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História Something Good - Capítulo 11


Escrita por: e camzxsquad


Notas do Autor


Olá! Passagens de tempo estão com suas devidas datas, quando a data se repete é a continuação do momento anterior que foi "interrompido" por uma nova data. Tempo atual da fic está marcado como "presente".

Bora lá? Boa leitura!

Capítulo 11 - Redenção


POV Heloísa

05 de maio.


Ouvi o baque abafado da porta sendo fechada e o barulho de passos no corredor do prédio. Samantha havia ido embora. Eu estava me sentindo incapaz de entender o que estava acontecendo, era uma discussão como naquelas que ela se refugiava na Clara ou um término de relação em que Samantha ditava as regras? Eu me sentia inútil, incapaz de processar o que estava acontecendo, e por mais que eu soubesse que não verbalizaria nada, deveria ter impedido sua saída. Eu deveria ter feito algo, mas não fiz. Senti raiva de mim por ter sido covarde. Era algo que eu deveria ter resolvido há muito tempo, eu nunca deveria ter escondido nada da Samantha. Ela merecia a verdade, precisava saber o que estava acontecendo, mas minha mente me traia e toda vez que eu queria contar o medo me tomava. Uma parte de mim dizia que ela sentiria pena, e que com o tempo o nosso amor não aguentaria a isso, enquanto outra parte me pedia para dizer logo, acabar com aquele sufoco. Mas eu não conseguia. Eu não conseguia explicar como tudo começou. Que um simples ato de querer fazer o bem, acabou dando errado. Sentei-me na cama e encarei o teto. Meu corpo tremia e meu coração estava sendo esmagado dentro de meu peito. Eu queria gritar, mas a minha voz parecia não sair além de um sussurro.

- Lica? – Keyla apareceu com meio corpo para dentro do quarto. – Está tudo bem?

Suspirei e neguei com a cabeça.

- Sabe quando o mundo todo está caindo, e de repente você tem todas as chances de fazer certo, mas opta por não fazer nada? – olhei para ela que apenas deu de ombros.

- A gente complica a vida.

Keyla se aproximou de mim e me puxou para um abraço. Fiquei ali no conforto de seu colo, deixando o choro me tomar por inteiro.

- Tudo vai ficar bem, Lica. – Ela tentou me confortar.

- Como, Keyla? – minha voz saiu embolada pelo choro. – Como tudo fica bem se eu não estou bem? – ela me olhou e deixou um beijo em minha testa.

- Me conta o que está acontecendo? – ela fez um carinho em minha cabeça.

- Promete não surtar? – ela assentiu. – Bom, tudo começou praticamente um ano atrás...


Presente.



Minha perna não parava quieta durante todo momento em que eu me encontrava aguardando naquela sala de espera. Sentia meu peito subir e descer tão rápido que eu era incapaz de controlar. Tentei treinar minha respiração, mas estava difícil, beirando o impossível. Minhas unhas estavam completamente roídas e meus cigarros escassos. A secretária me olhava por cima de seus óculos, como das outras vezes, mas reparava que eu estava mais ansiosa que nas demais consultas. Eu tentava repetir mentalmente o que via em volta, descrevendo para mim mesma enquanto não era chamada. Samantha não poderia estar ali, e isso me incomodava. Havíamos combinado dela me encontrar, mas os últimos dois meses foram complicados. Do consultório pela manhã, para nossos trabalhos e dali íamos para a terapia. Por escolha dela, ainda não estávamos dividindo o mesmo teto. Eu respeitava, havia vacilado, mas não conseguia deixar de sentir aquele vazio todas as noites na hora de dormir. No começo Keyla ficava comigo até eu cair no sono, havia contado para ela o que estava acontecendo, e ela não disse nada, apenas me deu apoio. Tina estava ocupada, o casamento com Anderson balançado e isso lhe colocava em uma situação entre escolher o que resolver. Eu não seria egoísta e pedir para ela segurar minha mão, ela precisava resolver seus próprios problemas.

Durante a noite ainda era difícil dormir, principalmente por Nicolas parecer sentir falta da casa cheia. Tinha uma semana que Keyla e Tônico se mudaram, ela finalmente estava conseguindo se reerguer, e todas as noites ela ainda me ligava para saber como eu estava. Eu omitia a parte da saudade que sentia dela e de Samantha, assim como de Clara e Eduardo. Eu precisava manter algumas coisas para mim, já que outras eram mais importantes naquele momento, como estar naquele consultório pela quarta vez em dois meses. Seria a primeira vez que Samantha escutaria diretamente de Camila o que estava acontecendo, e eu me sentia acuada. Seria muito para mim, assim como para ela também.

O relógio ainda me informava que faltavam cinco minutos até meu horário marcado, e para quem estava ali há quase uma hora, parecia demais.


11 de maio.


Dei dois toques na porta e esperei. Estava ali tomando coragem há quase dez minutos, eu queria conversar com ela, mas não sabia o que diria. E se eu ferrasse tudo de vez? Eu não queria acabar sem Samantha no final disso tudo. Cometi tantos erros com as pessoas que eu amava, mas esse não seria mais um. A cota havia acabado. Tina e Keyla foram claras quando disseram que eu só voltaria para casa depois de conversar com ela, e eu sabia que elas não me deixariam sem ter o feito.

Samantha abriu a porta com uma expressão suave no rosto, mas ao me ver mudou totalmente a postura. Ela criou uma barreira invisível entre nós. Abri e fechei a boca diversas vezes, buscando o que dizer a ela, tentando ao máximo ler suas expressões faciais e não cometer um novo erro. Samantha era incrivelmente compreensiva e paciente, mas eu precisaria cooperar se quisesse que ela me perdoasse dessa vez.

“Não mais.”

Eu sabia que havia selado sua partida com aquelas duas palavras, mas naquele momento não me pareceu errado, só se tornou quando me peguei pensando de novo nisso minutos depois, após o silêncio ecoar em meus ouvidos e meu coração parecer rasgar o meu peito. Eu tinha muito para dizer, explicar a ela o que estava acontecendo não seria fácil, mas era necessário tentar.

Dei um passo para trás e a olhei no fundo dos olhos.

- Precisamos conversar. – Usei de toda minha coragem para não dar as costas e ir embora.

Eu devia a Samantha a verdade.

- Você quer entrar? – Samantha perguntou e cruzou os braços.

- Não quero atrapalhar você.

- Entra. – Ela abriu passagem pela porta. – Mas seja rápida, eu trabalho cedo amanhã.

Entrei no apartamento e uma sensação nostálgica me invadiu. Clara e Eduardo de repente vieram em minha mente. Consegui ver seus sorrisos, suas vozes e até sentir o cheiro deles. Talvez fosse cheiro do apartamento, mas de qualquer forma meu peito se apertou.

- Como você está? – olhei para ela.

- Bem. E você? – Samantha se sentou no sofá e me encarou.

- Lica, seja direta.

Eu respirei fundo e me acomodei na mesinha ao centro da sala. Samantha me olhava séria, e eu engoli em seco percebendo que talvez a coragem que estava criando não fosse suficiente. Mas eu precisava tentar. Só que quem disse que eu conseguiria verbalizar aquelas palavras? Eram somente cinco palavras que eu repetia todos os dias desde que descobri, que vinham acompanhadas de outras que explicavam elas. Mas quem disse que eu conseguia formular as tais frases que seriam necessárias? Eu me perdi, somei erros e agora estava ali, sem justificativa alguma para aquilo tudo, todos os meus erros e atitudes tão egoístas. Eu estava quebrada, eu estava irredutível sobre. Porém, não era justo isso se manter por mais tempo, mas se manteve. Eu fui fraca. Não queria que nos acertássemos pela simples menção de algo que mudava tudo, queria que fosse por amor e cumplicidade que nossa história continuasse sendo escrita, e que os acasos e suas consequências malucas fossem somente vírgulas, não pontos finais.

- Eu vim pedir perdão.

Samantha arqueou as sobrancelhas.

- Perdão?

- É. – minhas mãos começaram a suar.

- Só isso?

- Não... – tentei umedecer meus lábios. – Eu quero que a gente tente de novo.

Samantha riu, na verdade, ela gargalhou bem alto.

- Lica? Você está debochando de mim?

Franzi o cenho.

- Não viria aqui para isso. – falei na defensiva, mas estava me sentindo péssima.

Ela continuou rindo. Cocei a cabeça e esperei. Samantha aos poucos se acalmou.

- Desculpa. – Ela secou as lágrimas de seus olhos.

- Eu vim para resolver as coisas, Sammy. – Ela me analisou por alguns segundos.

- Não é tão simples.

- Eu sei.

- Se sabe, então também sabe que a resposta é não.

- Não? -balancei a cabeça. – Você não quer resolver as coisas?

Samantha levantou e começou a caminhar pelo apartamento.

- Heloísa, você me procura depois de dias, me pede perdão e age como se eu fosse aceitar e tudo ficar bem? Sério? - Ela cruzou os braços.

Respirei fundo e me levantei. Eu não queria outra briga. Samantha tinha o costume de complicar as coisas, mas eu não podia culpá-la por isso. Eu fui uma ótima professora nesse quesito.

- Não. – falei e ela me encarou séria, mas sua expressão suavizou. – Eu vim pedir perdão e quero que a gente tente de novo sim, mas do jeito certo. Precisamos de ajuda, e bom... – dei um passo em sua direção. – A Keyla estava certa, precisamos de terapia.


20 de maio.


- Boa tarde, Heloísa. – A mulher de olhos doces e cabelos cacheados disse. – Boa tarde, Samantha.

Era nossa primeira consulta com a terapeuta, eu me sentia pressionada aquilo, mas havia sido o ponto de Samantha. Para que nós continuássemos nosso casamento, teríamos que aprender a dialogar. E bem, desde que Keyla havia dito que essa seria a melhor alternativa, acabamos optando por tentar. Samantha ainda parecia relutante a ideia, mas desde nossa conversa na semana anterior, ela baixou um pouco a guarda e nos deu a chance.

Minhas mãos tremiam, o medo de falar sobre o que estava por trás de tudo diante ela e uma terapeuta iria me sufocar, mas ou era isso ou perder ela. E eu nunca quis perder Samantha. Tinha medo por ela, por mim, por nós.

A mulher pediu para que nos sentássemos nas poltronas, e se acomodou em uma a nossa frente. Ela sorria de modo amistoso, e isso me aliviou um pouco. Talvez eu não fosse ser forçada a falar de algo que não estava pronta, ainda.

- Bom, vocês querem começar? – ela anotou algo na prancheta que segurava.

- Como funciona? – perguntei.

A mulher sorriu.

- Vocês querem explicar como tudo começou?

- Talvez seja melhor explicar como nós começamos. – Sugeri.

Samantha se remexeu ao meu lado.

- Seria uma boa ideia. – A terapeuta comentou.

- Nos conhecemos em uma festa de aniversário de um ano do filho de uma amiga dela. – Samantha disse, e a pontou o dedo polegar para mim, sua expressão totalmente séria.

- E como foi? – a mulher perguntou.

- Bom. – Samantha disse seca.

- Samantha... – a terapeuta retirou os seus óculos. – Eu entendo que seja um momento delicado entre vocês, mas estamos aqui para nos ajudar. Seria importante você entender isso antes de tudo começar, pois afetará o resultado.

Samantha mordeu o lábio e assentiu um tanto quanto relutante.

- Então, podem falar. – A mulher voltou a sorrir.

E bom, começamos a contar nossa história.


11 de julho.


- Eu não aguento mais mentiras e segredos, Heloísa. – Samantha esbravejou comigo.

- Eu minto? – perguntei incrédula.

- No momento em que você não me diz a verdade sobre o que está acontecendo, mente sim.

Meu peito ardia, minha respiração estava pesada e me senti tonta. Eu queria fugir, mas não podia. Estávamos presas no carro num meio de uma tempestade.

- E o que você quer? Divorcio? – a olhei.

Samantha desviou nosso olhar e encarou a janela do carona.

- Eu quero que você me entenda.

- E você por acaso tentou me entender? – questionei e ela soltou uma risada irônica.

- Quem entende quem não se deixa ser entendido, Heloísa?

Um raio cortou o céu. Samantha fechou os punhos e os olhos. Engoli em seco e olhei para frente. Estávamos no meio de uma rua com diversos carros parados. Ela não parecia querer me ouvir mais, e eu não queria mais falar. A minha mente trabalhava a mil por hora, eu queria fugir ou xingar ela. Afasta-la de mim. Seria esse o melhor para Samantha, ela não precisava de alguém quebrado e incompleto como eu me encontrava, mas como faria isso? Num surto, pois só isso explicava o que fiz, retirei o cinto e sai do carro, deixando as chaves para ela.

- Heloísa, o que você está fazendo? – a ouvi gritar.

Mas não virei. Eu não conseguia. Eu não aguentava mais aquilo tudo, eu não aguentava mais me esconder, tentar resolver as coisas antes de dizer o motivo, pois queria que ela me amasse e não que sentisse pena de mim, mas eu teria alguma chance?

A ouvi gritar meu nome diversas vezes, mas não parei de caminhar e nem olhei para trás. Eu esperei por ela, rezei por ela e pensei nela todas as noites desde aquele dia que ela saiu de nosso apartamento, mas ela nunca voltou, e parecia insuportável estar no mesmo ambiente que eu por mais de uma hora, até porque era esse o tempo que ficávamos juntas na terapeuta uma vez na semana. Naquele dia eu ofereci carona por conta da tempestade. Mas brigamos, brigamos porque o céu explodia em raios e trovões fora do carro, e nós explodíamos em fúria dentro dele. Ela me chamou de novo, mas eu ainda estava firme na minha decisão. Eu iria embora. Tentaria ligar para uma das meninas quando a tempestade amenizasse, mas por ora eu queria apenas me manter longe. Eu a machucaria de novo, pois estava machucada. Maldita personalidade de fogo que se queima e queima quem está perto. Eu só queria que tudo parasse. Voltar no tempo não era opção, mas se eu pudesse, nunca teria deixado chegar aquele ponto. Poderíamos ter sido amigas, boas e incríveis amigas.

Talvez agora ela estivesse com alguém que lhe apoia em suas decisões, e não alguém que a faz correr no meio de uma tempestade. Talvez agora ela tivesse ao lado dela alguém que pensasse como ela, que almejasse a carreira perfeita, que tivesse uma vivência de passo a passo, chegando ao topo através de seus próprios méritos, já que eu pulei essa parte por conta da família que tinha, que sempre me deu tudo. Pensei e pensei, pensei tanto que minha cabeça ardeu, e precisei parar. E eu gritei, gritei alto e não me importei com quem estava vendo de dentro dos carros em volta. Eu precisava pôr para fora, e quando o fiz outro raio cruzou o céu.

- Heloísa, você enlouqueceu. – Samantha parou na minha frente.

- Sai. -Ordenei e a empurrei para o lado, mas ela me puxou pela jaqueta completamente ensopada pela chuva. – Me deixa, Samantha.

- Não. – Ela apertou com mais força. – Você não está bem.

- Isso importa?

- Importa, Heloísa. – Soltei uma risada e olhei para o céu escuro.

- Vai embora, fica com o carro. – Ela bufou.

- Cala boca.

- Eu ferrei tudo, Sammy. – E chorei.


27 de maio.


Samantha olhava para a terapeuta esperando que ela dissesse logo o que achava de toda a situação, a impaciência visível. Eu tentei me manter calma, pois sabia o que ela diria, e não me sentia preparada para aquilo tudo.

- Bem... – a mulher começou. – O diálogo é um ponto importante em qualquer relação, e vocês precisam trabalhar isso.

- Eu tento, mas ela não colabora. – Samantha cruzou os braços.

- Eu tento.

- Não parece.

- Samantha, Heloísa... – a terapeuta nos olhou visivelmente cansada. – Acusações não irão ajudar vocês, só criar um buraco ainda maior nessa relação.

- E o que você aconselha? – perguntei.

- Como eu disse, o diálogo que é necessário. Veja bem, num trabalho em equipe aquele que se comunica tem um desempenho bom, diferente do que não se esforça nem para saber do que se trata o trabalho, e acaba sendo deixado de lado. No trabalho é assim. Você é médica, Samantha, certo? – ela assentiu. – Já pensou se em uma cirurgia os demais colegas não falarem com você? Prejudicaria o paciente. E você é arquiteta, correto? – assenti par a mulher. – Pensa se você toma partido de um projeto sem consultar o cliente, a chance de dar errado e ele se incomodar é alta, não? Então, por que seria diferente em relações pessoais? – Samantha suspirou.

- Eu não gosto que a Heloísa me esconda as coisas ou aja como se eu não fosse merecedora de saber seus segredos. – Ela desabafou depois de um tempo.

Olhei para Samantha com uma expressão de perplexidade. Ela estava com seu olhar triste e visivelmente abatida. Seria eu a causadora disso tudo? Tentei abrir a boca para rebater, dizer que ela sabia de tudo, mas não tive coragem de mentir. Eu não queria mentir para ela.

- Você me trata como se eu fosse um nada, às vezes. – Ela me olhou, e meu peito se apertou. Samantha estava quase chorando. – Eu sinto que tem coisas que existem dentro de você que eu nunca conheci, sabe? Desde o pedido de divórcio você age como se em partes eu fosse ainda sua esposa e em outros momentos como se fosse tanto faz minha presença. No dia que eu saí do seu... Do nosso apartamento, eu esperei você vir atrás mesmo que eu não tivesse olhado para trás, mas você não o fez. Bateu no apartamento de Clara Dias depois para pedir a chance de se explicar, e bom... – ela abriu os braços. – Ainda espero a explicação.

- Eu não estou pronta. – falei sem pensar.

Samantha me analisou em silêncio. Havíamos esquecido completamente onde estávamos. A terapeuta não abriu a boca em momento algum, eu queria que ela tivesse intervindo, mas ela não o fez.

- E quando você vai estar?

- Eu... – engoli em seco.

Essa era uma pergunta que eu me fazia demais: quando estaria pronta?

O modo no qual ela me olhava fazia meu corpo estremecer, sentia que ela seria capaz de enxergar minha alma e ler meus pensamentos. Eu sempre fui transparente com ela, mas desde aquele dia, maldito dia, eu não conseguia me expressar. Ela estava ali quando perdi minha mãe, me segurou como se eu fosse o céu e eu não conseguia verbalizar nada. Ela estava ali todos os dias, me ajudando com todos meus problemas e sendo a única pessoa capaz de me parar. Mas doía, doía porque eu não podia provar para ela meu amor e o quanto estava arrependida, pois eu precisaria contar a verdade, e isso me matava. Em partes a vergonha e outras partes o medo. Seria mais fácil se eu conseguisse ser como ela é, alguém aberto e disposto a desabafar para não se sufocar. Só que eu me sufocava sozinha, não aceitava levar ninguém comigo nos meus problemas. Porém Samantha parecia não se importar com isso, parecia não ligar se eu iria me ferrar ou não, independente do que fosse, ela queria estar ali. Minha parceira para tudo. E eu estava lhe perdendo para o meu medo, minha vergonha e meu maldito jeito onde eu tentava resolver as coisas sem afetar a ela. Mas isso não seria possível dessa vez.

- Eu preciso da verdade, Lica. – Ela segurou minha mão. – Me conta o que te afeta tanto.

Eu continuei olhando para Samantha sem dizer nada. Eu precisava de coragem, e esta, estava em falta naquele momento.

- Nosso horário acabou. – A terapeuta disse num tom calmo. – Eu gostaria que vocês escrevessem sobre seus sentimentos. Parece algo bobo, mas é fundamental. Escrevam todos os dias até a próxima sessão. Iremos verbalizar o que está acontecendo dentro de vocês.

Nós agradecemos e saímos do consultório. Sem esperar, Samantha saiu na frente enquanto eu pegava minhas coisas. Suspirei em derrota. Seria mais difícil do que eu imaginava dizer tudo para ela.


Um ano atrás...


Parei diante a clínica e respirei fundo. Eu havia aproveitado uma emergência no hospital que prendeu Samantha lá, para fazer aquilo. Eu sabia que ela iria me apoiar, mas queria surpreender a ela. Entrei no local e fui atendida por uma recepcionista que me deu a prancheta para que eu preenchesse e guardasse ser chamada. Minha vontade de ser mãe sempre foi grande, sempre foi algo forte. Eu via famílias de casais homoafetivos, e sempre me imaginei tendo a minha própria. Só que eu sabia o quanto Samantha queria engrenar primeiro a vida profissional dela, antes de constituir nossa própria família. E eu aguardava o tempo que fosse, afinal estávamos há dois anos casadas, e teríamos tempo de sobra para planejar isso no futuro. Porém eu queria fazer algo antes, e doar meus óvulos seria uma forma de começar. Eu já havia consultado a doutora que faria retirada, e ela marcou aquela consulta que eu jamais pensei que mudaria o rumo de tudo.

Depois de uma meia hora de espera, ela me chamou.

- Boa tarde, Heloísa. Como vai? – ela sorria de modo simpático.

- Bem, e você?

- Estou bem, obrigada. Me diga, sabe como é o procedimento?

- Mais ou menos. – Fiz uma careta e ela sorriu.

- Bom, nós vamos verificar primeiro através de alguns exames se você está saudável para a doação, logo depois iremos agendar uma data e iniciaremos com dois medicamentos para estimular seus folículos ovarianos, para podermos retirar a maior quantidade de óvulos saudáveis possível. – Assenti. – Então, me diz, você é casada?

- Sou, há dois anos. – Ela indicou uma cadeira para que eu sentasse.

- Vocês querem filhos? – assenti.

- Eu queria já, mas ela quer esperar. – a médica sorriu.

- Você parece jovem. Quando vocês decidirem fazer o procedimento caso restem óvulos você ainda tem a opção de doar os restantes, sabia?

- Eu posso fazer isso e após a doação? – ela assentiu.

- Sim, os óvulos não utilizados podem ser doados, e os blastocistos que evoluírem também podem ser tanto congelados para uso futuro de vocês, ou doados.

- Acho que entendi, e por onde começamos com os exames?

- Começamos com os exames de sorologias, que detecta várias doenças como rubéola, toxoplasmose, sífilis, HIV, hepatite B e diversas outras e o principal, o HAM que usamos para ver o nível do hormônio antimulleriano, por onde conseguimos observar a questão da reserva ovariana que você possui, feito isso, realizamos uma ultrassonografia para verificar a saúde dos ovários. - Ela pegou uma guia e começou a escrever rapidamente com a caneta, e depois de alguns segundos me entregou o papel. - Alguma dúvida?

-Acho que não… - Respondi incerta.

-Aqui está a guia de encaminhamento para os exames que conversamos a respeito, mas caso você tenha alguma dúvida e sinta necessidade de me chamar ou marcar outra consulta não hesite, nossa consulta retorno fica para daqui a 30 dias.

Mas eu voltei antes dos trinta dias, quando a doutora Joana me ligou e pediu para que eu a encontrasse em seu consultório.

- Boa tarde, Heloísa. – Ela apertou minha mão.

Diferente da outra vez, aquele sorriso simpático deu espaço para uma expressão séria em seu rosto.

- Está tudo bem? – entrei na sala dela, e me sentei na poltrona.

Logo ela deu a volta e se sentou tão bem.

Sabe quando tudo que você sente e entende parece perder o sentido? Quando você olha para sua volta e não reconhece nada, se olha no espelho e pergunta que reflexo é aquele que enxerga? Foi o que eu senti, quando Joana me olhou com pesar e deu a notícia que mudou minha vida para sempre.

11 de julho.


Samantha me abraçou e eu continuei chorando, não me importava com aquela cena. Tudo havia sido arrancado de mim. Minha mãe, minha irmã e agora Samantha. E eu estava desesperada, eu estava acabada. Eu não tinha forças para me manter em pé.

- Lica... – sua voz soou mansa. – Volta para o carro comigo.

Neguei com a cabeça.

- Vai, me deixa aqui.

- Não.

- Sim.

- Não, Heloísa. Meu Deus... – ela tentou me amparar mais caímos as duas no chão.

Não conseguia me segurar, eu estava completamente acabada.

- Eu não posso mais, Samantha.

Ela me olhou e passou a mão pelo meu rosto.

- Você pode e vai, ok? – ela chorava também, e só percebi quando ouvi sua voz completamente embargada. – A gente dá um jeito, mas por favor, volta para o carro.

- Eu quero te explicar o que está acontecendo. – Me sentei no chão, de frente para ela.

- A gente pode conversar depois, ok?

- Me dê só a chance de tentar te explicar.

- Lica, olha onde estamos...

- Tem que ser agora. – falei firme.

Samantha passou as mãos no cabelo e mirou o céu escuro. Ela estava pensando se me deixaria entrar de novo em sua vida, eu sabia disso. Mas eram dez anos, era a história de quase metade de nossa existência dedicada uma à outra. Eu esperei pacientemente por quase um minuto, mas não consegui esperar mais. Era minha última chance, sabia que estava perdendo a guerra, mas se eu fosse perdê-la de vez, pelo menos que ela soubesse o porquê de eu ter feito o que eu fiz. Respirei fundo e fechei meus olhos. A minha voz paralisou, mas juntei forças antes que se esvaísse de vez.

- Eu não posso ter filhos, Samantha. – Soltei.

E esperei. Esperei Samantha me olhar em choque, analisar cada expressão minha e tentar captar qualquer indício de mentira. Mas não tinha mentira ali, era a verdade nua e crua. O céu foi iluminado por um relâmpago, e Samantha não moveu um fio sequer. Ela permanecia me olhando. Tudo que eu mais queria depois dela era ter filhos. E bom, praticamente um ano atrás quando tudo começou, eu não sabia que isso seria arrancado de mim, mas foi.

Eu poderia e iria esperar o momento que ela quisesse também, mas quando algo lhe é arrancado sem aviso, você se vê incapaz de respirar, dormir e até mesmo comer. Eu não transparência, eu não deixava ela me ver chorar e nem sentir minha tristeza. Eu não poderia pressioná-la, mas não fui capaz de manter isso. Eu precisava que ela quisesse, e a luta contra o meu tempo era enorme. Eu não poderia explicar o que estava acontecendo antes dela saber disso primeiro. Não pretendia contar no meio de um caos, onde carros e uma tempestade eram o cenário. Mas eu falaria como? Quando não tivesse como voltar atrás? Quando Samantha estivesse vivendo sua vida bem e longe de mim? Eu não queria tentar a sorte, então não pensei mais. Eu apenas deixei aquilo tudo sair.

A boca dela abriu e fechou algumas vezes, e eu sabia que ela não teria nada para dizer, não a culpava. Eu tomei o caminho mais difícil diante tudo, principalmente quando acreditei que tentar resolver tudo sem ela seria melhor, estaria protegendo-a. Samantha me olhava com uma dor visível, e eu não conseguia entender que era aquele sentimento que transparecia através de seus olhos poderia realmente ser por minhas cinco palavras pronunciadas minutos atrás. Ela queria saber como, eu percebi isso. Mas ela não perguntou, apenas me abraçou. Abraçou meu corpo exausto e desesperado. Ela me tomou nos braços dela e eu chorei novamente. As ondas elétricas que percorreram meu corpo informando o alívio da confissão, me causaram isso. Ela estava ali, não havia fugido.

Não há justificativas para meus atos, eu bem sabia disso, mas quando você está diante situações tão irracionais da sua vida, tudo que você quer fazer é correr, é sumir e não precisar deixar que aquele sentimento te tome. Eu não conseguia pensar em outro momento no qual seus braços me foram mais seguros do que aquele, sentada no chão de uma rodovia lotada de carros durante uma tempestade. Samantha me soltou e se pôs de pé esticando a mão para mim.

- Vamos adoecer se continuarmos aqui. – Ela disse por fim.


Presente.

Samantha apareceu no exato segundo que a doutora anunciou meu nome. Ela estava ofegante, e pediu um minuto para se recompor. Parte de mim sentiu alívio por ela estar ali, cumprindo sua promessa, mas a outra parte queria que ela não tivesse chegado a tempo, talvez fosse mais fácil.

Entramos no consultório, e Camila indicou as duas cadeiras em frente a sua mesa. Puxei uma e Samantha se sentou, e antes de fazer o mesmo, peguei dois copos d’água no filtro que a doutora mantinha ali.

- Como foi a semana, Heloísa? – ela perguntou assim que me sentei.

- Foi tranquila, nenhum efeito colateral. – Olhei para Samantha que bebia a água com as duas mãos firmes ao copo.

- Enjoo? – neguei. – Insônia? - neguei novamente. – Isso é um bom sinal. – Ela sorriu e olhou para Samantha. – Como você está, Samantha? Ouvi falar muito de você no último ano.

Ela me olhou buscando um sinal do que responder e eu apenas dei de ombros. Queria que ela fosse sincera assim como na terapia.

- Eu ainda estou confusa com tudo isso. – Ela suspirou e deixou o copo na mesa.

- Alguma dúvida?

- Não, eu sou médica também. – Ela soou seca, Camila sorriu.

- Então entende que a situação de Heloísa não tem reversão, mas não é algo que vá comprometer a vida dela de um modo geral.

Samantha me olhou de novo, ela entendeu o verde que Camila jogou. Eu me amaldiçoei por ter contado tanto para Camila, mas entendia o que ela queria naquele momento, era averiguar que eu estaria sendo bem acompanhada e tendo apoio necessário, diante o último ano ela notou o quanto eu ficava possessa na simples menção de que havia uma chance de Samantha não entender, e lá estava eu sendo precipitada novamente.

- Se ela parasse de fumar, com certeza.

- Você ainda não parou? – Camila arqueou a sobrancelha e eu me encolhi na cadeira.

- Me ajuda. – Ela fez uma careta indignada

- Em caso nenhum tabaco ajuda alguém, e no seu caso menos ainda. – Ela pontuou.

- Nós podemos ir ao ponto? – Samantha se remexeu na cadeira. – Eu quero entender de modo mais profundo a situação.

Mordi o lábio em puro nervosismo, eu havia explicado tudo que entendia para ela, mas não tive resposta para todas suas perguntas. Ela viu meus exames na mesma noite da tempestade, mas não fez nada além de perguntas. Na semana seguinte, aquilo foi o grande assunto na terapia, e eu me sentia cada vez pior por ter escondido tudo dela. Samantha não demonstrava, jamais iria, só que eu sabia que de tudo que ela poderia estar esperando, com certeza aquilo, não era uma delas.

- Podemos sim. – Camila sorriu amigavelmente para nós. - Heloísa possui um tumor uterino, ele é benigno e não traz riscos para sua saúde e qualidade de vida aparentemente, porém ele é muito grande e está vinculado à parede uterina, temos chances de que sem a retirada ele possa aumentar e no pior dos casos desenvolver outros tumores anexos que não sejam benignos, sendo assim o tratamento mais indicado seria uma histerectomia.- Ela fez uma pausa e prosseguiu - com a cirurgia, Heloísa ficaria estéril, entretanto o tumor que ela possui a impossibilita de iniciar uma gravidez, e mesmo iniciada ela não iria adiante e traria ainda mais riscos.

- O que é necessário fazer agora? – Samantha buscou por minha mão e apertou ela.

Camila olhou dela para mim e voltou a olhar para ela.

- Uma cirurgia para retirada do tumor, e consequentemente do útero.

Senti minha visão embaçar, pois toda vez que eu a escutava falar sobre aquilo, eu me sentia pior ainda. Pensei em todos os planos que sempre fiz, em como sempre me imaginei tendo meus filhos correndo pela casa, eles crescendo e dando dor de cabeça em mim e Samantha.

Quando eu descobri tudo, pensei que conseguiria reverter a situação, mas meu quadro só se agravou, e com o tempo a necessidade de uma família logo só cresceu. Eu pensei que poderia morrer, mesmo Camila me afirmando que isso era uma chance pequena, que a probabilidade de um acidente era mais alta. Só que minha mente não entendia assim. Tina me segurou durante esse tempo inteiro, ela era a única que sabia que eu queria fazer a doação de óvulos, e quando perguntou se tinha tudo dado certo, eu não consegui me conter e chorei no seu colo. Ela me acompanhou durante as radioterapias, e sempre me pediu para contar logo a verdade para Samantha. Mas eu adiei. Adiei a ponto de olhar para ela e pensar em como sua vida ficaria sem mim. Samantha poderia viver bem, ela provavelmente se dedicaria ainda mais a medicina e com isso, se tornaria a melhor de todas. Eu pensei tanto nela, pensei tanto que eu não ficaria mais ali, e se ficasse estaria incompleta, que me afastei. Tive vergonha de meu corpo, de minha existência. Tentei fazer ela querer uma família tanto quanto eu, mas ela nunca deu espaço para que isso fosse uma conversa em prantos limpos. A simples menção lhe afetava e eu entendia, mas precisa ser compreendida também. Mas me embaralhei e menti para ela, menti sobre meu estado e cada vez que eu queria falar, o sorriso dela me desmontava. Como eu poderia afetar assim a vida de uma pessoa? Seria injusto. Por isso eu cometi outro erro, quando pedi o divórcio. Estava convicta de que seria o melhor para ela. Longe de mim jamais que eu estar doente lhe causaria qualquer dano, mas estava errada. E a morte de Clara e Eduardo me provou isso. Eu não podia ficar sem Samantha, e querer ela longe por ser covarde não era o certo. E Nicolas mostrou isso para mim. Ele não entendia como as coisas funcionavam ao certo, mas ele sempre estava lá sorrindo e tentando me fazer sorrir. Teve noites que ele secou minhas lágrimas, mesmo sem compreender que aquilo era um choro. Foi através do amor que sentia por meu sobrinho que eu percebi que não precisava ficar longe dela. Mas cometi outro erro, e esconder o tumor de Samantha se tornava cada vez mais complexo, até que nossas brigas se agravaram, e de novo eu senti que era melhor ela estar longe para não precisar viver aquilo tudo. Porém, eu não podia decidir por ela se ela ficaria ou não, e foi nisso que me agarrei. E eu nunca havia ficado tão aliviada em estar errada. Samantha não fugiu, diferente de mim. Ela tinha medo, mas ela enfrentava.

Sentamo-nos na escadas na entrada do edifício, logo depois de sair da consulta. Samantha estava quieta, e eu deixei que ela ficasse em silêncio, sabia que era muita coisa para processar.

- Ouvir de você foi difícil, mas ouvir de um médico foi...

- Real. – completei.

Samantha suspirou e repousou sua cabeça nas mãos que estavam escoradas em seus joelhos.

- Você deveria ter me contado desde o início.

- Eu sei... – encarei o céu. – Mas eu não conseguia, verbalizar isso para você tornaria ainda mais real e eu não queria.

- Você contou para Tina. – Ela se pôs de pé. – Ficou um ano lutando contra isso e eu não fazia ideia, Lica. É injusto.

Fiquei olhando para ela, tentando imaginar como ela estava se sentindo, mas fui incapaz. Samantha tinha razão, era injusto. Mas eu não podia voltar no tempo e consertar o caos que criei, apenas torcer para que as consequências disso tudo não fossem tão dolorosas.

- Temos que marcar essa cirurgia. – Ela disse e pegou o celular.

- Vou falar com a Camila, tenho mais exames para fazer. – Samantha assentiu.

- Lica...

Olhei para Samantha que estava com seus olhos cheios de lágrimas.

- Não me esconde mais nada. Eu não vou suportar outra mentira.

E então ela me abraçou. Um abraço forte e acolhedor. Não me importei com as lágrimas dela que molharam minha blusa e nem com o desconforto em minha coluna devido a posição, Samantha estava ali, e eu havia finalmente tido a minha redenção.


Notas Finais


Até semana que vem!


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