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História Soledad - Capítulo 3


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Notas do Autor


Começaram a semana bem? Eu comecei de forma ÓTIMA: Finalmente, após 84 anos, a temporada 2 de The Umbrella Academy tá a caminho! Um alívio pra passar esse isolamento social, né? ^-^ (Só falta Stranger Things dar o ar da graça também)

Espero que aproveitem esse capítulo delicinha! Obs: as partes em itálico se referem ao passado! ;)

BJokas e ótima leitura! ♡

Capítulo 3 - Ninguém


Jamais estudara pra valer na vida; sempre fora do tipo “esforçada”, maleando o sistema e tirando boas notas. Mas quase poderia se considerar profissional depois daquelas leituras matutinas. Fixou técnicas, treinou trejeitos, comprou relógios e peças lustrosas. Até seus sonhos eram pincelados em preto e branco, cavalos e rainhas...

Dona Carmem lhe pegou lendo a revista de esportes certa noite, mas não disse nada. Apenas observou por trás da porta, os olhos com um brilho estranho, parecidos com os de...

— Cinco costumava jogar por horas e horas, sem nem sentir fome — ela riu saudosa. — Eu vivia brigando com ele por não deixar Klaus jogar. Dizia que ele não tinha “inteligência suficiente” para isso...

Ela pareceu perdurar no tempo por um segundo, até ir embora.

Quando saiu, o brilho lhe havia deixado.

Roma sabia o que ela estava pensando.

Como este garoto, que jogava xadrez e driblava adversários no basquete, se transformou num assassino frio e calculista?




Junho de 1998

Parecia tragicamente errado, como uma cirurgia inacabada, culminando na falência múltipla dos órgãos sem que os médicos nada pudessem fazer.

Sentia-se apodrecer, definhar, como o pedaço de carne que eles tanto pregavam. Fazia e refazia cada um de seus simples passos, trilhando os caminhos tortuosos da mente, tentando compreender: apenas havia entrado no banheiro masculino do ginásio por engano. Por que estava prestes a ser estuprada?

— E é essa questão que nos move até aqui — reverberou Lucas, como se proclamasse um grande feito. Jogou a última peça de roupa da menina para o colega, que riu soprado. — A vagina de vocês é ou não é maior?

Houve risadas. Talvez um tapa ou dois... Se o sangue tapasse a pele negra, conseguiria escapar? Sua pele era escura, mas os motivos para tal atrocidade não pareciam claros o suficiente.

Pensou nos pais. O que diriam? Tentou esconder-se em si mesma, enlaçando o corpo aos braços, fundindo-se a parede branca e suja, como se isso pudesse transformá-la em outra pessoa.

Mas o sutiã era remendado. Os seios, ainda crescendo, tímidos. A calcinha rosa fora presente da madrinha e a parede, fria demais.

Era apenas uma menina. Estava chorando porque era apenas uma menina.

E eles eram três meninos.

Começaram a discutir sobre quem iria comê-la primeiro.

Roma começou a falar consigo mesma. Em algum momento percebeu que era uma oração.

— Que merda é essa?

Ela levantou os olhos, desesperada. Era uma voz diferente das que estiveram presentes até aquele momento.

Um garoto esguio, de queixo marcante e olhos verdes observava os rapazes, autoritário. As mãos repousavam nos bolsos do uniforme.

Atrás, um outro menino: mais tímido e contido, os cachos castanhos cerrados na testa. Roma encontrou um breve descanso ao observar seus sapatos coloridos e alegres.

— Olha! — Exclamou Lucas, abrindo os braços, como se recebesse velhos amigos. — Eu conheço você...

— Com certeza conhece.

A garota invejou a confiança em sua voz, principalmente porque se tratava de alguém tão novo. Já havia visto aquele garoto nos corredores... Era apenas um ano acima da sua série.

Lucas estalou os dedos, atraindo toda a atenção para si.

— Lembrei: o amigo do viadinho! — Ele riu sozinho. — Eu esqueci que vocês tiram esse horário pra beijar na boca, me desculpa.

— E vocês devem ser o trio dos broxas — e deu um caloroso passo a frente. O outro garoto tremeu e começou a murmurar alguma coisa. — Mais conhecidos como covardes.

Lucas riu, parecendo surpreso pela ousadia do rapaz. Todos se tratavam de garotos...

— Corajoso você...

— Obrigado — apontou para a garota, ainda encolhida. — O que estão fazendo com ela?

Lucas sorriu de um jeito nojento e maldito, ajeitando os cabelos loiros.

— Tirando dúvidas.

— Que tipo de dúvidas?

Ele estalou a língua antes de responder:

— Ouvi dizer que a vagina das pretas é maior do que as demais. Apenas quero tirar minhas próprias conclusões... — ele parecia conter a gargalhada antes de finalizar: — Pelo bem da ciência e das descobertas!

Por um momento houve um profundo silêncio, como se o peso das palavras recaísse sobre as teias da situação.

Eram estudantes. Adolescentes. Ninguém ali passava dos 14 anos, mas as mentes corroídas pareciam apodrecidas por longos e decadentes séculos...

O garoto de olhos verdes olhou para Roma. Não para o fato de que estava seminua, mas na parte mais íntima do seu corpo: os olhos.

Roma apenas conseguiu observar o fato de que o sol entrava pela janela quebrada do banheiro, corria sob o chão imundo, subia pelos shorts de pano e a camisa com o emblema escolar e repousava nos olhos dele.

Lhe lembrou o lago verde que ia pescar com o pai nas férias. Os peixes visíveis na superfície, a quietude da água morna jorrando no biquíni rosa e nos sorrisos...

Roma suspirou, completamente submersa naquele garoto desconhecido.

Ele simplesmente se virou e lançou-se sobre Lucas, como um animal recém liberto da jaula. Desferia golpes selvagens, destilados da mais pura ira. Os outros dois se entreolharam arregalados, até se unirem a Lucas, que no momento tinha sua cabeça enfiada no vaso sanitário.

Houve socos, chutes e algo se estilhaçando. O garoto dos tênis coloridos sentou apressado ao lado da garota, apenas observando a cena da briga, horrorizado.

— Santo Deus eu sabia que isso não ia dar certo — entre murmúrios desesperados ele ajudou Roma, em choque, a se levantar. Tirou o casaco e jogou sobre os ombros nus da menina. — Fica aqui, eu vou gritar por ajuda.

E gritou mesmo. Alguns minutos depois, dois homens adultos entraram no banheiro e conseguiram apartar a briga. Um deles saiu com o nariz sangrando, tentando conter o garoto de olhos verdes que parecia possuído.

Roma não conseguia acreditar. Antes de sair do banheiro, olhou para trás.

Lucas estava desacordado e havia mais sangue que o necessário ao seu redor. Os dois amigos pareciam desorientados, perplexos, gemendo baixinho.

Era inacreditável. Era o seu milagre.




Havia lápis de olho ao redor dos seus olhos. O menino dos tênis coloridos lhe ofereceu um copo d'água, que ela aceitou com mãos trêmulas.

— Obrigada...

As roupas que havia encontrado no "achados e perdidos" pinicavam sua pele. Roma não sabia o que dizer para o garoto que ironicamente havia visto ela praticamente nua, mas não queria estuprá-la.

Olhou para a porta da diretoria, que permanecia fechada.

— Acha que ele está bem?

O garoto piscou para logo em seguida, sorrir.

— Está sim. Acho que ele só quebrou o nariz — em seguida colocou a mão na testa, como se tivesse dito uma grande besteira. — Santo Deus.

Roma gostou dele. Gostou muito. Mas não era o momento próprio para dizer isso.

— Ele é seu namorado?

O menino fez sinal com a mão como se espantasse uma mosca.

— É meu irmão. Ele já teria me enterrado vivo se fôssemos namorados.

Desta vez ela riu. O garoto se virou totalmente para ela.

— Meu nome é Klaus.

— Roma.

— Roma?! — Já estava acostumada com aquela reação. Mas os olhos de Klaus traziam algo totalmente novo. Sorriu e confirmou. — Nossa, e eu achando que meu nome que era ridículo.

— Bem...

— Santo Deus! — Ela riu ainda mais. — Me desculpe, eu nunca penso antes de falar.

— Está tudo bem — Roma se permitiu soltar um longo suspiro. — Agora está tudo bem...

— Peço desculpas pelo Ninguém também. Sempre foi assim, pavio curto — Klaus balançou os ombros tristemente. — Essa já é nossa terceira escola por conta das brigas dele.

— Ninguém? — Indagou Roma, sem conter a curiosidade por aquele nome (ou apelido) pouco comum.

— É como ele prefere ser chamado — suspirou profundamente. — Estava demorando para ele arrumar problemas...

— Mas isso não foi culpa dele. Ele estava tentando me ajudar!

— Ajudar é uma coisa, matar alguém é outra!

Klaus tapou a própria boca enquanto murmurava um 'santo Deus!' bem baixinho. Um calafrio desagradável passou pelos ombros de Roma.

Matar alguém?

A porta da diretoria se abriu repentina e barulhenta. Ninguém, pelo que Roma deduziu, saiu sozinho, mancando e segurando um pano sob o nariz.

Olhou diretamente para Klaus antes de murmurar:

— Vamos.

Já ia virar as costas quando Roma se levantou, incerta, e o chamou:

— Ninguém?

Ele se voltou brevemente, encarando-a de forma desinteressada.

— Quê?

— Eu... só gostaria de agradecer. Pela ajuda.

Ele se virou por completo, observando-a atentamente. Ficou em silêncio até o rosto de Roma ter esquentado o suficiente.

— Ele já te contou não é?

Klaus pulou da cadeira. Roma arqueou as sobrancelhas, confusa.

— O quê?

— Matar. Alguém — ele desviou os olhos por um segundo antes de dizer: — Eu sei que ele te contou. Está me olhando exatamente como todo mundo faz ao saber.

Dizendo isso ele se foi, mancando pelo corredor. Klaus acenou com um sorriso amarelo no rosto, correndo e murmurando atrás do irmão.

Mas Roma queria vomitar. Correr. Chorar.

Então ele havia mesmo matado uma pessoa?


Notas Finais


Dá um bizu lá nos coments! Vocês estão muito quietinhos, parecem meus irmãos quando estão fazendo bagunça e não querem que ninguém descubra -_-

BJão mozamores! Até quinta que vem ♡


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