História Siriel Calamity - INTERATIVA - Capítulo 4


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Categorias Histórias Originais
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Palavras 7.268
Terminada Não
NÃO RECOMENDADO PARA MENORES DE 18 ANOS
Gêneros: Ação, Aventura, Drama (Tragédia), Ecchi, Fantasia, Ficção, Hentai, Lemon, LGBT, Luta, Magia, Mistério, Misticismo, Romance e Novela, Saga, Shonen-Ai, Slash, Sobrenatural, Suspense, Terror e Horror, Violência, Yaoi (Gay)
Avisos: Adultério, Álcool, Bissexualidade, Canibalismo, Estupro, Heterossexualidade, Homossexualidade, Insinuação de sexo, Linguagem Imprópria, Mutilação, Nudez, Sadomasoquismo, Sexo, Suicídio, Tortura, Violência
Aviso legal
Todos os personagens desta história são de minha propriedade intelectual.

Notas do Autor


OLÁAAA <3
Espero não ter demorado muito hehe~
Eu sou o Theo e sejam bem vindos à mais um capítulo de Siriel Calamity, dessa vez o segundo.
Como algumas coisas saíram do planejado, tive que fazer esse capítulo de outro jeito, então, tem uma surpresinha para vocês no meio do capítulo :D

Aproveitem o capítulo e boa leitura, pimpolhos <3
Não esqueçam de deixar seus comentários e teorias logo abaixo, ein!

TW: assassinato, sangue, opressão e terror psicológico.

Capítulo 4 - Capítulo 02 - A Colônia


O rapaz se remexia desconfortavelmente enquanto dormia no chão sujo e duro. Curvado sobre o lado esquerdo do corpo, ele tremia e choramingava em meio ao sono. No rosto, uma expressão marcada pela amargura e olhos cerrados com força. Uma das mãos se fechava com força no tecido da camisa, as juntas ficando brancas de tamanho esforço. Em sua mente, um sonho acontecia. Na verdade, um pesadelo. Ele conseguia escutar os gritos de dor e horror como se estivessem bem ao seu lado, podia sentir a textura viscosa e quente do sangue em suas mãos, e a luz azul, ela estava sempre ali. As imagens que tomavam forma bem diante de si eram obscuras e angustiantes demais para serem descritas. E então, em meio à todos aqueles gritos, ele distinguiu palavras. Palavras que ele conhecia muito bem. Monstro! Aberração! Nunca será um de nós! Deveria ter morrido! Escória! Trará desgraça à todos nós! Maldito! Siriel nunca o amará!

“Lys!”

O moreno acordou de supetão e arregalou os olhos. Suor escorria por seu rosto como uma cascata e em seu peito, seu coração batia desenfreadamente. A sensação de queimação estava por todo o seu corpo. Na garganta, nos olhos, na pele e no nariz. Em pânico, Lys se moveu lentamente para se sentar. Inconscientemente, envolveu o próprio corpo com os braços e se encolheu, dobrando as pernas e enterrando o rosto nos joelhos. Sua respiração estava descompassada e ele tentava, inutilmente, se acalmar. Seus ombros tremiam e ele não conseguia parar de pensar em todas as imagens que invadiam sua mente. Dor. Sangue. Morte. Desespero. Ódio. Tudo envolvo em luz azul. Tudo marcado por aquelas palavras sussurradas e sibiladas. Lys queria chorar, mas não tinha mais forças para isso. Sua garganta estava seca e ele estava cansado. Cansado de como aquilo continuava acontecendo mesmo após dois longos anos.

Um movimento ao seu lado o despertou de seu estado perturbado e Lys ergueu a cabeça dos joelhos para olhar em volta. Tudo de repente voltou a fazer um pouco de sentido ao se deparar com várias outras pessoas, deitadas em fila e espremidas umas contra as outras para obter o máximo de calor que conseguiam. Estavam deitadas no chão mesmo, com apenas um pano para usarem como bem entendiam. Cobertor, travesseiro, para agarrar. Lys já viu algumas pessoas usarem para se asfixiar até a morte. Não era incomum naquele meio, onde viviam.

Uma brisa fria de repente percorreu o espaço pequeno e úmido onde aquelas pessoas dormiam, ou pelo menos tentavam. Lys estremeceu, sabendo o que viria a seguir. Aquela sensação era assustadoramente familiar. E dito e feito, o silêncio do cubículo foi brutalmente cortado pelo rangido alto e esganiçado da porta de metal. Piscando com a invasão repentina de claridade, o moreno ergueu a mão para tampar os olhos.

Hora de levantar, sseus vermesss imundosss! – Uma voz alta e sibilante encheu o cubículo e tudo o que Lys podia fazer era obedecer. Lentamente, por causa do torpor matutino e da rigidez de seu corpo, o moreno começou a se levantar, assim como todas as outras pessoas ali dentro. Somente o som do farfalhar de roupas e do movimento dentro do cubículo se fazia presente. Em poucos minutos, todos estavam de pé e acordados, automaticamente se posicionando em fila virados na direção da porta. Em seu lugar, Lys encarava o chão inexpressivamente.

Teremoss uma Sssseleção hoje! Nenhuma gracinha ou todos vocêsss voltam para os Pastosss! – A voz sibilada de um dos Cavaleiros de Tuk soou autoritária dentro do cubículo.

Com um comando, a fila começou a andar e, uma a uma, as pessoas que passavam pela porta ganhavam coleiras de couro ao redor do pescoço. Ao chegar a vez de Lys, o moreno sequer se moveu ao sentir as mãos frias e escamosas do Tuk ao redor de seu pescoço, prendendo firmemente a tira de couro com uma argola de ferro na frente. Ainda inexpressivamente, ele retornou ao seu lugar na fila e esperou pacientemente até o fim da organização dos reptilianos. Quando todos estavam em seus devidos lugares e com suas coleiras, um Tuk passou pela fila apressadamente e, sem delicadeza nenhuma, conectava uma corrente na argola da coleira de todos na fila, de maneira que ficassem presos uns aos outros, sem poderem sair de suas posições. Lys grunhiu quando o reptiliano passou a corrente na argola de sua coleira e o puxou, fazendo com que engasgasse levemente. Respirou fundo e fechou os olhos. “Poderia ter sido pior, poderia ter sido pior, poderia ter sido pior, poderia...”

Andando, ssseus porcosss. – O Cavaleiro de antes ordenou e a fila se moveu uniformemente ao mesmo tempo, acostumados com o tratamento. Lys andava com os braços colados ao corpo. Ele ainda sentia a rigidez de dormir no chão e ainda sentia as mãos dormentes de tanto apertar a própria camisa durante o pesadelo. Involuntariamente, Lys acompanhava a fila para onde quer que estivessem indo.

A Colônia de Qaf era um lugar extremamente lúgubre e deprimente. Uma imensa fortaleza feita de pedras negras e antigas, mas resistentes, isolada do resto do mundo por um fosso nojento e sombrio, onde jogavam os corpos dos mortos para qualquer Criatura devorar. Nunca havia sol, o clima o tempo todo marcado por nuvens acinzentadas no céu e quase sempre uma chuva castigando os muros altos. O cheiro também não era dos melhores. Tudo fedia à doença, bolor e sangue. De vez em quando era possível sentir o cheiro de peixe no mar que ficava logo atrás da fortaleza, separados por um penhasco enorme e perigoso. Não que eles tivessem muita liberdade para irem aonde quisessem lá dentro, mas ainda assim era possível ter um vislumbre ou outro das águas quase negras do Mar Pardo.

Lá dentro, os setores eram divididos em níveis. O nível 1, o mais baixo, consistia nas imensas e quase intermináveis cavernas subterrâneas abaixo da fortaleza. Era o destino dos Pastos, que ficavam em celas pequenas e escuras apenas aguardando pela próxima Coleta. O nível 2, as partes mais comuns da Colônia, era destinado às atividades de Coleta. Os Coletores, aqueles que eram descartados ou liberados do Pasto, tinham o trabalho árduo de separar e empacotar as Gemas, pequenas pedrinhas de cor azulada ou arroxeada que continham toda a essência do medo e desespero dos Pastos. O alimento principal dos reptilianos. Já o nível 3, o mais alto e que ocupava as partes mais no topo da fortaleza, pertenciam aos Emissários. Bastardos sortudos demais para as atividades mais pesadas da Colônia, tinham a missão de administrar a logística do envio de pacotes de Gemas por todo o reino de Silverian. Eram os que menos sofriam com a opressão e agressão dos reptilianos. Tudo era meticulosamente planejado e vigiado. Nada saía dos planos dentro daquele lugar. E caso algo acontecesse de errado, o fosso era o destino daqueles que tentassem interromper o progresso de Qaf.

A fila de prisioneiros avançava sem pressa pelo longo corredor de dormitórios dos Coletores. Lys caminhava apaticamente em meio aos outros. Ele mantinha o olhar preso ao chão, mas se erguesse os olhos conseguiria ver um longo e largo corredor de pedras negras e frias e diversas portas de ferro, todas sendo vigiadas por um Cavaleiro de Tuk. Algumas portas já estavam abertas e outras pessoas já estavam sendo acorrentadas da mesma maneira que ele há alguns minutos. A desolação e desesperança era palpável ali. Filas e mais filas de Coletores enchiam o corredor, todos caminhando na mesma direção. Para onde iam não importava. Não havia muitas opções. Ou iriam para o nível 1, para as cavernas, coletar Gemas recém-produzidas, ou iriam para o pátio central para separar e empacotar Gemas já recolhidas.

Abruptamente, a fila parou de andar. Lys precisou frear para não colidir com a pessoa em sua frente. Finalmente erguendo o olhar e voltando à realidade, o moreno se deu conta de que algo estava acontecendo. Um alvoroço se formava um pouco mais a frente de onde estavam e ele esticou o pescoço para conseguir ver do que se tratava. Só então ele escutou os gritos.

Por favor! Eu imploro, poupem ela! – Uma mulher gritava desesperada na direção de um Tuk lá na frente. – Ela é inocente! Por favor, ela é só um bebê! – Ela continuava e Lys franziu o cenho ao escutar a palavra bebê. Não havia bebês em Qaf, a não ser que...

Levem a mulher para uma sscela no nível 1 e se livrem desssa coisa asssquerosa. – O Cavaleiro murmurava, a voz indubitavelmente coberta de nojo.

Lys se ergueu nas pontas os pés e finalmente tinha uma visão clara do que acontecia. Dois Tuk arrastavam uma mulher completamente descabelada e gritando sem parar para longe, enquanto um ainda segurava um pequeno embrulho de pano nos braços. Aquele mesmo pano que cada um tinha para fazer o que quiser. E de repente, Lys viu um pequeno bracinho se erguer de dentro do pano. Aconteceu bem rápido. O reptiliano desembainhou a Espada de Tuk em sua cintura e, num movimento só, partiu o embrulho em dois. De olhos arregalados, Lys voltou a sua posição anterior enquanto tapava a boca com uma mão, tentando não vomitar. Seu coração batia forte em seu peito e o desespero que tomou seu corpo ao ver aquela cena era incomodamente comum. O lampejo de azul da Espada ainda brilhava em seus olhos. Flashes de sangue e morte cruzaram sua mente.

Ainda em estado de pânico, Lys se assustou quando a corrente que prendia sua coleira o puxou para frente, forçando-o a voltar a andar. Caminhando a passos vacilantes, o moreno engoliu em seco e tentou se acalmar, respirando longa e pausadamente. Enquanto caminhava, ele pisou em algo viscoso e se encolheu quando percebeu a poça de sangue que se formou da execução de poucos minutos antes.

Com o coração batendo dolorosamente no peito, Lys pensou, apenas por meros instantes, que talvez morrer fosse uma opção válida a ter que viver naquele lugar por mais tempo.

 

 

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Vieram menos pessoas na remessa desse mês. – O rapaz de cabelos esverdeados e sujos murmurou sem tirar os olhos do que fazia. Em suas mãos, havia um pedaço de madeira e uma faca, que ele usava para esculpir alguma coisa. Lys às vezes se perguntava onde é que ele conseguia aquelas coisas, mas nunca manifestava suas dúvidas em voz alta. Afinal, Giles era um Emissário, talvez eles tivessem acesso a mais coisas que Coletores comuns.

Estão chegando cada vez menos. – O moreno concordou enquanto olhava para o pátio lá em baixo. Ambos os garotos estavam sentados na beirada de um parapeito nos andares de cima, observando a Seleção que acontecia há algumas horas nos andares abaixo. – No mês passado tinha muito mais gente. – Observou, e Giles riu sem humor enquanto talhava cuidadosamente uma parte da madeira.

Parece que os lagartos estão tendo dificuldade para capturar mais pessoas. – O esverdeado murmurou e Lys olhou rapidamente o amigo. Giles tinha olhos claros, abatidos pela extensa carga de trabalho naquele lugar. Quando o conheceu, descobriu que o esverdeado já estava na Colônia há cinco anos. Lys podia apenas imaginar o que ele tinha passado ali.

Os dois garotos ficaram em silêncio a partir daquele ponto. Eram aproximadamente três da tarde, não que eles tivessem muita noção de horas quando nunca se tem sol para ajudar. As nuvens estavam mais espessas naquela tarde e Lys apostava que choveria durante a noite. Era muito fácil prever o clima naquele lugar. Ambos estavam em horário de pausa naquele momento, um pequeno “luxo” que os reptilianos permitiam. Trinta minutos sem a coleira e liberdade para irem aonde quisessem, desde que não atrapalhassem o serviço de ninguém. E é claro, não irritassem os Tuk. Lys involuntariamente ergueu o braço para massagear o pescoço onde a coleira o apertava como uma forca há alguns minutos atrás. A marca vermelha estava presente e o moreno pensava que, se algum dia ele saísse daquele lugar, aquilo viraria uma cicatriz bem feia. Mas logo afastou aqueles pensamentos. Provavelmente ele morreria ali.

Um suspiro deixou seus lábios e Lys inconscientemente pensou em seu pai. Fazia dois anos desde a última vez que o vira, arrastado e encarcerado pelos Cavaleiros de Tuk antes que perdesse a consciência e acordasse em uma carroça à caminho de Qaf. Seu coração doía a cada vez que pensava onde ele poderia estar, se estaria bem, se ainda estava vivo... Às vezes, ele pensava se seu pai estaria em uma outra Colônia em alguma parte do reino, se era um Coletor, ou um Pasto... Tudo era doloroso de se pensar. Qualquer possibilidade deixava Lys com os nervos à flor da pele. A vontade de encontrar seu pai e revê-lo era a única coisa que o mantinha são naquele lugar.

Há dois anos, quando Lys pisou pela primeira em Qaf, ele jamais conseguiria imaginar o destino que o aguardava atrás daqueles gigantescos muros de pedra negra. Jamais imaginaria que seria jogado em uma cela escura e imunda e que um reptiliano entraria lá e o destruiria. Que ele desembainharia a Espada de Tuk e o torturaria com aquela luz azul, arrancando dele todas as memórias boas e substituindo-as por dor, sofrimento, horror, sangue e ódio. Visões e lembranças macabras que faziam-no sentir o mais profundo medo e desespero que um ser vivo era capaz de sentir. Tudo por causa da porra de uma simples pedra. Tudo para que aqueles répteis malditos tivessem o que comer. Durante nove miseráveis meses Lys foi torturado e colocado em seu limite, questionando a própria existência e tendo crises constantes de dissociação. E somente quando foi tirado de lá, num estado quase catatônico e demente, que ele aprendeu o que significava ser um Pasto. Porque durante o processo, não restava nenhuma consciência nem identidade em sua mente para que pudesse pensar e raciocinar. Desde então, tudo o que ele conhecia era a Coleta e o medo mórbido da cor azul.

Você está devaneando de novo, Lys. – A voz calma e gentil de Giles o tirou de seus pensamentos. O moreno piscou algumas vezes e percebeu que olhava para um ponto fixo no nada à sua frente enquanto o tempo passava. Giles pela primeira vez o olhava nos olhos, a madeira e a faca deixados de lado. Lys quase sempre se perdia na imensidão e sabedoria daqueles olhos azuis. – Você fica muito chato quando está calado. – Ele disse e Lys pensou sentir a sombra de um sorriso em seus lábios.

Eu só estava pensando. – Ele responde, erguendo um dos pés e apoiando no assento do parapeito, agarrando a perna e apoiando o queixo no joelho. Giles sorria singelo para ele. O rapaz mais velho era extremamente tranquilo para alguém que passou cinco anos naquele lugar.

É só o que podemos fazer enquanto estamos aqui, não é? – O esverdeado murmurou, e Lys não respondeu. – Eu me lembro exatamente de quando eu comecei a pensar. – Ele disse, desviando o olhar para o céu, e o moreno o olhou, interessado. – Estava chovendo, devia ser bem cedo. Eu conseguia ver o céu através das barras de ferro da minha cela e, em algum momento, a chuva parou e as nuvens se abriram. Havia um feixe pequeno de luz brotando daquela massa cinzenta no céu. Só depois de alguns minutos olhando para aquilo é que eu me toquei... que era o Sol. – Ele murmurou, e Lys sentiu um aperto estranho no peito ao ver o olhar perdido do amigo. – Eu não me lembrava de quando foi a última vez que eu tinha visto o Sol. Talvez quando eu ainda vivia em Diwich com minha família, não sei. Eu não conseguia me lembrar. – Ele murmurou, rindo frustrado. – E foi aí que eu comecei a pensar, a me lembrar. É quase como uma epifania. De repente tudo volta na sua cabeça como se você tivesse batido a cabeça e se lembrado. – Giles falava calmamente, a voz nunca mudando de tom. Lys entendia muito bem o que ele falava. Quando saiu de sua cela nos Pastos e jogado num cubículo com outras pessoas, Lys passou semanas sem saber quem era ou que estava fazendo ali. E no dia que se lembrou, foi o único momento desde que pusera os pés em Qaf que ele chorou sem ser de medo ou dor. Giles então se virou para ele e sorriu. – Lys, eu quero que me prometa que, se você sair daqui algum dia, você vai se lembrar de mim. Vai me manter vivo em sua mente. – Ele quase sussurrou e o moreno mordeu os lábios, sentindo uma sensação esmagadora no peito.

Pare com essas besteiras. Vamos sair daqui sim, algum dia. E você vai vir comigo. – Lys respondeu, a voz estranha pela vontade de chorar. A simples ideia de ser livre e não ter o esverdeado ao seu lado era dolorosa e amedrontadora, mais que sua vontade de morrer a ter que ficar em Qaf por mais tempo. Giles então riu gostosamente e deitou a cabeça em seu ombro. O moreno sentia o coração pular em seu peito sempre que eles estavam próximos daquele jeito.

Impulsivo e persistente como um filho da tempestade. – Giles murmurou, mais para ele mesmo que para Lys. O moreno engoliu em seco. Ele odiava quando o chamavam daquilo, mas por algum motivo, Giles não parecia querer machuca-lo ou magoá-lo. Ele era grato por isso. Ficaram em silêncio por alguns minutos, apenas aproveitando a presença um do outro. Giles descansava a cabeça no ombro de Lys e parecia cochilar, enquanto o moreno deixou o olhar cair no pátio lá em baixo mais uma vez.

A Seleção era um evento que acontecia apenas uma vez por mês na Colônia, acompanhado da chegada da nova remessa de prisioneiros. Todos aqueles que chegavam eram submetidos à um encontro com um reptiliano que Lys quase nunca via. Parecia que ele só dava as caras em dias de Seleção. Ele era estranhamente diferente dos outros Cavaleiros de Tuk. Seu corpo era igualmente grande, mas era magro e parecia frágil e malnutrido. Vestia uma túnica longa e vermelha que cobria todo o seu corpo, inclusive a cabeça e o rosto. Naquele momento, ele estava em seu lugar usual, parado na frente de uma enorme fila de prisioneiros novos, todos acorrentados. Um Tuk arrastava um dos prisioneiros para frente e o reptiliano estranho o tocava na cabeça, como se tentasse ler sua mente. Em seguida, ele sussurrava uma única palavra. Pasto ou Coleta. E em casos extremamente raros, ele sibilava Emissário. Assim acontecia a Seleção. Pastos novos eram encarcerados por tempo indeterminado no nível 1 e os Coletores eram disciplinarmente educados para as tarefas de coleta, separação e empacotamento.

Lys se lembrava claramente de quando foi a vez dele naquela mesma situação. Ele ainda estava dolorido e confuso sobre tudo o que estava acontecendo quando um Tuk o arrastou da fila como se ele fosse um saco de batatas. O reptiliano encapuzado de vermelho o olhou de cima a baixo antes de toca-lo na testa. Um lampejo de luz azul e Lys sentiu toda a sua vida passar diante de seus olhos. Sua cabeça doeu, como se alguém tivesse literalmente agarrado seu cérebro e esmagado com as mãos. Logo depois, o reptiliano sussurrou Pasto para ele. E desde aquele momento, ele só viu a luz do dia novamente vários meses depois. Com um gosto amargo na boca, Lys observou aquele mesmo processo se repetir com diversas outras pessoas.

Até que então algo peculiar chamou sua atenção. Lá em baixo, no meio da fila, havia um elfo bastante velho para estar ali. Franzindo o cenho, Lys fixou o olhar no ancião e analisou-o, mesmo de longe. Não havia muitos idosos em Qaf. Os Tuk diziam que eles eram frágeis demais para suportar os processos de coleta, que morriam rápido demais e sequer expeliam Gemas de qualidade. Os únicos que Lys conhecia estavam nos andares superiores do nível 3, trabalhando na logística. Então o que aquele velho elfo estava fazendo ali? O moreno observava atentamente até o momento em que um Cavaleiro o pegou pelo braço e o arrastou até o reptiliano lá na frente. Se remexendo no lugar, Lys quase se esqueceu que Giles cochilava em seu ombro, então tentou não se mexer muito. Em seu peito, seu coração batia rápido e ele sequer piscava.

Como o usual, o velho elfo foi levado até o reptiliano de manto vermelho e ele tocou sua cabeça, escaneando suas memórias. Até que... o inesperado aconteceu. De olhos arregalados, Lys viu o reptiliano começar a tremer em convulsões até cair no chão. Sem entender nada do que estava acontecendo, viu dois reptilianos ajudarem o encapuzado a parar de se debater e a se levantar. Atento ao que acontecia lá em baixo, Lys viu pela primeira vez aquele reptiliano gritar repetidas vezes. “Passto! Passsto!!” De olhos arregalados, viu outros dois Tuk pegarem o velho pelos cabelos longos e arrastá-lo para longe dali. E de repente, tudo pareceu voltar ao normal. Exceto que nada estava normal.

Gi. – Lys tocou levemente o ombro do amigo para acordá-lo, sentindo-o tremer sobre sua mão. Sobressaltado, o esverdeado arregalou os olhos e sua respiração ficou entrecortada. – Ei, calma. Está tudo bem, sou eu. – O moreno imediatamente segurou o rosto do amigo dos as duas mãos e o forçou a olhar para ele. Ao encontrar os olhos vermelhos de Lys, Giles pareceu perceber onde estava e relaxou aos poucos no embrace do moreno. – Respire. Acabou, está tudo bem. – Lys sussurrava suavemente para o esverdeado e Giles respirou fundo, tocando as mãos do moreno e gentilmente se afastando do moreno assim que estava mais calmo. As mãos, no entanto, permaneceram unidas no colo do esverdeado.

Me desculpe. Eu achei que... – Ele murmurou baixinho, mas Lys o interrompeu com um olhar afetuoso e descartou as desculpas.

Não se preocupe. Está tudo bem, eu estou aqui. – O moreno sussurrou para ele. Giles sorriu fracamente para ele e, sem dizer nada, tocaram as testas, de olhos fechados.

Giles era como uma âncora para Lys, na maior parte das vezes, assim como o moreno era um porto seguro para ele. Eram ambos duas pessoas completamente quebradas e perturbadas, mas sabiam cuidar um do outro quando precisavam. Lys se lembrava exatamente de quando conheceu o esverdeado. Ele estava em seu horário de pausa da Coleta, ainda em suas semanas de dissociação. O garoto de cabelos esverdeados e olhos azuis se sentou ao lado dele, sem dizer nada, sem explicar nada. Ficaram assim por semanas, apenas sentados sem falar nada um com outro. E quando pareceu certo, começaram a comentar sobre algumas coisas aqui e ali. No mês seguinte, encontraram uma sombra longe do alcance dos reptilianos e se enroscaram. Às vezes eles choravam juntos, trocavam alguns beijos ou toques, ou simplesmente conversavam. Mas o vínculo estava ali, forte como as correntes de ferro que os prendiam dia e noite. Eles não conversavam sobre aquilo, não sentiam necessidade. Era apenas reconfortante saber que ambos tinham alguém para contar e conversar, ao invés de apenas enlouquecer lentamente.

Ficaram em silêncio por alguns minutos, apenas daquele jeito, juntos, conectados. Até que o barulho no pátio se tornou alto demais e Lys foi o primeiro a se afastar gentilmente daquele toque. Giles o olhava placidamente, ainda sensível. Lys respirou fundo e sorriu singelamente para ele. Mas logo desviou o olhar lá para baixo e se lembrou repentinamente do que havia acontecido.

Acho que tem alguma coisa errada acontecendo. – O moreno disse, pensativo e misterioso. Giles o olhou com uma expressão duvidosa.

O que quer dizer? – Ele perguntou, mas antes que Lys pudesse formular uma resposta concreta, escutaram passadas de metal atrás deles. Ao olhar para trás, viram dois Cavaleiros de Tuk prontos para botá-los de volta nas coleiras. A pausa havia acabado.

Eu conto a você na hora do jantar. – Lys murmurou baixo para que os Tuk não o escutassem. Giles, no entanto, o olhou entristecido enquanto ambos se levantavam do parapeito.

Eu não vou jantar no salão hoje. Tenho algumas coisas par–... – O esverdeado foi brutalmente interrompido quando um dos reptilianos o agarrou pelo pescoço para colocar a coleira de couro. O olhar de Lys ferveu de raiva ao ver a expressão de dor do amigo, mas não teve tempo de fazer nada, uma vez que o outro reptiliano também o agarrava para colocar a coleira. Sentindo o autocontrole bater à porta da razão, o moreno permaneceu quieto, assim como Giles. Com um último olhar silencioso, ambos os garotos se despediram e Lys viu o amigo ser levado em direção às escadas que levavam para os andares superiores, enquanto ele era arrastado para o níveis mais baixos. Com um suspiro, deixou-se ser levado de volta para o trabalho.

No entanto, durante todo o caminho para os salões do nível 2, Lys não parou de pensar no que tinha visto durante a Seleção naquela tarde.

 

 

 

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Uma chuva torrencial atingia a costa sudeste naquela noite. Com nuvens negras cobrindo totalmente o céu, a única fonte de luz provinha dos constantes relâmpagos da tempestade. Por todos os lados, tudo o que se conseguia distinguir da escuridão eram as sombras das árvores na floresta e as águas impiedosas do Mar Pardo. Tanto o som dos trovões quanto o barulho das ondas violentas se chocando contra o penhasco eram ensurdecedores. No topo da colina, a gigante fortaleza de Qaf se erguia assombrosamente, como um castelo do terror. Poucas luzes eram vistas acesas, nas torres altas da colônia. Mesmo sendo grosseiramente atingido pela tempestade, o lugar ainda parecia totalmente resistente e sólido, nunca abalado. Vigias patrulhavam rigorosamente o perímetro das muralhas e tudo parecia completamente normal. Exceto pelo fato de que era observado atentamente de dentro da densa floresta que o separava do resto do continente. Em meio às árvores, empoleirado em um galho alto e grosso à metros acima do solo, um grupo de quatro pessoas misteriosas e vestidas em mantos grossos observava a grande fortaleza ao longe.

O primeiro tinha os cabelos loiros ligeiramente molhados por baixo do capuz do manto que usava. Seus dedos se apertavam firmemente ao redor de seu arco, pendurado em seu ombro. Seu único olho, de orbe verde, analisava a fortaleza ao longe com cautela e atenção. Suas orelhas pontudas se contraíram ao captar o som familiar de grandes asas se batendo. Dois segundos depois, uma quinta pessoa, um garoto de longos cabelos negros amarrados em uma trança e enormes asas de corvo nas costas aterrissou bem ao seu lado no tronco alto da árvore, se empoleirando com cuidado para não cair.

Ai, que chuva deliciosa. – O garoto murmurou, a voz suave e satisfeita enquanto sorria e tirava o excesso de água dos cabelos escuros, batendo as asas para secar as penas. Antes que o elfo loiro tivesse a chance de dizer alguma coisa, um dos membros do grupo também em cima do galho se manifestou.

Ainda não admito que deixaram ele ir voar e eu não. – O rapaz murmurou enquanto fazia bico. Ele tinha belos cabelos ruivos, tão laranjas quanto o próprio fogo, igualmente encharcados pela chuva. Seus olhos incandescentes analisavam com tédio o ambiente ao redor.

Precisávamos ser discretos, Felgrand. Você quando voa parece mais um festival de fogos de artifícios. – Uma voz feminina e poderosa veio de outra membro do grupo, a que estava sentada no meio de todos. Por baixo do capuz, podia ver as belas feições de uma drow, de pele negra brilhando por conta das gotículas de água da chuva. Felgrand, o ruivo, bufou aborrecido enquanto se ajustava em cima do galho.

Isso se ele não parecesse um frango molhado tentando voar por aí com essa tempestade. – Um homem robusto sentado entre Felgrand e a drow comentou, cutucando a mulher com o cotovelo enquanto sorria de orelha a orelha. Ela o olhou séria, mas não afastou o toque. Felgrand se virou para rebater o que o bárbaro disse, mas foi logo interrompido.

Basta. – A voz calma, mas imponente de Erendyl contrastou com a tempestade. Após o silêncio que se seguiu, o elfo se virou para o Tengu ao seu lado. – Conseguiu ver algo de útil? – Ele perguntou e o garoto moreno, já devidamente sentado e enrolado em seu próprio manto, limpou a garganta antes de começar a falar.

A tempestade não me deixou ver muita coisa. – Ele começou, dirigindo o olhar para a fortaleza no alto da colina. – Não pude voar muito baixo para conseguir enxergar em meio à chuva, mas os relâmpagos me deram uma boa visão de cima enquanto eu sobrevoava. – Relatou, todos os outros membros o escutando atentamente. – Existe uma ponte levadiça na parte oeste da fortaleza e pelo pouco que consegui ver, estava sendo fortemente vigiada. Aparentemente, conecta à uma estrada que leva em direção à floresta ao longo do penhasco. Deve passar por Frestone se continuar seguindo naquela direção. – O garoto contou enquanto apontava as direções. Se a tempestade não estivesse tão impiedosa, Jade, a drow do grupo, certamente estaria anotando aquelas informações ou desenhando um mapa. Erendyl assentiu com a cabeça, tanto para agradecer o garoto pelas informações quanto para analisa-las em sua cabeça. Conseguia sentir as engrenagens trabalhando em sua mente.

Talvez utilizem a ponte como entrada e saída de recursos. – Jade murmurou, trazendo os olhares de volta para si. – Posso fazer guarda lá perto e analisar uma possível rota de entrada ou de fuga. – Disse enquanto buscava o olhar de Erendyl para consulta-lo. O elfo assentiu com a cabeça novamente, ainda perdido em pensamentos. Isolados do trio de estrategistas do grupo, tanto Felgrand quanto o bárbaro trocavam olhares entediados.

Odeio quando eles começam com todo esse blá blá blá de inteligentes. – O único humano do grupo grunhiu, o ruivo concordando com ele silenciosamente. – Não vejo a hora da ação. Meu machado está com saudades de sangue de réptil. – Ele disse, sorrindo, e Felgrand riu ao seu lado, se apoiando no tronco vertical da árvore.

Você diz isso, mas aposto que quando ver um Cavaleiro de Tuk na sua frente vai se cagar todinho. – Disse, ganhando um soco no braço vindo do outro. O ruivo apenas riu mais. – Imagine, o grande Krull tremendo igual à uma minhoquinha no meio da batalh-... – Felgrand foi silenciado com um tapa forte no topo de sua cabeça e ele se afastou para reclamar da dor enquanto Krullnam, o bárbaro, ria maldosamente ao seu lado.

Vai engolir essas palavras quando eu matar mais Tuks que você quando todo esse plano entrar em prática, sua galinha. – O humano de cabelos curtos castanhos disse, desafiador, e Felgrand sorriu de orelha a orelha com aquelas palavras.

Isso é uma competição? – Ele perguntou, mas sua única resposta foi o sorriso determinado e divertido do bárbaro. A conversa, no entanto, foi interrompida quando Erendyl os chamou a atenção mais uma vez.

Se as previsões do velho ancião estiverem corretas, essa tempestade só vai piorar daqui a cinco dias. – O elfo loiro disse, alto o suficiente para todos o ouvirem. O silêncio caiu entre o grupo, atentos à missão naquele momento. – Até lá, quero cada pedaço dessa floresta decorado e todo o nosso plano passado à limpo até os mínimos detalhes. Fui claro? – O grupo inteiro assentiu com a cabeça e murmurou “sim, senhor”, quase inaudível naquela tempestade. Erendyl então respirou fundo e se virou para olhar para Qaf pela milésima vez naquela noite.

Quais são suas ordens? – Jade perguntou, quebrando o silêncio. O elfo permaneceu em silêncio por alguns instantes, organizando seus pensamentos.

Jade, quero você na parte oeste. Analise cada centímetro do fosso e daquela ponte, não quero que nada passe por você sem que eu saiba. – O elfo orientou e a drow assentiu com a cabeça determinadamente, tendo suas ordens estabelecidas. – Kitakaze. – Erendyl se virou para o Tengu ao seu lado, que parecia exausto. – Você vai com a Jade. Vai ajudá-la e protegê-la. Se algo parecer estranho, quero que tire-a de lá imediatamente. – Ele disse e o garoto assentiu alegremente, sorrindo na direção da drow, que agora era sua parceira. Se virando para os últimos dois membros do grupo, o elfo suspirou. – Krullnam e Felgrand, vocês são os melhores rastreadores do grupo. Explorem esta floresta e descubram todos os recursos e rotas alternativas que possamos usar. Precisamos conhecer nosso terreno antes de tomar qualquer decisão. – Ele disse, e o bárbaro assentiu sério, enquanto Felgrand apenas suspirou entediado. – E por favor, não se percam ou se separem. Essas terras são cheias de Criaturas impiedosas que não vão hesitar em devorá-los. – Ele pediu, se dirigindo ao grupo todo. Desde a grande invasão reptiliana, monstros perversos e ferozes tomaram conta de todo o continente, espalhando terror e sangue. Os silverianos os chamavam de Criaturas. – Enquanto eu vou providenciar um abrigo provisório e alimento para todos nós. Certifiquem-se de estar nesse ponto de encontro antes do anoitecer. – O elfo loiro disse, por fim. Sua voz era calma, mas imponente e controlada. Em um momento de pausa, ele pareceu suspirar e então encolheu os ombros. – O destino do nosso povo depende do sucesso desse plano. Não podemos errar, não podemos hesitar, não podemos perder. – Ele disse, mergulhando o grupo em uma atmosfera tensa e silenciosa. Alguns minutos depois, o elfo baixou a cabeça e suspirou mais uma vez. – Isso é tudo, por hoje. A primeira vigília é minha, podem retirar-se para descansar. – Ele disse, dispensando os companheiros. Um por um, após desejar boa noite silenciosamente, os quatro outros membros do grupo abandonaram aquele galho, desaparecendo por entre as folhagens. Uma vez sozinho, Erendyl se afastou para perto do tronco vertical da árvore e se encostou lá, assumindo sua posição de sentinela.

A chuva ainda castigava o litoral impiedosamente. A cada relâmpago, a fortaleza se destaca mais no alto da colina. Erendyl observava a colônia com seu olho atento. Em sua mente, ele repassava as informações meticulosamente, mas em algum ponto, tanta preocupação fez seu cérebro parar de repente. Um piado familiar chegou a seus ouvidos e o elfo ergueu a cabeça para encontrar uma belíssima coruja, grande como um gato gordo, empoleirada logo acima de sua cabeça. Ela tinha as penas encharcadas e piscava lentamente com os olhos amarelos. Erendyl sorriu levemente e estendeu o braço para deixar um carinho nas penas da barriga da ave de rápida, ganhando bicadinhas carinhosas no dedo. Em silêncio, ele voltou a olhar para Qaf. Um estranho aperto em seu peito o incomodava. Fechou o olho, respirando fundo.

Que Siriel nos abençoe nessa empreitada. – Ele sussurrou e logo em seguida um poderoso trovão estourou nos céus. Assustando-se, a coruja sacudiu as penas e estendeu as asas, alçando voo de cima da árvore e desaparecendo na noite escura. Cruzando os braços, Erendyl se encolheu contra a árvore.

Uma tempestade sempre traz maus presságios.

 

 

 

_____________________

 

 

 

Três dias depois

 

A janela aberta deixava uma brisa fria adentrar o quarto naquela noite. As cortinas, rasgadas e pendendo precariamente do suporte na parede, esvoaçavam quietamente. O céu estava escuro, desprovido de nuvens. As estrelas brilhavam e a lua estava em sua forma minguante, apenas o desenho de um sorriso torto e macabro no céu. O quarto, por sua vez, era iluminado apenas por uma luz fraca provinda do fundo do quarto. Uma cama grande com um dossel tão rasgado quanto as cortinas estava no canto do cômodo, perto da janela. Não havia muitas mobílias ali, exceto as paredes recheadas de marcas de garras e manchas de sangue por toda parte. Para o homem deitado exatamente no meio do quarto, aquilo não passava da mais bela decoração que um lugar poderia ter.

Disposto no chão de braços e pernas abertas, ele detinha os olhos fechados e um sorriso quase embriagado nos lábios. Em suas bochechas, as escamas verdes brilhavam abaixo de seus olhos e desciam pela lateral do rosto até o pescoço, desaparecendo dentro das roupas frouxas e leves que ele usava. A pele, aquela que não estava coberta pelas escamas, era morena e reluzente como cobre. Seus cabelos, brancos como a neve que caía no norte, estavam bagunçados e pareciam não ver uma escova há meses. Ele era, à primeira vista, apenas um ser belo demais que tinha bebido além da conta e caído de qualquer jeito no chão. O que era mais surpreendente em sua aparência, no entanto, era a presença da protuberância de um nariz, coisa que nenhum reptiliano possuía.

O ar ao seu redor estava preenchido por uma estranha fumaça azulada, com alguns tons de roxo. Em sua frente, havia um pequeno caldeirão cheio de brasas quentes e várias Gemas, que derretiam e exalavam um cheiro incrível no ambiente. Era disso que o homem no chão estava entorpecido. Em sua mente, as mais belas alucinações de morte, tortura e sangue eram exibidas, deixando-o quase excitado.

Uma batida na porta, no entanto, o tirou de seus mais profundos devaneios. Com um suspiro entediado, ele murmurou a permissão para entrar. A porta pesada de madeira se abriu lentamente com um rangido, jogando luz para dentro do quarto.

Com lisscença, Milorde. – A voz sibilante de um reptiliano soou hesitante enquanto adentrava no ambiente. Caiu sobre um dos joelhos, baixando a cabeça respeitosamente. – Trago notíciasss urgentess do Sul. – Ele murmurou, caindo em silêncio imediatamente.

Com um suspiro entediado, o homem lentamente se moveu. Se apoiando nos cotovelos, ele ergueu a parte de cima do corpo e sua cabeça pendeu para frente num movimento grogue. Com dificuldade, ele se sentou e cruzou as pernas, levando seu tempo. Apoiando um cotovelo no joelho e a cabeça na mão, ele finalmente abriu os olhos, revelando íris amareladas assustadoramente lúcidas e inebriantes.

O que é tão importante que precisa interromper minha sessão de relaxamento? – Ele perguntou, a voz profunda e límpida deixando sua garganta, sem nenhum som puxado. O reptiliano limpou a garganta e continuou.

Um doss nosssos Arkeran deseja falar com o senhor. Diz que há uma... ameaça... ao vossso poder. – Ele sibilou, hesitante. Quase com medo. Aquela fala, enfim, pareceu o suficiente para despertar a atenção total do lorde sentado preguiçosamente no centro do quarto.

Ora essa... uma ameaça, é? – Ele assoviou, interessado. Um belo sorriso de canto surgiu em seu rosto e ele se espreguiçou, estalando as vertebras audivelmente. – Traga-o até mim. – O homem ordenou, a voz em um tom divertido, mas ao mesmo tempo autoritário e amedrontador.

Ssim, Milorde. – Ele aquiesceu, virando-se levemente para olhar por cima do ombro. – Mandem-no entrar. – Ele sibilou, e se levantou para sair ao passo que outro reptiliano imediatamente adentrou o quarto. Ele vestia o manto vermelho usual dos Arkeran. Ele se ajoelhou em frente ao lorde e fez uma reverência profunda.

Milorde Rkamal. – Ele sibilou respeitosamente. O homem sorriu para ele, dentes brancos perfeitos. – Trago notíciasss preocupantesss de–...

Não me recordo de ter lhe dado permissão para falar. – Ele sussurrou, a voz calma e baixa demais para o medo que causou no reptiliano.

Peço perdão, meu ssenhor. – Ele sussurrou e apenas ficou em silêncio enquanto encarava o chão. Rkamal, por sua vez, descruzou as pernas e assumiu uma posição bem mais relaxada, apoiando o corpo nas mãos para trás. Ele olhou para o outro lado do quarto, em direção à cama com o dossel rasgado e esticou a mão, como num convite.

Venha até aqui, querida. – Ele pediu, a voz sempre calma e atraente. Das sombras, uma pequena forma se moveu e engatinhou lentamente pelo chão frio do quarto. Somente ao chegar até a luz provida pela porta aberta do quarto é que pôde-se ter uma visão clara de quem era. Uma garota, quase adolescente, com orelhas de gato e uma calda felpuda. Usava uma coleira pesada e elaborada em volta de seu pescoço alvo e vestia apenas uma túnica que cobria precariamente seu corpo nu. Rkamal sorriu largamente e abriu mais as pernas, batendo levemente no espaço entre elas. – Não tenha medo da visita, venha. – Ele murmurou e a garota rastejou sobre mãos e joelhos até o lorde, onde se ajoelhou submissa entre as pernas longas dele. Ele ergueu uma mão e começou a acariciar calmamente os cabelos escuros da garota, logo abaixo das orelhas. – Prossiga. – Ele ordenou, distraído com a serva entre suas pernas. O Arkeran sequer pareceu se importar.

Obrigado, Milorde. – Ele sibilou antes de continuar. – Como eu dizia, trago notíciass preocupantess de uma dass Colôniasss ao ssul, em Kiotsssu. – Rkamal gesticulou para que ele continuasse enquanto devotadamente aspirava o pescoço da garota, um sorriso bobo nos lábios. – Eu temo que um velho sssacerdote que capturamoss em um combate contra rebeldess posssa ter feito uma profecia que ponha seu reinado em... risssco. – O Arkeran replicou com cautela. Ao ouvir aquilo, o lorde ergueu o olhar da garota para encarar o reptiliano com olhos amarelos extremamente assustadores. Mas foi somente por um segundo, uma vez que ele sorriu e voltou a acariciar a híbrida em seu colo.

Uh, profecias são sempre perigosas, não é mesmo, princesa? – Ele cantarolou, a garota entre suas pernas assentindo com a cabeça levemente. Seu olhar era opaco e vazio, como se não tivesse consciência. – O que você viu? – Ele perguntou, finalmente, e o Arkeran limpou a garganta antes de continuar.

Quando ssondei suass memóriass, eu essscutei uma voz sserena susssurrar ssobre um humano. Um filho da tempessstade e da luz. – Aquela informação fez com que Rkamal erguesse a cabeça de repente, atento. – Essse humano esstá desstinado à encontrar uma relíquia que colocará fim às... trevass. Foi tudo o que vi. – Ele completou, receoso de falar algo mais. O quarto ficou silencioso por alguns minutos, apenas o som das brasas estalando no caldeirão em frente ao lorde. Até que então, uma risada ressoou.

Interessante. Muito interessante. – Rkamal sussurrou. Sem dizer mais nada, ele se virou para a garota, sorrindo largamente como se tivesse acabado de ganhar um presente. Em silêncio, ele tocou o rosto da híbrida e a fez olhar para ele, os olhos opacos encarando os amarelos. – Parece que aquele anjinho ainda não desistiu, não acha, princesa? – Ele sussurrou para ela, mas não obteve uma resposta. Ele riu baixinho, mas logo depois evoluiu para uma gargalhada, tão alta e contagiante que por um momento o Arkeran pensou que ele tinha ficado louco. Exceto pelo fato de que Rkamal já era completamente louco e dissimulado.

Quaiss ssão suass ordenss, Milorde? – O reptiliano sibilou, incerto sobre como prosseguir com aquilo. Rkamal cessou com a risada aos poucos e então, sorrindo feito um louco, olhou para ele com uma expressão de puro divertimento.

Quero todos os filhos da tempestade desse reino degolados e esquartejados, pendurados nas muralhas e no meio das praças. – Ele sussurrou, deixando o Arkeran com medo. – Se alguém ouvir falar de um filho da tempestade que nascerá, quero ele morto antes que possa abrir os olhos ao sair do útero da mãe. Fui claro? – Ele perguntou, encarando o reptiliano com os olhos amarelos mortais. O Arkeran engoliu em seco e assentiu com a cabeça, fazendo outra reverência profunda.

Sserá feito, Milorde. – O reptiliano sibilou. Satisfeito, Rkamal desviou o olhar para a garota entre suas pernas. Com um sorrisinho, acariciou sua bochecha, perdido nas feições recatadas da híbrida.

Agora vá embora. Está na hora do meu jantar. – Ele murmurou, lambendo os lábios. Os olhos amarelos estavam fixos na pele alva do pescoço da garota, as pupilas tremendo e alternando entre fendas afiladas e orbes redondas.

O Arkeran assentiu com a cabeça uma última vez e se levantou, se virando para sair pela porta. Ao se virar para fechar a porta, teve um vislumbre de seu lorde, com muito mais escamas em sua pele que antes e uma aura assassina ao seu redor. Desviou o olhar e fechou a porta.

Segundos depois, quando se afastou, escutou os gritos estridentes e agonizantes atrás da porta pesada de madeira.

 

 

_____________________

continua


Notas Finais


Já que eu não fiz uma ficha propriamente dita do Lys, a cada capítulo vou deixar aqui nas notas finais duas informações sobre ele, ok? A primeira é que ele tem Cyanophobia, medo irracional da cor azul. Aposto que vocês sabem porque rs. E a segunda é que ele sofre de TEPT (Transtorno de Estresse Pós-Traumático), mas isso vai ser mais desenvolvido mais para a frente. O que acham? :D

E AAAAAA alguns de vocês já apareceram <3
Não se preocupem que em breve todo mundo vai estar juntinho coladinho!
Como estão nosso grupinho de cinco, hein?
Digam nos comentários!

Aliás, o que vocês acharam do Giles? Hehehe.
Me digam suas opiniões e teorias!

No mais, eu realmente espero que vocês tenham gostado.
Eu reli e revisei, como sempre faço, mas qualquer errinho pode acabar passando despercebido por mim. Se vocês notarem algum, por favor me digam para eu arrumar! :D

Até o próximo capítulo, meus amigos <3
Beijos do Theo!




PS: para as pessoinhas que ainda não me enviaram os formulários, fiquem atentos, viu! <3


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