1. Spirit Fanfics >
  2. Solar >
  3. Capítulo II

História Solar - Capítulo 3


Escrita por:


Notas do Autor


Oie.

A inspiração para essa história vem dos livros de época que amo. Então decidi colocar algumas frases no início do capítulo, espero que gostem. E se não conhecerem, quem sabe se animam a ler.

Revisei o capítulo enquanto escuto uma aula de concepção estrutural, desculpa qualquer coisa. Depois reviso com mais calma.
Estou feliz por tanto comentário positivo, obrigada!

Capítulo 3 - Capítulo II


Fanfic / Fanfiction Solar - Capítulo 3 - Capítulo II

"É estranho que a tristeza quase me sufoque agora porque o olhar de outro ser humano deixou de saudar o meu." 
Shirley — Charlotte Brontë

 

O grupo em Spring Castle, quando completo, estaria em seis pessoas, não sete como informara o Dr. Yamanaka. Contudo, não se podia julgá-lo, ele não estava a par de todos os detalhes. A fonte agora era totalmente confiável. O próprio Mr. Uchiha, sentado ao lado da lareira, era quem esclarecia tudo ao Sr. Haruno. Ele e o Sr. Uzumaki, naquele mesmo dia, foram a casa da paróquia para uma visita, os bons modos o recomendaram; da mesma forma que o recomendaram não comentar sobre o encontro mais cedo com Miss Haruno. Aliás, principalmente ela fingiu não os ter visto anteriormente na trilha.

 Recusou a viagem para o baile em Madsland! O senhor não se lembra de quando o informei sobre o caso?  perguntou Mebuki, indignada pelo esquecimento do marido. Há mais de um ano o havia consultado sobre o convite de casamento de Itachi Uchiha com a filha de um duque.

No entanto, agora ele parecia surpreso por tomar conhecimento da ausência de Itachi no grupo para a temporada do início da primavera em Forshire; pois permaneceria em Madsland na companhia da esposa grávida, não recomendada a fazer uma longa viagem. 

Sakura escutava a tudo quieta, enquanto os pais recebiam os senhores na sala de visitas. A presença antecipada dos dois cavalheiros em 4 dias na data prevista, se justificava por uma necessidade de verificar o andamento da propriedade para a chegada do conde, a condessa e seus hóspedes. 

A conversa foi promissora para o clérigo, afinal não era todos os dias que podia desfrutar de companhias tão nobres. Para a senhorita Haruno, entretanto, ouvir Mr. Uchiha não foi nada agradável. Com a desculpa de precisar ajudar com a preparação do chá, ela se retirou da sala logo após Sasuke confirmar o noivado e suas pretensões de viver em Spring Castle com a futura esposa, a filha do visconde Uzumaki. 

Ficou evidente, de todo modo, que a Sra. Haruno costumava receber notícias de Madsland, por meio de cartas da própria condessa, de quem já fora confidente fiel. Porém, Sakura nunca tivera conhecimento dessas trocas de cartas. Mebuki acreditava que mantendo a filha distante de qualquer novidade de Mr. Uchiha a estaria privando de frustrações maiores. Alimentá-la com informações de como Sasuke, por meio da mãe, sempre pedia por notícias da menina, poderia lhe dar falsas esperanças e ajudaria a manter sentimentos indevidos.

Ignorante a conhecimentos essências, Miss Haruno se lamentou intensamente durante aquela tarde, mas decidiu não se submeter a um sofrimento sem fim. Estava disposta a definitivamente arrancar Mr. Uchiha do coração e esquecê-lo para sempre. Precisava tomar uma atitude antes de as sensações tornarem-na amarga. As ideias que possuía sobre ele, eram exatamente isso, apenas ideias. Os delírios de alguém que, vendo-se presa, aguardava seu salvador.

Ela o esperara todos esses anos por vislumbrar nele a própria liberdade. Um pássaro que após ser trancado em uma gaiola, espera alguém capaz de lhe devolver a natureza, e, no entanto, se for liberto, não saberá mais como voar. Agora estava entregue a realidade dos fatos. Tudo que imaginava para si não passavam de expectativas vãs. Ver Mr. Uchiha novamente foi a quebra de uma ilusão. A certeza de que ele se tratava apenas de um homem, como qualquer outro, e tudo que ansiava e sonhava não passava de ideias em sua cabeça criadas pelo sentimento da menina que há tempos deixara de existir. O entendimento desse mundo de idealizações a levou a um estado profundo de melancolia. Mas se apegou a crença de que uma hora esse sentimento iria passar, e tudo seria melhor com o enfrentamento da realidade. 

Os dois cavalheiros tornaram a aparecer pelas três tardes seguintes. E ela lidou com isso como sua razão recomendou lidar, com indiferença e frieza. Em nenhuma das visitas foi intrometida a ponto de juntar-se ao pai na sala para se inteirar dos assuntos tratados entre eles. Mantinha-se distante, presa em longas leituras em qualquer outro cômodo. Apenas se fazia presente quando era solicitada para servir o chá, e o fazia de maneira solene. Nesses curtos momentos, percebia o olhar penetrante de Sasuke sobre si, mas se limitava a um cumprimento breve, para não ser comparada a uma moça ingrata. 

Não se meteu a conversar com ele e falar sobre seus avanços nos últimos anos, pois do que ouviu brevemente das conversas, concluiu que os senhores somente falavam a respeito de propriedades e amenidades do dia-a-dia. O nome dela não era mencionado. Acreditou, portanto, não ser um assunto do interesse de Mr. Uchiha. 

Ela entrava e saia da sala com bandejas e bules tão mais calada que a própria criada. Tornara-se uma criaturinha passiva e silenciosa, quase invisível se não fosse pela graciosidade impossível de ser ignorada. E apesar de não deixar perceptível, como qualquer outro ser após uma grande decepção, sentia e sofria agudamente; buscando, com desespero e obstinação, enterrar todos os sentimentos e sensações.

A Sra. Haruno não era indiferente a melancolia da filha, mas não via nada que pudesse fazer para resolver a situação. Ela pretendeu oferecer um sarau em boas vindas aos recém-chegados, de forma que uma noite alegre pudesse recuperar os ânimos de Sakura; contudo, o restante do grupo do conde estaria em Forshire em menos de uma semana, e a condessa, nas palavras do filho, fazia questão de oferecer um jantar para os Harunos tão logo estivesse instalada em Spring Castle, de modo que qualquer mínima reunião antes disso seria intolerável.

Os dias não passaram rápido para a senhorita Haruno, arrastavam-se pesarosamente; mas a chegada do conde finalmente aconteceu, e com ela a visita a Spring Castle. A propriedade mais deslumbrante de toda Forshire, de onde ela tinha imensa saudade.

A família do clérigo foi muito bem recebida pelo conde, a condessa e todo o grupo. Mr. Uzumaki, já haviam percebido, era um homem divertidíssimo. A senhora Uzumaki, sua esposa, aparentava ser uma dama extremamente educada, além de deslumbrar com uma aparência encantadora. A senhorita Ino Uzumaki, por sua vez, notavelmente era de uma alegria contagiante e beleza incontestável, com cabelo dourado  e olhos azuis semelhante ao do irmão; Sakura apenas poderia parabenizar Mr. Uchiha pela excelente escolha. 

 Miss Haruno, a senhorita é uma verdadeira beldade!  Ino lhe dissera, tão logo foram apresentadas. Sakura não se tomava tão bonita a ponto de ser considerada uma beldade, porém não contrariou a jovem.

 Eu não posso dizer nada diferente da senhorita.  Respondeu-lhe, em mesmo tom amável. Pretendia detestar Miss Uzumaki por ser a dona do coração de Mr. Uchiha, mas não foi capaz disso. Gostou dela, e ficou contente com a possibilidade de se tornarem íntimas. Afinal, em questão de meses, ela seria a senhora de Spring Castle. Finalmente teria uma amiga com quem passar as tardes e tomar chá, embora essa não parecesse ser uma ideia de divertimento para uma dama animada como Ino.

 Vejo que poderemos nos tornar boas amigas. A senhorita virá nos visitar com frequência? Será animador ter a sua companhia nesses dias. Concorda, Hinata? 

 Certamente. Espero tardes divertidas. A senhorita gosta de arco e flecha ou críquete? 

 Faz muito tempo que não manuseio uma flecha, e não possuo habilidade alguma com tacos.

 Como se divertem as jovens de Forshire, então?  indagou Ino.

 Particularmente, gosto de ler e caminhar. Às vezes, também cavalgo.

 Miss Haruno, ler e caminhar está fora de questão nas próximas 6 semanas! São atividades maçantes. Também não pretendemos nos acidentar em um cavalo. Mas ensinarei a senhorita a jogar críquete, e nos divertiremos desse modo. Quanto ao arco e flecha não posso garantir-lhe, Hinata é invencível, será vergonhoso se nos atrevermos a tentar.

 A senhorita Sakura Haruno é uma moça reservada. Não a assuste com seu comportamento. — O irmão a repreendeu com graça.

 Mr. Uchiha, eu a estou assustando?  perguntou ao noivo, visto que de todos ele era quem mais conhecia a jovem filha do clérigo.

Sasuke olhou demoradamente para Sakura, pensando a respeito, mas não se pronunciou. A Sra. e Srta. Uzumaki, aliás, o tinham como um cavalheiro demasiadamente austero e sem uma ideia apropriada sobre diversão. Encontravam nisso um tipo interessante de charme, apesar de detestarem como ele preferia o silêncio, privando-as muitas vezes de um posicionamento sincero, qual recusava expor aparentemente por mera severidade. 

A única resposta obtida foi um olhar, que nada dizia na verdade. E então ele se retirou, direcionando-se a sala de jantar, onde os pais já aguardavam, acompanhados do sr. e sra. Haruno. O pequeno grupo, diante da ação, viu-se obrigado a segui-lo.

O conde estava à cabeceira. A direita, a condessa foi acompanhada pela Sra. Haruno e a Sra. Uzumaki. Do lado esquerdo, a Srta. Haruno encontrou um lugar reservado entre Sasuke, a ponta; e Naruto, imediatamente acompanhado da irmã.

Manter-se perto do senhor Uchiha não se mostrou uma condição confortável. Nenhum diálogo foi iniciado entre eles, ambos se mantiveram estranhamente distantes em pensamentos durante boa parte da refeição, apenas escutando o que era dito. Sasuke, vez ou outra, até teceu algum comentário, porém nada que partisse unicamente de seu desejo para uma conversa, somente reagia quando era questionado.

 Miss Haruno  a condessa chamou-a de repente, depois de um curto silêncio entre os convidados. Pretendia escutar a voz dela, do contrário, a sobremesa seria servida e a jovem permaneceria calada. Ela não expressava sequer uma opinião a respeito dos assuntos tratados. Não parecia a garotinha inconstante e tagarela que antigamente corria pelos seus salões. Disseram-me que há um médico em Heshifild e a senhorita é a favorita dele. Essa informação é verdadeira? 

Mr. Uchiha, pela primeira vez durante a refeição, demonstrou uma alteração de semblante. Sakura ficou desconcertada, tanto pela pergunta, quanto pelo súbita atenção recebida.

 Completamente verdadeira  O Sr. Haruno respondeu por ela.  Não houve um pedido formal devido o empecilho do Dr. Yamanaka está hospedado no pensionat. A condessa deve estar a par de que a chegada dele na região se deu para tomar posse de uma herança e foram necessárias reformas na propriedade. Mas tão logo tudo estiver acertado, haverá um casamento. Mr. Yamanaka esteve comigo em uma conversa particular para expor como se sente em relação à Sakura. Ele tem a minha benção. 

 Excelente! E quando ocorrer o pedido, a senhorita irá aceitá-lo?  a condessa tornou a se dirigir a jovem, interessada verdadeiramente em ouvi-la.

Para Sakura a informação se tratava de uma novidade. Surpresa, ela buscou os olhos da mãe, a fim de descobrir se era a única a não ter conhecimento do fato. Aparentemente, a Sra. Haruno estava tão ignorante no assunto quanto ela; os dias de cama a impossibilitaram de se inteirar sobre as últimas questões. Sem saber de imediato como responder, ela lançou um olhar demorado para as pessoas a volta, como se alguém pudesse lhe mostrar uma saída. Contudo, apenas encontrou o semblante agudo de Mr. Uchiha e os rostos ansiosos das damas para ouvi-la. Todos a mesa aguardavam um posicionamento. A senhora e a senhorita Uzumaki, em especial, sorriam contentíssimas, geralmente se alegravam pela notícia de um casamento. 

 Eu não vejo porque recusá-lo, milady. — Foi a resposta mais sincera que encontrou no momento. Posto isso, novamente baixou a cabeça, dessa vez não por simples recato. Os ânimos foram alterados. Estava entristecida pelas circunstâncias, a sensação de pesar aumentara mil vezes mais. Não que detestasse o Dr. Sai, mas não conseguia ficar alegre com a ideia de desposá-lo. 

De novo, o Sr. Haruno tomou a frente, falando por ela e sobre os talentos que conquistaram a afeição do médico. Sua filha era a professora da paróquia, visitava os enfermos e muitas vezes tocava para algumas matronas solitárias, possuía muitas habilidades com costuras e, tal qual a mãe, também sabia desenhar muitíssimo bem. 

O senhor Haruno esquecera, contudo, que fora Mr. Uchiha a ensiná-la tocar piano e pintar paisagens, tomando para si muitas vezes a função de tutor, visto que a menina se recusava a aprender com a mãe e apenas se interessava em segui-lo. Inclusive, ele se lembrava de todas as falhas da pupila. Sakura não era tão exímia com os pincéis como o pai tentava fazer acreditarem, apenas conseguia desenhar frutas e flores. 

Tão logo o jantar chegou ao fim e o grupo se retirou para a sala de visitas, o assunto a respeito das habilidades foi retomado. Uma noite agradável precedia de música, e com três jovens senhoras, não se esperava por nada menos que muita distração com apresentações contagiantes.

A senhorita Haruno se viu obrigada a tomar o lugar no piano, apesar de tentar explicar quão escassos eram seus treinos. Não tinha um piano em casa, somente tocava quando visitava a Sra. Senju em Wonffiel Hall; e mesmo assim aguardaram ansiosos sua apresentação.

Movida pelo medo de cometer muitas falhas diante de um público consideravelmente grande e instruído, as mãos dela tremiam quando as repousou sobre o instrumento. A visão se limitou as teclas brancas e pretas diante de si, sequer ousou olhar para o lado, para onde o grupo esperava ser agraciado. Ela apertou os olhos, lutando contra a agonia a fazê-la tremular. Não conseguiria tocar se as mãos não retomassem o controle. E não considerou que fosse capaz de lutar contra os efeitos do próprio corpo. 

No entanto, quando abriu os olhos após uma longa inspiração, viu um par de mãos masculinas repousarem ao lado da sua. Imediatamente tornou-se tranquila, como se o cavalheiro ao seu lado fosse capaz de lhe tirar todos os medos; no mínimo, dava-lhe a segurança necessária. Eram as mesmas mãos que a ensinaram, e ela tendia a ficar mais confiante quando tocava acompanhada por ele. Pelo nervosismo, não havia percebido quando Mr. Uchiha viera ao seu socorro e sentou-se ali, mas ficou intensamente grata ao notá-lo, apesar de não se dignar a agradecer com um simples murmuro ou olhá-lo diretamente.

 Um dueto, como milady gostava de escutar  ele disse em tom elevado, referindo-se a própria mãe. No passado, a senhora Uchiha costumava presenciar os treinos da menina, apreciava a música acima de qualquer outro tipo de arte. 

 Mozart, concerto número 21. Recorda-se?  perguntou em sussurros, de forma que apenas a moça ao seu lado escutou. Ela confirmou posicionamento os dedos corretamente, da forma que aprendera com ele. 

A música foi ouvida e apreciada de fato nos primeiros minutos. Depois, como era de se esperar, aconteceu um desvio de atenção. O conde e o clérigo, a fim de tratar de algumas questões, se retiraram para uma conversa particular. Lady Uchiha e a Sra. Haruno organizaram uma mesa para jogar cartas, acompanhadas pela senhorita Ino, a senhora Uzumaki e a animação estonteante do marido, que com suas trapaças pretendia ganhar muitas rodadas, e portanto sugeriu jogarem apostado. O jogo logo se tornou uma mistura de sorrisos e vozes exaltadas. 

Sakura tocava compenetrada, bastante determinada a não falhar diante do antigo professor. O senhor Uchiha, por sua vez, sem a necessidade de tanta atenção para alcançar notas perfeitas, cedia a inclinação de observá-la. Após uma distração com pensamentos, entretanto, levantou-se de súbito, deixando a jovem sozinha e com uma ideia infeliz sobre os motivos que o fizeram agir em modo descortês. Sequer haviam terminado o concerto.

Fora tudo muito rápido e brusco. Em um segundo ele estava lá, ao lado dela, admirando-a com demasiado encanto; no segundo seguinte, estava de pé, distanciando-se sem ao menos uma palavra. Acomodou-se do outro lado da sala, tomando uma distância exagerada, e não mais tornou a olhá-la; como se Sakura já não existisse para ele ou fosse uma criatura detestável. Isso a entristeceu terrivelmente.

Pelo bem de seu humor, não ficou muito tempo sozinha, livre para pensar, com seus botões, quão rude Mr. Uchiha a tratou e com tão pouco caso a magoava. A senhorita e a senhora Uzumaki logo se aproximaram para lhe fazer companhia, estando ambas sem paciência para os conflitos de um cavalheiro inconformado e duas senhoras tão mais trapaceiras que ele. 

Disposta a deixar Miss Haruno descansar, Ino se colocou ao piano com uma canção alegre, sendo acompanhada pela voz angelical de Hinata, que às vezes abandonava a letra por um sorriso divertido. Uma apresentação improvisada. Certamente, como cunhadas, poderiam apresentar com louvor uma peça ensaiada anteriormente, mas se jogaram ao prazer se algo novo e divertido. As duas sorriam constantemente, sem se importarem com as falhas. De fato não importava. os outros ali presentes estavam envolvidos demais em suas atividades e próprios pensamentos para criticá-las por uma ou outra nota fora do tempo e tom.

Apenas Sakura realmente as observava. Gostou de ver as duas damas tão espontâneas, desejando se permitir como elas. Certamente seria rechaçada pelo pai se agisse de tal forma, deixando-se sorrir dos próprios erros, em vez de repudia-los e consertar as imperfeições imediatamente. 

Observava as duas firmemente, mas não por criticá-las por tamanha exibição de falta de modos e recato; no íntimo, somente pensava consigo que gostaria de ter a mesma liberdade. Por fim, sentou-se em uma cadeira solitária e tirou da bolsinha o livro de poesia em francês que carregava consigo. Envolvida com a música, permitiu-se uma leitura prazerosa e educativa. Depois de alguns minutos, notou obliquamente os olhos de Mr. Uchiha sobre si. Aparentemente ele decidira desistir de ignorá-la, tomando conhecimento que não seria petrificado caso a observasse. Foi assim que Sakura chegou a se sentir, como uma medusa, que ele evitava olhar para se livrar de uma punição.

Por algum tempo ela conseguiu ignorar e se manter indiferente à fria análise. Porém a situação se tornou insustentável. Já estava com o pescoço dolorido de tanto manter a cabeça inclinada para total atenção na leitura. Evitando simplesmente guardar o livro e erguer o olhar para inevitavelmente encontrar o dele, decidiu levantar-se e ir até as vidraças, de onde achou por bem apreciar a vista. A ação, contudo, não configurou uma fuga. Mr. Uchiha a seguiu, igualmente se colocando diante da janela.

 O comportamento do senhor me confunde.  Disse, e aguardou uma resposta, ou uma simples demonstração de estar sendo ouvida. Não obteve nenhuma reação. De qualquer forma, movida por uma coragem repentina, prosseguiu:  Foi gentil ao me salvar de uma humilhação. Porém, mostrou-se igualmente rude ao me deixar sem ao menos uma palavra, como se minha simples presença o irritasse profundamente. 

 É a senhorita quem tem me confundido e atormentado. 

 De qual forma eu o atormento? Diga-me, e farei o possível para deixá-lo em paz.

Houve silêncio. Sakura aguardou demoradamente por uma explicação que não veio. Desistindo, voltou a olhar o jardim, ignorando a presença dele. 

 Então é a professora da paróquia?  Ele tornou com essas palavras, pondo-se também a analisar a vista noturna dos corredores de flores, iluminados apenas pela lua cheia. — Tornou-se uma Miss Jane?

Era um cavalheiro educado para zombar de uma função tão importante. Admirava quão boa e respeitada Sakura se tornara em Forshire. Porém, desconfiava estar diante de uma farsante. Sua Sakura não passaria as manhãs tentando ensinar crianças endiabradas. Então existiu, mesmo sutil, um ar de ironia nas palavras dele. 

Para a senhorita Haruno o sarcasmo evidente levou-a a acreditar que Mr. Uchiha estava se divertindo às suas custas. Depois do rompante de mais cedo, agora se aproximava com zombaria. De certo a tomava uma camponesa  ignorante e sem sentimentos, a quem se podia desprezar e sorrir. Apesar de magoada com as possibilidades, pouco disposta a ser motivo de chacota para ele, a quem tanto admirou um dia, com incrível audácia o enfrentou diretamente. Não vacilou diante dos olhos negros e o semblante estóico, mesmo quando o fizera tanto nos últimos dias. 

 Ser a professora da paróquia é uma posição respeitável, Mr. Uchiha. Não deveria desdenhar de mim por ocupá-la. 

Sasuke sorriu, confuso pela situação. Não estava caçoando dela. Em verdade, esperava solenemente que suas palavras fossem tomadas como uma brincadeira. Mas aparentemente a moça ao seu lado se tornara muito séria para se deixar levar pela espirituosidade. 

 Não pretendo fingir minhas pretensões, mas não estava  desdenhando da senhorita. Eu esperava que pudéssemos rir juntos da ironia do destino. Esqueceu-se de como detestava essa função e alugava meus ouvidos com críticas a sua professora? Era a senhorita quem se divertia com essa situação, cabendo a mim o dever de contê-la por tal conduta maldosa.

 Poderia apresentar esse comportamento no passado, porque estava do outro lado e via tudo com olhos de criança. No entanto, sempre admirei o trabalho e a devoção de Miss Jane para com as crianças da paróquia.

 É essa sua opinião definitiva? 

 Eu não poderia ter outra.

 Pois bem, desde que pisei em Forshire tenho pensado se o espírito de uma pomba branca se apoderou do seu corpo. Agora estou certo disso.

 Eu? Uma pomba branca?!  Lembrou-se, de súbito: na infância se referia dessa forma a Jane Smith.

Mr. Uchiha sorriu discretamente da reação afetada, reconhecendo-a finalmente na expressão indignada. 

 Repudiava o estilo de vida da senhorita Smith. Dizia-me sempre como era uma moça tola. Tão pacífica quanto uma pombinha, cuja pouca vontade de agir nunca a faria se afastar de Forshire.  A senhorita levantava as saias daquela pobre criatura, e só não a enlouqueceu porque a moça sequer tinha nervos sadios para serem destruídos. 

 Mas sempre admirei a coragem de Miss Jane para o amor  respondeu de ânimo revigorado. Talvez Sasuke não se lembrasse da ocasião no passado, mas ela sim. E manteve o rosto erguido, em evidente desafio.

 Ora...  ele desconversou a princípio, porém sustentou o olhar. Depois de pensar no que pareceram longos segundos, tornou:  — Então realmente espera seguir os passos dela? O médico do pensionat por acaso lhe presenteia com rosas diante das crianças, também tem suíças? 

Mr. Yamanaka de suíças!  sorriu sonoramente pelo disparate. Pela primeira vez, depois de muito tempo, não se importou com uma possível opinião negativa dos espectadores. Também, ninguém os observava de verdade, permaneciam entretidos com a música e o jogo de cartas; não estavam atentos para julgarem-na uma moça espalhafatosa.  Não é um senhor de idade avançada e com pouca ideia sobre a importância de uma boa aparência, tem 27 anos apenas. É um cavalheiro distinto.

 Aí está: um cavalheiro distinto! Posso supor que é uma criatura pitoresca. 

 Nem um pouco pitoresco.

 Então nega ter aprendido usar a palavra distinto para destilar ofensas veladas? 

 Absolutamente. Não há nada do senhor Sai que possa ser usado contra ele. Eu não seria capaz de ofendê-lo.

 Não seria capaz? Estou convencido: há muitos defeitos. A sua boa educação é o que a impede de pontuá-los. Talvez eu visite o pensionat amanhã, e verei com meus próprios olhos o que a senhorita tenta esconder deles. 

— Encontrará uma criatura agradabilíssima! Um homem de caráter estimável, modos educados e boa aparência. Entenderá logo porque as moças de Heshifild estão sempre doentes e aguardam a visita de um médico.

 Simulam uma doença no intuito de recebê-lo?  

 Uma oportunidade de conquistar-lhe a afeição, que foi cedida a mim de bom grado. Não espere por nada menos que um perfeito cavalheiro.  Mentiu, não considerava o médico tão agradável assim. Em seu íntimo, somente estava tentando enciumar o senhor Uchiha; por mais que sequer fosse capaz de admitir para si mesma.  Eu recomendo não perder seu tempo indo até Heshifild; afinal, o que lhe diz respeito a aparência do Dr. Yamanaka? Não deveria ser do seu interesse quem me tornei ou com quem pretendo me casar. 

Sasuke não encontrou palavras de imediato. Ficou olhando para a moça diante de si, sem saber ao certo o que dizer.

 Preocupo-me com a senhorita...  disse, por fim.  Como se fosse minha própria irmã. 

 No entanto, não é o meu irmão. 

Não pretendia esperar dele que a visse como qualquer outra dama, como uma mulher que poderia se tornar sua esposa, principalmente porque existia o empecilho de um compromisso com Miss Ino. Mesmo assim, ficou intensamente irritada por ser considerada uma irmã. 

 Eu a vi crescer. Sempre lhe tive com muito apreço.

 Não me tinha apreço algum. — Tais palavras foram vociferadas, antes de ela lhe dar as costas. Perdera a vontade de conversar com ele.

Sasuke a segurou discretamente pelo punho, impedindo-a de se afastar.

 Parece que se esqueceu de como eu a adorava... 

 Adorava-me!  interrompeu em tom irônico, utilizando-se do cinismo que guardava da personalidade impetuosa. 

 A senhorita foi uma menina radiante. Recordo-me de como tagarelava por horas e os olhos pareciam iluminados por uma chama inconsumível. Eu gostava de tê-la por perto, era a única companhia que eu tolerava.

 Eu era apenas tolerável para o senhor?

 Não...  respondeu rápido. Mas logo imergiu em silêncio quando não pôde desviar do olhar demasiadamente triste que aguardava por mais. As palavras estavam em sua boca, porém não sabia se deveria dizê-las.

Antes não se importava de como se alegrava com a presença dela, verdadeiramente possuía um sentimento muito forte de carinho pela menininha que o acompanhava; mas agora existia uma culpa latente em seu peito a cada vez que a olhava e admirava. Nos últimos anos se sentira sombrio. Todavia, quando a reencontrou na trilha, algo acendeu dentro de si, como se somente ela fosse capaz de lhe devolver a luz. Fora a paróquia nas últimas tardes somente para vê-la, e não porque despertara interesse nos assuntos do clérigo. E quão frustrante tornou-se não poder desfrutar de sua presença durante as curtas reuniões. Justamente por esses impulsos e frustrações se sentia culpado. 

Sakura, com aqueles olhos verdes de lago e aspecto adorável, provocou-lhe tamanha inquietação no espírito que fora difícil tirá-la da cabeça nos últimos dias. Ela havia se tornado uma moça encantadora, de beleza estonteante completamente capaz de despertar paixão e admiração em qualquer cavalheiro. O fato de ter participado da infância dela e possuir um compromisso não o deixou imune. A senhorita Ino Uzumaki também era uma bela dama, e mesmo assim não lhe despertava as mesmas sensações. Tudo isso era perturbador para sua moral.

Desistindo de esperar uma palavra a mais, a Srta. Haruno puxou o braço delicadamente a fim de deixá-lo e se unir as demais damas, que finalmente haviam chegado ao fim de mais uma animada apresentação. 

 Era a luz que me resgatava da sombriedade  respondeu por fim.  A senhorita me fazia sorrir. 

 Mesmo assim foi capaz de partir sem um adeus. 

 Não pretendia fazê-la sofrer. 

 O senhor pensou que por ser uma criança, eu não tinha sentimentos reais e não merecia a verdade? Não considerou que eu sofreria mais por ser abandonada de forma cruel?

 Eu fui cruel? 

 Me fez chorar todas as noites por dois meses seguidos. 

 Miss Haruno!  A Srta. Uzumaki chamou-a animada.  É a sua vez de cantar. 

Sakura sorriu sem graça, discordando. Detestava cantar. Mas a recusa não foi aceita, Ino levantou-se de onde estava para buscá-la, em demasiada animação. 

 Por favor, não nos abandone pela companhia de Mr. Uchiha  pediu, enlaçando o braço ao da outra. Sem ressentimentos, lançando uma olhadela para o noivo, acrescentou: — Ele não pode ser tão agradável assim, por mais que a senhorita goste dele. Sinceramente, é um cavalheiro monótono.  

 Perdoe-me, Miss Haruno.  Ele murmurou, retirando-se. Não pretendia atrapalhar as pretensões delas.

A Srta. Uzumaki entendeu a fala como um pedido de desculpa por ter roubado da jovem alguns minutos com uma conversa provavelmente tediosa. Mas Sakura soube, foi uma demonstração de arrependimento por não ter se despedido há 10 anos. 

 Mr. Uchiha vive isolado em Madsland pintando quadros e perdido em leituras, é um homem melancólico. Que assunto poderia tratar com a senhorita que lhe despertaria o interesse, é uma criaturinha obscura como ele? 

 Um pouco  respondeu-lhe. E Ino levou a mão ao peito, demonstrando tremenda indignação. 

 Pois bem, irei tratar de alegrar os seus dias enquanto eu estiver aqui. Não há de ser melancólica enquanto eu puder animá-la. 

Ino Uzumaki era sincera ao prometer-lhe animação. 


Notas Finais


Cês viram né? Eu achei a foto perfeita para o capítulo 🥰🥰 (tô com várias salvas para os próximos). Inclusive, mudei a do capítulo anterior, depois olhem lá e morram de amores 😏🤭.
Beijoss


Gostou da Fanfic? Compartilhe!

Gostou? Deixe seu Comentário!

Muitos usuários deixam de postar por falta de comentários, estimule o trabalho deles, deixando um comentário.

Para comentar e incentivar o autor, Cadastre-se ou Acesse sua Conta.


Carregando...