História Sociedade dos Poetas Mortos - Capítulo 3


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Categorias Seventeen
Personagens Boo Seungkwan, Hansol "Vernon" Chwe, Jeon Wonwoo, Junghan "Jeonghan", Kim Mingyu, Lee Chan "Dino", Lee Jihun "Woozi", Lee Seokmin "DK", Seungcheol "S.Coups", Soonyoung "Hoshi"
Tags Colegial, Hozi, Meanie, Poesias, Soonhoon, Verkwan, Wongyu
Visualizações 29
Palavras 4.602
Terminada Não
NÃO RECOMENDADO PARA MENORES DE 18 ANOS
Gêneros: Comédia, Drama (Tragédia), Ficção Adolescente, LGBT, Poesias, Romance e Novela, Shonen-Ai, Universo Alternativo, Yaoi (Gay)
Avisos: Heterossexualidade, Homossexualidade, Linguagem Imprópria, Pansexualidade, Violência
Aviso legal
Os personagens encontrados nesta história são apenas alusões a pessoas reais e nenhuma das situações e personalidades aqui encontradas refletem a realidade, tratando-se esta obra, de uma ficção. Os eventuais personagens originais desta história são de minha propriedade intelectual. História sem fins lucrativos, feita apenas de fã para fã sem o objetivo de denegrir ou violar as imagens dos artistas.

Notas do Autor


Boa leitura! ♡

Capítulo 3 - II - E que você pode contribuir com um verso


Abril, 1959.

 

A bem da verdade, é preciso dizer que o passar dos dias dentro de sala de aula não se tornara menos chato só porque as aulas de literatura do capitão Seungcheol agora existiam. Infelizmente, a grade curricular era composta por 12 elementos, e literatura era apenas um deles, de forma que a razão de aulas a qual os meninos vorazmente engoliam as explicações, era de uma impressionante quantia de um para doze. Seungkwan constantemente repetia que era impossível ser feliz tendo três aulas semanais com o senhor Jo, o velho corcunda que cuspia equações no quadro-negro enquanto coçava as micoses entre os dedos enrugados.

Mas, sem dúvida, tornara o ano mais suportável. No anterior, todos os doze docentes eram de uma decrepitude de escala calamitosa, e no fim, apenas Seokmin tinha ânimo para se levantar cedo todos os dias a fim de assistir as aulas chatíssimas. Agora, pelo menos podiam contar com as lições sempre surpreendentes de Seungcheol, e nenhuma das aulas dadas por ele os havia decepcionado até então. Jihoon era o único que sofria naqueles períodos: o capitão Choi gostava particularmente de pedir a ele que lesse os textos que passava para a turma, que fosse até a frente da lousa e escrevesse, que lhes ditasse suas interpretações. Jihoon jamais conseguia – as palavras simplesmente pareciam não existir em seu vocabulário e as pernas se tornavam desprovidas de músculos, e Soonyoung ou Seokmin sempre acabavam intercedendo por ele, tomando a responsabilidade em seu lugar.

E para piorar ainda mais sua situação, Jihoon pedira dispensa das aulas de educação física, e não somente lhe fora negado, como também fora pretexto para que o orientador da academia risse de si. Ora, um rapaz querer fugir da educação física? Só podia ser um maricas, ele dissera. Assim, duas vezes por semana, Jihoon se via sufocando por trás da máscara que tanto impedia que inalasse pólen, quanto tornava impossível que puxasse todo o ar necessário para compensar os esforços que fazia durante os exercícios. Podia declarar, definitivamente, que a única coisa que ainda o mantinha vivo tinha nome e sobrenome: Kwon Soonyoung.

Soonyoung já estava novamente inserido no ambiente escolar, e isso era ótimo. Quanto mais distante sua mente ficasse de casa, mais feliz ele estaria, e todos os rapazes sabiam disso, mesmo que ninguém comentasse sobre. Logo, esforçavam-se para entreter Soonyoung durante todo tempo, não permitindo que ele refletisse muito sobre sua vida, o universo, e todo mais que o rodeava. E, bem, se o Kwon estivesse feliz, Jihoon conseguia se esforçar para ficar também.

— Jeonghan hyung, logo fará um mês que as aulas recomeçaram e você não foi visitar o senhor Han nenhuma vez. Estou começando a ficar orgulhoso de você — O sorriso de Seokmin era puro deboche. Todos os meninos soltaram risadinhas, até mesmo Jihoon.

— Isso quer dizer, obviamente, — Jeonghan girou sobre os próprios calcanhares, virando-se para Seokmin. — Que no mês que vem, eu terei de ir o dobro de vezes, para compensar minha falha. Não acha?

— Contanto que eu continue fora disso, hyung, eu acho o que você quiser!

Dessa vez, todos gargalharam. Estavam acomodados nos bancos duros da cantina, no intervalo da manhã, e Jeonghan, cuja hiperatividade era simplesmente impossível de conter, era o único de pé, esculpindo uma maçã meio mordida com uma faca cega. Ele era incrivelmente habilidoso com as mãos, e seu lanche era frequentemente convertido em arte de índole duvidosa.

— Apresento a vocês, rapazes… — E, teatralmente, debruçou-se sobre a mesa. Virou o rosto esculpido na fruta para que todos sentados vissem. — O capitão Choiçã. Poesia na semente e rebeldia no talo, marujos!

Era um trabalho bruto, feito com pressa, ferramentas ruins e em péssimo material. Mas era inegavelmente a face de Seungcheol e isso, por si só, era impressionante. Seungkwan soltou um guincho surpreso, admirado, e Seokmin e Jihoon bateram palmas empolgadas. Wonwoo apenas sorriu.

— Essa definitivamente é sua obra-prima, hyung, mas serei obrigado a roubar os holofotes agora — Soonyoung tirou de seu colo um livro com uma capa de couro gasta, com as páginas amareladas fedendo a mofo. Jogou-o em cima da mesa, para que todos pudessem ver. — O anuário do último ano no qual Seungcheol estudou aqui. Página 34, vejam por si mesmos.

Dedos curiosos rapidamente encontraram a foto de um Seungcheol pelo menos 10 anos mais novo. O maxilar bem desenhado emoldurava um riso debochado, jovial, e os olhos que costumavam ver cheios de um significado profundo, pareciam opacos na velha impressão. Os cabelos negros estavam bagunçados de um jeito rebelde, mesmo que o corte raspado dos lados – estilo militar, não é preciso frisar – fosse o mesmo que os rapazes ainda usavam tantos anos depois. Abaixo da fotografia, havia uma legenda:

“Choi ‘Scoups’ Seungcheol, 3B.

Capitão do time de futebol.

Editor do anuário.

Futuro aluno da Korea University.

Apreciador de coxas.

Pau pra toda obra.

Membro da Sociedade dos Poetas Mortos.”

— “Pau pra toda obra” — Os olhos de Seokmin se arregalaram, surpresos. — “Futuro aluno da Korea University”? O cara era um prodígio!

— “Apreciador de coxas” — Jeonghan sorriu de lado, e todos sabiam o que viria a seguir. — O senhor Choi era um provocador, rapazes. Com certeza fazia sucesso entre as garotas, e cá entre nós: precisamos de dicas de um mestre.

— Claro, um mestre, que pelo visto não é casado. Não vi nenhuma aliança no dedo dele.

— Quem sabe ele prefira ficar solteiro para aproveitar melhor as oportunidades que a vida lhe dá? Parece uma tática digna do nosso senhor “Scoups” – a propósito, o que diabos é isso?

— E sobre “Membro da Sociedade dos Poetas Mortos”? Alguém sabe o que é? Veja se encontra mais alguma coisa sobre isso no sumário — Soonyoung pediu, e prontamente o livro foi revirado do avesso atrás de mais informações sobre a suposta sociedade.

— Não tem nada. Vamos ter que perguntar a ele.

Por sorte, a aula que sucedia o intervalo era literatura.

 

— Bom dia, rapazes!

— Bom dia, capitão! — A turma bradou em uníssono. Acima de qualquer resistência que se tivesse sido cultivada na primeira aula, agora todos os rapazes, sem exceção, não apenas esperavam ansiosamente pela aula de Seungcheol, como também tinham profundo prazer em participar ativamente.

— Aí está uma boa tripulação — O professor riu, exalando orgulho. Seungcheol gostava daqueles meninos; pareciam consigo quando tinha seus 17 anos.

Soonyoung lançou um olhar subentendido para Jeonghan, que por sua vez, assinalou com um franzir de sobrancelhas a sentença para o restante dos meninos. Os seis estavam mais do que empolgados para questionar o professor sobre seu obscuro passado como escravo da Academia Sung-Soo, mas não interromperiam sua aula. Cada palavra dita, lição dada e poesia recitada, era um aprendizado valioso demais para que se sentissem no direito de atrapalhar.

— Muito bem, rapazes, vamos começar. Quero que fiquem de pé quando ouvirem sobre suas respectivas aspirações — Seungcheol saiu de trás da mesa do docente, pondo-se a passos lentos no centro, na frente da turma. Os fios negros estavam impecavelmente alinhados para um lado, em um topete preso a gel, e mesmo que as laterais da cabeça continuassem cortadas com o penteado padrão, ele parecia completamente diferente de seu jovem eu. — Quantos de vocês serão engenheiros?

Seokmin olhou para Jeonghan, como um inquisidor. Reticente, Jeonghan ergueu-se da cadeira, junto de mais meia dúzia de garotos.

— Muito bem, podem sentar. E quantos de vocês serão advogados?

Dessa vez, o próprio Seokmin levantou, junto de Jihoon e ainda mais garotos do que na profissão anterior. Poucos exibiam orgulho tomando suas posições.

— Sentem-se. Quantos serão médicos?

Soonyoung hesitou. Jihoon procurou seus olhos, procurou dar-lhe apoio, mas ele não correspondeu o olhar. Levantou, sem esboçar expressão alguma. Mais três garotos o acompanharam, de maneira que deveriam ter sobrado apenas quatro ou cinco que não haviam se erguido para nenhuma das três profissões.

— Muito obrigado, rapazes, podem sentar — O professor sorriu, dócil. Havia algo naquele sorriso que nenhum deles pôde interpretar de imediato, mas que os atingiu fundo, fazendo os estômagos revirarem e a gargantas apertarem. — Agora, quantos de vocês serão atores, escritores, pintores… poetas?

Ninguém se levantou.

Seungcheol não pareceu surpreso, tampouco decepcionado. Jihoon concluiu que ele já esperava por aquilo; todos eles esperavam. O mundo no qual viviam era dessa maneira. Existiam artistas, mas artistas não ganhavam batalhas. A guerra já havia terminado, mas os espólios pesavam agora sobre os ombros da juventude. Sonhos eram desencorajados, e a premissa era sempre a mesma: a arte não ganha a guerra. Não parecia haver espaço, entre armas e cadáveres, no qual algo belo poderia florescer.

— Que pena — Não havia dó em sua voz, no entanto. Havia compaixão. Pena, nunca. — Vocês sabem para quê fazemos poesia, rapazes?

— Porque é belo — Respondeu Jeonghan.

— Também, mas não primordialmente. De toda forma, obrigado pela contribuição, senhor Yoon. O senhor Yoon deve pensar: “hey, o que a poesia tem a ver com minha graduação em engenharia?”, e imagino que um ou dois concordem com ele, hein? — Não era uma reprimenda: havia um olhar simpático em seu semblante. — Não fazemos poesia porque é bonitinho. Fazemos poesia porque precisamos fazer: porque somos integrantes da raça humana. O ser humano é cheio de paixão, e a poesia não é nada mais, nada menos, do que a representação de nossa natureza. Me digam, com que intuito inventamos as palavras?

Soonyoung ergueu a mão, e o professor lhe deu a palavra.

— No intuito de comunicar.

— Não! — A negativa acompanhou uma gargalhada gostosa, e o motivo dela veio a seguir: — Nós inventamos as palavras para conquistar garotas, cavalheiros!

A sala foi preenchida por exclamações de concordância e risadas, e até mesmo o garoto esquisito que dividia dormitório com Seungkwan soltou a voz para gargalhar. Ele nunca interagia mais do que o estritamente necessário, e isso excluía completamente a risada de sua lista de afazeres diários. Mesmo assim, lá estava ele.

Seungcheol passou a caminhar até o meio da sala, entre as duas fileiras de carteiras centrais. Com as mãos, fez um gesto que pedia que os mais distantes se aproximassem, como se estivesse se preparando para contar um segredo. Quando todos os meninos formavam uma roda ao redor do professor, ele prosseguiu.

— Engenharia, direito, medicina, são estudos nobres e necessários para a vida. Mas poesia, beleza, romance e amor… ah, essas são as coisas pelo qual vale a pena viver. Agora, citando Whitman novamente: “Oh eu! Oh vida! Das perguntas sempre iguais, dos intermináveis comboios de descrentes, das cidades cheias de tolos; O que há de bom em tudo isso, oh eu, oh vida?” — Daquela maneira dramática que apenas Seungcheol tinha, ele gesticulou largamente, como se estivesse tecendo com a língua o próprio gênesis, o início de tudo e a verdade absoluta da existência. — “A resposta: que você está aqui. Que existe vida e identidade, que a poderosa peça teatral continua, e que você pode contribuir com um verso”.¹

Olhares se iluminaram, sonhos se destruíram, se reconstruíram, e eram maiores, melhores e ainda mais ousados do que antes. Fazia-se parecer que a vida era maleável, que o mundo era deles, para moldar a seu bel-prazer e deixá-lo à sua forma. Como Deuses.

— Você pode contribuir com um verso. Qual será o verso de vocês?

 

Ao findar da aula, Seungcheol foi surpreendido, sentado em sua cadeira atrás da mesa do docente, por um “oh capitão, meu capitão!”. Capturada sua atenção, deparou-se com seis pares de olhos curiosos. Ergueu as sobrancelhas, surpreso, levantando as mãos em uma mostra de rendição.

— É uma emboscada? Tenho direito a uma ligação?

— É um interrogatório, capitão, mas se o senhor cooperar conosco, ninguém sairá ferido — Foi Jeonghan quem respondeu, com o anuário em mãos e um sorriso no rosto. Quem diria, Yoon Jeonghan sendo amigável com um professor? Entregou-o o livro. — Nunca achei que o hyung tinha cara de quem pratica esportes!

Olhavam-no com expectativas, analisando atentamente a expressão de confusão e, em seguida, de horror que estampara o rosto de Seungcheol. Pareciam esperar que, a qualquer momento, uma equipe das forças especiais fosse entrar pela janela dizendo que eles sabiam demais.

— Céus! Como eu era feio! A puberdade faz mal para os homens!

— Que nada, capitão, ao que tudo indica, você fazia garotas desfalecerem mesmo assim — Soonyoung respondeu, risonho, e todos os rapazes se juntaram à bajulação. — O que nos interessou mesmo, hyung, além do ilustre título de apreciador de coxas, foi a Sociedade dos Poetas Mortos. O que é isso? Não achamos nada sobre.

E o ar brincalhão que rodeava o professor imediatamente aquiesceu. Jihoon engoliu em seco, esperando o pior: que fossem expulsos, que ele os xingasse e os mandasse parar de bisbilhotar. Mas, ao invés disso, o professor apenas suspirou, afrouxando a gravata de um jeito que o fazia parecer cansado.

— Não acho que o senhor Han gostaria que eu fale sobre isso com vocês, cavalheiros.

— Por quê? O que era? — Soonyoung insistiu. Seungcheol verificou que a porta de mogno da sala estava fechada, e que não havia ninguém espiando por trás da janela empoeirada. Batucou uma ou duas vezes no tampo da mesa, antes de finalmente se pronunciar.

— Vocês sabem guardar segredo?

— Nossas bocas serão um túmulo, capitão — Seungkwan declarou, e todos concordaram com um aceno de cabeça.

— Os poetas mortos dedicavam-se a sugar o tutano da vida. Essa é uma frase de Thoreau² que recitávamos no início de cada reunião. Nos reuníamos no meio do bosque, em uma clareira suficientemente distante para que os sons não chegassem ao colégio, todas as noites no qual não estivesse chovendo. Então, recitávamos poesias. Poesias de grandes poetas, de pequenos poetas, poesias que nós mesmos escrevíamos — Havia uma nostalgia intrínseca e dolorida na maneira como seus olhos encaravam profundamente os de Soonyoung enquanto o professor falava. — E, então, deixávamos a mágica acontecer.

— Quer dizer que eram só caras sentados lendo poesia?

— Não éramos “só caras”. Não éramos uma organização, não éramos oficiais. Éramos românticos, livres para ir e vir e para nos reunirmos para sermos livres em conjunto. Não apenas líamos poesia, nós a deixávamos gotejar de nossas línguas, como mel. Espíritos elevavam-se, mulheres desfaleciam e deuses eram criados — Piscou para Soonyoung à menção de mulheres, já que fora ele que comentara sobre a antiga fama do professor. — Não era uma maneira ruim de passar o tempo, cavalheiros. Obrigado pela ótima lembrança de minha juventude que trouxeram, mas agora, queimem esse anuário. Em especial essa foto horrorosa.

 

— Sociedade dos Poetas Mortos — Jeonghan saboreava as palavras em sua boca, achando-as mais doces do que jamais imaginaria achar. Olhou para os lados, checando que não havia nenhum docente ou monitor no saguão do dormitório, e finalmente dirigiu-se aos outros rapazes. — Nós deveríamos nos reunir. Essa noite. Na clareira do buraco.

Todos sabiam onde ficava a clareira do buraco, é claro. O místico buraco que Yoon Jeonghan abrira em um de seus castigos e que, segundo o senhor Han, serviria para enterrar todas suas notas vermelhas e suas malcriações. O fato é que o buraco continuava lá, fazia-se chuva ou fazia-se sol, e nenhuma prova nunca fora enterrada. Definitivamente, todos sabiam onde ficava.

— Meia-hora após o toque de recolher — Concordou Soonyoung. — Quem vai?

— Parece uma péssima ideia… — Seokmin hesitou. Seu histórico impecável era sempre prioridade para o garoto, e não gostaria de manchá-lo por nada. Muito menos por uma ideia de jerico que tinha tudo para dar errado. — Ficaremos todos sem conseguir sentar de tantas palmadas que receberemos.

— Se planeja ser pego, é melhor que não vá mesmo, Lee — O tom zombeteiro de Kwon Soonyoung provocou risadinhas de um lado e um grunhido desgostoso de outro. Seokmin não gostava de ser motivo de zombaria.

— Ei, não planejo nada! Só não acho que seja seguro.

— Então não vá, é simples — Deu de ombros. Não estava obrigando ninguém. — Repetindo a pergunta: quem vai?

— Eu nunca perderia isso — Seungkwan tinha a voz estridente quando gritava. Ele fora o primeiro a se atirar em um dos sofás empoeirados, e Soonyoung se perguntava se, de tanto tempo que o rapaz gastava ali, o estofado já não teria se moldado no formato de sua bunda.

— Me considere lá — Wonwoo confirmou, e Jeonghan não via necessidade em dizer que obviamente iria.

— Jihoon?

Não houve resposta. Soonyoung estranhou, vasculhando a sala com o olhar e não o encontrando. Há poucos minutos, Jihoon estava com eles, rindo e conversando, e ele podia jurar ter visto um brilho diferente nos olhos do colega. Um brilho que vinha iluminando, gradualmente, o olhar opaco de cada um deles, mas que, para Soonyoung, ficava ainda mais belo iluminando o breu entre aquelas adoráveis pálpebras apertadinhas.

— Ele deve ter entrado direto para o quarto, Soonie.

— É… deve ter sido. É melhor eu checar se ‘tá tudo bem. Vejo vocês mais tarde — Com um aceno de cabeça, se despediu de todos, entrando pelo corredor que levava para a ala dos dormitórios. Alguns alunos já povoavam os arredores com seus burburinhos, mesmo que ainda faltasse algumas horas para o toque de recolher.

Achava engraçado como ali, naqueles corredores, se podia encontrar tantas mentes e histórias de vida diferentes, mas como tudo parecia exatamente igual, com o mesmo corte de cabelo obrigatório, o mesmo uniforme e o mesmo futuro imposto pelos pais. A camisa branca de uniforme com o logo da Academia Sung-Soo era transpassada pelos suspensórios vinho, que seguravam as calças também vinho que tinham apenas três tamanhos e, em geral, nunca eram o número de ninguém. As gravatas e os coletes, vestidos por cima de tudo, eram todos daquela mesma cor, e era incrível como um tom tão bonito se tornava tão banal naqueles corredores amarelo-creme mal rebocados.

Jihoon não estava no quarto. Jihoon sequer estava na ala de dormitórios, Soonyoung concluiu após longos minutos de busca incessante e mal sucedida. Encontrou-o somente quando ousou sair, e se perguntou o quê repelira o rapaz para tão longe.

Ele estava sentado em um dos bancos ao redor do lago, nos fundos da propriedade do colégio. As pernas estavam enroladas em posição de índio, e um caderninho de capa de couro pousava sobre seu colo, enquanto um lápis gingava sobre seus dedos, de um lado para o outro. Parecia imerso em pensamentos, e o outro não pôde deixar de desacelerar o passo, admirando a cena.

Os fios negros esvoaçavam quase imperceptivelmente sob a brisa morna do fim de tarde, emoldurando os olhinhos rasgados daquele jeitinho felino. Os lábios formavam um biquinho concentrado, como se estivesse fazendo força para exprimir os pensamentos de sua cabeça a fim de passá-los para o papel. Soonyoung viu-se se perguntando porquê os cortezinhos miúdos que avermelhavam a boca de Jihoon lhe chamavam tanto a atenção, e porquê aquele Lee Jihoon perdido em si mesmo destacava-se tanto do fundo de águas cristalinas.

— Ei cara, ‘tá tudo bem? — Com pesar, quebrou o momento.

— Ah, oi, Soonyoung hyung — Quando o colega sentou ao seu lado, Jihoon fechou o caderno discretamente, escondendo-o sutilmente da atenção alheia com as mãos.

— Você sumiu, eu nem te vi sair…

— Eu estou bem — Sorriu, sem graça, e por seu olhar, Soonyoung soube que ele estava mentindo.

— Você irá para a reunião hoje, não é?

— Na verdade, não.

— Não? — Virou levemente o rosto, em uma inquisição inocente. — Por quê?

O mais novo apertou os lábios. Conhecendo o hyung como conhecia, sabia que não seria tão fácil se desvencilhar dele. Por isso fugira, não por causa dos outros e sim, única e exclusivamente por causa dele. Jihoon não conseguia olhar em seus olhos e dizer não, não conseguia mergulhar fundo naqueles pedacinhos de universo e mentir. Por isso, só restavam duas opções: omitir ou contar a verdade. E era muito, muito difícil omitir algo da curiosidade infindável de Kwon Soonyoung.

— Eu não gosto de ler em voz alta, hyung. Muito menos se a leitura em questão for lírica — Cedeu, depois de concluir que não havia fuga. Estavam entrando em um campo minado, e qualquer passo em falso poderia representar uma explosão de sentimentos negativos em seu peito.

— Isso realmente é um problema para você, não é? — O tom da resposta era uma mistura de compaixão com a lentidão de um raciocínio. Ele estava pensando em uma saída para aquele problema. — E se você não precisar ler? Só estar lá, ouvir, rir um pouco. É bom se divertir, sabe? Faz o coração bater.

— Soonyoung. Todos irão ler, menos eu. Alguns talvez até apresentem poesias próprias, mas não eu. Todos sabem que eu sou esquisito, todos me olham com pena, como se eu fosse um incapaz. Já passo por isso na aula, e não é nada divertido.

— Mas isso não é uma competição, Jihoon! E você está errado. Nossos amigos gostam de você como você é. Olhe para mim! — Ficou de pé, de frente para o colega. Soonyoung era estonteantemente belo, e olhar para ele só serviria para lembrá-lo de mais alguns problemas em sua lista e deixá-lo ainda mais abalado. Por isso, não olhou. — Eu sou um esquisito problemático, e todos sabem disso, mas sei que eles gostam de mim, porque me fazem bem mesmo assim. Você me faz bem, e eu gostaria de ter a chance de te retribuir.

A cabeça de Jihoon parecia rodopiar sobre seu pescoço, e o ar parecia rarefeito para seus pulmões. Gostaria que o mundo fosse simplório como o mais velho tentava fazer parecer, mas como podia acreditar naquilo, se sabia que nem ele próprio acreditava? Soonyoung não costumava proferir palavras vazias, mas parecia não compreender qual era o real problema da situação.

— Você não entende. Só… me deixe em paz, hyung. Eu estou bem.

— Olhe para mim, Jihoon.

Não olhou, e ele se perguntava o porquê. Sempre compartilhavam olhares demorados, cheios de significados que os anos juntos os haviam ensinado a ler com fluência. Quando Jihoon não o olhava, Soonyoung tinha a sensação de que ele o estava escondendo algo.

— Você não me olha porque sabe que eu terei certeza que está mentindo se o fizer, não é?

— Mas que merda! Me deixa em paz — Finalmente, ergueu a face.

Imediatamente, algo em seu peito repuxou violentamente. Soonyoung tinha os lábios apertados em uma expressão dura que era muito diferente de seu habitual sorriso contagiante, e Jihoon jurou ver os olhos bem puxadinhos nos cantos tremerem levemente, incertos. Ele amava aquele rosto expressivo; amava a maneira como Soonyoung era puro e sincero, como seu sorriso era despretensioso, como seus olhos eram profundos em melancolia, como se houvesse algo, lá no fundo, que o atormentava profundamente, mas que não conseguia extinguir seu desejo de ser feliz e de fazer feliz. E ver o rosto que tanto amava daquela forma, serviu para que seu arrependimento fosse instantâneo e arrebatador.

Só que o medo que sentia ainda era maior, e estava tão acostumado a viver na defensiva, que faria de tudo para se proteger.

— Não — Era a resposta do mais velho.

— Não? Não o quê, Soonyoung? — O caderno que repousava sobre seu colo escorregou para o lado e, involuntariamente, as mãos livres se fecharam em punhos.

— Não vou te deixar em paz.

— O quê? Você ficou louco? — Jihoon ficou de pé. Era menor em pelo menos 10 centímetros, era franzino, suas mãos eram delicadas e suas unhas, compridas e bem cuidadas, e não fazia a menor ideia de como intimidar alguém. Mas Soonyoung entendeu o que aquela postura significava, e sorriu sarcasticamente.

— É, Jihoon. Eu não vou te deixar em paz — Deu um passo, e ambos ficaram cara a cara. Era a primeira vez em mais de dois anos que brigavam, e ninguém ousava fraquejar. — Não vou deixar você continuar se reprimindo. Não vou deixar você continuar sufocando sua própria existência e desperdiçando as chances de fazer essa vida de merda um pouco mais feliz. Eu não posso deixar você continuar fazendo isso consigo mesmo.

— Eu não pedi sua ajuda, Soonyoung. Eu tenho poucas opções, e estou fazendo o melhor possível com elas. Se estou ou não destruindo minha vida com minhas escolhas, o problema é todo meu — Estava tremendo, e não sabia se era de raiva. Sua voz saía baixa, o tom era ameaçador e sua expressão era impassível, e não desviou o olhar em momento algum. — Quanto maior as expectativas, maior a frustração. Já tive suficiente frustração por toda minha vida, por isso eu não voltarei a criar expectativas para nada.

— Isso é covarde; deixando de viver o hoje para não se ferir amanhã sequer é viver. Você só está sobrevivendo.

— Não seja hipócrita. Não é como se você não estivesse fazendo o mesmo — E não pensou antes de proferir as próximas palavras: — Pensei que você fosse entender o sentimento melhor do que ninguém, doutor Kwon. É por isso que você não dança mais, não é? Porque sabe que nunca poderá ser um dançarino, e não quer criar expectativas que jamais serão cumpridas. Você é exatamente como eu.

E ali, acabou a discussão.

Soonyoung ficou mudo. Aquele assunto era um tabu: todos os meninos sabiam, mas ninguém ousava falar sobre na frente dele.

Quando entrou para a Sung-Soo Academy, seu maior sonho era ganhar a vida dançando. Treinava sem parar, antes de ir para a aula e quando saía dela – ele era bom, sabia disso e deixava suas aspirações voarem longe, imaginando que o mundo estava sob seus pés ágeis e que seus movimentos leves poderiam levá-lo da Rússia à Argentina, de palco em palco.

Fazia um ano que não dançava mais. Soonyoung queria ser dançarino, mas não era dono do próprio destino. O senhor Kwon queria ser médico, mas era apenas um veterano inválido, e sendo assim, restava que seu filho fosse aquele que jamais pudera ser. O senhor Kwon não queria um filho dançarino, e um filho dançarino ele garantiria jamais ter.

E Jihoon, como todos os outros, sabia disso. Jihoon tratou os hematomas de Soonyoung com gelo, as feridas com água e o coração com amor. E Soonyoung nunca, jamais, esperaria que o mais novo pudesse ir tão longe para se proteger.

— Hyung… — Deu um passo para trás, batendo com as panturrilhas no banco e caindo sentado. Cobriu a boca com as mãos notando o que havia dito, vendo o rosto bonito empalidecer como se todo o sangue de seu corpo tivesse sido drenado para fora. — Eu não quis… eu não quis dizer isso, me desculpe. Eu nem pensei, eu só...

— ‘Tá tudo bem — Cambaleou um pouco, atordoado, com a visão turva pelas lágrimas que se formavam. — Você está certo. Não vá.

— Pare, por favor, eu nunca quis dizer isso — Mas ele quis. Lee Jihoon sabia que aquilo havia sido sincero, mas algumas verdades simplesmente não deveriam ser ditas.

Ele invejava Soonyoung tanto quanto sentia pena dele. Seria um advogado, não porque queria, mas porque sua avó achava uma carreira honrada, digna do nome da família e dos antecessores exemplares que tivera. Ele nem imaginava o que sua avó acharia se lhe contasse o que realmente gostava de fazer. Só que, por mais que suas vidas se parecessem, ele não era como o Kwon: Soonyoung tivera a coragem de começar algo, enquanto Jihoon mantinha seu caderno cheio de letras de músicas e poesias muito bem escondido de todos. Era um covarde que não tentava por medo de se machucar, enquanto o outro já havia se machucado tentando.

— A poesia é, para mim, o que a dança é para você, foi só o que eu quis dizer — Acrescentou, em meia voz, vendo um sorriso triste se formar no rosto alheio. Os olhos não se encontravam mais, por mais que Jihoon procurasse.

— É, Jihoon. Eu entendi. Você deve ser um grande poeta. Mas ninguém nunca vai saber disso, e a vida vai prosseguir sem que você contribua com seu verso.

E com um aceno sutil, foi embora, deixando para trás uma trilha de frustrações e um coração partido.


Notas Finais


1 - Poesia de Walt Whitman, "O Me! O Life!" https://www.poetryfoundation.org/poems/51568/o-me-o-life
2 - Pedaço da obra de Henry David Thoreau, "Walden" no qual se encontra a citação: http://www.antiromantic.com/walden/

BOM DIA, BOA TARDE, BOA NOITE!!! Nunca pensei que fosse atualizar tão rápido, mas cá estou eu. A verdade pra vocês: eu só tenho o plot montadinho, não tenho a história pronta e demoro muito pra escrever, então esperava que só conseguisse postar trocentos anos depois. Mas não!!! *happiness intensifies*. Mas e aí, estão dando muito view em Oh My!? Espero que sim. Bem, esse capítulo, junto com o anterior, é bastante introdutório. Ele é importante pra apresentar melhor os personagens e os conflitos que virão a se desenrolar a partir daí rsrs, mas é no próximo que a história >realmente< começa. No próximo capítulo, terá o primeiro encontro da Sociedade!!!! :o Ah, e não sintam raiva do Jihoon, coitadinho. Esse é só o começo.
Muito obrigada por lerem e até a próxima!


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