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História Sol da Meia Noite: O Despertar - Capítulo 1


Escrita por:


Notas do Autor


Oi pessoinhas ><
Espero que estejam tão animados quanto eu para essa nova etapa dos lobos e feiticeiros que tanto amamos haha
Eu queria agradecer imensamente a todo o amor e apoio que Sol da Meia Noite recebeu, foi uma das coisas que possibilitaram essa nova temporada, então obrigada de vdd :3
Não esperem menos de quinze dias pelo próximo cap kk como disse lá em SMN, esse cap é um agradecimento pelo apoio de vcs, mas pretendo escrever um pouco mais antes de ter uma frequência boa de postagens...
Por enquanto, matem um pouquinho a sdd dos nossos nenês e comecem a teorizar ~

Boa leitura, perdoem os errinhos e até as NF!

Capítulo 1 - Cinco Anos Depois


Havia um motivo para aquela se chamar a Ilha da Montanha Furada: dentre a cadeia de montanhas no tom de chumbo e rochas vulcânicas havia uma em específico que tinha no centro de sua configuração uma enorme circunferência faltando. Era como se um canhão imenso houvesse perfurado seu estômago, dando visibilidade para o céu e suas nuvens do outro lado. Havia uma lenda entre os residentes da ilha de que, eras passadas, imensos e poderosos dragões tinham feito daquele lugar seu lar. E entre batalhas de poder e magia, uma bola de fogo havia sido cuspida de forma a alterar eternamente a morfologia das montanhas. Anos no futuro, o imenso espaço entre as rochas seria usado para sediar o castelo dos Anciões.

Havia um motivo para aquelas terras serem áridas. A mesma lenda que afirmava que o buraco na montanha havia sido causado por uma bola de fogo de algum dragão imenso dizia que suas lutas sanguinolentas haviam manchado a saúde da ilha para sempre. Que as terras jamais poderiam ser férteis novamente depois de cobrirem os corpos mortos de seres tão poderosos, depois de serem incessantemente queimadas por eles. Era nisso que os feiticeiros acreditavam.

 Os dragões eram grandes e respeitáveis, seres temidos e admirados que protagonizavam seus passados, alguns acreditavam que eles eram a razão de haver magia no mundo, a magia que atualmente corria em suas veias. Outros achavam que esses pensamentos eram delírios desesperados daqueles que tentavam ver algo positivo no exílio de sua espécie. Fosse qual fosse a verdade, a Ilha da Montanha Furada há muito deixara de ser o reino nobre de criaturas soberanas.

 Para os marinheiros que se arriscavam na pesca, a visão poderia ser a mais paradisíaca de suas vidas: a areia branca cobrindo o solo da praia parecia beijar as ondas azuis que se desfaziam em espuma no litoral. Rochas cinzas eram, por vezes, usadas como acento para os transeuntes e a vegetação era verde e vistosa à perder de vista. Mas nenhum povo marcado pelas cicatrizes da guerra montaria seu vilarejo à beira-mar, na linha de frente de qualquer ataque.

 Os feiticeiros viviam no centro da ilha, onde sua verdadeira natureza se revelava. Nada da beleza etérea da praia que a cercava. O arredor da vila era tão seco e cinzento quanto a superfície das montanhas longínquas que guardavam os Anciões. A terra era negra com partículas brilhantes, feita das rochas vulcânicas que se desintegravam sob seus pés. As árvores não floresciam nem no melhor dos climas, como se sua vitalidade fosse sugada pelo solo, sobrando apenas esqueletos decrépitos apontados para cima. Em uma clareira cercada pelo cinza e preto do coração da ilha, a vila dos feiticeiros se erguia.

 O comércio não passava de tendas de pano erguidas para proteger o pouco que conseguiam plantar do outro lado da ilha. A parte posterior à montanha era a única onde ainda conseguiam o cultivo de algum tubérculo ou vegetal e talvez alguém se perguntasse: por que morar no cerne inóspito, então? E os feiticeiros tinha dois motivos: o terreno íngreme do outro lado da montanha parecia esperar qualquer mudança abrupta de peso para se desmanchar em direção ao mar. O segundo motivo era que tudo o que ficassem para além da Montanha Furada era posse dos Anciões. Até mesmo para que plantassem e comercializassem seus insumos deveriam pedir permissão para eles primeiro e pagar, na forma de metade de seus produtos, pelo uso das terras que declararam como deles.

 – A terra não pertence a ninguém, isso é ridículo – Chittaphon sempre resmungava quando pagavam seus tributos. Eram sortudos por conseguirem uma porção de terra para cultivar suas leguminosas, sabia disso. Mas toda a situação restante parecia absurda demais para que se calasse. Taeyong prendia um sorriso nos lábios finos ao seu lado – Nós pertencemos a natureza. Deveríamos, no mínimo, coexistir.

 Taeyong assentiu. Normalmente guardava para si mesmo seus próprios pensamentos sobre a forma como os Anciões administravam as terras da ilha, tinha experiência o suficiente para entender que não deveriam enfrenta-los. Mas nunca deixava de concordar com Chittaphon de seu modo silencioso.

 Chittaphon era fruto de um amor genuíno, mas a gravidez de risco havia tirado sua mãe de sua vida antes mesmo que pudesse reconhecer seu rosto. Menos de dois anos depois, seu pai – um dos melhores pescadores da vila – havia partido com o barco pesqueiro e sido engolido pelas ondas revoltas. O curandeiro que realizara seu parto havia sido o responsável por sua criação desde então, por isso Taeyong não mais estranhava a singular ligação de Chittaphon com a natureza quando foi no meio de ervas medicinais e ensinamentos atemporais que  ele crescera. O conhecia desde o nascimento, ouvira os sussurros dos pais quando ele se tornara órfão e o observava carregar a pequena cesta repleta de ervas desconhecidas sempre que saía junto do velho curandeiro Kibum para repor o estoque. Taeyong havia ganhado um pequeno soldado de madeira, esculpido por seu próprio pai, quando resolveu chamar Chittaphon para brincar pela primeira vez.

 Nunca mais se separaram.

Agora dividiam o trabalho que a pequena porção de terra cedida para Kibum rendia, plantavam, cuidavam e colhiam o que conseguissem antes de entregar para os Anciões e vender o restante na vila. Nunca haviam pisado no castelo, os tributos eram pagos para servos internos que ficavam espalhados pelas terras de plantio como abutres prontos para atacar o pescoço daqueles que tentassem fugir das responsabilidades. Enquanto Chittaphon entregava parte das cenouras para os servos em mantos negros e os observava pesar o conteúdo em uma balança que descansava nos limites da área de plantio, seus olhos subiram metros acima, até a Montanha Furada, até o castelo dos Anciões. De onde estava, via apenas a silhueta negra subindo metros acima da terra arenosa, entranhada no círculo da montanha como um tumor. Chittaphon quis ser capaz de arrancá-los de lá com um simples puxão.

– Está faltando – a voz era baixa e sem emoção, como se servir aos Anciões tivesse como o preço perder a própria alma. Chittaphon saiu de seus devaneios para olhá-lo confuso. Taeyong deu um passo para trás, como se temesse sua reação.

– Como assim, faltando? – questionou, tentando prender a irritação no peito – Colhemos trinta cenouras hoje. Tem quinze na cesta que te entreguei.

 Ele viu, mesmo encoberto pelo capuz, quando o servo passou a língua pelos lábios. Era um dia de sol quente, que incomodava a pele mesmo antes de atingir seu pico. Chittaphon chegou a cogitar o incômodo que era passar o dia parado sob os raios escaldantes coberto pelo manto pesado, mas a forma como o servo suspirou como se não pudesse fazer mais nada por ele o fez desejar que ele derretesse lá embaixo.

 – Novas regras: o tributo não é mais por quantidade, apenas por peso – ele anunciou fazendo a mandíbula de Chittaphon despencar em seu semblante incrédulo – Para o seu tipo de cultivo, são necessários cinco quilos do alimento.

 Taeyong sentiu quando o corpo de Chittaphon tremeu, evidenciando a tensão que fazia o poder correr de forma tão potente em suas veias que irradiava ao redor. Até mesmo o servo encapuzado deu um passo para trás e não foi surpreendente notar que os olhos de Chittaphon haviam transmutado para a noite estrelada. Mas os servos dos Anciões não eram escolhidos por sua fraqueza e sabendo disso, Chittaphon inspirou profundamente e acalmou os próprios pensamentos até o castanho derreter todas as estrelas de seu olhar. Mas a fúria ainda mantinhas seus punhos cerrados.

 – Quer dizer que se eu tivesse colhido apenas cinco quilos de cenoura hoje eu teria que entregar tudo aos Anciões?

 O servo pareceu suspirar quando os ombros caíram, resignados. Por um momento Chittaphon quase acreditou que aquele gesto dizia eu sinto muito, mas logo a pose austera estava de volta e na mesma frieza de sempre, a voz fria anunciou.

 – São as novas leis.

 Chittaphon fechou os olhos com força quando sentiu os dedos esguios de Taeyong contornarem seu pulso. Calmo como apenas ele conseguia ser, Taeyong recolheu as cinco cenouras que agora lhes eram de direito, curvou-se educadamente ante o servo e saiu com os dedos ainda rodeando o pulso de um Chittaphon resignado. Os pés acostumados com o solo irregular logo se afastavam da área de plantação, deixando que os outros feiticeiros continuassem seus árduos trabalhos sem mesmo saber que deveriam abrir mão da maior parte deles na hora de ir embora.

 – É a quinta vez que você suspira dentro do mesmo minuto, Chitta – Taeyong comentou e Chittaphon relaxou os ombros quando percebeu que ele tentava sorrir, tornar a situação mais leve do que ela realmente era. Suspirou uma última vez e moveu os dedos para que envolvessem corretamente os dele.

 – Não poderemos vender essa semana. Não há legumes o suficiente estocados em casa e cinco cenouras não são produtos suficientes para o comércio – a mente de Chittaphon disparava pelos caminhos que teriam que traçar para cobrir o prejuízo daquela não-colheita. Sentiu os dedos de Taeyong acariciarem os seus.

 Ele carregava a bolsa de pano pendurada no ombro com as cinco cenouras que levariam para casa, sereno como o mar de maré baixa. Chittaphon, mesmo depois de tantos anos, tinha dificuldades em entender como ele conseguia ser tão conformado.

 – Vamos dar um jeito. Sempre damos.

 Era assim para Taeyong: não havia monte que não pudessem escalar ou obstáculo que não pudessem transpor. Chittaphon por vezes desejou que fosse mais parecido com ele e por vezes desejou soca-lo por toda aquela paz de espírito frente a tantas adversidades. O caminho continuou íngreme, descendo a encosta da Montanha Furada até que as planícies os levassem de volta ao vilarejo. Chittaphon não se espantou ao não encontrar o velho Kibum nas instalações simples, ele sempre era requisitado quando a magia de alguma família era insuficiente para tratar alguma enfermidade. A casa pequena de terra batida e madeira caramelo tinha panos esparramados pelo primeiro cômodo com almofadas que Chittaphon acreditava terem vindo junto de Kibum de terras distantes, quando eles ainda não eram um povo exilado. À direita havia uma mesa e duas cadeiras, além de um fogão de barro que funcionava à lenha: eram o que chamavam de cozinha. O último cômodo da casa era um quarto relativamente grande que dividiam, Kibum dormia no colchão gasto e ficava com os cobertores mais grossos – suas articulações sempre doíam se seus pés não estivessem quentes durante a noite. Ao lado do colchão no chão, outra porção de cobertores grossos que serviam de cama para Chittaphon. Nas noites realmente frias ele tinha que escolher entre dormir no chão frio para se cobrir com as mantas ou usá-las para forrar a terra batida. Chittaphon suspirou: antes, esses pequenos detalhes não lhe incomodavam tanto, mas desde a ascensão de Taeil vinha, inconscientemente, esperando por melhoras.

 Ele sentiu o beijo casto de Taeyong em sua nuca e suspirou como se pudesse exalar as tensões para fora de seu corpo. A sacola de cenouras foi depositada na mesa e Chittaphon pediu silenciosamente por um abraço quando trouxe as mãos de Taeyong para seu abdômen de forma que o envolvessem mais intimamente.

 – Vamos à praia – ele sussurrou depois de deixar um beijo sereno abaixo de sua orelha.

 Outra característica marcante de Taeyong era transmitir toda sua serenidade a outrem quando assim queria. E Chittaphon era genuinamente grato por tê-lo ao seu lado. Poderia dizer que tinha que ajudar Kibum ou preparar o almoço ou ainda cuidar das hortaliças e vegetais para a próxima feira. Mas não era o que seu coração o impelia a fazer naquele momento, então apenas assentiu e pediu que ele esperasse enquanto colocava as cenouras junto dos outros produtos. Ao lado do quarto, uma porta de remendos vazados se abria para os fundos da casa, onde havia o pequeno lavabo e caixotes com seus produtos. Chittaphon os observou: se ninguém viesse lhes procurar em busca dos alimentos, metade deles seriam jogados fora antes do final da semana. Inspirou profundamente e voltou o mais rápido que pôde para o lado de Taeyong, seguindo silenciosamente em direção à praia.

 Os sapatos de pano reforçados afundavam na terra fofa conforme se aproximavam da área mais arborizada da ilha e Chittaphon sentia que inspirar profundamente ali era muito mais calmante do que o fazer no cerne da vila. Já podia ouvir o barulho das ondas e o grito dos pássaros aquáticos, o cheiro de maresia se intensificava e, sem perceber, ele sorria. Não precisaram dizer nada para que entendessem que deveriam continuar seguindo até a água alcançar os pés. Tiraram os sapatos e os prenderam entre os dedos. Ambos fecharam os olhos quando a água fresca se entremeou entre eles. Chittaphon ouviu Taeyong suspirar.

 Pois essa era a verdade sobre ele: sua serenidade, sua calmaria, sua luz eram sim genuínas, mas não eram todo ele. Taeyong tinha um péssimo hábito de guardar os próprios sentimentos enquanto Chittaphon era explosivo em relação a eles. E por vezes se esquecia que tudo o que o afetava, afetava a Taeyong também. Querendo o tranquilizar tanto quanto era por ele, entrelaçou os dedos novamente e Taeyong sorriu antes de olhá-lo. Apenas alguém que o conhecesse como Chittaphon fazia poderia ver os resquícios da fúria que Taeyong escondeu sobre o sorriso reconfortante. Caminharam até uma das várias rochas escuras encravadas na areia branca, ainda descalços, e sentaram na superfície quente.

 Observaram o horizonte, no ponto onde o mar parecia tocar o céu, observaram as ondas e o balançar das folhas pelo vento ao redor. Mas pensavam em milhas e milhas para além daquele ponto e, mais uma vez, foi Chittaphon quem tocou no assunto.

– Eu não quero parecer ingrato – começou baixinho, sem desconectar os olhos do mar – Mas eu esperava mais mudanças depois que Taeil assumiu a coroa. Eu sei que ele já fez muito mais por nós do que qualquer rei antes dele, mas...

 Ele suspirou, pois a culpa de ter tais pensamentos povoando sua mente era realmente pesada. Mas não conseguia evitar e se confiava em alguém para escutá-lo sem o julgar, esse alguém era Taeyong. E como o esperado, sentiu a mão dele guiando a sua até os lábios finos em um selar tão carinhoso quanto o toque suave do polegar no dorso de sua mão quando ele voltou ambas para a rocha.

 – Você não é ingrato – começou – Mas nós conhecemos as regalias que a terra dos lobos possui. É inevitável que pensemos quando nosso povo poderá viver tão confortavelmente quanto eles – disse e Chittaphon o olhou, pois, antes mesmo de ver, sentiu o maxilar dele travar – E não são condições que dependa de Taeil.

 Chittaphon prensou os lábios e deixou que Taeyong tivesse o próprio momento reflexivo, deixou que o aperto em seus dedos se tornasse quase insuportável e as estrelas povoassem o olhar dele. E então, aproximou-se e selou seu maxilar com carinho, deitando a cabeça no ombro de Taeyong até ouvi-lo suspirar e passar o braço por seu corpo, aproximando-os mais. Pois Chittaphon podia se resignar contra as ações dos Anciões e desprezá-los com toda a sua inerente fúria, mas para Taeyong era diferente. Era pessoal e a intensidade de um ódio pessoal era densa e grande demais para ser comentada.

 A morte do pai de Chittaphon era quase uma lenda, o pescador que mais abastecia e supria as necessidades de carne do vilarejo. Mas a história do pai de Taeyong era deixada no obscuro do silêncio, impedida de ser comentada até que lentamente desaparecesse, como suas pegadas contra a areia. O pai de Chittaphon era uma lenda, o de Taeyong, um tabu. E a culpa era dos Anciões, os mesmos Anciões que – mesmo em sua longínqua instalação – retardavam o processo de fusão com o reino dos lobos, o processo de melhoria de seu próprio povo.

 – Eles estão muito silenciosos – foi o que Taeyong comentou e Chittaphon se ergueu de seu ombro para encará-lo, percebendo que ele ainda analisava as ondas – Há cinco anos eles tiveram todos os planos frustrados e o que fazem? Sua Escolhida não foi capaz de destruir os lobos e eles se silenciam? Não se rendem nem atacam de volta. Isso não parece natural para mim. Eu sinto que planejam algo.

 Quando Chittaphon o abraçou mais apertado, beijando seu pescoço com carinho, queria dizer que ele não se preocupasse com conjecturas sem sentido. Mas havia um calafrio tenebroso que subia sua espinha sempre que pensava no castelo entranhado na montanha.

E se tratando dos Anciões, o quanto Taeyong estava realmente sendo pessimista?

Chittaphon não apostaria suas fichas contra ele.

��

 Jeno havia nascido no auge da primavera e seu aroma refrescante de gengibre inundava os salões por onde passava. A princípio, Taeil acreditou que sua maturação revelaria um ômega como ele mesmo, mas dia a dia, a centelha de gengibre diminuía para dar espaço a um cheiro metálico entremeado por sálvia. Ainda era incerto dizer, mas Youngho apostava que ele seria um alfa, tal como a si mesmo. Não era nada que realmente importasse para eles, mas gostavam de implicar um com o outro nas apostas sobre quem Jeno teria puxado.

 O salão que sediara um casamento arranjado anos atrás agora estava enfeitado com arranjos enorme das flores da estação, desde as silvestres até as orquídeas coloridas, que tombavam das mesas como se beijassem os convidados. O aniversário de cinco anos de Jeno era aberto para todos os aldeões que se sentisse à vontade para participar e não apenas isso: Jaemin, o filho de Jungwoo, também completava a metade de sua primeira década naquele mesmo dia.

 – Eu nunca vou acreditar no quão invejoso você é, Kim Jungwoo – Taeil não deixava de alfinetar, mesmo quando estavam vestindo os filhos para as comemorações. Jungwoo, como sempre, se restringia a revirar os olhos e prender um sorriso – Parir Jaemin no mesmo dia que Jeno nasceu foi o auge que nunca achei que você fosse alcançar.

 Enquanto ajeitava o linho fino e festivo no corpo macio de Jaemin, Jungwoo abriu um sorriso forçado enquanto falava entredentes.

 – Seu tio Taeil não faz ideia do quão sortudo é por termos crianças nesse cômodo, meu amor – disse e Jaemin, mesmo sem entender, acabou rindo da cara do pai e da risada alta do tio – Se não seu papai já teria falado muitas palavrinhas feias na cara dele.

 Quando Jeno e Jaemin gargalharam na mesma hora, ambos os pais os puxaram em direção aos corpos quentes para enchê-los de beijos. Não se importavam realmente com as roupas que amassavam, aquelas pequenas criaturas tinham a habilidade de fazê-los transbordar de amor a cada instante e deveriam lidar com as consequências. Em meio as risadas quase desesperadas pelos ataques de beijos, a porta do quarto real foi aberta e Taeil inspirou intensamente o aroma de hortelã que invadiu antes de sentir sua pequena preciosidade se desvencilhar de seus braços para correr até o outro pai, com Jaemin em seu encalço.

 – Como assim estavam em uma sessão de beijos sem me convidarem?! – a voz altiva fez Taeil sorrir meio rendido e Jungwoo meio bobo. Era inegável o jeito que Youngho tinha com crianças e logo ele tinha ambos os pequenos lobos no colo, um em cada braço enquanto recebia beijos babados como desculpa no rosto.

 O sorriso dele era tão enorme que Taeil abriu ainda mais o próprio enquanto se aproximava.

 – Fechem os olhos, crianças. Minha vez de dar um beijinho no papai e titio de vocês – anunciou e mesmo fazendo barulhos de nojo, nem Jeno nem Jaemin desviaram o olhar enquanto os lábios se encontravam suave e rapidamente em um selar de cuidado.

 Não era como se já não ficassem expostos aos carinhos e amor deles todos os dias. Era natural, mesmo ainda tão jovens, observar como o amor realmente era. Cuidadoso e suave, as vezes irritadiço, mas sempre confiável. Era o que Jeno e Jaemin aprendiam todos os dias: que poderiam confiar de olhos fechados nas pessoas que amavam e o amavam incondicionalmente de volta.

 – Yukhei está procurando por você – Youngho anunciou por fim, voltando a atenção para Jungwoo que ainda estava sentado no divã do quarto. Suspirando, se pôs de pé com elegância. O casaco de veludo vinho bordado de dourado o deixava extremamente nobre e não era para menos: Jungwoo havia sido oficialmente promovido a conselheiro real.

 Deixou o aroma de chocolate embalar a todos enquanto passava por eles, pegando Jaemin no colo com um sorriso e beijando mais duas vezes as bochechas protuberantes.

 – Fica um pouquinho com os tios enquanto vou falar com seu papai? – pediu e Jaemin fez um bico antes de falar.

 – Quero ver o papai também – disse e Jungwoo revirou os olhos falsamente. Os cabelos negros haviam crescido e vez ou outra, precisava fazer um gesto abrupto para tirá-los dos olhos.

 A festa era uma surpresa para ambos, assim sendo, Jaemin não desceria com ele.

 – Você irá vê-lo logo, meu querido ciumento – disse, apertando os lábios contra a pele delicada do pescoço cheiroso, soprando o ar para fazer um barulho alto que fez Jaemin gargalhar e concordar em ficar com os tios – Volto já.

Os mais novos logo se distraíram com os brinquedos que – magicamente – viviam espalhados por todos os cômodos do palácio. Sob uma supervisão não tão rigorosa, fingiam ser cavalheiros sentados no tapete felpudo enquanto os reis se dirigiam para a calmaria de sua varanda.

 – Consegue acreditar que ele já está fazendo cinco anos? – Youngho havia escorado contra a mureta e afastado as pernas para que Taeil ocupasse o espaço entre elas.

 Não importavam quantos anos se passassem, a forma como o corpo pequeno dele sempre parecia encaixar no seu sempre o faria suspirar. Taeil apertou as mãos que envolviam sua cintura.

 – Não gosto de pensar em como o tempo passa rápido – resmungou e Youngho riu próximo a sua orelha, arrepiando-o antes de beijar seu pescoço – Parece que nunca há tempo o suficiente.

 E Youngho o conhecia o suficiente para saber que ele não falava apenas do crescimento do filho. Por melhor que fossem suas intenções, o progresso com o povo da ilha – os feiticeiros – vinha andando muito mais lentamente do que Taeil esperava. Foi girado entre os braços de Youngho e sorriu quando ele beijou o espaço entre suas sobrancelhas.

 – Você sabe que está fazendo o melhor que pode, não sabe? – murmurou naquele jeito que aprenderam a falar principalmente depois do nascimento de Jeno. O jeito segredado que mais ninguém escutava ou entendia, apenas deles dois – E que está fazendo um ótimo trabalho.

– Tenho consciência disso – falou em um sorriso convencido que não chegou em seus olhos e se desfez facilmente, como névoa contra o vento. Subindo as mãos pelos braços de Youngho, Taeil encarava seu peito antes de falar – Mas também tenho consciência que os acordos comerciais e a abertura dos portos não acabam com a miséria deles.

 Youngho amparou ambos os lados de seu rosto até que estivessem se encarando. Mais intenso do que quando estava com as crianças no colo, juntou os lábios de forma a transmitir toda a confiança que tinha em seu marido. Viu as noites que ele passava em claro, viu os planos frustrados e ideias contestadas antes que alguma coisa começasse finalmente a dar certo entre eles e os feiticeiros. Viu a rejeição de parte do povo, mas também viu algum apoio. Viu como a visão sobre os feiticeiros já era diferente para a nova geração. Eram lentas e pequenas, mas eram mudanças.

 – Você está mudando o mundo, meu amor – murmurou enquanto Taeil abria os olhos lentamente, um brilho intenso de quem acredita fielmente nas palavras do marido – Da melhor forma que pode agora, sendo a faísca que um dia incendiará toda a ideia errônea sobre os feiticeiros e transformará a miséria deles em cinzas.

 Taeil sorriu docemente e selou os lábios de Youngho mais uma vez antes de se afundar no abraço dele. Ali, entre os braços musculosos, ele era apenas Moon Taeil. Sem soberania ou deveres, responsabilidades ou desafios. Era o Taeil de Youngho, podia ser menor do que precisava apenas para caber no cercado dos braços e ser protegido por ele. Assim como fazia o mesmo quando ele precisava.

 – Eu te amo – sussurrou e ouviu ele murmurar o mesmo de volta antes de notar um ponto marrom atracado no porto leste da cidadela. Sorriu genuinamente,

 – Seus outros titios chegaram, meninos – anunciou, virando para trás a tempo de vê-los largando os brinquedos para correrem até as aberturas da mureta, onde tinha pouca visibilidade da cidade.

 Jaemin logo estava no colo de Youngho e Jeno no de Taeil, rindo animados enquanto era explicado que Chittaphon e Taeyong estavam, naquele momento, desembarcando nas terras reais. A visita dos feiticeiros, mesmo que fizesse alguns torcerem o nariz, sempre os deixava eufóricos. E por ora, especialmente naquele dia, era apenas isso que importava para Taeil.

 A felicidade de suas crianças quase gêmeas e a presença daqueles que realmente amava em ocasião tão especial. Podiam esquecer por um dia a miséria e os acordos, podiam focar – por um dia – no que realmente importava e sempre caberia no cercado de seus braços.

 


Notas Finais


É isso, galeris!
Os Dreamies smp sendo os filhotinhos de alguém, surpreende quem? Shueshue
Uma palinha de cada realidade pra vcs sentirem como andam as coisas, não deixem de me dizer oq acharam ;)

Obrigada por lerem até aqui e até o próximo ~
XOXO

Capa pelo lindíssimo @SW_city com design de @nobodyxz_ :3


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