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História Sol da Meia Noite: O Despertar - Capítulo 2


Escrita por:


Notas do Autor


Oi pessoinhas ><
"Ai Safira mas vc não falou pra não esperar outro cap antes de 15 dias?"
Falei sheuhsue mas como leitora eu sei o qnt esse tempo é longo e vcs são sempre tão carinhosos comigo, já deram tanto amor nessa recém nascida que nada mais justo do que voltar com essa surpresinha :3
Se eu não der conta de att semanalmente eu aviso, mas vou tentar o meu melhor conciliando escrita com faculdade ^^

Boa leitura, perdoem os errinhos e até às NF!

Capítulo 2 - Moedas de Prata


Quando as vozes foram abafadas pelo cair da noite e poucos convidados pontuavam as mesas floridas do salão de festas, Chittaphon decidiu caminhar pelos jardins do palácio. As gramas eram suaves contra a sola de seus pés – descobertos propositalmente, pois não era todo dia que podia se conectar com a natureza daquela forma. Quando ergueu os olhos para o céu, suas íris já tinham se liquefeito do castanho para o prata. Os feiticeiros tinham uma intensa ligação com a noite, era o horário em que seus poderes alcançavam níveis estratosféricos e a mudança das retinas era apenas um fator estético.

 Chittaphon sentia que poderia nadar mares à braçadas, descer o poço mais fundo ou escalar o monte mais alto sem qualquer ajuda. E mesmo assim, mesmo com toda essa força que sua magia inerente lhe atribuía, se via cada dia menos apto a ajudar seu povo.

 – Foi exatamente aqui que beijei Youngho pela primeira vez – a voz de Taeil nunca perdera a doçura e Chittaphon sorriu antes de erguer o semblante na direção do rei.

 Ele havia se livrado do manto festivo e majestoso, e apesar do linho caro que o cobria, Taeil parecia tão simples quanto qualquer aldeão enquanto se agachava para sentar ao lado de Chittaphon. Era o que mais gostava nele e em Youngho: tinham na palma da mão o reino mais forte de toda a história e ainda eram o tipo de pessoa que se emocionavam se ganhasse uma flor arrancada no meio do caminho como presente – se sua intenção fosse realmente pura.

 – Não posso negar que é um lugar romântico, majestade – Chittaphon mais sentiu do que viu quando Taeil o olhou de soslaio falsamente irritado e não pôde deixar de rir da expressão – Digo, Taeil.

 Ele sorriu como se dissesse “melhor assim” e instantaneamente Chittaphon se esqueceu dos pensamentos egoístas que tinha sobre o rei dos lobos. Aquele homem sentado ao seu lado moveria céus e terras pelo bem de alguém, fosse ou não do seu sangue.

 – Taeyong e Youngho parecem ter muito em comum – Taeil comentou enquanto abraçava os próprios joelhos, os olhos ora encaravam as flores, ora as estrelas acima – Primeiro perco meus filhos para vocês, agora meu marido. Sinceramente, vocês ainda me deixarão nu antes de voltar para a ilha.

 Chittaphon riu.

 – Não acho que seja algo que Youngho apreciará – comentou. Taeil agora sorria um sorriso diferente, do tipo que parecia guardar toda a sabedoria do mundo. Era quando ele tomava esse semblante solene que ficava óbvia sua posição real.

 – Vocês não me pareceram bem quando chegaram hoje – começou e Chittaphon não foi capaz de manter o contato dos olhos e Taeil não parecia inclinado a força-lo. Ambos observavam as belezas noturnas – Taeyong tem um jeito sutil de disfarçar que algo o incomoda. Me lembra Youngho – ambos sorriram – Mas você é transparente como as águas do rio, posso lê-lo como um livro aberto, Chitta – foi quando o feiticeiro ergueu o semblante para o rei e ele ainda sorria pequeno – Lembra a mim mesmo.

 Chittaphon suspirou, trazendo as pernas para ainda mais perto do peito. Cinco anos de amizade haviam revelado muito um do outro e ele poderia dizer que conhecia nuances de Taeil que reles aldeões e feiticeiros mal imaginavam. Tudo aquilo começou com sua lealdade imposta pelos Anciões à Escolhida, mas agora era diferente. Não era apenas a lealdade de um dogma, era a lealdade de uma amizade. E amigos percebem quando algo não vai bem.

 – São os Anciões novamente, nada muito grave – tentou começar a falar e sabia que Taeil prestava toda a atenção do mundo em suas palavras – Aumentaram os tributos que devemos pagar e mal temos notícias sobre o que acontece no palácio. Eles não visam a melhora da vida de nosso povo, Taeil.

 A última frase saíra no mesmo tom baixo que as outras, mas salpicada de um desespero que ficou claro à Taeil quando o feiticeiro ergueu os olhos prateados em sua direção. Umedeceu os lábios, a responsabilidade de rei e de amigo pesavam igualmente em seus ombros. Tirou a mão esquerda de Chittaphon do descanso em seu joelho e a envolveu em um carinho singelo.

 – Eu queria poder fazer mais pelo nosso povo – e toda vez que Taeil o lembrava que o enxergava como igual, uma onda de alívio se apossava de Chittaphon – Eu sinto muito que as mudanças estejam sendo tão lentas.

 Chittaphon negou e retribuiu o aperto dos dedos.

 – Eu sei que está fazendo seu melhor para que os braços reais alcancem os feiticeiros também – disse com sinceridade, pois, apesar de toda a frustração, sabia disso no fundo de seu peito – Não depende apenas de você. Os Anciões continuam com práticas e pensamentos muito conservadores e autoritaristas, eu sei que eles repelem suas tentativas de aproximação com muito mais veemência do que usam para nos ajudar.

 A linha fina cujos lábios de Taeil se transformaram e a suave marca enegrecida abaixo dos olhos mostravam que Chittaphon estava certo. Taeil tentava sim adentrar os mistérios da Ilha da Montanha Furada, levar sua benevolência para a outra parte de seu sangue. Mas não era sua boa vontade que conseguiria convencer os Anciões a aceitarem suas alianças.

 – Por que vocês não vêm para cá até que tudo se ajeite? – e, não surpreendentemente, não era a primeira vez que ele convidava – Sabe que você e Taeyong sempre serão bem-vindos em minha casa. Os meninos também adorariam tê-los por perto. São emissários dos feiticeiros, representantes reais do povo. Nem mesmo os lobos poderiam contestar sua estadia.

 Chittaphon sorriu pequeno e deitou a cabeça no ombro de Taeil. O rei sabia que ele negaria e o que mais partia seu coração era perceber que, toda vez que Chittaphon negava se mudar para seu reino, ele o fazia sem olhar em seus olhos. Como se temesse pensar demais e acabar aceitando.

 – Não posso abandoná-los – murmurou e Taeil contestaria dizendo que aquilo não era abandono, mas se calou porque o entendia. Não seria o feiticeiro de regalias por ser amigo do rei. Se seu povo não fosse abarcado nas bênçãos, Chittaphon não as aceitaria também.

 Isso fez Taeil sorrir antes de beijar os cabelos sedosos que se espalhavam por seu ombro, orgulhoso.

 – Você é muito mais corajoso do que eu jamais seria, Chitta – murmurou e ele ergueu o semblante surpreso para encontrar o sorriso carinhoso de Taeil – Nós vamos mudar o máximo que pudermos dessa situação, juntos.

 O feiticeiro assentiu de forma adorável, em uma das únicas vezes que deixava transparecer seus vinte anos recém completos. Taeil o achava muito novo para carregar tantas responsabilidades, mas não tinha local de fala quando seu próprio destino havia sido traçado em idade ainda mais precoce.

 – Sabe, ser um emissário não muda muito minha vida por lá – Chittaphon comentou se erguendo de seu ombro e Taeil percebeu que ele finalizava o tom sério do assunto – Eu ainda cuido das plantações de Kibum e pago tributos como todos os outros.

 Taeil ria enquanto se erguia, batendo as folhas curtas presas em sua roupa real e estendendo as mãos na direção do feiticeiro.

 – Gostaria de relembrar que foi você quem se autodominou o humanista que não aceita regalias a não ser que todo o seu povo a ganhe também – disse e Chittaphon deixou os ombros caírem teatralmente.

 – É difícil ser um ícone dos direitos igualitários.

 Eles ainda riam enquanto caminhavam de volta para o castelo. Antes de entrar, Chittaphon escondeu os pés nos sapatos de gala e encontrou duas presenças marcantes passando pela direção oposta a deles.

 – Príncipe Yuta, achei que passaria a noite conosco – o tom cortês de Taeil era um pouco menos amigável e um pouco mais rebuscado com Yuta do que era com Chittaphon, o feiticeiro percebia. Por melhor que fosse a relação deles, não eram amigos íntimos.

 Yuta olhou primeiro para Chittaphon antes de sorrir educadamente para Taeil.

 – Surgiu uma emergência e meu dever me chama, infelizmente – disse e pareceu sincero. Seu marido, o jovem e elegante Sicheng dos fios dourados, observava a tudo com uma distância que era mais pela timidez que pela arrogância.

 Durante toda a festa, Yuta lhe dirigira poucas palavras e todas elas eram friamente polidas. Chittaphon tentava não julgar os povos lupinos, sabia das ideias errôneas que tinham de seu povo, mas nem sempre era tão fácil. Eram por olhares como os de Yuta que ele acabava saindo em passeios noturnos e solitários no meio de uma festa de aniversário.

 – É uma pena, realmente – Taeil se pronunciou e sorriu doce para Sicheng – Espero que possamos conversar melhor em uma próxima oportunidade.

 Sicheng abaixou o semblante envergonhado quando o rubor tomou suas bochechas. Ele chegara acanhado e gago para Taeil depois do início da festa em pedidos suplicantes por conselhos de paternidade. Era um assunto delicado uma vez que Sicheng era incapaz de gerar um filho de Yuta, mas ambos sempre tiveram como idealização de família a junção de seu amor mais uma criança. Foram alguns anos de conversas e mudanças sutis nos pensamentos de conselheiros para que aceitassem um herdeiro que não fosse do sangue deles – porque Yuta poderia se relacionar com qualquer ômega e esperar que lhe entregassem seu fruto, fisiologicamente. Mas era incapaz de cometer tal traição para com o coração de Sicheng e o seu próprio. Assim, acordaram em uma adoção. Taeil conversara com ele por um tempo, acalmando-o sobre a grande aventura que começariam juntos, mas os afazeres da festa por vezes interromperam seus assuntos e agora com a partida precoce, sentia que muito havia deixado de ser falado.

 – Eu também espero. Venha nos visitar durante os festivais, seria uma honra recebe-los – Sicheng, delicado e com elegância provinda de berço cujo nobre algum poderia clonar, proferiu antes de se aproximar de Chittaphon, que o observava tão surpreso quanto os outros – Foi um prazer conhece-lo, Chittaphon. Espero que possa ir com Taeil nos visitar.

 O feiticeiro precisou de um momento para sair do estado catatônico e assentir, grato pelo convite. Sorriu genuinamente para Sicheng. Ele fora educado e gentil, fazendo piadas suaves e sussurradas durante a festa e deixou Chittaphon mais confortável com a perspectiva de que, um dia, ele seria igual aos olhos de todos os lobos como já o era para Sicheng e Taeil. Quando Yuta sorriu duramente e se curvou em sua direção antes de sair, Chittaphon resolveu o dar o benefício da dúvida.

 Entendia que não podia esperar que todo um tabu sobre os feiticeiros fosse descontruído da noite para o dia – mesmo que cinco anos já tivessem se passado –, mas conseguia ver os esforços daqueles que tentavam diariamente incluí-los em suas realidades.

 Taeyong estava deitado com a cabeça de lado no próprio braço que se esticava pelo comprimento de uma mesa cuja toalha estava torta. Abaixo das íris prateadas, um rubor característico da embriaguez fez Chittaphon sorrir docemente antes de acariciar os fios macios, vendo-o suspirar e fechar os olhos, movendo-se minimamente na direção de seus dedos pedindo por mais.

 – Confesso que ele é um companheiro de copo formidável – Youngho, sentado com as pernas longas afastadas, tinha o tronco largado de uma forma não muito elegante para um dos reis dos lobos. Os olhos vidrados e os risos esporádicos e sem motivo faziam-no entender que a embriaguez havia sido atingida em conjunto.

 Taeil ria tão rendido quanto Chittaphon enquanto tentava erguer o corpo grande do marido, deixando que ele se apoiasse no seu antes de procurar rapidamente pelas imediações do salão com os olhos.

 – Jungwoo os levou para a cama – Yukhei apareceu do corredor que levava às escadarias do restante do castelo, respondendo a pergunta muda de Taeil e recebendo um sorriso agradecido em resposta – Quer que eu lhes guie até seus aposentos?

 Dado o fato de aquela ser a casa de Taeil, Chittaphon entendeu que a pergunta era direcionada a si. Ainda era uma confusão de braços e mãos enquanto tentava comportar o corpo esguio de Taeyong ao lado do seu – se lembraria de perguntar a Taeil como ele equilibrava um corpo como o de Youngho tão bem, posteriormente. Eles costumavam ficar sempre no mesmo quarto, Chittaphon sabia o caminho de cor e Yukhei sabia disso. Então a verdadeira ajuda que oferecia era a de transportar o corpo torpe de Taeyong até lá. Rindo soprado, Chittaphon assentiu.

 – Eu seria imensamente grato – foi o que disse e Yukhei caminhou sorrindo até amparar o outro lado de Taeyong, transferindo quase todo o peso para si mesmo.

 Cinco anos antes, quando os viu pela primeira vez, foi inevitável que Yukhei não transferisse parte de sua amargura sobre o sequestro de Jungwoo para os jovens feiticeiros. E assim foi por um longo tempo, tolerando suas presenças e os tratando com distanciamento sempre que chegavam ao palácio. Mas então seu pequeno Jaemin nasceu, minúsculo e indefeso, procurando o calor de seus braços e o acalento de suas canções de ninar antes mesmo de aprender a falar. E tudo se transformou.

 O coração já gentil de Yukhei amoleceu ainda mais, mas o que fazia de Chittaphon e Taeyong seus amigos íntimos nos dias atuais era o tratamento que ofereciam ao seu primogênito. Com apenas seis meses de vida, Jaemin mostrava grande dificuldade para respirar e mesmo que Taeil tivesse a força dos feiticeiros, não tinha seus conhecimentos. Pediu encarecidamente a ajuda de Chittaphon, que cedeu parte das ervas de Kibum para curar o bebê. Com sua magia e a de Taeyong, passaram uma noite em claro o velando e tratando cada célula preguiçosa que não conseguia carregar devidamente o oxigênio. No dia seguinte, exaustos, deixaram os pais de Jaemin entrarem e quando a criança sorriu no colo de Yukhei, o beta perdoou qualquer injúria passada que pudesse ter sofrido pelas mãos dos feiticeiros.

 Prendeu Taeyong e Chittaphon em seu abraço de urso e foi inevitável que não se aproximassem ainda mais com o tempo.

Enquanto deitava Taeyong na cama de casal de um dos quartos de hóspedes, Yukhei sorria ao se lembrar da rixa que criara sozinho em sua mente tempos atrás e o quão bondosos eram aqueles feiticeiros de olhos prateados, o quanto os lobos poderiam aprender com a gentileza de seus corações.

 – Obrigado, Yuk. Não conseguiria sem você – Chittaphon, ligeiramente sem fôlego, agradeceu. Yukhei sorriu e negou, batendo amigavelmente em seu braço antes de lhe desejar boa noite.

 Chittaphon pressionou os músculos da nuca e suspirou contra o teto do quarto, rindo ao perceber Taeyong resmungar e puxar um travesseiro contra o peito. Havia dormido com um bico formado nos lábios. Chittaphon seguiu para o compartimento do banheiro, mas se restringiu a lavar os pés, o rosto e a nuca tamanha exaustão. Só queria se jogar contra a cama macia e os lençóis limpos. E assim que o fez, sentiu o peso do corpo de Taeyong se arrastando até ter jogado pernas e braços sobre seu tórax.

 – Você é a pessoa mais linda que existe no mundo – ele murmurou e Chittaphon riu da voz arrastada, acariciando o braço que o prendia.

 – Você nem conhece todas as pessoas do mundo para confirmar isso – retrucou e quando olhou para baixo, encontrou orbes iluminadas o fitando como duas moedas de prata que o queimavam de dentro para fora.

 – E nem preciso. Eu sei disso, no meu coração – ele murmurou e quando voltou a deitar, repousou a cabeça contra o peito de Chittaphon. Que estava consideravelmente agitado naquele momento – E não digo isso apenas sobre o seu exterior, porque essa parte é óbvia.

 Chittaphon deixou o ar sair em outra risada antes de beijar o topo da cabeça dele, girando-os momentos depois para que se encaixassem de frente um para o outro, Taeyong tendia a deixar os pensamentos saírem mais facilmente quando estava bêbado, não era algo inusitado para Chittaphon.

 – Eu te amo – sussurrou, como uma confissão tardia às palavras dele, mas Taeyong já voltara a sonhar.

 Chittaphon encarou as estrelas do lado de fora do quarto, sem conseguir impedir sua mente de imaginar Kibum naquele momento, dormindo no colchão puído e enrolado nas mantas velhas enquanto ele estava ali, sobre a maior cama que já vira na vida, enrolado em Taeyong e mantos caros. Fechou os olhos com força, tentando dispersar a culpa que não tinha lugar ali. Quando estava prestes a adormecer, ouviu Taeyong resmungar. Ele sonhava e deixou apenas uma frase entrecortada sair antes de se aquietar novamente contra o corpo de Chittaphon.

 – Eu sinto tanto... A sua falta.

 A fala embolada contorcia o coração de Chittaphon, fazendo-o estreitar o aperto contra o corpo que por vezes o protegia, mas também merecia ser protegido.

Pois Chittaphon sabia bem de quem ele sentia falta e não tinha nada que pudesse fazer para amenizar aquela dor.

🔥

Quando Taeyong acordou na manhã seguinte, sua cabeça parecia comprimir seu cérebro e ele não se lembrava de como havia chegado ao quarto de hóspedes. Suspirando, sentou devagar e esfregou o rosto, notando Chittaphon resmungar com a movimentação e se aconchegando no cobertor grosso. Era inevitável sorrir quando o observava.

 Toda a energia explosiva e irritadiça se dissolvia quando ele estava adormecido. Os fios negros se espalhavam pelo travesseiro ocupando todo o espaço visível – espaçoso como o próprio Chittaphon era na cama. Ele não tinha o cenho franzido, transmitia uma serenidade genuína no rosto de traços delicados e Taeyong se pegou contornando todos eles com a ponta dos dedos. Em momentos de silenciosa contemplação como aquela, seu peito insistia em se apertar, inundado de emoções nunca ditas. Estaria perdido sem Chittaphon, tinha noção disso. Ele fora sua consciência quando tudo o que o dominava era a fúria irracional, ele quem ficou ao seu lado quando todo o resto se desfez e Taeyong jamais seria capaz de pagá-lo por nunca ter sido abandonado. Suspirando, afagou a bochecha lisa e se inclinou para selar a testa dele, rindo quando os lábios se partiram e ele continuou dormindo com a boca aberta.

 Dentro do cômodo de banhar, despiu-se e usou da água fria para lavar o corpo. Sabia que se puxasse uma das cordas grossas penduradas nas paredes faria soar um sino em algum lugar do palácio e logo aqueceriam sua água. Mas realmente não se importava, não depois de uma vida inteira se banhando de mar ao anoitecer e cachoeira ao acordar. Quando voltou ao quarto, vestido nas roupas casuais cedidas por Taeil, Chittaphon já estava de pé, caminhando para perto da varanda com um copo de suco na mão. A cena, tão leve e bela, fez Taeyong sorrir. Queria poder acordar todos os dias dessa forma.

 – Bom dia – sussurrou ao abraça-lo, notando que ele sobressaltou o corpo antes de relaxar contra seus braços. Chittaphon girou até poder encará-lo nos olhos e o agraciou com o primeiro doce sorriso do dia.

 A personalidade irritadiça e explosiva não era o todo dele. Taeyong conhecia as nuances suaves e leais de Chittaphon como mais ninguém, seu cuidado carinhoso e sua preocupação velada nos pequenos gestos. Amava cada parte que o fazia tão perfeito para si.

 – Dormiu bem? – foi a primeira coisa que perguntou, subindo a mão que não se fechava ao redor do copo pelo braço que se apoiava em sua cintura. Taeyong riu.

 – Você sabe que sempre apago quando bebo – disse e roubou o copo de suco enquanto Chittaphon sorria, tomando boa parte do concentrado de laranja em uma golada.

 Uma pequena mesa redonda de rodinhas havia sido deslizada para a varanda com visão para os jardins verdejantes e floridos pela primavera e ambos se sentaram com um suspiro enquanto comiam ante a bela vista. As torradas frescas e a geleia de mirtilo pareciam um manjar dos deuses, mas o que Taeyong realmente gostava nas refeições lupinas era a dose diária de cafeína que eles incluíam no desjejum. A cada gole, parecia que seu corpo recebia uma nova descarga de energia.

 – Você sonhou essa noite – Chittaphon comentou. Ele o olhava com suavidade, mas Taeyong o conhecia a uma vida inteira. Sabia que ele tentava começar o assunto sutil por estar preocupado, mas não querer invadir demais sua privacidade. Sorrindo, acariciou o calcanhar dele com seu pé por debaixo da mesa.

 – Estava tão cansado e dormi tão pesado que mal lembro o que aconteceu – disse e Chittaphon assentiu, colocando o outro pé por cima do seu. Pois sabia que Taeyong mentia, mas não adentraria mais detalhes do que ele gostaria de revelar.

 E Taeyong não via motivos de arrastar Chittaphon para isso, para sua própria tortura pessoal. Ver seu pai ser levado e torturado quase todas as noites não era algo do qual gostava de lembrar, menos ainda compartilhar.

 Taeyong se ocupou com a vista da cidadela enquanto Chittaphon se banhava no cômodo ao lado e logo desciam juntos as escadas até o salão principal. Era menor que o de bailes, mais íntimo, e a família real já se encontrava nos aposentos. Youngho parecia distraído perto da lareira apagada enquanto mergulhava no conto que lia e Taeil ocupava uma poltrona próxima à janela ampla que, com as cortinas afastadas, permitia o adentrar dos raios solares. O pequeno Jeno estava em seu colo, distraído com o próprio brinquedo enquanto Taeil tentava pentear seus cabelos.

 Não era sempre que tinha tempo para ser um bom pai para seu pequeno lobo, por isso nunca se negava os pequenos cuidados que conseguia ter com ele, dispensando servas com apenas um olhar.

– Quando o Jaemin vai chegar? – Jeno bufou enquanto deixava o cavalo de madeira cair contra a coxa gordinha. Taeil sorriu.

 – Jaemin tem lições a fazer hoje, esqueceu? – respondeu doce, terminando de ajeitar os fios negros e sedosos como os seus, inclinando o corpo em direção ao filho para beijar a bochecha cheia – E o senhor também, mocinho.

 O bico de Jeno aumentou.

 – Lição é chato. Quero ir ‘pro jardim, appa – Chittaphon não foi capaz de prender o sorriso com a voz manhosa e preguiçosa. Assim como Taeil, que virou o filho no colo e beijou seu nariz.

 – Combinamos assim então: se vocês terminarem todas as lições até a hora do almoço podem passar a tarde no jardim. O que acha?

 Os olhos de Jeno aumentaram e logo desapareceram por cima do sorriso animado. Um mindinho pequenino se ergueu enquanto ele mantinha o contato visual com o pai.

 – Promete, appa? – Taeil parecia querer se contorcer ante o bico do filho, mas contornou o dedo dele com o seu, selando os polegares antes de beija-lo novamente apenas porque não resistia.

 – Prometo, meu anjo – Taeil enfim olhou os novos ocupantes da sala comum e sorriu para os feiticeiros antes de olhar para Jeno novamente – Agora vá com a senhorita Wheein, certo?

 Jeno assentiu e abraçou o pescoço do ômega com força, respondendo o “eu te amo” de Taeil com um “eu também”. De mãos dadas com Wheein, antes de sair do cômodo ele escutou um pigarrear e riu ao notar Youngho falsamente concentrado em seu livro, mas com um sorriso ladino na face. Soltando-se momentaneamente de Wheein, correu até o colo do pai e o abraçou também, arrancando um riso baixo de Youngho.

 – Eu te amo também, papai – disse e Youngho o mordeu carinhosamente na bochecha.

 – Te amo mais – foi a resposta e, mesmo negando com a cabeça, Jeno logo partiu com Wheein, balançando o pulso pequeno na direção dos feiticeiros como se quisesse muito abraça-los também, porém queria acabar as tarefas mais rápido para logo poder ir para o jardim.

Desamassando amassados inexistentes em suas vestes, Taeil se ergueu e caminhou até o casal de feiticeiros que ainda estava de pé perto da escadaria.

 – Bom dia. Espero que tenham dormido bem – foi cortês e de seu jeito magnanimamente silencioso e explícito, indicou o sofá amplo paralelo ao de Youngho. Odiava seus visitantes de pé em seu salão como se não se sentissem confortáveis.

 – Você sabe que sempre dormimos bem aqui – foi Taeyong que respondeu e perceberam pelos olhares concentrados de Taeil e Youngho, que até mesmo deixara de lado seu livro, que alguma conversa de tópico mais sério que sua noite de sono se iniciaria.

 Com um gesto de mão, Taeil recebeu folhas unidas por um pegador preto e agradeceu com um menear de cabeça quando a serva se afastou. Taeyong ainda se surpreendia quando a consciência da realeza de Taeil caía sobre si: às vezes era assombroso pensar que o príncipe sofrendo o luto pela mãe à beira do precipício era aquele homem gentil e silenciosamente imponente que se sentava na poltrona da sala comum.

 O homem que, de forma falha, tentava conter um sorriso animado no rosto.

 – Vocês sabem que meu reino é o maior e mais influente na terra dos lobos – ele disse e, inconscientemente, Taeyong e Chittaphon se ajeitaram melhor no sofá. Por mais doce que fosse a tonalidade de Taeil, eles sabiam que ele agora falava como rei ao invés de amigo – E que todas as minhas ideias para com o povo feiticeiro devem ser aprovadas pelos outros reinos antes de entrar em vigor.

 Os feiticeiros assentiram, sabendo que além dos Anciões, outro impasse vívido nos planejamentos de Taeil eram os próprios lobos. Existiam aqueles visionários que o apoiavam cegamente e abriam os braços para a causa feiticeira, mas haviam as mentes mais bruscamente revestidas de preconceito que necessitavam de mais trabalho para ceder. Quando cediam.

 – Assim como sabem que desistir não é de meu feitio – sorriu bondoso antes de estender as folhas em direção a eles e enquanto liam, Taeil continuava a falar – Esse foi um dos primeiros decretos que quis implementar, desde a época que tudo mudou. Também foi o mais difícil de convencê-los a aceitar. A abertura dos portos para idas e vindas e tráfego comercial foi apenas uma amostra de como nossa convivência pode ser benéfica, para que eu tivesse argumentos para convencê-los disso – os feiticeiros, mesmo tendo lido e visto com seus próprios olhos os polegares dos cinco príncipes lupinos marcados na página selando aquele decreto, não acreditaram até Taeil confirmar em palavras – A partir de hoje os feiticeiros poderão fixar moradia aqui, caso assim desejem.

Eles trocaram olhares incrédulos com todos no salão comum, mas não havia sinal de mentira em nenhum deles. Eles poderiam morar em qualquer um dos cinco reinos lupinos, caso assim desejassem. Isso era enorme, era o mais próximo de uma relação pacífica que chegavam em anos. Chittaphon sentia que poderia chorar.

 Claro como o aumento da intensidade das mudanças era o fato de que nada era perfeito. Ter um decreto respaldando sua morada naquelas terras não garantia a aceitação do povo lupino, essa era uma batalha que deveria ser enfrentada diariamente, talvez por anos, para que os ressentimentos de eras passadas pudessem ser aplacados com o tempo. Mas ali, no pequeno salão comum, tudo o que Chittaphon conseguiu impelir o corpo a fazer foi se erguer em passadas rápidas e se jogar em um abraço afobado com Taeil.

 Taeyong lançou um olhar de desculpas para os reis, mas nenhum dos dois pareceu realmente se importar.

  – Obrigado – Chittaphon murmurou contra Taeil, sentindo-o estreitar o abraço meio torto. Ele sabia que Chittaphon agradecia por muito, por nunca ter desistido. Mas não era algo que precisava de agradecimento, era o mínimo que poderia fazer.

Ficaram nas terras dos lobos até depois do almoço, ganhando um abraço forte de Jeno e Jaemin quando anunciaram que deveriam voltar para a ilha – especialmente para propagar as boas-novas. Chittaphon notou o doce cheiro de cravo começando a se desprender da pele de Jaemin e sorriu quase dolorido por notar o quão rápido cresciam. Já no deque do navio, notaram que aquela não era a única embarcação navegando em direção a seu lar, mas preferiram guardar certos comentários.

 Seriam sete dias no ondular das ondas, presos entre céu e oceano, mas nenhum deles se importava. Na proa do navio, Taeyong teve a liberdade de girar Chittaphon em seus braços e apertá-lo em um abraço tão eufórico que o fez rir. Estava feliz e mostrou isso até no unir dos lábios afoitos.

Taeyong o beijava com alegria. Com mãos gentis em sua cintura e suspiros liberados pelo carinho que recebia nos fios. Era doce como sempre, mas feliz como quase nunca. E como se não deixassem de o surpreender, ao desembarcarem em seu lar descobriram o que aquelas outras embarcações significavam: dezenas de camas e colchões, mandadas pelo rei e os príncipes dos lobos, seriam distribuídas pelas casas feiticeiras como uma nova oferta de paz.

 Eram pequenas grandes coisas que mostravam a Chittaphon tudo o que ele precisava saber: ainda havia, sim, esperança.



Notas Finais


É isso, galeris!
Tudo na paz e se encaminhando prum bom relacionamento... certo?

Obrigada por lerem até aqui e me digam oq acharam ^^
Até o próximo ~
XOXO


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