História Soulmates - Capítulo 12


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Capítulo 12 - A gata de Cherrie


Alexis Geons

Podia jurar que estava enlouquecendo. Quando chegamos no hotel, estava com milhares de pensamentos na cabeça, meus pais, minha antiga casa, o olhar de minha mãe no caixão, meu quarto que não havia mudado nada apesar de tantos anos que haviam se passado. No fim, tudo me levava de volta a ele, o meu passado melancólico que me assombrava mesmo depois de tanto tempo. 

Estava paralisada na entrada do bar que ficava embaixo do hotel, sentada na calçada cansada de ouvir as vozes em minha cabeça me relembrando do meu passado e fazendo questão de afirmar que fiz errado em discutir com meu pai e ter me afastado dele novamente. Eu realmente sentia que iria enlouquecer naquele momento, sentia vontade de gritar com esperança de que as vozes parassem, sentia vontade de me adentrar no nada se ele existisse, esperando que com o silêncio e nada ao redor as vozes parassem.

Parecia que tudo estava desabando dentro de minha mente e eu desabava junto, não conseguia respirar automaticamente como sempre faço normalmente, as vozes me impediam de ter um total controle sobre minha respiração e elas continuavam falando, falando e falando. 

Coloquei minhas duas mãos sobre a cabeça e encolhi o rosto sobre meus joelhos fechando os olhos, esperando as vozes se cansarem de falar e se calarem alguma hora, mas isso não aconteceu. Foi então quando senti algo tocando minha cabeça, era uma mão, e seus dedos adentraram nos fios de meus cabelos, afagando-os gentilmente. Logo ouvi uma voz baixa e suave entre as tantas vozes que me atormentavam, era Mind Jung.

— Alexis? O que foi?

Continuei com a cabeça sobre os joelhos, não queria que Mind visse esse meu lado, meu lado inseguro e estupido que não conseguia lidar com seus próprios pensamentos e se afogava neles, sem saber o que fazer. Senti Mind sentar ao meu lado na calçada, dizendo em seguida:

— Tá tudo bem Alexis. Você não ta mais na sua antiga casa, você ta aqui comigo, só a gente, juntas. — Disse, tocando meu cabelo em seguida.

As palavras de Mind me fizeram imaginar um lugar onde só haveria nós duas, sem ninguém nem nada, nem as vozes. Será que seria melhor? Algo mudaria? Ou eu encontraria um jeito de me autodestruir e me prenderia novamente em minha mente? Levantei minha cabeça e olhei para Mind Jung, ela estava com um olhar sereno e calmo, olhando profundamente dentro de meus olhos quase como se dissesse com os mesmos: "Eu estou aqui para você". Assenti como se ela realmente tivesse tido isso e disse:

— Desculpa. Eu não deveria ter trazido você pro meu mundo, deveria ter vindo pra cá sozinha.

— Seu mundo?

— É, onde eu mostro quem eu realmente sou, uma garota frágil que não sabe lidar com nada. Nem com si mesma.

— Você saiu da sua antiga casa, certo? Nos trouxe até aqui, essa é sua forma de cuidar de você. Foi forte o bastante para sair de lá para não se machucar mais e eu nem precisei te ajudar.

— Ainda da pra se machucar mais? Achei que tinha chegado ao meu limite. — Disse com um sorriso melancólico.

— O que vocês conversaram lá dentro do quarto? Você e seu pai.

— Apenas ouvi mais de suas mentiras, eu só confirmei o que já esperava. Ele quer aliviar sua consciência pesada, não se importa com tudo o que me fez passar.

— Como tem tanta certeza disso?

— Porque agora que minha mãe morreu ele não tem mais ninguém, então acha que precisa de mim pra preencher seu vazio.

— Não acha que ele só queria consertar as coisas, finalmente?

— Se ele realmente quisesse teria feito antes. E também não é como se meu perdão fosse mudar algo.

— Alexis, você realmente quer viver com rancor deles? Não prefere acertar as coisas e seguir em frente?

— Não é rancor, eu os perdoei, mas não esquecerei, entende? E eu segui em frente...

— Me parece mais que você fugiu da situação e continua presa nela...

— Talvez.

— Você não quer acabar com tudo isso? Da pra ver que te faz muito mal...

— Não sei Mind. Não sei se consigo ainda.

— Entendo.

— É patético, não é? Depois de tanto tempo, eu ainda não consegui superar isso.

— Não é, coisas assim não se superam rápido. Eles são, ou eram, não sei; Sua família, não é algo que de pra esquecer assim tão fácil...

— É, acho que sim. Foi mal te envolver em tudo isso, não é problema seu.

— Eu vim até aqui, não me importo em me envolver em coisas que tenham relação a você.

— Acho que nenhuma outra pessoa teria aceitado vir aqui pra um funeral. — Ri levemente.

— Isso é verdade. — Ri em seguida.

— Você quer entrar? — Disse, direcionando meu olhar para a escada do bar que dava direto ao hotel.

— Sinceramente, não. Ainda ta cedo, me surpreenda, leve-me para algum lugar legal.

— Certo! — Disse sorrindo.

Me levantei e peguei na mão de Mid Jung a puxando, andando para o lado oposto do hotel. Andamos pela rua Ineskir onde havia vários comércios, avançando um pouco mais até chegarmos no centro de Camden Town. 

Como sempre estava tudo muito animado, as lojas estavam a todo vapor cheio de pessoas, as ruas movimentadas e com uma iluminação elegante de luzes coloridas dando uma visão bonita ao local. Me direcionei com Mind a estação de metrô que ficava a poucos minutos da li, e quando chegamos convenci Mind de que eu pagaria as passagens pois aquele era um passeio por minha conta. Ela ficou um pouco brava mas logo cedeu.

Logo descemos as escadas da estação para o metrô, este que chegou consideravelmente rápido e logo entramos nele. Naquele horário os metrôs de Londres não eram muito cheios então logo encontrei dois assentos para mim e Mind, nos sentando de frente para a janela vasta e retangular onde só era possível ver diversas luzes coloridas da Camden Town. Mind seguiu o caminho todo tentando me convencer a dizer para onde estávamos indo mas falhou em todas as suas tentativas, era uma surpresa.

Quando finalmente chegamos em nosso destino me levantei e chamei Mind para descermos do Metrô, estávamos na cidade Luzier, conhecida por seus diversos bares, boates e lojas intrigantes que chamavam a atenção de qualquer turista que passasse por lá. Ao colocarmos nossos pés para fora da estação logo podia ouvir os diferentes tipos de músicas vindo dos bares, as risadas e conversas das pessoas que ali estavam, todas parecendo estar muito animadas e felizes, como era sempre a cidade de Luzier. Mind observou o lugar e logo disse:

— Você me trouxe aqui pra me embebedar?

— Quase isso. Eu quero te mostrar um lugar, vem.

Puxei Mind novamente pela sua mão, andando entre as ruas movimentadas de Luzier enquanto podia vê-la observar cada canto das ruas curiosa e com um leve sorriso no rosto. 

Quando estávamos quase chegando aonde queria leva-la, Mind notou uma loja que lhe chamou atenção, era toda de madeira e na vitrine havia vários artesanatos bonitos como esculturas, pinturas. Mind parou de andar e ficou encarando a loja, não sabia exatamente para o que da loja ela estava olhando, então perguntei:

— Se interessou por alguma coisa?

— Podemos entrar naquela loja? — Disse eufórica.

— Claro.

Mind continuou de mãos dadas comigo enquanto me puxava para aquela loja intrigante. Quando entramos observei que era uma loja bem simples mas com peças muito bonitas, logo Mind me puxou para frente de uma pintura muito peculiar, era de um gato branco com lindos detalhes com uma linha vermelha amarrada em sua pata, a linha seguia até fora do quadro, como se não tivesse fim. Mind ficou a encarando por um tempo e então disse:

— Uau! Os detalhes da pintura são tão bonitos, veja os olhos do gato, são verdes profundos, parece prestes a chorar. Mas o que será essa linha?

Uma voz rouca e alta atrás de nós respondeu Mind rapidamente:

— Não conhece a história da gata de Cherrie?

Nós duas nos viramos rapidamente, assustadas. Não sabíamos que havia alguém nos observando. Notamos uma senhora de olhos grandes azuis atrás do balcão da loja, usava um grande colar com uma pedra preta e tinha um longo cabelo preto liso. Algo em seu semblante me parecia misterioso. Mind e eu respondemos juntas involuntariamente:

— Não.

A senhora parecia rir levemente de nossa resposta e logo nos respondeu:

— Permitam-me conta-la a vocês. Se quiserem, é claro.

Eu não estava necessariamente interessada na história de um gato de uma simples pintura, me parecia mais uma jogada de marketing da senhora. Mas Mind parecia muito interessada, pois respondeu logo em seguida:

— Sim, por favor!

Mind me puxou para perto do balcão para ouvir a senhora melhor, que começou dizendo:

— A gata de Cherrie era um mascote de uma grande família rica, mais especificamente da filha dos duques mais ricos da Inglaterra, Cherrie. Cherrie amava muito sua gata, queria muito que ela lhe desse filhotes, mas mesmo trazendo gatos para a gata ficar grávida, ela não se interessava, mesmo no cio, não chegava nem perto deles, ela não se interessava por nenhum gato. 

Então um dia a gata de Cherrie acabou morrendo atropelada por um carro e estranhamente, no mesmo momento, Cherrie morreu subitamente em seu quarto enquanto lia. Os pais de Cherrie só foram encontrar a gata depois de 3 dias da morte de Cherrie, porque ela havia sido atropelada em uma estrada um pouco longe de sua casa. Como os pais de Cherrie eram ricos, fizeram uma autópsia da gata porque ela significava muito para sua filha falecida, descobrindo que ela havia morrido no mesmo momento que Cherrie morreu. 

Dizem, que a gata de Cherrie estava ligada a ela por um fio vermelho do destino, Akai Ito, e Cherrie morreu porque as duas estavam destinadas a ficarem juntas, e sem uma, a outra acabaria morrendo em seguida. E a razão por a gata de Cherrie não se interessar por outros gatos seria porque só precisava de Cherrie e de mais ninguém, e o destino não lhe permitia ficar com outra pessoa. A pintura seria para expressar a tristeza da gata de Cherrie por nunca poder realmente ficar com sua dona por ter morrido e também por as duas não serem compatíveis.

— Nossa, que história triste! Essa pintura é antiga? — Disse Mind Jung, intrigada.

— Muito, foi pintada pela mãe de Cherrie, em 1986. — Respondeu a senhora.

— Que bobagem... — Disse baixinho.

A senhora parecia ter me ouvido pois me olhou dos pés a cabeça, focando na minha mão e na de Mind Jung, que estavam entrelaçadas, dizendo apontando para elas:

— Vocês também tem um.

Resolvi entrar na brincadeira dela, ver aonde isso ia dar. Então respondi:

— Um o que? — Disse lançando um olhar provocador.

— Um fio vermelho do destino. — Disse a senhora calmamente, sem se importar com meu olhar.

— E como você sabe disso? — Disse revirando os olhos.

— Consigo vê-lo, pode não acreditar, mas sou médium. O que me permite ver essas coisas.

Comecei a rir levemente com a mão na boca enquanto murmurava: "Médium..."

Até que a senhora deu um leve sorriso inocente e disse:

— Pode rir, já estou acostumada com essas reações. Mas é inevitável que o que prevejo dos ligados ao fio do destinho e do fio do acaso sempre acaba acontecendo... — Disse a senhora com um olhar penetrante.

— Olha, não precisava criar toda essa história pra gente comprar alguma coisa da sua loja não, tá? Se a gente quiser compra por livre e espontânea vontade. — Disse.

Mind me beliscou levemente no ombro, dizendo:

— Alexis! Não seja grossa! — Disse, me olhando brava.

— Está tudo bem. Eu não falo isso pra comprarem coisas na minha loja, não sou desesperada, as vendas vão bem. Apenas notei vocês observando o quadro da gata de Cherrie e o fio de vocês... — Disse a senhora com um olhar um tanto sincero.

— Entendo. Mas, o que você quis dizer com fio do acaso? Só havia ouvido falar do fio do destino. — Disse Mind, curiosa.

— Ah, o fio do acaso. Ele pode estar ligado a cada uma das pessoas que estão ligadas ao fio vermelho, por exemplo, vocês duas talvez tenham o fio do acaso, ele está ligado a pessoa que vocês conheceram por acaso e não destino, e essa pessoa sente algo muito forte pelas duas. 

Mas acaso e destino são coisas diferentes, então não poderia dar certo uni-los. Por isso, quando uma pessoa ligada ao fio do destino beija 2 vezes a pessoa que está ligada ao fio do acaso com você, a pessoa ligada a você pelo fio do destino morre lentamente, pois como disse na história do gato de Cherrie, as pessoas ligadas ao fio do destino não podem viver sem a outra. O fio se rompe então, por unir o acaso ao destino e você passa a não pertencer mais ao destino mas sim ao acaso.

— Que loucura, isso é realmente verdade? — Perguntou Mind, com os olhos fixos nos da senhora.

— Não costumo duvidar de coisas relacionadas a destino, garota. — Disse a senhora.

Continuei murmurando baixinho "Que bobagem" e então Mind disse com os olhos brilhando, confiante:

— Eu vou levar o quadro da gata de Cherrie!

Bati minha mão contra o rosto, pensando: "Ela caiu no golpe."

A senhora agradeceu por Mind comprar o quadro e disse que ela tem gosto, acenando para nós enquanto saímos da loja, dizendo:

— Boa sorte, garotas.

"Por que ela disse isso?", deve ser o que ela queria que pensássemos para irmos pergunta-la, mas não vou cair no golpe, não como Mind Jung que estava ao meu lado toda sorridente segurando sua sacola com seu quadro dentro. 

Suspirei e pensei que pelo menos ela estava feliz e tinha uma lembrança da nossa viagem. Seguimos nosso caminho para o nosso verdadeiro destino desde o começo e no caminho, mesmo achando bobagem tudo o que aquela senhora da loja disse, me peguei se perguntando se eu e Mind Jung eramos um acaso ou um destino?
 



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