História Sobrenatural I - O Grito - Capítulo 1


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Categorias Michael Jackson
Personagens Michael Jackson, Personagens Originais
Tags Bruxas, Entidades, Historias Vampirescas, Lea Seydoux, Lobisomens, Michael Jackson, Vampiros
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Palavras 5.093
Terminada Não
NÃO RECOMENDADO PARA MENORES DE 18 ANOS
Gêneros: Fantasia, Romance e Novela, Saga, Sobrenatural, Suspense, Terror e Horror
Avisos: Heterossexualidade, Linguagem Imprópria, Nudez, Sexo, Spoilers, Violência
Aviso legal
Os personagens encontrados nesta história são apenas alusões a pessoas reais e nenhuma das situações e personalidades aqui encontradas refletem a realidade, tratando-se esta obra, de uma ficção. Os eventuais personagens originais desta história são de minha propriedade intelectual. História sem fins lucrativos, feita apenas de fã para fã sem o objetivo de denegrir ou violar as imagens dos artistas.

Notas do Autor


Desejo-lhes uma boa viagem!

Capítulo 1 - Elle aurait d me le dire


Fanfic / Fanfiction Sobrenatural I - O Grito - Capítulo 1 - Elle aurait d me le dire

Novembro de 1995 às 23h:55 Lumière, Mansão Seydoux

Não conseguia dormir. Rolava de um lado para o outro até parar em uma posição confortável, mas era difícil. Minha insônia nunca atacara desta forma e para complementar, os remédios não ajudaram em nada. Em passos leves e silenciosos, abri a porta do quarto tomando cuidado para não fazer barulho. Desci a enorme escadaria dirigindo-me a cozinha. Quando chego, abro a geladeira pegando uma jarra d'água e despejo o líquido no primeiro copo que encontro no balcão. A poucos goles de terminar o conteúdo, ouço o uivo de Hiron anunciando a chegada da meia-noite. A lua cheia me despertava interesse quando criança, hoje a vejo como outra qualquer. Hiron, ''O guardião das noites sombrias'', protegia o bosque onde nossa família se encontrava. Ele é um lobo, com pelos tão escuros como a noite e olhos assustadores como os de dragão. Um monstro para as pessoas daqui, mas minha irmã e eu sabemos que só mantém seu jeito horrorizante para nossa proteção. Subi para o meu quarto da mesma forma que desci, silenciosamente. Mas alguém chegou a perceber minha presença ali.

- Acordada a essa hora? Não deveria estar descançando, senhorita? - Bernardo deu um passo na escada.

- Sim, mas não consigo dormir. Fui beber um pouco de água e acabei ouvindo o lobo. Fiquei mais do que suficiente.

- A senhorita quer que eu pegue algum comprimido?

- Não Bernardo, te agradeço. Vou ver se consigo pegar no sono agora, e você, trata de descançar também.

- Prometo tentar, senhorita.

- Então boa noite, Bernardo

- Boa noite.

Ao chegar no meu quarto, tranquei a porta e fui a varanda desfrutar um pouco da brisa do vento. Quantas estrelas haviam... Meus ombros nus, se arrepiaram com o frio noturno. Abracei-me para me aquecer, o tecido fino dessa camisola era desfavorável, senti minhas pernas congelando. Minutos passaram, antes que voltasse para dentro, recebi uma visita.

- Oras, não consegue dormir após o show? Já poderia estar descançando, sua missão foi cumprida por hoje. - Encostei no batente da porta. - Não faça esta cara, sabe que não se pode viver apenas do trabalho! - Olha quem fala.

Hiron desceu da grade de vidro e se aproximou. Sentou ignorando meu olhar, como se estivesse levando uma bronca.

- O senhor não pode negar que estou certa. Olhe para mim, não pode me evitar pra sempre! - Ele obedeceu, cruzei meu braços e sorri vitoriosa. - Venha, esta frio aí fora.

Deixei que entrasse primeiro, logo depois foi a minha vez. Ajoelhei no enorme tapete do quarto observando os lentos movimentos da fera, inexplicávelmente seus olhos me absorveram para um mundo paralelo, muito além dessa dimensão, no qual não pude sair ou até me mover. O que está acontecendo comigo? Não basta os terríveis pesadelos que ando tendo? Preciso ter ilusões também? Perguntas presas aos pensamentos que se mantém sem resposta e me tiram o ar por um longo período de tempo. Lágrimas caem por não poder fazer nada além de sentir que estou morrendo por dentro. Mas felizmente, sinto algo me puxando daquele universo.

''Hey! Mary Ann, tá me ouvindo? Preciso que acorde imediatamente, ou você continuará neste pesadelo! Saia daí, não posso te buscar! Mary Ann! Mary Ann! Mary Ann! Saia daí! Agora!''

Foi quando recuperei meus sentidos, ouvindo aquela voz tão familiar.

- O quê...

- Sonho, nem mencione sobre ele. - Elisabeth levanta da cama abrindo as cortinas do quarto. Sentada, tampo minha visão com a claridade vindo das janelas.

- Que horas são?

- Eu diria que a hora de estar se vestindo para ficar lá em baixo aguardando o nosso fabuloso tio com seu mais novo assistente.

- Mas já? Não seria amanhã?

- É, só que nesse caso, o amanhã teria sido o de ontem. O que vai vestir? - Elisa sempre foi objetiva e dizia o que lhe vinha em mente. De verdade, eu gosto disso em minha irmã, mas, há vezes que passa do limite. Ninguém, nem mesmo eu ou meu tio conseguíamos pará-la.

- O de sempre - Esfreguei meus olhos.

- Se for assim, prefiro que nem vá. Precisa dar um fim naquelas roupas, Mary! Usa sempre as mesmas!

- Não se atreva a jogá-las fora! - O contrário dela, nunca fui vaidosa. Não gosto de me arrumar. Acho desnecessário já que não pretendo me casar. Por mais que houvesse roupas de marca ou sapatos, nunca me sentia bem. Juro que já tentei, mas tem coisas que não mudam. Dentre elas, o meu jeito de não nutrir vaidade.

- Não farei isso, mas ninguém te aguenta mais usando a mesma calça e blusa social todo dia. Quer passar mesmo má impressão ao seu novo ajudante?

- Quem disse que preciso agradá-lo? - Me cobri até a cabeça com os lençóis.

- Não disse isso, só acho que minha irmãzinha precisa de coisas novas!

- Sério? Como o quê? Não faço nada além de ficar dentro de uma sala com dezenas de papéis para ler enquanto tento entender sua sobrinha.

- E é disso que falo, se importa demais com seu trabalho! - Puxou a coberta de mim.

- Ei! Me devolva!

- Não, agora comece a tirar esta camisola e coloque algo digno de uma aprensentação, algo que não tire sua beleza.

- Que beleza? E eu não estou com...

- Olhou por acaso? - Analisei meu traje e realmente estava com uma camisola. No sonho, eu estava vestida assim mesmo, só que lembro-me de colocar um pijama para épocas frientas antes de dormir... Como é possível?

- Eu não estava com isso!

- Pode acreditar, você estava sim. E ainda está. - Bufei em forma de rendição. Seria inútil discutir.

- De qualquer maneira, não tem nada para mudar. Vou continuar sendo a mesma Mary Ann.

- Só que mais linda! Você não passa nem um batom, sinceramente, seu grau de vaidade é zero.

- Obrigada, estou me sentindo muito feliz agora - Sorri sarcástica.

- Não faça essa cara e vista-se logo, às sete seu assistente chega. Seja um exemplo para o futuro administrador!

- Ok, quanto tempo ainda tenho? - Não tinha animação alguma para levantar, meu dia anterior foi bem longo...

- Cinco, cinco minutos. Se é que ainda não se passaram.

- O quê? Como assim Elisa?! Por que não me acordou antes? - Num pulo levantei da cama pegando qualquer coisa pra vestir e comecei a tirar minha veste.

- Se sua porta não tivesse trancada, como sempre, seu sono não fosse tão pesado e não roncasse feito porca, já estaríamos lá em baixo aguardando o homem!

- Me dá licença, Elisa! Já me acordou mesmo! Se ele chegar diga que já desço.

- Tudo bem, mas se apresse. Quanto à Bet, já saiu. Tic tac. - Bateu seus dois dedos no luxuoso relógio de ouro e saiu me deixando só. Bom, ao menos fechou a porta, como dificilmente fazia.

Muitos que já vieram aqui, me perguntaram por que uso terno dentro da minha própria casa. Minha resposta é sempre a mesma, gosto de usar ternos. A maioria das roupas do meu armário são compostas por ternos, as outras são mais para eventos especiais, como um casamento por exemplo. Nada justo e nem curto, muito menos vulgar. E claro, sapatilhas sempre. Salto não é comigo.

Assim que vestida, deixei o quarto. Eu gostava de arrumar minhas coisas, mas quando estava atrasada para algo, preferia deixar para que Lauren o arrumasse. Caminhei normalmente, desci a escada sem pressa. Cumprimentei meu tio e meu novo assistente. Ele tinha olhos claros, cabelos totalmente loiros, pele pálida e uma ótima estrutura física, mesmo com o terno era possível identificar seus músculos. Com suas poucas palavras, pude perceber sua timidez e sotaque, um por qual reconhecia de longe.

- Sou escocês, acabei de me mudar para Lumière.

- E o que acha da cidade?

- Bem dividida, mas calma.

Uma curiosidade de Lumière, é que por algum motivo desconhecido, temos divisão de terras com os Castella. Nossas famílias são rivais à séculos, não há um histórico de guerra entre as duas, mas provavelmente deve ter sido por uma que aconteceu, qual outra explicação teria? Nenhuma a não ser esta, é a única possibilidade que faz sentido. Por esse motivo, é proibido termos qualquer informação da outra parte da cidade e se por acaso algum integrante de nossas terras atravessá-las e ir para as da outra família ou vice-versa, é obrigatoriamente punido de diferentes formas. A mais grave, dependendo de quem comete o "crime", é a sentença de morte. Eu sou contra, mas não posso fazer nada além de aceitar, nem o prefeito pode, seria o mesmo que desonrar nossos antepassados. A prefeitura é a única que pode se manter informada das duas partes, mesmo assim sob sigilo.

- Com o tempo se acostuma. Então muito prazer, Olivier. Seja bem-vindo à nossa casa.

- Obrigado, senhorita Seydoux. O ambiente é muito agradável apesar de afastado. Será um prazer trabalhar aqui.

- Fico feliz que tenha gostado.

- Elisa, vamos deixar que os dois conversem, têm muito trabalho pela frente.

- Sim, tio. Com licença. - Deu um sorriso simpático à Olivier e disse-me algo sem emitir som nenhum, entendi apenas a parte "O aproveite". Por sorte, ele não prestou atenção.

No fim da tarde, o assistente voltou para casa e pude começar a separar os arquivos nos quais trabalharíamos no dia seguinte. Com sua ajuda, tudo seria mais rápido e pelo que soube, também mais eficiente. Eu não adiantaria nenhuma documentação hoje, prefiro fazer junto a Olivier que ainda pegará o jeito no negócio francês. Gosto de colegas sérios e que se comprometam com suas responsabilidades, assim é mais fácil confiar para encarregar-lhes certos trabalhos.

No meu escritório, imprimia informações já revisadas. Meu tio chega com uma bandeja com chá - de camomila que era minha preferência - e algumas bolachas com gotículas de chocolate. Sorri em agradecimento, eu precisava daquilo.

- Como está minha princesinha? Vejo o que o titio preparou!

- Sinto-me uma criança desta forma. - gargalhei - Espera, o senhor quem preparou os biscoitos?

- Eu os organizei em forma de uma flor, se é que se refere a isso. Vale, não?

- Pode apostar que sim. - Ele fechou a porta do escritório colocando a bandeja afastada dos papéis.

- Como foi com Olivier?

- Muito bem. Me aparentou ser um ótimo rapaz.

- Elisa disse que seria sua chance.

- Chance de quê, tio?

- De garantir o abandono do status "solteira" - Não podia aparecer um homem bonito que Elisa o empurrava para mim. Ela podia parar de cuidar da minha vida sentimental e trabalhar mais na dela, porque estou muito bem assim.

- Não a escute. Por mim, pouco importa morrer sem me casar. Dane-se o pensamento da população. - Voltei a me concentrar no visor do computador.

- Gosto que pense assim, mas ela não vai desistir de te juntar a alguém. - Infelizmente, aconteceria enquanto eu não tivesse um namorado.

- Maninha! - Falando no diabo... - Prepare o melhor penteado, melhor sapato e melhor roupa porque hoje é dia de sairmos!

- Não irei. Preciso terminar meus afazeres.

- Blá-blá-blá - Elisa colocou a mão na cintura balançando a cabeça. Quando irá entender que não gosto de sair para esses pubs que costuma frequentar? - Nunca irei entender seu desprezo por pubs! - Ela disse como se tivesse respondido meus pensamentos.

- Você pode ir, mas eu fico. Assunto encerrado. - Feche a porta quando sair.

Ela me olhou com desprezo antes de ir batendo o pé. Eu amo muito minha família, mas eles sabem que certas coisas eu não permito. Dentre elas, é tentar me tirar do trabalho para coisas insignificantes. Eu detesto estas situações.

- Te deixarei com seu trabalho, preciso falar com o prefeito - Eu conheço meu tio e sei perfeitamente quando mente. Exatamente agora, ele mente.

- Não minta, eu sei que não vai sair. É por causa da quase discussão das irmãs?

- É porque eu não aguento te ver o dia todo nesta sala e Bethany também sofrer com isso. Está se aprisionando em sua própria cela, existe um mundo lá fora, Mary Ann.

- Não discutirei com o senhor e repito o que disse à Elisabeth, feche a porta antes de sair. - Além de pubs, eu também odiava discutir com eles. Principalmente com Bethany. Às vezes é necessário, mas não está incluido na minha lista do que me faz feliz.

Pouco depois, sou surpreendida pelo telefone. Puxo sua antena e atendo a ligação.

- Mary Ann Seydoux, com quem falo?

- Olá, Mary Ann! Sou eu, o Raul. Lembra-se de mim? - Fiquei surpresa ao ouvir aquela voz em anos.

- E como eu poderia esquecer? Como você está? Você sumiu! - Eu costumava o chamar assim na época do colégio, ele era meu melhor amigo naquela época. Porém, quando fomos fazer faculdade os pais dele decidiram que seria melhor ele cursar em uma de Paris, já que tem a mesma condição social que minha família. Eles nunca me aceitaram como amiga de Raul, não gostam de mim desde quando os conheci. Eu ainda me pergunto o porquê.

- Sabe que eu não sumi, eu só parei de ligar porque você sempre estava ocupada.

- Mas, eu abriria uma exceção para você. Eu nunca soube de suas ligações. Pensei que estivesse com algum ressentimento de mim.

- Mas... não era você quem atendia...?

- Desde 88 não recebo suas ligações, apenas algumas poucas cartas. Perdemos contato em 90.

- Hum... estranho...- Não tinha nada de estranho. Eu entendi o que estava acontecendo e iria esclarecer alguns fatos ainda hoje com a suspeita da nossa falta de comunicação. - Bom, mas o que importa é que finalmente estou falando com você e o motivo da ligação é para avisar que estou voltando à Lumière. Acabei de me formar e vou trabalhar na minha área, na nossa pequena cidade!

- Raul, que boa notícia! Quando será?

- Se eu conseguir, ainda neste mês! Preciso achar um lugar para ficar.

- Ah, claro - Mesmo que ele tenha sido meu melhor amigo durante anos e que nossa amizade foi por um longo período de tempo, não sei se seria boa ideia abriga-lo aqui. - Conheço um hotel onde você pode ficar, foi construído recentemente.

- Pode me dar o número, por favor?

- Um instante - Eu procuro na minha agenda de telefones e encontro o do Sweet Paradise Hotel. Dito para ele e em instantes diz que já tem tudo anotado. - Ótimo. Agora preciso desligar, Raul. Foi um prazer falar com você.

- Tão cedo? Nós nem nos falamos direito.

- Teremos todo o tempo do mundo quando estiver de volta.

- Então antes de desligar, quero saber como você está.

- Indo bem e você?

- Eu também.

- Ótimo, te vejo em um mês, quando vier me avise.

- Eu prometo. Até logo, Mary Ann.

- Até, Raul.

E em seguida, termino minhas impressões e saio do escritório para dar uma volta ao redor da casa. Porém, ouço Lauren desesperada me chamar, volto para sala no mesmo instante.

- Por que está tão preocupada?

- É da casa Fontaine, acharam Bethany desacordada em frente a fábrica de sapatos.

- Bethany?! Estou indo pegá-la imediatamente, se houver visita peça que espere, Lauren.

- Sim, senhora. Prepararei a banheira para sua filha. Com licença.

Lauren se retira e volto ao escritório para pegar a chave do carro. Ao sair de casa, dou partida e penso o que Bethany foi fazer num lugar tão distante, próximo a divisa de terras com os Castella. Qual seria seu interesse naquele povo? Sempre deixei bem claro que jamais poderíamos ultrapassar.

Quando chego na propriedade Fontaine, estaciono ao lado de uma árvore aparentemente velha, do tipo que só se vê em filmes de terror. Eu me preparo para sair de meu veículo e entrar para buscar Bethany porém, com as mãos ainda no volante, flagro um vulto passar pelas árvores do outro lado da casa. Mesmo escurecendo, eu tinha certeza de que não era minha imaginação entrando em atividade. Poderia ser um bicho. Ou o vento levando algum pedaço de plástico velho das redondezas. Mas também não descarto a possibilidade de ser alguém. Alguém rápido. Bem rápido. Só que não é mais importante do que saber o que está acontecendo com minha família. Não preciso saber.

Deixo o carro chamando pela senhora Fontaine e batendo palmas, mas quem me recebe é Gaston. Barba feita, cabelos prateados que contornam sua careca, nariz achatado e um uniforme tradicional de mordomos. Assim como o meu.

- Senhorita. Seydoux, quanto tempo! Entre por favor - Dei alguns passos a frente observando o jardim - O sr e sra. Fontaine estão com Bethany na parte superior da casa.

- Obrigada. Já chamaram um médico?

- Sim, mas não sei lhe informar qualquer informação sobre sua saúde.

- E ela acordou?

- Também não sei dizer, mas permita-me acompanhá-la até lá.

- Claro, faz um tempo que não venho aqui.

Nós subimos a escadaria banhada a ouro sobre um longo carpete vermelho. Essa família é uma das mais ricas da região apesar das festas frequentes e ostentação descontrolada. Bem antes de me mudar pra cá, já esbanjavam rios de dinheiro. Mesmo assim, a falência nunca bateu na porta deles.

- Aqui - Gaston apontou para a porta - Deseja algo para beber?

- Não, obrigado.

- Estarei a disposição se precisar, senhorita. Com licença - Me deixou e caminhou de volta para a parte de baixo.

Dei duas batidas na porta deixando meu relógio a mostra, fiquei com as mãos para trás olhando minhas desgastadas sapatilhas até abrirem a porta. O sr. Fontaine me atendeu. Por trás dele, via sua mulher segurando as mãos de Bethany com um meio sorriso nos lábios. Apesar de beirar a terceira idade, seus cabelos continuavam ruivos, sem tingir um pingo de tinta neles.

- Olá, Mary Ann. Aqui está sua filha - Ele me deu passagem um pouco sem jeito. Balancei a cabeça e não tirei os olhos dela.

- Oi, mãe - Bethany soltou a mão da mulher e se ajeitou na cama sem me encarar. Ela faz isso quando fica envergonhada e sempre me incomoda porque tem esse comportamento comigo. É como se Margarida fosse sua mãe, não eu. - Eu estou bem.

- O que estava fazendo na divisa? Já falei o que tem lá.

- Mary Ann, a culpa não é dela. Ela errou o caminho da casa da amiga e acabou se perdendo. Tente compreender.

- Mas como ela foi encontrada desacordada? Posso saber o que aconteceu?

- Nós chamamos o doutor e ele disse que o motivo dela desmaiar foi stress. Assim que a vimos, a trouxemos para cá.

- Ah - Tive um choque ao saber que Bethany sofre com stress. Ela nunca chegou a comentar ou demonstrar. Seria algo relacionado ao colégio? Mas sempre diz que tudo vai bem! - Vamos, Bethany, em casa você descansa. Agradeço aos senhores por ficarem com minha filha, em casa poderemos conversar tranquilamente. Sou muito grata, muito obrigada, de verdade.

Dei meu sorriso mais simpático e sem dizer nada, disparei com o olhar para que despedir-se dos dois e viesse comigo. Timidamente, o fez. Margarida pegou em suas mãos e falou:

- Qualquer coisa, basta me ligar e tome cuidado da próxima vez, ok?

- Sim, senhora. Obrigada por me acolher.

- Não agradeça, querida - Acariciou seu rosto e ela logo veio em minha direção.

Eu deixei que passasse primeiro, fui atrás. Mas Damien disse algo baixo antes que eu saísse por completo.

- Deveria tomar mais cuidado ou pode perder a guarda de sua filha. - Outro fato do casal é que não podem ter filhos. Não sou intrometida por saber, mas é inevitável não ouvir o que dizem as pessoas daqui. Então, Bethany desde pequena é uma menina muito especial para os dois. Não perdem um aniversário dela ou esquecem de dar presentes caros de Natal. Não gosto do que fazem, inclusive já tivemos uma conversa séria a respeito. Só que pelo que parece, não adiantou em nada. Continuam a bajular a garota.

- Da minha filha, cuido eu, senhor Fontaine. Tenha uma ótima noite. - Sou rude e me retiro dali. Ele abriu um sorriso quando respondi seu comentário. Haja confiança com ele tem para reagir desse jeito.

Nós duas descemos em silêncio, percebi seu desconforto. Eu queria saber o que está acontecendo e entender como não percebi a situação antes. Mesmo não sendo a melhor mãe do mundo, quero estar presente na vida de Bethany.

- Você está brava? - Ela me perguntou se sentando no banco.

- Por que eu estaria? - Dei partida virando a primeira rua do lugar.

- Por não te avisar que eu iria na casa da Veronica...?

- Não estou brava. Mas ela não viajou?

- Voltou ontem na madrugada. - Bethany enrolava nos dedos seus loiros e belos cabelos encaracolados. Sei quando ela mente, sei que está mentindo. Mas deixarei acreditar que me conformei com a desculpa e saber a verdade ao pé da letra.

- Como foi no colégio? - Desviei de um carro.

- Bem. Nada novo.

- Mesmo? - Pelo canto do olho, vi sua expressão desanimada. - E a feira de ciências? Sua classe fará?

- Cancelaram. O diretor faleceu.

Um frio na barriga e uma pequena falta de ar me domou. Quem poderia imaginar que um diretor tão alegre, amigo de todos, fosse morrer tão inesperadamente?

- Dessa eu não sabia. Por que ele morreu? Todo mundo gostava tanto dele.

- Dizem que foi morte súbita, foi hoje de manhã. Eu vi tirando o corpo de lá...

Passados alguns minutos silenciosos, parei o carro onde não havia ninguém. Percebi seu olhar curioso sobre mim, eu ainda segurava o volante absorvendo a morte do diretor de Saint Lumière. Não que tivéssemos algum tipo de afinidade, mas, ele morreu. Como outras três pessoas que foram assassinadas em dias consecutivos. Ele é a quarta vítima, duvido muito que tenha tido uma morte súbita. Talvez fosse o que a polícia daqui quisesse que soubéssemos.

- Mãe?

- Sim? - Virei-me para ela.

- Por que estamos aqui?

- Por que não me disse que sofre com stress?

Sua cabeça se aprofundou na poltrona e ela respirou fundo. Eu tirei a mão do volante me virando diretamente para ela. A cada segundo passado sem uma resposta, eu me preocupava ainda mais. Não saber o que acontece com a própria filha é frustrante. Na idade dela, meus problemas sempre foram grandes.

- Não queria que soubesse.

- Bethany, eu me preocupo com você. Mesmo não sendo uma mãe como as outras.

- Não é nada sério, de verdade.

- Não acredito. Só sairemos daqui, quando me disser a verdade. - Eu via Bethany revirar algo em sua mente. Como fico nervosa com essas atitudes, eu passo a mão nos meus cabelos curtos. Eu fiz agora, aguardando impaciente sua resposta. - Não vai me dizer?

- Tenho outra opção?

- Não, você não tem.

- Tá bom, eu conto. - Suspirou - Não disse porque você não acreditaria. Diria que é apenas cansaço ou que é só uma desculpa pra não ir ao colégio.

- E o que te fez pensar isso?

- Aquela noite que vi aquela criança na minha sacada. Você não acreditou em mim.

- É diferente. Não tinha ninguém lá.

- Viu? Você não acredita em mim.

- É claro que acredito, mas nós o procuramos em todo canto. Você provavelmente se confundiu com alguma coruja. Elas são frequentes na mansão.

- Aquilo não era uma coruja. E eu vou te provar.

- A questão não é essa Bethany...

- Então qual é Mary Ann? Me diz! Eu quero muito entender o porquê de ter nascido tão esquisita e ter uma mãe que te trocaria por um trabalho na Dinamarca! Você se lembra de passar 3 meses fora e deixar sua filha aqui? Se lembra?

- É melhor abaixar o tom de voz, moça! Não sou um dos seus amiguinhos para falar assim comigo! E esse trabalho que me ofereceram eu quis te levar comigo, mas quem negou foi você! Eu nunca te trocaria por um serviço qualquer!

- Pra você, tudo é fácil! - cruzou os braços - Pra que eu aceitaria fazer uma viagem se estaria praticamente sozinha? Dia e noite seus negócios te tomam conta. Não faz sentido viajar só porque você quer.

- Eu faço o máximo que posso!

- Não é suficiente.

Bethany parecia enxugar uma lágrima. Olhando através do vidro, eu conseguia ver um pouco de seu reflexo. Os olhos estavam carregados de água. Imediatamente senti-me culpada por ainda não saber ser mãe.

- Não te quero perto da fábrica nunca mais. Entendeu?

- Sim, mãe.

Depois disso não nos falamos mais. Quando chegamos na casa, Lauren correu para saber como ela estava. Suas únicas palavras foram "tá tudo bem".

Durante a noite, passei boa parte do tempo lendo na sala. As únicas iluminações eram da lua e o abajur aceso. Adoro ler perante a tranquilidade, sempre com acompanhamento de um chá. Mas infelizmente, meu momento acabou tornando-se um horror. A porta da casa foi aberta e vi a sombra de Elisa junto à de um homem, eles estavam ofegantes e trocavam beijos sem notar minha presença. Ele pareceu prender Elisa contra a parede. Não permitirei de jeito nenhum que isso aconteça na minha casa.

Fui até o interruptor e acendi as luzes da sala. Eles me olharam surpresos e envergonhados e soltaram-se espantados com o meu flagrante. O homem era bem mais velho que minha irmã, a camiseta que usava não combriam seus "pneus" devido ao sobrepeso e o boné que usava, caira no chão.

- Que pouca vergonha é essa na minha casa? - Meu tom de voz é alto. - Elisabeth, como me explica isso?!

- Calma, maninha! Ele é só um amigo...

- Estou vendo a bela amizade de vocês! - Depois de minhas palavras, vejo que Hiron aparece na porta rosnando, com os dentes mais afiados que nunca.

- Gata, acho melhor eu ir ou as coisas vão ficar... - Ele não termina a frase, pois vê o enorme lobo esperando por sua companhia fora da casa.

- Eu também! E não se atreva nunca mais a pisar aqui!

- Calma, Mary! E você também Hiron! - Deixou seus braços erguidos. - Ele já vai. Não é mesmo?

- Se esse lobo for pra bem longe, eu vou e não volto mais!

- Perfeito. Hiron, venha cá. - Eu o tranquilizo sem qualquer expressão no rosto e em muitos passos ele chega em mim. Sento-me novamente acariciando o bicho. O rapaz sai disparado da casa, se eu fosse má, poderia mandá-lo atrás do cara. Eu bem que gostaria.

- Você ficou maluca?! - Ela grita comigo - Já sou adulta e não preciso das suas ordens!

- Enquanto estiver morando aqui, vai respeitar as regras. Querendo ou não.

- Papai deixou a casa para nós duas, não só para você!

- Não discordo, mas quem trabalha duro para manter nossa posição, paga todas as contas e suas dívidas com cartão de crédito sou eu! Eu sustento você, então o mínimo que exijo é respeito, se não concorda basta pegar suas coisas e sair daqui. Cansei da sua vida de ostentação, não era isso que papai esperava de você e nem eu. - Elisa ficou imóvel engolindo a raiva. Antes de voltar a me dirigir à ela, pedi para que Hiron se certificasse de que o rapaz já não estava mais nas redondezas e em seguida recolhi meu livro e chá ouvindo o que minha irmã tinha para dizer.

- Por que nunca disse que eu era uma inútil?!

- Porque nunca pensei isso de você. Só quero que pare de exigir e reclamar de tudo o que você não faz para melhorar e construa sua própria independência. Aproveite que não é mãe jovem e faça sua vida agora. É isso que eu quero para você.

- Não posso entender! - Ficamos frente a frente. Seus olhos cheios de ódio não me assustavam. Nunca me assustou. - Sempre foi a queridinha de todos enquanto eu apenas a sua sombra não é mesmo? Acha que é fácil construir uma vida nesse lugar sem que te julguem pelo que faz?

- Já fui criticada milhares de vezes. Já me chamaram de nomes terríveis, principalmente quando engravidei de Bethany. Mas não me deixei levar por isso.

- Não me refiro a coisas temporárias! Eu fui criticada a minha vida inteira, cobrada o tempo todo e sempre comparada a você!

- E o que você fez para mudar isso, Elizabeth? Nada. Você nunca fez nada. As pessoas só te conhecem por esse lado porque na visão delas, é a única imagem que você tem!

Ela me deu um tapa. Um tapa que ardeu bastante. A errada dessa história era eu? Como eu poderia saber do lado invejoso de Elisabeth? Meu livro caiu sobre o sofá e o chá foi derramado. Poucos cacos de vidro foram separados uns dos outros e o líquido quente derramou nas minhas pernas, principalmente na direita. Só não ardeu tanto quanto o tapa, porque eu estava de calça.

Rapidamente, minha mão tomou vida e eu revidei o tapa. Ela demorou mais tempo para absorver, no que deu tempo de Bethany chegar e ver o que estava acontecendo. Ela descia correndo as escadas para acabar com a briga.

- Parem com isso! Não vão brigar, vocês são irmãs!

Eu a olhei descendo apressada. Deu tempo de levar outro tapa, dessa vez do outro lado do rosto. Eu caí em cima do livro e minha irmã subiu em mim iniciando outra seção de tapas. Ela também passou a puxar meu cabelo. Eu não conseguia acaba com isto.

- Tia, já chega!

A sala tremeu e Elisa rolou para o chão. Eu senti a vibração forte, como um terremoto. Era possível ouvir também as coisas caindo no andar de cima. Aqui mesmo, várias outras cairam, além do que estava na mesinha. Nós olhamos para Bethany, que estava tão assustada quanto nós. Os empregados e meu tio, vieram correndo para saber o que aconteceu. Mesmo sem lua cheia e sem a meia noite, Hiron uivou. As luzes queimaram e apenas a lua iluminou a mansão. A porta, ainda estava aberta.

E o telefone tocou.


Notas Finais


Hoje você conheceu a primeira personagem, o próximo, verá em pouco tempo.


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