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História SKIN AND BONES vhope abo - Capítulo 16


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Notas do Autor


Esse capítulo é POV tae, certo?

Boa leitura!

Capítulo 16 - Transbordar


Hoseok é um grande asno.

Sim, asno. Tolo. Idiota. E a cada instante que passa eu tenho mais raiva dele.

Eu começo a duvidar um pouco da sua capacidade para discernir as coisas e tomar decisões. Porque, sinceramente, está se tornando cada vez mais difícil para mim entende-lo, chegando quase ao impossível.

Eu vos digo e não minto, se eu não fosse tão irremediavelmente e inconscientemente ligado a esse alfa, vos juro que já o haveria fincado uma flecha.

Não para matar, claro, não me levem a mal.

Mas talvez uma no dedo pé, ou uma de raspão no braço, apenas para tentar da-lo uma lição, talvez puni-lo minimamente por ter tido a coragem de falar logo para mim todas aquelas tolices que ele pensava sobre si mesmo.

Não doeria tanto, eu prometo. Claro que eu o cuidaria depois, eu sou um homem caridoso.

Quem sabe dessa forma ele não conseguisse pelo menos acordar para a realidade de que ele não pode se ver do jeito que ele se vê. De que ele não pode se condenar do jeito que se condena. De que ele não pode se privar do que o faz bem por achar que não merece. De que não pode achar que precisa viver o resto da vida sozinho por conta de algo o que ele não consegue ter total controle.

Afinal, digam-me, quem na vida tem o controle de tudo? Bem que eu queria que fosse fácil assim, mas não é.

Eu penso tudo isso com bastante raiva dentro do meu coração, não só porque ele é acostumado a ser preenchido de raiva, mas porque a cada vez que ele me mostra acreditar em cada uma dessas coisas, eu tenho mais vontade de jogá-lo de um penhasco.

Literalmente.

Mas é que o ver desse jeito, o ver do jeito que eu o encontrei, sangrando feridas as quais não merecia sangrar. Apenas saber que ele chegou ao ponto de se machucar daquela forma.

Isso me machuca também.

Porque eu o amo. Eu o amo tanto.

Não que ele saiba disso, porque quando eu deixei escapar ele provavelmente já dormia, ou simplesmente não escutou. Mas sim, eu o amo, eu o amo, eu o amo.

E eu não canso de repetir isso para mim mesmo em minha mente, porque me é tão novo me sentir assim que faz meu corpo formigar todo, minha boca secar, meu coração apertar. É empolgante.

Eu o amo.

Eu amo alguém.

Entendam que eu sou Kim Taehyung. Eu não sou de amar. Nunca fui.

Não é porque eu sou algum tipo de amargurado que sofreu traumas na infância que me fizeram frio e calculista. Minha infância foi boa na medida que se podia ser quando se faz parte da realeza e se vive limitado às paredes de um castelo, rodeado de pessoas superficiais.

Então não é nada disso, é que eu só realmente nunca consegui ter verdadeiramente muita empatia por ninguém, eu vos juro. Eu sempre fui tão assustadoramente apático. Eu sequer gosto de meus pais.

Acho que não gostar não é sequer suficiente. Eu os odeio. Essa história de que família é tudo, de que família se ama incondicionalmente... Tolices.

A maneira que tentam me podar, a maneira como encenam um casamento feliz quando na verdade é repleto de traição e cinismo, a maneira em que só pensam em poder, em tratados e acordos por dinheiro. Tudo isso sempre me fez ser mais recluso com eles, os desprezar. Estar em sua presença é sempre ter a absoluta certeza de revirar meus olhos pelo menos uma vez a cada minuto.

E eu o sou cada dia mais... Apático, eu digo. Mal posso esperar para que meu pai finalmente passe dessa para uma pior.

Na minha vida toda, eu senti amor de verdade por uma pessoa e apenas uma, e ela se chama Jimin.

Meu irmão. Meu coração e meu sangue. Somos diferentes, mas nos complementamos.

Eu morreria por ele. Ele podia ser um pouco chato às vezes, mas era a única pessoa que eu conseguiria genuinamente dizer que amava, sem pestanejar.

Bom, ele era. Até eu me deparar com esse tolo que agora caminha ao meu lado.

Hoseok me teve desde o primeiro momento em que me olhou daquele jeito abobalhado, sentado na cama daquela cabana, aonde eu o cuidei depois de tê-lo encontrado desmaiado.

Minto, Hoseok me teve desde o momento em que de longe me revelou o vermelho de seus olhos, do alto daquela janela. E por isso eu não conseguia compreender por quê ele tinha tanta vergonha disso. De seus olhos, de seu lobo, de sua natureza.

Ele é tão lindo. Tão ele.

Eu só não entendo.

Porque ele me faz ficar completamente louco e confuso. Ele me olha nos olhos dizendo as juras de amor mais lindas e sinceras, me tem completamente entregue, completamente seu sob a luz dos vaga-lumes e das estrelas... para ao mesmo tempo, depois, me dizer  que tem de ser sozinho? que tem de fugir? Me dizer que não me merece, que não pertence ao "meu grupo"?

O que ele tem na cabeça? Ele pertence comigo, oras.

Ele tem um coração tão lindo e esse jeito tão dele de conseguir fazer brotar em mim reações e sentimentos os quais eu sequer sabia que existiam.

Quando, em minha vida, eu iria imaginar que coraria falando com um alfa, que eu perderia as palavras ao o olhar, que eu pediria, com tanta vontade, para ser seu primeiro, que eu sequer desejaria um alfa fora de meu cio.

Quando eu iria imaginar que me aninharia a um alfa do jeito que eu me aninho a ele, dormindo tão serenamente em seus braços, sentindo aquele cheiro doce que me acalma de forma tão certa.

Pelos Deuses, que saudades eu tenho de dormir em seus braços.

Certo... Eu sei que dormi noite passada, mas dane-se, eu quero novamente. Não há problema nisso, inclusive, depois do que ele mostrou saber fazer essa manhã, não acho que conseguirei passar mais uma noite longe de seus lábios.

É que quando ele me provou daquele jeito... sob a luz morna e suave da manhã, por entre a grama longa que balançava com o vento ao nosso redor. Quando ele me fez arrepiar e queimar em todos aqueles lugares que eu nem sabia que eram possíveis de arrepiar, com os toques firmes de suas mãos por todo o meu corpo. Quando ele me fez gemer tão alto, imerso em uma satisfação tão plena ao me possuir daquele jeito... Eu sequer tenho palavras.

E, vos digo, eu não sou do tipo de perdê-las tão fácil.

Eu nunca gemi o nome de um alfa, nunca. Mas o dele sim.

Hoseok.

E foi tão, tão bom.

O olhei novamente, ele andava ao meu lado, segurando Mang com uma mão e deixando a outra em seu bolso, a calça que vestia desde ontem marcava bem as pernas finas e definidas. Sua camisa branca de linho estava manchada de sangue e um pouco úmida com a água do lago, ficando um pouco transparente e deixando o torço acinturado visível pelo tecido agora transparente.

Ele passou a mão enfaixada nos cabelos escuros levando-os para trás e a linha da sua mandíbula se tornou visível, contrastando com o fundo esverdeado da floresta que marcava a silhueta.

Não, Taehyung... Agora não... Vocês tem um grupo para reencontrar. Uma viagem para seguir. Tira esses pensamentos de tua mente. Te controlas.

Mordi o lábio sem perceber, ainda o olhando. Notei que ele franzia um pouco o rosto, incomodado com a dor nas ataduras recém feitas em seus braços.

Hm... Bem feito.

— Não te atrevas a tocá-las. — Eu falei, sério, percebendo a expressão irritantemente adorável que ele mantinha olhando para os braços, era como se tivesse vontade de mexer nas ataduras. —  Eu não as farei de novo se tu as estragar tocando.

O que era mentira, porque por ele eu as refaria de novo e de novo, quantas vezes fosse necessário para que ele estivesse bem. Mas ele não precisava saber disso.

—  Mas elas coçam. —  Ele resmungou, franzindo mais a sobrancelha e fazendo um bico emburrado, olhando para os braços. Quase ergueu uma mão para tocar nas ataduras, mas eu peguei a flecha que segurava e a usei para impedir que a mão tocasse as faixas, num movimento rápido. Ele me olhou surpreso.

— Bom... pensas nisso na próxima vez que tentares te machucar. Não sejas teimoso, Hoseok, a coceira vai passar. - Eu disse, empurrando a mão para longe do braço com a flecha e depois a colocando de novo em minhas costas.

—  Tu estás muito arisco comigo. —  Ele reclamou baixinho, abaixando a mão e bufando um pouco, olhando para o outro lado num gesto de quem havia ficado magoado.

—  Talvez porque eu ainda não esqueci que tu tentaste fugir daquele jeito. Tu planejavas fazer o que, Hoseok? Morar na floresta? —  Eu perguntei, indignado.

Eu podia ter cedido ao seu encanto e aos desejos de meu lobo para beijá-lo longos minutos momentos atrás, mas isso não anulava minha irritação.

— Eu não fugia de ti, tu sabes. — Ele respondeu. Olhando para baixo antes de me olhar, constrangido. - Eu fugia por ti. Pelo teu bem, Taehyung. Tu... tu mereces algo melhor.

— Essa foi, de longe, a coisa mais estúpida que tu já me disseste. — Eu o olhei cortante, furioso. Sinceramente não havia mais paciência com aquilo. — Meu bem é ficar ao teu lado, tu entendeste? Se tu me tentares fugir de novo eu te trarei de volta acorrentado pelo pescoço, tal como o monstro que tu juras ser. E eu não estou a brincar.

Seus olhos se arregalaram para mim, que ainda mantinha o meu furioso e cortante. Ele depois se encolheu e se afastou um pouco, virando o rosto novamente.

— Arisco. — Ele falou baixinho numa reclamação, como se quisesse que eu não escutasse. Parecia uma criança birrenta que eu tinha que cuidar.

—Teimoso. — Eu respondi, sorrindo um pouquinho de lado, chegando mais perto e empurrando-o um pouco de lado com o quadril, ao que ele sucumbiu à minha provocação e me olhou rindo um pouco também, envolveu o braço em minha cintura e me deixou um beijo terno no ombro, cheirando um pouco antes de me soltar.

E eu corei.

Era tão estranho corar assim. Ele era um alfa, pelos Deuses... Eu não gosto de alfas.

Ou gosto?

Minha vida era tão irritantemente monótona antes de eu encontrá-lo, e agora tudo é tão mais agradável ao seu lado.

Tudo bem que não pelos melhores motivos, afinal a última coisa que eu queria era estar aproveitando de sua companhia nos preparando para um possível embate, mas ainda assim era empolgante para mim ficar longe daquele palácio e dos meus pais por tanto tempo. E tudo isso ao lado dele. Era empolgante. Me agradava.

Ainda nos alfinetávamos com palavras quando chegamos aonde estava o agrupamento, fato que contrastava um pouco com nossas mãos que estavam dadas. Yoongi conversava com alguns dois homens com um mapa em uma mão e com a outra em sua espada quando nós olhou nos aproximando. Veio até nós rápido, com um sorriso no rosto.

— Tu o achaste. Pensei que não fossem voltar. — Ele disse, depois olhando um pouco preocupado para Hoseok, que parecia constrangido demais para levantar o olhar.

Ele ainda tinha vergonha e sua mão tremeu um pouco, aumentando o aperto na minha em uma forma de pedido de ajuda silencioso.

— S-sim... O Hoseok só precisava descansar um pouco. O encontrei no lago pouco depois que ele saiu. Nós tomamos um banho e acabamos demorando demais.

Menti o melhor que pude sobre os alfas, sobre o estado em que encontrei Hoseok e sobre o lobo que ele me disse ter os matado. Porque senti um aperto em meu coração que me fazia saber que ele não queria que eu contasse. Então não contei.

— Um banho? — Ele levantou a sobrancelha. — Quantas vezes vamos ter que atrasar viagem porque vocês dois não conseguem tirar as mãos um do outro? — O sorriso já estava aberto e debochado e Hoseok que até então estava nervoso se permitiu rir um pouco, coçando a nuca.

Certo, não foi a melhor mentira para ter contado.

— Oras... Cala-te. — Falei, envergonhado. — Mas, então, Woosung está bem?

— Sim, sim... Algumas feridas no pescoço mas nada muito grave, já deve estar importunando o juizo de outra pessoa... Hoseok. — Ele encostou no ombro do que estava ao meu lado. — Algo que eu aprendi em anos de treinamento é que a partir do momento em que nós deixamos de ver nosso lobo como um inimigo e começamos a o ter como aliado, o controle vem naturalmente. Até lá, todos nós nos descontrolamos às vezes. Na verdade, se fosse eu em teu lugar, não acho que teria soltado aquele aperto. Tu não precisas te sentir mal por ter reagido daquele jeito quando teve de ouvir alguém falando aquelas coisas a teu ômega.  - Ele chacoalhou o ombro do alga ao meu lado, que assentiu com um sorriso e olhos sinceros, mas não parecia acreditar em uma palavra do que o outro dizia.

E eu corei, de novo.

Ele disse "teu ômega".

Há uns tempos atrás, se Yoongi se referisse a mim desse jeito, eu já estaria apontando uma flecha em seu pescoço, mas ali eu sequer me incomodei em contestar as palavras usadas.

Pelos Deuses... Eu, Kim Taehyung,  tinha um alfa, em que mundo eu estava vivendo?

— Onde ele está? — Hoseok perguntou, agora mais sério, a Yoongi, e eu saí dos meus pensamentos e o escutei. — Woosung.

Yoongi suspirou antes de apontar para atrás de si, aonde era possível ver Woosung sentado em um dos troncos, segurando uma espécie de pano molhado em seu pescoço e franzindo o rosto de dor. Eu olhei dele para Hoseok e de Hoseok para ele.

— Tu queres ir lá? Não é preciso se tu não te sentes bem. — Eu falei, me virando para ele e levando uma de suas mechas escuras para de trás da orelha, ele não tirava os olhos do outro. Ele mantinha a mandíbula travada e eu passei os dedos em seu rosto na tentativa de atrair seu olhar ao meu.

Eu sabia que isso o acalmava, então nunca hesitava em o fazer sempre que o sentia nervoso. Já era quase um hábito.

— Eu preciso. — Ele não me olhou — Pedir perdão... Para poder continuar viagem e tentar deixar isso para trás. — Respirou fundo e saiu de minha frente, se encaminhando para onde o outro alfa estava. 

Eu suspirei e o acompanhei.

— Ora... Vieste terminar o que começaste? — Woosung podia estar ferido mas não perdia o sorriso debochado dos lábios. Sentado em frente a Hoseok.

— Eu vim te pedir perdão. — Hoseok falou, sério e confiante como eu nunca havia o visto. — Eu perdi o controle, não devia tê-lo machucado assim. 

Woosung por um segundo perdeu o sorriso dos lábios, como se surpreso com as palavras de Hoseok, por esse tempo pensei que talvez até houvesse se tornado uma pessoa menos desprezível, mas depois desses segundos um pouco vacilantes, lá estava de novo o sorriso em seus lábios.

Ele tirou o pano ensanguentado do pescoço e as feridas ficaram aparentes, colocou-o ao seu lado, pôs as mãos nos joelhos e se levantou, chegando perto de Hoseok. Os narizes quase se tocaram em um gesto de desafio.

— Deixa-me te contar algo, Hoseok. — Ele mantinha o risinho no rosto enquanto falava em um tom cínico. — Quando eu era filhote, eu e meus irmãos amávamos escapar dos limites de nossa casa para irmos brincar pelos campos no fim de tarde. — Hoseok franziu a testa e eu também, sem saber aonde ele queria chegar com aquilo. — Nossa mãe nunca gostou muito que ficássemos fora quando escurecia, sabes? Nos mandava voltar antes do por do sol, mas nós nunca ouvíamos muito às suas ordens. Afinal, éramos filhotes. — Ele gesticulou com a mão e sorriu como se contasse uma história a um grande amigo. — Então continuamos assim, a desobedecendo e permanecendo fora até tarde. Até que um dia ela resolveu nos contar uma história muito assustadora. Tão assustadora que, depois dela, eu e meus irmãos até começamos a obedecê-la e respeitar o horário, de tanto medo que tivemos.

Hoseok já perdia um pouco a firmeza, respirando descompassado. Woosung riu a reparar. Continuando:

—  Sabes qual era a história, Hoseok? — Ele perguntou antes de segura-lo pelo ombro para falar perto de seu ouvido, sem perder o sorriso. — A lenda do alfa assassino do Ducado Leste. — Ele se afastou, o olhando. — Te pareces familiar?

Ele perguntou cínico e Hoseok travou a mandíbula, sem reação. Sua angústia se fazia sentir dentro de mim e era horrível.

— Então, sim, claro. Te perdoo. — Ele falou, dando um tapinha de leve no rosto do outro, com um sorriso amigável dos mais falsos. — Mas vamos ver até quando tu te aguentas sem tentar matar alguém de novo. É o que tu fazes, não?

Foi a última coisa que disse antes de olhar para mim também de forma debochada, lançar um pequeno beijinho com os lábios e seguir por entre nós dois, se afastando de costas.

Em dois segundos meu arco estava armado em minhas mãos e eu já mirava certeiro em seu ombro. Bufando de raiva e desconcertado. Ele sequer havia percebido, era o momento perfeito.

Mas a mão de Hoseok também foi rápida ao me segurar o braço, tentando o abaixar, com calma.

—  Não é preciso. Não o machuques. Basta.— Ele falou em um tom baixo, com uma expressão resignada. Olhos tristes e sérios. 

Eu o olhei ofegante, e afastei meu ombro de seu toque endireitando o arco.

— Tu ouviste o que ele te diss... — Tentei falar, mas fui interrompido.

— Sim. E ele está certo, Taehyung. Ele está certo. — Ele falou, convicto, e eu neguei com a cabeça e abri a boca nervoso, disposto a discutir. Ele colocou de novo a mão em meu braço e o abaixou da posição armada, suspirando e olhando ao redor. — Eu vim o pedir desculpa e foi isso que eu fiz. Agora acabou, sim? E-eu vou buscar Tannie, depois seguimos viagem. — Ele deixou a mão despencar de meu ombro e se virou para andar lenta e pensativamente para onde estavam os cavalos.

Não parecia querer ser acompanhado.

Então eu abaixei a flecha e o arco de minhas mãos, o observando andar e me sentindo cada vez mais péssimo por conseguir saber dentro de mim o que se passava dentro ele. Mas o riso de Woosung ao longe, que segurava uma maçã em mãos, passando-a de uma para a outra enquanto conversava com outro alfa, me prendeu a atenção novamente.

Eu estava furioso.

Travei a mandíbula e armei novamente, espremendo os olhos e soltando a flecha em questão de segundos. Ele caiu para trás, apoiado nos cotovelos com uma expressão amedrontada quando a flecha acertou certeiramente a maçã que segurava, a fincando em um tronco. Todos olharam para mim um pouco assustados com o som e depois com a imagem. Woosung ainda ofegava no chão, olhando atônito para a maçã e depois para mim.

E eu sorri o mesmo sorriso debochado que ele tanto gostava de exibir, abaixando meu arco. Olhei para ele e depois para as pessoas surpresas ao redor. Algumas já riam da expressão completamente assustada do alfa no chão.

— Que desastrado sou, derrapou de minha mão, perdão. —  Falei de maneira tão cínica quanto a dele, com uma falsa vergonha.

Bom. Hoseok havia dito para não machuca-lo. Ele não disse nada sobre assustá-lo.

De qualquer jeito, me virei e fui desfilando calma e serenamente para onde ficavam os cavalos, tentando encontrar Hoseok.

Quando cheguei, o lugar era um pouco mais distante e só ele estava lá.

Eu o procurei, animado para o falar que havia assustado Woosung, mas ao finalmente por meus olhos nele, a cena me doeu. Ele estava junto de Tannie e acariciava os lados do rosto do cavalo, segurando-o em frente ao seu. Mordia o lábio como se segurasse um choro que cairia a qualquer momento.  E então fechou os olhos, respirando forte.

Eu via suas mãos tremerem nas laterais do animal. Os cabelos bagunçados de tudo o que ocorreu, os braços ainda revelando todas as marcas de sua própria angústia e as roupas ensanguentadas não fazendo diferente. Ele ainda não havia reparado minha presença ali.

E eu não sei porque aquela cena foi tão impactante em mim, realmente não sei. Mas meu coração doeu dentro de meu peito como se houvesse sido atingido por cem flechas ao mesmo tempo e eu perdi a respiração, literalmente a perdi.

Eu não aguentava vê-lo sofrendo daquele jeito. Não aguentava.

Até aquele momento eu havia tentado disfarçar isso tudo com uma fúria e irritação direcionada a ele, porque eu realmente detestava o ver sendo tão duro consigo mesmo, minha paciência nunca foi das maiores. Mas ali, o vendo chorar tão aquele choro discreto e sutil, compartilhando de seus sentimentos tão tristes unicamente com o animal a sua frente, que sequer entendia, eu não consegui me sentir impaciente ou irritado. Eu não tinha vontade de gritá-lo ou de simplesmente ditar que não deveria deixar as palavras de Woosung lhe afetarem.

Porque eu sabia que não era simples assim. Para ele, não era.

Ele tinha cicatrizes de feridas em sua alma que o marcaram mais profundo do que eu conseguia alcançar.

E, infelizmente, essas feridas eu não conseguia cuidar com água e ataduras novas.

Era essa sensação de impotência que me deixava tão sensível ao que ele demonstrava ali. Que fazia a raiva e irritação se esvaírem de meu corpo deixando só a tristeza. Essa sensação de impotência que me fazia apertar as mãos em punhos e me esforçar para segurar meu próprio choro sem saber se conseguiria.

Porque doía, doía nele e então doía em mim. Às vezes eu chegava a me perguntar se aquilo era realmente normal. Porque eu já havia escutado histórias lindas sobre imprinting, todas o retratando como algo tão bonito.

E não que nossa ligação não fosse bonita, ela o era, ela era linda.

Mas era também tão dolorosa. Era doloroso sentir dentro de mim todos os sentimentos que ele guardava sobre si mesmo, toda a mágoa e rancor que ele tinha de seu próprio lobo, era ensurdecedor ouvir alto como se fosse em meus ouvidos todo aquele gritar de dor que ele carregava dentro de si, que ele se esforçava para calar sem conseguir, que ele tentava tanto abafar.

Mas eu escutava, eu sempre escutei.

Eu o senti gritar por socorro desde que o vermelho de seus olhos preencheu o azul dos meus de cima da sua janela, eu o senti gritar por socorro quando estava em perigo e eu o senti gritar por socorro quando ele flagelava a si mesmo. Por isso o encontrei.

Eu escutava todos esses gritos e me deixava doente não conseguir fazê-los parar, porque eu conseguia acalmá-lo em alguns momentos, e esses eram os mais lindos, mas de alguma forma eles sempre pareciam voltar. Seus pensamentos ruins voltavam, seu rancor de si mesmo voltava e ele sempre se afundava novamente nessa parte obscura de seu íntimo, fazendo todo o esforço do mundo para não me permitir ir junto. Trancando as portas com força em cima das minhas mãos, que tentavam as abrir a qualquer custo, para que não sofresse sozinho.

E era isso que me doía mais.

Porque eu o amo tanto. Tanto. Eu o amo de um jeito que nunca pensei que eu fosse conseguir amar.

Até porque eu nunca pensei que fosse conseguir amar.

É diferente.

Porque é um tipo de amor que ultrapassa qualquer das sensações que eu jurava serem as melhores.

O amar era melhor do que cavalgar nos campos. Era melhor do que sentir o aroma da madeira das árvores e da vegetação robusta da maior floresta. O amar era melhor do que escutar o barulho das folhas balançando serenas com o vento de fim de tarde. O amar era melhor do que sentir esse mesmo vento gelado e forte me puxando os cabelos para trás enquanto eu cavalgava Mang como se nada pudesse me deter. O amar era melhor do que sentir as rédeas firmes em minhas mãos e o balançar meu corpo com o trotar compassado do cavalo. O amar era melhor do que acertar cada alvo certeiro, do que ouvir o barulho de cada uma das minhas flechas cortando o ar, era melhor do que beber a água cristalina de um lago depois de fazer tudo isso. Do que me deitar na grama depois de tudo e fechar os olhos. Do que abri-los e me deparar com a silhueta escura das folhas se mexendo em cima de mim, emoldurando o céu azul na mais bonita das paisagens.

O amar era melhor do que tudo isso. Me preenchia mais do que tudo isso.

Ele me preenchia. E eu sequer sabia que estava tão vazio até encontrá-lo.

Eu o amo. Eu o amo tanto.

E ele se detesta.

O que ele não entendia é que sim, ele podia até ter instintos que mereciam um cuidado maior, ele podia até ser o seu próprio lobo.

Mas ele também era isso, ele também era esse que eu via agora.

Ele também era esse par de olhos castanho-esverdeados que me conseguiam me encantar do mesmo jeito. Ele também era esse alfa que se deixava chorar, que se deixava sentir, que se deixava cuidar por mim. Ele também era o tolo desajeitado que me desejava com os olhos de forma tão óbvia, me fazendo abrir o maior dos sorrisos toda vez que eu o flagrava me admirando assim. Ele também era o irmão tão bobo e orgulhoso que parecia não querer calar a boca toda vez que começava a falar como Jungkook era incrível, como era gentil, como era importante. Ele também era aquele rosto tão sensível de quem pareceu ter visto as estrelas dançarem quando foi tocado pela primeira vez. Ele também era aquele que resmungava baixinho das minhas ataduras como se fosse um filhote emburrado.

Ele era tão mais do que ele acreditava ser. Tão mais.

Eu segurava meu choro ao pensar tudo isso e mantinha minhas mãos em meu arco, com força, o olhando ali. Ele ainda estava de olhos fechados e deixava aquelas lágrimas furtivas caírem discretas do canto de seus olhos, deixando sua vulnerabilidade se mostrar de uma forma que se tentasse, até a conseguiria esconder.

Mas não de mim. Meu olhar o transpassava. E eu via tudo. Eu o via por inteiro.

Me aproximei de um jeito lento, sem querer assustá-lo, andando até chegar mais perto, ele estava ainda absorto em seu momento e eu não sabia se havia me notado.

Então eu tentei o tirar desse transe, o chamando baixinho. Eu consegui quase escutar um pequeno fungado quando falei:

— Hoseok... — Eu quase sussurrei e ele não respondeu nada, apenas descendo uma das mãos do rosto do cavalo e segurando no meu pulso em um gesto que me surpreendeu. 

Eu tentei verbalizar alguma outra pergunta mas quando percebi ele já estava com o rosto em meu pescoço, o molhando com suas lágrimas que agora não eram mais tão furtivas, era como se não mais tentasse abafar os gritos de socorro, era como se não se importasse mais em me esconder o que sentia.

Ele chorava e fungava em meu ombro de um jeito que não era escandaloso ou alarmante, mas que era triste. Era um choro baixo, ainda discreto, mas abundante. Eu usei meu braço livre para o envolver o pescoço e os cabelos da nuca, numa tentativa de acaricia-la para que soubesse que eu estava ali, e ali ficaria até que melhorasse.

— Hoseok... Não choras, por favor, não choras... — Minha voz era falha enquanto eu o passava a mão levemente em seu pescoço e afundava minha boca em seus cabelos, os beijando depois da falar isso baixinho.

Ele não parava.

Eu tentava ser firme por nós dois, mas era difícil.

— Filhotes. — Ele falava sem parar de deixar meu pescoço úmido, eu sentia seus lábios se movendo em meu pescoço de forma trêmula, entre os soluços quase inaudíveis que dava. —Eram filhotes, Taehyung. E-eu pensei que eu mudaria. Eu pensei que eu me controlasse o bastante para conseguir viver aqui fora sem causar mal a ninguém. — Ele soluçou outra vez e continuou. — Mas eu não me controlo. E-eu não vou mudar. Eu posso até tentar fugir de vocês, mas de que me adianta isso se eu nunca consigo fugir de mim? — Essa parte ele chegou a falar alto, como num desabafo. — Eu não aguento mais viver assim, viver com essa culpa. Eu não aguento mais viver comigo, Taehyung. D-dói tanto. Dói tanto. Eu só queria que parasse. Eu só queria fazer parar, m-mas eu não consigo. F-faz parar. Por favor. Por favor.  — A voz variava em tons que já eram finos pela agitação e eu sentia as lágrimas escorrerem pra dentro da minha camisa, ele segurava forte o meu pulso e afundava mais o rosto em meu pescoço. O choro ficando mais alto.

Meu coração quebrava a cada palavra, ao fim da última já estava completamente destroçado. E doía mais porque eu não sabia como fazer parar. Eu não podia chorar também. Naquele momento eu queria que o meu olhar fosse suficiente, que meu cheiro fosse suficiente. Até tentei fazê-lo mais forte mas seu nariz estava entupido, não funcionava tão bem.

— Hoseok, se eu pudesse pegar toda a tua dor e colocá-la em mim para que tu não sofresses assim, eu faria. — Eu falei baixinho, tentando consola-lo de alguma maneira, de algum jeito não quis confrontar suas palavras daquela dor. Ele queria chorar. Precisava chorar. Eu não o repreenderia daquela vez. — Se eu pudesse pelo menos por um segundo te fazer te ver como eu te vejo. Tu verias que viver contigo não é ruim, não dói. — Eu acariciava ainda os dedos em seu pescoço enquanto falava perto de seu ouvido, por entre seus cabelos. — Que não causa mal a mim, nem a ninguém. Viver contigo é tudo o que eu mais precisava. Viver contigo é... é... — As palavras começaram a me escapar porque eu me sentia tão a flor da pele. — Eu falho em te explicar, m-mas eu não quero mais viver de outra maneira, Hoseok.

E ao falar aquilo eu sucumbi e minha lágrima também caiu. Já escurecia um pouco e o ambiente tornava tudo mais melancólico pelo silêncio que permitia que nossas vozes fossem a única coisa audível além do som dos grilos e das cigarras ao longe.

E ali nós dois choramos. Ele em meu pescoço, eu em seu cabelo. Ele se segurando ao meu pulso como se fosse a última coisa em que seguraria e eu fazendo o mesmo com sua nuca. Ele chorando porque doía e eu chorando porque não conseguia saber o que fazer para que não doesse.

Ele não falava mais nada. Então eu finalmente o tirei da posição em que estávamos para que seu rosto ficasse em frente ao meu, os olhos eram castanho-esverdeados e o rosto todo estava um pouco rosado do choro. Ele só conseguia respirar pela boca, respirando forte. Tentou se desfazer do meu enlaço com vergonha mas eu não o permiti, o segurando com força e forçando-o a olhar para mim. Os nossos olhos se encontraram e não demorou para que se mostrassem de novo o sangue e a água ali.

— Eu sei que eu não consigo fazer parar completamente o que te dói, perdão. — Funguei. — Mas eu te prometo estar ao teu lado até que a última das lágrimas ameace cair de teus olhos, escutaste?

Eu falei e ele fungou, sem reação, apenas se deixando acalmar pelo encontro do nosso olhar. Eu mordi o lábio em nervosismo quando vi uma lágrima descendo solitária de seus olhos e hesitei um pouco antes de fazer o que eu fiz.

Escutei meu lobo e levemente a removi de seu rosto com a língua, quase sem encostar, tão rápido e singelo quanto eu pretendi que fosse. Não sei o que me levou a fazer, mas eu senti que deveria, era um ato tão assustadoramente íntimo que eu nunca pensei que fosse fazê-lo com alguém.

Mas ali estava eu, lambendo sua lágrima na tentativa de amenizar sua dor.

Ele me olhou um pouco surpreso depois disso, afastando um pouquinho o rosto, ainda respirava pela boca ao mesmo tempo que mantinha-a trêmula.

Os olhos inchados não deixavam os meus. Fiquei apreensivo pela sua reação. Talvez eu não devesse ter feito aquilo. Olhei para baixo constrangido e somente sua voz conseguiu me fazer o olhar de novo quando ele falou, baixinho e com dificuldade:

— Eu te amo, Taehyung. —  Ele fungou, me olhando como se só ali se percebesse algo que acontecia há tempos.  —  Eu te amo tanto que eu não sei como cabe dentro de mim. Eu te amo tanto que me transborda pelos olhos. — Ele me selou os lábios necessitado e rápido antes de me olhar de novo, me envolvendo o rosto com as mãos. — Eu te amo. Eu te amo. — Era como se eu não acreditasse e ele repetisse para me convencer. Só que eu acreditava.

E então ele me beijou de novo. Não mais tão rápido, me segurando o rosto com muita força e me capturando com os lábios salgados pelas suas lágrimas, parando só para conseguir respirar pela boca e fungar um pouco.

E eu retribui, cada um deles, envolvendo-o o pescoço e o deixando transbordar ali em meus lábios. Em mim.

Quando ele finalmente pareceu ter cansado de me beijar tantas vezes, eu que afastei seu pescoço para que ele olhasse para mim, ainda choroso e atordoado.

— Eu também te amo, Hoseok, até o último suspiro que eu der.

Então eu mordi o lábio, o olhando tão intensamente nos olhos que por um instante perdi as palavras. Mas as achei novamente para falar, sem verdadeiramente acreditar que estava as falando:

— E-eu... eu... sou teu.

Eu disse e me impressionei por dizer. Porque eu nunca pensei que viveria para ser de alguém.

Para mim, por minha vida toda, eu pensei que eu era meu e só meu, que viveria por mim e só para mim. Mas de repente isso não bastava mais. Ser dele era o certo, era o que me fazia bater o coração.

Era para ser assim. Nós dois, daquele jeito. Era para ser. É para ser.

E seria.

— Meu?— Ele repetiu ao fungar. Olhando para mim e sorrindo tão discreto que eu quase não vi.

— Teu. —  Eu confirmei, também sorrindo um pouquinho, finalmente.

E ele suspirou junto comigo antes de nos beijarmos de novo. Agora em um beijo de alívio. De cura, de pertencimento mútuo que era selado ali. Nossas línguas se encontraram e se enlaçaram daquela forma quente que queimava da cabeça aos pés enquanto nós ali nos tínhamos, em meio aos cavalos.

Bom... Não era o mais bonito, não era um conto de fadas.

Mas eu nunca acreditei neles mesmo.

Eu preferia o real, o sincero. E ali eu tinha exatamente isso.

Ele interrompia os beijos para conseguir respirar e não se continha em repetir, sempre que podia, como se não fosse suficiente falar só uma vez.

—Eu te amo... — E me beijava. — Eu te amo... — E beijava novamente. — Eu te amo.

Eu sorria e respondia todas as vezes, assentindo antes de o beijar novamente, porque eu precisava. Eu precisava disso.

Quantas vezes ele dissesse que me amava ali realmente não seriam suficientes.

Porque eu acho que palavras nunca seriam suficientes para descrever aquilo.

E nossos lobos apareceram também, e nós os deixamos se encontrarem, se aninhando um ao outro como já parecia costume. Eu o tocava o pescoço e ele não deixava de me segurar no rosto. Me beijando de novo e de novo e de novo como se não quisesse parar nunca.

Eu também não queria.

Mas paramos, paramos e enxugamos as nossas lágrimas simultaneamente, rindo um pouco um do rosto inchado do outro. Os corações já menos inquietos e mais confortáveis. Demos um último e longo selar, ele me ajudou a subir em Mang e depois subiu em Tannie para montarmos até a reunião de soldados e continuarmos a viagem.

Naquela noite. Cavalgamos um pouco mais até chegarmos a um vilarejo onde havia uma hospedaria que ofereceu alguns quartos. Deixamos que os mais velhos ficassem lá e conseguimos que uma família de camponeses nos deixasse dormir no quarto dos filhotes enquanto eles dormiam com os pais.

O quarto era pequeno e simples, uma cama em madeira e um lençol fino. Nada mais.

Nos despimos e deitamos para dormir juntos.

No começo, ele que se aninhou em mim, me fazendo rir um pouco da inversão de papéis. Ele resmungou quando eu ri.

— Eu sempre tenho que dormir contigo atracado em mim, ronronando alto e se mexendo a noite inteira. Não é justo que agora tu reclames. — Ele reclamou, afundando o rosto em mim.

— Mas eu não disse nada, lobinho. — Eu falei, invertendo mais os papéis brincando, e ele me mordeu.

Sim, ele me mordeu. Leve e sem doer. E eu ri indignado, revidando, até que estávamos brincando de novo como dois filhotes na madrugada, um se colocando por cima do outro na pequena cama, rindo daquela disputa em que os dois ganhavam.

Era como se existíssemos só nós dois e mais nada, era como se o mundo não existisse fora daquele quarto minúsculo e quente em que estávamos.

E eu o prendi, novamente, na cama, colocando seus dois braços ao lado da sua cabeça, minhas mechas loiras caindo aos lados de meu rosto. Eu não acho que havia sorrido tão grande assim na minha vida. A janela era pequena mas de lá a luz do céu da noite, limpo de nuvens e estrelado, iluminava o rosto dele. Eu podia ver tão nitidamente seus olhos viajando entre castanho e avermelhado. Sua boca, seu nariz, sua pele.

E nós perdemos os sorrisos, como se nos apaixonássemos um pelo outro pela peimeira vez, imersos em sangue e água. Ele nunca esteve tão lindo para mim quanto estava ali, completamente meu.

Meu como humano e meu como lobo.

E então ele ergueu a cabeça e me beijou, de novo, e eu retribuí, ainda o prendendo com as mãos, o deixando me invadir com a língua, necessitado, me enchendo de mordidas leves no lábio inferios. Abaixei o quadril e me senti esquentar todo percebendo que minha lubrificação natural já começava e que sua ereção já estava formada se esfregando na minha.

Ele já começava a tentar se livrar das minhas mãos e a gemer baixinho enquanto me beijava, cada vez mais intensamente. Ele queria, de novo.

Mas eu me afastei e o segurei mais forte pelas mãos, rindo um pouco da cara irritada que fez ao ser privado de meus lábios. Me aproximei para falar no ouvido dele.

— Isso é um lar de família, Hoseok, têm filhotes no quarto ao lado. — Eu falei, roçando os lábios em seu ouvido e o sentindo arrepiar. Depois o soltando e desabando de seu lado, torcendo para que minha ereção passasse logo.

Ele se virou de costas para mim, obviamente emburrado com a quebra do contato.

— Tu que começaste.

— E vou terminar, só não agora. — Falei, tentando o virar para mim com as mãos ao que ele resistiu por alguns segundos, antes de sucumbir e se virar.

E eu praticamente me forcei para dentro de seus braços, me irritando ao falhar enquanto ele brincava tentando me impedir e fingindo uma chateação. Gemi resmungando e ele finalmente cedeu e me permitiu deitar em seu peito quente e cheiroso.

Ele riu antes de se aquietar e me beijar os cabelos. Eu o cheirei, fundo, já atracado a ele como eu gostava de ficar.

Leite e mel.

Era tão doce.

Ele passava os dedos em minhas mechas e eu já me sentia ronronando.

Sim, eu sei que ronrono com ele, mas nunca admitiria isso.

Estava quase caindo em um sono pesado quando ouvi sua voz, ele ainda estava um pouco inquieto, mexendo em meu cabelo.

— Taehyung? — Ele falou baixinho, continuando a enrolar os dedos em minhas mechas.

Eu não abri os olhos nem me movi, mas respondi.

— Hmm. — Reclamei, querendo dormir.

— Tu sabes... Quando eu te via, de longe, da minha janela, brincando e mirando tua flecha em mim daquele jeito, eu dizia para mim mesmo... — Ele hesitou. — E-eu me dizia que, se um dia eu fosse livre, eu pediria tua mão. — Riu um pouco depois de falar, envergonhado.

Meu interior se remexeu inteiro.

— Eu não acredito em casamento. — Falei quase bufando em um riso, ainda de olhos fechados e sem me mexer.

Porque realmente não acreditava. Bastava olhar meus pais. Meu irmão.

E então ele suspirou.

— Um dia, quem sabe, posso te fazer mudar de ideia, não? — Ele falou, a voz magoada, mas um pouco esperançosa.

— Eu não mudo de ideia. — Repeti com firmeza, sem sair da posição, querendo encerrar o assunto. Focado em voltar a dormir. — Vamos dormir, sim? — Falei, me ajeitando mais em seu peito e beijando-o ali.

E ele suspirou de novo, percebendo minha resistência e parando de mexer em meus cabelos, me deixando apenas um outro selar neles e se calando.

Ele se calou e eu me irritei. Dormi irritado em seus braços.

Porque eu, que sempre fui tão convicto de tudo o que eu acreditava, pela primeira vez, não tive mais tanta certeza assim daquilo que falei.

Um dia, quem sabe...

��

— Eu passo anos vos treinando desde quando filhotes. Vos jogando para os animais selvagens e vos fazendo lutar entre si ainda quando os caninos estão para nascer e tudo isso para que? Para que tu venhas me dizer que um ômegazinho te seduziste?  — Seojun tomava seu vinho de um cálice de ferro em sua janela. Agora não mais com um sorriso em seus lábios. A mandíbula estava travada e ele parecia estar mais nervoso. Não tão confiante. — Tu não tens o mínimo de vergonha? — Ele bateu a mão com força esmurrando a superfície da janela e se virou para o alfa que se recolhia cada vez mais. Rosto manchado dos chutes e pés enfaixados dos cortes deixados por Jungkook.

— P-perdão, General. N-não vai se repetir. — O alfa loiro e robusto balbuciava enquanto segurava ansioso sua espada.

E o General riu, bufando.

— Podes ter certeza que não vai se repetir. — Seojun sorriu um pouco. Pegando o punhal em sua mão e brincando com ele enquanto se aproximava do alfa.

Ele parecia amedrontado e só ficou ainda mais quando olhou para trás e percebeu os servos ômegas fechando a porta do cômodo. Quando voltou o olhar para Seojun, esse estava mais perto ainda. E ele recuou, respirando ofegante.

— G-general... Por favor... E-eu te juro que não vai se repetir. P-por favor. — Quanto mais desespero ele mostrava, mais o sorriso no rosto de Seojun aumentava. O General se aproximou furtivo até que encurralasse o alfa soldado na parede. Ele já suava frio e, por mais que fosse bem grande, ninguém o era mais do que o General, que era gigantesco.

Seojun riu quando o outro fechou os olhos apertando-os forte e quando notou o suor descendo de sua têmpora. Fez questão de coletar uma gota de suor passando a lâmida do punhal levemente pelo rosto, ouvindo um gemido sôfrego alheio.

— Aonde os outros foram depois de terem a brilhante ideia de mandarem um soldado tão pateticamente fraco sozinho atrás do ômegazinho? Para onde iam? — Ele perguntou como se não acariciasse o rosto alheio com uma faca encurralando-o na parede.

O soldado engoliu em seco antes de responder, quase inaudivelmente pelo medo que o acometia ali. Ele sabia histórias que lhe eram contadas cobre o que ocorria quando o General se irritava com soldados.

Os tratava que nem ômegas.

Chicotadas. Tortura. Estupro.

— U-uma v-viagem para o País Vizinho. Souberam de nortenhos que o exército de repente se reuniu todo e-em uma viagem para lá. Acharam suspeito então resolveram segui-los. D-disseram que conseguiam sentir um cheiro f-forte na última carta que mandaram. Eles acreditam que Jung Hoseok está com eles. Q-que vão se refugiar e recuar porque não podemos entrar lá. P-por favor, General, eu tenho família. — Ele implorou depois de explicar tudo, como se não aguentasse mais o contato do punhal com seu rosto e ombro. Ele já chorava.

O General ignorou totalmente o apelo e ainda sorria.

— Então vão se usar do território vizinho como uma espécie de escudo... — Bufou. — Inteligente, admito. Mas previsível. Min Yoongi é sagaz, esperto, furtivo. Já me venceu uma vez e acha que o pode fazer de novo. — Ele tirou o punhal do rosto do alfa apavorado e apoiou a mão em punho na parede, se apoiando para continuar a linha do pensamento, era como se o soldado sequer estivesse lá. — Ele deve estar se achando muito esperto... Mas eu também sei brincar. — Ele riu. Se afastando e dando uma volta com a mão no queixo pensativo.

O soldado respirou fundo em alívio, apoiado na parede.

— Já que os outros provavelmente me serão tão inúteis quanto tu, acho que eu mesmo deva assumir o controle por agora. Eles não podem ficar escondidos atrás do escudo do País Vizinho para sempre. Eles não podem esconder Jung Hoseok para sempre. — Ele andava ainda pensativo, em círculos. — Vamos deixar eles pensarem que tem vantagem... Por enquanto. — Ele sorriu. — Os soldados daqui devem continuar o treinamento preparatório intensivo e quando for a hora, moveremos nossas peças em resposta.

Ele terminou a pequena conversa consigo mesmo quando o som do soldado se ajeitando nervoso na parede chamou sua atenção.

— Ah, e tu. — Ele se aproximou novamente de forma rápida e o segurando com uma mão só pela garganta, o pressionando e suspendendo na parede. — Ele engasgava. — Tu és fraco. Tu não mereces isso. — Com a outra mão o movimento foi tão rápido quando. Cortando a pele alheia sem pena e retirando a força toda a parte do braço alheio em que a marca alfa havia sido forjada à ferro. Um pedaço grande de pele e carne caiu no chão e o alfa já gritava tão alto que podia-se escutar de todos os campos de treinamento ali.

Ele continuou gritando e agonizando no chão, colocando a mão em cima de onde ficava a parte que havia sido arrancada. Os gritos não ficavam mais baixos e Seojun não expressou empatia nenhuma. Cuspindo no corpo alheio antes de pegar um pano em cima de sua mesa para limpar seu punhal.

— Limpem isso. — Ele ordenou aos ômegas servos que ali estavam. — E vocês, ele pediu para outros alfas soldados que viu quando abriu a porta do cômodo. — Levem ele para trabalhar com os ômegas. Nas plantações, não me importa. Ele não me serve mais. — Ele falou, desinteressado, andando pelo corredor enquanto os gritos ficavam mais baixos ao que ele se distanciava.

— Ah... Min Yoongi. — Ele falava consigo mesmo enquanto planejava se encaminhar para o lugar onde eles mantinham alguns prisioneiros de guerra cativos. — Imagino que tu não irás me convidar para tua pequena reunião no País Vizinho. Isso é tão deselegante, pensei que fôssemos amigos. — O sorriso no rosto aumentava. — Já que tu não me convidaste, nada mais adequado do que te mandar um pequeno presente para deixar claro que eu sei muito bem onde tu estás. — Ele colocou a mão na porta do calabouço escuro e frio, já no subterrâneo. — Tenho certeza absoluta que tu vais amar o presente que irei te mandar.  Uma lembrança para te lembrar dos velhos tempos.

Suspirou enquanto abriu a porta, se deparando exatamente com o que previa se deparar.

Com quem previa se deparar.

Ele analisou o corpo acorrentado, desacordado no chão, vestindo farrapos. O anel de ouro contrastava com os dedos calejados e machucados, mas lá permanecia.

Seojun nunca o mandou tirar. Pensava que, um dia, aquilo o seria útil.

E o dia havia chegado.

Sorriu e continuou:

— Ele deve sentir tanto tua falta.

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