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História Something New - Capítulo 1


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Capítulo 1 - Petúnia


Fanfic / Fanfiction Something New - Capítulo 1 - Petúnia

Taeyeon caminhava lentamente por seu apartamento.

Havia acabado de se mudar.

As garrafas de todas as bebidas imagináveis espalhadas pelo chão eram a única decoração. De todos os cômodos o único “móvel” era um colchão velho junto ao piso. Taeyeon nem ao menos se preocupava com dignidade ou com amor próprio.

Sentia-se mal, sentia-se péssima.

Em meio aos seus passos arrastados derrubava uma ou outra garrafa e em uma dessas acabou pisando em uma delas e de imediato sentiu o vidro invadindo sua pele. Doía, parecia que tudo a atacava ou estava se esforçando em machucá-la. Sentia o desespero de se sentir sozinha e ainda mais se sentia privada, privada de respirar, privada de viver. A dor em meio ao seu corte se misturava a todo o resto que e desabava sobre si, abaixou-se levemente e tirou os cacos de vidro de si e tentava se limpar com um papel que encontrou jogado em cima de seu projeto de cama.

Pegou a última garrafa de vinho que havia sobrado e bebeu ali mesmo, sentia o liquido escorrer pelo canto de sua boca e até mesmo sentia se misturando com suas lágrimas que ainda caiam. Todos os dias observava sua varanda, o céu parecia convidativo, a altura parecia querer puxá-la pra baixo.

Levando a garrafa em uma mão e com a outra tentava em vão enxugar seu rosto, caminhou até a parte externa do seu apartamento e se escorou na pequena grade que a protegia de ceder à altura e a possível queda. Ela estava um caos, fechou seus olhos, se agarrou ao sentimento de que não era hora. Respirou fundo. Sentia-se fraca, talvez pela pouca comida que se impôs a comer nesses dias. Vacilou por um momento e se segurou firme para não perder o seu equilíbrio. Com seu brusco movimento de se manter em pé acabou por soltar a garrafa de vidro e viu aos poucos ela sumindo na escuridão daquela madrugada. Agradeceu mentalmente por não ter ninguém ali na hora, por mais que estivesse em um andar alto, podia ver a movimentação de baixo. Estava tudo quieto.

Isso foi muito irresponsável. — A voz vinha atrás de si. Uma voz confortável e carinhosa. Taeyeon em automático se virou...

— Vovó?! — Falou incrédula. Estava zonza, talvez alucinando. Talvez fosse o efeito do álcool acumulado de dias. — Meu Deus, eu estou tão bêbada ao ponto de alucinar?! — Esfregou seu rosto com as duas mãos enquanto soltava uma risada sôfrega.

Você bebeu isso tudo, Kim Taeyeon?— Apontou a velha senhora para todas as garrafas espalhadas no chão.

— Isso é um absurdo, até em delírio você me dá sermões... — Foi para dentro de casa. Logo se abaixou e engatinhou pelo chão até chegar em seu velho colchão. Ignorou em totalidade a imagem da sua avó falecida. — Vovó, esteja onde estiver, vá descansar em paz. — Falava já deitada e se rendendo a sonolência que o álcool estava gerando.

— Olhe bem para mim. — Falou em tom de autoridade. Agora estava de frente para a neta e a olhava de forma dura. Decepcionada. Aborrecida. Taeyeon a olhou assustada, aquilo podia ser o que for, mas se sentia na obrigação de obedecer. — Taeyeon, amanhã quando acordar estarei aqui e para provar que eu sou real deixarei essa Petúnia. Agora durma, criança...

Taeyeon não se importava mais em se render ao sono. Não demorou muito para dormir.

[...]

PRI PRI PRI PRI PRI PRI, seu alarme tocava incessantemente. Estava de licença, pediu para o hospital em que trabalhava as suas férias e horas extras adiantadas. Já estava há dois anos sem tirar uma folga e não foi bem uma surpresa para a diretoria do hospital que ela precisava de um tempo pra si. Acabara de perder a avó, a velha senhora teve um ataque cardíaco. Sua ex aproveitou o funeral para passar um tempo a sós com outra na cama, mas foi pega no flagra. Traída e deprimida, sua melhor amiga havia morrido e ela nem ao menos tinha tido a coragem de dizer o que ela era. Ela amava mulheres, mas se odiava por isso. Sentia repulsa de si mesma e algumas vezes até mesmo nojo.

Acordar com o alarme era destruidor, ela estava com dor de cabeça, precisaria tomar uma cartela toda de remédio para curar aquela resseca. Foi o que pensou, mas sabia que não poderia fazê-lo.  Pegou o celular, “55 ligações perdidas de Amor”, lutando com a claridade do ambiente que nem ao menos tinha cortinas para impedir a entrada de toda aquela luz após muito esforço conseguiu chegar até os contatos do seu celular e ligou para a tal mulher.

— Amor? Graças a Deus, por que passou uma semana sem me responder? Sabe como eu estou preocupada? — Falava a voz feminina do outro lado da linha.

Taeyeon soltou um suspiro alto. — Eu vi você com uma cabeça entre suas pernas e ela tinha cabelos loiros. — Riu irônica, mas a risada fez sua cabeça latejar fortemente. —Eu acho melhor deixarmos de nos relacionar. Pegue tudo que me pertence e coloque numa caixa, passarei ai para buscar. Incluindo Zero.

A mulher ficou em silêncio e parecia chorar, talvez estivesse arrependida, mas pouco importava.  — Nós não podemos nem ao menos conversar? Eu preciso me expli-

Foi interrompida. A cabeça de Taeyeon latejava em meio a rodopios, sua visão estava turva e agora estava enjoada demais para ouvir as idiotices da sua agora ex. Vomitou  e sujou todo o chão. — Taeyeon? Você está vomitando? Eu vou até ai agora!

— Eu quero apenas que faça o que eu pedi. Estarei ai as 5 p.m, não quero ver sua cara, então apenas deixe Zero na portaria e suma para dentro da sua casa. Não quero te ver. — Falou tentando não vomitar mais, o gosto amargo e o cheiro forte de álcool, tudo deixava ela com mais ânsia.

— Esta bem... Desculpa por tudo Taeyeon. — Falou a mulher em meio aos seus soluços.

Taeyeon não fez questão de escutar mais nada e logo desligou. Precisava de um médico, ela era um, mas não conseguiria cuidar de nem uma formiga naquele momento, muito menos de si.

Taeyeon.  — Falou a velha senhora de antes que a observava atentamente desde que havia pego no sono. Taeyeon ainda incrédula olhou para o balcão de mármore e lá estava a flor. Não tinha sido um delírio.

Em meio ao seu desespero olhou para a janela que permitia toda aquela claridade passar e podia ver a silhueta da sua avó.

Não conseguia não chorar. Seus olhos se encheram de lágrimas e ficou acompanhando a movimentação da senhora para mais perto de si. — Minha filha, você está péssima... — Fez um breve carinho na testa suada da mais nova, ela estava encharcada de suor e talvez com febre.— Você vai tomar um banho e depois ir ate o hospital, entendido?

A mais nova apenas acenou positivamente, enquanto a senhora a ajudava a se levantar. Foram até o banheiro principal, era uma suíte, o espaço amplo e com uma banheira grande o suficiente para duas pessoas.

Taeyeon havia comprado o apartamento fazia um pouco mais de um ano, mas por todo aquele tempo morou junto a sua ex-namorada. A traição foi o pontapé final para que se mudasse.  Estava dormindo em meio à poeira acumulada de meses.

Ligou a banheira e entrou ali sem nem mesmo se importar se ainda estava vazia ou se estava com roupas.

— Tire sua blusa... — Pediu a senhora e Taeyeon logo esticou os braços para que a peça de roupa fosse tirada.  — Você está sentindo sede?

Taeyeon balançou a cabeça positivamente. Sentia-se anestesiada, nem ao menos sabia como reagir à presença inesperada da sua avó... Não havia explicação lógica. Ela estava morta.

Sentia a água fria molhar suas pernas.  Seu corpo estava mesmo em brasa, cada segundo naquela água lhe dava a sensação de mal estar, mas ela simplesmente não se importava.

Sua avó voltou com um copo e uma jarra com água e logo entregou para que ela bebesse.

Sua garganta estava seca, estava querendo beber a jarra toda de uma vez.

— Vou jogar água em você, não está em condição de ficar muito tempo nessa banheira.

Pegou a ducha que ficava lá perto e começou a jogar água em Taeyeon. Passava a mão com delicadeza pela pele da neta e tentava ser rápida naquele processo. Após dez minutos a ajudou para que pudesse ir ao box terminar o banho no chuveiro e em um total de meia hora tinha terminado o banho. Taeyeon estava limpa, mas visivelmente abatida e pálida.

Foram ao amplo closet do quarto e poucas roupas estavam por lá. Taeyeon pegou as primeiras que viu e logo estava vestida. Colocou um óculos escuros e um boné e chamou um táxi por um aplicativo do seu celular.

Antes de sair olhou para trás e viu a bagunça da sua casa. Envergonhou-se por isso. Olhou para a feição da sua vó, a senhora a olhava com certa mágoa, mas tinha carinho ali. Ela era a princesinha da vovó e nada mudaria isso.

Em silêncio caminharam até o elevador. Até que... — Quando você pretendia dizer que gosta de mulheres? 

Taeyeon olhou para ela em completo espanto, não esperava ouvir isso de sua avó. — E-eu...

— Eu sempre soube Taeyeon...— Respirou fundo e fez um breve carinho nas costas da neta. — ..., mas se eu disser que eu entendo eu estarei mentindo.

Aquilo parecia uma facada em seu peito. Talvez aquilo fosse uma ilusão da sua cabeça, mas era tão real! Sentia o toque da sua avó, sentia ate mesmo a angustia das suas palavras. Queria chorar, estava decepcionando a pessoa que a criou e deu todo o amor do mundo.

— Eu te amo, filha. Se você ama uma mulher eu a amarei em dobro por ela te fazer feliz... — Falou a puxando para um abraço. — ... Chore, está tudo bem chorar. São dias difíceis agora, certo? — Taeyeon balançou a cabeça de maneira positiva. Afundava seu rosto cada vez mais na dobra do pescoço da sua avó, aquele abraço, aquele cheiro, ela era realmente sua avó. Ela estava mesmo ali. — Me desculpe por partir tão cedo, não pude estar do seu lado depois que seu coração foi partido, mas já estava na minha hora, meu anjo.

Taeyeon soluçava e chorava desesperadamente. — E-eu sei vovó...

— Vamos pegar o táxi e ver uma forma de você se sentir melhor... — Desfez o abraço e limpou as lágrimas que caiam do rosto da neta, segurou sua mão e apertaram por fim o botão do elevador.

O carro já estava à espera delas.

Logo entrou nele e se aconchegou no ombro da avó. — Fale para ele que vamos ao hospital, querida.

Tayeon em automático achou estranho. — Por que?

A senhora iria responder, mas o taxista acabou por falar primeiro. — Por que o que? Para onde vamos, moça?

— Hospital San Bernard.

— Certo.

A senhora iniciou um cafuné na neta e sussurrou em seu ouvido. — Apenas você consegue me ver ou me ouvir, meu anjo. Não estou aqui para eles e sim para você. Minha presença só é significativa para ti, minha responsabilidade com o mundo se foi no momento em que meu coração parou de bater... Estou aqui em alma e espírito.

[...]

— Senhorita Kim, pensei que estivesse de férias! — Falou a sorridente recepcionista. Estavam no hospital em que Taeyeon era médica, como funcionária ela tinha certo passe livre para consultas e emergências.

— Eu estou aqui como paciente... — Falou sem jeito.

— Oh... — A mulher fez uma feição preocupada e colocou sua mão por cima de sua testa a fim de sentir sua temperatura. — Sim. Você está com febre. Vou te encaminhar direto a médica, ela foi contratada faz um tempo, mas assumiu apenas agora e ela está sem pacientes no momento.

— Obrigada. — Falou aliviada, estava voltando a sentir o mundo girar.

Olhou para o lado e viu sua avó a olhar de maneira meiga enquanto fazia um leve carinho em suas costas.

Não demorou muito para que a recepcionista voltasse à atenção para Kim. — Pronto, sala B17.

Sorriu em agradecimento e começou a andar para a sala, a sua comumente era a A10. Ala da pediatria, a nova médica provavelmente tinha especialidade em cirurgias. Mas era regra do hospital, todos os médicos precisavam ter um número mínimo de horas cumpridas na emergência, precisava atender a todos e independente dos sintomas. Então, de qualquer forma estaria em boas mãos.

Bateu duas vezes na porta e ouviu um leve “entre”. Assim o fez e logo de cara encarou um amplo sorriso. A mulher se levantou e esticou sua mão para um breve aperto e logo correspondeu. — Bom dia senhorita Kim...

— Bom dia doutora...? — Não sabia o nome da mulher ainda, nem ao menos existia uma plaquinha ou um nome bordado em seu jaleco.

— Tiffany Young. — Falou sorridente. — O que está sentindo?

— Estou de ressaca. Minha cabeça dói demais e eu amanheci vomitando. Além que estou com febre. — Falou calmamente e tirou seus óculos escuros para encarar melhor a médica.

— Certo, por favor, se deite aqui. — Se levantou enquanto apontava para a maca em que Taeyeon deveria se sentar e assim ela fez. Primeiro pegou um termômetro elétrico que não demorou mais do que um minuto para dá o resultado. — Você está realmente com febre, respire, por favor. — Colocou o seu estetoscópio no peito de Kim para ouvir bem. — Você parece estar com dificuldades para respirar, sente isso há quanto tempo?

— Eu não sei bem... Eu ando bebendo sem parar já faz uns seis dias. — Falou um tanto sem jeito para a médica.

Não era julgada, Tiffany a olhava de maneira doce e respeitosa, ouvia tudo sem fazer pouco caso ou sem deixar de levar a sério.— Você está lidando com algo difícil no momento?

— Minha avó morreu e peguei minha noiva me traindo.          

— Não me use como desculpa para sua bebedeira, Kim.— Senhora Kim estava encostada a porta e resmungou alto para sua neta ouvir.

— Entendo. Meus pêsames pela sua avó... — Tiffany apontou para a sua mesa, era um pedido silencioso de que já poderia sair daquela cama. — Tenho certeza que ela estará sempre zelando por ti, mas vamos começar cuidando de você agora para que ela não se preocupe com você onde quer que esteja. Certo? — Agora estavam ambas sentadas e Tiffany fazia anotações em seu computador.

— Obrigada.

 — Você vai tomar soro e medicação para a febre agora na enfermaria, além de fazer nebulização. — Assinou a receita e a entregou.

— Certo. Obrigada... — Se levantou do jeito que pode, seu pé não ajudava muito e logo se desequilibrou.

Tiffany viu e se preocupou. —Espere.  Você está mancando, deixe-me ver seus pés... — Fez com que Taeyeon voltasse a se sentar na cadeira e se ajoelhou para que pudesse examinar os pés de Kim. Mesmo estando com salto alto, não era impedida de efetuar seu trabalho e vovó Kim essa altura estava achando a mulher extremamente eficiente.  — Ela é atenciosa.

— Foi apenas um corte... — Taeyeon resmungou mais para sua avó do que para Tiffany, mas foi a médica que riu do comentário.

— Bem, para apenas um corte está bem feio. — Se levantou novamente e caminhou até pequeno armário  onde eram guardados os utensílios médicos. — Vou fazer um curativo, espere um momento... — Falou enquanto revirava os itens para curativos.

— Não tem problema em pedir para a enfermeira, eu já estou mesmo indo para lá. —Sugeriu Taeyeon.

 Tiffany ouviu atenta e a olhou curiosa. — Desculpa, mas você é Kim Taeyeon, certo?

— O sorriso dela é lindo. — Disse vovó Kim em meio aos seus devaneios...

— Sim... Ele é...  —... e Taeyeon concordava com sua avó.

— Estava ansiosa para conhecer minha companheira de equipe... — Falou sorridente. — Bem, eu faço questão de fazer seu curativo, não se preocupe.

— Pronto. Evite sapatos fechados e esforço. Vamos ir até a enfermaria...

— Ah eu sei o caminho, não precisa me acompanhar...

— Eu faço questão.



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