1. Spirit Fanfics >
  2. So far, but so close >
  3. Devils

História So far, but so close - Capítulo 7


Escrita por:


Notas do Autor


Boa noite, capítulo do jeito que shiper gosta hahahaha Boa leitura ❤️

Capítulo 7 - Devils


Capítulo 07

 

TOMEI UM BANHO RELAXANTE E DEITEI UM POUCO.  Nicky estava no quarto do lado. Piper tinha me mandando uma mensagem dizendo para remarcar o horário, pois havia aparecido um pequeno imprevisto, e na verdade eu até gostei, pois pude tomar um bom banho e dormir um pouco.

Acordei com meu celular despertando, então troquei de roupa para ir à praia. Não coloquei uma roupa mais leve, pois não pretendia entrar na água. Estava frio para isso.

Peguei minha jaqueta, meus óculos e as chaves do carro e abri a porta do meu quarto, assim que fechei e me virei para ir embora deparei com Piper fechando a porta de um dos quartos, na verdade do quarto de frente para o meu.

— Ora, ora... parece que somos vizinhas de portas — comentei guardando minha chaves.

Piper fitou-me e sorriu surpresa. — Alex? Meu Deus... é o destino. Está hospedada aqui?

Ri me aproximando. — Sim, eu e Nicky — ajeitei minha jaqueta. — Aceita carona? — ergui as chaves do meu carro.

— Aceito sim. Eu ia de a pé.

Adentramos meu carro e liguei o som durante o trajeto, que na verdade não seria muito longo.

— Rock, hein?

Sorri encarando-a. — Curte?

— Sou bem eclética, na verdade. Gosto dessa música em especial.

Ah, como ela é linda. Não usava mais os aparelhos nos dentes, de modo que seu sorriso estava ainda mais lindo, mais chamativo. Seus olhos eram extremamente azuis, assim como eu me lembrava e seus cabelos ainda louros como ouro, só que mais curtos e com um penteado mais moderno.

— Entendi.

— Já você é mesmo roqueira, não é?

Assenti. — Sim. Acho que meu estilo entrega, não?

Piper riu assentindo. — Entrega. Principalmente as tatuagens.

Encarei-a surpresa e sorri, apenas.

Mas por dentro eu estava explodindo de felicidade. Ela tinha notado minhas tatuagens? Então ela estava prestando atenção em mim nesse ponto?

— Você gosta de tatuagens? — questionei-a.

— Gosto. Acho linda, mas não tenho muitas.

— Você tem? — indaguei surpresa.

Ela sorriu. — Sim, tenho. Surpresa?

— Tenho que admitir que sim, estou — pausei. — Onde?

— Você é curiosa! — riu.

— Desculpe... estou sendo invasiva?

— Não, não está — garantiu. — Um peixe na nuca e um símbolo do infinito nas costelas.

— Hm... legal. Criativo.

— Quantas têm?

— Muitas! — ri. — Uma rosa no braço como você viu, esse símbolo tribal, a frase no pulso, outra rosa em uma das coxas, um saleiro nas costas e uma estrela da sorte na cintura, perto das costas.

— Muitas mesmo — murmurou ela pasma. — Não sei se eu teria coragem.

Ri. — Você acaba viciando.

— E o que está escrito aqui? — questionou Piper agarrando meu pulso, pegando-me de surpresa.

Seu toque causou-me uma eletricidade em todo o meu corpo e meu coração chegou a disparar.

— Amor é dor?

Engoli em seco.

Ah, merda.

Se ela soubesse que eu tinha feito essa tatuagem pensando nela...

— É — sorri sem jeito.

— Fez isso para a Silvye?

Dei um leve riso sem emoção. — Na verdade não foi não. 

— Então para quem? Se eu tiver sendo intrometida, me fale, por favor.

— Você nunca é, Piper — garanti. — Eu fiz para uma pessoa especial sim, mas ela não vem ao caso. O fato é que amar é dor. Isso é meio que uma regra.

— Verdade — concordou ela com algo nos olhos de repente, angustia foi o que eu identifiquei.

O silêncio se fez presente no carro, mas que não durou muito, pois logo chegamos. Saímos do automóvel. O sol estava escondido em nuvens, e o clima estava bem frio, na verdade.

Caminhamos na areia e logo nos sentamos bem perto onde a maré estava indo, de modo que poderíamos molhar ao menos nosso pés.

— Então, Piper Elizabeth Chapman, o que aconteceu em sua vida nesses quinze anos que não te vejo? — questionei-a.

— Nossa, muita coisa — suspirou. — Sair daqui, Alex, foi o ponto de partida para uma nova vida para mim.

Fitei-a. — Concordo plenamente. Posso ser sincera com você?

— Por favor — sorriu levemente.

— Você está melhor do que nunca, mas sinceramente, isso não muda nada para mim. Você sempre foi especial, Piper. Eu sempre te enxerguei de verdade.

— Eu sei disso. Sempre soube — ela me encarou de volta de forma intensa, tão intensa que tive que desviar o olhar, ou eu não responderia por mim. — Enfim, — suspirou ela. — Nós mudamos para Nova York, já que Cal já estava lá. Terminei o colegial e me formei em advocacia.

— Advocacia? — indaguei ajeitando meus óculos. — Optou por advocacia? Desistiu de ser Perita?

— Ah, é. O direito pegou meu coração — riu fazendo rabiscos com o dedo na areia molhada.

— Eu sei como é isso — concordei. — Você tem seu próprio consultório?

— Sim, tenho.

— E mora em Nova York ainda? — questionei interessada, pois eu estava morando lá também.

— Ah, sim. Aquela cidade roubou meu coração de uma forma que não sei explicar.

Ri maneando minha cabeça em negativa. — Tá de brincadeira? Eu também estou morando em Nova York!

— Sério?

— Sério! — coloquei meus óculos sobre minha cabeça. — Porra... estávamos sempre perto e não sabíamos.

— Você fez faculdade lá?

Neguei. — Não, em São Francisco, mas tem um bom tempo que moro em Nova York.

— Ah, entendi, mas me fala mais sobre seus quinze anos longe de mim.

“Quinze anos longe de mim...”

Porra, essa mulher quer me matar?

— Meu mundo desabou quando você foi embora — falei sem me dar conta.

Piper encarou-me surpresa com minha revelação.

— Eu cheguei a ir atrás de você, mas você já tinha embarcado no trem.

— Você foi?

— Fui — engoli em seco. — Fui, mas enfim. Isso não importa — respirei fundo. — Meu último ano foi uma merda... quer mesmo saber?

— Claro, tudo que é sobre você me interessa, Alex.

Meu coração deu um grande salto.

O que essa mulher estava fazendo comigo?

— Bom... não sei se sabe, mas eu quebrei a cara do Larry naquele dia que ele fez piadas, naquele seu ultimo dia de aula.

— Claro que vi, mas eu sai correndo.

Assenti. — Então como eu acabei com ele na frente de todo o colégio, ele jurou fazer do meu último ano um inferno e ele conseguiu mesmo. Quando faltava somente uma semana para acabar as aulas ele colocou maconhas nas minhas coisas... — suspirei. — Enfim, claro que meu pai acreditou nele, então teve uma briga horrível lá em casa... Eu consegui uma bolsa na Universidade, para não ter que depender do meu pai e fui para São Francisco. Resumindo: eu me formei sem precisar dele, assim como havia prometido. Quase não venho aqui. Eu evito.

— Sensata — murmurou. — E santo Deus... que história. Eu admiro sua força.

— Eu não sou forte — neguei pegando sua mão. — Você é.

Piper negou. — Nós somos — sorriu. — E temos um inimigo em comum.

Ri. — É verdade. Bem pensado.

— Então, você é Arquiteta e Design?

 

— Sou sim. Eu e Nicky montamos uma empresa em Nova York, ela tem somente cinco anos.

— A Nicky também é arquiteta?

— Sim. Nos conhecemos na Universidade.

— Nossa, então vocês são amigas há bastante tempo?

Sorri assentindo. — Nicky é como uma irmã que eu não tenho.

Piper assentiu.

— Pensei que nunca mais eu iria te ver — murmurou do nada encarando o horizonte a sua frente.

Somente agora havia percebido que nossas mãos ainda estavam dadas.

Sorri com isso e disse: — Eu também, mas estamos aqui agora.

Piper escorou a cabeça em meu ombro, pegando-me de surpresa. — Eu posso parecer forte, Alex, mas para você eu posso me abrir. Eu não amo Larry, não sou idiota a tal ponto, e sinceramente vê-lo não me feriu o tanto que eu pensava que fosse, mas esses quinze anos foram dolorosos para mim. Eu não consigo me entregar a ninguém por completo, se é que me entende — ela agora estava abraçada ao meu braço.

— Entendo e é mais do que compreensível — suspirei. — O que sente em relação a ele? — aproveitei que estava nesse assunto.

— A Piper aos 17 anos foi completamente apaixonada por Larry Vause, mas essa mesma Piper não sabia o que era amor, pensava saber — respondeu fitando-me, seu rosto estava bem próximo ao meu agora. — Agora, eu sei que nunca o amei. Era somente... como vou explicar? Uma ilusão, porque o Larry que eu cheguei a sentir alguma coisa, nunca existiu — deu de ombros. — Sinto por ele agora pena, nojo... tudo menos um sentimento romântico ou de paixão.

Assenti com um baita alivio no peito.

— Mas mesmo assim, ele deixou uma cicatriz em meu peito. 

— Não poderia ser diferente — murmurei.

— Mas e você? Encontrou a Silvye depois que saiu daqui?

— Não — neguei achando graça. — Nunca mais nos vimos, mas de toda forma, eu sempre tive um carinho enorme por ela, mas nunca foi um amor de casal, entende?

— Mais ou menos — riu.

— A gente se divertia e se respeitava. Basicamente isso — suspirei. — A verdade é que nesse momento eu estou em processo de divorcio.

— Sério? — estreitou o olhar encarando-me.

— Sim... Estamos há dez anos juntas... seis de casadas, mas... ela me traiu.

— Jesus, Alex... Eu sinto muito. Isso é horrível.

— Bem, teoricamente sim, mas... acredita que na verdade eu estou aliviada por isso estar acabando?

— Não entendi.

— Eu nunca a amei... E eu sei que o casamento não deu certo porque eu nunca cheguei a me entregar de verdade.

— Duvido você não ter se entregado de verdade. Você é sempre tão intensa.

O...kay... Piper prestava mais atenção em mim do que eu imaginava. Fitei-a erguendo uma de minhas sobrancelhas e ela corou.

— Seja como for. Não funcionou — falei ignorando seu comentário, para que ela não ficasse sem graça. — E na verdade estamos naquela etapa em que ela quer reconciliação, mas eu não quero. Assim que voltar para Nova York vou dar entrada nos papeis.

— Qual advogado é o seu?

— Nenhum — suspirei. — Ainda nem vi isso. Eu estava ainda pensando em uma reconciliação, mas... não, não dá.

— Se você não a ama, para que ficar teclando a mesma tecla? Só vai fazer ela sofrer.

Sorri de canto. — Exatamente. Penso o mesmo.

— Sabe, eu sou advogada especialista em divórcios. De repente eu posso estar te representando — ofereceu Piper. — Se você quiser e não tiver nenhum advogado em vista.

— Isso séria... perfeito! — exclamei contente.

Isso queria dizer que passaríamos muito tempos juntas, e de alguma forma nossa reaproximação não ficaria somente aqui, iria para Nova York também. Isso me animava.

— Acha mesmo?

Assenti. — Tenho certeza que você é ótima no que faz.

Ela deu de ombros. — Modéstia parte, sou sim — riu.

— Você já tem um apartamento?

— Sim. Por que quer fazer o meu? — indagou rindo.

— Seria uma troca de favores — dei de ombros.

— Se quiser, pode ir conhecê-lo, dar sugestões de reformas. Ele está precisando mesmo — sugeriu e meu coração disparou.

Ela estava me convidando para conhecer o apartamento dela?

— Seria bom. Sou viciada em fazer reformas — brinquei.

— Então estamos fechadas? — Piper se afastou e ergueu a mão. — Eu sou sua advogada e você minha arquiteta?

— Fechadíssimo! — apertei sua mão.

— Perfeito! — sorriu satisfeita. — Mas me fala mais sobre sua possível ex esposa. Ela é bonita?

— Hm... defina bonita? 

— Ah, como ela é? Alta? baixa? 

— Ela não é muito alta, na verdade. Digamos que sim, ela é bonita — respondi. — Ela é loira... sei lá, não tenho muito o que falar dela não. A verdade é que eu tenho uma queda por loiras, mas isso é outra história.

Piper encarou-me, parecia querer rir. 

— O que foi?

— Nada! — maneou a cabeça em negativa. — E o que ela faz?

— Ela é da policia.

— Nossa!

— É.

— Por isso ela te pegou de jeito.

— Como é? — segurei o riso.

Piper riu. — Piada ruim?

— Péssima, Chapman!

Rimos.

Ficamos ainda muito tempo ali conversando coisas aleatórias, até que o sol começou a se pôr. E então pegamos meu carro e voltamos para o Hotel.

— Quanto tempo planeja ficar aqui na cidade? — quis saber Piper enquanto caminhávamos pelo corredor do Hotel.

— O mesmo tempo que você.

Ela franziu o cenho confusa.

— Você volta comigo de carro com a Nicky. Pode ser? — sugeri animada.

— Oh! — sua ficha caiu. — Seria muito gentil da sua parte, mas eu não quero atrapalhar.

— Já disse: você não atrapalha — garanti. — Então, quanto tempo?

— Quanto tempo dura para se curar de um trauma? — inquiriu.

Escorei-me na parede do corredor, já estávamos perto de nossos quartos. — Depende da ajuda que você tem e você sempre vai ter a mim — falei de forma intensa.

Piper sorriu com minha resposta. — Três dias.

Assenti. — Três dias, então — concordei. — Quer mesmo curar esse trauma? — ela concordou. — Visite todos os lugares importantes relacionados a ele.

Ela ponderou o que eu disse. — Boa ideia. Você vai comigo?

— Até o fim do mundo.

Seu sorriso se alargou. — Bom saber.

Sorri e coloquei minha chave na fechadura ficando de costas para ela, até que Piper me chamou.

— Ei! 

Fitei-a. — Sim?

— Você está me devendo uma refeição. Janta comigo mais tarde?

Ri. — Nicky vai querer me matar por deixa-la sozinha de novo, mas eu não sei dizer não a você.

— Chama ela também.

— Vou chamar — dei uma piscadela abrindo a porta.

— As oito?

— As oito! — confirmei.

Entrei no quarto e com um sorriso bobo nos lábios joguei-me na cama.

Que dia foi esse, meu Deus?

Que mulher era essa?

Eu estava mais perdida do que eu pensava.

 

//

 

— TE FODER, VAUSE QUE EU VOU FICAR DE VELA! — NEGOU NICKY, EU ESTAVA EM SEU QUARTO TENTANDO CONVENCÊ-LA DE IR CONOSCO.

— Nicky, que vela o quê? Eu e Piper não temos nada. Você sabe.

— E precisa ter? Só a maneire como vocês se olham pode ser definido como: vela — pausou. — Valeu, mas eu tô de boa aqui.

— Sério?

— Sério. Na boa mesmo — garantiu. — Além do que, mais tarde a Shani vai me ligar por chamada de vídeo e a gente vai fazer um sexo virtual.

Fiz uma carranca. — Credo!

— Credo o quê? Vai falar que nunca fez isso? — arqueou as sobrancelhas.

— Tchau! — coloquei a mão na maçaneta.

— Ei, me responda!

Ri maneando a cabeça em negativa. — Já... tá feliz?

— Tô! Agora pode ir e não se esqueça de usar camisinha! — zombou e lhe dei o dedo do meio antes de finalmente sair do meu quarto.

No momento em que sai Piper estava também saindo do seu quarto, assim que ela me viu, sorriu. Estava com um uma calça justa ao corpo de cor verde musgo e uma jaqueta jeans. Linda!

— Você gosta mesmo de preto — comentou.

Caminhei ao seu encontro. — Eu não resisto.

Ela riu. — O bom é que combina com você.

— Tenho uma proposta.

— Diga.

Paramos de andar, então a fitei de forma profunda nos olhos. — Passe a noite comigo.

O semblante de Piper mudou no mesmo instante, ficando completamente surpresa, então me dei conta do que eu tinha falado.

Ah, cacete!

— Quer dizer — ajeitei meus óculos. — N-não dormir, dormir — comecei a explicar toda atrapalhada. — Quero dizer, não... não passar mesmo a noite comigo... fazer...sexo ...

Meu Deus, que merda estava acontecendo?

— E sim, passar a noite em claro comigo... enfim, não sei se ficou claro, mas eu não estou dando em cima de você... quer dizer...er.. não que você não seja bonita, ou atraente, mas é... que... isso não vem ao caso.. o que eu quero dizer é-

Piper ergueu a mão e riu. — Eu entendi, Alex. Entendi — disse achando graça. — Tudo bem. Vai ser ótimo fazer isso.

Meu rosto queimou e mais uma vez eu ajeitei meus óculos. — Ok, então é isso — sorri completamente sem jeito.

Céus, que mico!

— E Nicole?

— Ela preferiu descansar — respondi guardando as chaves do quarto em meu bolso.

— Ah sim — Piper assentiu e voltamos a andar.

Pegamos meu carro, mesmo que tudo nessa cidade fosse perto, era preferível, pois ficar andando a pé tarde da noite não era muito recomendável, mesmo sendo uma cidade minúscula e pacata.

Em questão de poucos minutos chegamos até a lanchonete, como sempre ela não tinha muito movimento. Pelo o que eu me lembrava do lugar, na verdade, dependia muito do dia. Haviam dias que ficava lotada, mas hoje, por exemplo, não tinha ninguém além de nós duas.

Pegamos uma mesa somente de dois lugares. E isso me fazia lembrar-me muito daquela vez em que viemos aqui há quinze anos. Quem poderia imaginar que estaríamos aqui novamente? Ninguém.

— Nossa, como pode aqui não ter mudado nada? — comentou ela analisando tudo com atenção.

Sorri fazendo o mesmo. — Incrível como tudo aqui nessa cidade nunca muda, né?

— Exatamente... isso chega a ser mórbido de certa forma.

— Essa cidade tem o seu charme, mas ela também é um pouco toxica — falei refletindo.

— Penso igual a você... Bom, pelo menos para nós ela foi tóxica — declarou Piper encolhendo seus ombros. — Mas quer saber? O que não mata nos fortalece. Eu me sinto fortalecida e você sempre foi forte.

Sorri largamente. — Tem razão.

— Sério, pensei que minha vinda aqui me deixaria vulnerável, mas eu me sinto mais forte do que nunca.

— Não sabe o quanto eu me sinto feliz por isso.

Piper sorriu de volta, então o garçom se aproximou com os menu’s para podermos escolher. E assim fizemos, escolhemos nosso sanduiches, fritas, refrigerantes e claro, Milk-shake.

— Nossa... acho que exagerei no pedido — comentou Piper vendo seu prato a frente.

Ri pegando meu refrigerante e usando o canudo para bebê-lo. — Que isso... você consegue.

Ela riu. — Assim espero.

Comemos nossos lanches, enquanto conversávamos assuntos aleatórios. O clima era agradável. Parecia que não tinha se passado quinze anos. Parecia que nada tinha mudado.

— Hm... sabe uma coisa que mudou? — murmurei de braços cruzados depois de finalizar todo o meu lanche.

— O que? — Piper questionou encarando-me.

— Aquele jukebox não fazia parte da lanchonete — indiquei com a cabeça.

Ela então encarnou na mesma direção que indiquei, então riu.

— Não está pensando no que estou imaginando, não é? — arqueou as sobrancelhas.

Dei de ombros. — Depende o que você está pensando.

— Vamos pedir uma música? 

Sorri largamente. — Perfeito... você escolhe pode ser?

— Tá...ok — suspirou, estava quase finalizando seu milk-shake. — Falando em música... meu Deus, ainda me lembro daquele dia que você cantou aquela música composta por você no show de talentos. Aquela música era tão linda... Eu gostaria de ouvi-la novamente, sabia?

Fiquei petrificada. 

Ah, merda!

Não estava acreditando que ela estava mesmo dizendo isso.

Engoli em seco. — Você ainda se lembra da letra?

— Claro. Como eu disse, ela é linda.

Contive um sorriso. — Que bom que curtiu.

Piper sorriu assentindo.

Não demorou para que seu milk-shake fosse completamente finalizado, então ela se colocou de pé.

— Vou escolher a música — disse mostrando a moeda. 

Assenti. — Vai lá! — incentivei.

Piper então colocou a moeda e ficou um tempinho ali, escolhendo sua música, que não demorou a sair pelas caixas de som. Com um sorriso sapeca nos lábios ela se aproximou de mim com passos lentos e ergueu a mão em minha direção.

— Me concede a honra?

Ri ajeitando meus óculos. — Está mesmo falando sério.

— Com toda certeza eu estou sim — respondeu rindo.

Peguei sua mão e me ergui. Piper puxou-me para o centro da pista, mais próximo do jukebox. A música era do Ed Sheeran chamada All of the star. Apesar de ter sangue de roqueira, eu gostava de algumas músicas românticas, dependia muito da letra, na verdade.

Ficamos frente a frente. Nossos olhos conectados, eu podia sentir uma tensão ali, algo intenso... só não sabia se somente eu era quem sentia.

Piper colocou seus braços ao redor de meu pescoço, como se ela já tivesse feito isso milhares de vezes. Ela fitava-me com seus olhos azuis e o sorriso não saia de seu rosto em nenhum momento. Depois de um tempo sem saber onde colocar minhas mãos, as coloquei em sua cintura, e mantive nosso contato visual, embora aquele gesto estivesse fazendo meu coração palpitar fortemente.

A música era extremamente romântica, não só a melodia, como a letra. Não sei se eu seria tão forte para isso, e finalizar a dança sem beijar Piper.

 

 

Todas As Estrelas

 

É só mais uma noite

 

E eu estou encarando a lua

 

Vi uma estrela cadente e pensei em você

 

 

 

Cantei uma canção de ninar na beira d'água e soube

 

Se você estivesse aqui, cantaria para você

 

 

 

Você está do outro lado do mundo

 

E a linha do horizonte se divide

 

Milhas distante de poder te ver

 

 

 

Eu posso ver as estrelas da América

 

Eu me pergunto, será que você as vê também?

 

 

 

Então abra seus olhos e veja

 

Os nossos horizontes se encontrando

 

E todas as luzes irão te guiar

 

Pela noite, comigo

 

 

 

E eu sei que esses céus irão sangrar

 

Mas os nossos corações acreditam

 

Que todas as estrelas irão nos guiar para casa

 

 

 

Eu posso ouvir seu coração

 

Pelo rádio, ele bate

 

Eles tocaram "Chasing Cars" e eu pensei em nós

 

 

 

De volta ao tempo em que você se deitava ao meu lado

 

Eu olhei para o lado e me apaixonei

 

 

 

Então, eu peguei a sua mão

 

E pelas ruas, eu soube

 

Tudo me levava de volta à você

 

 

 

Você pode ver as estrelas

 

De Amsterdã

 

E ouvir a canção que bate no meu coração?

 

 

 

Então abra seus olhos e veja

 

Os nossos horizontes se encontrando

 

E todas as luzes irão te guiar

 

Pela noite, comigo

 

 

 

E eu sei que essas cicatrizes irão sangrar

 

Mas os nossos corações acreditam

 

Que todas as estrelas irão nos guiar para casa

 

 

 

Eu posso ver as estrelas da América

 

A música terminou, mas demorou um pouco para que nos déssemos conta. Piper foi a primeira a se afastar.

— Escolheu bem a música.

Ela sorriu. — Obrigada.

Saímos da lanchonete a pé mesmo, deixei meu carro lá estacionado e fomos andar até a praia que ficava no fim da mesma rua. Tiramos nossos sapatos e andamos pela areia.

— Vamos entrar? — sugeriu Piper.

— Que? — ri incrédula. — Está frio para cacete, amanhã a gente entra!

— Não! — Piper negou com o dedo indicador em meu rosto. — Amanhã iremos entrar naquele lago que você me levou... eu quero ir em todos os lugares que eu frequentei naquela época.

Sorri de canto ficando bem próxima dela. — Você é maluca... quer mesmo entrar nessa água gelada nesse frio?

— Vai amarelar? — indagou se afastando de costas, enquanto ia tirando as peças de suas roupas.

Engoli em seco e aquilo me afetou drasticamente.

Não sei o que seria de mim.

Piper estava o pedaço de mau caminho... Ainda mais tão  madura e decidida como ela estava. Ergui as sobrancelhas observando ela ficar somente de peças intimas, enquanto me chamava com o dedo indicador.

Deus... tenha piedade de mim!

Que corpo era aquele?

 

۞

 

FUI TIRANDO AS PEÇAS DE ROUPAS E DEIXANDO-AS NA AREIA, ENQUANTO CAMINHAVA DE COSTAS RUMO AO MAR, JÁ ALEX FICOU SOMENTE ENCARANDO-ME, ATÉ QUE DE REPENTE ELA TAMBÉM COMEÇOU A RETIRAR SUAS ROUPAS, FICANDO SOMENTE DE ROUPA INTIMA. Pude ver então com mais detalhes suas tatuagens, todas elas. Ela colocou suas roupas dobradas no chão – diferente de mim – e seus óculos sobre as peças. Seu corpo era perfeitamente esculpido. Parecia uma obra de arte.

Eu já estava com a água batendo em minha cintura, quando Alex ficou diante de mim. Ela estremeceu.

— Porra de água gelada! — disse entre os dentes.

Ri. — Nem tanto — coloquei meu cabelo de lado, para molhar menos possível, embora seja quase impossível, devido as ondas.

— Nem tanto — repetiu rindo incrédula.

— Gostei das suas tatuagens — murmurei sem conseguir desviar os olhos do seu corpo.

Fechei os olhos com força.

O que estava havendo comigo?

Eu estava completamente descontrolada.

Senti o calor de seu corpo de repente, e quando abri meus olhos Alex estava a centímetros de mim. Fitando-me de forma intensa. Seus olhos esverdeados, chamativos, fazia eu sentir coisas. Coisas que eu nunca senti antes. Tremi por dentro.

Meu Deus... me ilumine e clareie minhas ideias.

Senti sua pele tocar a minha de baixo da água, e o calor que ela emanava era algo incrível.

— E a sua? — seu dedo tocou minhas costelas.

Fiquei sem respirar.

As minhas reações estavam me confundindo. A maneira como meu corpo estava reagindo não era normal. Arrepiei-me dos pés a cabeça. Eu não sabia, não sabia mesmo o que estava acontecendo comigo. Preferia pensar que era emoção de estar perto de Alex, já ela foi uma pessoa tão importante em um momento tão difícil em minha vida.

Seu polegar acariciava o local da tatuagem. Minha respiração estava falha, então falei com a voz completamente afetada e me odiei por isso.

— Aqui — fiquei de costas para ela, com minha nuca exposta.

Alex tocou no local e me arrepiei completamente, tive que fechar os olhos. Isso não era normal nem aqui, e nem na China.

— Linda... combina com você — murmurou, senti sua respiração bater em minha nuca.

Minhas costas estavam junto ao seu peito. Eu poderia estar completamente insana, mas a respiração de Alex parecia estar descompassada. Acho que preciso frequentar o terapeuta novamente, que essa vinda ao passado estava me deixando completamente maluca e imaginando coisas que não existem.

— Eu sempre gostei de peixes — comentei ficando de frente a ela novamente, e eis que veio o susto, ela estava ainda mais próxima que antes, de modo que nossos narizes quase se encostavam e eu podia ate sentir sua respiração quente contra meu rosto.

Engoli em seco, mantendo meus olhos vidrados aos seus, e foi inevitável minha boca não secar. Alex fitava-me e nada dizia, ela umedeceu os lábios em seguida e então uma onda quase me derrubou, só não porque eu trompei contra o corpo dela.

— Jesus! — ri.

Alex riu. — Ainda bem que você sabe nadar — brincou.

Aquele clima estranho se dissipou, o que nos permitiu nadar entre risadas e brincadeiras, fazendo assim que esquecêssemos a temperatura da água, que sim, estava bem gelada.

Saímos do mar cerca de quase duas horas mais tarde, completamente encharcadas.

— Tive uma ideia — disse Alex pegando suas roupas dobradas na areia. — E se fossemos para o trailer?

— Seu esconderijo secreto? — indaguei.

— Isso.

Apesar de que a ultima vez que estive lá não fora nada agradável, eu tinha gostado do lugar, além do mais, o objetivo era esse, não? Relembrar o passado, ir aos lugares em que estive e enfrentar meus demônios?

— Ok... foi uma sugestão tola.

— Não — tratei de dizer. — É uma ótima ideia. Eu ia sugerir isso, só que amanhã, mas ok, vai ser perfeito terminarmos a noite lá.

Alex sorriu largamente assentindo.

Fui à procura de minhas peças de roupas espalhadas pela areia, as vesti e então fomos pegar o carro de Alex que estava na lanchonete, pois o trailer ficava um pouco afastado da cidade.

Chegamos no local, tudo estava extremamente escuro. Descemos do carro e Alex abriu a porta usamos chaves.

— Ainda tem essas chaves com você?

Ela sorriu. — Sempre quando venho aqui na cidade tenho que vir aqui, pensar... é meio que obrigatório — deu de ombros.

Assenti, estava morrendo de frio.

Não tinha sido mesmo uma boa ideia ter entrado no mar... Não sem biquíni. Entramos no trailer. Tudo continuava da mesma forma como eu me lembrava, e foi impossível não me sentir angustiada com as lembranças vindo à tona com uma enorme intensidade.

— Frio? — questionou Alex quando fechou a porta e acendeu a luz. Eu mantinha meus braços cruzados, na esperança de que o frio fosse embora, mas não estava funcionando muito. — Calma que eu acho que aqui tem roupas limpas — disse ela abrindo aquele mesmo baú de anos atrás. — Aqui — sorriu de canto me entregando roupas perfeitamente dobradas, eram roupas moletom.

— É, aqui sem dúvidas é o lugar certo — soltei um riso pegando as roupas, fui em direção o banheiro para me trocar.

Como várias coisas que estava acontecendo comigo ultimamente, estranhamente levei a roupa ao nariz, pode parecer loucura, mas ainda tinha um leve cheiro de Alex Vause no tecido.

Maneando a cabeça tirei minha roupa úmida para colocar a seca. Meus cabelos já estavam quase que completamente secos, então não tinha problema. Sai do banheiro, e encontrei Alex com um violão em mãos.

— Olha o que estava aqui no canto? — mostrou. — Meu antigo violão — riu. — Nem me lembrava de que tinha deixando ele aqui.

Sorri deixando minhas roupas no canto. — Olha só... parece o destino, não? — brinquei sentando-me no sofá cama e cruzando as pernas, encarando-a.

Alex arqueou as sobrancelhas. — Quer que eu cante, né?

— Por favor.

Ela então ajeitou os óculos. — Sua sorte é que eu sei cada acorde e letra daquela música — disse sentando-se ao meu lado com o violão sobre seu colo.

Encarando as cordas, Alex começou a melodia. E a cada linda palavra que saia de seus lábios, recordações me vinha à mente.

 

Se você pudesse ver

 

Que eu sou a única

 

Que te entende 

 

Que eu estive aqui por todo esse tempo

 

Então porque não pode ver 

 

 

Como faço pra me aproximar

 

Quando ela parece um anjo

 

Um momento do seu tempo parece impossível pra mim

 

Tenho medo do que ela vai dizer se o que eu disser soar incompleto

 

Alguém pode me dizer onde eu começo

 

 

 Porque, eu não posso continuar me sentindo assim

 

E não posso continuar escondendo meu coração de você

 

Eu tenho que dizer algo antes

 

Que alguém o diga

 

Eu não posso continuar te amando

 

De longe

 

De longe

 

De longe

 

De longe

 

 

Quando me sinto triste

 

Eu sempre penso em você 

 

Um amor platônico

 

Você é apenas um amor platônico

 

 

Estou tentando me manter calma 

 

Eu sei, estou demonstrando

 

Estou olhando para os meus pés

 

Minhas bochechas estão ficando vermelhas

 

Estou procurando as palavras dentro da minha cabeça

 

Estou me sentindo nervosa 

 

Porque sei que você vale a pena

 

Você vale a pena

 

 

Então eu estou começando a me arrepender de não dizer 

 

Tudo isto pra você 

 

Então se eu não o fiz ainda, que você saiba

 

Você nunca vai estar sozinha

 

Deste momento em diante

 

E você tem um sorriso

 

Que poderia acender essa cidade inteira

 

Eu não tenho visto á algum tempo

 

 Estarei sonhando com o dia que você virá acordar e achar

 

Que o que você estava procurando

 

Esteve bem aqui o tempo todo

 

 Se você pudesse ver

 

Que eu sou a única

 

Que te entende

 

Que esteve aqui por todo esse tempo

 

Então por que você não pode

 

Ver que você pertence a mim

 

Em pé ao lado e esperando em sua porta dos fundos

 

Todo esse Tempo

 

Como você pode não saber

 

Você pertence a mim

 

 

 Um Amor Platônico!

 

Você é apenas um amor platônico!

 

Eu sei que você é um amor platônico!

 

Mas, Eu te amo!

 

Você pertence a mim

 

 

Céus... sim, a música era mesmo linda como eu me lembrava. Com um sorriso aplaudi com o fim dela.

— Muito boa!

Alex deixou o violão de lado. — Espero ter matado sua vontade.

— Sim, matou sim.

— Bom, agora eu vou trocar essa roupa antes que eu fique resfriada — se ergueu do sofá pegando peças de roupas limpas também e entrou no banheiro em seguida.

Suspirei olhando ao redor, a cada olhada, lembranças vinham à tona daquela noite em que minha vida mudou completamente. E agora eu penso, como eu cresci com esse acontecimento, não? Eu me sinto orgulhosa de mim mesma. Da mulher que eu me tornei.

— Muitas lembranças? — Alex fez com que eu despertasse de meus pensamentos.

Fitei-a. — É inevitável — suspirei.

Alex se aproximou de mim, estava usando o mesmo tipo de roupa que eu. Sentou-se no sofá cama fitando-me.

 — Isso faz parte da superação, tipo, sabe, sentir a dor.

Assenti encarando minhas mãos sobre meu colo. — É, eu sei — suspirei.

Houve um silêncio, então coloquei-me de pé. — Quer transformar o sofá em cama?

Ela riu se colocando de pé também. — Pensei que o plano era não dormir hoje — abriu o sofá.

Ri passando os dedos entre meu cabelo. — Ah, mas se der um soninho à cama já está aí.

Alex assentiu rindo enquanto pegava travesseiros e cobertores. Fui a primeira a me jogar naquele macio colchão.

— Nossa, que delicia! — falei completamente esparrada no colchão.

Alex se ajeitou ao meu lado. — Tenho uma programação para amanhã.

— Ah, é? — fitei-a deitando-me de lado, para ver seu rosto.

— Sim. Veja bem — ajeitou seus óculos. — Saímos daqui bem cedinho, vamos para a escola, depois para o lago e finalizamos de noite indo no cinema de carros, desta vez com meu carro próprio.

Contive o sorriso, enquanto ela falava. — Tudo muito bem planejado. Que bom que tenho você.

Alex riu achando graça.

— Tem algum livro para a gente ler? — questionei indo até a prateleira com vários livros, até que vi um escrito assim: “KAMA SUTRA COMPLETO”. Meu queixo caiu e peguei o livro.

— Alex... o que é isso, meu Deus do céu? — cai na risada.

Ela franziu o cenho e então corou. — Nossa, nem lembrava que isso estava aí — ajeitou os óculos.

— Ah, mas eu vou ler! — deitei-me novamente ao seu lado abrindo o livro. — Oh, meu Deus! — ri alto, tinha cada coisa maluca ali.

— Oh, céus... — murmurou Alex rindo. — Quer fazer o favor de guardar isso, Chapman? — tentou legar o livro de minha mão.

— Não! — neguei puxando de volta. — Deixa eu rir um pouco.

Alex riu maneando a cabeça em negativa.

Folheei o livro, e a cada página algo maus inusitado aparecia. Era mesmo de morrer de rir.

— Posso saber por que você tem isso aqui? — ri encarando.

Ela sentou-se colocando o travesseiro nas costas. — Quer mesmo saber?

Corei fazendo o mesmo. — Não fale mais nada — fechei o livro. — Chega disso — fui guardar o livro, não sabia muito bem explicar, mas aquele assunto não me agradou muito, muito menos imaginar Alex usando esse livro com alguém. — Me fala sobre sua esposa, para eu saber o que usar contra ela, caso ela não queira assinar o divorcio, que acaba sendo uma possibilidade — ajeitei-me com o travesseiro em minhas costas.

Alex ponderou por um tempo e deu inicio aos relatos sobre seus anos de casamento com Artesian Mccullough. Claro que eu já tinha visto histórias bem piores. De Alex na verdade era bem comum e normal de se acontecer entre os casais.

— E ela disse algo sobre dividir os bens? — questionei-a.

— Não, ela não quer aceitar de maneira alguma a separação, então nem tocou no assunto — deu de ombros.

— Entendi — murmurei. — Ela quer mesmo você de volta — constatei levemente incomodada.

Eu não estava gostando muito do que eu estava sentindo nessas ultimas horas aqui na cidade.

— Está com sono? — Alex mudou de assunto.

Fitei-a. — Por quê?

— Sua carinha condena — riu.

Ajeitei o travesseiro deitando-me. — Desculpe.

— Tudo bem... acho que teremos mesmo que dormir, se não amanha não conseguimos fazer nossa programação — ajeitou seu travesseiro também.

Ficamos uma de frente para a outra, nos encarando sem nada dizer.

Suspirei. — Não importa quanto tempo se passe... você sempre vai estar ao meu lado me auxiliando, já se deu conta disso?

Alex nada disse, apenas deu de ombros.

— Obrigada, Alex — murmurei baixo. 

Ela tirou os óculos deixando-o no criado - mudo ao lado da cama e suspirou. — Eu sou diferente do meu irmão, só quero que saiba disso, mas de certa forma eu... eu me sentia culpada por tudo que ele fez a você por ele ser meu irmão e-

Calei Alex colocando o dedo indicador em seus lábios. — Nem continue. Não se culpe pelas merdas dele, por favor. Você é completamente diferente dele e o fato de vocês serem irmãos gêmeos afeta em nada seu caráter.

Em resposta ela sorriu. — Acho que depois dessa eu posso dormir em paz.

Sorri. — Boba — me aproximei mais de seu rosto. — Alex, nunca se esqueça disso. Eu nunca vou te culpar por nada. Se o fato de eu ter ido embora sem me despedir deu a entender isso... eu sinto muito.

— Vamos finalizar esse assunto. Passado é passado — pausou colocando uma mecha de meu cabelo atrás da orelha. — Além do mais, Larry já é pagina virada em sua vida e é isso que importa.

Sorri. — Com certeza.

Novamente aquele clima pairou sobre nós duas. E eu nunca sabia o que dizer nesses momentos. Era incrível isso. Como eu ficava sem palavras facilmente perto dela, e não sabia como agir.

— Vamos dormir? — sugeri virando-me de costas para ela, e juntando minhas costas ao seu peito, peguei sua mão colocando seu braço sobre minha cintura.

De inicio Alex ficou um tempo parada, então em seguida ela apagou a luz e nos cobriu. Senti sua respiração quente bater contra minha nuca.

Fechei meus olhos e não foi preciso muito mais para que eu pegasse em um sono profundo. Os braços de Alex sempre me transmitiam algo relacionado à proteção, que eu não sabia muito bem explicar.

 

//

 

DESPERTEI COM O CANTAR DOS PASSÁROS, PODE PARECER CLICHÊ, MAS FOI REAL.  Abri meus olhos, e Alex não estava mais na cama. Sentei-me na cama sobressaltada.

Onde ela tinha se metido?

Quando pensei em ir atrás dela, a porta do banheiro se abriu. Ela estava vestida com a mesma roupa de ontem.

— Bom dia! — sorriu colocando seus óculos. 

Respirei mais aliviada. — Bom dia.

— Dormiu bem?

— Olha... melhor impossível — respondi com sinceridade, enquanto me espreguiçava.

Alex sorriu satisfeita. — Se arruma. Vamos tomar café na lanchonete e em seguida irmos para o colégio, se ainda quiser, claro — colocou sua jaqueta.

Levantei-me da cama. — É claro que eu quero — respondi. — Vou me trocar — peguei minhas roupas já secas e adentrei o banheiro.

Não demorei muito em me trocar, e então em seguida pegamos o carro para irmos tomar nosso café da manhã. Diferente de ontem à noite o estabelecimento estava cheio. Geralmente costumava ser assim mesmo nas manhãs, o pessoal daqui gostavam das panquecas, ovos e bacon do lugar. Era mesmo uma delicia. Então Alex e eu nos sentamos e fizemos esse pedido, que era o da casa.

— Nossa, — me espreguicei. — Sinto-me leve... de bem com a vida, sabe? Finalmente eu estou encarando meus problemas de frente.

Alex sorriu e escorou seu queixo na mão. — Fico feliz em te ver assim e fazer parte disso.

— Com toda certeza você faz sim — sorri. — Agora esse café não pode demorar muito, porque meu estomago está roncando — fiz uma leve careta.

Ela riu. — Acho que leva uns dez minutos no máximo.

— Hm... — gemi fazendo-a rir ainda mais.

— Olá, meninas! — escutei aquela voz e não pude acreditar que Larry estava ali, aliás, pude sim. A cidade era pequena demais. Ergui a cabeça encarando-o com tédio. — Oi — ele sorriu encarando-me diretamente.

Rolei os olhos e não respondi.

— Posso me sentar com vocês? — continuou ele.

— Sério isso? — indaguei encarando-o. — Olha Lerry, mil perdões, mas eu e Alex estamos tendo uma manhã incrível e se você se sentar conosco vai estranhar tudo. Não faça isso, por favor — sorri com cinismo.

Seu semblante murchou. — Credo!

Dei de ombros.

— É sério mesmo?

— Sim, querido.

— Ok, ok — ajeitou sua gravata. — Podemos marcar alguma coisa hoje à noite, o que acha?

— Já tenho compromisso com a Alex.

— E amanhã?

— Amanhã irei embora, e de todo maneira, não se esforce tanto. Eu poderia ter todo o tempo do mundo, mas jamais gastaria ele com você. Desculpe.

Alex segurou a risada em vão. — Desculpa, mas eu não consegui me controlar.

— Hahahaha! — Larry fingiu uma risada bufando. — Quer saber, vocês se merecem — saiu pisando duro.

— Ele nunca esteve tão certo. Nós duas nos merecemos — deu uma piscadela em direção a Alex.

Em resposta ela ajeitou os óculos, piscando algumas vezes. Parecia mortificada, o que não era muito comum.

— O café da manhã das senhoritas — o garçom colocou um prato para cada uma.

— Oh... jesus, finalmente! — comemorei pegando o garfo e a faca.

— Aproveite! — sorriu Alex fazendo o mesmo.

//

 

 

OS CORREDORES DO COLEGIO REGIONAL, OS ARMARIOS, A BIBLIOTECA, AS SALAS DE AULA, O CAMPO, AS QUADRAS, O VESTIÁRIO, TUDO ALI FAZIA COM QUE VÁRIAS LEMBRANÇAS VIESSEM À TONA.  No vestiário fiquei ali encarando o local por um bom tempo... As cartas... As cartas mentirosas de Larry... como podem aquelas palavras tão doces ter vindo de alguém como ele? Ele deve ter se esforçado um bocado. Em seguida fomos até o refeitório, em que quase sempre eu comia sozinha, com exceção de Alex que me fazia companhia às vezes, o auditório onde acontecia as apresentações de teatro e show de talentos e por ultimo, mas não menos importante o salão onde aconteceu o baile... aquele maldito baile. Naquele momento, ali... uma lágrima solitária escorreu por meu rosto, a qual tratei de limpar.

— Tudo bem? — Alex surgiu por trás de mim, tocado meus ombros em forma de conforto.

Assenti fungando. — Sim... chorar faz bem.

— Faz sim — concordou puxando-me para um abraço. — Estou aqui, Piper.

Assenti, enquanto as lágrimas escorriam por mais vontade.

— Deixe tudo ir embora de uma vez.

E foi o que eu fiz. Em forma de lágrimas toda a minha angustia ainda reprisada em meu peito e tristeza se foi. Aquele sem dúvida era o local mais delicado para se visitar.

 

//

 

ESTÁVAMOS SENTADAS NA ARQUIBANCADA DO CAMPO DE FUTEBOL AMERICANO DO COLÉGIO.  Eu já me sentia bem melhor, mais aliviada, podia-se dizer que me sentia até outra pessoa.

— Estou ansiosa para que você reforme meu apartamento — comentei.

— Você o quer mais moderno ou clássico?

— Poderia ser a mistura dos dois, não? — indaguei.

Alex ponderou. — Eu poderia fazer um projeto depois de conhecê-lo.

— Perfeito —sorri.

Compramos frutas, sanduiches e algumas besteiras para fazermos um piquenique no lago. Como da outra vez, tivemos que deixar o carro no meio do caminho e fomos a pé. E quando chegamos no lago... céus, ele era tão lindo quanto eu imaginava.  Alex deixou as coisas no chão, e eu suspirei encarando a água linda cristalina que saia fumaça, de tão morna que ela era.

— Que lugar lindo... ainda não me conformo que as pessoas não conheçam tanto esse lugar como deveria — comentei.

Alex se colocou ao meu lado. — Deixa disso. Aí que é bom, porque ele acaba sendo só nosso — sorriu de canto.

— Verdade... não tinha pensado por esse lado — concordei passando minha blusa pela cabeça.

Assim que me livrei dela, percebi que Alex me encarava espantada.

— O que foi? — ri. — Estamos aqui para entrar na água, não? — fui abrindo o zíper. — Entramos naquela a noite que estava gelada e não vamos entrar agora? — livrei-me da calça e os sapatos.

Fiquei somente de calcinha e sutiã e então pulei na água dando um mergulho. A água estava perfeita. Emergi, e Alex ainda estava ali, parada.

— Alex, por Deus, entra logo! — joguei água nela que riu maneando a cabeça.

— Já vou, Chapman apressadinha! — tirou os óculos colocando junto a nossa comida e então foi tirando as peças de roupa, ficando assim como eu, só de roupa intima.

E agora, no claro do dia, pude ver suas tatuagens. Engoli em seco e desviei o olhar um pouco. 

Mas que diabos...

Sexy... foi essa a palavra que surgiu em minha mente assim que vi os desenhos em sua pele alva. Eram perfeitas em contraste com sua cor.

— Jesus, Piper... — resmunguei entre os dentes.

— O que disse? — de repente Alex estava diante de mim.

Dei um pulo. — Caramba! — coloquei a mão no peito.

Ela arqueou a sobrancelha. — Tudo bem aí?

— Só me assustou.

— Ué, mas foi você que disse para que eu viesse para cá! — me jogou água no rosto brincando.

Ri.

— Nossa, que água boa — comentou ela suspirando com satisfação.

Assenti concordando. — Ótima.

Fomos para um canto em que podíamos escorar as costas em uma pedra enorme. Tinha outra coisa melhor que isso? Conversar relaxando em uma água morna que saia até fumaça? Eu desconhecia.

 

۞

 

 

— VOCÊ DISSE QUE GOSTA DE LOIRAS — COMENTOU PIPER DO NADA, ESTAVAMOS HÁ HORAS ALI RELAXANDO NA ÁGUA MORNA E CONVERSANDO AMENIDADES.

Fitei-a com atenção e esperei ela continuar.

— Mas Silvye não era loira — completou enquanto brincava com a água.

— Hm — ponderei tentando entender seu interesse.

Piper na verdade estava me deixando extremamente confusa... suas ações. Mas não, nada haver. O que acontece era que ela tinha amadurecido e tinha intimidade comigo. Só isso. Eu não poderia criar ilusões sem motivos. Pelo menos para o meu próprio bem.

— Digamos que eu tenho exceções. Eu gosto de morenas, ruivas... não disse que não gosto, mas eu prefiro as loiras.

— Seletiva você — brincou.

Ergui as sobrancelhas com um sorriso nos lábios. — Está bem atirada, não? — indaguei entrando na brincadeira. — Pois saiba que as coisas não são assim também. Eu não fico com qualquer uma que aparecer.

— Eu sei — ri. — Só estava brincando.

Sorri. — Eu sei que sim.

— Tipo, dez anos em um relacionamento? Meu Deus, eu nem consigo imaginar — comentou.

Franzi o cenho. — Por que não?

Piper deu de ombros. — Ah... você sabe... eu nunca... nunca me senti assim com uma pessoa. nunca passaram de beijos, eu nunca me submeti a me envolver e acho que... não sei — suspirou. — Quer dizer, claro que eu sinto vontade de ter isso, de ser tocada, amada, mas... o receio é maior, então eu meio que me fechei.

— Sabe que isso é injusto, não é?

— Eu sei, sim...mas é algo que eu não consigo controlar — suspirou. — E tem mais, os homens são tão... — bufou. — idiotas, imaturos e só pensam em sexo — rolou os olhos em desdém.

Ri alto. — Por isso e outras coisas que eu curto mulheres.

Piper escorou a cabeça na parede. — Ah, sei lá... eu acho que o amor não é para mim mesmo — suspirou.

— Não fala isso... você é uma pessoa maravilhosa. Tem que deixar que outra pessoa veja isso, tenha isso, tenha você na vida dela.

Piper fitou-me. — Idem — sorriu. — Tem outra pessoa no coração fora sua futura ex-esposa? — seus olhos azuis fitaram-me com atenção.

Umedeci meus lábios. — Ah... é complicado. Estou em um momento complicado, na verdade.

— Hm... não sabe se volta ou não volta?

— Não exatamente — suspirei. — É... complicado — dei de ombros sem saber exatamente o que dizer.

Piper assentiu. — A vida é complicada, mas se ela fosse fácil, não se chamaria: vida.

— Isso — murmurei.

— Mudando de assunto, você disse gostar de loiras.

Fitei-a.

De novo com isso?

— Sim — concordei.

— Eu sou loira.

Não. Acredito. Que. Ela. Disse. Isso.

Meu coração disparou no peito de uma forma, que eu pensei que fosse enfartar. Minha respiração chegou a ficar falha, abri a boca algumas vezes, mas nada disse. Eu era incapaz. De repente, pegando-me completamente de surpresa, Piper explodiu em risadas, seu rosto chegou a ficar vermelho.

— Ai, Alex... você precisava ver sua cara! — exclamou entre risadas.

Voltei a respirar.

Era zoeira?

Céus, essa nova Piper ainda ia me matar. Ia sim.

— Você é louca!

— Desculpe! — ela riu pegando meu rosto com as mãos e levando os lábios até meu rosto.

Paralisei quando ela se aproximou, não esperando tal ação. Ela vive me pegando de surpresa. Meu Deus do céu. É muita emoção para uma pessoa só, e muitas coisas acontecendo.

— Espero que não fique com raiva da minha brincadeirinha — disse ao se afastar.

Neguei. — Claro que não. Nada haver.

— Que bom — comentou claramente aliviada.

Sorri. — Vem, vamos nadar — chamei-a dando algumas braçadas em seguida.

 

//

 

— TEM NOÇÃO DO QUANTO AMO ESSE FILME? —COMENTOU PIPER COM UM ENORME ENTUSIASMO COLOCANDO UMA ENORME MÃO DE PIPOCA NA BOCA, ESTAVAMOS EM MEU CARRO NO CINEMA DE CARROS ASSISTINDO UM AMOR PARA RECORDAR. — APESAR CLARO DE SER MUITO CLICHE E EXTREMANENTE TENDENCIOSO, MAS OK, A VIDA É UM CLICHÊ — DEU DE OMBROS.

Sorri observando seus gestos, então peguei uma mão de pipoca também. Estávamos dividindo o mesmo balde, que era enorme. Seus olhos estavam vidrados na enorme tela a nossa frente. Hoje era dia de passar filmes clássicos, e não inéditos. Eu sinceramente preferia os clássicos.

— Você fala como se você não acreditasse no amor, tipo aquelas mulheres amarguradas de filme de comedia romântica — comentei.

Ela me encarou.  — Não exatamente, mas sim, esse filme é clichê e tendencioso, ou vai dizer que não é?

— Tenho que concordar que é sim — dei um risinho.

— Viu? — pegou o refrigerante, que também estávamos dividindo e bebeu.

— Eu gosto de clichês, apesar de tudo.

— Eu também — sorriu. — Agora vamos prestar atenção no filme. Essa é a melhor parte! — disse entusiasmada.

Ri vendo-a assim.

Feliz.

Piper estava mesmo vidrada no filme, mas eu estava vidrada mesmo nela. Em seus traços e em como ela era perfeita... Meu Deus, porra... como ela conseguia isso? Eu nunca teria explicações para esse fenômeno.


Notas Finais


Segurem a marimba hahahahahaha


Gostou da Fanfic? Compartilhe!

Gostou? Deixe seu Comentário!

Muitos usuários deixam de postar por falta de comentários, estimule o trabalho deles, deixando um comentário.

Para comentar e incentivar o autor, Cadastre-se ou Acesse sua Conta.


Carregando...