1. Spirit Fanfics >
  2. Sobre Essas Coisas e Muito Mais >
  3. É sobre isso, sabe? - Capítulo Único

História Sobre Essas Coisas e Muito Mais - Capítulo 1


Escrita por:


Notas do Autor


História escrita exclusivamente para o Oneshot Per Month Project do mês de junho, onde a ideia era escrever um texto de romance fazendo uso de uma frase ou imagem sorteada. Eu acabei ficando com uma frase "Sacrifício. Uma forma genuína de amor, quando você dá tudo aquilo que você tem, sem esperar receber nada.". Tenho que dizer que foi um sacrifício escrever algo em cima dessa frase e só fui ter uma ideia hoje aushaushuahs

Eu sei que uma das coisas mais raras de acontecer ultimamente é eu publicar algo aqui, agora eu publicar algo aqui com mais de mil palavras provavelmente vocês nunca mais vão ver AUSHUAHSUAHSUAHS mentira, vai que... Enfim.

Eu espero que vocês gostem <3

Capítulo 1 - É sobre isso, sabe? - Capítulo Único


 Sensibilidade. É sobre isso, sabe? Sentir o corpo fora do chão e a mais perto das estrelas. É sobre desbravar o universo sem ter medo do que os olhos não conseguem ver. É continuar remando e acreditando que aquela é a direção mesmo sem ter um mapa. É sobre…

— Você pode me ajudar a atravessar a rua?

Sobre sentir um aroma que você nunca sentiu antes e mesmo assim conseguir lembrar dele como se já tivesse sentido. É acreditar que estamos na primavera só pelas flores do vestido mesmo ainda sendo verão. É sobre perder a fala mesmo que o pensamento não pare de conversar.

— Tem alguém ai? Ai, será que eu estou conversando com um poste de novo?

E antes que eu pudesse responder ela me bateu na altura da canela com um bastão guia.

— Ai, ai… — murmurei.

— Ai meu Deus, me desculpa.

— Não, não, tá tudo bem. Eu que peço desculpas por não ter respondido.

— Você não quer me ajudar a atravessar a rua?

— Ajudo! Ajudo sim, ajudo agora, nesse exato momento!

O braço dela contornou o meu e minhas bochechas ganharam tom de morango, eu encarava o outro lado da rua fixamente e prendia a respiração como se estivesse mergulhando na parte mais funda da piscina. O sinal ficou verde para que pudéssemos atravessar, mas parecia que meus pés tinham criado raiz naquela calçada e que a partir daquele momento eu seria um ponto turístico da cidade. O sinal mudou para vermelho e nós continuamos ali parados.

— Esse sinal não está demorando demais? — ela perguntou

— Ele deve estar quebrado — menti.

O suor contornava o meu rosto e nem fazia calor. O sinal ficou verde novamente, eu sai tão rápido que quase fiz com que ela caísse.

— Me desculpa! — eu disse.

— Tá tudo bem — e ela riu —, só vamos um pouquinho mais devagar.

Fomos até o outro lado. O tempo se tornava mais lento e eu conseguia notar coisas ao redor que eu não notaria em qualquer outra situação. As fachadas das lojas, o tamanho dos prédios, as nuvens espalhadas pelo céu, um avião perdido entre elas.

— Muito obrigada por me acompanhar… Qual é mesmo o seu nome?

Então o tempo voltou ao normal.

— Eric, e o seu?

— Melin — ela sorriu, com a boca e com seus olhos fechados — Agora eu vou continuar até a próxima esquina e torcer pra que eu encontre outra pessoa gentil como você pra me ajudar a atravessar a rua.

Melin seguiu andando com seu bastão guia e eu não conseguia parar de olhar pra ela. Agir. É sobre isso, sabe? É sobre tomarmos decisões que podem mudar o nosso dia de uma hora pra outra. Sobre atravessar a rua e reparar nos detalhes. É sobre o vestido florido dela balançando enquanto ela caminha lentamente até a próxima esquina.

— MELIN! - gritei e corri quando ela parou — Você quer que eu te acompanhe?

— Se você não se incomodar de me acompanhar por mais dois quarteirões até o Café, eu serei muito grata — e sorriu.

E é sobre isso, sabe? Sobre esse sorriso. É sobre essas covinhas que nas bochechas onde eu queria me enterrar e não sair mais. Sobre seus cabelos escuros pousados na altura do ombro. É sobre o meu ombro que é até onde chega o seu tamanho.

Eu acompanhei Melin por mais duas faixas de pedestre, até a esquina do Café, um pouco mais calmo, um pouco menos avermelhado e me sentindo um tanto bobo. Não faziam nem dez minutos que eu havia a conhecido, nós não tínhamos trocado nem uma dúzia de palavras direito e na minha cabeça eu era um arqueólogo que havia encontrado uma pedra extremamente rara.

— Chegamos — eu disse.

— Eric, você quer tomar um café comigo? — ela perguntou — Você me acompanhou por três faixas de pedestre, é o mais longe que qualquer pessoa desconhecida já foi do meu lado, até minha irmã vir me buscar o mínimo que eu posso fazer é te pagar um café. Isso se você não estiver ocupado ou com pressa.

— Eu aceito — respondi.

Eu tinha uma nova profissão. Eu havia me tornado um astrônomo, que descobriu um novo planeta e que agora queria saber tudo sobre ele. Nós entramos no Café e nos sentamos. Uma moça nos trouxe o cardápio e Melin começou a passar a mão por ele como se estivesse lendo.

— Pera, você não é cega? — perguntei.

Melin riu, riu até gargalhar, riu até escorrer uma lágrima. Enquanto todas outras pessoas dentro do Café nos encaravam, eu não estava entendo absolutamente nada. Ela respirou fundo e foi se recuperando logo após a crise de risos.

— Claro que eu sou cega, ou você acha que eu fico pedindo pra estranhos me ajudarem a atravessar a rua por pura diversão — ela falou.

— Mas como você tá lendo esse cardápio? — perguntei.

— Esse cardápio é em braille, olha — então ela me mostrou os pequenos pontos.

— Melin, eu sinto muito…

— Eric, não tem porquê você se desculpar. Isso foi muito engraçado. Já pensou eu realmente não fosse cega e te trouxesse até aqui simplesmente porque te achei bonito e pensasse “por quê não me fingir de cega e levar aquele garoto comigo até o Café?”.

Em alguns segundos eu não sabia onde enfiar a cara, em outros segundos eu estava segurando o riso, pra em seguida começar e rir e perceber que Melin também estava rindo. É sobre isso, sabe? Sobre os detalhes que passam despercebidos e quando percebemos deixamos passar muitas coisas. É sobre Melin gostar de tomar café sem açúcar e comer biscoitos salgados. Sobre eu entender que os pontos se encaixam melhor que muitas palavras.

— Como assim você toma café sem açúcar? — perguntei.

— Eric, você estraga o café quando coloca açúcar nele.

— Não. É humanamente impossível gostar de café sem colocar pelo menos um saquinho de açúcar nele.

— Você tá querendo dizer que eu não sou humana? — e nós rimos — O Jimmy sempre achou estranho eu não colocar açúcar no café, mas ele era mais estranho porque colocava três colheres de açúcar.

Então aconteceu algo bem inesperado, o sorriso de Melin foi sumindo aos poucos e o silêncio começou a ser perturbador. Talvez não fosse a melhor hora, melhor lugar ou nós não tínhamos intimidade o suficiente para falar sobre, mas de maneira automática, como se eu estivesse fazendo uma pesquisa sobre aquela pedra rara ou planeta desconhecido, eu perguntei:

— Quem é Jimmy?

Ela ergueu o rosto como se um milhão de pensamentos indesejados tivessem invadido sua cabeça e de alguma forma ela queria expulsar eles de lá.

— Jimmy foi – ela começou a falar quase que pausadamente – meu primeiro e único namorado. Nós nos conhecemos ainda quando crianças, ele me ajudava com as lições e brincava comigo. Conforme fomos ficando mais velhos, começamos a nos gostar e consequentemente nos tornamos namorados.

— Ele morreu? — perguntei desesperadamente — Me perdoa por ter entrado nesse assunto, eu não sabia…

— Não, Eric, ele não morreu — Melin soltou o riso que logo sumiu de novo — Nós sempre fomos em festas e o Jimmy sempre deu a desculpa de ir ao banheiro ou buscar alguma bebida. No começo eu até acreditava, mas não poder enxergar me tornou um pouco mais sensitiva. Aos poucos eu fui sentindo outros perfumes, e seu beijo com outros sabores. Eu não sei ao certo quando ele começou a me trair, eu só sei que demorou muito até eu conseguir terminar com ele. Eu aceitei suas traições, sacrifiquei minhas noites e a minha felicidade por não querer perder o Jimmy, o que me custou várias e várias idas ao psicólogo — então ela riu novamente, não como antes, mas parecia que ela havia conseguido se livrar dos pensamentos indesejados.

— Eu sinto muito, muito mesmo por ter perguntado quem era o Jimmy.

— Eric, a próxima vez que você pedir desculpas ou dizer que sente muito, eu vou enfiar café sem açúcar na sua boca e te obrigar a engolir — e sorriu.

E é sobre isso, sabe? É sobre a maneira que as pessoas encaram os problemas. Sobre como a Melin lidou com a situação do seu ex namorado babaca. É sobre uma garota ter parado ao lado da nossa mesa e estar me encarando com um olhar como se fosse arrancar a minha cabeça.

— Pam, é você? — Melin perguntou.

— Sou eu sim, Melin — a garota respondeu — E quem é ele?

Antes que eu conseguisse pronunciar qualquer palavra, Melin me apresentou.

— Esse é o Eric, ele me ajudou a atravessar três ruas até a gente chegar no Café e ainda ouviu como eu sacrifiquei o Jimmy.

— Você falou do Jimmy pra ele? — Pam perguntou.

— Falei sim. Apesar de conhecer ele em pouco menos de uma hora e eu mesma ter citado o Jimmy durante a conversa, eu senti que era uma pessoa para quem eu podia falar sobre o meu ex namorado.

— Pera… Você sacrificou o Jimmy? — perguntei assustado.

Melin e Pam então começaram a rir descontroladamente atraindo mais uma vez a atenção das pessoas do Café.

— É lógico que não, Eric! — Melin respondeu sem parar de rir — Eu falei isso só porquê você tinha perguntado se ele tinha morrido.

E é sobre isso, sabe? É sobre a minha lerdeza pra entender o sarcasmo e rir de mim mesmo. Sobre como a Melin consegue ficar mais linda quando ri. E sobre como parece que a irmã dela não vai mais arrancar a minha cabeça.

— Bom, Eric, eu vou indo. Foi um prazer conhecer você. Muito obrigada por me acompanhar até o Café e por ter me feito companhia.

Melin pagou os cafés e foi saindo junto com a sua irmã, seu vestido florido, seu bastão guia, sua risada, suas covinhas, seu tamanho até o meu ombro, suas histórias tristes de um relacionamento passado, e levou com ela o Eric arqueólogo, astrônomo e até psicólogo nas horas vagas de cafés sem açúcar e de biscoitos salgados.

Pam atravessou a porta do café e me entregou um papel com um número marcado.

— Nada de mensagens, somente ligações — sorriu pra mim e foi embora.

 

E sobre isso, sabe? Sobre essas coisas e muito mais.


Notas Finais


Obrigado por ler <3


Gostou da Fanfic? Compartilhe!

Gostou? Deixe seu Comentário!

Muitos usuários deixam de postar por falta de comentários, estimule o trabalho deles, deixando um comentário.

Para comentar e incentivar o autor, Cadastre-se ou Acesse sua Conta.


Carregando...