História Skyfall - Capítulo 14


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Categorias Naruto
Personagens Chouji Akimichi, Fugaku Uchiha, Hinata Hyuuga, Ino Yamanaka, Kiba Inuzuka, Kushina Uzumaki, Mikoto Uchiha, Minato "Yondaime" Namikaze, Naruto Uzumaki, Sai, Sakura Haruno, Sasuke Uchiha, Shikamaru Nara, Suigetsu Hozuki
Tags 60's Fanfic, Adulto, Amor, Angst, Anos 60, Cojiro, Cojiro-kun, Corrida Espacial, Drama, Escolar, Exército, Fanfic, Guerra Do Vietnã, Guerra Fria, Lemon, Myodesigners, Narusasu, Naruto, Vintage Fanfic, Yaoi
Visualizações 145
Palavras 6.794
Terminada Não
NÃO RECOMENDADO PARA MENORES DE 18 ANOS
Gêneros: Drama (Tragédia), Ficção Adolescente, Lemon, Romance e Novela, Shonen-Ai, Shounen, Slash, Universo Alternativo, Violência, Yaoi (Gay)
Avisos: Álcool, Bissexualidade, Estupro, Heterossexualidade, Homossexualidade, Insinuação de sexo, Linguagem Imprópria, Nudez, Sexo, Violência
Aviso legal
Alguns dos personagens encontrados nesta história e/ou universo não me pertencem, mas são de propriedade intelectual de seus respectivos autores. Os eventuais personagens originais desta história são de minha propriedade intelectual. História sem fins lucrativos criada de fã e para fã sem comprometer a obra original.

Notas do Autor


Olá, alguém pediu um capítulo gigante?
Sério. Esse é o maior que eu já escrevi. Eu não achava que isso ia ficar tão grande, mas a história pede que as coisas aconteçam devagar e no tempo certo: sempre constante, então, paciência.
Bem, espero de verdade que vocês gostem.

A música título é "Rock Around The Clock" da banda Bill Haley & His Comets.
Boa leitura!~

Capítulo 14 - 1960: Rock Around The Clock


Fanfic / Fanfiction Skyfall - Capítulo 14 - 1960: Rock Around The Clock

Lolita estava enfiado entre Retrato da Artista quando Jovem, de James Joyce, e Admirável Mundo Novo, escrito por Aldous Huxley.  Minato olhava sua lombada verde-seiva se destacando entre as demais em cores pasteis. Lembrava-se de quando o ganhou, e de quando o perdeu.

Ele fechou com rapidez a porta horizontal do armário de madeira quando ouviu os passos da esposa atrás de si.

— Encontrou? — Kushina perguntou.

— Mais ou menos — respondeu ao se levantar e mostrar um livro fino. Algumas folhas soltas estavam desordenadas no miolo. — Não sei se estão todas aqui.

— Precisam estar — a ruiva se aproximou dele e recolheu o caderno amarelado. —, ou minha vó vai levantar do túmulo só pra me bater com uma colher de madeira.

— Não se preocupe. É um caminho longo da Alemanha para cá. Com aqueles ossos atrofiados, ela levaria...

— Respeite minha vó! — a mulher meteu o livro na testa do loiro. — Ela foi uma cozinheira excepcional. O Naruto e o Sasuke vão adorar a culinária dela — Kushina voltou a folear o livro de receitas.

— Você não acha que está exagerando? Deveríamos só levar alguns sanduíches e soda — Minato disse. — É apenas um piquenique noturno.

— Não é apenas um piquenique. É um agradecimento — Kushina respondeu. — E por que você marcou para o sábado? Sabe que é o dia de irmos à igreja.

— Vamos à igreja no domingo. Deus não vai nos cobrar por faltarmos um dia. — Minato deu de ombros.

— Hum... — ela murmurou e levantou os olhos para o marido. — Espera. O casamento do Jiraiya não será no sábado?

O rosto de Minato empalideceu.

— Eu... esqueci completamente... — fez uma careta e colocou as duas mãos na cabeça. — Isso é horrível! Como faremos agora?

— Como você fará — Kushina deu as costas e se dirigiu para a cozinha. — Você que é amigo dele. Eu não tenho que ir.

— Mas...! — ele a seguiu. — Eu não posso faltar ao casamento. Ele fez muito por mim!

— É verdade — a ruiva concordou se escorando no balcão para transcrever os ingredientes num bloquinho.

— Também não posso deixar de ir com vocês. Eu prometi aos garotos...

— Na verdade, é até bom que você não vá. Nossa barraca é grande, mas não deve mais ter espaço para nós três dormirmos. O Naruto cresceu muito.

— Podemos comprar uma maior!

— Não podemos não — ela se virou e empurrou o bilhete na mão do marido resmungão. — Saia para comprar essas coisas. Compre bastante. Preciso experimentar antes de decidir o que farei para os meninos.

— Você não está me ouvindo!

— Por que esse chororô tão cedo? — Naruto desceu as escadas e entrou na cozinha.

— Não é nada, querido — Kushina respondeu ao empurrar o marido novamente. — Eu fiz panquecas. Ainda tem molho no armário.

Naruto ficou olhando a maneira estranha de agir dos dois, mas não comentou nada, afinal, estranheza era normal naquela família. Kushina e Minato saíram da casa ele os acompanhou até a sala. Enquanto ele assistia pela janela a discussão entre seus pais, o telefone tocou sobre o criado-mudo. Naruto olhou o aparelho com certa desconfiança. Não gostava de atender telefonemas, já que quase nunca era alguém interessado em falar consigo. Mas já que era o único ali, resolveu atender.

— Alô?

— Agora deu pra entender telefone?

Naruto gelou ao ouvir de quem era a voz.

— Kiba?

— É. — ele disse. — Escuta, eu não tenho dinheiro pra falar muito e não dá pra ir na tua casa agora — Naruto ouviu um suspiro. — É só que eu queria... bem. Foi mal por ter perdido a cabeça naquele dia. Ando meio explosivo e eu sei que tem coisas que a gente não pode falar um pro outro e tal. Deveria ter respeitado tua decisão.

— ‘Tá tudo bem, cara. Eu que deveria me desculpar — Naruto respondeu lambendo os lábios. — Poderia ter te levado em casa.

— Sem problemas. Foi bom caminhar um pouco pra esfriar a cabeça — Kiba disse. — E... como tem sido as coisas pra você? Eu sei que disse pra não esquentar, mas eu achei que você estaria mais preocupado com tudo isso.

— Tudo isso...?

— É, Naruto. Tá esquecendo que a gente vai apodrecer na porra de um reformatório?

— Ah, é... uma droga isso — Naruto se esticou para localizar os pais. Minato já estava dentro do carro, mas a discussão com Kushina continuava. — Escuta, que tal a gente sair no sábado à noite? Vai ter uma chuva de meteoros, meus pais e eu vamos assistir. Minha mãe vai fazer comida, pelo jeito. Você gosta do que ela cozinha, não é?

Naruto sentia que precisava fazer aquilo, mesmo correndo o risco do Uchiha o odiar. Se Sasuke não queria dar a chance, então Naruto faria os dois se encontrarem à força. Kiba conseguiria o convencer. Ele é era ótimo nisso, afinal.

— Eu gosto de qualquer coisa que não tenha sido eu quem preparou — Kiba fez graça. — Mas claro que o rango da Kushina-mãe é o melhor.

Naruto fingiu um sorriso.

— Então, topa? Eu vou te buscar.

— Parece legal, mas não sei se vai dar. Minha mãe virá me buscar na sexta. Vamos voltar para o Texas.

— O que? Como assim?

— Pois é, cara. Ela vai pedir para me transferirem pra um reformatório de lá. Mesmo que eu consiga livrar nosso pescoço, acho que ela não vai mudar de deia. Vou voltar a ser a droga de fazendeiro. Logo agora que já ‘tava esquecendo do cheiro da merda dos cavalos.

— Entendo... — Naruto murmurou, seu semblante era de derrota.

— Minha mãe também tá doente. Ela precisa de minhas tias pra cuidarem dela, enquanto ela finge que cuida de mim — o Inuzuka suspirou de novo. — Se a gente ao menos fosse ficar no mesmo lugar, não é? Vou sentir tua falta.

Naruto não sabia como encarar aquela declaração. Aquilo queria dizer que ele havia desistido de tentar salvá-los pelas tais vias obscuras?

— Também vou sentir a tua.

— Naruto, eu...

Um intenso som agudo interrompeu a ligação.

Naruto ficou parado olhando para o telefone escuro em suas mãos. Poderia ligar de novo para a cabine, pois deveria ser aquela próxima à casa de Kiba. Contudo, ele não o fez. Não sabia o que dizer.

Kushina entrou na casa.

— Quem era? — ela perguntou.

— Ninguém. — Naruto respondeu colocando o telefone no gancho. — Foi engano.

[...]

   Charles fira o buscar na escola, no Cadillac Eldorado, mas Sasuke recusou a carona. Pediu que o homem se ocupasse em comprar uma barraca de camping. Não exigiu estilos, mas os pais haviam sugerido uma canadense, quando, após uma longa conversa, concordaram em deixá-lo sair com a família de Naruto. Ele jamais havia dormido em outro lugar que não sua casa. Aquela seria a primeira vez.

O mordomo ainda perguntou para onde ele estava indo, mas Sasuke não respondeu. Ele tinha o objetivo de chegar à casa de Naruto, mas não tinha certeza se conseguiria. Sabia que o que estava prestes a fazer podia não ser a melhor coisa para o momento, afinal, estaria usando outra pessoa para resolver os seus próprios problemas. No entanto, também não era como se essa história nunca fosse descoberta: ele se desculparia depois e sabia que o amigo lhe daria o perdão.

Sasuke dobrou uma esquina. Era uma terça-feira gelada aquela. O Sol já havia encerrado o turno há mais de uma hora e ele sentia um pouco incomodado em estar andando à noite. Ino e Sai já haviam o levado para alguns lugares nas poucas vezes que saíram por aquele horário, tinha sido divertido. Aquela cidade, apesar de ser pequena, possuía alguns lugares para se divertir e, por sorte, a loira conhecia os melhores.

Ino... agora ela sabe. Ele deu um suspiro longo. Sabe do Naruto, do Sui. Sabe que sou... Ele parou na esquina e viu o poste iluminando a casa do Uzumaki no outro lado da rua. Ela não teve nojo de mim, assim como não tem do Sai. Quanta sorte eu tive em conhecê-la.

“O Naruto não deixará de se fazer de sonso, ao menos que você deixe claro o que está acontecendo” ela havia dito, chorando, após a conversa. “Ele também não irá abandonar o Kiba. O imbecil está sempre entrando em enrascada por aquele maldito vira-lata.”  

E com todo o artífice de convencimento que ela possuía, Sasuke sentiu-se seguro para tentar resolver as coisas com o Uzumaki, mas agora que estava a alguns metros da casa dele, sentia que queria apenas correr para longe e esquecer que um dia conheceu aquele loiro problemático.

Sasuke ouviu a porta da casa ser aberta e sentiu os pelos de sua nunca se arriçarem quando Naruto surgiu carregando uma sacola de lixo. O Uchiha olhou para os lados, na busca de achar algum lugar para se esconder, mas não encontrou nenhum. Já que ficar parado ali seria estranho, roubou mentalmente um pouco da coragem da amiga, respirou fundo e atravessou a rua.

Naruto não o viu se aproximar.

— Ei. — disse Sasuke.

O loiro se virou e levou alguns segundos para se recuperar da surpresa e responder.

— Ah, oi, Sasuke — ele abriu a lixeira para depositar a sacola. — Não foi para a escola?

— Fui, mas deixei minha mochila com o Charles.

— E Charles seria...?

— Ah. É só uma pessoa que trabalha na minha casa — Sasuke respondeu. — Ele foi me buscar, mas eu preferi caminhar hoje.

— Sei. — Naruto deu de ombros.

— Vim avisar que meus pais me deixaram ir com vocês no sábado — o Uchiha respondeu passando as mãos nos braços gelados.

— Sério? — Naruto fez uma cara surpresa. — Como você consegue convencê-los? Não é por nada, mas seu pai parece um ditador... e ele nem tem bigode.

— Ele é uma boa pessoa. Nunca se juntou com um grupo para atacar uma pessoa desprotegida, como alguns.

— Ai.

Sasuke deu de ombros.

— Então — Naruto fez. — Quer entrar ou andou tudo isso só para avisar sobre o sábado e me destratar? Você poderia fazer as duas coisas pelo telefone.

Sasuke mordiscou os lábios.

— Na verdade... teve outro motivo.

— E qual é?

— É sobre o que você me pediu, mas não posso falar aqui. Podemos sair?

Naruto franziu a sobrancelha. Ele estava falando a respeito de Kiba?

— Para aonde?

— Não posso dizer... se você não quiser ir, tudo bem.

— Você e seus mistérios — Naruto disse já virando as costas. — Volto agora.

E Sasuke pensou, surpreso: você e sua imprevisibilidade.     

Naruto correu para o quarto. Talvez Sasuke tivesse reconsiderado sobre o Kiba. Não, se ele foi até ali, então com certeza iria lhe dar essa chance. Mal podia esperar para ligar para o amigo e o avisar.

Havia também a questão de Ino. O que ele havia comentado para que a loira viesse à sua casa? Isso com certeza era uma coisa que ele precisava saber.

Tirou o short com velocidade e o jogou em cima da cama. Em seguida, vestiu a jaqueta enquanto se olhava no espelho. Antes de sair, testou seu hálito; não estava de todo ruim.

Ele desceu a escada.

— Tô saindo — avisou para os pais abraçados no sofá grande na frente da tevê.

— Aonde vai? — Kushina perguntou, sem se virar.

— Não sei.

— Quê?!

Naruto voltou à porta. Sasuke estava em pé no mesmo lugar, encolhido ao vento frio.

— Vamo lá — disse Naruto fechando a porta.

— Er... — Sasuke pigarreou. — É um pouco longe...

Naruto se virou e, como um criminoso, abriu a porta devagar. Sasuke o viu entrar apenas com metade do corpo e se esticar, quando ele voltou, estava com um chaveiro de coelho nas mãos.

— Meu pai vai chiar — disse, sorrindo e Sasuke percebeu o quanto aquele ex-delinquente ainda gostava de fazer coisas fora da lei.

— Eu assumo a culpa, qualquer coisa — Sasuke o seguiu para o espaço do lado da casa onde o Willys de quatro portas jazia estacionado.

— Então faça isso. Ele te ama. — Naruto deu a volta no veículo e Sasuke parou na porta do lado direito. Quando ouviu o barulho da trava, ele entrou no carro e agradeceu aos céus por escapar do vento vento cruel.

Naruto ligou a ignição e deu a ré; ansioso para ver se o pai iria surgir na porta antes que ele se afastasse da casa. Quando alcançaram o meio da rua, olhou para Sasuke.

— Pra que lado?

— Aquela rua cheia de bares com luzes neon... para onde fica?

Naruto assoviou e girou o volante.

— O que vamos fazer lá? Eu não posso beber de novo. Eles fizeram vista grossa aquele dia por sua causa. Não acho que vai acontecer de novo.

— Apenas dirija.

— Isso. Me dê ordens como a um de seus Charles — ele ouviu um sorriso de Sasuke. — É cada riquinho metido que esse táxi carrega.

Sasuke deu outra risada. Para Naruto, tanto a visão de seu rosto quanto o sonido de sua quase gargalhada eram indescritíveis. Antes ele achava ser impossível fazer aquele (descendente de) japonês sorrir, mas agora sentia como se qualquer coisa que falasse pudesse acionar a parte humana dele. Era verdade que Sasuke ainda conseguia o ler quase perfeitamente, mas Naruto também estava descobrindo os caminhos possíveis dentro do Labirinto-Uchiha.

— Sua mão ainda doi? — Sasuke perguntou olhando para o curativo na destra do loiro.

— Só quando você pergunta — Naruto respondeu.

— Me lembre de perguntar mais vezes, então — Sasuke disse e esticou uma mão para perto de Naruto; na direção das pernas dele.

— O que é isso?! — Naruto perguntou tendo um susto. Foi só então que se lembrou do que havia acontecido da última vez em que ele e Sasuke estiveram naquele carro.

— O chaveiro — Sasuke disse, parecendo não notar o desconforto do outro. — Está bem polido — comentou girando o coelho falso nas mãos. — É bonito.

— É mesmo? — Naruto tentou esquecer o pensamento desconcertante. — Fui eu que fiz.

— Não. — Sasuke se empertigou. — Suas mãos que destroem também conseguem fazer uma coisa dessas?

— Foi no fundamental. Era um trabalho de Artes. Deveríamos fazer alguma coisa que achássemos parecidos com nossos pais.

— Você acha seu pai parecido com um coelho?

— Ele já foi atleta quando morava na Carolina do Sul, mas minha mãe disse que ele abandonou quando se mudou para cá.

— Então o coelho te lembra ele por conta da velocidade.

— Na verdade, foi porque eu odeio coelhos.

— Você não parece odiar seu pai.

— Eu 'tava com raiva porque ele não queria me ensinar a dirigir, então coloquei esse coelho aí para que eu parasse de querer entrar no carro. — ele reduziu para esperar um sinal mais afrente e em seguida avançou de novo. — É idiota, eu sei, mas eu não conseguia parar de pensar em estar atrás de um volante.

— Pelo jeito, não funcionou — Sasuke comentou encarando o rosto do Uzumaki.

— É. Meu pai se comoveu e acabou por prometer que, dali um ano, ele me ensinaria.

— E ensinou?

— Sim, mas me proibiu de fazer quase tudo que eu queria fazer quando estivesse dirigindo... mas fiz mesmo assim.

— E para sua mãe? Não deu nada?

— Ah, eu comecei a fazer uma raposa, mas fiquei com preguiça — ele se esticou para o porta-luvas na frente de Sasuke, apertou o botão quadrado e apontou para que Sasuke pegasse o que estava lá dentro. — Só fiz a cabeça e o polimento.

Sasuke pegou o pedaço de madeira.

— Meu Deus... pelo visto o ódio te inspira mais que o amor — ele murmurou olhando o objeto inacabado por vários ângulos. — Parece um monstro híbrido.

— Você viu a intensidade dela lá na escola? Acredite: um monstro combina bem com minha mãe. — Ele girou o volante. — É nessa rua — Naruto anunciou.

Sasuke devolveu o entalhe para o porta-luvas e olhou para os pubs iluminados afrente.

— Sabe onde fica o The Clock? — perguntou.

Naruto juntou as sobrancelhas.

— Sério que vamos naquele lugar? Ino já me levou lá uma vez. Só tem gente estranha.

— Tem gente diferente — Sasuke disse. — Ela me levou lá também.

Um tanto quanto contrafeito, Naruto seguiu pela rua a qual somente era iluminada pelos neons dos letreiros.

Naruto sabia que o tal lugar era um pub infame em toda cidade por conta do tipo de gente que o frequentava. Pelas contas dele, o bar já havia sido fechado três vezes e não era incomum as histórias sobre brigas violentas por lá. Ele sabia que homossexuais gostavam de frequentar o The Clock, mas Sasuke não parecia ser esse tipo de pessoa. Ino deveria ter o corrompido completamente.

Eles não demoraram a chegar: era uma construção quadrada, apertada entre dois prédios maiores e aparentemente abandonado, mas não tinha uma aparência ruim. O letreiro onde se lia “The Clock Rock Bar” era de neon azul e vermelho, um dos poucos que não tinha sequer uma letra apagada. A faixada era toda em tijolos pequenos e marrons, marcados por rejunte branco e grosso. Do lado da porta arqueada se desenhava uma janela grande que tomava quase a parede inteira e podia-se ver as pessoas no interior, dançando sobre uma luz amarelada.

— Consegue vê-los? — Sasuke perguntou se inclinando para enxergar o local.

— Você diz as pessoas estr- diferentes lá dentro? Sim, vejo.

— Eles estão sentados na mesa do meio — Sasuke apontou.

Naruto apertou os olhos na direção do dedo dele.

— Quem são?

— Chegue mais perto.

— Espera, como consegue ver quem é nessa distância? — ele perguntou acelerando um pouco mais o carro.

Foi então que ele enxergou: Kiba e Sai, de frente um para o outro, na mesa redonda servida de bebida e alguma comida que Naruto não identificou.

— O que eles estão fazendo ali...? — Naruto perguntou. — Não faz sentido. Kiba odeia esse cara... e esse lugar.

— Não é o que parece — Sasuke respondeu. — Eles sempre tiveram isso, mas já há algum tempo falavam mais.

— Tiveram o que? — Naruto encarou Sasuke, os olhos arregalados.

— Não é óbvio? — Sasuke perguntou sem desviar a atenção do bar.

O Uzumaki voltou a olhar para os dois atrás do vidro. Kiba sorria enquanto observava Sai mastigar alguma coisa. Então, o Yunuzuka levou a mão direita para o canto da boca do outro menino para limpar-lhe os lábios.

Naruto se empertigou no banco.

— Eu não posso acreditar nisso — disse balançando a cabeça. — É um sonho. Não, um pesadelo.

— É real, Naruto — Sasuke disse olhando para ele.

— Ele me diria.

— Por que acha iso?

— Somos amigos.

— Pois isso não foi suficiente — Sasuke também voltou a se ajeitar no banco.

— Por que você me trouxe aqui? Eu não entendo.

— Como eu disse, eles já saiam há muito tempo. Parece que se conheceram no Texas. O Kiba é de lá, não é?

— Sim, mas nós nos conhecemos desde a infância. Esse cara só veio aparecer há uns anos — ele olhou de novo, na expectativa de a visão sumisse. — Não faz sentido.

— Sai me contou que eles saíam sempre que o Kiba voltava para lá e, quando Sai veio para cá, ele parecia outra pessoa. Passou a evitá-lo e fingir que não o conhecia — Sasuke contou. — Até os últimos dias, quando ele o procurou novamente. Kiba tentou disfarçar, mas Sai sabia o que ele queria. — Sasuke parou por um momento e depois continuou. — Convencê-lo a me fazer desistir de mandar e vocês para o reformatório.

Então, como se açoitado por uma onda de realidade, Naruto lembrou-se de Kiba dizendo que iria resolver aquilo da maneira dele. Agora fazia sentido ele não ter lhe contado nada, afinal, se estivesse no lugar dele, Naruto também não contaria e...

Espera. Por acaso eu não 'tava fazendo o mesmo?

— Sai jamais me pediu para reconsiderar. Ele sabe que Kiba apenas o queria usar com esse objetivo, então ele preferiu valorizar nossa amizade do que os sentimentos dele em relação a esse cara.

— Então por que eles ainda estão juntos?

— Sai é esperto... e um pouco cruel. Decidiu que iria usá-lo, enquanto ele pensava que era o contrário.

— Isso é perigoso — Naruto advertiu. — O Kiba fica agressivo quando não consegue o que quer.

— Sai nos contou que esse seria o último encontro entre eles — Sasuke olhou para Naruto. — Ele preferiu se arriscar a tentar me dissuadir. Eu acho que era isso que eu esperava de você.

Naruto também o encarou: aqueles olhos eternamente afogados na mais profunda e convidativa escuridão.

— Mas Kiba e eu somos iguais. Nós...

— Não é verdade. — Sasuke pontuou. — Para mim, vocês são muito diferentes. Você teve a coragem de falar comigo, ele não.

— Mas isso foi porque...

— Pare. Não vai conseguir me fazer acreditar que são iguais.

— Por que você é assim comigo? Eu não mereço isso! — ele virou o rosto. — Eu te importunei, te maltratei... machuquei... você não deveria ter pena de mim. — viu Kiba virar o copo pequeno na boca e fazer uma careta para Sai. Ele parecia tão feliz e livre.

Sasuke colocou uma mão no ombro de Naruto e relembrou das palavras de Ino: O Naruto não deixará de se fazer de sonso, ao menos que você deixe claro o que está acontecendo. 

— Não tenho pena de você — ele murmurou, ao que Naruto voltou a olhá-lo. — Você não é só diferente do Kiba. Para mim, é diferente de todos. — ele não sabia ter tal coragem até dizê-lo: — Eu gosto de você, Naruto.

Naruto ficou estático: os olhos miúdos, a boca entreaberta e as pernas fracas. Havia um turbilhão de pensamentos açoitando sua cabeça, mas nenhum deles era conciso. Ele sabia que Sasuke era gay. Desde o primeiro momento que o viu: desde o dia na sala até o dia que o beijou. Ele sabia que Sasuke estava nutrindo algo a seu respeito e, mesmo assim, não esperava que um dia aquilo aconteceria, afinal, eles são homens e jamais deveriam dizer aquele tipo de coisa uns para os outros. Mas Sasuke disse e, pela firmeza de seu semblante, não havia se arrependido de ter o feito.

De onde ele tira tanta coragem? Naruto se perguntou. Foi assim que ele conseguiu convencer o pai a me perdoar?

— Desculpe, eu... eu... — ele tossiu e puxou a gola da camisa. — Tinha que tentar, afinal, Kiba é meu amigo...

Sasuke percebeu a evasiva, mas não insistiu na conversa. Ele sabia que agora tudo estava claro para Naruto.

— Eu sei. Quando esfriei a cabeça, entendi e por isso resolvi te trazer aqui — ele parou de olhar para o loiro. — Ino também me ajudou.

— O que você contou para ela? Ela veio me ver ontem.

— Ela fez o que?! — Sasuke se virou de novo.

— Foi à minha casa. Falou sobre você — ele batia com os polegares no volante. — Você contou...

— É o Sai! — Sasuke o interrompeu, ele olhava para a porta do bar.

Kiba e Sai estavam do lado de fora do lugar. O Inuzuka parecia alterado e segurava o pulso de Sai, enquanto ele, com a mesma fisionomia calma de sempre, puxava o braço.

— Parece que estão discutindo — Naruto disse, deixando o corpo se afundar mais no banco afim de se esconder da vista dos outros dois.

— Ele está machucando o Sai — Sasuke disse. — Tenho que ir ajudá-lo.

Naruto não respondeu. Ele viu quando Sai finalmente conseguiu se livrar das mãos de Kiba e depois se dirigiu para o final da rua. Kiba ficou parado por um tempo, olhando para sua própria mão como se fosse um objeto estranho a seu corpo. Em seguida, Naruto viu seu rosto se desfigurar e depois seguir Sai a passos pesados. Ele sabia o significado aquilo.

Nesse momento, Sasuke tentou destrancar a porta para sair, mas estava travada.

— Abra logo! — exigiu.

— Se você for lá, ele vai bater nos dois! — Naruto disse.

— Eu não vou deixar ele apanhar daquele cara, Naruto! Abra a porta! — ordenou e Naruto teve certeza que viu um brilho vermelho em suas pupilas. — Agora!

— Eu não vou deixar vo-

— Quando eu estava debaixo de seus socos covardes foi o Sai que apareceu! — Sasuke levou seus dois pinhos para a gola da jaqueta de Naruto e o puxou para si. — Agora ele está lá fora apanhando por minha causa! Você pode ficar aqui escondido, mas não pode me impedir de ir lá. — Ele o empurrou e depois se esticou para levantar o pino que travava as portas do carro. Depois se virou e saiu pela porta do seu lado a fechando de chofre.

Naruto se apressou em rodar a manivela para baixar o vidro e ver Sasuke correr para a escuridão do fim da rua.

Sasuke correu na direção em que os dois haviam sumido. O lugar parecia um beco sem saída, mas o Uchiha sabia se tratar de uma rua estreita, onde haviam destruído a iluminação. Estava frio e ventava muito, mas ele não estava se incomodando com isso agora: conseguia ouvir sons difusos em meio ao breu.

Ele andou devagar sobre a calçada e viu duas figuras se espremendo na parede. Não pensou duas vezes e correu na direção delas projetando todo o peso de seu corpo sobre  um deles, que pressionava o outro ao muro.

Kiba caiu longe sobre caixas de papelão que configuravam uma pilha gigante de lixo. Sasuke  segurou o amigo pelos ombros.

— Você está bem?! — perguntou.

— Sasuke..? — ele arfou, respirando com dificuldades. — O que... faz aqui?

— Não importa, nós temos que sair daqui. — o Uchiha o amparou com abraço pelas costas e o guiou pelo caminho que os levou àquele lugar.

Mas eles sentiram as mãos pesadas de Kiba os separar com força brutal.

Sasuke foi arremessado para o outro lado da rua e quase caiu no chão gelado. Quando ele se virou, viu que Kiba segurava Sai pelo pescoço enquanto o pressionava contra a parede.

— O que infernos veio fazer aqui, Uchiha?! — rosnou o Inuzuka.

— Solte ele! — Sasuke exigiu apontando um dedo ameaçador na direção de Kiba. — Você quer desgraçar ainda mais sua vida? Eu posso fazer isso!

— Não há mais nada pra desgraçar! — Kiba gritou em tom gutural. — Você e esse lixo aqui já destruíram tudo — ele balançou a mão e meteu a cabeça de sai contra a parede.

Sai arquejou.

— Solte ele! — Sasuke correu na direção de Kiba, mas foi jogado ao chão com um chute certeiro na altura de seu estômago. O mundo girou e ele sentiu seu fôlego faltar. Jamais fora bom nas disciplinas de combate na escola militar, mas não imaginava que alguém que jamais tivera qualquer treinamento pudesse ser tão superior a si quanto Kiba e Naruto se mostraram ser.

— Fuja daqui, Sasuke! — Sai gritou. — Isso não tem nada a ver com você!

— Claro que tem a ver com ele. — Kiba apertou mais seu punho. — Tudo isso é culpa dele! Mas você poderia ter resolvido, se não fosse tão mesquinho. — agora, ele juntou as duas mãos: ambas apertando com força o pescoço de Sai.

Sai tentou acertá-lo no rosto com arranhões e socos, mas parecia estar batendo em uma parede. Kiba não recuava nem um centímetro. Pelo contrário: apertava cada vez mais. E mais.

E mais.

As mãos de Sai caíram do lado do carpo. Não sentia mais nada, senão sua cabeça formigando de maneira indescritível. Parecia que ia explodir a qualquer momento.

Em silêncio, Sasuke se projetou nas costas de Kiba e lhe acertou nas costas com um pedaço de madeira. Kiba fraquejou e cambaleou para cima de Sai que, livre de suas mãos mortais, o empurrou e voltou a respirar como se estivesse sem o fazer há horas.

O Uchiha correu para perto do amigo se ajoelhou do lado dele, tentando o levantar, mas como se nada tivesse o atingido, Kiba estava de pé diante deles. Antes que pudesse fazer alguma coisa, Sasuke sentiu os dedos grossos dele serem plantados entre seus fios de cabelo e o arrancarem do chão com brutalidade. Lembrava-se bem daquela prisão inescapável: fora exatamente daquele jeito que Kiba o havia segurado para que Naruto e os outros o espancassem.

Naruto... por quê?

E então uma sombra se apresentou de seu lado segurando o braço do agressor. Quando Kiba virou-se para ver quem era, foi acertado por um um soco tamanho que um filete de sangue espirrou no rosto de Sasuke.

Antes que caísse de joelhos, Sasuke sentiu seu corpo ser amparado pela silhueta. Ele também conhecia aquele toque — aquele cheiro inconfundível.

— Já chega, Kiba — Naruto falou em tímbre ríspido e quase animalesco.

Kiba estava cabisbaixo, levava as mãos à boca ensanguentada.

— Você não vai ganhar nada com isso.

— O que... você tá fazendo, Naruto? — O Inuzuka o encarou. — Por que defende esses caras? — ele olhou para Sasuke nos braços do amigo. — Por que tá defendendo ele?

— Sasuke fez o pai dele mudar de ideia sobre me mandar para o reformatório — Naruto disse.

Sasuke ficou de pé ao lado dele e ajudou Sai a fazer o mesmo.

— Então quer dizer que nós...

— Não, cara — ele respondeu. — Nós não. Você ainda vai pra aquele lugar.

Kiba sorriu, incrédulo.

— Cê tá brincando, não é? — deu uma passo na direção deles e Naruto se adiantou ficando entre ele e os outros dois. — Qual é, Naruto... nós somos amigos há anos.

— Somos, mas eu não vou deixar você encostar neles novamente. Não foi assim que eu resolvi as coisas e não vai ser assim que você vai resolver.

— Pro inferno com esse discurso moralista! — Kiba balançou as mãos, transtornado. — Esse japonês maldito-!

— Sasuke. — Naruto falou no mesmo tom que ele. — O nome dele é Sasuke.

Kiba pareceu que ia dizer mais alguma coisa, mas ficou em silêncio. Baixou as mãos e virou as costas.

— Você me traiu — disse. — Espero que não se arrependa — cuspiu um bolo de sangue e depois virou o rosto o suficiente apenas para que se pudesse vê-lo de perfil. — Nenhum deles teria coragem de fazer por você o que eu tinha.

Assim, ele caminhou rumo a escuridão daquele beco até desparecer completamente.

Naruto se virou para os dois.

— Ele machucou muito vocês? — perguntou olhando para Sai e depois encarou Sasuke. — Desculpe por demorar a me decidir — com as duas mãos, ele acariciou os cabelos bagunçados de Sasuke. — Eu realmente sinto muito.

E Sasuke viu os olhos azuis, iluminados somente pela luz lunar, brilharem. Uzumaki Naruto, o ex-delinquente, estava chorando... por ele.

— Eu... estou bem. — Sasuke disse segurando o braço do loiro. — Obrigado por vir.

— Vocês não tinham que se meter. Ele poderia ter os machucado — Sai disse. — Eu disse que iria resolver isso, Sasuke.

— Não importa agora. — Sasuke pontuou.

— Vamos sair logo daqui — Naruto falou passando a palma da mão em baixo do olho esquerdo.

Os dois em seguiram.

— Vocês estão juntos? — Sai perguntou.

— Como assim?! — Naruto se virou bruscamente para ele.

— Nós viemos juntos — Sasuke disse, para a trazer paz ao coração do loiro.

— Hum. — Sai murmurou. — Mas estão juntos?

E o coração de Naruto parou de novo.

— Não. — Sasuke respondeu.

— Sasuke...?! — Naruto disse com algo próximo ao desapontamento.

— A gente vai te levar pra casa — o Uchiha ignorou o desespero do Uzumaki.

— É. Levamos. — Naruto disse, disfarçando o impacto. — Aonde você mora mesmo?

— Por que não voltamos para o bar? — Sai sugeriu apontando para o The Rock. — Eles consertaram o jukebox e eu estava curtindo. Não quero deixar isso estragar minha noite.

E, mais uma vez, Naruto se surpreendeu. Não conseguia entender como alguém que acabara de levar uma surra ainda estava afim de ir para um bar. Ele podia dizer por experiência que somente quem ganha a briga tinha direito de continuar na rua. Não era ele quem fazia as regras.

— O Naruto precisa devolver o carro ao pai — Sasuke disse.

— Ah. É uma pena. — Sai respondeu, sem parecer de fato desapontado.

— Meu pai não vai sair. Nós podemos ficar, se você quiser — Naruto falou, se aproximando do veículo.

— Eu não sei se é uma boa ideia. — Sasuke disse. — Você está mesmo bem?

— Vou sobreviver. — Sai deu de ombros. — Podemos trazer a Ino. Ela nos matará se entrarmos ali sem ela.

Sasuke filmou Naruto.

— O que você acha? — perguntou.

— Eu não sei se ela vai ficar feliz em me ver. — Naruto coçou a cabeça. — Mas tudo bem, por mim.

— Então está bem — Sasuke disse.

— Isso! — Sai abraçou Sasuke por trás e encaixou seu queixo perto do rosto de Sasuke. — O Sasuke é um amor, não é, Naruto?

— Vamos logo! — Naruto já havia virado a cara e destrancado a porta do carro. Aquele estava sendo um dia muito cruel para seu coração.

[...]

Naruto olhou de longe a casa de Ino. Lembrou-se de quando saiu correndo pelado de lá e como quase foi preso ao dirigir em alta velocidade pelas ruas da cidade... ele definitivamente não esperava voltar tão cedo para aquele lugar.

— Eu vou chamar. — Sai anunciou.

— Espere — Naruto disse e então buzinou uma vez, parou, depois buzinou mais duas vezes, parou e, por mim, buzinou de novo.

— O que foi isso? — Sai perguntou.

— Nosso código — Naruto respondeu olhando para a porta. — Ela vai sair.

— Segura esse pau, Naruto — Sai fez abrindo a porta para ir à casa dela.

O loiro se virou para Sasuke no banco de trás, consternado.

— Ele é sempre assim...? — perguntou.

— Quase sempre — Sasuke respondeu com os braços cruzados para se esquentar.

— Espera. Onde diabos está o seu casaco?! — Naruto perguntou já tirando a jaqueta.

— Eu mandei ele junto com minha mochila. Não estava tão frio mais cedo...

— Vista isso. — ele disse empurrando a jaqueta nas mãos de Sasuke.

— Mas e você?

— Eu não sinto muito frio e você já tá ficando azul!

— Não exagera — Sasuke pegou a jaqueta, mas antes que Naruto recolhesse a mão esquerda, Sasuke a segurou. — Você machucou a mão — ele analisou os dedos. — Foi quando o socou?

— Foi. É normal. Sempre acontece — Naruto desviou os olhos.

— Agora vai ter que fazer curativo nela também.

— “Não exagera” — o imitou com um sorriso sacana.

Sasuke levantou uma sobrancelha e meteu uma tapa em cima da parte roxa nos dedos do outro.

— Ah, porra! — Naruto recolheu a mão a pressionado com a outra. — E você diz que eu sou violento?! Eu te odeio, Sasuke Uchiha!

— Eu também te odeio, Naruto Uzumaki.

— Esse 'tá sendo um dos dias mais estranhos de minha vida. Sinto que vou morrer antes da meia-noite — ele virou de novo para o banco de trás.

— Minha mãe diz que a gente só deve morrer quando estivermos muito feliz — Sasuke disse quanto abotoava a jaqueta.

— Mas eu estou. — respondeu em um tom baixo. — Graças a você — continuou. — Obrigado.

Sasuke olhou nos olhos de Naruto e sentiu como se, ao usar aquela jaqueta, eles estivessem mais ligados do que nunca. Talvez fosse a hora de cobrar uma resposta do que havia dito quando chegaram ao The Clock, mas Ino já emburacava no carro o empurrando para o outro canto do banco.

— Vocês vão ter que me contar tudo! Cada detalhe! — ela disse. — Eu vou matar aquele cachorro imundo!

A garota vestia um casaco grosso, branco. Parecia ser novo, já que Naruto jamais havia o visto. Ele se arrumou no banco do motorista, evitando olhar para a loira. Quando Sai entrou e fechou a porta, ele deu partida.

— Oi, Ino — Sasuke a cumprimentou.

— Oi, querido. — ela o apertou pela bochecha e então começou a alinhar os cabelos dele. — Foi ele que te fez isso? — então ela ficou em pé e meteu a cabeça entre os bancos da frente. — Você deixou aquele animal fazer isso com eles?!

— O Naruto nos ajudou — Sasuke interveio. — Se não fosse ele, não sei como estaríamos agora.

— Eu estou falando com ele, Sasuke. — Ino respondeu. — Vamos, Naruto. Me diga o que você fez.

— Mais do que você — Naruto disse.

— É irônico dizer isso, sendo que é o culpado por tudo que aconteceu — a moça falou de modo desdenhoso. — Se eu tivesse o que você tem no meio das pernas e metade desses músculos, já teria dado uma surra nele e outra em você.

— Disso eu não duvido.

— O que você fez, Naruto? — a Yamanaka perguntou de novo.

Naruto respirou fundo.

— Foi só um soco — respondeu, ainda olhando para o caminho. — Você queria que eu tivesse feito o que? O matado? Achei que violência não era o melhor caminho. Não era por isso que iam me mandar pra o reformatório? Por causa do meu “comportamento predatório”?

Ino se enfiou no banco e continuou a olhá-lo pelo espelho retrovisor interno.

— E se arrepende de ter feito isso?

— Não. Foi preciso. Eu conheço o Kiba, somente alguém mais agressivo do que ele pode o controlar.

— Por isso você era o líder do bando — ela se virou para Sasuke e, ao perceber a jaqueta deu um sorriso para ele seguido de uma piscadela. Se não estive quase azul, Sasuke estaria corado.

— Esqueça isso, Ino. Vamos aproveitar a noite — Sai se meteu na conversa. — Ele vai embora, então não vamos precisar mais nos preocupar.

— Que vá do inferno mais pra lá. — ela colocou as mãos por trás do pescoço dos dois garotos e os trouxa para um abraço. — Eu amo vocês.

Naruto assistiu a cena pelo retrovisor. Ela parecia uma mãe protegendo os filhotes indefesos e ele gostou de perceber isso. Ele não era o único que se importava com Sasuke, afinal.

[...]

 Kiba já estava deitado na grama daquela praça há muito tempo. Tinha lavado parcialmente a boca numa torneira por ali, mas ainda havia uma nódoa vermelha que se espalhava pelo seu queixo e camisa.

— Naruto, maldito... como pode ter um soco tão forte? — ele riu ao fazer a pergunta para o zéfiro gelado. — Sempre achei um máximo essa sua força monstruosa... esse seu poder de obrigar os outros a fazer o que quiser — ele olhava para o céu alvejado pelas estrelas. — Por que você me traiu?

Então voltou a chorar. Não estava bêbado, mas, de alguma forma, sentia esse torpor lhe carpir as energias e lhe fazer ter vontade apenas de chorar.

Eu juro que você vai se arrepender! Socou o chão e se levantou. Eles vão te trair, assim como você me traiu! Seus novos amigos são fracos. Aonde você acha que chegará com eles? E riu em meio aos prantos. No céu? Não! Vai queimar no inferno, você e eles!

Então ele se levantou, passou uma mão nos lábios e desceu a rua. Havia sido traído pelo seu único e melhor amigo, mas morrer naquele frio não resolveria nada.

“Você não vai ganhar nada com isso.”

— Pro inferno! — exclamou, sozinho. — Eu tava fazendo tudo isso por nós. — falava como se Naruto o estivesse ouvindo. — Por você...

Minutos depois ele estava onde a briga havia acontecido. Ele passou por aquela parte sem levantar o rosto. Continuava chorando copiosamente, como se em vez de um soco, Naruto o tivesse lhe cravado uma espada no coração.

Foi então que ele parou na calçada oposta ao The Clock. Levantou a cabeça e olhou para o vidro: lá estavam Naruto, Ino e Sai. Sorrindo.

Ele ficou parado, seu rosto completamente tomado pela tristeza e sangue. Viu Sai se dirigir aos jukebox e colocar uma moeda para trocar de música. Provavelmente tinha escolhido “Tequila” ele adorava o som dessa. Kiba sabia bem disto.

Então Sai voltou-se para Sasuke e tomou pela mão. Parece que o maldito Uchiha havia resistido, mas Sai insistiu até o arrancar do banco e começarem a dançar juntos.

— Viados... — Kiba cuspiu. — Você escolheu dois malditos viados ao invés de mim, Naruto? Por que?

Kiba ficou observando a maneira como Naruto não tirava os olhos dos movimentos de Sasuke. De como ele lambia os lábios e se remexia na cadeira, e a jaqueta a qual ele não tinha tanto ciúmes vestida no Uchiha.

— Então é isso... — ele sentiu a tristeza gradativamente ir se transformando em ira. — Você também é um viado.

Ao fazer a constatação, Kiba marchou para atravessar a rua. Não havia mais tristeza, apenas ódio. Quando ele alcançou a calçada, parou. Lá dentro, dois homens carecas e de posturas maníacas estavam de pé na frente de Sasuke e Sai, caídos. O Inuzuka viu Naruto tomar a frente dos dois, assim como fizera antes, mas ele parecia diferente agora. Suas mãos levantadas, como se pedisse calma aos outros dois.

Aquele não era o Naruto que ele conhecia.

Foi rápido. Um dos caras quebrou uma garrafa no balcão e, enquanto o outro partia para socar Naruto, ele avançou baixo e meteu o gargalo abaixo das costelas do loiro. Kiba sentiu o coração gelar e deu um passo para trás diante da cena. Todas as pessoas lá dentro pareceram não acreditar no que viram. Naruto desabou e Ino correu ao seu socorro. Nesse tempo, os dois sujeitos surgiram na porta  à frente de Kiba e lhe lançaram um olhar feroz.

Kiba continuou quieto até os caras sumirem nas sombras que outrora o engoliram. Virou a cabeça para o bar. O barman estava o telefone, aflito. Ele podia ouvir os gritos da mulher negra que fazia a comida. E no chão, várias pessoas em torno de Naruto. Ele não podia o ver, mas conseguia sentir aquela dor perfurante lhe cortar.

Viu? Se estivéssemos juntos, isso nunca teria acontecido com você. Kiba pensou e voltou a fazer seu caminho. Agora, a dor que antes o torturava, lhe trazia prazer. Aquele era o sinal de que, de um jeito ou de outro, a vida faria o Uzumaki pagar pela punhalada que lhe deu.

We're gonna rock, we're gonna rock around the clock tonight


Notas Finais


Bem, é bom pontuar que eu já havia decidido o nome da música quando descobri que existe um bar com esse nome em SP e ele é ambientado justamente nos anos 60. Coincidência? Eu acho que não.
Muito obrigado pelos comentários e favoritos.
Vejo vocês no próximo~


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