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História Sob o Sol Selvagem - Capítulo 2


Escrita por:


Notas do Autor


Eu falei que seriam updates mais rápidos, não falei? Dito e feito.
Olha, eu fiquei super feliz com a recepção dessa fic aqui. Obrigada de coração pelos favoritos e os comentários super atenciosos <3
Victoria e eu conversamos ainda agora sobre esse capítulo, sobre o andamento da história no geral, e como eu queria fazer essa fic em 4 ou 5 capítulos, 6 no limite, as coisas acabam acontecendo meio rápido.
Não tenho muito o que falar hoje, acho. Boa leitura, lavem bem as mãos e usem máscara. Já dizia Jaehyun stay self.

Capítulo 2 - Capítulo II


O dia está quente como o inferno quando eles terminam de descarregar a mudança. São caixas e mais caixas de papelão cheias de tralhas que encontraram no lixo, além das roupas de Jaehyun dobradas de qualquer jeito dentro de duas mochilas imensas de trekking, ambas emprestadas de Johnny. 

Os dois garotos caem lado a lado no colchão de casal, igualmente exaustos e suados, e encaram o teto com furos de diversos tamanhos. O papel de parede está soltando nos cantos, e há somente um vão quadrado no lugar onde deveria estar o ar-condicionado. Segundo a proprietária, o antigo locatário roubou o aparelho antes de ir embora. 

O lugar é um muquifo. A única divisão de cômodo separa o banheiro minúsculo do restante. O restante, porém, consiste em uma sala com um colchão no meio, um frigobar branco enferrujado e um cabideiro de madeira. 

— Tem cheiro de cigarro e gente velha — Johnny diz. Todos os velhos que Jaehyun conhece fumam, então ele não sabe diferenciar uma coisa da outra. — Que merda, não tem nem uma TV. Isso foi o melhor que o Taeyong conseguiu arranjar? Ele não é nenhum pelado. O pai daquele fodido caga dinheiro.

Como o filho único de um agiota, Johnny não faz ideia de como uma vida sem conforto pode ser. Nem nos seus pesadelos mais obscuros ele imagina que dorme em um quarto como esse, cuja única janela é, aparentemente, o buraco vazio do ar-condicionado. 

Johnny só entrou para a crucificados porque o pai o queria tocando o negócio da família pra frente. Ele não tinha nada contra a agiotagem em si, e sim contra os números. Johnny odiava a ideia de administrar qualquer coisa e ter de, inevitavelmente, lidar com eles. 

Contas faziam a sua cabeça doer. 

Jaehyun, por sua vez, costumava dormir no porão de um dojô. Ele com certeza não se incomoda com lugares claustrofóbicos. A necessidade fez com que perdesse o critério. 

— Não pensei que fosse dizer isso, mas que sorte que pegamos aquele ventilador velho do lixo. 

— Eu disse que seria bom trazê-lo — Jaehyun concorda, de repente bem-humorado porque gosta de estar certo. 

O quarto alugado em uma vila de casas espremida no meio de várias outras faz parte do plano, também. Uma parte essencial para compor a história falsa de Jaehyun. De acordo com o que foi combinado, ele fugiu do leste por estar sendo ameaçado, mas foi lá onde nasceu e cresceu, de maneira que não conhece muita coisa desse lado da cidade — mentiras boas precisam de uma ou outra verdade, todo mundo sabe disso. 

Todos os móveis velhos que acharam no lixo vão passar a imagem que precisam. Uma mudança improvisada e rápida, feita com móveis doados por vizinhos morrendo de pena do garoto bonito do 103. 

— Já molhou a mão da proprietária? Se perguntarem, ela vai ter que confirmar que você tá vivendo aqui faz umas semanas. 

Jaehyun concorda com a cabeça, distraído com um dos furos no teto. 

— Taeyong tá impressionado contigo. Ele contou pra todo mundo como foi que você conseguiu entrar, e agora os mais novos querem fazer o mesmo em outras gangues, dá pra acreditar? 

Quando encontrou Taeyong para receber algum dinheiro, Jaehyun teve uma impressão diferente. Só o que o líder da crucificados fez foi enchê-lo de perguntas que ainda não podia responder com precisão. Números e detalhes demais para tão pouco tempo no território inimigo. 

— Você tá quieto — Johnny diz, mas soa muito como uma acusação. 

— Eu sou quieto. 

— Eu sei. Te conheço melhor do que ninguém, porra. Tá achando que vai morrer? Os faixa-preta são tão ruins assim? 

Há preocupação fantasiada de sarcasmo nessas perguntas. Johnny é muito bom em disfarçar uma emoção com outra bem diferente. 

— Não são tão ruins. Só não quer dizer que não vou morrer nas mãos deles. Ainda é arriscado demais fazer isso. 

— Nós vamos livrar a sua bunda magra assim que você descobrir alguma coisa. O Taeyong me prometeu. Vamos te tirar de lá e dar porrada neles até a minha mão cair, ouviu? 

Às vezes, Jaehyun não entende como foi que se tornou tão próximo de Johnny. Os dois são absurdamente diferentes um do outro e, mesmo assim, Johnny é o único membro da sua gangue que Jaehyun chama de irmão porque se sente desse jeito. 

— Jaehyun? 

— Yunoh — Jaehyun corrige ironicamente, rolando para o lado no colchão, de maneira que não possa ver o olhar preocupado de Johnny. Faz com que se sinta mal. — Você devia cair fora daqui. Coloca a máscara e o capuz. Desse tamanho não dá pra ser discreto. 

— Vai arrumar tudo isso sozinho? 

Trabalho manual sempre mantém a sua cabeça ocupada. Pensando nisso, Jaehyun concorda fazendo um gesto de “deixa pra lá” com a mão. 

— Me liga se quiser desistir dessa merda. 

Curiosamente, um único palavrão usado de propósito, em um tom cheio de repreensão, muda o clima na mesma hora. O momento de cumplicidade foi substituído pela tensão que antecede uma briga. 

— Você não entende. Não tem outro jeito pra mim. 

— Qual o maldito problema de viver como qualquer outra pessoa? Não sabia que você odiava a liderança do TY tanto assim. Na real, cheguei a pensar em nós três como um trio. 

Eles são um trio e Jaehyun sabe disso. Ele só não pode mais suportar o fato de que não está no nível deles. 

— O problema é que eu quero o que ele tem e você sabe disso. Era isso o que queria ouvir? Pra você é fácil seguir as ordens dele porque, quando chega em casa, é você quem manda em todo mundo que trabalha pro seu pai. Eu não faço ideia de como é isso. 

— E quer tanto uma porra que nem sabe o que é? 

Sim, Jaehyun quase diz, mas guarda a resposta para si mesmo. O fato de que fez silêncio significa que não pretende continuar a discussão. 

Johnny entende o recado. Ele deixa o muquifo logo depois disso, batendo a porta com força. 

 

[...]

 

É nas docas onde Jaehyun encontra os faixa-preta de novo. O Sol quente acabou de baixar no horizonte, mas ainda há uma luz de fim de dia iluminando o rio. Ele fede mais hoje do que fedia há duas noites atrás, quando Jaehyun esteve ali da primeira vez. 

— O pele de pêssego voltou! — Haechan parece genuinamente empolgado em vê-lo de volta. Tão empolgado que acena com um dos braços acima da cabeça, colocando muita energia no gesto. Jaehyun sobe os degraus da plataforma de madeira sem pressa, sorrindo fraco para ele. — E veio armado. 

Há um taco de beisebol nas costas de Jaehyun, preso por uma tira que atravessa o seu corpo. Além dos seus próprios punhos e do canivete multiuso escondido no coturno, essa é a única coisa que costuma usar para se defender — ou até atacar — no submundo. 

Hoje Nakamoto não está sentado na poltrona. Em vez disso, ele ocupa um sofá vermelho de dois lugares exclusivamente, as pernas vazando para fora do móvel, e sequer abre os olhos para recepcionar Jaehyun ali. 

Pode ser que esteja dormindo de verdade, considerando a sua expressão serena. 

Não há lugares desocupados para sentar na plataforma, então Jaehyun fica de pé, sentindo-se sem jeito por conta disso. Não ajuda em nada o fato de que está sendo observado com tanta expectativa. 

— Yuta quer que eu te apresente todo mundo que tá aqui. Nem todos aparecem todo dia, não é tipo bater ponto, mas, se aparece algo importante pra fazer, daí é outra história. 

Yuta. Então esse é o primeiro nome de Nakamoto. 

Jaehyun não pode perguntar sobre números, pelo menos não ainda, então faz silêncio para ouvir tudo com atenção. Ele guarda alguns apelidos como Lucas e Winwin, e nomes mais simples como Kun e Taeil. São muitos chineses, um japonês além de Yuta e somente dois coreanos — contando com Haechan. 

Isto é, com base nos que estão presentes nesse momento. Pelo que Haechan disse anteriormente, há altas chances de que sejam um número um pouco maior ao todo. 

Ainda assim, o contraste parece assustador. A crucificados tem quase cinquenta pessoas. É a maior gangue do lado leste e, nos últimos anos, também a única. O pai de Taeyong engoliu todas as gangues menores sem misericórdia. Outros membros só podiam se juntar à eles ou, em um cenário positivo, apanhar até esquecer que um dia fizeram parte de outra gangue. 

E funcionava desse jeito. O medo era o modo mais fácil de se manter no poder. 

— O Yuta também quer saber se você anda de moto. E, se não anda, vai ter que aprender ainda hoje. Carregar alguém na garupa é um saco. Ninguém aqui gosta. A gente arranja umas motos fodidas bem fácil num contato, então só precisa saber dirigir e ter algum dinheiro, mesmo que seja uma mixaria. 

— Yuta quer um monte de coisas — Jaehyun comenta, fugindo do assunto de propósito. Infelizmente, ele nunca aprendeu a andar de moto, e a ideia de fazer isso justo com essas pessoas parece muito desconfortável. 

Do sofá de dois lugares, a voz de Yuta se faz ouvir pela primeira vez desde a chegada de Jaehyun.  

— Ainda é Nakamoto pra você, Yunoh. 

Então ele não está dormindo. Jaehyun o espia pelo canto dos olhos, curioso, mas o líder dos faixa-preta continua mantendo a pose de desinteresse. 

— Anda ou não anda, mano? — Haechan insiste, recuperando a sua atenção. Ele está calçando um par de chinelos de tira grossa hoje, provavelmente porque perdeu o seu tênis, e mantém um cigarro preso atrás da orelha. — Não fica nesse drama. 

— Não. 

— Tranquilo. Acho melhor aprender na minha. Ela às vezes demora a pegar, e tá sem um dos retrovisores, mas nada que atrapalhe muito. 

As motos estão estacionadas bem perto da plataforma. Toda a área que beira esse lado do rio consiste em areia e uma porção de mato aqui e ali. Os barcos ficam amarrados um pouco mais à frente. Como a noite está só começando, é possível ver os pescadores ajeitando tudo para partirem. 

Jaehyun segue Haechan até uma moto laranja cuja cor pode ser considerada a única característica capaz de impressionar alguém. Isso porque ela é tão pequena que bate na altura da cintura de Jaehyun. Parece algo feito para ser seguro; perfeito para um adolescente pilotar. 

— É humilde, eu sei, mas é minha. Sabe aquele sentimento de ter alguma coisa? Por mais merda que ela seja, ainda é tua e de mais ninguém no mundo. 

Essa linha de raciocínio deixa Jaehyun perigosamente consciente de si mesmo. Há poucas coisas que ele pode chamar de “suas” no mundo. Talvez apenas as suas roupas e, naturalmente, o seu corpo. Não mais do que isso. 

— Sei que Yuta me deu ela, e presente não devia contar, só que eu paguei por todas as peças que troquei na hora de customizar. Já é alguma coisa. 

Na concepção de Jaehyun, ou talvez até numa concepção geral, Haechan fala demais. Só metade do que o garoto linguarudo diz pode ser considerado relevante. Apesar disso, é realmente difícil desgostar dele.

— Tô tagarelando de novo, né? Você fala pouco assim mesmo? 

— Nem sempre — Jaehyun responde finalmente, o que não é uma mentira. — Vai me ensinar ou não? 

— Ah, é. Enfim, é basicamente como andar de bicicleta, só que com um acelerador. 

A sua explicação não perde muito tempo só na teoria. Haechan liga a moto enquanto fala, o motor roncando e vibrando em resposta. Ele faz um gesto para que Jaehyun se aproxime, e então entrega o capacete para que proteja a sua cabeça. 

Jaehyun ajusta o fecho no queixo, ansioso para o que está por vir. 

— Pode montar nela já. Pelo amor, cara, tira o pézinho do chão assim que se ajeitar. Pra cair desse jeito é fácil demais. 

O pézinho é, ao que tudo indica, o descanso da moto. Jaehyun passa uma das pernas para o outro lado dela, sentando, e então usa o pé para subir o descanso. 

— Pode segurar o guidão, ele não vai te morder. Aperta a embreagem aqui— ele aponta para onde Jaehyun deve mexer — e joga a primeira pra cima. Isso, agora tá engatada, sacou? Acelera aos poucos, só toquinho mesmo, porque ela dá uma jogada e…. Eu disse aos poucos, porra!

Tarde demais. 

Só dá tempo para os dois piscarem porque, com a mão pesada, Jaehyun acaba acelerando bem mais do que devia. O solavanco é tão grande que as suas pernas acabam ficando pra trás, os braços segurando o guidão enquanto a moto não só avança, como também o arrasta junto por uns bons metros adiante. 

Jaehyun cai para um lado e a moto para o outro, direto na areia, com o único retrovisor restante voando longe. Para diminuir o impacto da queda, ele consegue fazer um rolamento e evitar de ferir o rosto. Os seus dois cotovelos, porém, não têm a mesma sorte. 

As gargalhadas dos outros faixa-preta são tão, tão altas, que Jaehyun tem vontade de cavar um buraco e nunca mais sair de dentro dele. Ele quer morrer porque odeia cometer erros, independente das circunstâncias. 

Não importa que nunca tenha andado de moto antes. Ele precisa ser bom nisso, e precisa ser bom logo de cara. É desse jeito que vive a sua vida. 

— Que merda! — Haechan grita, o que só torna as risadas ainda mais altas. Ele também está rindo um pouco, quase sem querer, mas é difícil dizer se só o está fazendo por puro nervosismo. Dois retrovisores com certeza custam mais do que um. 

— Foi mal — Jaehyun está falando da moto. Ele se coloca de pé bem rápido, limpando a areia somente dos cotovelos machucados. — Me deixa tentar de novo. Vou fazer direito agora. 

Simplesmente não é uma opção errar uma segunda vez. 

Haechan entorta o canto da boca como se não gostasse muito da ideia. 

— E se não fizer? 

Mas não foi Haechan quem perguntou isso. 

Por cima do ombro, Jaehyun olha para trás. Yuta está agachado bem na beirinha da plataforma de madeira, os braços apoiados entre as pernas. Jaehyun pensa que ele lembra um gato nessa posição. 

O olhar que mantém nos olhos é felino, também. O líder faixa-preta parece estranhamente entretido com a cena. 

— Impossível. 

— É? Então usa a minha moto. 

Deduzindo pela expressão chocada de Haechan, com direito a boca aberta e tudo, Jaehyun conclui que isso não costuma acontecer. Deve ser algum tipo de teste. Entretanto, mesmo que seja um, Jaehyun não pode ser intimidado com tão pouco. 

Yuta vai ter que se esforçar mais do que isso. E ele parece determinado a fazê-lo, especialmente quando joga o chaveiro felpudo no ar para que Jaehyun o pegue. 

— Nem um arranhão na minha princesa, Yunoh. 

Princesa é, na concepção de Jaehyun, um apelido tão brega quanto pele de pêssego. 

Ele consegue fingir que usar a moto do líder da faixa-preta não o intimida nem um pouco, que não é nada como estar com uma corda ao redor do pescoço, e tenta convencer a si mesmo disso também. O modelo é bem mais alto do que o de Haechan, decerto, mas, por ser também mais moderno, passa uma impressão mais firme e até leve. 

E, quando se posiciona em cima dela, Jaehyun tem a impressão de que vai ser realmente mais fácil. Seu primeiro impulso é olhar na direção de Yuta, querendo confirmar a hipótese, e o faixa-preta abre um sorriso irônico que não responde muita coisa. 

Jaehyun nem mesmo tem de lidar com um solavanco inesperado. Essa moto acelera bem devagar, talvez pelo seu cuidado excessivo, e ele descobre que se equilibrar ali pode ser infinitas vezes mais fácil do que fazê-lo em uma bicicleta. 

— Conseguiu! — Haechan grita como quem o incentiva. — Tenta dar uma voltinha mais longe. 

Não é preciso inclinar muito o corpo para fazer a curva, só o suficiente para acompanhar o movimento do guidão. Jaehyun pensa que o que está fazendo é meio divertido, em parte porque se saiu melhor desta vez. 

— Agora engata a segunda e acelera mais pra ver. 

O som que a moto faz ao acelerar enche o seu peito de uma adrenalina nova. Nem mesmo o cheiro de peixe do rio parece incomodar conforme o vento vem de todas as direções, bagunçando o seu cabelo. 

Ele está eufórico quando se dá conta de um pequeno detalhe. 

— Como faz pra parar?! 

Quando os faixa-preta caem na risada pela segunda vez em um curto intervalo de tempo, Jaehyun se permite rir junto com eles. O seu desespero pode esperar um minuto ou dois. 

— Pedal de freio e trava do guidão, tudo no lado direito. Faz devagar ou vai voar longe de novo. 

Pressionando de acordo com as instruções, bem de leve, Jaehyun consegue parar a moto sem nenhum contratempo irremediável. Ela chega a bambear um pouco para o lado, mas, depois de usar as próprias pernas como apoio, ele evita um tombo desnecessário. 

Haechan está comemorando com o retrovisor quebrado na mão. Jaehyun acha graça da cena.

Ele está pensando nisso quando sente uma aproximação às suas costas. 

Yuta chuta o único pedal do passageiro para baixá-lo, parecendo autoritário porque a moto é mesmo sua, e então, sem que Jaehyun possa prever o seu próximo movimento, sobe na garupa como se não fosse grande coisa. 

O ar de Jaehyun falta por alguns instantes. O corpo de Yuta encosta nas suas costas, goste ou não, porque a moto não permite muita distância. Até mesmo os joelhos dele tocam a lateral do seu quadril. 

— O quê…?

— Nós vamos dar uma volta hoje, Yunoh — é só o que Yuta diz. O seu tom sugere que não há espaço para discussão. — Pra você entender como as coisas funcionam. 

 

[...]

 

O oeste da cidade está longe de ser unificado. De acordo com as explicações de Yuta, não há uma divisão muito precisa de território. A faixa-preta possui boa parte das docas e um ferro-velho no subúrbio. 

Nem todas as gangues agem da mesma forma por ali. Algumas delas só reúnem pichadores e vândalos menores de idade; outras praticam crimes que vão desde o tráficos de drogas e de armas até assaltos em distritos de classe média. 

Pelo visto, a vida também pode ser bem difícil para os jovens desse lado da cidade. Jaehyun entende perfeitamente como é não ter opção. Ele teve de fazer muitas coisas para chegar inteiro aos seus vinte e dois anos. 

— Nós estamos passando mais tempo nas docas por causa do maldito calor. O ferro-velho acaba ficando meio abandonado no verão. 

Essa é a primeira informação relevante que Jaehyun adquiriu infiltrado. Ele a guarda com muito cuidado, consciente de que Taeyong precisa saber disso assim que tiver tempo para ligar de um telefone público. 

— E o que vocês fazem pra viver? Trabalham durante o dia? 

É uma pergunta irônica. Os membros de uma gangue conhecida como a faixa-preta têm de lucrar com ela de um jeito ou de outro. 

O sinal está amarelo. Como um guarda de trânsito está vigiando a faixa de pedestres de perto, Jaehyun reduz a velocidade com o intuito parar. A moto ameaça bambear para a direita quando freia de maneira insegura, mas Yuta apoia a perna no asfalto antes que a situação fuja do controle. 

O guarda olha para os dois por alguns instantes demorados, mas não demora a se distrair com outra coisa. 

— Alguns de nós trabalham, sim, e outros sobrevivem. Nada muito emocionante. 

Isso só pode ser mentira, Jaehyun conclui. Ele quer perguntar mais, mas ainda parece arriscado pedir por respostas. É difícil dizer até que ponto está sendo testado ou de fato inserido naquele meio. 

Quando o sinal abre, Yuta passa a ditar instruções sobre o trajeto perto da orelha de Jaehyun. Ele diz “vira à direita” e “na próxima esquina” casualmente, parecendo distraído até, mas Jaehyun está consciente demais de como o ar quente sopra no seu ouvido. 

O local no qual estacionam fica escondido entre um posto de gasolina e um pequeno shopping comercial prestes a fechar as portas, os funcionários saindo um de cada vez pela entrada de ferro. Jaehyun não pensou que chegariam a descer em algum momento. 

Aparentemente, a sua noite está só começando. 

— Haechan fez uma merda na semana passada — Yuta diz enquanto andam. Jaehyun está poucos passos atrás do líder faixa-preta, mas ainda pode ouvi-lo perfeitamente. Eles cruzam uma avenida principal e entram em uma rua lotada de karaokês e bares; luzes coloridas e anúncios de led por toda parte. — Faz pouco tempo que ele virou um de nós, então deixei passar. Só que tem outra pessoa envolvida que precisa se responsabilizar. 

As pessoas se afastam quando passam porque o taco de Jaehyun não é exatamente discreto, tampouco o visual de Yuta. Todo mundo na cidade, independente de lados, sabe como garotos de gangue se parecem. 

— Nós vamos dar uma surra em alguém? 

Jaehyun não gosta muito dessa hipótese. Os inimigos dos seus inimigos podem ser os seus amigos, afinal. 

Yuta vira o rosto na sua direção, a luz roxa de um letreiro iluminando parte da sua bochecha, como quem estranha a pergunta que acabou de ouvir. É difícil dizer no que está pensando no momento. 

— É assim que resolvem as coisas de onde tu veio? Vou tentar um diálogo opressor primeiro. Se ele agir como o filho da puta que é, aí vou ter que pensar em outro método. É difícil surrar gente importante. 

Já é a segunda vez que Yuta diz coisas do tipo “de onde tu veio” e “onde tu mora” como se soubesse que Jaehyun não é do oeste. Jaehyun não deixou esse detalhe passar, e sente que está sendo lembrado disso de propósito. 

É uma boa oportunidade. 

— De onde eu venho você, como o líder, teria que estar com um taco com pregos na ponta, um canivete ou até uma Glock. Coisas do tipo. Ouvi falar de um que usa até uma espada rara. É desse jeito que os que mandam dão uma dura. 

Lee Taeyong é o único na cidade que usa uma espada. Todo mundo que já ouviu sobre a crucificados sabe desse detalhe. Ele a conseguiu com um contrabandista de objetos históricos por um valor absurdo. 

Jaehyun tocou na lâmina dela uma vez, cheio de inveja, sob os olhos atentos de Taeyong. Tinha caracteres gravados no metal que reluziam como quase tudo que custava muito. 

— Então você é mesmo do leste — Yuta comenta em um tom neutro. Jaehyun sente uma euforia boba por ter lido a situação corretamente. — Não sabia que deixavam ex crucificados livres por aí. 

E não deixam mesmo. A vala é a única porta de saída. 

Quando começaram a planejar o passado falso de Yunoh, Johnny e Taeyong caíram na risada inventando uma porção de personagens. O trio concluiu que a faixa-preta jamais compraria a ideia de um ex crucificado querendo ser um deles. Não depois dos acontecimentos recentes. 

Então, depois de muitos ensaios, a mentira desliza para fora da sua boca com perfeição. 

— Eu trabalhava com um agiota. Eles precisam de garotos novos pra dar uma lição em um ou outro cliente, ou na família da pessoa, e paga bem. Em tese você pode até desistir quando não quer mais. 

— Em tese? 

— É. Descobri faz pouco tempo que não é bem assim. 

Caso Yuta saiba alguma coisa sobre agiotas do leste, o que é pouquíssimo provável, Jaehyun vai citar o pai de Johnny e alguns dos seus negócios que já conhece. Tem propriedade suficiente para falar sobre o assunto. 

Mas Yuta não toca mais nesse tópico, parecendo pensativo. 

Algumas esquinas depois, ele finalmente para de andar. Jaehyun se coloca imediatamente ao lado do faixa-preta na calçada, seguindo o seu olhar até um pequeno prédio de esquina. 

Como o comércio efervescente ficou para trás, essa localização pode ser considerada bem discreta. Há apenas uma farmácia aberta do outro lado da rua. O estacionamento do prédio é imenso, mas está praticamente vazio. 

É difícil adivinhar do que se trata com uma fachada tão comum. 

— Puteiro — Yuta responde sem que Jaehyun tenha de perguntar. — Nenhum faixa-preta se mete com prostituição, ou até com quem promove isso, mas Haechan é um idiota. 

— Nós viemos atrás de um cafetão? 

O dono de uma casa de prostituição com certeza tem uma arma, ou então vários seguranças armados por perto. A ideia de levar um tiro não deixa Jaehyun nem um pouco empolgado. 

— Perdeu o juízo? O cara é um cliente VIP daqui. Espera enquanto eu falo pro segurança mandar o babaca sair. 

E Jaehyun espera. Ele observa Yuta caminhar até a entrada automática do prédio, sendo abordado por um segurança de terno que deve ter o dobro do seu tamanho. 

O homem leva algum tempo para ser convencido, as sobrancelhas grossas franzidas como se não gostasse da conversa, mas, por fim, puxa o celular do bolso do paletó e faz uma ligação. 

Yuta retorna com as mãos enfiadas nos bolsos da jaqueta. 

— Não tira o taco das costas em hipótese nenhuma, não importa a merda que ele te diga. Quando ele abre a boca é bem fácil de odiar. Mas, se encostar um dedo sequer, o pai deputado vai fazer da tua vida um inferno. 

São as únicas instruções que recebe. Cerca de cinco minutos mais tarde, a porta automática do prédio volta a abrir. O homem que está vindo na direção deles veste uma roupa social bem ajustada no corpo magrelo, segurando um vape azul na boca. Fisicamente falando, não impressiona nem um pouco. 

Só parece caro. Roupas caras, relógio caro e rosto bem cuidado na casa dos trinta. 

— Você interrompeu uma festinha que está custando uma grana, faixa-preta. Espero que isso não seja sobre o seu garoto se metendo com o que é meu. Nós dois já acertamos as contas. 

— Acertaram mesmo? Porque eu sinto que toda a minha gangue saiu prejudicada por sua culpa. 

O homem dá uma baforada de fumaça bem perto do rosto de Yuta. 

— É mesmo? Se quer algum tipo de acerto de contas, mande o seu garoto me procurar. Qualquer um que fale a minha língua. 

Esse comentário tem um objetivo específico. Yuta claramente não tem dificuldade nenhuma com o coreano. 

— Eu estou falando a sua língua agora. Tá surdo? 

— Sabe, o meu pai vive dizendo que esse lado da cidade está cheio de ratos. Esse é o nosso maior problema urbano no momento. O leste expulsou os imigrantes pra cá na primeira oportunidade, e agora me pergunto aonde é que nós vamos jogar vocês. No rio? Os ambientalistas vão encher o saco. 

Jaehyun engole em seco. Ele já conheceu várias pessoas como esse homem ao longo da sua vida, mas a maioria tenta disfarçar preconceitos e ódio com alguma dose de humor. Nesse caso, porém, sequer houve preocupação. 

Esse filho de um deputado está totalmente consciente de que é intocável. E Jaehyun odeia gente intocável. 

Uma das suas mãos sobe até a altura dos ombros, determinada a alcançar o taco mesmo sem ter sido ofendido, e Nakamoto segura o seu pulso antes que possa tentar qualquer coisa. 

Jaehyun olha para ele, irritado, e o que encontra no rosto do outro o surpreende. Os olhos selvagens de Yuta parecem cheios de um sentimento que Jaehyun identifica rápido demais. Ele continua sério, mantendo a pose, mas aquele olhar magoado o faz parecer terrivelmente vulnerável. 

O homem está se divertindo com isso. Ele parece reparar na presença de Jaehyun pela primeira vez. 

— Você é novo. Outro cachorro de imigrante? Vocês são mesmo uma vergonha. Não conseguiu entrar pra nenhuma outra gangue da cidade, sério mesmo? 

— É uma surra o que você tá querendo hoje, Park? — Yuta finalmente responde. O seu tom parece normal. Ele solta o pulso de Jaehyun discretamente, mas a proibição continua de pé. O brilho de mágoa já se foi, para a sorte dos dois. — Porque eu posso morar na cadeia só pelo prazer de arrastar a sua cara no asfalto. Não dou uma foda pra você ou pra política de merda do seu pai. Ou resolve a merda que fez com Haechan, ou vou acertar as contas do meu jeito. 

— Não pode encostar em mim — ele diz, mas parece estar tentando convencer não só o faixa-preta disso, como também a si mesmo. 

Yuta solta o ar pelo nariz. Soa como se achasse graça. 

— Acredite, ratos como eu não têm nada a perder. Esse foi o seu primeiro e único aviso. 

Como ele sai logo depois de ameaçá-lo, Jaehyun só pode segui-lo para onde quer que estejam indo. 

Os dois andam em silêncio por algumas ruas. Quando estão quase alcançando a parte comercial outra vez, Jaehyun acelera o passo até se colocar na frente de Yuta, bloqueando o seu caminho. 

— Não pode ir embora assim. 

— Não posso? — Yuta repete. Ele franze as sobrancelhas escuras. 

— Ele te falou aquelas coisas lá atrás de propósito — Jaehyun aponta na direção do prédio enquanto fala, sentindo uma angústia terrível no peito. — E você deixou ele ver que aquilo te afetou. Como vai deixar isso passar? 

— Além do maldito pai deputado que vai me caçar até o inferno, assim como todos os meus irmãos, tem as regras daquele lugar. O dono não permite brigas nem lá dentro, nem do lado de fora. Se quer levar um tiro, vamos voltar. 

— Especificamente brigas? — Jaehyun tem uma ideia. Ela começa inocente até, só a faísca de algo grande, para então crescer perigosamente. — Sabe qual é o carro desse cara? 

Havia pouquíssimos veículos parados naquele estacionamento. Um deles tinha de ser dele. Entretanto, tratando-se de um homem rico, podia ser que o motorista estivesse esperando por ele de prontidão. 

— No que está pensando? 

O jeito como Jaehyun está recebendo atenção agora, como se Yuta estivesse genuinamente interessado nas suas ideias, faz com que decida ser sincero. 

A sua explicação é um resumo bem rápido. Yuta está rindo quando Jaehyun termina de falar, achando graça de verdade, o que passa a impressão de que não vai considerar nada do que acabou de ouvir. 

Jaehyun não o conhece, porém, então é fácil se enganar. 

— Parece bom pra mim, Yunoh. Eu que cubro você, ou o contrário? 

O líder de uma gangue fazendo uma pergunta assim, despretensiosa, parece absurdo para Jaehyun. Ele sempre protegeu as costas das outras pessoas e isso nunca foi uma escolha. 

— Pode me cobrir? — o seu questionamento soa muito inseguro. 

Yuta acha graça, de novo. 

— Que porra de pergunta é essa? Só preciso do seu taco emprestado. 

O posto de gasolina mais próximo, perto de onde estacionaram a moto, não vai sentir falta de dois galões de gasolina. Um dos funcionários decide cooperar no instante em que coloca os olhos no taco balançando pra lá e pra cá numa das mãos de Yuta. 

E Jaehyun até mesmo paga uma parte do valor com um bolinho de notas amassadas, moedas e dois tapinhas no ombro do homem. 

Eles têm de retornar à casa de prostituição utilizando ruas mais vazias e escuras, evitando chamar atenção. Yuta confisca o isqueiro de um adolescente no meio do caminho e, quando finalmente chegam, já arranjaram tudo o que precisavam. 

Jaehyun e Yuta pulam a cerca mediana do estacionamento, evitando a entrada principal de propósito, e Jaehyun alterna o olhar entre os quatro carros estacionados. Nenhum deles é um modelo velho. 

— A Mercedes preta, óbvio — Yuta diz. — Não tô vendo o segurança ali dentro, então anda. 

O cheiro de gasolina é forte pra caramba. Jaehyun tenta não pensar nisso conforme passa a jogá-la por cima da Mercedes, esvaziando o primeiro galão com pressa, o líquido escorrendo pelos vidros e capô e formando uma poça no chão. Yuta faz o mesmo com o outro galão. 

Eles espiam a porta automática vez ou outra, tomando cuidado, mas precisam fazer tudo com pressa. Não importa que sejam vistos ou não, e sim que consigam ir até o final com isso. 

— Já chega — Jaehyun declara. Ele atira o galão para o lado, ansioso, e Yuta repete a sua ação. Esse tipo de detalhe faz parecer que Jaehyun está totalmente no comando da situação. A sensação é inteiramente nova. 

A poça já escorre até um pouco mais adiante. Yuta joga o isqueiro para que Jaehyun o pegue. 

— O plano foi seu. Agora termina. 

Se livrar do carro faz com que Jaehyun se sinta bem. Ele imagina todas as expressões possíveis naquele rosto detestável, desde raiva até pânico, e isso faz com que se empolgue com a tarefa. 

O fogo queima incrivelmente rápido, crescendo para engolir o veículo, e um calor insuportável afasta Yuta e Jaehyun ainda mais. 

Eles começam a correr logo depois disso, conscientes de que alguém vai aparecer a qualquer momento. Dois seguranças estão saindo pelas portas automáticas quando deixam o estacionamento.  

Já estão virando a esquina quando o fogo chega ao tanque de gás do carro, o som estridente de uma explosão preenchendo o quarteirão. 

Um deles começa a rir primeiro, bem alto, e então o outro o faz logo depois. Ninguém sabe dizer quem começou. A adrenalina torna o ritmo da corrida acelerado; pernas queimando e respirações descompassadas. 

A graça não dura por muito mais tempo, porém. Um farol ilumina as suas pernas porque estão sendo seguidos. 

— Merda — Yuta olha para trás por cima do ombro, guiando Jaehyun em outra direção ao empurrá-lo com o próprio corpo. — Não me perde de vista, ouviu? 

O carro parece determinado a passar por cima deles, aproximando-se cada vez mais, e Yuta puxa Jaehyun pelo braço quando encontra uma ruela mais estreita. Ela vai impedir o carro de passar, mas não pode impedir outras pessoas. Eles escutam o som de duas portas abrindo instantes mais tarde. 

Esse bairro sobe o terreno na parte residencial. Há uma porção de escadarias de pedra e rampas. Jaehyun está sentindo uma vontade de vomitar por conta do cansaço, o corpo doendo pelo esforço, mas não se atreve a parar de correr. Yuta segue na sua frente, infiltrando-se em ruas desconhecidas. 

Os dois ainda podem ouvir passos e, algum tempo depois, um disparo para o alto. Tiros desse tipo, de aviso, possuem diversas interpretações no submundo. 

Yuta para de repente, sem nenhum tipo de preparo, e isso faz com que Jaehyun bata contra as suas costas com força, quase levando os dois ao chão. Antes que possa protestar, o faixa-preta aponta para um espaço fundo no muro de concreto, especificamente a entrada de uma casa. O espaço entre o portão de ferro e o muro pode ocultar uma silhueta, mas parece estreito demais para que duas pessoas caibam ali. 

— Não vai dar — Jaehyun diz. 

— Ah, mas vai ter que dar. 

Não tem outro jeito. Os passos estão cada vez mais próximos. Alguém está correndo nessa direção. 

Yuta encosta as costas no portão e, vendo que Jaehyun continua estático, dá um jeito de puxá-lo pela jaqueta, colando os seus corpos para que se encaixem ali. Os membros se ajustam do jeito que dá, tentando ocupar o mínimo de espaço possível. Quanto mais espremidos contra o portão, menos chances de serem vistos.

Um silêncio tenso acelera os batimentos de Jaehyun. De repente cada detalhe pesa na sua consciência. A coxa de Yuta no espaço entre as suas pernas, uma das mãos dele mantendo o seu quadril perto. Se Jaehyun virar o rosto apenas um pouco, a sua boca vai encostar na orelha cheia de piercings. 

Um dedo roça na barra da sua camiseta, e Jaehyun pensa em como seria tocar o brinco com a ponta da língua. Um sopro de ar quente alcança o seu pescoço, deixando-o arrepiado. 

Os passos soam mais distantes agora. 

— O que você fez hoje, Yunoh… — Yuta sussurra perto do seu ouvido, um dedo voltando a se infiltrar entre o tecido da camiseta e a pele de Jaehyun, bem de leve — Eu gostei.



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