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História Sonhos de Julho - Capítulo 7


Escrita por: Renan_Shoujista

Capítulo 7 - 8 de Julho


Finalmente um sonho na minha escola atual, não que seja algo muito positivo.

Eu estava indo do pátio pro corredor, quando de repente uma aluna loira chamada Jessie, que é de outra classe, se pôs na minha frente segurando um papel.

- Oooii, Yumi! – falou como se estivesse feliz em me ver, me pareceu falsa.

- Oi.

- Gostaria de entrar pro Coletivo Feminista? – disse ela, sorridente, me entregando um papel. – Nós garotas temos que nos ajudar, não é mesmo?

Voz artificial de tão fingida. Eu queria fazer cara de nojo. Essa guria caga e anda pra mim no dia a dia.

- É... – respondi, de forma acidentalmente seca, sem conseguir olhar nos olhos dela.

Pela visão periférica dava pra ver que ela travou por um momento, não entendendo o porquê de eu não estar sendo super extrovertida como ela.

- Então tá, espero que seja um “sim”. Portas abertas. Kissus.

Ela simplesmente saiu, indo na direção contrária à minha. Tentei começar a ler o que estava escrito no papel além de “COLETIVO FEMINISTA” em letras grandes. Só que do nada um rapaz com cara de sério se aproximou.

- Ela tentou te converter também? – interrogou ele, se aproximando demais.

- S-sim... – falei com voz meio trêmula e me afastando, o cara não tinha noção de espaço.

- Ela mete uns papo nada a ver pras outras só pra encher mais a bolha dela, não vai nessa não. Querem te manipular.

- Tá bom. – respondi, ainda meio recuando.

Sério, que sem-noção. Ainda me olhou meio desconfiado, como se perguntando se eu ia mesmo recusar o convite ou não, e foi embora do mesmo jeito. Achei que teria sossego, mas outra garota tinha acabado de sair de uma sala e se aproximou, boquiaberta.

- Esse cara tava tentando te intimidar? Eles são todos assim. Escuta, pensa com cuidado no que a Jessie te falou. Eu também estou no coletivo e nós tratamos muito bem as novatas. Sei que você como menina entenderia perfeitamente as nossas motivações e como é aluna recente ainda pode aproveitar pra se entrosar mais. Eu sei que você não quer ficar no seu canto o tempo todo só esperando alguém te adotar, então reconsidere por favor. Você não viu como ele foi escroto? Os boys tão tentando nos derrubar, mas não vão conseguir. Eu posso te indicar umas contas no Twitter pra você seguir e que vão te seguir de volta, a gente pode pensar em uns projetos muito bacanas incluindo um protesto contra aquela norma injusta que as meninas tavam conversando no fundão durante a aula de matemática, e como eu já vi que você gosta de livros eu posso te emprestar um meu da Simone de Beauvoir. Ah, acho que uma boa forma de começar pode ser no debate que vamos fazer sobre obesidade na semana que vem, desde que você tome cuidado pra não contestar quem fala com mais propriedade. Se gostar podemos fazer juntas uma tatuagem do símbolo com a cruz e o punho, tanto faz se de chiclete ou na agulha mesmo. E também... – ela falou mais coisas nesse meio, mas tô com preguiça de lembrar - Me chame se alguém te incomodar de novo e ficar tentando te induzir às coisas sem deixar você falar. Uh, minha namorada tá acenando pra mim agora, tenho que ir! Espero te ver lá na hora.

Saiu dando pulinhos e eu não consegui encaixar uma palavra sequer. Eu já estava impaciente quando, naturalmente, um rapaz que ouviu parte da conversa se aproximou tentando puxar assunto.

- Oi, tudo bom? Olha, eu ouvi um pedaço da conversa e só queria dizer que estou pensando em montar um grupinho, permitidos pra ambos os sexos, onde podemos desmistificar algumas pautas do Colet...

- CHEGA!

 Ele ficou pasmo com o meu grito. Ouvi alguns passos atrás de mim. Ignorei e comecei a falar assim mesmo.

- Eu entro no que eu quiser, mas eu tenho só quinze anos! Parem de tentar me puxar demais pra coisas que não me interessam!

- Mas o certo é ser politizada desde cedo! Se você não gosta de estudar, não aponte o dedo pra quem gosta.  – disse a garota 2, reaparecendo.

- Ninguém aqui é politizado, vocês são só crianças achando que sabem tudo sobre o mundo!

- Empatia é pra todo mundo. – foi dizendo Jessie, também reaparecendo. – Você vive no seu próprio mundo e só tentei te trazer pro real e nos ajudar a ter mais voz.

- Você só quer usar as pessoas pra ter mais atenção, mesmo cagando pra elas o resto do tempo! Eu não vou fingir que do nada viro especialista num assunto e repetir o que querem que eu repita!

Quando o cara sem noção de espaço estava pra aparecer, apontei logo pra direção dele.

- E VOCÊ é o pior de todos! Se ofende porque criticam você e quer calar as pessoas por isso! Esse coletivo nem existiria se não fosse gente igual a...

Essas reações enérgicas da minha parte às vezes influenciam um pouco no meu organismo, e de alguma forma eu acabei acordando com o coração levemente acelerado antes de terminar de discutir.  

Não aconteceu comigo nada muito parecido com o sonho, mas eu fico com a impressão de que uma hora vai e acho que é por isso que eu sonhei. Eu detestava ter que ser vista como mais inteligente por ser asiática, ou me esforçar mais do que a maioria da minha idade por ter crescido numa classe adiantada. Ver outras pessoas tão novas pensando que entendem coisas muito complicadas me ativa algum rancor pessoal contra a minha própria vida que eu não sei explicar, independente de saber que elas têm motivos. 



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