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História Sorte em forma de Azar - Capítulo 16


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Notas do Autor


OLÁ!!!! Depois de exatamente UM ANO (exatamente MESMO, e não foi coincidência porque eu planejei esse momento desde o ano passado!) estamos aqui de volta a essa patifaria que é SEFA, eu senti tanta saudade meus deus.

MAS PERAE, P E R A Ê!!! *AVISO IMPORTANTE!*
A situação atualmente tá bem tensa por causa desse vírus safado e eu queria só dizer NÃO SAIAM DE CASA, só se for muuuuito necessário mesmo! E NÃO ESQUEÇAM de se manter higienizados. Lavem as mãos, usem álcool gel e se limpem direitinho. Se lembrem também de higienizar os celulares, notebooks — seja qual for o local que você lê e utiliza mais — passando um paninho/algodão com álcool 70%.
ENFIM, todo mundo meio que tá cansado dessa ladainha, mas tem gente que NÃO ESCUTA então é importante lembrar.

Muito bem, agora eu queria só dizer um obrigada enooooorme à Dulce que betou este capítulo belíssimo, à Thali que sempre lê o capítulo assim que eu termino de escrever e me dá as considerações mais importantes pra eu poder continuar e à Aline (@bomma) meu amorzão que fez essa belezinha de capa nova, obrigada demais, perfeitas! Obrigada também ao Yeriverso que sempre me atura e a vocês bebês que esperaram por um ano (talvez) por esse retorno.
Prometo que dessa vez vamo que vamo!
Boa Leitura!

Capítulo 16 - Sorte do dia: Mudança


Fanfic / Fanfiction Sorte em forma de Azar - Capítulo 16 - Sorte do dia: Mudança

Sorte em forma de Azar | Capítulo 16

Sorte do dia: Mudança

 

Não tinha como piorar. O silêncio ali era absoluto, mesmo com a sala lotada. O grêmio todo parecia ter se reunido de última hora para aquele evento especial, e mesmo depois de vasculhar com os olhos cada cantinho do lugar, Chanyeol não conseguiu encontrar o presidente ali.

 

A vice-presidente continuava de braços cruzados, olhando para cada um dos três, esperando que alguém começasse a se explicar. Era como estar num campo minado de olhos vendados, ninguém ali nunca tinha presenciado uma cena onde Miyoung estivesse em total controle. Geralmente era Baekhyun quem saía por aí dando sermões em quem merecia, mas naquela manhã ele não havia aparecido no grêmio.

E, Chanyeol pensou, talvez fosse por isso que a galera parecia meio tensa.

— Certo, quem que vai começar contando o que aconteceu? — Miyoung perguntou, a voz era calma, a mesma que usava para dar os avisos nos alto falantes da escola, mas nada mais era do que uma armadilha. — Ninguém vai falar? Oh Sehun?

— Não me pergunta nada não, ô! Eu levei um murro aqui! — O menino resmungou, havia ganho uma bolsinha de gelo pra colocar no rosto, e mesmo assim estava puto da vida.

— Levou um murro porque mereceu, cara de casaco! — Yifan retrucou, mesmo com o tom de voz baixinho. — E vai levar outro se não parar de bancar o inocente!

JÁ CHEGA! Alguém pode me explicar o que significa essa baixaria? — Miyoung perguntou novamente, mas os dois meninos não pareciam ter entendido a gravidade da situação.

— Baixaria é esse mané fazer cena e ninguém dizer nada! — Yifan resmungou e Sehun largou a bolsinha de gelo.

— Tu quer apanhar? Larga de ser otário!

— Vem pra ver se tu aguenta, safado!

— Porra! Parem de brigar e me falem quando essa merda de aposta começou! — Chanyeol achou importante se meter na briga antes que alguém acabasse levando outro murro.

Mas nem Sehun nem Yifan pareciam querer calar a boca.

— Não interessa, meu chapa. — Sehun falou por cima. — Eu ganhei e ele perdeu, fim! 

— Perdi uma ova, filhote de calango, eu te disse que ganhei!

— E por que não contam como empate? — Yixing se meteu, mesmo sabendo que, pela cara de Miyoung, não tinha chance daquela discussão acabar bem.

— Empate é o cacete, Xing! Eu ganhei porque o especificado foi o convite! — Sehun parecia ter esquecido a dor no olho, o mais importante era deixar claro que havia ganho a tal aposta que ninguém ali sabia do que se tratava. Nem mesmo Chanyeol.

— Mas não valeu, meu camarada!

— Vocês acham que eu tô de brincadeira aqui, né? — Miyoung começou baixinho, mas a batida na mesa foi o suficiente para que todo mundo ali prestasse atenção. — Escutem só, vocês só estão aqui porque a diretoria tá interditada. Acha que eu quero manter vocês aqui no bem bom? Acham que ninguém aqui tem coisa melhor pra fazer do que aturar três Zé Manés discutindo por uma aposta sem sentido?

— A aposta tem sentido sim. — Sehun disse, teimoso que só. 

Miyoung respirou fundo e sorriu.

— Cala a boca.

E mesmo que o menino estivesse pronto para retrucar, a atenção de todos foi em direção da porta que se abriu de repente, e todo o grêmio prendeu a respiração como se o próprio bicho-papão estivesse parado ali.

— O que tá acontecendo? — Era Baekhyun. As sobrancelhas franzidas pela confusão e os olhos rodando cada rosto presente na salinha, até chegarem em Chanyeol, que sentiu a face ficando quente na mesma hora. 

E, como se caísse em si, Baekhyun deixou sua expressão suavizar, como se toda aquela confusão não lhe dissesse respeito.

— Pegamos esses três se comendo na porrada! — Alguém comentou na multidão.

— Eles estavam brigando. — Miyoung completou, respirando fundo, tentando se recuperar.

— Hm… — murmurou, piscando um tantinho, pensando o que faria se aquele fosse um dia normal. Provavelmente teria uma síncope. Mas, como não era um dia normal, apenas suspirou baixinho e passou os olhos novamente pelos três arruaceiros, torcendo para que ninguém percebesse sua hesitação. — Deviam estar na diretoria.

— Sim, deviam. Mas… tá interditado, lembra? — Comentou, baixinho como se ninguém mais pudesse saber.

— Ah… o banheiro de lá meio que…

— Pois é… Fui hoje cedo e ainda tava do mesmo jeito. Mas não precisa se preocupar, eu tô passando as advertências e já é certo que eles vão passar uma semana de detenção.

UMA SEMANA? — Sehun arregalou os olhos (tentou, na verdade, já que quase não conseguia abrir o olho) e imediatamente se virou para Baekhyun em desespero. — Ô presidente, você não vai deixar uma coisa dessas acontecer, né?

E no silêncio que se seguiu, todo mundo grudou os olhos em Baekhyun, que foi andando até o fim da salinha, atrás da mesa onde Miyoung estava, sem parecer se importar muito com a súplica.

Na verdade, ele se importava. Mas precisava fingir, ou pelo menos tentar, não se importar.

— Foi mal, hoje eu só tô aqui como ouvinte.

— Uma semana — a vice recomeçou — já que eu não sei o motivo da briga e ninguém aqui parece querer me contar. 

Chanyeol, que tentava com muito custo manter a cabeça no lugar, pareceu perder tudo quando — no meio de mais discussão — viu, de relance, Baekhyun puxar de uma das gavetas a caneta de sol que ele havia perdido. A caneta que ele havia guardado por tanto tempo sem nem saber que o verdadeiro dono era Byun Baekhyun.

— Tudo bem, tudo bem. A gente fala! — Sehun respirou fundo, colocando o saquinho de volta no rosto mesmo que nem adiantasse mais, já que o gelo parecia ter derretido. — A gente brigou porque…

— Não fala, idiota! É um lance pessoal! — Yifan acabou interrompendo.

— Fiquem sabendo que ninguém na direção vai cair nessa ladainha.

— Tá, eu dei um murro no Sehun porque ele foi um imbecil falando o que não é pra falar! 

— E eu revidei porque tu é um otário que não sabe perder!

— E eu revidei de novo porque tu é um burro que não percebe que não interessa se o Chanyeol convidou o Jongin pro baile, bro. Tá na cara que ele tá louquinho de paixão pelo presidente e só não vê quem não quer!

E mais uma vez, mesmo que houvesse um burburinho, todo o grêmio se calou, tentando prestar o máximo de atenção que podiam, esperando um verdadeiro barraco. Até mesmo Miyoung arregalou os olhos, ficando quietinha sem saber o que fazer.

Chanyeol já nem estava em seu juízo perfeito, os olhos já não focavam em mais nada, levou até um tempinho para que ele percebesse que o olhar de todos pulavam dele para o presidente. 

E o presidente também havia percebido. Por mais que não quisesse olhar ou prestar atenção. Ele não podia. Tinha que focar em si mesmo, ser descontraído, se acalmar. Mesmo que toda aquela discussão mexesse com ele a ponto de apertar firmemente a caneta nos dedos. Era bobagem. Não fazia sentido. Por isso ele só deu uma olhadela na direção de Chanyeol, que estava olhando de volta. E o susto foi tão grande que os dois precisaram desviar o olhar quase que imediatamente.

Miyoung não fazia ideia da loucura que se passava na cabeça dos dois, mas a menina não era boba. Qualquer um naquela salinha poderia ter ficado ciente do que estava acontecendo, e ela mais do que ninguém se sentiu na obrigação de fazer a confusão se dissipar. Por isso, ainda de braços cruzados ela pigarreou, suspirando em seguida como se fosse a coisa mais difícil do mundo.

— Nada disso é motivo para causar confusão nos corredores, bando de besta. Detenção depois da aula pros três, começando hoje. — Ela disse, pegando o bloquinho de notas de advertência.

— Eu bem que avisei que vocês iam se lascar! — Chanyeol murmurou, tentando parecer calmo. Ele com certeza precisaria passar no banheiro para molhar o rosto depois de tudo aquilo. Isso, até que a vice-presidente lhe entregou uma nota de advertência, o que lhe pareceu injusto. — Pra mim… pra mim também?

— Sim, você estava no meio deles.

— Eu fui vítima!

— Já falei que não adianta fingir.

— Eu estava tentando separar a briga!

— É verdade, Miyoung. — Yixing acabou se metendo novamente, e a menina suspirou antes mesmo que ele terminasse. — Ele estava tentando separar e acabou caindo no meio.

— Tá, mas… — e então a menina parou, tentou rever tudo o que já havia dito e não era uma opção voltar atrás no que havia dito. Aquela era a sua primeira vez tomando as rédeas de uma situação como aquela sem Baekhyun, e ela sabia que não conseguia medir muito bem a gravidades das punições, por isso olhou de cantinho para o presidente, que apontava um lápis despreocupadamente, murmurando uma musiquinha aleatória.

— Por que não deixa a detenção só por hoje? — Ele acabou falando, fazendo com que todo mundo voltasse sua atenção para si. E mesmo que Miyoung soubesse que ele estava tentando, ainda não parecia a melhor coisa a ser feita.

— Baekhyun…

— Dois dias, então? Eu não vi a confusão, mas se o Yixing falou que ele não estava na briga, então não faz sentido dar a mesma punição…

— O presidente tá muito na sua, Chanyeol. — Sehun sussurrou no meio da conversa.

— Ou pode ser a semana toda, se você quiser. — Baekhyun continuou. — Como eu disse, hoje eu só tô aqui como ouvinte.

— Valeu, Sehun. — Chanyeol sussurrou de volta, revirando os olhos.

— De nada, meu brother. Juntos sempre.

— Tá, que seja. — Miyoung começou mais uma vez, decidida. — Dois dias de detenção depois da aula pra você, Park Chanyeol. Já vocês dois, se preparem pra ficar a semana inteira. Podem ir.

Sehun foi o primeiro a se levantar, meio puto, meio tonto, no meio da confusão toda parecia ter esquecido da dor no rosto, que voltou com tudo e sem dó. Yifan levantou em seguida, com o olhar meio pesado e preocupado na direção do amigo, sabia que tinha que pedir desculpas, mas ele ainda lembrava das palavras atrevidas envolvendo Do Kyungsoo. Seria difícil pôr tudo de lado.

E mesmo assim ele sabia que não era motivo suficiente para que ele avançasse no amigo naquela forma completamente desonesta. Por mais que Sehun fosse cheio de pompa, todo mundo era ciente de que o menino não era bom de briga.

E o ego inflado de Yifan o fazia acreditar que ele, sim, era o maioral. Por isso acabou ficando ainda mais triste no processo de voltar até a sala de aula.

A sala do grêmio se esvaziava mais e mais, mas Chanyeol continuou no mesmo canto tentando decidir se já podia falar com Baekhyun ou não, mesmo que pra só puxar um oi meio sem jeito — sabia que era uma péssima ideia, mas talvez não custasse tanto dar aquela arriscada.

Não é como se ele fosse se humilhar e chorar aos pés do presidente, ele só queria agradecer. Agradecer pelo fato de ele ter diminuído sua sentença — e talvez puxar assunto sobre a caneta de sol e perguntar onde ele tinha encontrado.

E por isso mesmo — e talvez alguns motivos a mais — ele se levantou no meio da galera e ficou quietinho do lado de fora da sala, bem coladinho perto da porta esperando um momento propício.

— Ei, não vai pra aula? — Tomou um baita susto quando sentiu uma mão pesando em seu ombro. Era Yixing.

— Vou! É… preciso falar com o presidente… coisas profissionais. — Murmurou sem segurança nenhuma, e Yixing meio que já tinha entendido tudo mesmo antes de ele falar aos gaguejos.

— Essa foi de arregaçar as mangas da mangueira! — Acabou ouvindo Miyoung dizer, quis espiar um pouquinho, mas se segurou. O clima na salinha do grêmio pareceu ter mudado um pouquinho, todo mundo parecia meio profissional demais, enquanto Baekhyun tentava ao máximo parecer de boa.

— Eu achei bem profissional. — Lu Han, o primeiro secretário, comentou. No fundo ele só queria mesmo era agradar a vice-presidente, que era meio que sua melhor amiga.

— Obrigada, mas eu achei que fui rígida demais. — E então se voltou ao presidente, que parecia alheio à situação. — Eu fui rígida demais? 

— Mas se bem que eles mereceram! — Outra voz falou no meio da galera, era Wendy, uma das responsáveis pela direção cultural no grêmio, bem pequena, com os óculos na ponta do nariz e o cabelo platinado preso em duas fivelas azuis. — Ficaram embolados no chão por uns três minutos fazendo arruaça.

— Acham que a semana de detenção não foi justo? — Perguntou, ainda meio tensa. E a maioria ali negou.

— Detenção não é tão ruim. — Wendy comentou.

— Tirando a parte que fica no histórico escolar… 

— Não fica. — Baekhyun acabou falando, ainda alheio na conversinha de todos. — O que fica são as suspensões e eu tenho certeza que se eles parassem na coordenação os três seriam suspensos. Você fez um ótimo trabalho, Miyoung.

E por uns momentinhos, o menino olhou com ternura para sua vice, o que foi suficiente para que o restante do grêmio (ou pelo menos o restante que ficou na salinha) achasse aquilo muito estranho.

— Não sei o que você tomou hoje — Lu Han começou — mas que bom que tomou.

— Como assim? — Perguntou, mesmo que já soubesse que aquele comportamento seria suspeito, ainda mais em plena segunda-feira pós baile. Era de se esperar que tivesse uma montanha de perguntas sobre ele.

— Aquilo que você falou… de estar no grêmio hoje só como ouvinte. — Wendy completou, meio curiosa, meio perdida.

— Meio que a gente entrou num acordo. — Miyoung tomou a frente, não deixando nem Baekhyun abrir a boca direito. — Trabalhar demais causa estresse, estresse causa várias complicações na saúde e a gente sabe bem que não é legal ficar doente… então eu acabei arrumando um jeito de fazer com que nosso presidente parasse de ser egoísta e nos desse um pouquinho de trabalho, já que somos uma equipe.

— E como é que você fez isso? — A loira perguntou com os olhos arregalados.

— Não foi fácil. Mas já dá pra perceber o quanto ele parece melhor. — Miyoung continuou a pontuar, sem papas na língua. — Mais corado, mais saudável, mais bonito…

E quase que imediatamente Baekhyun abriu um sorrisinho envergonhado, bufando como se aquilo fosse um completo absurdo. Talvez ele não se achasse tão terrível assim, mas ao ver as expressões surpresas de Wendy e Lu Han percebeu que talvez ele não desse muitas risadas dentro daquela salinha.

— Você sabe sorrir? — Wendy perguntou, claramente exagerando, porém era um exagero totalmente válido naquele momento.

— Wendy, o presidente tá vermelho! — Lu Han murmurou.

— Eu sempre achei que você fosse banguela e por isso não sorria com frequência.

— Não tá na hora de ir pra aula, não? — Cortou, ainda com o sorrisinho estampado, tentando parar a tempo de suas bochechas não ficarem dormentes. Mas só quando os dois saíram ele conseguiu parar, mesmo assim sentindo um  calorzinho no peito que não era tão frequente assim.

— Você não vem? — Ouviu Miyoung perguntar, já pertinho da porta.

— Só preciso assinar uns papéis e já vou. — Disse, sendo recebido imediatamente por uma careta. — São só assinaturas, juro!

— Tranquilo, então. — Respondeu, dando uma última olhadela no presidente. Sempre achou Baekhyun meio recluso demais, mesmo quando teve que montar uma chapa para concorrer ao grêmio. Achava que talvez sua personalidade aberta combinasse com a dele e por isso faziam uma boa dupla. Miyoung o considerava quase que um amigo, mas Baekhyun sempre tentou manter as relações ali o mais profissional possível, sem exceções. Talvez se ele conseguisse abrir um pouquinho as portas, todo mundo no grêmio poderia ter uma relação além do trabalho.

Ela sorriu, pensando que talvez todos pudessem comemorar o sucesso do baile com uma festinha apenas com os membros do grêmio, sabia que seria arriscado falar com Baekhyun sobre isso, mas logo que falou com ele naquela manhã sentiu que havia algo diferente. Parecia mais leve, mais amigável. Uma mudança bem pequena, mas que parecia brusca se você o conhecesse um pouquinho mais. E logo que ele pediu que alguém fizesse o relatório final do baile — já que não pôde comparecer — ela teve certezas das mudanças.

O presidente, em seu estado normal, provavelmente faria o relatório por si só, focando mais na parte teórica do que no baile em si, e por isso ela hesitou em sair da salinha do grêmio, mas assim que saiu quase soltou um grito por dar de cara com um intruso.

— Park Chanyeol! — Ela falou, quando o menino deu dois passos para trás com o esbarrão, que fez com que ela quase caísse. — Tá fazendo o quê? Quer pegar mais dias de detenção?

— Não! Não, eu só… eu bati a cabeça. Ai. — Teve que fingir, mas a vice não pareceu ter comprado aquela conversinha fiada. — Acho que preciso ir na enfermaria. Ai.

— A enfermaria é no final do corredor, do outro lado do pátio. — Ela cruzou os braços, na mesma pose mandona que tinha quando se sentia minimamente insegura. E dar ordens sempre parecia ativar sua insegurança.

— Na verdade… eu preciso falar com o presidente. — Mordeu o lábio, dizendo finalmente a verdade. Chanyeol não sabia realmente o que diria a Baekhyun. Podia ser qualquer coisa, um bom dia, algo sobre a caneta, sobre o baile, sobre a noite em que ele lhe deu um fora. Sobre a noite em que ele chorou abraçando a irmã mais velha do menino que ele descobriu gostar.

O menino que ele gosta. Eram novas palavras que faziam seu coração bater mais rápido, sem mais aquela conversa de amor de sua vida — que estranhamente não tinha mais o rosto de Kim Jongin quando o via em sua mente — mas quando pensava, sem esforço nenhum no menino que ele gosta sim. Tinha um rosto sorridente de Baekhyun.

Miyoung até lembrava da noite do baile quando Chanyeol chegou afobado pedindo o endereço de Baekhyun, lembrava o quanto ele parecia desesperado e o quanto aquilo parecia estranho demais para uma simples coincidência. Baekhyun apareceu de bom humor naquela manhã, e logo após o menino Park ter ido em sua casa na noite do baile. Foi aí que ela ligou os pontos — o que não foi tão difícil assim de se fazer — mas, como não tinha como saber a verdade, acabou imaginando um final feliz para a bendita noite que, para os dois meninos, poderia ser resumida em uma palavra em comum. Escuro.

— Tá. Entra aí. — Falou finalmente, com um sorrisinho pequeno brotando só pra não deixar que o menino se aproveitasse da situação. Sempre via Baekhyun correndo de um lado para o outro, e sabia que aquela seria a oportunidade perfeita para fazê-lo descansar. 

Antes mesmo que Chanyeol passasse pela porta, Baekhyun meio que já estava esperando. Não é como se ele não estivesse ouvindo tudo — o que nem foi culpa dele, a porta estava entreaberta e a escola estava silenciosa demais.

Uma parte da si até esperava que Miyoung não o deixasse entrar, não queria ter que lidar com todo o tremelique do seu coração por causa de Chanyeol. Não queria ter que sentir toda aquela mistura de coisas novamente, não queria sentir tudo sem poder deitar em sua cama ou abraçar sua irmã mais velha. Não queria ter que olhar na cara de Chanyeol e lembrar de todas as coisas ruins que acabou dizendo por impulso. Queria esquecer tudo e focar em si mesmo, e no grêmio talvez. E, especialmente naquele dia, ele precisava apenas tentar relaxar.

Se Chanyeol realmente aparecesse, ele não conseguiria. Seria impossível, já que seu coração faria barulho demais e seu peito doeria demais, fazendo sua cabeça trabalhar demais. O mais seguro seria ficar bem longe de Chanyeol, e assim ele ficaria longe de problemas.

Mas o maior problema estava naquela vontade absurda de vê-lo. De conversar com calma e — lembrando das exatas palavras de Boyoung — se deixar transbordar. Queria ao menos conseguir pedir desculpas pelo que disse e, talvez, continuar vendo o menino todos os dias. Talvez. 

E foi por isso que o Byun quase explodiu em sentimentos divididos quando Chanyeol finalmente entrou na sala do grêmio. Metade dele queria agir normalmente, a outra metade queria ser legal, meio que para se desculpar. Mas ele percebeu que nenhum dos lados sabia o que dizer. Ou o que fazer.

E pra deixar as coisas ainda piores — ou melhores — Chanyeol também não fazia ideia nem do que fazer com as mãos.

— Hm… não tem aula agora? — O Park acabou sendo o primeiro a falar, percebeu que não conseguiria dizer oi, pelo menos não depois daquele tchau doloroso que acabou fazendo com que ele terminasse sua noite manchando a camiseta de Byun Boyoung. Passando o maior vexame.

— Hm… tenho. Mas… eu precisei assinar uns papéis aqui, coisa pouca. Quero assinar logo pra não ter que ficar depois da aula, ordens da minha irmã — respondeu, percebendo que talvez tivesse falado demais. E, mesmo assim, não deixou de notar que a frieza em seu tom de voz parecia impregnada, mesmo sem intenção. — O que tá fazendo aqui?

Chanyeol retesou um pouquinho. Mesmo tendo passado apenas um final de semana, sentiu saudades da voz de Baekhyun. E quando percebeu isso se sentiu um completo mané.

— Ah, sei lá. Você disse "te vejo segunda-feira" e, bem… eu duvido que passaria pra me dar oi, então… oi. 

Parou. Ele bem queria falar que queria ver Baekhyun porque estava com saudade. Mas era um sentimento tão abstrato entre dor, chateação e saudade que ele não sabia se ainda tinha o mesmo significado de saudade. Chanyeol queria que Baekhyun o deixasse explicar um pouco, queria dizer que Boyoung o ajudou a prestar atenção no que era realmente importante. Que ele deveria se desprender das visões e ele estava realmente tentando fazer isso — mesmo que nenhuma outra visão tenha aparecido durante aquele intervalo de dois dias, o que talvez fosse um sinal de que tudo estava dando certo.

Mas tudo parecia forçado. E por mais que estivesse, Chanyeol não queria parecer desesperado. Também não queria pôr Baekhyun contra a parede. Ele queria que tudo fosse espontâneo, se tivesse que se afastar das visões, ele teria que deixar tudo acontecer naturalmente. E o problema disso é que ele nunca saberia o que iria acontecer se fosse naturalmente.

— Ah… oi. Eu não tive chance de dizer oi porque, aparentemente, você tava ocupado "separando" uma briga. — Comentou, se sentindo meio esquisito. Acabou que mordeu os lábios, sabia que Chanyeol talvez quisesse falar do que aconteceu naquela fatídica noite e mesmo que fosse terreno proibido ele talvez pudesse dar um passo adiante na direção certa, em vez de apenas correr na direção errada como esteve fazendo por um bom tempo. Tal como Boyoung disse, ele tinha que aprender a transbordar. — Hm… sobre sexta-feira… 

— Hm?

— Me desculpa… e tal.

Chanyeol não esperava por aquilo. Talvez fosse uma das coisas que ele menos esperava que acontecesse. Percebeu que Baekhyun estava sim um tantinho diferente. Mas não sabia que seria tanto a ponto de ouvir um pedido de desculpas alto e claro. E melhor, sincero. Não irônico.

Pfff. Pelo quê? — Ele perguntou, mas antes que Baekhyun pudesse dizer alguma coisa, o sorriso maroto brotou quase que involuntariamente e ele precisou pontuar tudo o que havia acontecido. — Por ter me feito de trouxa, pelo chinelo que quase me pegou na cara ou por me deixar sozinho do lado de fora no escuro?

Baekhyun parou e precisou olhar bem nos olhos do menino Park — o que foi um tantinho difícil, ele tinha que admitir — mas logo percebeu que o garoto estava rindo dele na maior cara de pau! Por um momento quis muito mandá-lo catar coquinho, mas tentou relaxar um pouquinho, contar até dez e só seguir a onda.

— É… claramente você já superou, eu retiro minhas desculpas. 

— Não pode fazer isso.

— Posso sim. Já fiz. Retirei as desculpas. — Cruzou os braços, deixando os papéis de lado só pra entrar na teimosia.

— Pois eu pego de volta!

— Não dá pra fazer isso.

— Claro que dá.

— Olha, por que não vai logo pra aula? Eu… tô ocupado.

— Velhos hábitos nunca mudam, hein, presidente.

— O que quer dizer? — Baekhyun perguntou, engolindo em seco. Havia feito de tudo naquele dia para parecer mais relaxado, tinha até mesmo trocado o suéter de sempre por uma camisa branca comum e despojada, o cabelo continuava bagunçado como sempre e talvez ele ainda estivesse com olheiras aparentes devido à falta de sono no fim de semana, mas ele também tinha mudado o piercing de sempre por um novo e mais cool! Por isso não soube o que exatamente Chanyeol queria dizer.

E o menino, como se lesse sua mente, só arqueou uma sobrancelha.

— Você me expulsando dos lugares. Pode parecer que não, mas eu fico chateado às vezes.

Baekhyun já tinha certeza de que Chanyeol queria lhe tirar toda a paciência restante, talvez tivesse feito alguma aposta em que conseguiria fazer o presidente correr pela escola vermelho feito tomate gritando pelas paredes. E talvez, só talvez ele pudesse retribuir aquilo tudo com piadinhas sem nexo, mas o que Baekhyun precisava mesmo era de foco. Talvez se ele se concentrasse, Chanyeol poderia desistir daquele joguinho.

— Tudo bem, não precisa sair. Pode ficar, eu não ligo. — Falou, voltando a atenção aos papéis em cima da mesinha, fazendo o que Chanyeol descreveria como rabiscos, mas que Baekhyun descreveria como descanso. Tinha ficado surpreso quando Miyoung propôs que ele ficasse como ouvinte naquele dia, ficou ainda mais surpreso quando viu que o grêmio todo estava disposto a ajudá-lo no fim de semana, e foi só aí que caiu a ficha. Todo mundo ali sempre quis realizar o trabalho pelo qual foi designado, mas Baekhyun se sentia tão responsável por tudo que acabou os deixando de fora. E pela primeira vez desde que havia sido eleito, o menino conseguiu trabalhar um pouquinho menos durante o tempinho de folga que tinha fora da escola.

Ele sabia que era apenas segunda-feira e que tudo poderia voltar à bagunça de antes, mas era uma boa forma de respirar fundo e… transbordar?

Chanyeol permaneceu de olho, Baekhyun assinava os papéis com a canetinha de sol e às vezes puxava a manga da camisa para cima, amassando de um jeito até que bem sexy até os cotovelos, vez ou outra ajeitava o óculos que sempre escorregava de volta para a pontinha do nariz, e todo aquele combo de movimentos simples parecia uma dança hipnotizante. E ai de Chanyeol se desgrudasse um olho daquela cena.

E o presidente só foi perceber quando já estava organizando cada folha A4 por ordem de importância. 

— Que foi?

Chanyeol arregalou os olhos ao ser pego no pulo.

— Hm? Ah… a caneta aí.

— Ah! Sim… você esqueceu lá em casa… no chão. Minha irmã achou e me entregou, pensei que não teria problema… — Baekhyun quase largou a caneta pelo susto, sentiu o rosto inteiro esquentar de repente e, meio que por impulso, se deixou sair da cadeira, desaparecendo do outro lado da mesinha, fingindo procurar alguma coisa desesperadamente em uma das gavetas cheias de tralhas.

— Você tá bem?! — Chanyeol perguntou, sem realmente sair do lugar. Sentiu até um sorrisinho brotando (e ele tinha certeza — poderia jurar! — que era um sorrisinho e não uma risada contida) e só esperou que o presidente ressurgisse por trás da mesa com o cabelo ainda mais bagunçado, mas com o rosto no tom de sempre. Sem qualquer vermelhidão suspeita.

— Tô. Você… hm.. vai querer a caneta de volta?

Parecia uma pergunta. E era. Mas soava mais como uma afirmação. Chanyeol sentiu que além de se prender em suas visões, que geralmente nem faziam tanto sentido, também havia se prendido naquela maldita canetinha que ele nem sabia de onde havia surgido. Quanto mais pensava naquilo, mais parecia coisa de criança — e ele não tinha nem dúvida de que era coisa de pré-adolescente emocionado com as aventuras de início da adolescência — talvez estivesse muito empolgado com o primeiro amor, que acabou nem sendo tão amor assim, havia se empolgado demais com coisas que ele nem deveria se importar tanto. E deixou passar em branco coisas pelas quais ele deveria ter mostrado empolgação. 

— Nah. A caneta é sua. — Respondeu, com um sorrisinho que poderia não querer dizer nada, mas até Baekhyun entendeu que cabia um universo inteiro de palavras presas ali.

— Tem certeza? Tu ficou tanto tempo com ela que eu achei…

— Eu só fiquei surpreso, não sabia que ainda dava pra escrever com ela.

— É uma caneta, Chanyeol.

— Eu sei! Mas… é que eu deixei ela guardada na minha gaveta, acho que nunca cheguei a usar…

— Hm… — Baekhyun apertou a canetinha nas mãos, não era importante para ele, pelo menos não da forma que deveria ser importante para Chanyeol. Aquela era uma caneta comum, uma caneta que ele havia perdido há muito tempo. Era só isso. Uma caneta. Uma caneta da sorte. Mas o Park não precisava saber disso. — Pega.

— Não, presidente, a caneta é sua.

— E eu tô te dando, pega.

— Não quero. — E dessa vez Chanyeol cruzou os braços.

— É um presente, Chanyeol. — O rosto voltou a esquentar, ele teve que parar um pouquinho para voltar a respirar novamente.

— Vai me dar de presente uma caneta usada? Que vergonha, presidente.

E Baekhyun realmente conseguiu se imaginar correndo pela escola e berrando ao vento, o rosto esquentou como óleo fervente pronto para explodir e tudo era culpa do palhaço de pernas de saracura que estava em sua frente.

— Tá, esquece. Esquece a caneta, esquece. — Se sentou mais uma vez, respirando fundo para não cometer nenhum ato vergonhoso que pudesse fazer com que Chanyeol ficasse pelo menos um por cento mais insuportável do que já era.

O menino Park, teimoso do jeito que era e sem um pingo de amor pela vida, manteve o sorrisinho no rosto, manteve a expressão travessa e manteve tudo aquilo sentindo o coração palpitar em desespero. Talvez fosse só Baekhyun sendo ele mesmo, talvez fosse a ideia de ganhar um presente de Baekhyun — que o fez lembrar que seu aniversário já era no dia seguinte, e mesmo querendo, ele decidiu que não poderia compartilhar uma notícia dessas com o presidente num momento crítico como aquele, de jeito nenhum! — ou talvez, só mais um, fosse a vaga lembrança de Baekhyun lhe dizendo com todas as palavras: porque eu gosto de você, Chanyeol.

E, por consequência, também se lembrava das palavras seguintes: Mas você não gosta de mim. Você gosta da ideia de saber que está no controle das suas visões…

Talvez não conseguisse ler o presidente muito bem, talvez não conseguisse saber que palavra se escondia atrás de cada careta ou de cada expressão concentrada, mas ele sabia que o presidente estava sendo sincero.

E ele entendia, entendia porque, por mais que tivesse certeza de que era por ele que seu coração batia mais forte, era difícil confirmar. 

— Você gosta mesmo de mim, Baekhyun?

— Minha irmã disse que você chorou.

Os dois acabaram dizendo. E disseram ao mesmo tempo. Chanyeol conseguiu ouvir o que Baekhyun disse, o que o fez pensar que Baekhyun também teria ouvido. E em segundos a salinha do grêmio acabou virando um quartinho do silêncio. Os dois meninos de rostos vermelhos se encaravam sem conseguir dizer uma palavra em resposta, era uma completa baixaria. Chanyeol com certeza preferia estar no meio de outra briga entre Yifan e Sehun do que passando por um vexame daqueles.

— Eu acabei. Acho que é melhor a gente ir pra aula agora. — Baekhyun falou, depois de um tempinho, já guardando os papéis na pastinha transparente e carregando consigo debaixo do braço. Chanyeol nem soube concordar com palavras, só se virou rapidinho e foi na frente, com passadas longas, tentando esquecer a cena que imaginou durante todo o fim de semana: Baekhyun e Boyoung — e muito provavelmente aquela outra irmã, Sooyoung — rindo da cara dele por ter chorado como um bebê de fralda suja.

O menino não sabia, mas na verdade, Byun Boyoung mal havia dado muitos detalhes sobre aquilo, e era exatamente por isso que Baekhyun estava curioso, mas não tanto a ponto de conseguir continuar uma conversa depois daquela pergunta surpresa. O que diabos Chanyeol tinha na cabeça?

Os dois saíram da salinha, Baekhyun trancou a fechadura e seguiram cada um para sua sala de aula — ambos com o coração batendo em disparada — tentando ao máximo se concentrarem na aula. Mas os dois sabiam que, estando naquele estado de euforia e desespero, era uma missão totalmente impossível.

 

As horas se arrastaram durante o dia inteiro. Chanyeol o tempo todo virava os olhos para o relógio e mesmo quando a aula chegou ao fim ele não conseguiu parar de acompanhar o movimento dos ponteiros que pareciam estar se movendo cada vez mais devagar. Foi com muito custo que o menino conseguiu passar inteiro pelo terceiro tempo, e parecia tortura pensar que ainda teria detenção naquela tarde, e a detenção era aquele lugar perverso onde ninguém podia conversar, dormir ou comer. Ele nem podia ler alguma revista em quadrinho aleatória para passar o tempo. No máximo, no seu maior nível de desespero, poderia rabiscar no caderno. Fingir escrever uma história estranha sobre dragões e cavaleiros sem espada, talvez alguma coisa ou outra envolvendo bolo com cobertura de sorvete. Mas não importava o quanto tentasse, nada ali parecia fazer sua cabeça descansar.

Meio que ele sentia. Sentia uma coisinha estranha que talvez já devesse ter ciência do que era, mas não sabia explicar muito bem. A sensação tinha nome, mas se ele pudesse dar uma cor, seria verde cinzento. Um verde que ele quase conseguia enxergar por trás de um nevoeiro e, por trás de todo o fosco, estaria uma visão que o tiraria de órbita.

Era como um ciclo vicioso, ele sabia que não poderia se prender a elas — e estava tentando não pensar nisso, já que talvez aquilo pudesse atrair uma visão — mas algo lhe dizia que ele não conseguiria fazer isso nem se tentasse ao máximo. 

Psst! — Ouviu depois que deixou a cabeça cair pro lado pela quinquagésima vez. — Mermão, se a profe te ver dormindo ela joga o livro em nós três, eu tô te avisando...

Era Sehun. Parecia que já tinha ficado tantas vezes depois da aula que já nem ligava mais, mas a verdade era que o menino lidava muito bem em lugares preguiçosos como aquele. Ele não se importava em ficar uma hora parado olhando para a parede, parecia até divertido.

Yifan, por outro lado, estava a ponto de perder a cabeça, assim como Chanyeol.

— Se tu não calar a boca eu que vou tacar um livro em ti. — O Wu sussurrou de volta, tentando não fazer contato visual com nenhum dos dois amigos. Aquela sala mais parecia um campo minado.

— Cala a boca aí, vocês dois. — Chanyeol falou entredentes. Não podia se deixar ser pego, mas também não podia deixar os amigos criarem uma confusão ainda maior.

— Cala-boca já morreu… — Sehun murmurou, no mesmo tom de brincadeira que faria em um dia comum, sem pressão e sem o medo que sua punição pudesse piorar. E bastou um olhar da professora responsável por eles para que o menino deixasse o sorrisinho maroto sumir imediatamente.

Chanyeol não sabia se conseguiria continuar naquela situação por mais tempo, e por isso parou de fincar os olhos no relógio para dar uma olhadinha ao redor da sala de aula. Viu as paredes, a saída de ar pertinho do teto, as janelas que davam para o lado de fora da escola, meio que entreabertas deixando um ventinho correr pelo lugar, o quadro branco que fazia contraste com as regras rígidas da detenção que estavam muito bem escritas com pincel preto com tinta recém posta — que provavelmente deixariam marca na lousa depois — e as janelas que davam para o corredor, por onde ele conseguiu ver Yixing passando rapidinho, com um sorrisinho meio sem graça.

E com um suspiro, Chanyeol voltou a fincar os olhos no relógio, esperando que o tempo resolvesse passar.

 

Yixing havia passado ali por pura pena. No grupinho, ele era o único que nunca havia ficado de detenção e só não podia falar que nunca havia ganhado uma nota de advertência porque uma vez foi pego dormindo debaixo da bancada do laboratório de ciências, e isso havia lhe rendido o maior medo que um calouro do ensino médio poderia ter. Pelo menos um calouro como Zhang Yixing.

E meio que com o olhar pesado, ele seguiu o caminho pelo corredor até a salinha do grêmio que, para sua surpresa, estava vazia.

Geralmente Baekhyun era sempre o último a ir embora, ficava sempre até mais tarde e esperava até o último aluno sair da detenção — ou de qualquer outra ala do colégio — era como se ele fizesse sempre uma vistoria geral. E Yixing não duvidava nada que ele realmente fizesse, mesmo que nunca tenha sido comprovado. Por isso encontrar a sala vazia naquele horário era um tantinho esquisito.

Logo ele percebeu que havia tirado conclusões cedo demais, e antes mesmo de conseguir guardar os papéis que havia pego na coordenação, ouviu a porta abrir. E nem precisou se virar para ver que era Baekhyun ali.

— Pensei que já tivesse ido. — Falou, casualmente, fechando a gavetinha onde guardara os papéis que Baekhyun teria que assinar antes de repassar para os coordenadores. O presidente parecia um tantinho afobado, a gola da camisa estava bagunçada e os cabelos do garoto estavam piores do que o de costume. Ele parecia ter corrido bastante para chegar até ali.

— Eu fui. — Respondeu, puxando o ar e tentando recuperar o fôlego. — Mas voltei.

Fechou a porta, jogou a mochila de lado e se sentou em uma das almofadinhas. Precisava respirar.

— Por quê? — Yixing achou sensato pegar a garrafinha de água que sempre carregava consigo e estender até o menino. 

Baekhyun virou a garrafa de uma só vez e bebeu até onde seu fôlego aguentou sem engasgar e se molhar todo.

— Obrigado, Yixing. — E mesmo assim engasgou.

— Esqueceu alguma coisa? Eu acabei de chegar, parece que a Miyoung arrumou a mesa antes de ir embora…

— Não… não esqueci. — Ele respondeu, pensando no porquê havia decidido correr de volta para a escola quando já estava na metade do caminho pra casa. Não sabia se tinha intimidade com Yixing para sair por aí falando com ele sobre coisas particulares (e nem sabia se o menino gostaria de receber informações assim, tão de repente) mas o caso é que Baekhyun estava tentando.

Estava tentando fazer o que Boyoung havia sugerido. estava tentando ser mais leve, estava tentando fazer o que Chanyeol havia sugerido. Estava tentando não trabalhar demais. Estava tentando não dar motivos para que os outros se preocupassem, mas era difícil.

Ele nunca havia saído da escola tão cedo como naquele dia, saiu como se estivesse fugindo, suas pernas começaram a tremer, coçar, lembrando de que talvez alguém pudesse querer sua ajuda depois do horário de aula. Lembrou que ainda havia alunos nos clubes. Tinha gente na detenção. Alunos ainda estavam transitando pelos corredores e ele não estava mais lá. E por isso, sem nem perceber, deu meia volta e imediatamente correu para aquela salinha que era quase como sua segunda casa. 

Não esperava encontrar ninguém, mas lá estava Yixing, que até que parecia bem interessado na cara de peixe morto que Baekhyun exibia sem nem perceber.

— Presidente? Você tá bem? — Teve que perguntar, e suspirou aliviado quando finalmente Baekhyun conseguiu piscar.

— Eu tô tentando, Yixing. Tô tentando fazer o que ele falou. — Disse meio enrolado. E só então percebeu que talvez fosse vergonhoso demais. E então, ao pensar um pouquinho mais, percebeu que era, sim, vergonhoso, mas ele saberia lidar com isso. Não era como se não conhecesse Yixing, que além de um ótimo aluno e colega, parecia uma boa pessoa.

— Tentando? 

— Não trabalhar demais.

E Yixing nem conseguiu esconder a expressão surpresa.

— Você ouviu o Lu Han falando? — Baekhyun estranhou, e aquilo imediatamente fez com que Yixing percebesse que tinha falado demais.

— O Lu Han? O que ele disse?

— Nada. — Riu todo nervoso. — Meio que a gente sempre comenta que, sei lá, você devesse dar um tempinho. Tu passa tempo demais aqui. 

— Vocês falam? — O presidente parou. Talvez nunca tivesse parado daquela forma. Mas era verdade que todo mundo (tanto no grêmio quanto fora dele) achava bizarro como Baekhyun sempre deixava as tarefas mais complicadas para si mesmo. Possivelmente por causa da formação nada comum daquela chapa, ou porque ele fosse muito individualista, mesmo que inconsciente. 

— Sim. Nós somos um time, mas parece que você nunca se lembra disso. Pega o trabalho todo pra si e fica com raiva se a gente pede alguma parte dele. A Wendy ainda morre de medo de pedir pra fazer alguma coisa, acho que é por isso que ela mal vem pras reuniões direito. A gente meio que se sente inútil aqui.

Foi aí que Baekhyun percebeu que tentar não trabalhar demais era muito mais do que pensar só nele mesmo. Bastou que ele ligasse os pontos e pensar um pouquinho — mesmo que as verdades estivessem sendo praticamente jogadas na sua cara.

Sempre achou que precisava trabalhar demais porque os membros do grêmio não confiavam nele o suficiente para liderar — porque eles mal se falavam, mesmo no início, quando formaram a chapa — ou que grande parte tinha preguiça e só estava ali pra ter alguma coisa no currículo escolar. Mas, lembrando de todo o tempo que passou como presidente, tomando decisões, assinando papéis, tendo em mãos um bloquinho de notas de advertência e nas costas uma responsabilidade que quase o fazia sufocar, tudo fazia sentido. E ele lembrou também de todas as vezes em que ele foi a pessoa a recusar receber ajuda por não confiar nas pessoas naquela salinha, mesmo que todo mundo fizesse de tudo para ganhar aquela confiança. Yixing foi um deles.

Não tinha percebido antes que parecia se isolar de todos os outros, e então, quando o número de pessoas nas reuniões foi diminuindo ele só achou que era falta de responsabilidade e passou a deixar tudo nas próprias costas. Mesmo que Miyoung sempre estivesse ali com Lu Han e Yixing. Mesmo assim, ele sempre pegava tudo para si por pensar que deveria pegar leve com os que sobraram, só para que eles não fossem embora também.

Mas tudo não passava de uma ilusão que ele mesmo havia criado.

— Então… é por isso?

— É. No começo você parecia não confiar na gente, mas então eu entendi que era nervosismo, tudo bem até aí. Mas quando começou a fazer tudo sozinho a ponto de ficar na escola até às oito da noite…

— Ah, esse boato… — Baekhyun riu.

— E não é verdade?

— É…

— Eu entendo que você queira que o grêmio seja algo profissional, presidente, mas nós estamos na escola. É ensino médio. Você pode contar com a gente como seus amigos também.

Baekhyun quase sentiu o ar fugindo mais uma vez. Como um castigo por ter se deixado respirar. Ou uma recompensa por se deixar descansar pela primeira vez depois de muito tempo. Boyoung estava certa. Sooyoung estava certa. Chanyeol estava certo.

E ele estava errado, por isso o mais prudente a se fazer era continuar tentando.

— Então.. tá dizendo que eu posso ser teu amigo? — Perguntou, parecendo tão surpreso que sentiu o rosto tremer por causa da situação constrangedora que havia se metido.

Mas Yixing apenas sorriu, sem precisar hesitar.

— Claro! É até estranho deixar isso claro só agora.

O presidente soltou um sorrisinho meio apertado, sem lembrar direito a sensação de realmente chamar alguém de amigo. Sem saber realmente como deveria se relacionar com alguém que tinha aquele título: amigo.

Não dava pra dizer que suas únicas amigas naquele momento de sua vida eram suas irmãs mais velhas — as duas talvez até brigassem pelo título de sua melhor amiga, o que parecia vergonhoso demais para dizer em voz alta — mas também não conseguia pensar em nada que pudesse dizer que não soasse estranho e fora de lugar.

— É que fazer amizade é complicado… faz um tempão que eu não faço essas coisas — confessou, meio envergonhado ainda, sabia que Yixing não fazia o tipo que julgava as pessoas (e ele até achou incrível a quantidade de informações que sabia sobre o garoto), mas claro que ainda era estranho falar de si mesmo para alguém que não tivesse seu sobrenome. Era estranho, mas por algum motivo, era bom.

Yixing então fez uma careta confusa, o que acabou confundindo Baekhyun um pouquinho também.

— Hm, mas o Chanyeol fez amizade contigo tão rápido… — falou, lembrando da personalidade insistentemente teimosa e irritante do melhor amigo. — Mas ele deve ter te enchido o saco, eu confesso que não esperava que ele fosse ficar no seu pé por tanto tempo, fiquei impressionado. Ele realmente tava empenhado, e isso não acontece muito.

— Hm… ele não te contou o que aconteceu na noite do baile? — Perguntou, meio hesitante. Provavelmente com medo de que seu mais novo amigo descobrisse aquele seu lado teimoso (mesmo que já se mostrasse teimoso, estar com Chanyeol parecia ativar novas formas de teimosia, era extremamente desesperador e desconfortável). Mas talvez fosse muito cedo para chamar Yixing de amigo, sabendo que ele e Chanyeol eram como unha e carne era capaz que o tesoureiro do grêmio pegasse o presidente no murro ao descobrir que Chanyeol havia chorado horrores na noite que, para ele, devia ser importante.

— Não. Ele até começou a falar sobre, mas então teve aquela confusão com o Yifan e o Sehun e… — Yixing parou um pouco. — O que aconteceu na noite do baile?

— Nada. O de sempre. — Mentiu na cara dura, pensando que aquela era uma péssima forma de se começar uma amizade. — Falei com o Chanyeol, só isso. Ele foi correndo até a minha casa, doido que só. Mas eu não tava me sentindo muito disposto pra sair, por isso resolvi não vir.

— Entendi. Mas já tá se sentindo melhor? — O menino perguntou, e o presidente se sentiu terrível só por ele parecer preocupado.

— Sim. Foi… foi só uma dor de barriga da braba. Tô ótimo agora.

— Então… você bem que poderia sair com a gente amanhã., né? Na verdade, eu tenho quase certeza de que o Sehun vai arranjar uma desculpa pra dar uma festa na sexta, mas amanhã não tem como deixar passar, né? Pelo menos um bolinho com uma vela pequena e tal… e aí?

Baekhyun piscou sem entender nada.

E aí? O que?

— Amanhã, você pode?

— O que tem amanhã? É seu aniversário?

Então Yixing percebeu o que havia de errado ali. A falta de informação. Parou um bocadinho e pensou que já tinha ido muito longe para voltar atrás.

— Ah… ele não te contou, né?

— Contou? Do seu aniversário? — Baekhyun mordeu a língua, mas não foi tão difícil ligar os pontos depois de uns segundos, e mesmo antes que Yixing falasse ele já tinha uma vaga ideia do que poderia ser.

Mas estava esperançoso, queria estar errado. Queria que o aniversário fosse de Yixing e não dele.

— Hm… não é o meu. 

— Então… 

— Amanhã é o aniversário do Chanyeol.


Notas Finais


E vamos de tensão e emoção hein???
Mais um agradecimento rapidinho, sério, tô muito feliz com os comentários e eu juro que vou responder tudinho, eu amo saber que tem gente gostando de SEFA porque eu gosto muitíssimo de escrever e é muito gratificante.
_
Fiquei um ano longe, mas tô no twitter todo dia:
https://twitter.com/woyifane
E no ccat também, qualquer coisa:
https://curiouscat.me/yifane
Enfim, as atualizações virão toda quarta-feira, se hidratem, se higienizem e tudo fica certinho!
Até semana que vem!


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