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História Sol da Meia Noite: O Despertar - Capítulo 6


Escrita por:


Notas do Autor


Oi pessoinhas ><
Bom, eu não tenho ideia de quantos caps essa temporada terá, mas ela provavelmente já está indo pela metade levando em conta oq eu tinha planejado... só pra vcs saberem sheushue
Eu não sabia o quão ENORME esse cap tinha ficado até selecionar pra postar, então desculpem se ficou cansativo e leiam com calma pq tem MT informação imprtante aqui

Boa leitura, perdoem os errinhos e até as NF!

Capítulo 6 - Poder Ancestral


Youngho, no passar dos últimos cinco anos, havia se acostumado com algumas novas constantes de sua vida: despertar cedo para resolver o quanto antes suas responsabilidades como rei, distinguir os tipos de sono de Taeil conforme a posição que ele dormia e ser acordado por passinhos pesados que abriam a porta lentamente antes de correr e se jogar entre os dois os desejando bom dia. Ele amava e apreciava cada uma dessas coisas e tão acostumado estava com elas que não tardou em acordar durante a madrugada por sentir falta do calor do corpo que deveria estar ao lado do seu. Era como se sua temperatura corporal agora fosse baixa demais para esquentá-lo durante a noite se estivesse sem Taeil, por isso sabia que ele havia se levantado antes mesmo de rolar pela cama para procurar seu corpo.

 Esfregou os olhos e notou que as cortinas continuavam fechadas, a lareira crepitava baixo e o quarto estava vazio com exceção de sua presença. Sentou-se devagar, franzindo o cenho. Taeil não era susceptível a insônias, com exceção das épocas de elevado estresse ou das noites que algum pesadelo o acometia. Dada a pacificidade do povo nas últimas semanas, Youngho ponderou que o que acometia seu amado era a segunda opção. Inspirando lentamente, enrolou o peito desnudo com o robe negro que descia até os pés com entalhes de flores em branco. A calça era larga do jeito que gostava para dormir e se arrastou em seus calcanhares enquanto ele saía do quarto em busca do companheiro. Não precisou procurar muito para notar a porta entreaberta do quarto ao lado do deles, o quarto de Jeno. Youngho parou na porta depois de abri-la um pouco mais, observando a cena de Taeil sentado ao lado do filho e tirando incessantemente os fios de sua testa, como se precisasse observar o semblante dele a todo momento.

 Suspirando, Youngho caminhou pacientemente até sentar atrás de Taeil, envolvendo a cintura fina com os braços e beijando carinhosamente um de seus ombros. Sentiu quando ele relaxou instantaneamente contra seu corpo, ainda acarinhando a mão pequenina do filho sobre o cobertor.

– Por que levantou a essa hora? – perguntou baixo, temendo acordar Jeno ou alarmar Taeil. Sabia que ele ficava sensível quando tinha algum sonho ruim. Observou ele negando.

 – Nada demais – disse e o silêncio se estendeu enquanto Youngho esperava que ele completasse com a verdade e Taeil sabia disso também. Suspirando, apoiou-se ainda mais contra o peito largo – Tive um pesadelo.

 Youngho o beijou na nuca dessa vez e levou uma das mãos por baixo do robe do marido, acariciando a pele da cintura em pequenos círculos como descobriu deixa-lo mais calmo.

 – Quer me contar o que houve?

 Taeil pareceu ponderar um pouco mais, analisando o semblante sereno do filho, a pequena boca cheia e rosada separada como a dele mesmo ficava por vezes quando dormia profundamente. Deixou um pequeno sorriso se formar em seus lábios.

 – Sonhei que seres feito de fumaça negra voavam pelo mar em nossa direção. Pareciam capas desgastadas e compridas, tinham o formato humano, mas não tinham rostos – Youngho o apertou um pouco mais quando sentiu os ombros tornarem a se tencionarem – Quando estavam próximos de nosso reino, sombras ainda maiores apareceram no céu. Era como... Como se aqueles seres de capa montassem essas sombras, como se ficassem mais poderosos e ameaçadores até engolir o reino por inteiro.

 Youngho não notou que havia prendido o ar e o soltou lentamente. Sabia o quão assustadores e premonitores os sonhos de Taeil poderiam ser. Podia sentir o medo que ele sentia e a apreensão de não saber o que fazer. Esfregou o nariz contra os fios cheirosos antes de voltar a abraça-lo mais apertado, descansando o rosto no ombro direito enquanto a cabeça dele caía em seu esquerdo.

 – Tem medo que algo venha fazer mal a Jeno? – perguntou, tentando entender o motivo de tal sonho ter levado Taeil até o quarto do primogênito. Seu estômago contorceu antes mesmo da resposta, apenas a ideia de algo ameaçando a segurança de Jeno o deixava aflito o suficiente para perder a razão.

 – Tenho medo de ter que deixa-lo sozinho para enfrentar alguma ameaça – disse e Youngho notou quando a fala dele ficou mais dificultosa, quando pareceu que ele estava prestes a chorar – Tenho medo de partir e não poder voltar, medo de deixa-lo para sempre...

 Talvez ele falasse sobre dezenas de outros medos que o acometiam naquele momento, mas Youngho o impediu. Com um movimento firme, porém delicado, virou minimamente o corpo dele na direção do seu para que o pudesse abraçar melhor. Taeil não chorava, mas escondeu o rosto no pescoço do marido, deixando o aroma de hortelã acalmá-lo como sempre fazia, desde antes de perceber amá-lo. As mãos grandes subiam e desciam em suas costas como se tentasse confortá-lo ainda mais, mas Taeil sentia o coração bater rápido no peito dele, sentia que Youngho estava preocupado também.

 – Não diga essas coisas – ele murmurou contra sua pele – Jeno não ficará sozinho, não permitirei que você nos deixe, Taeil.

 E ele parecia tão certo daquilo, tão feroz em sua determinação que Taeil ergueu o olhar para encarar os olhos sérios em sua direção. Youngho de fato parecia determinado, mas na mesma proporção, parecia apavorado com a ideia de perde-lo. Aquilo bagunçou algo no peito de Taeil, que ergueu a mão para tocá-lo com suavidade e sorriu miúdo para o homem que tanto amava.

 – Preciso que me prometa uma coisa – e Youngho apenas sinalizou para que continuasse. Taeil tomou fôlego – Se algo vier a acontecer, se realmente precisarmos sair para enfrentar alguma ameaça... Quero que me prometa que vai ficar e proteger Jeno. Que não o deixará sozinho.

 Youngho petrificou ante o toque do marido. Era um pedido razoável e racional, não era? O mais lógico seria apenas um deles se expor ao perigo, um deles ficar para trás era a garantia de que Jeno não perderia os dois pais para qualquer ameaça que os viesse assolar. Taeil quase podia escutá-lo se oferecer a ir e deixa-lo com Jeno, mas o que o marido fez ao contrário disso foi contornar o pulso da mão que tocava seu rosto a abaixá-lo lentamente.

 – Não – disse sucinto, como se não deixasse alternativas para discussões. Taeil franziu o cenho, confuso.

 – Mas-

 – Não, Taeil – ele estava nervoso, Taeil poderia notar não só pelo cheiro de hortelã intensificado. Estava na tensão dos lábios, na linha da mandíbula marcada, nas sobrancelhas unidas e no olhar feroz. Parecia que tinha atingido Youngho no fundo da alma – Você está se escutando? Como pode me pedir uma coisa dessas? Como pode me pedir para que deixe que você se arrisque enquanto te espero aqui com nosso filho? Não vê o quão egoísta isso é?

 Taeil ficou ainda mais surpreso, pois de todos os adjetivos que Youngho poderia usar, egoísta não havia passado pela sua cabeça. Em um suspiro cansado, Youngho apoiou uma palma em sua coxa como se quisesse mostrar que mesmo transtornado não estava realmente com raiva dele.

 – Pense se fosse ao contrário. Como se sentiria se fosse eu a pedir algo assim?

 Taeil realmente pensou. Pensou na angústia de rondar o castelo com Jeno atrás de si, sem saber se Youngho estava bem e se iria voltar a vê-lo. Imaginou ele em campo de batalha, com a retaguarda desprotegida, com inimigos mais fortes do que poderiam combater... Resfolegou um choro contido, antes de abraça-lo pela cintura. Se sentiria ofendido se fosse Youngho a propor algo como aquilo, como se o perder não fosse tão doloroso só porque Jeno ainda teria um dos pais.

 – Me desculpe sugerir algo assim – pediu e sentiu os dedos dele em seu braço e nos fios de seu cabelo – Eu só estou tão desesperado.

 Youngho beijou o topo de sua cabeça e ambos olharam para Jeno quando ele resmungou e se remexeu até afundar o nariz contra a fronha. Estavam exaltados demais, os aromas incomodavam o menino mais novo. Notando isso, ambos se ergueram e plantaram beijos cuidadosos na fronte dele antes de se retirarem. Ainda no corredor, Youngho voltou a abraçar o marido, suspirando contra os braços dele.

 – Eu sei que tem medo, meu amor – começou, sentindo-o se encolher contra seu corpo como se pudesse se esconder em seu tamanho e ficar protegido. Taeil não fazia ideia do quando Youngho gostaria de poder – Eu também tenho. Mas nunca mais pense que eu lhe deixaria partir sem mim ou que o deixaria para trás por medo de te perder – amparou o rosto dele com as mãos até que os olhares se conectassem – Com ou sem ameaça nós permanecemos juntos. Se você luta, eu luto. Se você fica e protege Jeno, eu fico e protejo a vocês dois. Entendeu?

 Taeil sentiu, quase infantilmente, uma lágrima se desdobrar até seu queixo. O polegar de Youngho limpou cuidadosamente o caminho salgado deixado para trás e Taeil havia entendido sim. Era rei, pai e marido. Em nenhuma dessas definições se encontrava sozinho, então não poderia conjecturar soluções a serem desenvolvidas apenas por ele. Sendo assim, assentiu, aproximando-se ainda mais do corpo de Youngho.

 – Promete? – foi o que acabou perguntando.

 – Prometo – na mesma determinação de antes, Youngho respondeu.

 Selaram os lábios em uma calmaria que se assemelhava aquela que precedia as tempestades. Mas as palavras de Youngho confortavam o coração de Taeil: se ficassem, ficariam juntos. Se lutassem, lutariam juntos. Se ambos partissem – ele deveria lembrar – ambos teriam um motivo forte o suficiente para voltarem sãos e salvos para casa.

🔥

A tenda verde escura protegia o rei enquanto ele terminava de responder as cartas dos outros reinos lupinos. Taeil sentia a brisa morna soprar contra seus fios e ouvia vez ou outra seus guardas mudando o peso de perna ao seu redor. Havia decidido cumprir suas tarefas em local mais aberto depois da noite conturbada e não conseguia se arrepender de tal decisão. Às vezes tudo o que precisava era do cheiro da grama e do balançar das flores para ter um pouco de paz em seu coração.

– Você consegue ficar ainda mais bonito concentrado – o pequeno susto pelo beijo depositado em sua bochecha foi encoberto por um sorriso terno ao que Youngho ocupava a cadeira ao lado da sua, jogando-se cansado depois do comprimento.

 – Como foi o treinamento? – questionou, deixando as cartas momentaneamente de lado para observar o marido.

 Youngho tinha os fios escuros jogados para trás e a tez queimada pelo sol continha gotículas de suor pelo esforço. Ele se livrava das partes mais pesadas da armadura de treino, mas o tecido negro cobrindo sua pele e a tela de proteção prata que abraçava seu tórax e coxas fizeram Taeil suspirar.

 – Cansativo. Há bons recrutas dessa vez, mas nenhum deles supera Jeno.

 Taeil riu e o som fez Youngho sorrir. Temia que o marido ainda estivesse consternado pelo pesadelo, as vezes se esquecia o quão forte era o ômega ao seu lado. Tocou a mão dele com suavidade e acariciou o dorso com o polegar enquanto o esperava responder.

 – Você o mima demais, ele realmente acredita que é o guerreiro mais forte dentre os reinos – comentou e foi a vez de Youngho rir. Ambos encaravam o carinho depositado na mão pálida.

 – É porque ele é – Youngho deu de ombros e Taeil o olhou, cético – Talvez não ainda, mas ele será.

 Taeil sorriu da sensibilidade do marido o notou quando ele desceu os olhos até os papéis organizados sobre a mesa.

 – Carta dos reinos? – questionou curioso e Taeil assentiu, pousando a mão sobre as letras harmoniosas.

 – Relatório sobre os feiticeiros que chegaram às nossas terras. Pedi para que me contassem sobre o progresso que tivemos desde que eles começaram a vir.

 Youngho assentiu, mas viu incerteza no semblante do marido. Sobre aquilo não precisava perguntar: independente do que dissessem os relatórios, nada poderia garanti-los de que era verdade. Taeil temia como a outra parte de seu sangue estaria sendo tratada nas terras vizinhas. Suspirando, puxou-o minimamente em sua direção para selar sua têmpora.

 – O que disseram?

 Taeil abriu um sorriso mínio e alcançou a cera vermelha, pingando entre a página dobrada antes de pressionar o selo real e deixar a carta sobre as outras que já havia escrito.

 – Aparentemente está tudo em ordem – disse e direcionou o olhar a ele – Mas nós dois sabemos que palavras nem sempre refletem a realidade.

 Youngho assentiu, entendendo que logo Taeil iria querer os outros reinos para avaliar o bem-estar dos feiticeiros. Enquanto sentia o carinho suave dos dedos em seu rosto, o som do trotar dos cavalos chamou a atenção de ambos enquanto a carruagem real parava próxima à tenda onde estavam. Youngho franziu o cenho e voltou a atenção a Taeil, mas ele estampava a mesma confusão do marido. A carruagem real só saía do palácio por dois motivos: levar os reis para suas devidas atividades reais ou buscar nobres que por ventura os visitasse pelo mar e não estivessem com suas próprias carruagens. Nenhum nobre avisara sobre a visita, portanto o mistério sobre os ocupantes da carruagem real permaneceu enquanto um beta com cheiro de capim-limão se aproximava com postura rija sobre o sorriso doce e fios loiros.

 – Bom dia, majestades – cumprimentou e recebeu sorrisos pequenos de ambos os reis.

 – Bom dia, Chenle – Taeil respondeu ao beta que conhecia por quase metade da vida dele. Chenle, em seus dezoito anos completos, era polido como poucos nobres sabiam ser e servia à família real desde os quinze como o cavalariço mais confiável que possuíam – Sabe quem está nos visitando?

 – Lee Taeyong e Chittaphon, senhores. Da Ilha da Montanha Furada – tempos atrás, eles seriam referidos como Taeyong e Chittaphon das Terras Exiladas. Taeil gostava de ver essas pequenas mudanças, mas sorriu surpreso pela aparição imprevista – Um recado chegou ao palácio hoje mais cedo anunciando a chegada deles ao porto e parti assim que li. Posso autorizá-los a descer?

 – Claro – Taeil disse, ajeitando-se animado por recebe-los. Chenle encurvou-se antes de dar as costas e caminhar até a carruagem escura com detalhes azul. Taeil observou os lábios do marido se apertarem em uma linha fina e tomou a mão dele para conseguir sua atenção – O que foi?

 Youngho o olhou e desanuviou os olhos enquanto transformava a tensão da face em um sorriso pequeno. Levou os dedos do marido até os lábios em um selar rápido.

 – Espero que nada – disse e já podiam escutar os passos dos visitantes se aproximarem – Acho que só fiquei receoso dessa visita sem avisos ter alguma ligação com seu pesadelo dessa madrugada.

 Youngho não queria assombrar o marido com suas próprias preocupações – que poderiam ser muito bem paranoicas –, mas percebeu o maxilar trincado quando ele voltou a olhar para frente. Pertos o suficiente para que pudessem ver os sorrisos pequenos agora, os feiticeiros se curvaram em respeito aos reis, que se colocaram de pé para retribuir o gesto.

– Obrigado, Chenle – foi Youngho quem agradeceu e o beta se curvou mais uma vez antes de voltar á carruagem e leva-la para longe. Youngho sorriu para os visitantes – Que surpresa boa encontra-los aqui.

 – Sim. Espero que boas novas tenham os trazido até nós – Taeil disse e Youngho sabia, o conhecia o suficiente para isso, que por trás do sorriso doce havia quase um pedido para que fossem boas novas mesmo. Que seus sonhos fossem apenas sonhos e que a visita fosse apenas sobre saudade.

 O sorriso de ambos nasceu e morreu da mesma maneira: rápido e frio. Youngho reparou nas olheiras por baixo dos olhos, nos dedos que se agarravam como se tivessem medo de se soltar um do outro. Reconhecia apreensão em cada uma das linhas corporais daqueles dois e um arrepio indesejado o consumiu da base da coluna até a nuca. Sentia que as sombras que Taeil sonhara estarem prestes a engolir seu reino se aproximavam com rapidez maior do que imaginara.

 – É sempre bom vir, desculpe não termos avisado antes – foi Chittaphon quem começou – Queríamos chegar o mais rápido possível. Acredito que precisamos conversar.

 Youngho viu o sorriso do marido vacilar mesmo que Taeil ainda quisesse acreditar que estava tudo bem. Suspirando, passou o braço pela cintura dele e apoiou o corpo do marido sutilmente contra o seu. Sabia que Taeil não gostava de demonstrar fraqueza como rei, mas também o conhecia como pessoa e sabia que ele já estava mais afetado do que Taeyong ou Chittaphon poderiam entender naquele momento.

 – Vamos à biblioteca – Youngho, como segundo rei, tomou as rédeas que no momento eram muito turbulentas para Taeil. Olhou para os guardas sobre seu ombro – Estão dispensados. Os guardas internos do palácio nos acompanharão até a biblioteca.

 Os guardas encurvaram-se antes de se afastarem e os quatro restantes caminharam juntos pela propriedade real. A brisa fresca clareou os pensamentos de Chittaphon e ele inspirou-a profundamente enquanto fechava os olhos, tentando não temer pelas descobertas feitas na semana passada entre a conversa na caverna e aquele encontro. Youngho ainda afagava a cintura do marido e Taeil parecia recuperar a cor aos poucos. Ainda era o rei dos lobos, ainda precisava lutar pelos seus. Não seriam suas inseguranças e pesadelos que o parariam, eles nunca o fizeram antes.

O castelo se abriu em seus tons de bronze, verde e azul e todos caminharam por corredores já conhecidos até as portas duplas de mogno, abertas por dois guardas em uniformes mais leves que os do jardim. Todos dentro do cômodo, Youngho virou-se apenas para dizer.

 – Essa é uma reunião real. Nada além de uma situação de emergência deve nos atrapalhar, entendido?

 – Sim, senhor – foi o que responderam em uníssono antes de Youngho assentir e fechar as portas.

 Taeyong vagava os olhos pelas prateleiras altas, escadas para o segundo andar seguiam como caracóis de prata ao redor dos livros e a luminosidade vinha toda da abóboda de vidro que filtrava a luz solar e deixava todo o espaço aconchegante. Janelas altas tinham as cortinas afastadas e permitiam a entrada da brisa dos jardins e a visão das flores coloridas da estação. Ocuparam uma das mesas de madeira caramelo-queimado e se encararam com certa tensão, mesmo antes da conversa se iniciar.

– Bom, sei que nossa chegada os deixou tensos então é melhor que comecemos logo – Chittaphon mais uma vez falou e os reis assentiram – Já ouviram falar da Aliança?

 Os reis mostraram ainda mais confusão nos semblantes e Taeyong falou pela primeira vez ao pegar para si a responsabilidade de explicar-lhes o necessário para que entendessem a situação. Afinal, era ele quem passara os últimos anos investigando sobre. Com os dedos entrelaçados sobre a superfície lisa, começou.

– Há dez anos, um grupo de feiticeiros ousou questionar o governo ancião. Eles não fizeram isso diretamente, é claro. Sabiam das consequências. Mas se reuniam para discutir as prioridades errôneas que eles pregavam e as necessidades que o povo passava. Por que pagar tributos tão altos a Anciões que nunca aparecem quando são necessários? Por que confiar em uma Escolhida que não vemos há anos e luta por uma terra que nunca foi nossa? – Chittaphon prensou os lábios, lembrando-se de palavras semelhantes ditas por Kibum – Aos poucos, eles organizaram pequenos furtos de tributos para devolvê-los às famílias carentes, a fiscalização não era tão restrita como é nos dias de hoje. Era um movimento pequeno que aos poucos tomava força – Chittaphon foi o primeiro a reparar na palidez e nos dedos tensos. Estendeu a mão até apoiá-la na coxa de Taeyong, incentivando-o a continuar e mostrando que ele não estava sozinho – Até prepararem uma emboscada. Sequestraram alguns integrantes da Aliança depois de receberem uma denúncia e deixaram que o líder deles soubesse disso. Meu pai – eles viram que os reis se sobressaltaram com a informação, mas não perceberam quando eles haviam entrelaçado os dedos por baixo da mesa – Ele guiou o restante da Aliança até os calabouços e masmorras, liderou uma missão de resgate que estava fácil demais... – tomando fôlego, Taeyong visou terminar a narrativa o mais brevemente possível – Os emboscaram na frente do palácio, com lanças e armas que nunca poderiam enfrentar. Assassinaram a todos na frente de meu pai, alguns ainda eram jovens que mal haviam alcançado a fase adulta. Assassinaram o melhor amigo de meu pai, mas o deixaram vivo. Preso, acredito, até hoje sob às garras da tortura.

 Todos entenderam quando Taeyong precisou do próprio momento de silêncio, momento que se estendeu até quase sessenta segundos completos até que ele sentisse mãos quentes e gentis cobrirem as suas.

 – Eu sinto muito pela sua família, Tae – Taeil disse no tom cálido que ele sabia ser sincero, fazendo os olhos do feiticeiro marejarem enquanto ele assentia agradecido, aceitando o carinho em suas mãos – Eu não fazia ideia.

 Taeyong recuperou o fôlego e voltou as costas para o encosto da cadeira sem nem mesmo notar quando havia se inclinado para frente. Sem muita surpresa, notou que o braço de Chittaphon já o aguardava para acolher seu corpo em um meio abraço sutil.

 – Por que está nos contando isso agora? – O braço de Youngho também havia passado pelo encosto da cadeira do marido e não era como se ele não sentisse muito pela família de Taeyong também, mas os anos de reinado o transformara num homem prático e sua vivência como hassassin o fazia estratégico. Sabia que Taeyong o conhecia o suficiente para saber que se importava com sua história mesmo que não demonstrasse como o marido.

 – A Aliança estava juntando informações que fossem capazes de abrir os olhos dos feiticeiros – Chittaphon quem continuou e, internamente, Taeyong o agradeceu – Eles sabiam que não poderiam enfrenta-los sozinhos então, pelos seus diários, descobrimos que pensavam em formas de reunir lentamente mais seguidores expondo algumas das atrocidades permitidas pelos Anciões.

 – Atrocidades? – Taeil engoliu em seco. Sabia sim de algumas histórias, sua mãe era a própria lenda mágica, mas ainda não tinha conhecimento o suficiente do outro lado de seu sangue.

 – Descobrimos que muitas das “missões” para as quais nossos jovens partiam eram para oferecer os próprios corpos para lobos que poderiam lhes dar informações sobre o progresso da Escolhida ou qualquer outra fraqueza de suas terras. As ações deles vão muito além dos tributos injustos.

 O silêncio que seguiu a fala de Chittaphon dessa vez foi como abafadores gigantes sendo colocados ao redor deles, criando uma pressão entre o silêncio incrédulo. Taeil estava pálido e Youngho, atônito.

 – Oferecer os corpos? – a voz de Youngho era grave e falhada, como se ele sentisse nojo ao proferir tais palavras. E ele sentia.

 – Eles também podiam passar por punições severas quando se recusavam ou quando voltavam com poucas informações – Taeyong continuou – Muitos deles... Muitos preferiam se atirar do navio a continuar sendo usados dessa forma.

 O som dos pés da cadeira rasgando o chão os sobressaltou quando Taeil se pôs de pé e começou a caminhar desolado de um lado para outro, como se estivesse desconfortável no próprio corpo. Youngho sabia que ele tentava controlar a própria raiva e ultraje para que não caísse em choros bem ali, por isso se ergueu e parou os movimentos apressados com seus baços, abaixando a cabeça para sussurrar palavras de conforto apenas para ele. Ambos os feiticeiros ali sabiam e viam os esforços que Taeil colocava nos últimos cinco anos para que sua miséria fosse, aos poucos, aplacada. Mas ambos também sabiam que naquele momento ele estava se culpando por todas as vidas que foram manchadas e perdidas mesmo antes de ele saber que sua mãe era a Escolhida.

 – Hyung? – Chittaphon chamou baixo, caminhando com cuidado até parar ao lado dos reis – Sabe que não é sua culpa, certo?

 Taeil inspirou longamente, como se o ar pudesse empurrar as lágrimas de volta para seu organismo.

 – Vocês... Também... – ele não conseguia ao menos terminar a frase, o estômago se dobrando de maneiras desconfortáveis apenas por imaginar e Chittaphon não precisou de muito para entender.

 – Não! – disse enfático, tomando o lado do corpo dele que não era afagado por Youngho, acariciando-o com cuidado – Quando eu e Taeyong nos juntamos à Escolhida as missões eram exclusivamente... Você sabe, sequestrar os primogênitos.

 Ainda era desconfortável, mesmo depois de tanto tempo, se lembrar que realmente fizeram parte de algo que poderia ser a maior tragédia do reino dos lobos. Chittaphon vez ou outra ainda pensava no primogênito da família dos Park, aquele que teve a vida ceifada sobre o cálice, aquele de quem viu a vida esvair dos olhos bem a sua frente. Ele entendia, em partes, a culpa que Taeil sentia, pois consigo não era muito diferente. Mesmo que sempre tenha odiado os Anciões, mesmo que sua fidelidade à Escolhida nunca tenha sido – de fato – por escolha, ele fez parte daquilo. Entregou-se ao conformismo ao invés de lutar por dentro da podridão, como o pai de Taeyong tentara uma vez.

 – Nos culpar não nos levará a lugar nenhum agora – era a voz de Taeyong e Chittaphon soube que ele entendera seus pensamentos turbulentos quando sentiu a mão dele contornar seus ombros em um afago cuidadoso. Sempre Taeyong, sempre quem o entendia no silêncio de suas pausas – Todos nós erramos em algum momento, fosse por comodismo ou ignorância. Só o que podemos fazer agora é tentar ainda mais para impedir que uma próxima tragédia assole nossos povos.

 Youngho assentiu, mas Taeil aos poucos entendeu muito mais nas entrelinhas daquela frase, erguendo o semblante na direção dos feiticeiros para questionar.

 – O que quer dizer com próxima tragédia? – podia sim ter sido apenas um jogo de palavras, Taeyong poderia estar sendo generalista e querendo dizer que qualquer mal que viesse a acontecer, eles tentariam impedir juntos.

 Mas eles não passariam sete dias em um barco e contariam a história da Aliança para eles para logo após comentar sobre tragédias sem um motivo maior por trás das cortinas. E Taeil sabia, sentia isso. Uma corrente de ar fria pareceu abraçar seu corpo quando se lembrou do pesadelo. Batidas na porta anunciaram uma interrupção do que quer que os feiticeiros fossem compartilhar e Youngho olhou severo para quem quer que estivesse do outro lado.

 – Com licença, senhores. Sei que pediram para que não os incomodasse, mas os senhores feiticeiros também pediram para trazermos o baú até aqui – um dos guardas anunciou da porta e com um olhar para os outros dois para confirmar a veracidade das palavras dele, Youngho autorizou sua entrada.

 O baú era simples, de madeira gasta e tamanho mediano. Um homem comum poderia carrega-lo com algum esforço, mas o conteúdo em demasia fez necessário que dois guardas se dispusessem a leva-lo até a mesa. Com uma mesura, se retiraram antes mesmo do baú ser aberto e as honras foram dadas a Taeyong. Os reis observaram em um silêncio curioso enquanto ele tirava os conteúdos um a um, espalhando algumas folhas e diários com capa de couro. Taeyong não tirou tudo, apenas o estritamente necessário para aquele momento.

 – Essas são algumas das informações que a Aliança conseguiu no pouco tempo que tiveram para planejar algo – ele disse e não foi apenas Chittaphon quem percebeu Taeyong engolindo em seco, mas ninguém interrompeu seu momento – Acredito que essa seja a parte mais importante no momento.

 Taeyong os guiou entre desenhos caricatos e antigos, palavras escritas em um idioma que lobos não eram capazes de ler e traduções feitas pelos próprios integrantes da falecida Aliança. Quanto mais figuras apareciam, quanto mais traduções liam, mais temerosos os reis se tornavam, ao ponto de as mãos estarem cobrindo uma outra sem ao menos repararem. Era muita informação para que debatessem sentados, mas Taeil sentia as pernas falhando enquanto a percepção da grandiosidade daquilo o acometia. Um trecho em específico o fez arfar quando a voz de Taeyong anunciou.

 “Oh, magnânimo poder ancestral

Oh, magnânima fonte mágica adormecida no antro bochornoso

Rogo que do sangue do guerreiro de espírito quebrado te alimentes

Que do inocente se sacie

E me cubra com teu poder mais uma vez enquanto te ressurges com tua força atemporal

Reerguendo, mais uma vez, uma nova era

Taeil cedeu ao pavor do corpo quando esse foi de encontro a cadeira. Youngho ainda parecia confuso, como se procurasse no papiro desgastado respostas mais conclusivas e claras para uma ameaça que ainda não entendia. Taeil tão pouco poderia dizer o que realmente o afligira daquela forma, não saberia colocar em palavras explicações sobre o temor que o tomava. Mas ele sentiu, em seu âmago, em seu coração que as sombras estavam se aproximando ainda mais, prestes a engoli-los.

 – O que isso tudo quer dizer? – foi Youngho quem perguntou, preocupado demais com o futuro incerto para que pudesse dar a devida atenção ao marido naquele momento. E ele conhecia seu cônjuge, Taeil não desabaria naquele momento. Ele só precisava de um momento para se recompor.

 – Significa que os Anciões sempre tiveram um plano B, por isso pareciam tão silenciosos quanto a derrota da Escolhida – Chittaphon disse calmamente, uma calma forçada por terem assuntos mais importantes a lidar naquele momento – O desejo de vingança deles é muito maior do que imaginávamos. Não sei se eles realmente valorizam as terras daqui, acreditamos que eles só queiram vencê-los para provar a própria força. Eles pensam que a Grande Guerra foi uma humilhação ao povo feiticeiro e não se importam em derramar mais sangue para se provarem superiores.

 Taeil ergueu ambas as mãos para o rosto, esfregando a pele com rigidez e inspirando profundamente. Quando ergueu o semblante para eles, a determinação do rei dos lobos estava refletida em seu olhar e eles souberam que nada o abalaria pelos próximos momentos de discussão.

 – O que isso aqui quer dizer? – a voz firme fez uma sensação de orgulho se apossar de todos os três naquele cômodo enquanto Taeil apontava a estrofe lida pelos feiticeiros. Taeyong suspirou.

 – A Aliança debateu bastante sobre isso pelo o que vimos nos diários. Eu e Chitta chegamos a algumas outras conclusões para completar lacunas que eles deixaram na época – e enquanto falava, eles reparam que aquilo não ficava mais fácil para Taeyong. Ele parecia uma corda firmemente esticada, prestes a arrebentar, mas se segurando ao máximo para resistir à tensão – Poder ancestral, antro borchoso, força atemporal... Não sei o quanto sabem da cultura feiticeira, mas isso são dicas muito fortes de que eles estavam se referindo aos dragões.

 Ambos os reis ergueram as sobrancelhas.

 – Nós acreditamos que eles foram a primeira verdadeira fonte de magia, a mais forte e temível, a mais poderosa – Chittaphon explicou – Acreditamos que foi deles que herdamos nossos poderes e que são as criaturas mais fortes e poderosas que já existiu.

 – Mas eles desapareceram a Eras – Taeyong continuou – Muito antes dos feiticeiros de fato existirem e lendas sobre eles terem adormecidos no vulcão da ilha rondam nossa história. Eles também falam sobre reerguer, mais uma vez, uma nova era – Taeyong continua a explicação – Por que seria mais uma vez se é uma era nova?

 – Acreditamos que eles se referiam à Era onde os dragões andavam sobre a terra – Chittaphon o complementa. Era uma mania que eles nunca perdiam – Que eles queiram trazê-los de volta por meio desse encanto e usá-los para os próprios fins. O que significa muito provavelmente um ataque em massa aos lobos.

 Youngho notou quando o queixo de Taeil tremeu indicando sua instabilidade emocional naquele momento e ele só queria que pudessem sair daquela biblioteca abafada para protege-lo em seus braços e garantir que tudo ficaria bem, mesmo que a cada instante isso parecesse mais ainda uma mentira.

 – E sobre o guerreiro de espírito quebrado? – forçou a voz mais uma vez o rei dos lobos e dessa vez, os nós brancos dos dedos de Taeyong foram notados por todos ao que ele apertou as mãos em punhos.

 – Lembram do que contei sobre meu pai? – a voz dele falhou pela primeira vez e um frio agudo tomou os corações dos outros três, como se tudo se abrisse bem diante de seus olhos antes mesmo de ele proferir as palavras – Acredito que é isso que estejam fazendo com ele pelos últimos dez anos, quebrando seu espírito.

 Nem mesmo o som das respirações era notável uma vez que todos as seguravam nos pulmões contraídos. Chittaphon admirava o companheiro por tentar se manter firme frente a todo o horror que expunham e fechou os dedos sobre o dorso ainda em punho dele.

 – Não faz sentido eles manterem Taejoon vivo depois de matarem todos da Aliança na frente dele, não faz sentido o manterem de refém por tanto tempo – Chittaphon continuou por ele, ainda que engolindo em seco – Eles estão tentando força-lo ao extremo, arrancar toda sua esperança e usá-lo para invocar os dragões.

 Nenhum deles disse nada quando Taeyong se afastou do toque de Chittaphon e caminhou em direção a uma das grandes janelas com vista para a área florida do lado de fora. Ele precisava de seu próprio tempo e todos respeitaram isso. Youngho parou atrás da cadeira do marido, pousando ambas as mãos nos ombros dele e sentindo os dedos dele subirem de encontro aos seus. Chittaphon entendeu que ele não apenas fornecia conforto, mas também procurava algum.

 – O que faremos? – Youngho questionou e Chittaphon suspirou.

 – Precisamos pará-los antes que atinjam o objetivo – começou simplista, como se realmente fosse  isso – Precisamos resgatar Taejoon e tirá-los do poder. Ninguém estará seguro se uma força como a dos dragões for libertada, eles não são o tipo de criatura que se possa controlar.

 Taeil não gostou do arrepio que subiu por sua espinha.

 – Acho que recebemos muita informação por agora – Youngho quem disse e Chittaphon assentiu. A exaustão emocional que o assunto lhe trazia conseguia superar os sete dias de viagem em alto mar – Sabem que podem se instalar onde preferirem e são bem-vindos em nossos aposentos. Mas acredito que todos precisamos de um tempo antes de continuar.

 – Sim, precisamos. Obrigado por nos ouvir, hyung – Chittaphon disse e Youngho sorriu pequeno, sem que felicidade alguma pudesse chegar aos seus olhos.

 – Nos vemos no jantar – ele anunciou e sem mais palavra alguma, Chittaphon os observou deixar a biblioteca.

 Taeyong ainda parecia muito concentrado nas gramíneas bem aparadas da propriedade real, mas Chittaphon sabia que seus pensamentos o estavam arrastando para muito longe dali. Com cuidado, contornou a cintura fina e afundou o nariz no pescoço leitoso. Acostumados demais com o cheiro de sal e mar, feiticeiros eram incapazes de perceber que cheiravam como maresia. Para Chittaphon, o aroma natural de Taeyong era algo próximo ao sândalo misturado com sua própria essência. O acalmava e quando ele se virou em seus braços e afundou o rosto em seu próprio pescoço, soltando o ar com força, soube que tinha o mesmo efeito sobre ele.

 Seu Chittaphon tinha cheiro de lar, e seu lar tinha um suave cheiro de lavanda.

 – Eu não consigo parar de pensar nele – confidenciou em um sussurro secreto enquanto recebia os carinhos e afagos de Chittaphon.

 – Eu sei que não, seria estranho se conseguisse – respondeu, afastando-se minimamente para encarar os olhos marejados, esfregando o polegar pela superfície lisa da face – Mas nós podemos conseguir, Tae. Com a ajuda dos lobos, nós podemos buscar seu pai de volta. Não se apegue ao que ele está passando agora, foque que logo o teremos ao nosso lado.

Chittaphon viu algo que Taeyong só deixava transbordar em sua presença: uma lágrima, solitária e triste escorrendo todo o caminho anguloso do rosto bonito. Com um sorriso tão pequeno que mais parecia um sonho, ele limpou a tristeza que escorria do rosto que tanto amava. Puxou Taeyong até que a testa dele tocasse a sua e suspiraram juntos, como se pudessem buscar forças um no outro, os corpos conectados para muito além do físico.

 – Eu te amo, meu Taeyong. Meu amor – ele disse, sentindo-o tremer enquanto liberava mais uma lágrima e fungava baixinho como uma criança acuada – Eu não vou deixar que machuquem você nunca mais.

 Taeyong sabia que não havia sofrido nenhuma injúria física dos Anciões, sabia que Chittaphon se referia a dor em seu coração, aquela intensa e profunda o suficiente que o afligia desde que seu pai fora levado. E Chittaphon perceber isso, perceber que sua dor nunca realmente fora embora, que o machucava todos os dias e se oferecer para ajuda-lo a dizimá-la mesmo que isso colocasse a vida dele em risco significava muito mais do que Taeyong poderia descrever. Selou a testa dele com os lábios úmidos pelas lágrimas e disse a única coisa que poderia descrever uma parte do que estava sentindo.

 – Eu amo você, meu Chittaphon. Meu amor.

 Chittaphon sorriu pequeno mais uma vez, deixando os olhos marejarem, mas prendendo todas as lágrimas nas orbes enquanto levava ambas as mãos ao rosto delicado. Selou com carinho os lábios finos antes de trazê-lo para mais perto, abraçando-o mais uma vez e contando a mentiria que ambos precisavam naquele momento.

 A de que tudo ficaria bem.

🔥

 Jaemin tentava carregar Jeno nas costas, mas todas as tentativas terminavam com ambos rolando pelo gramado com sorrisos puros e inocentes nas faces avermelhadas pelas brincadeiras. Taeil os observava sentado em um dos bancos de pedra dos jardins, ora ou outra deixando um suspiro ou um sorriso fraco nascer. Se lembrou de rir da cara de Youngho quando ele disse que o gengibre era o cheiro de um alfa quando na verdade, todo gestante exalava o aroma. Agora quase todo o gengibre havia se desgrudado da pele dele e a sálvia começava a sobressair o cheiro metálico que poderia indicar seus genes alfa. Jeno ainda era um enigma, uma vez que a sálvia era suave demais para o aroma dos alfas e acentuada demais para um ômega. Mas Taeil não poderia esperar nada diferente de seu pequeno híbrido, desde o começo estava destinado a destoar de tudo o que conheciam.

 – Nossa promessa parece estar sendo cobrada cedo demais – a voz de Youngho tirou o ômega de seus devaneios e ele observou o corpo maior ocupar espaço ao seu lado – A de o protegermos juntos acima de todas as coisas.

 Taeil assentiu e dessa vez, foi ele quem levou os dedos carinhosos aos fios que tampavam parcialmente a orelha do marido. Arrumou-os atrás dela, mesmo sabendo que não durariam muito daquele jeito. O carinho era reconfortante, ele via a tensão e a preocupação em cada exalar de Youngho, então tocou seu rosto até girá-lo em sua direção.

 – Nós vamos manter nossa palavra – disse suave, mas a determinação e força dele eram grandes o suficiente para impactarem Youngho, o suficiente para atingir o coração do alfa com a segurança que apenas Taeil era capaz de transmiti-lo – Não deixaremos nada o atingir ou ao nosso povo.

 Youngho puxou a mão que amparava seu rosto para depositar um selar casto sobre os dedos, sorrindo um pouco mais apaixonado pelo pai de seu filho. Dentre todas as coisas que admirava naquele homem, a força que ele tinha de encarar uma situação adversa de frente estava no topo da lista. Seu maior orgulho.

 – Eu sou capaz de tudo por vocês dois – murmurou antes de tocar a testa dele com a sua.

 – Nós sabemos – Taeil o respondeu e se afastou tão pouco que era como se ao menos tivesse se movido – É por isso que somos tão fortes.

 Ele selou delicadamente os lábios do marido e mesmo que quisesse, foi incapaz de aprofundar o beijo quando exclamações de nojo chegaram até eles.

 – Ew! Eca! Por que eles ficam fazendo isso? – era a voz de Jeno e os lábios dos reis deixaram de se tocar quando foram incapazes de segurar os risos.

 – Meus papais também fazem isso. É nojento – Jaemin completou e com um olhar cúmplice para Youngho, os reis começaram a se levantar lentamente para caminhar de maneira falsamente ameaçadora na direção dos mais novos, que já sentiam vontade de rir.

 – Ah, é? Vocês acham seus papais e tititos nojentos? – Youngho quem questionou.

 – Acho que vamos precisar encher vocês de beijinho também até que se arrependam de ofenderem suas majestades reais – Taeil completou antes que começassem a correr atrás das pequenas criaturas que gritavam animadas e desesperadas, fugindo das garras carinhosas que os acompanhavam.

 Para os reis, aquela era a paz antes da tempestade que se permitiam ter. O ar preenchido de sálvia e mel, de risadas escandalosas e corpos pequeninos e quentes acomodados em seus braços. Era como se precisassem se lembrar que por aqueles dois, acima de qualquer outra coisa, moveriam céus e terras.

 E talvez enfrentassem até mesmo dragões.



Notas Finais


É isso, galeris!
Quase tds os mistérios foram colocados na mesa com esse cap hem, e agora?

Obrigada por lerem até aqui e até o próximo ~
XOXO


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