História Slave To The Rhythm - Capítulo 6


Escrita por:

Postado
Categorias Lisa Marie Presley, Michael Jackson
Visualizações 26
Palavras 8.757
Terminada Não
NÃO RECOMENDADO PARA MENORES DE 18 ANOS
Gêneros: Crossover, Romance e Novela
Avisos: Insinuação de sexo, Linguagem Imprópria
Aviso legal
Os personagens encontrados nesta história são apenas alusões a pessoas reais e nenhuma das situações e personalidades aqui encontradas refletem a realidade, tratando-se esta obra, de uma ficção. Os eventuais personagens originais desta história são de minha propriedade intelectual. História sem fins lucrativos, feita apenas de fã para fã sem o objetivo de denegrir ou violar as imagens dos artistas.

Notas do Autor


Olá, olá.. demorei dessa vez, mas é que esse capitulo era bem grande e eu pra escrever sou um pouco lenta rs. Espero que valha a pena. Boa leitura.

Capítulo 6 - - Jantar, Parte 2.


Eles adentraram num prédio de designer ultra-moderno. A fachada inteiramente em ilusão de espelhos, dos que controlam a luz e o calor. De forma distorcida, Lisa via o reflexo de outros edifícios nele. O lobby era minimalista e inteiramente em creme. Ela alcançou ver um vaso sem flores no canto de uma das paredes e um sofá branco um pouco além do balcão onde um uniformizado funcionário estava. Ele cumprimento Edward com um aceno e o grupo subiu. 

No elevador, Lisa comentou sobre o número de andares. Vinte e seis. Parecia ser menor do lado de fora. Até chegarem a porta do apartamento de Eddie, no vigésimo primeiro andar, esse foi o assunto que travaram. Michael permaneceu em silêncio.

Lisa se perguntava o quanto ele devia estar detestando a presença dela ali. 

A decoração do apartamento combinava com a da recepção. Grande, sem cor e com vários aparelhos eletrônicos espalhados. Típica moradia de solteiro... Lisa pensou, com um riso de lado. 

- Bem vindos ao futuro. - Michael murmurou para ninguém especial. 

- Michael acha meu gosto pra decoração vazio e sem inspiração. - Edward explicou para Lisa. 

Lisa pensou na ironia que era essa opinião, vinda de uma pessoa tão vazia quanto aquela casa. 

- Eddie? - Uma voz soou em outro cômodo. - Edward, é você? 

O timbre foi ficando cada vez mais próximo até que se revelasse como o de Tatiana Thumbtzen. O riso receptivo da prima baillarina desapareceu ao encontrar a figura feminina no meio dos dois. Durou alguns segundos até ela se recompor e manter o foco no irmão. 

- O que você está fazendo aqui? Pensei que fosse sair com as suas amigas- Edward acusou, descontente, jogando seu casaco em uma poltrona. 

- Também não precisa falar assim. - A irmã se defendeu. - Tudo bem se eu ficar pro jantar, não é? 

O cenário ficava cada vez mais surreal para Lisa. Agora a grande Tatiana Thumbtzen se juntaria a eles também. Só não esperava que fosse com o roupão preto que ela estava usando. 

- É que eu não sei se vai ter frango pra todo mundo. 

Tatiana olhou para Lisa. A razão pela falta de frango. Ela não se incomodou em esconder o olhar de decepção. Uma corps de ballet. E logo a que Michael havia mencionado que gostava. Eles não estavam próximos nesse momento. Durante seu diálogo com Edward, o coreógrafo caminhou até a janela, olhando a avenida movimentada do lado de fora. Já Lisa, estava a alguns pés atrás da poltrona onde o irmão se acomodava. 

Isso era um bom sinal. Se Michael tivesse interessado a teria oferecido que se sentasse, e como se a casa fosse sua, nesse momento estaria ao lado dela, conversando ou oferecendo algo para tomar. Ela o conhecia, sabia como ele funcionava ao gostar de alguém. 

Com esse pensamento otimista, Tatiana se recompôs. 

- Oh, você não me disse que o Michael também viria. Oi Michael. 

Ele quase não se moveu. Seu gesto de cumprimento foi uma leve mexida em seus lábios, contraindo-os desconfortável. Logo virou para a cidade. Com a recusa dele em dizer nada mais, Tatiana seguiu para a cozinha. Lisa ouviu o barulho da geladeira se abrindo. 

- Os frangos são bem grandes. - Anunciou ela, alto. Michael não viu como uma boa noticia. - Acho que vai da pra todo mundo. - Disse enquanto voltava para a sala. - Eu vou me arrumar e já volto. - Seu aviso muito mais para o coreógrafo que o restante da sala. 

Tatiana desapareceu na mesma velocidade que apareceu. Lisa não imaginava que eles morassem juntos. Ela e Brooke eram obrigadas, por ser a única forma de pagar o aluguel, mas aqueles dois... Poderiam muito bem pagar suas despesas sozinhos. 

Lisa apostou que talvez os dois quisessem herdar esse apartamento, que provavelmente deveria ser dos país. 

Com a saída de Tatiana, Edward levantou-se da poltrona se dirigindo a Lisa. 

- Acho melhor eu começar. Vocês ficam aqui? 

Ela? Sozinha em uma sala com Jackson? Tendo que falar com ele? Não. 

- Eu ajudo. - Sorriu. Oferecendo-se, de muito bom grado. 

- Tem certeza? - Ela assentiu. - Me ajuda com a salada, então. - Começaram a andar. 

- Claro. Salada é minha especialidade. 

E se tornaria uma chefe pela chance de vinte minutos longe daquele homem, que nunca deveria ter encostado perto de uma cozinha. E que definitivamente não tentaria hoje, com ela lá. 

- No que eu posso ajudar? - Michael perguntou, os seguindo. 

Não soube dizer quem ficou mais chocado. Lisa porque nunca imaginaria que um homem tão arrogante soubesse algo de cozinha, ele deveria chamar um empregado até para pegar uma colher. Já Edward congelou, mirando ao amigo como se estivesse em frente a um ser de outro planeta. Conhecia Michael há pelo menos quinze anos para saber que ele era do tipo de pessoa que só ia a cozinha para beber água. 

- Uh... Tá bom. - Gaguejou, sem saber o que responder. Seguiram ainda um pouco atônitos para o cômodo seguinte. Uma cozinha de visual moderno. Com um grande balcão inóx no meio onde Lisa e Michael se encostaram para suas tarefas. Edward iria para a grelha elétrica do lado oposto ao mesmo balcão. - Você ajuda no pão de alho, Michael? 

Ele assentiu, com aceitação. Conforme a atividade passava, a desconfiança de Edward aumentava. No caminho para a casa, havia rejeitado a ideia de Michael estar interessado em Lisa. Seu comportamento rude e calado era todo o contrário do que ele costumava ser ao tentar flertar com uma mulher, mas agora as coisas se inverteram o deixando em dúvida. 

Primeiro, essa disposição em ajudar na comida. Mas, por outro lado, também poderia ser para evitar conversar com Tatiana, caso ficasse sozinho na sala. Depois, capturou o olhar dele na bunda dela assim que a garota abaixou para apanhar uma tábua de cortar vegetais. Um reflexo de homem, talvez? É, talvez. Essa foi sua explicação. Porém as atitudes seguintes de Michael não tinham desculpa. Por maior que fosse o balcão, Michael insistia em fazer seu pão de alho o mais próximo possível de Lisa. E em alguns momentos seus ombros até se encostavam. E ao julgar pelo olhar dele, não estava confortável com isso, apesar de insistir em ficar. 

Mas o mais grave de tudo, eram as falhas (e esquisitas) tentativas do rapaz em engajar uma conversa com ela. 

- Então... Você costuma fazer salada? - Falou, como se estivesse a todo vapor pensando no que poderia dizer e foi com o primeiro que apareceu. Por mais horrível que fosse. 

Lisa fez uma pausa com a particularidade de tal pergunta.

- É... Bastante até. - Respondeu hesitante. - Vegetais são bem baratos. 

Michael não soube como seguir. Ao observá-la franzir as sobrancelhas, enquanto esvaziava os pedaços lavados de alface em uma tigela, viu que Lisa estava relutante em continuar falando com ele. Aquilo o irritou profundamente. O que ela pensava? Que era uma diversão para ele ficar caçando conversa com uma corps de ballet de vinte e três anos? Será que essa idiota não percebia como era um elogio o fato dele sequer lhe dirigir a palavra? O que ela pensa? Que os coreógrafos socializam com seus dançarinos o tempo todo? Principalmente um coreógrafo como ele. E com uma corps... 

Enquanto cortava mais um pão, decidiu que não falaria com ela outra vez. Aquilo era demasiado para seu ego. Não gastaria uma palavra a mais com essa ingrata. Chega, decidiu. 

- Você é sempre assim tão falante? - Michael questionou, seco. Segundos após sua '' decisão''. 

Lisa suspirou, prendendo uma risada. Sabia o que ele queria. A intimidar. Relembrar que sua presença ali não era bem vinda. 

- Só quando falho em ser sarcástica. 

Ela enviou, fortemente, a lâmina de sua faca para o tomate. - Vê como é perigoso provocar alguém empunhando uma faca afiada? - Disse em tom de brincadeira, queria demonstrar que aquela postura dele em querer diminuí-la para ela era uma piada. 

Entretanto, para sua surpresa, Michael sorriu. Antes que ele pudesse rebater, a campainha tocou o interrompendo. 

- Deve ser a Brooke. - O rosto de Edward se iluminou, indo atender imediatamente. Por um lado, estava feliz apenas por ela estar ali, por outro era um alivio ter alguém para o acompanhar naquele flerte estranho entre Michael e Lisa. O deixava desconfortável. 

Ouvir a voz da irmã na sala alegrou Lisa, e ela pôde finalmente respirar com tranquilidade quando Brooke os visitou na cozinha. 

- Tá um gelo lá fora. - Brooke esfregou as mãos ao entrar. - Liz! Não sabia que você vinha. 

A caçula a abraçou, rapidamente. 

- Edward me convidou. 

- O que aconteceu com você depois do ensaio? Eu e a Sophie te esperamos. 

Lisa fitou Michael. Incerta se deveria contar que novamente ficou de boneca para ele. 

- Ela ficou pra me ajudar. - Michael interveio, ao sentir a pausa dela. De qualquer forma, não estavam fazendo nada de errado. 

Brooke tentou disfarçar sua surpresa. 

- Ah, sim entendi. Como vai senhor Jackson? 

Brooke o cumprimentou e ele, em seguida, perguntou sobre seu joelho. Brooke disse que estava melhor e que já não doía na hora de esticar. Aquela conversação causou repulsa em Lisa, como sua irmã conseguia agir tão amigável com quem era o culpado de sua queda? Frustrada, decidiu focar em terminar aquela salada. 

Brooke, Edward e Michael continuavam a falar, quando Tatiana se juntou ao grupo. 

- Brooke, querida! - Exclamou pomposa. Ela sempre falava assim, como uma atriz dos anos 50, com uma atitude de diva. 

Elas deram um beijo na bochecha. 

Quem via a saia curta e a blusa decotada de Tatiana não imaginaria o frio e a neve que estava fora do apartamento. O aquecedor da casa era ótimo, mas ainda sim era inapropriado. Seu visual completava-se com um salto bico fino e um batom vermelho, os cachos definidos com gel brilhavam como se tivessem luz própria. Ela era linda. E estava vestida para matar. 

- Sentiu minha falta? - Tatiana provocou Michael. 

Lisa observou, entendendo para quem era tudo isso. Ele não respondeu, voltou ao pão após inalar o ar profundamente. 

- A gente ainda não se conhece, certo? - Sua atenção agora foi até a mais jovem do grupo. - Você deve ser a irmã da Brooke. 

Tatiana estendeu a mão e sorriu. Era um riso cortante demais para alguém que estava sendo educada, Lisa reparou. 

De qualquer forma, sorriu de volta e apertou sua mão. 

- Lisa. 

Seis meses dançando juntas e era a primeira vez que trocavam uma palavra. O olhar de Tatiana decaiu sob suas roupas. 

- Você deve ter acabado de sair do estúdio. - Apesar da alfinetada, ela permanecia sorrindo. 

- É... Eu to um pouco fora pra ocasião. 

Ela franziu o nariz, como se tivesse cheirado algo ruim no ar. 

- Não só um pouco, querida. Mas não se preocupe que estamos todos entre amigos, ninguém vai reparar. 

- Ok, frango na grelha. Já. - Edward anunciou, alto, para que a irmã não tivesse que falar mais nada. 

Tatiana tirou sua atenção de Lisa e se pendurou ao lado de Michael. 

- E você o que está fazendo? 

Michael piscou algumas vezes. Não sabia definir o que era pior. Tatiana conversando/insultando Lisa ou conversando/flertando consigo. 

- Tentando fazer pão de alho. 

O tédio com qual ele se expressou não ficou no caminho dela para interromper sua persistência. 

- Eu sou uma cozinheira terrível, queimo até as torradas. Achei que você fosse mais como eu. 

Michael ficou em silêncio, porém Tatiana permaneceu esperando. Brooke, para evitar que o clima ficasse tenso, se interpôs. 

- Então somos duas. Na minha família eu sou aquela que coloca açúcar ao invés de sal e sal ao invés de açúcar. 

- Sendo assim já temos as duas mulheres que irão servir a mesa. - Disse Edward, de bom humor. Com Brooke ao lado, ele colocava dois frangos na grelha. 

Tatiana fez cara de desdem. 

- Ai, Eddie, por favor. Eu não sirvo a mesa desde os nove anos. 

- Então é melhor recomeçar. - Falou sério. Um sério que poucas vezes usava. A ideia de Brooke fora ótima, assim manteria a irmã ocupada e longe. 

Outra vez para amenizar as coisas, Brooke perguntou onde ficava os itens de mesa. Edward não soube responder. Michael, como se fosse obvio, sugeriu que nos armários. Edward se desculpou com um sorriso envergonhado e sussurrou '' Eu disse que não cozinhava'' e Brooke riu com ele. Incapaz de ver isso como uma falha. Lisa, ao contrário, pensava diferente. Não saber onde ficavam as coisas em sua própria casa era um defeito grave para ela. 

Quando Brooke se foi com Tatiana, Edward ligou o rádio. Caso aquilo entre os dois companheiros de cozinha continuasse, precisaria de uma distração. Entretanto, eles o surpreenderam ficando em silêncio. Além da música o único ruído era o de Tatiana reclamando da falta de guardanapo. 

Eles comeram sob uma porcelana de alto requinte, na mesa de jantar, preta, adjacente a sala. Olhando ao redor do comedor, Lisa se sentiu como uma erva em um jardim de orquídeas. Tatiana com suas roupas caras, maquiagem e beleza, poderia passar como uma modelo em qualquer país do mundo. Tanto Edward quanto Michael usavam camisas de gola franzidas, e Brooke havia obviamente passado em casa antes de vir. Ela usava um lindo suéter de cashmere e um delineador bem desenhado. Era como se todos eles fossem para um restaurante e ela para a academia. Mas o que poderia fazer, pensou que iria para a casa depois do estúdio. 

Apesar de sua bondade, Edward era um anfitrião terrível. Ele não ouvia ninguém além de Brooke e não falava com ninguém além dela. E sua irmã por mais dócil e simpática que fosse, estava presa nos encantos dele. O que deixava Lisa para socializar com Michael e Tatiana. O primeiro não se concentrava em nada além do próprio prato e a segunda, ao abrir a boca, não saía nada além de informações sobre si mesma. 

- E então, é claro, Rodrigo me disse que eles estão aumentando o preço no salão. Eles sempre cobraram mais de mim do que das outras, afinal manter as mãos e os pés de uma bailarina não é algo fácil. - Reclamou Tatiana, com um olhar resignado e um balançar de cabeça. 

Depois de quase meia hora de conversa com veias semelhantes, a paciência de Lisa fora desgastada. Ela apoiou o queixo com a mão e sorriu educadamente para a mulher sentada à sua frente. Michael à esquerda de Tatiana. 

- ... Mas agora eles aumentam e significa que vai ainda mais caro pra mim. 

Lisa não podia mais conter sua língua e seu desejo de parodiá-la. 

- Não! Mas isso é um absurdo. Por que eles fazem isso? - Usou de sua voz mais aguda para imitar uma socialite. - Por quanto? 

Tatiana levou uma das mãos até seu coração. 

- Vinte dólares. Agora são setenta e cinco dólares por uma manicure. Eu disse que eles estavam loucos de pensar que eu aceitaria uma coisa dessas. 

Nisso Lisa concordava. 

- É. Setenta e cinco dólares por uma manicure é ridículo. 

- Eu sei. - Tatiana suspirou, finalmente era compreendida. 

O interesse de Lisa na questão tão fútil de Tatiana chamou a atenção de Michael. Estava pronto para finalmente largar sua atração, quando viu o que ela estava fazendo. Através de sua máscara simpática, estava a mesma zombaria que ele havia sido vítima na festa de elenco do Quebra-Nozes. Aqueles olhos brilhavam com diversão pelo seu esporte particular.

- Sabe, tem um ótimo salão no meu bairro. - Lisa adicionou. - Harlem Treasure. Ótimos preços. Principalmente na segundas. E eles tem uns esmaltes florescentes lindos.  

Michael assistiu Tatiana tentar esconder sua aversão, enquanto Lisa disfarçava seu deleite pela brincadeira. Aquilo estava começando a ficar divertido para ele também. 

- Quer que eu te dê o cartão? - Lisa perguntou, forçando propositalmente a situação. 

- Bom... É... Eu acho que eu devo tá exagerando. - Tatiana gaguejou, se recompondo aos poucos. - Quer dizer, o Rodrigo faz um trabalho espetacular. Talvez valha a pena continuar com ele. 

- Oh. Entendo. - Foi a única resposta de Lisa, antes de sorrir para seu prato. 

Tatiana franziu levemente as sobrancelhas, e então virou para a esquerda, interrompendo a conversa de Brooke e Edward. Ela perguntou a Brooke que salão ela usava, alegando que adorava seu tingimento. 

Quando Lisa viu que todos tinham acabado de comer, ela se levantou, juntando seu prato e utensílios e começou a recolhê-los da mesa. A parcela rica das cadeiras ficaram boquiabertos e Edward se levantou abruptamente. 

- De jeito nenhum, Liz. Os convidados não lavam os pratos - Edward ordenou com um sorriso. 

- Pode deixar na pia - Disse Tatiana, acenando com a mão para a cozinha - Hilda os limpará amanhã. 

Edward ficou vermelho de vergonha e lançou um olhar castigando a irmã. Administrando o sorriso mais genuíno que conseguiu reunir, Lisa se virou e levou seus pratos para a cozinha. Ela contou até dez e, depois, decidindo que não era suficiente, aumentou o número para vinte. Quando chegou aos nove, a porta da cozinha se abriu e Brooke e Edward se juntaram a ela, cada um com dois pratos na mão. Os extras obviamente pertencentes a Tatiana e Michael, que permaneceram na mesa. O casal colocou os pratos na pia, e então Edward pediu que Lisa voltasse para a sala de jantar. 

- Nós lavamos, não se preocupa. - Lisa até protestaria, mas era óbvio como aquela era uma desculpa dos dois para que ficassem sozinhos. 

Assentiu em aceitação e os deixou. 

Sem a comida para ocupá-los, a conversa atrasou em chegar. Os assuntos mais importantes para Tatiana já haviam sido abordados: manicures, compras e Tatiana. Naturalmente, aos poucos o diálogo caiu em uma zona neutra para os três. - balé. 

- Então, Michael. Espero que você esteja coreografando um maravilhoso pas de deux para mim - Tatiana se manifestou, efusiva. 

- Estou coreografando. Agora se é maravilhoso ou não, ainda não foi decidido. - Disse ele, levantando os olhos para ver Lisa. Ela se mexeu desconfortavelmente e olhou para seus joelhos. 

Edward, que vinha da cozinha para apanhar um copo que foi esquecido, falou com inocência. 

- Pergunta pra Liz. Ela foi a única que viu até agora. 

Tanto Lisa quanto Michael lançaram-lhe olhares simultâneos de morte e Edward se encolheu constrangido. Ele pegou o copo e fugiu para seu ninho com Brooke, na cozinha. 

Endireitando-se em sua cadeira, Tatiana sorriu sem jeito. 

- Ajudando? - Ela perguntou, sua voz rastejava em um tom confuso. Confuso e até perigoso. 

- Eu a estou usando de boneca. - Michael explicou. - No dia que a Brooke caiu e eu dispensei vocês, ela ficou com a irmã e tive a idéia que me ajudasse. 

Qualquer expressão simpática no rosto de Tatiana desapareceu. Se antes ela sorria e por trás era uma cobra, agora ela resolveu ser apenas a cobra. 

- Mas ela consegue entender o papel? Consegue desempenhar no nível? - Questionou, demonstrando claramente sua incerteza. 

- Mas é claro que não. Que absurdo. - Michael ridicularizou a pergunta, como se não pudesse acreditar que ela insinuou tamanha blasfêmia. 

Lisa arfou, quase perdendo o ar. Se sentiu pequena. Não com a mordida no tom de Tatiana, mas sim na maneira com qual Michael se referiu a sua capacidade. Tinha ciência da opinião que ele tinha sobre sua dança, mas o coreografo não sabia que ouviu seus insultos na outra vez. Agora, entretanto, ela estava bem na frente dele e ainda sim, teve a mesma piedade que teria se estivesse longe. 

Seu rosto queimou, meio com raiva, meio com humilhação. Um silêncio constrangedor passou pela mesa. Tatiana, satisfeita com o que Michael deu a entender, sorriu e se virou para Lisa.

- Quais papeis você já dançou, Lisa? 

Lisa entortou os lábios. 

- Nada muito memorável até agora. Por enquanto acho que só a Sylphide, na faculdade. Na maioria das vezes, nós preferíamos peças contemporâneas. 

Tatiana pareceu surpresa, mas não com sua falta de protagonismo na dança. E Sim, com uma palavra em especial. 

- Você fez faculdade? - Não era algo muito comum no meio artístico, principalmente no balé. 

- Fiz. Em Memphis, no Tennessee. Terminei e pouco depois me mudei pra cá. 

- Se formou em dança? 

Lisa achava engraçado a forma como ela lhe fazia essas perguntas, como se estivesse diante de um ser de outro planeta. 

- Não. Tinha um grupo de dança lá que eu fazia parte, mas eu formei mesmo em literatura francesa. 

- Ah. - Tatiana abriu a boca, tão desentendida quanto curiosa. - E por que quis fazer faculdade? Quero dizer, certamente você devia saber que isso não faria nada pela sua carreira. - Lisa captou o veneno dela voltar. 

Ela inalou devagar. Estava na casa da garota, tinha que manter a compostura. 

- Talvez não agora, mas no futuro quem sabe. Não dá pra dançar pra sempre, tem que ter um plano B. 

- E dá pra ler livros franceses pra sempre? - Tatiana riu. 

Lisa abriu a boca para retrucar, quando Michael interrompeu. 

- É a profissão que importa, Tatiana. Foi extremamente prudente da senhorita Presley obter um diploma universitário. Ela está certa. Não se pode dançar para sempre.

Lisa olhou para ele através da mesa, tentando achar o sarcasmo ou zombaria que deveria estar omitindo. Não encontrou o que esperava. 

Ele concordando comigo? Impossível. Ele não me suporta. 

- Mas desperdiçar quatro anos da sua carreira em uma sala de aula? - Ela protestou. - Não tem como ser uma decisão inteligente, Michael.

- Eu não considero o semestre que eu passei na Juliard como desperdício de carreira. - Michael retorquiu, sentindo a garganta seca. 

- Mas é diferente. É a Juliard. É a melhor. E você dançou na Juliard, você não estava preso em uma biblioteca lendo livros franceses. - Sua cabeça imediatamente virou para Lisa. - Sem ofensa. Eu sou uma leitora ávida também, claro. Todos devem ler, incluindo os dançarinos. 

- Verdade, não há nada pior do que uma bailarina burra. - Replicou Lisa, num sarcasmo sútil. Michael lhe deu um olhar forte, ele quase riu. 

Tatiana assentiu com satisfação pessoal, lançando um sorriso vitorioso para Michael. Ela viu o coreógrafo praticamente fazendo um buraco na testa de Lisa. Seus olhos tão escuros e intensos que chegavam a doer. Tatiana se satisfez. Não só ela envergonhou a pequena novata, como também conseguiu alguns pontos com Michael, que agora a devia estar julgando. 

- Então, você dançou principalmente peças modernas, não é? - Tatiana perguntou, tentando rasgar Lisa de outro ângulo. - Muito rolar no chão, muito rolar de cabeça, esticar braço e essas coisas. 

- Por ai. - Dessa vez, Lisa disse com certo cansaço. 

- Eu nunca entendi dança moderna. Qualquer selvagem consegue rolar no chão, pular que nem um doido e ficar descalço. Não concorda, Michael? 

Relutantemente, Michael preferia assistir os olhos brilhantes de Lisa sempre que oferecia uma ofensa irônica, do que entrar para o ringue. Mas foi chamado e deveria corresponder. Lisa, o encarava de lado, aguardando o que iria falar. 

- Eu não iria tão longe a ponto de dizer isso. - Estreitou a visão.

 - E até onde você iria? - Lisa interveio, seu tom cortante. 

- Eu diria. - Michael começou cautelosamente. - Que a dança moderna, ou qualquer outro tipo de dança, não requer o mesmo tipo de proficiência técnica que é exigido no balé.  

Lisa bufou. Tatiana sorriu, assentindo. 

- Não adianta discutir com ele. Michael é bastante firme em suas opiniões sobre dança, não é?. 

- Eu tenho minhas opiniões, sim. Mas eu não sou tão inflexível quanto pensam. O que acontece é que normalmente os argumentos das outras pessoas não me impressionam. 

- Ah sim? E quais são as suas opiniões, senhor Jackson? - Lisa perguntou, desafiando-o na mesa de jantar como tinha feito no estúdio.

- Bem, eu não acho que a dança moderna é apenas 'rolar no chão', como Tatiana colocou de forma tão categórica. - Riu. - Mas… eu acho que a dança moderna teve uma influência decididamente negativa no balé.

- Influência negativa no balé? - Repetiu suas palavras como se não fizessem sentido. - E como? - Ela cruzou os braços. 

- A técnica foi sacrificada pela moda. 

- Moda? 

- Bem, rolando, como a Tatiana colocou. Você sabe... Música pop, melodrama, o exagero. 

Ele viu Lisa rolar os olhos e respirar descompensadamente. 

- OK, senhor. E como evitamos a denegrição da forma da arte? - O tom de voz dela era sarcasmo, que ele ignorou solidamente. 

- Voltar para o clássico. Mais forma, mais técnica, mais lógica.

- Isso é elitismo. - Lisa apontou, a arrogância dele a fez perder o humor até para o caçoar. - Novas formas de dança, novos gêneros significa mais público para alcançar, mais pessoas para agradar. A arte não pode ser desfrutada apenas por um grupo específico de gente nem só por quem pode pagar por ela e o balé é um entretenimento de classe alta, o senhor não pode negar isso. O que quer? Que dancemos todos como robôs? 

- Não, não foi isso que eu disse. - Ele elevou seu dedo indicador, também se estressando. - Ser lógico e ser robótico não é a mesma coisa. O balé tem uma lógica própria. A lógica do corpo. E há beleza nessa lógica que está sendo sacrificada pela dramatização. 

Lisa riu, sem humor. 

- Então, agora você acha que qualquer esforço não convencional de expressão artística é apenas dramatização. 

- Não. Você me entende mal. Eu não sou contra a expressão, eu sou contra o exagero. - A corrigiu, categórico. 

- Certo. E onde exatamente está a linha entre a expressão e o exagero? Como a gente consegue separar? 

Michael sorriu, de lado. 

- Saber a resposta para isso é o que diferencia entre um dançarino medíocre e um dançarino talentoso. 

Lisa o encarou em frustração. Ela teve que entregar essa para o coreógrafo arrogante; mais do que Tatiana, ele bem sabia como e onde apontar seus insultos.

- Sobremesa! - Um anuncio vindo da cozinha os roubou a atenção. 

Edward e Brooke apareceram oferecendo que comessem cheesecake. A primeira reação foi a de Tatiana, querendo saber o quanto de gordura tinha. O irmão defendeu alegando que um pouco de gordura, num único dia, não faria mal. Todos aceitaram. 

- Posso ligar a TV? - Lisa perguntou, por mais indelicado que fosse precisava sair daquela mesa. Edward concordou de bom grado, repetindo que ela poderia se considerar em casa. 

Quando ela se sentou e ligou o aparelho, todos ainda permaneciam na mesa. Na tela, nada mais nada menos que Nova York coberta por um véu branco de neve. 

- “As autoridades estão aconselhando que a população fique dentro de suas casas esta noite. Há uma visibilidade extremamente baixa nas estradas. A condução é considerada perigosa e deve ser evitada a todo custo. Nós ainda não falamos sobre como isso afetará o transporte público, mas os trens para Long Island já estão sendo atrasados ​​... ”

O repórter continuava. Uma notícia pessimista atrás da outra sobre a situação do tempo. Durante a fala do homem engravatado e de óculos de grau no estúdio, os presentes na sala de jantar se uniram a Lisa, atrás do sofá, todos preocupados. Com exceção Tatiana que parecia apenas seguir o ritmo. 

- E agora? - Brooke girou para Edward sem saber o que fazer. - Acho que a gente devia ir antes que piore. 

- Eu acho que já piorou. - Disse Edward, a causando um acanhado sorriso. - Além do mais como eu posso deixar você sair assim, nesse tempo. 

Brooke parecia contente com a reviravolta dos eventos, todo o contrário de Lisa e Tatiana que escureceram seus ânimos. O toque eletrônico do celular de Tatiana dominou a sala opacando o comunicado do jornalista. 

Ela o apanhou da mesa de jantar e atendeu. 

- Louisa.... Não, em casa..... - Começou a andar pelo cômodo. - Com o Michael, a Brooke, o Eddie e a irmã da Brooke.... Ah, tenho uma coisa pra te contar. Não vai acreditar no que aconteceu. - Disse rindo e lançando um olhar para Lisa. Qualquer coisa que fosse falar dela para amiga, terminou de dizer em seu quarto. 

Quando, logo em seguida, Edward e Brooke foram para a cozinha pegar um pedaço de cheesecake, o pior pesadelo de Lisa aconteceu. Ela ficou sozinha com ele. Fingiu se concentrar no noticiário, durante a vinda do rapaz para se sentar junto dela. Pelo canto de olho, Lisa assistiu esses movimentos calculando em quantos segundos seu corpo cairia na calçada caso se jogasse da janela.  

Ela suspirou, frustrada, ao olhar a quantidade de neve na televisão. E então a ficha caiu, não só estava com ele agora, mas também ficaria muitas horas presa naquele apartamento, com Michael junto. 

Michael se sentou na outra ponta do sofá. Por mais que seus olhos estivessem na tela, ela conseguia sentir que ele a estava encarando. Na verdade, sentia que ele a olhava o tempo todo e sempre com intensidade. Era desconfortável e a deixava nervosa, ainda mais por que sabia que Michael só fazia para intimidá-la, para contar seus defeitos e fazer suas críticas. 

Tatiana retornou para a sala perguntando por seu irmão. A pergunta diretamente para Michael, porém esse não parecia disposto em responder. Lisa teve de fazê-lo. 

- Na cozinha com a Brooke. Eles estão comendo o cheesecake. - Pelo menos esperava que fosse isso que eles realmente comiam. 

- Acho que eu vou pegar um pedaço pra mim. E você, Michael. Quer um pedaço? 

Sua negação veio com a cabeça, nem sequer fez questão de usar a garganta. 

Tatiana deu de ombros e seguiu seu caminho. Michael olhou para Lisa e depois em direção a garota que andava até a cozinha. Visivelmente irritado com a falta de modos dela ao ignorar a convidada. 

- E você Lisa, não vai querer um pedaço? - Ele repreendeu, dando ênfase a cada palavra. Alto, para que Tatiana ouvisse e se envergonhasse. 

Ela parou e Michael a viu respirar fundo, antes de completar seus passos até sumir. 

Lisa era demasiadamente indiferente a opinião de Tatiana para se doer pela atitude dela, entretanto deveria se sentir agradecida com ele pela defesa. Mas não conseguia. Lhe parecia hipócrita da parte de Michael cobrar boas maneiras, quando ele era uma das pessoas mais rudes que já conheceu. Ainda mais quando se tratava dela. A noite toda, ele foi gentil com Brooke; até com Tatiana ele se esforçava em manter a compostura, por mais que fosse claro que a respeitava pouco, porém com ela parecia que arrogância e dureza do coreógrafo dobravam. 

Inclinando a cabeça para trás, contra o sofá, Lisa de repente se sentiu exausta. Depois de uma semana de exaustivos ensaios e uma noite na presença de pessoas de quem não gostava e que não gostavam dela, suas pálpebras ficaram pesadas. Ela suspirou suavemente e fechou-os por um breve momento de descanso. Seu coração ainda estava pulsando da inquisição na mesa de jantar. Ela ficou chocada com seu próprio comportamento. Após a festa de elenco, ela jurou nunca mais cruzar uma palavra com Jackson novamente. Seu corpo inteiro queimava com humilhação.

- Você não costuma fazer manicure, não é? - Michael perguntou, ou afirmou, pegando o controle remoto e desligando a televisão. Abrindo os olhos, Lisa virou a cabeça para olhar estranhamente para ele. - Se faz, deveria processar o pessoal da Harlem Treasure pelo péssimo trabalho. - Acrescentou, com dureza. 

Lisa então viu suas unhas. Pequenas, roídas e com um esmalte preto descascado há semanas. Enrolando os dedos sob as mãos, ela olhou de volta para Michael e franziu a testa. Um sorriso, de lado e perverso passava pelo rosto dele, iluminando seus olhos. 

- Não existe nenhum Harlem Treasure, não é? 

Lisa cruzou as pernas e os braços. 

- Se existisse eu teria insistido mais em levar ela. 

- E se ela pedisse o cartão? Só por educação. 

Com um olhar cortante na direção de Michael, Lisa arqueou uma das sobrancelhas. 

- Não acho que a educação dela pode chegar a tanto. - E contornou para a frente. 

Michael ficou mudo após isso. Lisa se perguntou se ele estava bravo por sua ofensa a Tatiana. Ousando olhar para ele, ela viu, para sua surpresa, os traços de um sorriso brincando nos cantos de seus olhos. 

Naquele momento, Tatiana reapareceu com um prato apoiado nas pontas dos dedos e um garfo na outra mão. No prato havia uma fatia de cheesecake não mais grossa que o polegar de Lisa. Ela caiu em uma poltrona de couro paralela ao sofá.

- Louisa te mandou um abraço. - Michael não respondeu. - Então, Michael, o que você achou do arranjo que meu irmão fez pra Giselle? - Deu a primeira colherada, o que significou a ida de metade do doce. 

- Acho que ele está fazendo um bom trabalho. - Seu tom denunciava sua falta de energia para seguir com o diálogo. 

- Acha que eu vou fazer uma boa Myrtha? 

O fantasma de uma mulher obcecada, vingativa e amargurada? 

- Ideal. - Disse, dessa vez com mais com mais expressão. Lisa teve que cobrir a boca para esconder sua risada. 

Tatiana olhou para Lisa. Uma verdade incômoda se aproximava de Tatiana, a corroendo. Ela, sozinha, não conseguia envolver o indiferente coreógrafo, mas a pequena garota do corps possuía uma estranha habilidade de despertar a atenção dele. Por mais que ainda não pudesse intuir o quão sério era o interesse de Michael. Imaginando que ela teria que perder a batalha para vencer a guerra, Tatiana se virou para Lisa. 

- E o que você acha, Lisa? Pode ser bom ouvir uma opinião do corps de ballet. 

Lisa se mexeu no sofá. Ela se perguntou por que, de repente, sua opinião estava sendo solicitada quando Tatiana não demonstrou nenhum interesse em conversas reais durante toda a noite. Michael também virou a cabeça para ela. Lisa se sentiu caçada.

- Eu acho que Edward está fazendo um trabalho admirável. Ele tem uma visão fabulosa do enredo. Torna o balé quase tolerável. 

Michael desconfiou.

- Quase? Isso, então, significa que você não é muito fã dessa peça? 

- Não. Giselle não é minha favorita. 

Tatiana se satisfez com a resposta. Lisa tinha acabado de se colocar em bandeja de prata, para que pudesse provocá-la. 

- Eu discordo. Giselle é um dos melhores balés.  

Engolindo em seco, Lisa inspirou e se preparou para outra caçada de raposa. 

- Eu amo a dança. E a musica. Só não gosto do enredo. É muito ... - Sua expressão se contorceu. - Melodramático. Muita histeria por nada.  

Ela olhou diretamente para Michael, que sorria de lado. Há minutos haviam discutido pela crítica do coreógrafo ao exagero e ela parecia discordar. Agora, ela quem criticava o excessivo melodrama. 

A sugestão de um bom humor agora foi para os olhos dele.  

- Giselle também nunca foi uma das minhas favoritas. 

Tatiana fez uma pausa com o garfo a meio caminho dos lábios, estranhando. 

- E por que não?

Michael então, sorriu por completo, suas feições explodindo vivas. Como em muito tempo não fazia.

- Por favor, é o pesadelo de todo danseur. Ter que dançar até a morte. - Explicou. - Não consigo imaginar um jeito pior de partir. 

Tatiana riu estridente e se dirigiu para Lisa.

- Ele não é engraçado? 

Lisa achou melhor se calar. Elogiá-lo? Não conseguiria fingir a esse ponto. 

- Concorda comigo, senhorita Presley? - Ele clamou por sua atenção. 

Lisa se surpreendeu, tentando ler suas intenções. Se estava querendo a humilhar novamente, dessa vez dissimulava melhor. Michael aparentava leveza e sua aparência, agora, de alguma forma mais confortável e sorridente o deixava mais jovem. 

- Sim e não. - Pensou um pouco, resolvendo se seria ou não sincera. Resolveu que sim. - É verdade que eu também não consigo pensar em uma maneira pior de morrer do que ser forçada a pular em um par de sapatilhas, mas para mim o que estraga é o final. 

- Mas o final é lindo. Um testemunho do amor verdadeiro - Protestou Tatiana. 

Elizabeth não se convenceu. 

- Giselle deveria ter deixado o idiota pular. 

As sobrancelhas de Michael despertaram em diversão.

- Isso é bastante duro. - Disse ele. 

- Ele mentiu, a traiu. Ela ficou louca por ele e se matou. Então, ela tem a ousadia de deixá-lo viver? - Discordou, enojada. - Teria sido muito mais interessante se ela tivesse deixado Albrecht dançar até a morte.

Embora Michael parecesse estar se divertindo, Tatiana parecia pouco impressionada. Ela riu, com zombaria. 

- Ah, Lisa, por favor. - Deixou seu prato na mesa de centro. - Você parece uma dessas feministas. Não tem tido muita sorte no amor ultimamente ou o quê? 

Lisa sentiu sua pele esquentar. Era a repetição do que Michael a fez passar na mesa de jantar, tudo voltando. Michael teve o impulso de a defender nessa, mas também queria que ela respondesse sobre sua vida amorosa. Ouvir essa informação, da própria fonte, no fundo, o interessava. 

- Minha vida amorosa não tem nada haver com isso. O que acontece é que eu devo ter um baixo deficit de atenção e preciso de sexo e violência pra me manter interessada, nada muito sensível ou realista me envolve. O que eu posso dizer? Eu sou o produto de uma geração criada pela televisão e pela música popular. - Suas palavras saíram cortantes e repletas de uma ironia, raivosa. Forçou um sorriso e, depois, fechou a cara.  

Resolveu que seria melhor expôr o que eles deveriam estar pensando dela de uma vez do que ter que esperar que os dois o fizessem, repletos de sugestões maldosas. 

Ninguém disse nada. Mas sabia que os olhos deles estavam nela. Tatiana, se sentindo vitoriosa e ao mesmo tempo impactada. E Michael... Bom, esse ela preferiu não analisar. Porém não precisaria ser um gênio para supor que provavelmente a deveria estar censurando. Como sempre. O olhou e confirmou que aquele par de iris castanhas não saíam de si, novamente não ficou para o tentar descrever. Antes que pudesse, se sentiu demasiadamente pequena. 

- Eu... É... Cheesecake. - Se levantou abruptamente, apontando para a cozinha. 

Com a cabeça abaixada, ela passou por Michael e Tatiana e correu, direto para a cozinha, onde flagrou Brooke e Edward em uma pesada luta de lábios. Eles pararam e se afastaram, apressadamente, quando a porta se abriu. 

- Oops, desculpa. - Lisa murmurou. 

Edward se recuperou primeiro, mas seu rosto estava tingido de carmesim. Eles respiravam fundo. 

- Eu... Eu acho que a neve está diminuindo, Liz. - O rádio ligado nas notícias denunciava onde Eddie conseguiu essa informação. - Você e a Brooke conseguirão voltar para casa. 

Lisa sorriu rigidamente para a irmã, ainda irritada com a briga na sala de estar. Ela reprimiu a vontade de suspirar um '' graças a Deus'' . Ainda assim, a cozinha não era nenhum paraíso. Brooke e Edward, quando não se beijavam, riam e cantarolavam um para o outro em vozes de bebês. Olhando para a caixa aberta de cheesecake no balcão, Lisa imaginou que ela iria se ocupar com coisas altamente calóricas até elas pudessem ir embora.

Lisa pegou um garfo na gaveta de utensílios e se jogou na sobremesa. 

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Trinta minutos depois, Lisa se arrependia de tudo. Se arrependia de ir até o apartamento dos irmãos Thumbtzen. Se arrependia de discutir com as duas feras no outro cômodo. E se arrependia de ter comido mais da metade do cheesecake sozinha. Uma onda forte de náuseas apertou seu estômago. Talvez fosse os efeitos do doce ou as palavras sussurradas de amor que Brooke e Edward jogavam um para o outro. 

Ela se apoiou no balcão da cozinha, concentrando-se em se acomodar a dor. Lisa nem ao menos se importou quando Michael entrou para pegar sua fatia do cheesecake. Olhando para o nada, Lisa sentiu sua garganta se contrair perigosamente, teve que se concentrar em não arremessar toda a janta daquela noite pelo chão. 

- Olha o aviãozinho... - Brooke cantarolou, agitando o garfo no ar e fazendo barulhos de turbina antes de depositar uma fatia do bolo entre os lábios de Edward. 

Revirando os olhos, Michael pegou um garfo. Pela primeira vez, Lisa concordou com ele. Edward e Brooke estavam deixando-a enojada. 

Michael se aproximou dela, examinando as sobras do doce na caixa. 

- Esse bolo foi devastado. - Comentou, mesclando sarcasmo com seriedade. 

Lisa apenas assentiu, engolindo outro ataque de mal-estar. Qualquer lembrança sobre o bolo fazia seu estômago piorar. Observando-a, Michael notou que seu rosto estava pálido a um branco, quase que como o de sua própria condição, e se perguntou se ela estava zangada com Tatiana e ele. Michael não viu o que tinha de tão ofensivo em ser rotulada como feminista. Uma mulher poderia ser chamada de coisas piores.

- A neve diminuiu bastante. Acho que já podemos ir. - Ele disse, enquanto cortava um pedaço do cheesecake e colocava em um prato. - Se quiser, eu divido um táxi com vocês. 

Pensar que teria que levantar desse banco e caminhar até um carro vinte e tantos andares abaixo, fez a testa de Lisa gotejar. Ela não respondeu. 

Michael bufou, frustrado, pensando em todos os nomes que a queria chamar naquele momento, além de '' feminista''. Ela o estava o ignorando, havia insultado sua coreografia, era rude, atrevida, arrogante. O que ela pensava? Que ele tolerava esse tipo de comportamento em uma corps de ballet? 

Michael se recordou de uma conclusão que fez sobre os olhos de Lisa durante a dança daquele dia. Seus olhos só tinham duas expressões '' Venha me pegar'' ou '' Vá se fuder''. Inclinando-se na direção dela, no balcão, ele ficou próximo de sua orelha. Próximo o bastante para que ela se encolhesse com agonia. 

Em voz baixa, Michael murmurou irado. 

- O mínimo que você pode fazer é mandar eu me fuder, senhorita Presley. - Seus dentes rangiam. - Assim você poupa o seu tempo e o meu. 

Lisa elevou a coluna, conforme isso o rosto dele se afastou, apesar de continuar parado ao seu lado. Michael viu a garganta dela se mover e Lisa engoliu em seco. O coração dele parou em seu peito quando viu seus olhos - vítreos e perturbados, junto a uma respiração irregular. Nesse momento, Michael sentiu suas emoções incharem e ele se arrependeu de suas palavras. Ele se amaldiçoou. Obviamente, a havia ofendido profundamente, feito sofrer ou humilhado a garota. Talvez uma combinação dos três. 

Movendo os olhos para o rosto dele, ela franziu a testa dolorosamente. Então, da maneira mais clara possível, ela o deixou saber o que estava acontecendo. Cobrindo a boca e tossindo duas vezes, Lisa se dobrou e vomitou sob os finos sapatos de couro italianos de Michael Jackson.

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Nem Brooke, Lisa ou Michael foram para casa naquela noite. Depois de ser levada rapidamente para o banho por Brooke, Lisa recebeu ordens para se deitar em um dos quartos, o que ela fez sem protestar. Tatiana Thumbtzen fez uma careta de desgosto pela cena na cozinha e voltou para seu quarto, deixando Brooke para limpar a bagunça. 

Sem sapatos, por Edward ser um tamanho menor, Michael seria forçado a ficar até que sua funcionária pudesse trazer outro par na manhã seguinte. Não estava preocupado pela perda daqueles italianos, mas sim por ter seu orgulho esmagado. Ela estava doente, não de coração partido, e ele achando que entendia as mulheres. Sua reação ao ocorrido foi de puro choque e paralisia, viu tudo acontecer em câmera lenta. Edward o levou até a área de serviço, onde livrou seus pés do vômito e ficou para ver a cidade da janela. A mente em branco. Não conseguia pensar muito, tanto pela adrenalina quanto pelo choro dela no banheiro. 

Estranhou a maneira tão fácil que se resignou a situação. Teria que dormir em uma cama que não era sua e, pior, estava preso em um apartamento com Tatiana Thumbtzen e um casal saído da Candyland. Michael desconfiou que a razão pela qual ele era tão complacente com isso, agora dormia em um dos quartos de hóspedes de Edward com uma dor de estômago terrível. Ele se sentia consumido pelo maluco desejo de pegar um copo de água para ela, se sentar ao seu lado na cama e esfregar sua barriga até que ela desmaiasse de sono, igual uma mãe faria pelo filho doente. 

Que mulher mais esquisita, refletiu. Uma inusual mistura de opostos: indelicadeza e irreverência, humor e sutileza, maturidade e garotinha, beleza e, ok, somente beleza. Que estranhas reflexões para um homem adulto estar pensando - ele checou o relógio na cabeceira da cama. Passava duas da manhã. Revisitando os detalhes do dia, Michael começou a suspeitar de uma admiração pouco profissional por Lisa crescendo, mais do que deveria, em seu interior. Ele gostava tanto da sensação do corpo dela em suas mãos que tinha abandonado todos os seus movimentos racionalmente coreografados, e permitiu que ela injetasse seus próprios caprichos na peça. 

Porém tinha que ser racional e olhar os contras da situação. Ela era muito jovem. Tinha a mesma idade que sua irmãzinha. E ela era membro do corps de balé, uma espécie que abrigava dançarinas volúveis, fofoqueiras e sem conteúdo. Ou pior, ela estava em sua peça, o que significava que infligia sua política de que não poder considerá-la para nada além do reino do estúdio de dança. Michael precisava pisar no freio. Ele suspirou profundamente. Era duas e meia da manhã e sua mente não estava nem perto de dormir. Tirou as cobertas e ficou de pé, coçando a cabeça, antes de sair do quarto e caminhar pelo corredor. A sala estava escura como breu. 

Um estalo de luz, no entanto, vinha de debaixo da porta da cozinha e ele ouvia a água correndo. Não querendo companhia, Michael fez uma pausa. Ele estava prestes a voltar para se retirar para seu quarto, quando a porta se abriu. Lisa apareceu delineada na luz do comedor, com o cabelo solto ao redor do rosto e vestindo uma das enormes blusas de Edward que pararam no meio da coxa, revelando um par de pernas longas, nuas e perfeitamente esculpidas. Ela congelou também, os olhos arregalados e um copo de água erguido até os lábios. Apenas as pontas dos dedos apareciam das mangas do moletom.

Alguém precisava falar antes que o momento ficasse pesado 

'' Como você está se sentindo? '' Michael soltou ao mesmo tempo que Lisa disse: "Desculpe por seus sapatos." 

" Bem", Lisa  respondeu ao mesmo tempo que Michael falou: "Não se preocupe com isso." 

Ambos riram inconfortavelmente. Lisa terminou a água, desviando os olhos. 

- Eu estava com sede ... - Ela explicou, passando os olhos pelo corpo dele. 

Michael engoliu em seco, só então consciente de que ele estava vestido apenas com suas boxers. Um traje perigoso, especialmente considerando a maneira sedutora como Lisa tomava leves goles de água. 

- Eu ... Eu não conseguia ... Espera, já volto. Um minuto. - Disse, levemente envergonhado, antes de voltar para o quarto. 

Michael colocou a camisa que usava antes, abotoando os botões do meio, e puxou as calças do chão, vestindo-as apressadamente. Ao re-emergir, ele encontrou Lisa sentada no safá da escura sala de estar. 

- Desculpa. - Ele pediu, sentando-se na poltrona. 

- Você não precisava voltar por minha causa. - Lisa disse educada, mas também desconfortável. 

- Eu não consigo dormir. - Nenhuma resposta. Apenas um olhar de solidariedade, por também estar sem sono. - Você está se sentindo melhor? 

Ela assentiu. 

- Sim, obrigada. - Agradeceu, pela primeira vez sendo verdadeiramente sincera desde que se conheceram. - Eu sinto muito pelo seu sapato. Soube que o jogou no lixo. 

- São só sapatos, não se preocupa. - Garantiu, sem nenhum remordimento. Isso a surpreendeu. 

Um longo momento de silêncio passou entre eles. Ao contrário dos silêncios anteriores, este não tinha nenhum significado particular. Foi um momento de silêncio que só poderia passar entre dois insones em uma madrugada. Na quietude, Michael observou Lisa bater os dedos na base do copo de vidro vazio. Quando percebeu que estava sendo observada, a reação dela foi a mais inesperada possível. Ela sorriu.

- Eu tenho mesmo a honra de ser a primeira dançarina a vomitar em cima de você? 

Michael riu, suavemente. 

- Você é a primeira. Embora eu não sei se realmente seja um honra. 

- Certamente deve ser uma honra. Não é todo dia que alguém como eu consegue arruinar os sapatos do infalível senhor Jackson. - Ela estava zombando dele novamente, com aquele seu jeito doce e irônico. 

- Por favor, não me chame de senhor Jackson às duas da manhã. - Fechou os olhos, balançando a cabeça. Até a corrigir, de repente. - E eu não sou infalível. 

Lisa contraiu os ombros, com desanimo. 

- É, mas você passa a impressão de quem acredita estar só um degrau abaixo de Deus. 

- O que? - Rejeitou a ideia. - Eu não me vejo como a '' um passo abaixo de Deus''. - Em seguida, ele abaixou o queixo. - Talvez dois ou três. - Lisa, lhe lançou um olhar de reprovação. Talvez não fosse a hora para uma piada. Michael suspirou antes de falar. - Olha, com toda sinceridade. Eu sei bem que estou longe de ser perfeito. Mas eu também acho que o estúdio de dança não é um lugar para se exibir falhas. 

Lisa riu sem humor. 

- Certo. E você nunca demonstrou insensibilidade, nem auto-importância no estúdio. 

- E o que há de tão errado com auto-importância? O que há de tão errado em se orgulhar de si mesmo, de seu trabalho e em tentar manter os outros no mesmo padrão? - Rebateu, confiante no que falava. 

- Não há nada de errado nisso. Mas quando você tem orgulho demais sobre si mesmo... Isso é uma falha. 

- Eu chamo de confiança. 

- Sim, você é confiante que é melhor que todos! - Afirmou, com uma risada amargurada. 

Michael percebeu a natureza real daquele tom.

- E você é confiante de que está sempre certa, sem se dá o trabalho de saber o contexto ou os detalhes de uma situação.

Lisa fez uma pausa e então sorriu perigosamente.

- Quem diria que você poderia me conhecer tão bem em apenas uma noite. 

- Minhas credenciais na psicanálise são tão boas quanto as suas. - Ele provocou, igual. 

Ela balançou a cabeça, cansada daquele jogo. Se levantou.  

- Com licença, Senhor Jackson, de repente eu fiquei cansada. Estou voltando para a cama. 

Michael a imitou e também se levantou. 

- É. Acho que eu também. - Disse tão autoritário quanto uma ordem. 

Permitindo que ela passasse primeiro, ele silenciosamente se amaldiçoou quando, apesar de sua exasperação latente, ele se viu admirando suas panturrilhas. Ela estava chegando na porta de seu quarto, a terceira do corredor, quando ouviu a voz dele de novo. 

- Quantas tatuagens você tem? - Perguntou em um impulso. Se recordou do pensamento no estúdio e em lapso de coragem irracional, soltou. Ela piscou, mais zonza do que quando se sentiu passando mal. - Você tem piercings demais pra ter só uma tatuagem. Não faz sentido. - Completou. 

Idiota, como se isso fizesse a pergunta menos bizarra. Pensou Michael. 

Ela foi sorrindo aos poucos, um sorriso anêmico como se não acreditasse no cenário que estava vivendo. 

- Duas. - Abriu a porta. - Tatuagens são caras. - E fechou, com um clique suave e também frio. 

Michael ficou ali, parado, tentando não pensar em nada enquanto pensava onde deveria estar esse desenho. Seu quarto era na frente do dela. 

Ao finalmente voltar para a cama, sua mente continuou nas memórias da sala. O que ele não imaginava era que a dela também. Em ambos os lados, duas pessoas passaram as seguintes horas jogando-se debaixo dos lençóis. Lisa, incomodada pela arrogância e presunção dele, assim como sua falta de controle quando estava perto de Michael. Normalmente conseguia rir das pessoas, mais do que discutir. Entretanto com ele, só conseguia ir atrás de guerra. Já o rapaz, era distraído com imagens de um gracioso par de pernas e a imaginação de como elas ficariam ao seu redor. 


Notas Finais


O que acharam? Comentem, favoritem... ajudem a espalhar. Bjs.


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