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  3. Outubro

História Sobre máquinas de lavar, bonecos de neve e cerejeiras - Capítulo 1


Escrita por:


Notas do Autor


Olá.

Primeiramente, obrigada por dar uma chance a essa estória.

Segundo eu queria deixar alguns avisos sobre os conteúdos da mesma. A estória em geral não aborda temas pesados, porém a personagem principal sofre de ansiedade e seu quadro tende a piorar com o decorrer dos capítulos. Portanto, se essa temática for um gatilho para você, leia com cautela. Sempre deixarei avisado nas notas inicias quando o capitulo possuir alguma cena que descreve sintomas de ansiedade/ataque de pânico.

Boa leitura !

Capítulo 1 - Outubro


Era difícil respirar.

Um. Dois. Três.

Lia olhava para as sombras que formavam em seu guarda roupa. Para as roupas no chão. Para todas as coisas entulhadas na sua mesa.

Ela pegou o celular e olhou mais uma vez para o seu instagram. O feed continuava do mesmo jeito que estava a 10 minutos atrás. Ela estava pensando sobre tudo e sobre nada. Sobre a lista de exercício de química orgânica que era para a semana que vem. Sobre como ela não estava estudando o suficiente. Sobre como ela deveria ligar para a mãe dela. Sobre como ela tinha que arrumar o cartão do refeitório. Sobre como ela tinha que arrumar o quarto. Sobre o futuro. Ela iria conseguir arrumar um emprego ? Ela conseguiria se manter na faculdade com bolsa ? E se ela não conseguisse ? Ela não estava estudando o suficiente. Mas ela não conseguia estudar. Ela sequer estava conseguindo arrumar o seu quarto.

O som da porta se fechando e uma risada aguda a fez pular da cama. As suas colegas de quarto trouxeram mais uma vez suas amigas barulhentas. Eram 2 da manhã de uma quarta. Ela queria chorar. E gritar. Porque ela não conseguia confrontar as pessoas ? Porque ela não estava conseguindo fazer nada ultimamente ?

Sua cabeça girava. Ela se sentia presa e precisava sair dali.

E foi assim que ela acabou andando pelos corredores da faculdade com a sua sacola de roupa suja, um moletom por cima do pijama e seus fones de ouvido. As 2:30 da manhã. Ela preferiu não prestar atenção no seu reflexo no espelho ao entrar no elevador. E quando chegou ao térreo apertou ainda mais o seu capuz.

O térreo estava vazio. A única pessoa ali era o guardinha.

Lia ficou surpresa quando entrou no corredor onde ficava a lavanderia e viu a luz acesa somente de uma maquina de lavar. Ela cogitou voltar para o apartamento porque ela realmente não estava afim de conversa, mas ela já estava aqui. Se ela entrasse usando os fones de ouvido, talvez ninguém falasse com ela.

Ao entrar, Lia  encontrou um rapaz sentado em um dos cantos da sala. Ele também usava um fone e parecia estar vendo algo no celular. Os dois se olharam por alguns segundos e para o alivio dela, ele voltou ao celular.

Ela separou as roupas e colocou as poucas roupas coloridas que tinha em uma maquina e as suas roupas pretas em outra. O bom de lavar as roupas de madrugada era que todas as maquinas ficavam vazias e ela poderia usar duas de uma vez. Ela se sentou no canto mais distante do rapaz possível colocou seus fones e começou a jogar a fase 234 do candy crush enquanto ouvia the crown, sua banda favorita.

Quando ela saiu da lavanderia, já eram 4:30 da manhã. Ela nem havia percebido que o garoto havia ido embora, só percebendo isso quando ela foi tirar a roupa da secadora e ele não estava mais lá. Enquanto ela esperava o elevador, ela percebeu que estava mais calma. Era bom conseguir fazer algo.

E foi assim, que a rotina de ir a lavanderia de madrugada começou.

Ela gostava de poder ficar sozinha, mesmo que o mesmo garoto ainda estivesse lá. Mas, aparentemente eles haviam feito um acordo silencioso sobre não falar um com o outro. Lia apreciava isso. Ela já havia ido lá mais duas vezes e ela usava aquele tempo para ficar jogando candy crush e ouvindo música. O rapaz sempre ficava vendo algo no celular. E eles viviam em harmonia.

Nessa quarta feira em especifico, lia havia comprado um fone bluetooth. Depois que o seu fone parou de funcionar de um lado com somente 3 meses de uso, ela se revoltou e resolveu comprar um sem fio.

Como de costume, Lia separou as roupas, colocou nas maquinas e se sentou no chão. Colocou na sua playlist chamada “músicas para lavar roupa de madrugada” -  essa playlist era meio que o seu orgulho e ela a fez em uma aula especialmente insuportável de química orgânica. Ela colocou a musica para tocar em seus fones.

Mais o volume parecia muito baixo. Lia aumentou mais, mas o som ainda parecia abafado. Será que esse fone veio com defeito ? Ela tentou lembrar onde havia colocado a nota fiscal. E se ela tivesse perdido a nota fiscal. O que ela ia fazer....esse fone foi caro. Porque até as coisas mais simples não davam certo para ela...

“Acho que você tem que conectar o fone no celular “ o som de uma voz fez lia tirar os fones. Ela encarou o rapaz – que a olhava de onde ele estava sentado, no outro extremo da lavanderia. Foi então, que ela percebeu que a música estava em um volume altíssimo, e que na verdade ela não havia conectado seus fones corretamente.

Ela sentiu seu rosto ficar vermelho e a vergonha dominar cada fibra do seu corpo, o que fez com que a única coisa que ela conseguiu articular foi um “ah”

Silêncio. Lia focou em olhar as roupas rodando na maquina, creditando que talvez isso diminuísse a vergonha gigantesca que ela estava sentindo. Ela tentava se consolar,dizendo a si mesma que isso não era nada demais mas ao mesmo tempo ela parecia achar que aquilo era a coisa mais constrangedora que poderia acontecer com algum ser humano na terra.

“Você gosta de the crown ?” o rapaz perguntou.  Lia demorou alguns minutos para processar a pergunta. Sua cabeça estava confusa e ela queria voltar para o seu dormitório.

“Sim”

Silêncio. Porque era tão difícil para Lia manter uma conversa normal com alguém. Seus pensamentos estavam em velocidade máxima. Ela se encolheu ainda mais no lugar que ela estava sentada, como se isso a protegesse de alguma forma. Ela queria poder falar como The crown era a sua banda favorita e como ela havia gostado do último álbum lançado por eles.  Mas ela não conseguia falar. A única coisa que ela conseguia fazer era encarar o chão da lavanderia em silêncio.

“Esse negócio de conversar é difícil demais” Lia deu uma risada ao ouvir isso. Ela se virou e olhou para o rapaz, do outro lado da sala. Agora seu olhar era simpático. Lia notou como ele era expressivo, e como seus olhos eram escuros. Ele estava sorrindo e mesmo um pouco longe, lia notou que ele tinha uma covinha.

 E isso fez ela relaxar . Porque ela não era a única que estava se sentindo mal por não conseguir conversar.

“Nossa nem me fale. Muito complexo, muitas regras.” ela disse

“Muito esforço mental”  o rapaz resmungou.

Os dois riram. Lia e suas amigas tinham uma teoria que o que unia os tímidos era justamente a sua incapacidade social e a sua vontade de reclamar dos extrovertidos, e cada vez mais, a sua teoria se provava verdadeira.

“Ah, eu sou o Bernardo” Lia notou em como os seus olhos pareciam acompanhar o seu sorriso e ela se perguntou como aquele estranho estava conseguindo a fazer ficar mais calma.

“Eu sou a Lia” ela respondeu, se sentindo um pouco mais leve.



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