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História Solis - Capítulo 1


Escrita por: Lunar_mv

Notas do Autor


Aos meus avós, que me fizeram entender “Romeu e Julieta”.

Capítulo 1 - Solis non solum


O relógio marcava 14:00. E nessa altura, eu já havia desistindo.

 E desistir, algo que há pouco tempo atrás sequer se encontrava em meu vocabulário, tornou-se algo frequente em minhas decisões, desde as mais simples até as que impactariam mais a minha vida.

 Recebia ligações constantemente, todas elas carregadas de preocupação.

 “Já faz 6 meses Carina” diziam a maioria das chamadas, “entendo que é difícil e recente, mas está na hora de começar a reagir”.

 Não parecia isso para mim, a ferida estava tão aberta que eu poderia chamar esses dois meses de semana passada, o tempo havia parado para mim, nada mais funcionava, nada mais existia, apenas eu, minha cama e a tv.

 Nada importava o suficiente para que eu me levantasse. Nem hobbies, família ou amigos. Nem o emprego que eu mais amava no mundo: escrever. Nem os prazos. Nem nada.

 15:00

 O tempo era uma ilusão. Havia acordado faz tempo, mas ainda não sai da posição a qual adormeci, o máximo de esforço que eu fazia era segurar a necessidade de ir no banheiro para que eu não saísse do único lugar que eu sentia o mínimo de conforto naquela casa.

 Mas a dor era imprescindível.

 Física ou psicológica? Eu já não sabia responder.

 Talvez a dor fosse a vontade de ir no banheiro, quem sabe o resto milagrosamente passasse? Como num passe de mágica, o primeiro esticar de pernas fosse revigorante? Então tentei levantar, uma perna de cada vez encontrando o chão, e para variar, não foi a solução mágica que eu procurava para todos os problemas.

 - Eu realmente preciso de uma solução mágica – sussurrei, talvez se eu falasse em voz alta alguma fada madrinha realmente a fizesse, mas nada ocorreu.

 Talvez uma fada não fosse o suficiente, talvez nem Deus o fizesse. Afinal, não importa o quanto eu queria, ou o quanto eu reze, não importa o quanto eu possa pagar. A natureza e o tempo estavam contra mim. Por mais que eu queira, não posso fazer ninguém voltar à vida.

 Fiz todo o esforço que eu pude para levantar da cama e fazer minhas necessidades. Fiz todo esforço que eu pude para tomar banho, na esperança que a água me abraçasse e me unir para ela, para que eu pudesse fluir, transbordar e evaporar, mas nada aconteceu.

 Quando saí, fui para a cozinha pegar uma garrafa de refrigerante e um pacote de biscoito, e logo voltei para onde não queria ter saído: minha cama. Sentei nela – do lado esquerdo, lado o qual eu sempre dormia – e cometi o erro de olhar para o lado. O vazio doeu.

 Aquele filho da puta, como pôde ir tão cedo?

 Eu simplesmente não conseguia aceitar. Eu o amava demais. Sei que deveria seguir em frente, mas como? Queria voltar no tempo 30 anos atrás e nunca ter te conhecido desgraçado, assim sua ida não doeria tanto.

 Parece que foi semana passada que você estava rindo comigo, aqui mesmo, falando da vida e fazendo juras de amor como dois adolescentes. Maldito seja aquele “até que a morte nos separe”, como ousamos falar tal coisa? Agora tenho que olhar para esse vazio, o travesseiro surrado o qual eu sempre reclamava e você tanto gostava ainda tendo o seu perfume.

 E antes que lágrimas começassem a cair, o celular toca, interrompendo meus pensamentos. E por isso, eu não sabia ao certo: agradecer ou me irritar?

 Atendi sem mesmo ver o número, pessoas as quais me ligavam geralmente eram pessoas que eu me importava, sempre as atendia, mesmo que isso significasse um esforço a mais, porém eu preferia isso a vê-las tristes e preocupadas. Disso já bastava eu.

 - Alô? Quem fala? – disse, esperando ouvir a voz de alguém conhecido.

 - Oi! Aqui é da Vivo! – a voz do outro lado da linha enunciou, fazendo com que eu me irritasse, pensando no esforço que eu tinha gastado à toa. Juntei toda a paciência que eu pude ainda assim, não ia descontar em um funcionário que estava fazendo o seu trabalho.

 Não pude deixar de pensar na ironia, Vivo era a companhia do meu marido morto. Suas piadinhas foram além de sua vida.

 - Acho que foi engano, eu utilizo os serviços de outra operadora, tenha um bom dia – falei me preparando para desligar.

 - Você por um acaso não conhece o Sr. Otávio?

 Eu conhecia, era meu marido há seis meses atrás. Meu deus, eu havia ignorado a telefonia desde então, provavelmente eu ainda estava pagando por ela, desliga-la era como aceitar que ele havia morrido.

 Mas aquele dia eu estava cansada, e realmente disposta a dar um fim naquilo.

 - Senhor, ele infelizmente - respirei fundo – faleceu.

 Esperei um milagre. Esperei que tudo fosse acabar logo. Esperei uma reviravolta. Quem sabe o atendente revela ser ele? Na verdade, ele estava sendo procurado e teve que se esconder ou um plot digno dos mistérios ou dos romances policiais que ele tanto amava ler.

 Porém, a resposta veio nua e crua:

 - Sinto muito senhora, deseja cancelar a linha?

 Se acho que não há uma palavra que possa definir o efeito dessas palavras. Um a frustração? Uma quebra de expectativa? Tristeza? Vazio? Raiva?

 Não pude colocar em palavras, talvez pudesse colocar em interjeições. Algo entre “auch” e “argh”.

 - Sim, qual é o procedimento? – mal acreditei em minhas palavras.

 - Você pode fazer por linha telefônica, presencialmente ou pelo site senhora. Deseja prosseguir por aqui mesmo? Posso te encaminhar para outra linha responsável pelo cancelamento.

 - Obrigada, mas farei o cancelamento pelo site – anunciei, querendo sair rapidamente da chamada – tenha uma boa tarde.

 Não o deixei responder de volta, apenas desliguei.

 Minha vontade era deixar para depois, mas eu observei o meu comportamento o suficiente por esses meses para perceber que o “depois” nunca chegava. Aproveitei a força repentina e me dirigi ao computador.

 Quando liguei, fechei dezenas de arquivos abertos referente ao trabalho, até que no último arquivo, me deparei com a última frase do livro que eu estava escrevendo.

 “[...] sua voz suave grudou em minha mente, alterou a frequência do meu ‘tic tac’ e naquele instante eu tive a certeza que se anjos tivessem voz, seria a tua, pois nada parecia soar melhor que isso.”

 Era um trabalho que havia muito sentimento, nunca mais tive inspiração ou vontade o suficiente para continuá-lo.

 Mas o trecho me lembrou de algo.

 Estava com saudade da sua voz, e com medo de esquecê-la.

 Então fui em busca de meu celular.

 Entrei no aplicativo de mensagens e me lembrei o quão pouco digitávamos, você era o filho da puta que preferia ligar, nunca mandou um áudio. A solução era o correio de voz

 Quando o abri tive uma surpresa, uma mensagem de seis meses atrás, que eu ainda não tinha ouvido.

 “Oi meu bem”, o apelido de anos me fez sorrir como eu não fazia há muito tempo, era seu dom “eu tô’ meio estranho esses dias, muito sensível, meu coração tá virando manteiga” e ele deu uma risada fraca, “eu confesso, não estava muito bem hoje, tenho andado muito cansado e trabalhando muito, mas hoje por algum motivo quis parar na praça a qual sempre estávamos passeando quando éramos mais jovens, e confesso que minha vontade é atravessar a cidade, te pegar pela mão e te trazer até aqui, e se o cansaço dançar, abraçados novamente, se não simplesmente olhar para o céu”, outra risada, “ meu bem, você não acredita na beleza desse pôr-do-sol, tive que te ligar, mas você não atendeu, ele é o mesmo de todo dia e eu esqueço de quão bonito ele é” o ouço suspirar “meu bem, você é meu sol, você faz tudo ganhar vida”.

 E com os olhos cheios de lágrimas, eu levantei e fui até a janela, que não era aberta há tempos, e me expus ao pôr-do-sol.

 E o sol estava lá, continuava não importava o que acontecesse.

 Então, eu soube para onde ir.

 Me sentei na cadeira, e finalmente eu soube como continuar a frase.

 Em vez de um ponto final, eu pus uma vírgula.

 E eu soube, que independente do que acontecesse, eu ainda estaria ali.


Notas Finais


:)


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