldito, maldito, maldito… 

Enquanto isso, do lado de fora, o albino mal conseguiu dar dez passos para longe do banheiro. Estava perplexo demais até mesmo para se manter em pé.

Apoiou suas costas na parede e encarou o teto, levemente aflito. Não havia apenas feito uma besteira muito grande em prol da sua necessidade instintiva e doentia por confusão, também havia condenado de vez a sua convivência com Ray pelo resto do tempo que fosse ficar em Grace Field.

Sempre tinha que complicar tudo…

Que merda que eu fui fazer agora? – Pensou o cobrindo o rosto com as mãos.

*****

O castigo de Ray pareceu durar séculos. Na verdade, tudo após o beijo pareceu acontecer em câmera lenta. Limpar os banheiros, descer para a sala de jantar, pegar sua comida, sentar em um lugar qualquer na mesa... Fez tudo no automático, pois sua sanidade estava em um lugar muito longe dali. Sequer processou o fato de Emma ter chegado e de estar falando sem parar do seu lado à tempos. A única coisa em que se concentrou foi no albino, que estava do outro lado da sala conversando com Don.

Sua cabeça estava uma bagunça. Por que Norman fez aquilo? Ele era gay? Era mais alguma maneira estranha de lhe provocar? Porque se fosse, havia dado certo!

Sentia raiva por ter caído nas armadilhas de Norman sucessivas vezes, sentia-se um idiota por tê-lo deixado lhe humilhar daquele jeito, sentia-se fraco por não ter feito nada e, acima de tudo, sentia desprezo pelo albino, por estar agindo normalmente como se nada tivesse acontecido. A vontade de ir até ele e arrancar aquela máscara fajuta em que se escondia era enorme, porém, não queria dar mais motivos para piorar sua situação com Krone.

Não conseguia parar de pensar no quanto o garoto de olhos azuis era um tremendo escroto. Um escroto muito confuso, diabólico, falso, dissimulado e tremendamente engenhoso. Antes não estava preocupado com o que o albino iria fazer, mas naquele momento passou a sentir uma necessidade descomunal de saber qual era o próximo passo. No que Norman estava pensando? Qual era o plano dele? O que ele faria a seguir? O que faria para impedir?

– Quando eu contei pra eles sobre o Norman, não acreditaram. E ainda ficaram zombando de mim e falando um monte de piadinhas sobre jogos que eu nem entendi. Ah, se eu tivesse um celular teria gravado um vídeo e enfiado na cara deles! – Emma falou emburrada. – Sei que você disse pra guardar segredo e coisas assim, mas acho que posso contar pro Norman, né? Quer dizer, nós somos amigos e ele não é do tipo que se importa muito com esse tipo de coisa. Até teria dito antes, mas o assunto nunca veio à tona, sabe? E é bom pra ele saber da "rotina" também, já que voltou… E aí? O que acha?

Ray não havia escutado uma única palavra da ruiva (o que não era novidade). Emma o encarou por alguns segundos, esperando que o garoto percebesse e fizesse algo, mas ele continuou parado. Não demorou muito para a ruiva reparar no olhar pensativo, na postura inquieta e na estranha agitação nos dedos do moreno. Aquilo era bem inusitado...

– Está tudo bem com você, Ray? – Cutucou o ombro do moreno.

– Ahn? O quê?

– Você está com uma cara… Ruim. Não que isso seja incomum, mas… Parece mais distraído que o normal... – O moreno continuou encarando uma direção fixamente, então Emma resolveu ver o que ele tanto observava. – Ah! Foi o Don de novo, não é? Caramba, o que foi que ele fez dessa vez?

– O Don não fez nada…

– Então o que houve?

Ele.

– ...Ele? – Arqueou uma sobrancelha, confusa.

– É. Ele… Está tramando alguma coisa. Sei disso… – Começou a divagar e bater os dedos na mesa, esquecendo-se completamente de que a garota ainda estava do seu lado.

– ...Do que é que você está falando? – Chamou a atenção dele novamente.

– Daquele… Branquelo maldito! – Falou em um tom mais alto e, em seguida, respirou fundo para se acalmar.

– Ah, o Norman… – Sorriu. – Por um momento você me deixou um pouco preocupada. Pensei que estava delirando...

– Mas é pra se preocupar! Aquele cara é um perturbado! Ele é perigoso...

– O… Norman… É perigoso…?

– É! Ele é doido! Fica se fazendo de...“Santinho” e “desentendido” quando, na verdade, é a porra de uma… Mente maligna elaborando uma puta de uma vingança revolucionária e que… Invade quartos e… Rouba câmeras.

– Ahn… – Emma olhou na direção de Norman e o observou conversar normalmente por alguns segundos. – Ele não me parece nada maligno ou perigoso...

– Aquele cara é um ator. Fingir e mentir não é nada demais pra um profissional como ele.

– Ok… – Era a primeira vez na vida que Emma via Ray inquieto daquele jeito, por isso precisou de algum tempo para se recuperar daquele choque inicial e finalmente cumprir seu papel como mediadora da paz. – Olha, eu sei que vocês não estavam se dando muito bem e que você tem essa coisa de cismar com as pessoas, mas não podemos só… Resolver tudo e seguir com a vida?

– Está me zoando, né? Ele é quem tá cismado comigo. Ele é quem começou tudo!

– Tudo o quê?

Tudo! Desde as primeiras conversas até… Até hoje. Ele é um sádico desgraçado, ladrão e farsante! Fez a Krone acreditar que eu ia atacar ele.

– Você ia atacar ele?

– Não! Eu bem que queria, mas não! Só que a Krone pensou que sim… – Parou de falar e contou até cinco mentalmente.

– Com certeza deve ter acontecido algum engano.

– Claro que aconteceu um engano. Ele causou o engano.

– O Norman não é de causar problemas... Ele é uma das pessoas mais calmas e equilibradas que eu conheço. Tenho certeza de que ele não fez nada de propósito pra te prejudicar...

Ray encarou a ruiva como se ela tivesse dito a coisa mais estúpida do mundo. E ela percebeu o olhar de extrema indignação que lhe foi direcionado, embora não entendesse o porquê do moreno ter ficado tão provocado com o seu comentário.

– Como consegue ser tão ridícula?

– Ray!

– Uma das pessoas “mais equilibradas” que você conhece?! Acha mesmo que sabe alguma coisa sobre ele?

– Bem, nos conhecemos desde crianças, então sim. Acho que conheço ele.

– Não viu o cara por seis anos! Com certeza não sabe do que está falando.

– Eu sei que seis anos é muito tempo e que ele pode ter mudado um pouco, mas o Norman continua sendo o Norman.

– Caralho! Será que só eu estou vendo que tem alguma coisa muita errada com ele?

– Você precisa se acalmar. Está agindo muito estranho…

– Você está do lado dele! – Acusou.

– Não! Não, não, não. Eu não estou do lado de ninguém, só acho que essa história está mal contada…

– Claro que está do lado dele, não é novidade… – Virou o rosto, extremamente furioso. – O desgraçado deve fazer algum tipo de lavagem cerebral…

– Você está me assustando, de verdade. Deve estar com muita coisa na cabeça. Eu vou pegar um copo d’água... – A garota disse se levantando e indo em direção à cozinha.

O moreno bateu na mesa assim que Emma saiu. Era evidente que ela não havia acreditado em nada do que disse… Mas afinal, quem acreditaria em uma pessoa que estava delirando daquele jeito?

Respirou fundo, apoiou os cotovelos na mesa e pôs as mãos em sua cabeça. A ruiva tinha razão, precisava ficar calmo. Toda vez que alcançava um nível tão frenético de estresse, as coisas nunca acabavam bem...

No entanto, era bem difícil sossegar sabendo que Norman estava logo ali, a poucos metros de distância, provavelmente se sentindo glorioso

Só que não era bem assim...

Ele ainda está me olhando… – O albino pensou, sentindo um grande desconforto, e voltando a encarar Don.

Talvez fosse um pouco errado usar o irmão daquela maneira para se distrair, mas fingir interesse em tudo o que ele falava era bem melhor do que pensar em Ray…

Mal conseguia olhar pra o moreno...

Não era bem esse o novo rumo que queria dar à trama...


Notas Finais


Ah, esses dois... São confusos demais!
Ele não estava com raiva? <.<
E agora tá beijando? >.>
Ainda estou tentando entender!!!!!!!

Bem, é só isso por enquanto ¯\_(ツ)_/¯
Até... Mês que vem eu acho kkkkkkkkk
Brincadeira! Juro que tento postar antes! É na fé que sai!

Aceito comentários, críticas, mimos, carinho e Mastercard s2


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