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História Sob O Segredo Do Escorpião - Capítulo 11


Escrita por: e Katrinnae


Notas do Autor


Antares descobre a origem do cheiro doce que sentiu em Agis e as coisas começam a ficar mais confusas para os Cavaleiros

Capítulo 11 - Ramos de Asfódelos


Agis fechou as portas de seu aposento privado tão logo passou. Do lado de fora a festa ainda corria animada, mas sem o seu principal homenageado, e isso era um dos motivos pelo qual o anfitrião havia se recolhido tão logo soube. Praguejou em silêncio por seu deslize, embora nunca tivesse imaginado que seu Príncipe-Herdeiro fosse se sentir ofendido por ele ter falado com a escrava nova.

E aquela mulher? De onde era e porque sua presença mexia tanto com ele desde que pusera os olhos sobre? Como se houvesse um encanto que o atraia, e certamente outros convidados deveriam sentir o mesmo, mas nenhum outro se atreveu a tentar se aproximar. Então, somente ele pode sorver o perfume que exalava daqueles cabelos.

Pollux sempre foi conhecido por ser um pouco possessivo quanto aos seus escravos. Todos naquela família real o eram e isso era algo do qual irritava extremamente o magistrado. Decerto o Semideus já havia desfrutado daquele corpo desde o dia em que a adquiriu, então não conseguia compreender o motivo pelo qual o Filho de Zeus ainda estava tão zeloso quanto a ela.

– Por que eles, justo a família espartana mais favorecida pelos Deuses do Olimpo, se importaria tanto com simples escravos? – Ele rosnou irritado. – Não passam de coisas, bens que devem ser desfrutados de acordo com a vontade de seus senhores! O Príncipe não deveria negar seu novo brinquedo diante de minha oferta, a menos que… – E parou, como se estivesse em plena epifania. – O único motivo pelo qual o Príncipe seria tão possessivo com uma serva seria se ela fosse uma pessoa de grande prestígio em sua terra de origem e que ele pretendia tirar proveito disso!

E sentiu como se tivesse feito uma grande descoberta, sorrindo sozinho enquanto vagava pelo aposento. Tudo o que precisava fazer então seria descobrir sua identidade e entrar em contato com aqueles que a julgariam importante. Prometeria seu apoio no resgate da mulher e, em troca, sugeriria um matrimônio proveitoso.

Mas por onde começaria? Aquela aparência lhe era estranha, uma vez que nunca viu alguém com aquela cor de cabelo e aqueles olhos.

“Certamente não é grega.”, pensou, caminhando pela sala. “Talvez venha das terras bárbaras do oeste...”.

– Com o poder que o senhor Hades pode prover, você terá todas as mulheres que quiser, de onde quiser e quando quiser. – Alguém sussurrou em um canto. – Não precisa ficar tão injuriado porque não te deixaram brincar com o atual brinquedo da realeza.

Agis apressou-se em olhar, assustado por julgar que estava sozinho naquela sala. Encontrou um homem reclinado em uma kliné, com uma taça de vinho na mão, saboreando da bebida lentamente e com genuíno prazer.

Vestia uma Súrplice escura com cabeça de lobo e seus cabelos castanho-escuros desciam pelos ombros. Não era alto, embora seu porte e veste fossem mais que o suficiente para intimidar quem ousasse colocar os olhos sobre ele. Os músculos pareciam bem distribuídos pelo corpo, dando a falsa impressão de que se tratava de um homem comum por debaixo daquela armadura.

– Sou obrigado a dizer que sua fazenda faz bons vinhos, magistrado. – Ele falou. – Suas uvas não deixam a desejar para as vinhas do Rei da Arcadia.

– Ah! Você aqui! – O anfitrião respirou mais tranquilo. – Queria mesmo falar com você.

O visitante sinalizou para que prosseguisse.

– Um dos Príncipes de Esparta está em Amyklai, certamente para suas vistorias surpresas que costumam fazer. – Falou Agis, se aproximando. – Mas é de conhecimento comum de toda Lacônia que eles sequer se importam com o povo.

– E o porquê de me dizer isso? – O outro quis saber, olhando-o com seus olhos grandes.

– Ora! Não é óbvio?!

– Se o fosse para mim, eu não estaria perguntando… – Rebateu o Espectro, tomando um novo gole.

Agis respirou fundo, injuriado com aquela questão, contudo respirou fundo.

– Castor e Pollux, do Rei Tyndareus, e chamados de Orgulho de Esparta, passam mais tempo na Ática, baixando suas cabeças para Athenas! Quem, em toda Lacônia, aceitaria isso?! – Ele explicou para o visitante com uma nota de indignação em sua voz. – Não me espantaria nem um pouco se, acaso houvesse uma guerra entre as duas nações, eles tomassem partido daqueles pensadores de bunda murcha!

Aquilo fez o outro cuspir o vinho de volta na taça, quase se engasgando.

– Curioso esse seu apontamento. – Comentou o Espectro, tentando não rir com isso. – Mas concordo que seja grave que os Príncipes de suas terras não sejam tão queridos assim por seu próprio povo.

– Está claro que eles precisam despertar para a realidade! – Prosseguiu o magistrado, sentindo-se contente por ver que o Espectro o apoiava. – São espartanos! Descendentes do Rei Lakedaimon e da Rainha Esparta!!! Deveriam honrá-la a todo o momento, e não lamber as sandálias de reis fracos e sem honra, que se escondem por trás de truques e feitiçarias para vencerem!!!

– O senhor Hades pode ajudar com isso. Um dia, todos irão a ele, cedo ou tarde. Jovem ou velho. – O visitante falou, tomando um gole de sua bebida. – Mas diferente do senhor Zeus, que só concede suas bençãos para suas amantes e os filhos que têm com elas, o Senhor do Submundo é mais generoso! Ele oferece seus favores a quem o servir com perfeição.

– Eu só precisaria de metade do favor que o Príncipe tem… – Dizia Agis.

– Por que ter metade quando pode ter tudo? Para que se contentar com tão pouco? – Interrompeu o Espectro com um sorriso maldoso. – O Imperador Hades pode dar tudo o que quiser, bastando apenas que aceite suas condições. – Completou.

O magistrado olhou para ele, deitado sobre o móvel coberto de panos e almofadas. Tentava pensar em alguma coisa, parecia bom demais que alguém estivesse lhe oferecendo ajuda para colocar a região da Lacônia de volta aos eixos de outrora. Ainda que, às vezes, a forma como falasse sugerisse um ato de traição. Precisava tomar muito cuidado.

– E o que o Imperador do Submundo deseja que um mortal como eu faça por ele? – O anfitrião questionou com alguma impaciência. – Me diz isso desde o primeiro dia que veio aqui!

– E como naquele dia, repito, paciência, Agis de Amyklai. Tem sido um aliado valoroso, não mentirei para você. – O Espectro respondeu com um sussurro, estendendo uma mão e mostrando um ramo de asfódelo branco. – Este é o terceiro. Quando o dia chegar, queime os ramos que entreguei e chame pelo Senhor Hades. Oferte um sacrifício de valor, e então ele enviará alguém para atender ao seu desejo.

– E o que o Senhor Hades gostaria como oferenda? – Agis questionou, recebendo as flores.

O outro sorriu e terminou seu vinho, jogando a taça num canto e se levantando.

– Um sacrifício de carne e sangue, talvez. Você já tem a ferramenta...! – O Espectro falou caminhando na direção de uma densa sombra, desaparecendo nela.

Agis ficou a olhar para o local onde aquele homem desapareceu e depois pousou os olhos nas flores em sua mão. Não fazia ideia de quantos mais daqueles ramos receberia, mas não tinha outra escolha. Caminhou até um altar presente no aposento e colocou as flores junto com as outras e deixou o lugar. Por mais que odiasse, era o anfitrião e ainda precisava ser hospitaleiro com os presentes.

Desapareceu pelo corredor, em direção ao salão onde a festa acontecia. Só então Antares colocou os pés suavemente no chão, entrando pela janela sem ser percebida. Graças a sua audição, escutou quase toda a conversa enquanto se mantinha deitada sobre as telhas mais acima. Especialmente a voz do convidado, a qual reconheceu o seu dono com alguma dificuldade. Por alguma razão, não se sentiu surpresa em saber que ele voltou suas costas em definitivo para Athena e aliou-se a Hades.

O cheiro estranho que impregnava o magistrado era mais forte naquele lugar e ela sabia que vinha de algum lugar específico. Nada pairava pelo ar apenas por pairar. Até mesmo fumaça tinha uma origem.

“Vamos descobrir o que você está escondendo aqui, seu maldito.”, a ateniense pensou.

Logo identificou o altar doméstico feito de madeira pintada, provavelmente carvalho, sem maiores enfeites. De tão simples, se destacava em meio ao luxo daquele aposento, como se tivesse sido construído ali e às pressas. Dava para perceber isso na ausência quase total de desgastes na peça e sua pintura ainda viva.

Sobre o tampo liso e maciço estavam as oferendas prestadas a algumas divindades. A ponta de uma lança para Ares, algumas moedas de prata para Hermes, uma águia de carvalho para Zeus… Mas nenhum desses itens chamou mais a sua atenção que os três grandes ramos de asfódelos brancos.

“Flores dos Mortos”, pensou a Escorpião, engolindo a seco.

Olhou ao redor, suspendendo a respiração e buscando ouvir atentamente se havia qualquer passo vindo naquela direção. Se fosse pega ali, naquele momento, tudo seria muito complicado de explicar sem que a resposta fosse com sangue. Com cuidado, ela tomou uma das flores com os dedos e as cheirou, sentindo um perfume similar ao de jasmim, que suas servas e seu mestre queimavam para ela quando inquieta.

O odor que sentiu no anfitrião da festa.

Aquilo terminaria por atrair os mortos e os Espectros para aquele lugar mais cedo ou mais tarde, fosse queimada ou não, como o servo do Submundo orientou. E a jovem não duvidaria nem um pouco se aquelas flores começassem a trazer o infortúnio para aqueles que viviam debaixo daquele teto.

"Agis não tem a menor ideia de onde está se metendo.", ela pensou. "Traição será o menor de seus problemas quando o senhor Pollux souber disso!".

A escorpiana ouviu um ruído vindo do corredor, obrigando-a a pensar rápido, e assim o fez. Com cautela, tomou um ramo e o dividiu em dois. Depois o colocou de volta onde estava, de modo que a parte tirada ficasse escondida. Só isso bastaria como prova para o geminiano.

E do mesmo modo em que veio, ela partiu, usando a escuridão em seu favor, como se fosse uma filha de Nix, Deusa da Noite.

Se encaminhou rapidamente para onde estava se abrigando com o Cavaleiro, passando sem ser percebida até mesmo pelos guardas da casa. Quanto menos gente soubesse de sua tarefa ali, melhor para todos, e isso implicava em manter todos os escravos daquela casa na total ignorância.

Primeiro, se dirigiu ao quarto, onde trocou suas roupas reforçadas pelas roupas mais leves de uma serva, prendendo o meio ramo de asfódelo nas dobras da túnica. Sua missão agora seria encontrar o geminiano. Com certo cuidado travestido de timidez, ela saiu de seu aposento e se colocou a procurá-lo.

Sabia que ele não estaria longe, pois havia dito que iria aproveitar para lidar de alguns assuntos. Estava animada, não mentiria. Conseguiu informações a respeito do traidor e do magistrado, certamente fizera um bom trabalho. E foi no andar inferior que o encontrou, embora não da forma como queria.

Se aproximava da porta onde uma criada indicou que ele estava, mas não se deu conta do sorriso da mulher ao responder sua pergunta. Ao se aproximar, a escorpiana logo percebeu que algo estava errado. Ouvia respirações ofegantes na medida em que se aproximava. A princípio apertou o passo, prestes a chutar a porta à sua frente, porém deteve-se ao ouvir o que pareciam gemidos cadenciados.

O rubor em sua face foi imediato, assim como sua fuga de volta ao quarto. A respiração estava pesada e o corpo tremia, mesmo sem saber o motivo. Sexo não lhe era nenhum mistério. Não era como se nunca tivesse visto e ouvido… ou feito, ainda que sob determinadas condições das quais preferia não lembrar. E uma forte náusea a acometeu ao lembrar disso. Correu até o vaso mais próximo e vomitou ali o pouco que ainda restava no estômago.

Balançou a cabeça e se arrastou até a janela, onde a brisa noturna entrava e soprava em seu rosto, trazendo um pequeno alívio para a jovem. Deu um longo suspiro e olhou para o alto, avistando as estrelas brilhantes no firmamento. Mentalmente traçou cada constelação que via e inventou algumas, de acordo com o que estava vendo naquele momento. Era um pequeno exercício que fazia para se distrair de pensamentos e lembranças ruins.

Ágape havia ensinado aquilo depois que a Amazona, ainda em treinamento, a flagrou na cama com seu mestre. Cresceu no Templo de Escorpião ouvindo os escravos sussurrarem as crueldades que seu tutor cometia contra eles. Alguns a “alertavam” que “sua vez chegaria”, cedo ou tarde, assustando-a, e era a favorita dele quem repreendia a todos por aquilo.

A mulher sempre a abraçou, murmurando palavras tranquilas enquanto acariciava seus cabelos azuis escuros. Demorou um pouco até a escorpiana entender o que realmente estava acontecendo entre Scorpio e Ágape. E levou um pouco mais de tempo até ela realmente conseguir aceitar que os dois possuíam algo que já havia ultrapassado a relação de mestre e escrava. E foi isso que a salvou de ser morta quando o Caçador passou seu manto para a pupila.

Antares não conseguiu deixar de sorrir ao lembrar daquilo.

Fisicamente, ele era muito maior que a maioria dos Cavaleiros, perdendo apenas para o Cavaleiro de Touro. Feroz e reservado com qualquer um que se aproximasse, mas reservava uma certa mansidão ao lidar com Ganimedes. Contudo, era com sua “serva favorita” que ele agia com a doçura de um cão domesticado na mão de sua dona.

Sentiu um aperto no peito ao pensar nos dois juntos. Saudades. Pensar neles a fazia pensar na nova família constituída. Até onde sabia, sua irmãzinha já havia aprendido a caminhar e correr, mordia como uma pequena fera. Da última vez que esteve lá, a monstrinha tinha deixado uma bela marca de dente em seu ombro que durou mais de uma semana.

Por um momento, fechou os olhos e respirou fundo. Quando os abriu, tornou a olhar para o céu, com a mente mais tranquila. Bem a tempo. Ouviu passos vindos pelo corredor e que pararam defronte à porta aberta do quarto. Lançou um discreto olhar por cima do ombro, certificando-se de quem se tratava, e sinalizou para que entrasse.

Pollux assim o fez, fechando a porta logo em seguida, pegando uma taça e a enchendo com vinho, sem qualquer cerimônia. Vestia apenas uma túnica longa e branca que revelava boa parte de seu peitoral definido e o braço direito por completo. Exceto pelo bracelete dourado do lado esquerdo, não usava joia alguma.

– Fico feliz em vê-la de volta. – Ele falou, tomando um rápido gole. – Imagino que tudo tenha ido bem, não?

– Sim, deu tudo certo. – Ela falou, tornando a focar o céu noturno. – Ouvi tudo e trouxe uma prova.

– Se você falasse, para mim, já serviria de prova. – O geminiano disse, se aproximando. – E então?

A escorpiana suspirou e se virou para ele, precisando conter a surpresa por vê-lo vestido daquele jeito. Estava um pouco suado e com os cabelos acobreados desarrumados. Não era a forma como estava habituada a vê-lo, embora sua postura sempre fosse altiva. Naquele momento havia algo de divino no espartano, contudo ela não sabia dizer exatamente o que era.

Respirou fundo, sem saber se aquilo era pelo que via ou se estava apenas criando coragem para falar da missão. Por um momento, só queria ficar sozinha, deitada em algum lugar, e dormir até o dia seguinte. Tomou o meio ramo de asfódelo em mãos e o exibiu, vendo o Semideus arregalar os olhos dourados ao reconhecer aquela flor.

– Não sei exatamente o que Agis planeja. Ora falava de ter poder, ora falava de fazer a Família Real valorizar Esparta novamente. – Ela relatou.

– Não importa a intenção. Se associar a um Espectro é um crime de traição, ainda mais com o que houve naquele dia! – Ele pronunciou, franzindo o cenho. – Mas, se o prendermos agora, dificilmente vamos conseguir pegar o Espectro…

– Nyctimus não parece saber muito de nossa estadia. – Escorpião disse, apoiando-se na janela, e lançando um olhar para fora. – Sabe que o senhor está aqui, mas não parece ter percebido a minha presença.

Aquele nome soou como uma nefasta confirmação aos ouvidos do Semideus. Nyctimus, outrora Cavaleiro de Bronze de Lobo e subordinado de Íficles de Leão, que fora resgatado por Antares em um de suas primeiras missões após a sagração da Amazona. Lembrava-se bem dos muitos dias que o leonino reclamou da traição do Lobo e do quanto o puniu por aquilo. A satisfação em seu tom sobre “esmagar o cão sarnento” ainda ecoava em seus ouvidos. Imaginou o quão frustrante seria para Íficles quando soubesse que o traidor estava de volta.

– Disso ninguém pode culpá-lo. – Gêmeos rebateu, tomando mais um pouco de vinho. – Se eu mesmo não tivesse visto, não acreditaria que você é aquela mesma mulher de dois anos.

Ela não conseguiu evitar um discreto sorriso no rosto ao ouvir aquilo. Enfim, um reconhecimento positivo de alguém que não era Athena ou Ganimedes.

– Hum… Acabei esquecendo de trazer um cesto de frutas, pão e carne caso sentisse fome. Imagino que assim esteja, não? – Pontuou ele sorvendo do vinho.

– Hum… um pouco. – Ela mentiu. – E qual será nosso próximo passo?



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