História Sob O Olhar de Notre Dame - Capítulo 18


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Palavras 4.025
Terminada Não
NÃO RECOMENDADO PARA MENORES DE 16 ANOS
Gêneros: Aventura, Drama (Tragédia), Fantasia, Romance e Novela, Universo Alternativo
Avisos: Heterossexualidade, Suicídio, Violência
Aviso legal
Alguns dos personagens encontrados nesta história e/ou universo não me pertencem, mas são de propriedade intelectual de seus respectivos autores. Os eventuais personagens originais desta história são de minha propriedade intelectual. História sem fins lucrativos criada de fã e para fã sem comprometer a obra original.

Notas do Autor


Não sabem como foi legal escrever isso! Posso dizer, leitores, que essa história encaminha-se agora para seu final, mas felizmente tudo vai tão bem que... hm... leiam e me digam vocês.

Capítulo 18 - Amor Verdadeiro


Foi Quasímoda quem disparou para fora do quarto, para chamar Phoebe que, costumeiramente, ficava na praça e frente a Notre Dame para tomar conta do santuário e, naturalmente, prender Esmeraldo assim que ele botasse o pé para fora. A sineira não pensou em nada mais, não pensou que talvez não devesse deixar sua casa, que poderia receber olhares de deboche das pessoas. Não, isso não importava para ela. Tudo o que ela mais queria era ver Esmeraldo finalmente livre.

- Capitã! – ela aproximou-se correndo de onde Phoebe estava e a oficial voltou-se para a garota e ergueu uma sobrancelha, avaliando-a da cabeça aos pés com um olhar crítico – A ministra Frollo está chamando pela senhora. Por favor, venha comigo.

Phoebe franziu o cenho mas acompanhou a sineira, sem deixar de demonstrar sua insatisfação e rancor por Quasímoda.

- Se não fosse afilhada da ministra eu a prenderia agora mesmo pelo que fez durante a execução daquele cigano maldito, corcunda. – a voz da capitã não passava de um sussurro cruel, para apenas Quasímoda ouvir, e aquelas palavras feriram a garota. Mas ela, depois de tudo o que passara, não seria mais alvo de hostilidade sem reagir.

- E se você não fosse a capitã da guarda, eu daria uma surra em você por ter atraído Esmeraldo para fora da catedral sem ordem da madrinha, sua fingida. – a garota respondeu no mesmo tom, encarando Phoebe com olhos faiscando – Agora feche a boca, ou eu farei questão de relembrar à madrinha o que você fez, se é que ela esqueceu.

Phoebe, mesmo que isso a irritasse profundamente, não respondeu pois a ameaça de Quasímoda era muito bem fundamentada e a capitã não esquecera da idiotice que cometera. Desde que Esmeraldo foi preso, ela não dormia mais direito, com medo de a qualquer hora ser chamada pela juíza para discutir a insubordinação da oficial e suas consequências. Phoebe até pensara que Claudia a chamava para falar sobre isso agora, mas a própria Quasímoda deu a entender que não e ela acalmou-se, andando maquinalmente até onde estava a ministra.

Ao chegar no quarto, Phoebe deu de cara com Esmeraldo, que olhou para ela com profunda reprovação e cruzou os braços. Em resposta, Phoebe devolveu o olhar, sentindo verdadeiro ódio por aquele rapaz que tantas vezes escapara dela. Mas Claudia, percebendo essa silenciosa guerra, chamou a atenção de ambos. A oficial encarou-a e aguardou.

- Capitã Phoebe, quero que cumpra essa ordem de prisão agora mesmo. – Claudia estendeu para ela um documento oficial, que ela acabara de redigir e assinar – Leve o suspeito até o Palácio da Justiça e que ele fique lá para aguardar julgamento.

Phoebe leu o documento e seus olhos azuis arregalaram-se imediatamente, e ela olhou da juíza para Esmeraldo, e dele para a esposa de monsieur Beaufort, o homem a quem ela teria que prender pela prática do crime de homicídio contra Laurette de Beaufort.

- Eu disse a você que era inocente, não disse? – Esmeraldo alfinetou e a garota encarou-o novamente, ainda estupefata, sem saber o que dizer ou pensar, e reduzindo-se a dizer um atrapalhado “sim, senhora” para Claudia e a retirar-se dali para cumprir a diligência.

- Graças a Deus! – madame Beaufort suspirou aliviada e olhou para Claudia, com olhos marejados – Não sabe como agradeço por acreditar em mim, ministra Frollo. Eu já não suportava mais guardar esse segredo nem permanecer presa, vítima daquele homem cruel! Agora Laurette terá justiça!

- Foi muito corajosa, senhora. – Claudia respondeu amavelmente mas completou, encarando agora Esmeraldo, que não desviou o olhar mesmo diante do medo que sentia – E todos nós aqui agradecemos por isso, pois esse caso, por muito pouco, não teve um final trágico.

Esmeraldo avaliou Claudia, o que ela dizia, seu olhar, e notou que ela de fato parecia outra pessoa, muito diferente daquela mulher terrível que ele conhecera. Ela parecia ser realmente como Quasímoda dizia, gentil e justa, e o alívio que ela demonstrava por finalmente ver aquele caso tomando o rumo correto era bastante claro. O cigano, lembrando-se de que Quasímoda lhe pedira para tentar fazer as pazes com madame Frollo, finalmente teve coragem para isso.

Quando todos deixaram o quarto da ministra, ele permaneceu, mesmo que ainda sentisse medo, mesmo que ainda não fosse capaz de esquecer do que vivera. Mas ele tentaria seguir sua vida e deixar aquele passado perturbador para trás.

- Hm... ministra Frollo, eu posso conversar um instante com a senhora? – ele começou, procurando manter a voz firme apesar do desconforto que sentia.

Claudia, que estava sentada em uma cadeira diante de uma pequena escrivaninha, apontou para o cigano a poltrona ao lado de sua cama. Sua saúde ainda parecia meio frágil, ela ainda estava pálida e parecia sentir dor e Esmeraldo notou isso e finalmente sentiu compaixão, lembrando-se do porquê de ela estar assim. Era triste perceber que aquela mulher, que agora lhe parecia tão calma e ponderada, tinha chegado a um tamanho estado de desespero que nem sua vida lhe parecia ter valor.

E era triste lembrar-se de uma das últimas conversas que tiveram, enquanto ele estava preso no Palácio da Justiça, quando ela lhe pedira perdão por tudo o que fizera e ele recusara, tratando-a de uma forma tal que chegava a ser cruel. Aquela dolorosa lembrança atingiu-o e ele sentiu-se mal. O remorso queimou-o e o cigano baixou a cabeça, mas procurou afastar esses sentimentos e sentou-se, como ela pediu, respirou fundo e começou a falar.

- Antes de qualquer coisa, ministra obrigado por acreditar em mim. – ele foi falando com sinceridade enquanto encarava os olhos cinzentos de Claudia, que o observava com tranquila expectativa.

- E antes que diga mais alguma coisa, Esmeraldo, mais uma vez peço que você me perdoe por tudo o que fiz. – a juíza respondeu, também sinceramente, e Esmeraldo encarou-a, agora sem poder evitar o remorso e a compaixão. E ela continuou – Sei que já lhe pedi isso, sei que você estava furioso naquele dia e compreendo o que sentia. Mas, por favor, não me recuse o perdão. Se não quer fazer isso por mim, faça-o por você mesmo, para que possa viver em paz.

Claudia, pela primeira vez desde que conhecera Esmeraldo, estava conversando com ele sem que seus ânimos estivessem alterados. Agora ela podia avaliar com calma o cigano à sua frente e, quanto mais ela o encarava e reparava nele, menos ela podia entender como pudera se apaixonar por ele daquela maneira.

Esmeraldo era praticamente um menino, mal saíra da adolescência. Ele era lindo, sim, mas agora que Claudia conseguia raciocinar com clareza, ela notava que ele estava mais para um belo rapazinho, que combinaria muito mais com alguém da idade de Quasímoda, do que com ela mesma. Além disso, quando a ministra o vira dançar no Festival dos Tolos, não foi aquele rosto de menino que ela viu, mas o rosto de um homem, maduro e vivido, muito diferente do que ela agora enxergava.

Claudia apaixonara-se por uma ilusão, e agora que via a realidade, sem interferência de nenhuma emoção ou desejo, tudo o que vivera lhe parecia um sonho, impossível de ter ocorrido na realidade tamanha a bizarrice de tudo aquilo. E, percebendo isso, a ministra sorriu sem alegria, dizendo a Esmeraldo tudo o que passava por sua mente enquanto ele ouvia, atento. Ao final, ele também sorriu sem alegria, encarando a ministra um pouco mais confiante.

- Bem, rapaz, esse tormento finalmente cessou. – Claudia concluiu, olhando nos olhos de Esmeraldo – Dou minha palavra de que não sinto absolutamente mais nada pro você.

- Ainda bem! – o cigano suspirou, ainda sentindo-se pouco à vontade ao falar com a ministra mas muito menos incomodado do que estaria há uma hora atrás. Respirando fundo, o rapaz encarou-a e, mesmo que fosse difícil dizer o que estava prestes a dizer, ele continuou, certo de que ser bondoso e sincero era a melhor decisão a ser tomada para encerrar de vez aquele capítulo de sua vida – E eu, bem... eu... perdoo a senhora, madame Frollo. E creio que também preciso pedir perdão à senhora por tê-la perturbado durante o Festival dos Tolos. Eu só fiz aquilo por vaidade, porque a senhora não estava prestando atenção em mim como todos estavam. Eu fui um idiota arrogante e não devia ter feito aquilo.

- E foi aí que eu me iludi com você e enxerguei mais do que devia. – a juíza sorriu novamente, sem alegria – Mas eu perdoo você, Esmeraldo. Perdoo por tudo, e espero que nunca mais eu seja tão tola a ponto de me deixar levar por uma ilusão. Aquilo foi tão ridículo que mal posso acreditar que fui capaz!

Esmeraldo encarou Claudia enquanto ouvia o desabafo dela e sentia ainda mais compaixão, mais uma vez contrariando todas as suas expectativas. Mas uma pontinha de remorso atingiu-o e o rapaz baixou a cabeça por um instante enquanto as lembranças vinham até ele.

- Eu até entendo a senhora. – ele disse finalmente, suspirando cansado e mais uma vez sendo sincero como ela estava sendo com ele – Phoebe era tudo o que me disse que era mas eu não enxerguei. Estava preso em uma ilusão assim como a senhora esteve. Sabe de uma coisa? Não somos tão diferentes, no final das contas.  

- Não, não somos. – Claudia concordou – Fizemos loucuras por causa de ilusões idiotas, e veja você no que isso quase resultou. Eu quase condenei um inocente, e você correu para sua condenação e abandonou o único lugar onde estava a salvo. Tudo por causa disso.

- Tudo por causa de rostinhos bonitos. – o cigano soltou uma risada curta – Maldita beleza, que cega as pessoas.

- Não... – a juíza ponderou, reflexiva – Acho que não é esse o problema. O problema está em nós, que fomos tolos a ponto de não sabermos diferenciar a realidade da fantasia, porque nos deixamos levar por nossos instintos e desejos egoístas. Não culpe a sua beleza e nem a de Phoebe, quando quem errou fomos nós dois.

Esmeraldo encarou Claudia, pensando no que ela disse. Sim, ela estava certa. Ambos foram fracos o suficiente para não refletirem sobre seus sentimentos e sobre quem era a pessoa alvo de seus desejos. Claudia apaixonara-se por uma versão irreal de Esmeraldo, e ele julgou que amava uma garota que conhecera no mesmo dia. E Quasímoda bem que avisou, mas ele não ouviu, então como negar o perdão sincero a alguém quando ele mesmo cometeu aquele erro?

- Parece que está certa, ministra. Fomos dois bobos, com todo o respeito. – o cigano disse, rindo sem alegria.

- Sim, fomos mesmo, rapaz. Pode dizer a verdade, eu mereço ouvir. – Claudia respondeu, apoiando a cabeça em uma das mãos – Fomos dois tremendos bobos, e quase destruímos nossas vidas por causa disso. Ao menos, Deus viu nossa idiotice, sentiu pena e deu-nos uma chance para, dessa vez, acertarmos.

Esmeraldo, sem poder evitar, riu e Claudia acompanhou-o, mal acreditando que a conversa tomava aquele rumo e que as desavenças estavam se dissipando como nuvens de tempestade que desapareciam diante do sol.

- Depois dessa, se eu não perdoar a senhora, ministra, estaria mais uma vez sendo idiota. Estamos no mesmo barco, então que haja paz entre nós. – o cigano ainda ria mas agora com alegria, muito mais à vontade.

- Então você me perdoa de verdade, cigano? – a ministra levantou-se e estendeu a mão para ele, que levantou-se também e apertou-a, convicto e finalmente livre do peso do rancor.

- Sim, senhora. – ele respondeu e sorriu, vendo pela primeira vez Claudia sorrir de volta, dessa vez sinceramente, com alegria, enquanto seus olhos brilhavam e seu rosto iluminava-se – E perdoe-me também por todas as vezes em que a feri. Eu fui babaca e reconheço isso, então espero que também possa me perdoar

- Claro que perdoo. – ela encarou o cigano ainda sorrindo, seu rosto realmente iluminado e uma grande paz em seu coração – E Quasímdoa estava certa sobre você: tem um coração bondoso, rapaz. Fico feliz em ver isso. Foi capaz de me perdoar e até de pedir perdão apesar de tudo, e com sinceridade. Outros levariam eras para isso, se é que algum dia o fariam. Que você se mantenha sempre assim.

- Pretendo. – agora era Esmeraldo que sorria, surpreso e, pela primeira vez desde que conhecera madame Frollo, vendo-a claramente como Quasímoda a via – E a senhora não é nem um pouco parecida com a velha Laurette. Acho que me enganei nisso também.

- Pois graças a Deus! – Claudia soltou uma risada alegre e o cigano riu junto com ela, finalmente deixando todo o passado para trás.

A noção de que recebera uma nova chance, como dissera madame Frollo, pouco a pouco começava a encher o coração de Esmeraldo de alegria. Era uma triste verdade: ele não sabia o que era amar até aquele dia. Para Esmeraldo, amar era sentir atração por alguém, era apenas sentimentos que podiam morrer com facilidade, bastando um golpe das circunstâncias para que isso acontecesse. Se ele tivesse morrido naquela fogueira, partiria desse mundo sem saber o que era realmente amar. E agora ele estava salvo, livre, e poderia viver o amor que tanto desejava dessa vez da forma certa. Isso era, apesar de toda a tristeza do que vivera, um pensamento alegre.

 E pensando nisso, o cigano deixou o quarto da ministra com o coração leve, cheio de confiança e de esperança no futuro enquanto o rosto de Quasímoda não saía de sua mente, fazendo-o sorrir mais ainda e a acreditar que, talvez, ele estivesse pela primeira vez em toda a sua vida, realmente amando alguém.

 

 

Por falar em amor, Leon era quem pensava nisso agora. Durante todos os dias em que estivera ao lado de Claudia na catedral, cuidando dela, ele convencia-se de que acertara quando percebera que a amava. Ela já não era mais fria com ele. Ao contrário, finalmente ela estava sendo gentil e finalmente confiava nele. Eram amigos agora, e Leon, apensar de todos os problemas que ela enfrentara e de tudo o que fizera, estava mais do que disposto a permanecer a seu lado.

Se dependesse do médico, ele passaria todo o seu tempo ao lado de Claudia, e só não fazia isso porque tinha pacientes a atender. Mas bastava que ele tivesse um tempo, uma pequena brecha que fosse, para que corresse a Notre Dame para vê-la. E ela sempre o recebia com carinho, um lindo sorriso e aquele olhar gentil que cativara Leon desde sempre.

Agora a noite caía em Paris, a missa terminava e os fiéis deixavam a catedral. Claudia estava em um dos últimos bancos, sentada e reflexiva, mas muito feliz. Era a primeira vez que ela deixava seu quarto desde aquele terrível incidente. O ferimento estava muito melhor, ela sabia que devia evitar fazer esforço físico mas não fazia mal descer ao menos uma vez para assistir à missa.

Leon permitiu isso e ajudou-a a descer e agora ambos estavam ali, sentados, quietos, mas em profunda paz. Ele às vezes olhava para ela com carinho, segurava sua mão e ela permitia, mas sem saber se finalmente teria coragem de dar um passo em direção a algo que poderia transformar-se em um amor verdadeiro ou se permanecia como estava, contentando-se com a amizade de Leon.

Ao final de alguns instantes, ambos ergueram-se do banco, agora que a igreja estava bem mais vazia, e passaram a caminhar juntos, indo em direção à imagem da Virgem e ao estrado de madeira onde Quasímoda foi encontrada. Claudia amava aquele recanto da catedral, muitas boas recordações vinham à sua mente quando ela ia até ali, mas dessa vez foi monsieur Dunois quem tinha uma boa recordação para contar, e ele começou a falar enquanto um sorriso carinhoso brilhava em seu rosto.

- Não sei se sabe, madame Frollo, mas no dia em que encontrou Quasímoda aqui, eu estava escondido atrás de uma das colunas observando-as. – ele disse e Claudia o encarou, surpresa e curiosa – Foi a primeira vez em que eu a vi bem de perto, e era impossível não admirá-la, tanto pela sua coragem ao expulsar aquelas mulheres barulhentas daqui quanto pelo amor que sentiu por Quasímoda assim que a viu.

Claudia sorriu, recordando-se daquele dia tão especial em sua vida.

- De todas as coisas que fiz em minha vida, monsieur Dunois, nada me traz mais alegria do que ter adotado Quasímoda. – ela respondeu, seu rosto iluminado por um amor visível pela afilhada, e acrescentou entre curiosa e divertida – Mas eu não sabia que estava aqui, observando escondido. Por que não se manifestou?

- Porque aquela cena era tão linda de se ver que eu não quis atrapalhar. Até hoje me recordo do amor que vi nos olhos da senhora e da alegria de Quasímoda quando a senhora a pegou no colo. Nada me marcou tanto quanto aquilo, madame Frollo. Foi uma das coisas mais belas que já vi em toda a minha vida.

E dizendo isso, Leon ficou de frente para Claudia e mais uma vez segurou sua mão enquanto ela, comovida e surpresa, permitiu aquele gesto enquanto encarava encantada o rosto sereno do médico.

- Aquilo me fez admirá-la muito, a vê-la com outros olhos. – monsieur Dunois continuou, seu sorriso aumentando enquanto uma luz brilhava em seus olhos esverdeados – Nossas famílias eram conhecidas, eu a via de relance muitas vezes mas nunca estive perto o suficiente para conhecê-la. Mas quando fez aquilo... céus, quem mais no mundo demonstraria tamanha bondade e capacidade de amar? Eu nunca me esqueci daquele dia, mesmo depois de todos esses anos, e ainda a admiro, agora mais do que nunca depois de ver que, apesar de tudo, continua a ser aquela mulher gentil e de coração enorme que enfrentou o mundo para dar amor a uma criança que merecia ser muito amada apesar de não se parecer com o anjo que é.

Claudia arregalou os olhos, seu rosto enrubesceu e, por um segundo, ela ficou sem saber o que dizer. Leon aproximou-se um passo, ainda segurando sua mão e sorrindo.

- Você ainda me vê com esses olhos apesar de tudo o que eu fiz recentemente e de tudo o que lhe contei? – a ministra encarava Leon fixamente, comovida e encantada, e ele acariciou sua mão.

- Posso entender o que a levou a fazer tudo aquilo, mesmo discordando de certos atos, madame Frollo. Sei que passou anos de sua vida em austero isolamento, temendo o contato mais próximo com as pessoas, evitando seus sentimentos e instintos. Eu sabia que, uma hora ou outra isso aconteceria e era preocupante saber disso mas não poder fazer nada para ajudá-la. O que aconteceu no Festival dos Tolos foi apenas a gota d’água que fez desmoronar a represa que a senhora construiu para conter seus sentimentos, e eles fluíram com violência, de uma vez só, impossíveis de serem contidos. Seus atos de desespero ou ódio foram apenas a consequência disso.

- Fui tola por pensar que podia manter controle total sobre mim mesma dessa maneira. – a ministra suspirou, consciente de que esse havia sido de fato seu pior erro, o mais grave porém menos perceptível.

- Felizmente agora sabe que não deve mais fazer isso, então não há mais o que temer. – Leon consolou-a mas acrescentou, intrigado – Só gostaria de saber por que fez isso consigo mesma. O que a levou a ter tamanho medo de se aproximar das pessoas e a temer tanto seus instintos?

- Meu pai era um homem sério, rígido e desconfiado – Claudia respondeu, recordando-se do passado e analisando, pela primeira vez, a si mesma daquela maneira -  Creio que minha desconfiança das pessoas ao meu redor veio da desconfiança que ele mesmo sentia e não fazia questão alguma de esconder. Cresci ouvindo-o comentar sobre como as pessoas são capazes de atos vis e acostumei-me a esperar apenas isso de todos. Bem, eu sabia que isso não era bem uma verdade, mas fechei-me por via das dúvidas. Por medo de sofrer uma decepção.

- E seus instintos? Por que a senhora os temeu? – o médico questionou novamente, ainda intrigado.

- Meus instintos? – Claudia ponderou – Mais uma vez por medo de errar, monsieur Dunois. Lembra-se de quando Laurette foi expulsa de casa?

- Se lembro! – Leon franziu as sobrancelhas ao recordar-se do dia em que soube do ocorrido.

- O caso dela marcou demais a mim e a meus pais. Fui advertida várias vezes a nunca fazer o que ela fez, meu pai disse diversas vezes que eu deveria tomar muito cuidado com os rapazes da minha idade e isso me causou medo. Eu exagerei, como sempre fazia, na cautela e mais uma vez reprimi meus sentimentos e evitei a todo custo deixar que se aproximassem de mim. Depois, com o passar dos anos, as obrigações impediram-me de pensar em ter um marido e acabei optando por permanecer só e, já que era assim, mantive meus desejos sob total controle.

- Esse medo que a senhora sentiu de deixar que se aproximassem envolveu a mim também, não? – o médico questionou, curioso, lembrando-se de todas as vezes em que ele tentara conversar com Claudia mas ela respondia com fria polidez, parecendo realmente desinteressada e distante. A ministra encarou-o e sorriu envergonhada.

- Sim, envolveu ao senhor. – ela disse sinceramente, sentindo novamente as faces esquentando – Principalmente depois da primeira vez em que o vi de perto e reparei em seu olhar tão sereno. Tive medo de me deixar encantar pelo senhor.

- E ainda teme isso? – mais um passo e Leon estava muito perto de Claudia agora, mas ela não recuou, mesmo sentindo suas faces ainda mais quentes e um formigamento subindo por suas mãos, que Leon ainda segurava e acariciava com carinho. Ela não conseguiria recuar mesmo que quisesse, principalmente agora que percebia com total clareza que já estava encantada por aquele homem tão doce, gentil e bondoso.

Leon a conquistara, ela admitiu sem medo de estar enganada. Sua bondade, carinho, gentileza, sua amizade sincera, sua preocupação genuína e sua capacidade de perdoar e ajuda-la mesmo quando ela sentia que não era merecedora, tudo isso a conquistara de uma forma surpreendente. Então não restava a Claudia outra alternativa além de responder à pergunta dele com a verdade.

- Não. – foi tudo o que ela conseguiu responder e Leon deu um último passo, ficando agora a milímetros de Claudia enquanto aproximava seu rosto do dela, ainda olhando para seus olhos cinzentos com todo o amor que tinha dentro de si.

Claudia, surpresa, sentiu dentro de si mais uma vez como se o fogo de sua lareira a queimasse mas dessa vez essa sensação maravilhosa não era acompanhada de ódio ou medo. Havia paz dentro de sua alma. Havia, pela primeira vez, uma sensação de que tudo estava no seu lugar, de que ali havia de fato o homem que devia, desde sempre, ser o alvo de todo o seu amor e de toda a sua paixão. O fogo que a queimava não era mais como uma fornalha infernal, não havia remorso ou advertência em sua consciência e Claudia, pela primeira vez em toda a sua vida, como disse a Leon, realmente não teve medo. Agora era ela quem acariciava a mão dele, era ela que sorria e o encarava com amor e foi ela quem encostou sua testa na dele, fechando os olhos enquanto tudo ao seu redor parecia desaparecer.

E Leon sorriu mais ainda, mal ousando acreditar no que estava acontecendo, enquanto sua mão tocava gentilmente o rosto da amada.

- Amo você, Claudia. – ele disse, sua voz pouco acima de um sussurro, e ela sorriu, encarando-o com um sorriso tão belo que Leon sentiu que poderia passar o resto de sua vida apenas olhando para ela.

- Eu amo você também, Leon. – finalmente Claudia respondeu, sinceramente, e Leon não precisou que ela dissesse mais nada. Incapaz de traduzir a tamanha felicidade que sentia, ele aproximou-se devagar enquanto Claudia fechava os olhos, não temendo mais o que sentia quando o fogo da lareira intensificou-se mais do que nunca em suas veias. E quando ele a beijou suavemente, com grande carinho, ela correspondeu enquanto sentia que o mundo girava a seu redor e que tudo, finalmente, estava na mais perfeita e absoluta paz.


Notas Finais


Nada a ser dito. Sério. hahahaha Apenas aguardem as cenas dos próximos capítulos.


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