História Sonata do Luar - Capítulo 6


Escrita por:

Postado
Categorias Originais
Personagens Personagens Originais
Tags Drama, Originais, Romance, Yaoi
Visualizações 7
Palavras 8.669
Terminada Não
NÃO RECOMENDADO PARA MENORES DE 18 ANOS
Gêneros: Drama (Tragédia), Ficção Adolescente, Lemon, Lírica, Romance e Novela, Slash, Yaoi (Gay)
Avisos: Álcool, Drogas, Estupro, Homossexualidade, Insinuação de sexo, Nudez, Sexo, Suicídio, Violência
Aviso legal
Todos os personagens desta história são de minha propriedade intelectual.

Notas do Autor


Recentemente tenho tido problemas para escrever, principalmente para passar os rascunhos para os papéis.
Não sei se as pessoas leem as notas do autor ou se passam direto pela fic, mas vou continuar deixando mensagens mesmo assim, pedindo apenas uma coisa: feedback. Comentem sobre a história, por favor.

Capítulo 6 - O Que Bons Amigos Fazem


Quando a chave finalmente destrancava a porta do cômodo, finalmente pôde ver o interior do que seria o lugar onde moraria nos próximos tempos. Chegava a ser assustadoramente grande, o que seria completamente válido se a quantidade de móveis fizesse jus a tanto espaço. Aparentemente isso se dava pelo fato de não haver grandes divisões ou paredes separando cada cômodo, tirando o que parecia ser o escritório ou quarto de Rémi, que tinha como sua entrada uma porta de correr entreaberta, revelando o quão desorganizado seu ambiente de trabalho poderia ser, diferente do resto da casa. Logo ao lado de Riley se encontrava uma mesinha, sobre esta, um prato velho com algumas chaves as quais ainda não sabia dizer que fechaduras abririam, sendo guardadas por um abajur cilíndrico de tom branco, talvez a única cosia nova em todo ambiente além dos eletrodomésticos da cozinha e da TV no centro daquele vazio.

Haviam dois sofás e uma poltrona antiga em torno de uma mesa de centro, cheia de documentos separados, dando uma prova a mais de que da linha do escritório para fora, tudo era uma promessa de organização. Poderia se dizer que a larga TV seria a principal atração daquilo tudo, muito pelo contrário, o que mais se chamava atenção em todo aquele cômodo único, eram as gigantescas janelas que estavam voltadas para não apenas a rua, como pegando uma visão privilegiada mesmo não estando em uma altura tão grande. Do lado de fora viam-se as pessoas caminhando despreocupadas pelas ruas, conversando, algumas até mesmo apressadas talvez para um encontro ou para seu trabalho, dado o atual horário. Ao fundo, o que parecia ser o estacionamento de um shopping, e no horizonte, uma bela roda gigante, que sem dúvidas seria linda desta visão durante a noite, mas caso necessitasse um pouco de privacidade, algo tão cômico para si, cortinas vermelhas poderiam cobrir as luzes e dar um novo ar a todo o interior daquele local. Dizem sobre detalhes que podem revelar muito sobre pessoas, desde sua escrita, preferências musicais, até o modo de se vestir e se pentear. No caso, talvez aquele ambiente pudesse dizer muito sobre Rémi, pensava Riley. O melhor ponto de vista de tantas quadras de Vancouver, ao mesmo tempo modesto e moderno, organizado e até intimidador de tão espaçoso, apesar de seu local de trabalho acumular tanto e ser oposto daquele apresentado... poderia isso significar algo ou estaria pensando além pela sensação de liberdade que aquele cenário lhe proporcionava? Se atirava em seus pensamentos teatrais, imaginando-se por um breve momento como um pintor, sim, essa era a descrição que daria da visão, uma pintura.

— Ficou hipnotizado pela visão? Também fiquei quando comprei esse apartamento, foi uma pechincha, e ainda por cima fiz uns negócios para sair ainda mais barato. — Dizia com orgulho, puxando sua mala juntamente com a última de Riley, que este havia deixado para trás por um momento.

— E tem espaço para cacete aqui, sério, como esse lugar existe, isso deve ser tipo... do tamanho de pelo menos três apartamentos. — Voltava sua visão para Rémi, que puxava o prendedor, soltando seus cabelos castanhos, que escorriam até seus ombros e continuavam até se perderem em suas costas.

— Acertou em cheio, isso tudo antigamente eram três apartamentos, era um cara rico tentando fazer uma obra no lugar errado, acabou que resolveu largar tudo como estava, pois, acabou indo à falência, e precisava vender isso o mais rápido o possível, nunca mais ouvi falar dele. Mas tem mais alguém que tem de conhecer. — Assobiou uma vez, não recebendo resposta alguma, repetindo o som novamente, desta vez mais alto.

— Espera aí... — Murmurou Riley, para si, avaliando um pouco o balcão que separava o que parecia ser a cozinha de todo o resto, vendo um pote de ração relativamente grande no canto próximo da geladeira vermelha, um tom que chamava bastante atenção, considerando as cores frias escolhidas na construção rústica do apartamento. Neste momento, pôde ouvir o barulho da porta de correr sendo forçada para abrir um pouco mais, seguido do som de unhas batendo contra o chão liso e vindo em sua direção, um cão consideravelmente grande, aparentemente vindo em ataque com a mandíbula já aberta.

— Ammy! Sitzt! — No momento que o comando fora dado por Rémi, a pastora-australiana se sentou, deslizando pelo chão devido ao impulso que havia pego, parando a alguns centímetros de Riley. A cadela tinha como seu pelo denso um tom avermelhado que contrastava bastante com a cor castanha de seus olhos, volta e meia salpicando tons brancos por seu pescoço, rosto e peito.

— Er... — O susto fora grande o suficiente para deixar Riley estático por um breve momento, até se acalmar e fitar os olhos energéticos da cadela de respiração ofegante. — Adestrou ela com comandos em alemão? — Soltara a barra de sua mala por um breve momento, estendendo sua mão para que a mesma sentisse seu cheiro. No fundo de seu peito tinha um medo profundo sobre cães, mas não gostaria de espelhar isso para Rémi, já tinha sido zombado o suficiente nos últimos anos.

— Era para garantir que não iria confundir com nenhuma outra palavra, sem contar que é bem mais interessante. — Seguiu até a cozinha, abrindo o armário e pegando o que parecia ser um pacote de petiscos, jogando um para frente de Ammy, que saiu de sua postura para o comer na mesma hora. — Quer tentar?

— Não, acho que eu estou legal até agora... he he... preciso verificar as mensagens, não falei nada com Wendy, muito menos com Leon, desde que saímos de Austin. — Recuou alguns passos, se afastando da cadela por um momento.

— Tudo bem, então. — Colocou os petiscos sobre o balcão. — A Wendy não parecia estar em casa quando passei para conversar com sua mãe, é bom saber onde ela deve estar agora. — Perguntou, desabotoando sua camisa social de cima para baixo e seguindo até a porta agora mais aberta de seu escritório. — Vou tomar um banho e também dar uma olhada para ver o que Henry me mandou nesse meio tempo, tenho que resolver alguns problemas, além de trocar as bandagens que uma certa fanática me fez usar. Depois, o banheiro é todo seu, se não tiver qualquer toalha posso arrumar alguma.

— Não precisa, eu trouxe o necessário nas malas, a sorte disso tudo é que eu já tinha me livrado daquele emprego de meio período na biblioteca da cidade, era um saco ter de fingir que tinha lido tudo ali e ainda por cima ter de organizar coisa por coisa... as pessoas alterando a ordem alfabética que eu tinha acabado de colocar... enfim, juntei uma boa economia com aquilo até arrumar algo decente por aqui. — Puxou do canto da mala um envelope de tom amarelado, um tanto gordo e de conteúdo sugestivo.

— Que predisposição, hein. — Zombou por um breve momento, jogando uma toalha branca sobre seu ombro e seguindo até um dos dois únicos cômodos daquele apartamento que não eram completamente expostos. — Posso dar uma olhada com meu superior, se quiser uma vaga para algo mais sério, se não quiser continuar com a sua carreira.

— Não precisa, não por agora. Vou dar uma volta mais tarde pelas redondezas para ver se acho algo de interessante. — Se sentou no sofá, ainda olhando para Rémi, oscilando olhares entre o homem e o envelope com seu dinheiro.

— Admiro o esforço, sinceramente. Bem, se precisar de qualquer coisa, pode explorar o apartamento a vontade. — Deu um gesto de “tchau” antes de entrar no banheiro e trancar a porta, garantindo sua total privacidade por alguns minutos.

Não demorou muito para que Riley começasse a fuçar as mensagens de seu celular atrás das possíveis novidades sobre aqueles poucos ao seu redor, sua irmã e seu namorado que permanecia até pouco tempo atrás, em Austin. Logo ao abrir a caixa de mensagens, percebeu que havia apenas uma vinda de Leon...

Leon: “ Riley, fiquei sabendo de algumas coisas que aconteceram na sua casa graças à Wendy, sério, isso foi uma merda, mas pelo menos você não vai ficar sozinho enterrado naquele deserto chamado Texas. Espero que seu tio seja tão legal quanto você fala. Desculpe ter colocado isso tudo em apenas uma mensagem, é quase uma carta, pois vou estar embarcando para o Reino Unido daqui alguns minutos. Nessa noite sonhei com nós dois... que bobeira, não? Mas vou continuar sonhando até o dia em que nos reencontraremos, dessa vez, não dependendo da vontade de nossos pais ou responsáveis, mas sim, pela nossa própria vontade. Já sinto saudades de seu abraço quente e de me sentir protegido em seu peito, de mesmo tendo sido por quase uma fração de segundo, seus lábios juntos dos meus... até um futuro onde nos falaremos pessoalmente. Te amo e sempre te amarei. PS: Mudarei de número, então ficarei um tempo sem poder receber mensagens. ”

Seus dedos apertavam o celular enquanto fitava aquela pequena tela, tão pequena, mas que carregava os sentimentos que não foram ditos até ser tarde demais. A tela que não poderia dar uma resposta à altura que Leon tanto merecia. Repetia em sua mente diversas vezes as palavras de seu querido “cupcake”, sentindo seu coração palpitar. “ Abraço quente”... “Sentir protegido em seu peito”... Seus olhos se enchiam de cor por um breve momento, mas a sensação de felicidade se contrapunha com sua tristeza naquele momento. Passaria bons minutos fitando tal mensagem sem saber o que pensar, apenas sentindo, era uma forma única de ser amado, uma forma a qual a anos não havia sido. Deslizava a tela após um tempo, se forçando a retomar o foco, sabia que não podia remoer suas saudades, não agora, mesmo que a cena do beijo sempre se repita quando fechava seus olhos. Prosseguiu para as mensagens de horas atrás de Wendy...

Wendy: “ Hey, maninho. Eu saí antes que o Rémi e a mamãe acabassem se encontrando, resolvi ir atrás das minhas amigas, vou passar a noite fora de casa e quero mais é que ela se foda por enquanto. Não quero estar perto dela por um bom tempo, mas não precisa se preocupar com isso agora, eu sei bem que a relação de vocês dois sempre foi complicada e você sabe que volta e meia isso respinga em mim, mas as coisas vão ser bem diferentes em casa daqui para frente se depender do diabo aqui. Por sinal, falei com Leon sobre tudo, tenho certeza que você não gostaria de o preocupar com essas coisas, mas se você quer minha opinião... ele iria ficar muito mais preocupado se você simplesmente desaparecesse sem dizer absolutamente nada e nem deixar rastros. Vamos esquecer que a mamãe foi completamente imbecil, você deve estar se perguntando ‘Nossa, ela nem vai me perguntar se estou bem? ’. Sua resposta é: Não, não vou. Porque eu sei que você está bem, principalmente do lado do Rémi. Não vamos perder contato só por causa da distância que está nos separando agora, até mais! ”

Observava a mensagem com um pequeno sorriso em seu rosto, preparando uma resposta simples, sobre ter chegado bem. Mesmo que não estivesse no clima exato para esse tipo de coisa, tentou manter a mensagem positiva, o bom humor. Seus dedos percorriam a tela, atravessando a caixa de mensagens e encontrando algumas já envelhecidas sobre todas aquelas pessoas do teatro, as quais encontrava diariamente, mas nunca deu seu tempo ou atenção para desenvolver qualquer amizade. Sentia-se em um flashback com aquilo tudo, havia chegado em uma nova cidade, indo atrás de mais objetivos e já se imaginava indo parar em um teatro, conhecendo pessoas da mesma forma que em Austin, mas estabelecendo uma relação tão superficial que poderia considerar um tipo de “Política do Bom Vizinho”.

No momento em que Rémi saiu do banheiro com os cabelos úmidos, pôde ver uma quantidade considerável de vapor sair do ambiente. Era a vez de Riley se tranquilizar, tendo a mente limpa, sabendo que tudo estava em ordem. O calor úmido e os azulejos brancos com gotículas transpiradas de vapor, a luz de luminosidade ajustável do lado de fora, ao lado da porta, lhe davam a impressão de estar em uma sauna bem mais suave. Seu corpo estava adaptado às altas temperaturas do centro do Texas, mesmo o clima ameno de Vancouver parecia soar mais frio para si. Dentro daquele ambiente, se sentou sobre a privada de tampa fechada, desamarrando seus cadarços rapidamente, tirando suas meias. Em seguida, fora a vez de sua camiseta, ficando apenas com suas calças enquanto se apoiou de frente para o espelho, fitando sua imagem. Começaria a terminar de se despir com o trancar da porta, observando sua imagem nua diante do reflexo. Cada traço de seu corpo, tão rotineiro para si, não conseguia reparar em nada demais ali, pelo contrário, começaria a flechar-se com defeitos. De seus cabelos curtos e meio ondulados, seus olhos amendoados, até pequenos detalhes de suas expressões como seus lábios... droga... como odiava seus lábios. A cor de seus olhos, que muitos diziam ser tão linda, sabia exatamente como aqueles orbes de mel lhe eram voltados... seu peito, sentia-se muito largo, os braços e pernas... não tinha palavras para os descrever, sabia que iria longe demais em sua autocaricatura caso o fizesse, mas era inevitável, não era nem um pouco escultural, mesmo que alguns músculos definissem sua carne, nada se assemelhava aos galãs de filmes que tanto roubam suspiros. Não conseguia ver beleza alguma em si.

Após sair do banheiro, percebeu que Rémi já estava em seu escritório, sentado em uma cadeira de frente para uma mesa na diagonal para si, tão grande quanto a folha sobre si, diversos instrumentos métricos e até mesmo lupas, algumas velhas e outras compradas recentemente. No canto do cômodo estava uma cama de solteiro desarrumada com alguns tubos negros sobre este, os mesmos que se encontravam por todo o local. Movia precisamente a régua acoplada à mesa sobre a tela branca, traçando linhas e mais linhas, formando mais um modelo que não duvidaria que fosse para o lixo. De lado, pratos e louças sujas que talvez estivessem ali a dias. Sua presença apenas fora percebida por seu tio no momento que em um passo, seu pé esbarrou em um copo de plástico já vazio. Ammy que parecia dormir sobre algumas folhas amassadas levantou a cabeça e as orelhas para olhar, diferente dos cabelos longos, que permaneciam estáticos.

— Ah... me desculpe pela bagunça e.... sinto informar que você terá de dormir no sofá até que eu arrume um colchão, o meu já é meio velho e desconfortável, até durmo lá de vez em quando. — Disse sem tirar sua atenção das marcas acinzentadas que seu lápis deixaria para trás na folha.

— Se isso fosse um problema eu diria, sério... eu ainda não sei como lhe agradecer sobre o que você fez... — Juntara suas mãos por um breve momento, se aproximando e olhando por cima do ombro de seu tio a atividade deste, para logo em seguida recuar. Sabia bem o quanto alguém que estaria trabalhando em algo que envolvesse desenhar, independente do que fosse, detestava que os observasse em meio a atividade.

— Não precisa agradecer, estava cumprindo não só uma obrigação de família, como também uma promessa que havia feito a seu pai... e que ele achou que eu nunca precisaria fazer.

— Bem, vim apenas dar uma olhada no que estava fazendo... eu não dormi nada desde ontem a noite então eu acho que esse foi meu turno.

— Vai lá, vou deixar a comida pronta para mais tarde, já que eu tenho certeza que você vai acordar com fome. Fecha a porta quando sair do escritório.

Fora uma conversa curta, mas não precisariam de mais esclarecimentos dali para frente, apenas fecharias as grandes cortinas vermelhas, fazendo com que toda a sala acabasse por ser tomada pela vermelhidão da luz solar as atingindo. Permanecia de pé no vazio por um tempo, sentindo o contato da sola de seus pés com o chão gelado, as roupas um pouco maiores que si, como tanto se sentia confortável, sua respiração calma que poderia ser ouvida quase como explosões dentro de sua cabeça. Lembrava-se bem do escuro avermelhado apenas por cortinas com tanta clareza que podia se imaginar nos palcos ali mesmo, a plateia silenciosa lhe assistindo deitar no sofá, onde já estava um travesseiro e um grosso cobertor. Em nenhum momento se atreveu a abrir os olhos, não sabia o porquê, mas seu corpo lhe dizia para não o fazer. Apenas se deitou na mobília que embora antiga, servia tão bem quanto sua cama, embora o tamanho não fosse o mesmo, era perfeito... perfeito para descansar...

 

 

Alguns meses antes... em algum lugar do norte canadense...

 

As férias logo chegariam ao seu fim e durante todo este período já estava cansado de remoer a ideia de simplesmente sair do colégio depois de tantas falhas acadêmicas e apenas se dedicar a qualquer outra função. A residência dos Morgan se encontrava em uma zona remota, uma cidade de interior escondida não apenas entre os pinheiros e a mata congelada, como também sob a própria neve. Quase todos naquele ambiente poderiam se dizer conhecidos e a família Morgan era conhecida pela boa aparência. Edmund, o patriarca da família, como um homem exemplo que ajudava a regular a população de animais silvestres da região, principalmente em altas temporadas dos perigosos como lobos, junto com um grupo de caçadores. Já Charlotte, uma verdadeira dona de casa, bela, recatada, do lar, ótima na cozinha e um exemplo de mãe para os filhos. Sob esta fina camada desta casa de bonecas, os filhos que ainda não eram conhecidos por seus problemas, mas sim por aqueles tímidos que quando aquela pessoa de anos atrás os dizem “Lembram de mim? Peguei vocês no colo” ficam sem resposta ou respondem desviando olhar.

Noah havia acabado de voltar de casa, ainda com um rifle de caça em suas mãos e batendo a neve de suas botas, tirando boa parte de seu agasalho no mesmo momento em que mudou de ambiente. Seu nariz avermelhado, chamava atenção, trazendo um tom mais vívido aos seus cabelos já puxados para o tom ruivo. Caminhara pelo carpete cor de pele, passando pela tv no canto da pequena sala, chegando até a cozinha, onde encontrava sua mãe empolgada, tentando ensinar costura para Roxanne, que não parecia demonstrar a maior satisfação com a atividade, mas ainda se esforçava para agradar Charlotte.

O garoto seguiu para seu quarto sem pensar duas vezes, chegando a ignorar as duas, se trancando e deixando de lado seu rifle. Havia acabado de receber mais uma bronca por parte de Edmund, sobre suas repetidas falhas estudantis e os gastos que uma cria inútil como se lhe proporcionavam. Sobre como suas esperanças sobre seu futuro terem ido por água abaixo junto com qualquer prêmio de snowboard. Sua visão estava muito enevoada para se prestar atenção em qualquer coisa dentro de seu quarto, apenas queria um momento de privacidade, longe daquelas máscaras de perfeição que era obrigado a vestir junto com sua família. Toques são ouvidos em sua porta enquanto sua cabeça permanece baixa...

— Oh... Noah, você tá legal? — Pôde ouvir a voz de Roxanne do outro lado da porta. Conhecia bem a sua irmã, ambos tinham um relacionamento estranho e distante, talvez em algum momento de sua infância sua amizade tenha sido quebrada juntamente com muitos laços que haviam sido formados a tanto tempo atrás. Um não se importava com o outro de forma alguma, não mais, esse tipo de pergunta apenas lhe irritava ainda mais.

— Sim, eu tô legal... LEGAL O SUFICIENTE PRA NÃO TER QUE OUVIR MAIS SERMÃO DAQUELE FILHO DA PUTA! — Seu grito certamente fora ouvido por sua mãe, que retrucou como imaginado, o famoso “Olha a boca!” que pouco iria mudar o que falaria dali para frente.

— Escuta aqui, eu tô tentando ser uma boa irmã. — Se apoiou na porta com o ombro, para em seguida mais passos serem ouvidos e uma conversa abafada entre as duas mulheres da casa chegar até seus ouvidos.

— Eu não suporto essa porcaria, eu sempre tento, eu tento e tento, mas ele nunca sequer olha para o meu esforço, PORRA! — Socou a parede de seu quarto, cortando a conversa das duas. Rapidamente abriu a porta e puxou Roxanne para dentro, para que pudessem conversar às sós. — Não adianta mais forçar a barra, eu sei tão bem quanto você o quão merda é ter que ficar segurando máscaras.

— Ele provavelmente falou isso por que ficou sabendo daquela festa que você fez na república, deveria ser mais discreto, sabia? — Puxou seu braço para si, se soltando das mãos de Noah. — Deveria parar de tentar chamar a atenção dele dessa forma.

— Ah bom, e começar a me drogar e fazer cortes pra todo mundo ver? — Disse ironizando, até ver o cenho franzido de sua irmã, que lhe dera um tapa em seu rosto. — Desculpa, eu fui babaca... — Começaria a massagear a área.

— Eu não sou sensível a ponto de sair chorando desse quarto agora, Noah, a única coisa que ainda nos mantém juntos é o fato de estarmos de saco cheio dessa merda toda. O que eu quis dizer com você parar com esse tipo de coisa, era sobre parar de confrontá-lo, isso sempre vai dar em briga.

— Eu não consigo, Rox, é quase como uma necessidade que eu tenho. Não dá mais para ficar ouvindo o que ele diz enquanto... — Pôde ouvir os toques na porta ficando mais frequentes, se tornando cada vez mais irritantes, seu nome sendo repetido diversas vezes pela voz de Charlotte, uma ótima mãe, mas ao mesmo tempo a mulher mais superficial que conhecera em toda a sua vida. — EU JÁ ENTENDI!

— Calma Noah... a gente pode não se importar um com o outro, mas uma coisa a gente tem que fazer, sair dessa merda de lugar o mais rápido o possível, você é mais velho que eu, consegue arrumar um emprego, salário o suficiente para se manter na república...

A porta fora aberta mesmo com a tranca girada, isso só poderia significar uma coisa, o dono da chave mestra daquela casa estava para entrar. Um tenso silêncio tomou conta no momento em que o quarto escuro começou a ser iluminado primeiro com um pequeno filete de luz, que aos poucos ofuscou a visão de ambos e a silhueta escurecida do homem que mantinha sua postura ereta. Após algum tempo, a barba por fazer de coloração alaranjada, as sobrancelhas que acumulavam alguns flocos de neve e os fios curtos arrepiados como chamas se mostravam. Edmund era um homem de porte, elegante e com um certo charme, mas mesmo com sua aparência fundindo intimidação com carisma, apenas uma coisa poderia ser dita sobre si, em uma situação como aquela, ninguém se atreveria a dizer nada sob sua presença, assim como havia ensinado a cada nome ali... Charlotte, Roxanne e principalmente, Noah.

— Olá filho. — Puxou o zíper de seu casaco, adentro o quarto e o deixando no canto da cama, enquanto se aproximava de ambos, estendendo sua mão direita para Roxanne, que a segurou mesmo hesitando. Acabou ajudando sua filha a levantar, primeiramente, para em seguida estender a mão para o mais velho dos dois. — Teve algum problema?

— Não... — Ignorou o braço estendido de seu pai, permanecendo sentado no chão.

— O que foi que disse? — Perguntou com um sorriso falso em seu rosto, permanecendo com a mão estendida.

— Não, senhor. — Se levantou sozinho, ignorando a mão de seu pai e batendo os restos de neve que ainda estavam em sua calça. No momento em que se estabilizou, começou a ser prensado contra a parede de seu quarto, sem nem mesmo precisar ser tocado.

— Os vizinhos... eles estão reclamando de barulhos aqui perto. — Dizia lenta e calmamente, aproximando seu rosto do de Noah. Apesar de ambos serem da mesma altura, algo no fundo do garoto lhe dizia para não reagir, seu próprio subconsciente lhe dizia para ficar quieto. — Eu gostaria de confirmar se.... não era daqui que estava vindo.

— Ele não parava de gritar, puxou Rox para dentro do quarto com violência e tudo. — Disse Charlotte.

— Isso é verdade, Roxanne? — Apenas o silêncio fora ouvido após sua pergunta, o que o fez tomar um tom mais ríspido conforme sua expressão mais sorridente veio a se deformar em uma tomando uma neutralidade tão grande que chegava a ser incômoda, isso dizia o bastante para aquele que não tirava os olhos de seu rosto. Edmund olhou pelo canto de seu olho para as duas, repetindo a pergunta. — Eu perguntei.... É verdade, Roxanne?

— S-sim... — “Filha da puta” fora o primeiro pensamento que correu como um disparo dentro da cabeça de Noah ao ouvir as palavras de sua irmã.

— Traidoras. — Rangia os dentes não acreditando que fora entregue, mesmo todos ali sabendo muito bem a relação que ambos tinham, cada ação e cada reação, para cada situação. No exato momento em que se pronunciou, sentiu os punhos de seu pai o puxarem pelo colarinho, o prensando ainda mais contra a parede.

— Respeite as mulheres da casa. E não responda sua mãe. — O arrastou para o canto do quarto, o batendo contra a parede. Naquele exato momento, podia sentir as pernas bambas de Noah e sua expressão como se aguardasse um punho vindo em seu rosto. — Não parece tão macho agora. — Largou lentamente seu colarinho, o desamassando em mesma velocidade. — Vou ser mais claro sobre a nossa conversa na floresta. Não quero saber de mais festas... entendido?

— Entendido... — Suspirou em alívio no momento em que Edmund deu de costas.

 

 

Riley fora acordado de supetão com a vibração do celular sobre a mesa. As cortinas vermelhas não mais produziam nenhuma coloração no quarto e nenhuma luz era vista pela outra faceta da janela, isso significava uma coisa, havia dormido todas aquelas horas que havia virado, não apenas durante a viagem, como também as noites de insônia naquela casa de pesadelos com Joyce. Podia ver a luz e ouvir ainda os papéis sendo atirados contra o chão do escritório de Rémi, até o brilho da tela tomar seus olhos. Neste momento, chegou a afastar o aparelho de seu rosto por um momento, acostumando um pouco a visão antes de checar as mensagens e dar de cara com algo novo, vindo de Noah.

Mac: “ Eu e Rox vamos comprar umas bebidas para amanhã, quer vir junto? ”

Parou para pensar por alguns minutos, chegando até mesmo a se sentar no sofá. A última coisa que queria era dar uma dor de cabeça para seu tio logo agora que este o tinha acolhido, mas não faria mal participar de uma festa contanto que fosse responsável com o que botaria para dentro de si, além do mais, iria apenas comprar as bebidas para o dia seguinte, que mal faria?

Riley: “ Me manda uma foto do endereço. ”

Mac: “ Daqui a duas horas. ”

A mensagem veio seguida de uma foto anexada com o endereço de encontro, havia um bom caminho para ser percorrido, embora este não pareça tão difícil. Por um momento chegou até mesmo a esquecer da existência de Rémi dentro daquele apartamento tomado por escuridão, sendo como um farol para os navegantes desavisados, embora este não fosse bem o seu caso. Logo que cuidou de sentar-se no sofá, permaneceu quieto por um tempo, não apenas para pensar em tudo que havia ocorrido até aquele exato momento, desde o dia em que queimou aquela carta na lareira até fugir de sua não mais considerada mãe. Uma onda de adrenalina correu por sua espinha como um trem bala e logo se deu conta de que a noite poderia ser bem menos depressiva do que os sinais que demonstrava, não abandonaria essa oportunidade de ouro. Por fim, tratou de atirar para fora de sua posição de conforto, indo até o escritório de Rémi e quase esbarrando em Ammy.

— Rémi, recebi uma mensagem, um convite na verdade. Noah disse que poderia mostrar um pouco da cidade e me ajudar com algumas coisinhas a mais. — Precisaria soar convincente o suficiente, deixaria as informações sobre o provável evento do dia seguinte abafados até o atual momento. Comprar bebidas da forma que estaria imaginando poderia culminar apenas em uma coisa, a festa que havia sido anunciada logo em sua chegada, um pouco mais cedo do que esperava, mas isso não era problema algum, muito pelo contrário.

— Eu até te liberaria se tivesse certeza que não fosse passar fome depois da tarde toda, sem contar no horário. — Girara seu lápis, fitando o esboço que se tornaria o esqueleto mais aceitável se comparado com todos os que estavam descartados e esquecidos não apenas no fundo de sua mente como de uma forma mais trabalhosa, por todo o chão do cômodo.

— Mas são 07:00 PM, Rémi... a quanto tempo você está aí? — Por um breve momento pôde visualizar a mesma cena de seu tio de costas para si, tão focado naquele plano, contudo, como se estivesse preso em laço temporal devido à falta de inspiração. Apenas por ver este ponto de vista chegava a ser assustador, e isso não passara despercebido pelo próprio.

— Cacete, eu jurava que fosse mais cedo. — Se levantou de supetão, indo até sua cama e revirando os cobertores já espalhados de forma bagunçada, encontrando um relógio de pulso prateado, que tudo o que podia ser dito sobre, era que certamente já havia visto muito mais do mundo do que Riley ou qualquer jovem.

— Eu preciso ser rápido, se eu comer alguma coisa eu estou liberado? — Era mais do que óbvio para si que não era preciso ser rápido, tinha espaçamentos de ponteiro de sobra para si, a verdade fora mais simples: Desejava explorar a cidade um pouco por si só, no lugar de permanecer nos braços de conhecidos.

— Ok, eu acho que preciso de um tempo, pegar algumas ideias... me passa esse tubo do seu lado, o segundo da direita para a esquerda. — Ao ter o tubo negro lançado em suas mãos, removeu alguns folhetos de dentro, forçando um tom constrangedor devido ao longo tempo de silêncio. — É difícil pegar ideias baseadas no que me é entregue, eu tento adaptar o trabalho para que se encaixe com a ideia geral da empresa, coisa chata.

— Acho que isso é um sim... — Seu tom de voz se alongou junto com suas palavras, que correram como uma afirmação em tom de dúvida até o momento que recebeu um aceno positivo por parte de seu tio. Não pensaria duas vezes antes de se lançar em direção à sua mala se preparar.

— Hey! — Chamou atenção de Riley. Assim que teve a visão do sobrinho para si, sacudiu uma única chave fosca para este. — Essa daqui é a chave reserva para casos de emergência, vou deixar com você até conseguir um modelo novo. — Estendeu o objeto para o mesmo, aguardando que o pegasse, para puxar para si novamente. — Até 00:00 e nada de confusão por aqui.

— Entendido, nunca causei problema nenhum. — No momento que o pequeno objeto tocou a palma de sua mão, partiu para a cozinha, abrindo o micro-ondas e se encontrando com um burrito que certamente fora encomendado de algum delivery e dada a sua cara, não duvidava nem um pouco que estava lhe aguardando por um bom tempo. Não conseguia ocultar o sorriso que estampava seu rosto.

Não havia desperdiçado tempo algum, enquanto aquilo que poderia cobrir mais do que um almoço devido ao seu tamanho girava em loopings sendo bombardeado de calor, encontraria suas melhores roupas das últimas férias que teve no Canadá. Estas foram de um bom tempo atrás, embora ainda lhe servissem bem, sempre preferia alguns números acima de seu padrão, não por questão estética, mas por causa da quantidade de tecido que poderia lhe proteger da temperatura que volta e meia despencava sem grandes avisos.

Enquanto partia para as ruas, dando grandes mordidas em seu burrito que perecera facilmente diante de sua fome, Riley inevitavelmente se recordava das mensagens anteriores, sentindo um forte aperto em seu peito apenas por se lembrar de cada palavra de Leon. Havia sido machucado sem que nem ao menos percebesse, como um espinho logo abaixo de sua asa que não poderia desencravar ou remover com seu bico por estava longe de seu alcance. No fim, uma simples mensagem de adeus, para si, soava quase como um símbolo de que provavelmente não iriam mais se ver. Por que os principais pensamentos que lhe atingiam eram sobre isso? Ainda se lembrava de antigas memórias sobre amores distantes que talvez não retornariam, e mesmo em um dia que havia começado tão quente, podia sentir-se um com aquela atmosfera, fria, não gélida como alguns diriam, pois seria uma palavra muito elegante para um estado tão simples.

Logo seu olhar veio a tombar, ignorando as pessoas que caminhavam ao seu redor, deixando um rastro de fumaça de sua respiração, um rastro da existência de um espírito vagante sobre as calçadas cobertas de sapatos, mas ao mesmo tão esquecidas. Passara diante de uma livraria, percebendo a iluminação amarelada de si, a decoração mística de saudosismo, trazendo nostalgia de empregos que nunca mais ousaria tentar novamente. Placas de neon dizendo as palavras de profetas, estampadas nas paredes, que ninguém se importaria em ler. De lojas de roupas à grupos de amigos se preparando para encher a cara. Estava completamente deslocado de seu destino, apenas caminhava sem rumo, pois essa era uma das graças de se estar vivo, nem sempre precisar estar entretido, se dar ao luxo de observar. Se surpreendeu após longos minutos desgastando as solas de seus tênis já velhos. Seus orbes cor de mel cintilaram ao ver apenas um pôster de uma apresentação de teatro, ainda sem nome algum, sem rostos apenas nomes e uma localização que se encontrava marcada em seu GPS. Assim que percebera que lhe faltava pouco tempo para que o teatro fechasse, pelo menos graças ao fato de os atores ainda estarem praticando, partiu em disparada sem pensar sequer duas vezes.

Por sorte, seu destino não era nem um pouco longe de onde estava naquele momento, chegara até a perceber uma grande ironia quando atravessou as portas e caminhou pelo saguão vazio, se sentindo como em uma versão alternativa de sua própria casa. O Teatro Orpheum tinha como seu berço a Granville Street, bastante próximo de seu atual ponto de repouso. Se enchera não apenas pelos olhos, mas por dentro com toda a estética e arquitetura daquele lugar. Fora inevitável comparar seu antigo ambiente de trabalho, nem chegou a crer que a entrada de um teatro seria tão modesta, completamente diferente de seu interior. Ignorava o fato de não haver absolutamente ninguém, nem mesmo na venda de ingressos, atravessando o carpete vermelho que desaguava seis degraus abaixo e se encontrava com portas duplas de ébano. Mesmo antes de abrir as portas podia ouvir os doces sons vindos do palco, os passos, as falas exaltadas e os tons de voz que atores tanto cobiçavam alcançar, mas que um bom diretor sempre os cortava em meio a um ato forçado. Não se conteve ao abrir uma das portas e se enterrar na escuridão do fundo das poltronas, xeretando em primeira mão, uma peça que ainda nem estava consolidada.

Não havia sido notado a princípio, o que apenas lhe encorajava a não mover sequer um dedo para sair dali. Jogava seus cabelos castanhos para trás, deixando de lado as mágoas que sentia apenas para apenas apreciar a jovem que tanto se esforçava para manter uma postura masculina, ao menos, como sugeria seu papel. Não conseguia reconhecer aquele roteiro de canto algum e acabou se tocando de ser uma obra original. Mesmo após isso ainda sentia suas dúvidas, como uma garota de aspectos tão delicados, desde a forma com a qual levava o copo de falso uísque repleto de gelo até seus lábios rosados, até seus fios que mesmo amarrados de forma que se contenham, gritavam para saltar de seu aperto, como essa mesma figura iria interpretar um personagem aparentemente masculino e de postura como o coordenador sugeria, rude e de punho firme?

Gostaria de queimar sua língua após suas sugestões, pois quando o sinal fora dado, sentiu aquela figura frágil e angelical, desaparecer, dando lugar a uma postura avantajada e robusta, orgulhosa e de nariz em pé. Os óculos de formato quadrado e o terno negro lhe davam a entender algo completamente diferente do que esperava, e este era um dos recursos mais difíceis de um ator captar, a quebra de expectativa. Era simples para um roteirista, conseguir adicionar algo novo ou uma reviravolta a mais na história, mas para a figura que está vivendo o personagem... sentir algo tão diferente não era apenas um colírio para os olhos, como também a prova viva de sua experiência.

Ficara até o fim do ato, percebendo a mesma transição por parte da atriz naquela pele imponente ao fim de tudo. Permaneceu sentado durante um bom tempo, até que fora percebido justamente pela protagonista, que já havia voltado do camarim aparentemente livre de seu figurino, deixando seus longos e lisos fios escorrerem suas costas abaixo. A figura não parecia nem um pouco contente com sua presença ali e isso era mais do que claro em sua postura e expressão de ódio voltada para si, o que acabou voltando a atenção de outros que não haviam lhe notado.

— Quem é você e o que está fazendo aqui? — A voz fina chegou a ser desferida em sua direção em um tom tão intrusivo e grosso que um tapa em seu rosto teria sido menos eficiente.

— Desculpe, eu sou novo na cidade... eu vim dar uma volta e acabei parando aqui. — Se ergueu Riley, quase que de imediato em um estado de alerta no momento que mais alguns de fundo chegaram a parar suas atividades para assistir tal cena.

— E por acaso não viu a placa de “Apenas Pessoal Autorizado”? — Continuou não dando brechas para que o maior pudesse se retirar sem dar qualquer resposta. Parecia bem mais determinada e não havia dúvida que estaria cozinhando teorias da conspiração dentro de sua cabeça.

— Repito, me desculpe, não vi. — Deu uma breve pausa, levantando as mãos na altura de seus ombros, fingindo estar se rendendo. — Mas não é como se isso fosse me impedir de nada. — Estendeu o dedo pedindo silêncio por um momento, sabia que a piada iria render um esporro a ponto que pedissem a presença de seguranças ali. — Sou novo na cidade, vim de Austin, Texas, e quero continuar minha carreira. Também faço teatro.

Gostou da forma como havia deixado a garota sem palavras por alguns segundos, fazendo com que esta reformule boa parte do que estaria para lhe dizer. Nunca foi tão fácil se aproveitar de um jogo de palavras para escapar rápido e contornar uma discussão. — Eu que deveria me desculpar agora... estava preocupada de ser alguém vazando algo sobre a peça. Mas você deveria chegar de outra forma, então a culpa não é de toda minha.

— Tem razão, tem razão. Por favor, pode dizer aos seus amigos que eu não sou um stalker ou um paparazzo louco? — Levou uma das mãos expostas para dentro do bolso de sua jaqueta, levando a outra para a garota. — Prazer, Riley.

A figura soou meio pensativa sobre a forma que havia o abordado ao mesmo tempo que um sorriso zombeteiro surgiu no canto de sua boca. — Abigail. — Pelo menos chegou a responder o cumprimento enquanto olhou por cima do próprio ombro, fazendo um gesto para continuarem com o que estavam fazendo, embora alguns ainda continuassem a observar a cena. — Se quer alguma vaga, já aviso, o diretor principal está de cama por essa semana e não é como se ele deixasse passar qualquer estranho que aparece por aqui.

— Então já tiveram outros que estavam andando pela rua e por coincidência vieram parar aqui? Interessante. Seria uma pena se eu não fosse qualquer um, eu realmente fiquei impressionado com a sua atuação, mesmo não sabendo ainda sobre o que se trata o roteiro, são poucos que conseguem marcar presença sob os holofotes.

— Chega, eu não preciso que inflem meu ego, eu sei a quão boa sou. — Disse em tom vitorioso, como se tivesse acabado de sair de uma longa discussão.

— Estava sendo sincero, Abigail. Engraçado, em menos de dez minutos consegui seu nome e um sorriso, será que se continuar consigo o papel principal? — Brincou.

— O quê? — Riley chegava a ser tão direto que chegou a atingir um ponto sensível da garota que havia acabado de descobrir o nome e já imaginava tanto sobre sua personalidade, arrancando até mesmo um tom incrédulo que soou como uma vontade berrante que não podia ser abafada, por mais sutil que seus lábios tenham sido. — Vai dar um belo fundo de árvore da escolinha dominical.

— Eu não costumo adotar essa postura, sabe? Só que eu não consigo me conter enquanto olho para aquele palco. Poderia me informar então como posso entrar em contato com a diretora do teatro? — A última pergunta parecia tê-la feito mudar completamente.

— Claro, uma das políticas do Orpheum é que não podemos fechar as portas para ninguém. — Pousou a mão sobre a cintura com um sorriso no rosto, abrindo o caminho para Riley. — Pode deixar seu contato comigo, então te aviso quando ela melhorar.

— Seria de um enorme prazer, minha dama. — Sentia seu sangue circular com ainda mais velocidade, seu coração batendo forte o suficiente para sentir o sangue chegando até a ponta de seus dedos, enquanto escrevia com uma caneta oferecida para garota para si, na palma da mão desta, seu próprio número. — Espero que esteja sendo sincera.

— O que mais gosto de ver são as audições para entrada no elenco, por parte de novatos. — Suas intenções pareciam muito bem escondidas por trás daquele mero sorriso.

— Lhe agradeço mil vezes, Abigail. — Seu tom permanecia calmo até sentir seu celular vibrando em seu bolso. Havia esquecido sobre o ponto de encontro com Noah. — Acho que vou ter de voltar para a realidade chata, creio que isso é um adeus.

— Até seu teste. — Fez um gesto de “tchau” enquanto via Riley atravessar a porta quase correndo. — Ninguém merece... —

Uma das garotas que estavam observando tudo de longe se aproximava, tocando o ombro de Abigail para chamar sua atenção. — O que foi, amiga?

— Nada, mais um que vai acabar como figurante. — Suspirava como se terminasse um ato de encenação com a saída dos olhos cor de mel.

 

Sua empolgação ainda era nítida, chegava a ser estranha a forma como seu comportamento se alterava quando estava dentro de um teatro, era como se seu espírito estivesse ligado a aquele espaço de luz sobre o palco. Contudo, precisava manter a sua palavra acima de tudo, o que não ajudava nem um pouco era o fato de ter confundido os nomes das ruas três vezes seguidas, tendo de ir e voltar diversas vezes para no fim perceber que sempre estaria indo para uma zona sem saída, sim, tinha de admitir, havia se perdido e já estava atrasado.

Quando finalmente havia chegado até a loja de conveniências onde via aquela figura de destaque fumando com uma certe impaciência, ao lado de uma garota que já aguardava sentada sobre o capô de um carro, já havia desistido de checar horários, pois isso apenas acabaria o apressando ou mesmo o deixando ainda mais ansioso para chegar logo até o local combinado. Noah e Roxanne pareciam estar fumando juntos logo em frente à loja, mesmo que Rox esteja lá tão próxima de conseguir seus próprios maços.

Certamente já havia passado de 09:30 PM, e isso significava algo claro para a região em que se encontrava agora, distante do apartamento de Rémi, poucas pessoas e maior privacidade. Gastar a noite apenas para comprar bebidas era algo que sabia que Noah não faria, ou seja, algumas seriam inauguradas ali mesmo. O de cabelos curtos apagou seu cigarro pela metade na parede, deixando uma marca negra das cinzas na tinta clara, seu olhar já dizia o suficiente, mas as palavras precisavam complementar.

— Atrasado, boa Riley. — Se alongou, estalando as costas e dando de costas para entrar na loja. — A Rox vai ficar esperando do lado de fora, ela ainda não pegou a entrega que o Carter deixou naquele beco. — Diferente do que havia esperado, não houveram sermões.

— Foi mal, eu acabei me distraindo, tinham várias ruas, as direções apontadas eram confusas. — Parou logo atrás de Noah, acenando para Roxanne, que respondeu o gesto em silêncio, apenas para soprar a fumaça para o alto e cruzar as pernas, se apoiando melhor no capô.

— Eu já esperava que você fosse se perder, por isso nós chegamos atrasados também, só que eu queria ver como você se virava, já tenho a desculpa pra não precisar te levar para todos os cantos. Aliás, eu detesto pontualidade. — Era uma das poucas pessoas que dizia algo tão cômico com ar de seriedade, mas se podia dizer algo de Noah, era sobre ser um homem de certa forma honesto, a menos que envolva cobrir a própria imagem.

— Já tem os convidados da lista? — Seguiu loja adentro um pouco mais aliviado, partindo para as prateleiras com bebidas. — Ou vai ser à moda American Pie?

— À moda American Pie, sempre. Inclusive a carga que o Carter deixou para a Rox é de boa qualidade. — Retirou quatro garrafas de vodka da prateleira, as carregando quase abraçado com estas. O tom mais sério de Noah acabou mudando para uma risada quando percebeu as mãos de Riley. — Está ansioso?

— Claro que estou, droga, faz anos que não faço nada de interessante assim, esperar até amanhã vai ser um sufoco..., mas uma coisa... aqui no Canadá, maconha não é legalizada?

— Fala baixo. — Disse em tom curto, se aproximando abruptamente de Riley. — Não tem só maconha ali, sem contar na quantidade. É literalmente um pacote festa para todo mundo ficar bem feliz.

— Entendi. — Respirou fundo olhando brevemente para cima, recolhendo variações das bebidas as quais Noah selecionavam. Além de puxar os salgadinhos dos maiores pacotes que haviam disponíveis. — Não deixa a Rox tocar nisso, se não quiser levar ela arrastando.

Ambos passaram toda a quantidade de bebidas pelo caixa, a identificação de Noah facilitava bastante as coisas, e nada fora exigido por parte de Riley. Já era algo cômico para si não sentir mais a sensação de frio na barriga, encarar o julgamento do vendedor do produto, o risco de passar um vexame e sempre aumentar demais o que poderia acontecer. Esse tipo de coisa acontecia apenas nas poucas escapadas que dera de seu internato, tão poucas que poderia contar nos dedos de apenas uma mão, antes que o sistema se enrijecesse sobre si.

Com o apelidado por Noah como “Pacote Família” em mãos, o trio seguiu até o beco indicado anteriormente onde estaria a carga a qual Carter deveria ter deixado de presente para Rox a algum tempo atrás. Um grande presente, duas caixas de sapatos pesadas foram colocadas dentro das sacolas, juntas com as bebidas e salgadinhos que estariam prontos no dia seguinte. Com todo o kit em mãos, acabaram por parar um tempo no segundo andar do estacionamento do shopping, ali próximo, que já estaria fechando. Lá, Noah e Riley começaram a partilhar uma das garrafas de vodka e Roxanne, já sabia bem seus próprios limites, permaneceu apenas com o que estava fumando a algum tempo.

— Você nunca falou nada sobre o internato pra a gente. — Roxanne soprou lentamente a doce fumaça para fora de seus pulmões, começando a fitar o nada por um longo período, aguardando uma resposta que levaria um tempo para ser processada.

— Não é como se eu tivesse tido muitas chances, uh... essa merda tem um gosto horrível. — Recrutou Riley, que já havia chegado à metade da garrafa juntamente com Noah, que permanecia em silêncio e quase imóvel, com as costas apoiadas em uma pilastra de sustentação.

É sabido por todos que o consumo de drogas lícitas ou ilícitas em locais como este estacionamento são impróprios, todavia, a realidade atua de uma forma diferente da teoria e aquele era o refúgio perfeito para quem queria apenas beber e jogar uma conversa fora. A predominância do cinza concretado por todos os lados e as marcações de linhas amarelas indicando rotas para cada um dos poucos carros restantes naquele lugar. Chegavam a se questionar o eu acontecia com automóveis que passaram tanto tempo ali, solitários, eram descartados ou apenas mantinham para acumular ainda mais dinheiro para o shopping em si? Diversos questionamentos brotavam principalmente da mente agora colorida e entorpecida de Rox, que volta e meia conseguia suas respostas por parte de Noah. Era estranho andar com aqueles dois irmãos, tão distantes um do outro. Riley chegara a se perguntar diversas vezes, embora seus inibidores quase o tenham trapaceado em manter apena em sua mente, a questão de como acabaram por ficar daquela forma.

— Acabou a garrafa, agora... — Riley se levanta trupicando, puxando a garrafa de Noah, que já se encontrava sonolento. — Que droga hein Mac, sua irmã passou a noite fumando boldo e mesmo assim você quem está lento. Daqui a pouco é meu horário.

— Issaqui foi pra fazer uma aposta. — Começou a encarar Riley com um sorriso idiota no rosto. Sua expressão forçou o de olhos de mel a ecoar suas risadas pela garagem como um palhaço. — Qui foi...

— “Issaqui” hehe... tá falando erradass. — Começaria a rir mais baixo para conter o barulho enquanto se lançou ao chão, caindo de bunda.

— Tu tá pior que eu. — Puxou o braço de Riley contra sua vontade para se levantar, caindo logo em seguida. — Eu já tav bebedo antes. — Rolou pelo chão com uma expressão séria, aguardando alguma resposta de seu amigo texano. — Quero que tu participi... — Sua fala saía bem mais arrastada do que realmente soava para si, chegando a alguns trechos indescritíveis graças ao seu costume de falar rápido. — Verdade ou disafio, amanhã.

— Tópo! — Estendeu a garrafa para Roxanne para que a guardasse junto com as demais. Ainda tinha consciência o suficiente para não se permitir deixar uma bagunça para trás. — E voxê, vai convidar alguém em especial, ou isquema Murican Pie? — Riley aguardou um tempo fitando seu amigo tombado no chão, já dormindo. Não duvidava nem um pouco que já estivesse bêbado antes mesmo de terem se encontrado, quem sabe até mesmo de ter misturado algo mais. Apenas não entrou em desespero com a segunda ideia pois a pessoa de maior conhecimento nesta área ali presente, estava queimando os últimos resquícios de seda. — Goxtoso. — Se abaixou rapidamente, quase tombando novamente, deixando um beijo em sua bochecha e voltando a se sentar com Rox.

— Não sabia que você era desses... — Encarou com estranheza a cena protagonizada diante de seus olhos, seus neurônios entorpecidos tornavam tudo muito mais estranho para si, chegando até mesmo a demonstrar uma expressão assustada no lugar de uma de surpresa. — Tanto faz, só não quero ficar segurando vela no meio disso tudo. Porque cera derrete... derrete devagar mas derrete... derrete a paciência. — Quando a seda chegou ao seu fim, a atirou para longe, voltando-se para a cena. — Convidado especial, talvez... tenho um amigo... não sei se ele vai. — A pausa entre cada sentença se tornava cada vez maior conforme o tempo se passava.

— Legal... acho que eu vou bebê algumas de água, garrafas. — Se levantou de supetão. — Meu horário vai batê... não quero ficar pior... he he...

— Já está uma graça... sorte a sua que o cara que terminou está no chão... — Deitou sobre o capô do carro para pegar impulso, caminhando até o lado de Noah. — Vou dar um treco nele... valeu.

— Dá pra fingir bem... daqui prrra lá minha falha chá fica melhor. Valeu... — Acenou em retorno para Roxanne, seguindo com uma postura consideravelmente boa para fora do estacionamento, de volta para o apartamento de Rémi.

 

5 minutos depois...

 

Riley: “Rémi, foi mal aco quefouv me atrasar”

Rémi: “Problemas no celular? ”

Riley: “Pode ser. Consegui uma audição no Orpheum”

Rémi: “Vou abrir uma garrafa de champanhe para comemorar, isso é a continuação da sua carreira! ”

Riley: “Foi maslk eu dou dormir logo, to cansado”

Rémi: “Ok... mas temos de comemorar”

Riley: “Vou comemorar bastante amanhã”


Notas Finais


Gostou / Não Gostou? Comente.


Gostou da Fanfic? Compartilhe!

Gostou? Deixe seu Comentário!

Muitos usuários deixam de postar por falta de comentários, estimule o trabalho deles, deixando um comentário.

Para comentar e incentivar o autor, Cadastre-se ou Acesse sua Conta.


Carregando...