História Sound of Silence - Sizzy - Capítulo 1


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Categorias Os Instrumentos Mortais, Shadowhunters
Personagens Simon Lewis
Tags Personagem Surdo, Romance, Sizzy, Surdez, Universo Alternativo
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Palavras 7.327
Terminada Sim
LIVRE PARA TODOS OS PÚBLICOS
Gêneros: Crossover, Famí­lia, Ficção Adolescente, Fluffy, Musical (Songfic), Romance e Novela, Shoujo (Romântico), Universo Alternativo
Avisos: Heterossexualidade
Aviso legal
Alguns dos personagens encontrados nesta história e/ou universo não me pertencem, mas são de propriedade intelectual de seus respectivos autores. Os eventuais personagens originais desta história são de minha propriedade intelectual. História sem fins lucrativos criada de fã e para fã sem comprometer a obra original.

Notas do Autor


Os sinais citados abaixo são uma interpretação da Lingua Americana de Sinais, podem haver alguns erros.

Aproveitem.

Capítulo 1 - Capítulo Único


— Simon, não há nada que eu possa fazer. — Clary disse. Claro que também poderia significar na verdade Simon, quero bolo com glacê, mas dado o contexto ele tinha quase certeza que significava a primeira opção.

Simon era péssimo em leitura labial.

Eu sei, ele suspirou por fim, desviando o olhar de sua melhor amiga, decepcionado com todas as escolhas que ele já tinha feito na vida até aquele exato momento. Ainda assim eu queria que as coisas tivessem sido diferentes. Eu não acredito que eu deixei isso acontecer. Você sabe que eu sinto muito, não?

Ela chamou a atenção dele com um cutuque de um dos dedos engessados.

— Ei, não fique se martirizando. Foi um acidente, a culpa não é sua.

A verdade era que, olhando para os dedos engessados das duas mãos de Clary, Simon sabia que a culpa tinha sido, sim, dele.

Eu só quebrei os seus dedos, Clary, ele fez o sinal que representava o nome da menina: o dedo indicador direito descendo até a clavícula, depois a mão direita abrindo-se na letra C, a ponta do dedão encostando-se à cabeça. Significava Ruiva.

— Você não fez de propósito, Simon.

Não interessa, Clary, ele gesticulou furiosamente, suas sobrancelhas quase coladas de tanto que seu cenho estava franzido, eu estraguei meses seus de trabalho em que você não vai poder desenhar, fora que eu tenho que estar em rede nacional em três semanas e eu perdi minha intérprete.

— Eu tenho certeza que eles vão te arrumar um novo se você explicar a situação — ela parecia estar com pena de Simon.

P e n a: Sofrimento; aflição; compaixão; piedade; tristeza; amargura; pesar. As duas mãos parcialmente abertas indo para frente e para trás em círculo duas vezes com os dedos médios mais fechados. Simon sempre esteve acostumado com os olhares de pena de pessoas ouvintes, elas simplesmente acreditavam que elas eram melhores que todo mundo e o fato de não ouvir era suficiente para se perder o mundo inteiro e que ele era inválido ou algum coitado por isso. No geral ele não se importava, uma vez que achava a maioria das pessoas ouvintes meio burras.

Sendo que era a primeira vez em nos dezoito anos em que conhecia Clary que ela tinha direcionado a ele aquele tipo de olhar que ele detestava. Ele fechou a cara na hora.

Não, ele disse, no papel eles me indicaram apenas um número para caso de desistência. Eu já tinha dito que eu não precisaria de um intérprete, mas não é como se eles tivessem feito muito esforço para me oferecer um. E eu não tenho dinheiro para contratar um intérprete novo. Eu estou ferrado, Clary.

Ele abaixou os olhos para os dedos quebrados de Clary, torcendo o nariz para a dor que ela devia estar sentindo. Tudo porque ele tinha que ser burro.

Bem, burro e surdo.

Para ser sincero, ele preferia por a culpa no A Nova Voz da América, que mandou a carta dizendo que ele tinha sido aprovado no segundo teste e apareceria em televisão nacional para a primeira fase de audições. No primeiro teste, Simon tinha mandado um vídeo tocando violão e cantando Candy Shop em versão acústica. Ele tinha escolhido rap justamente por ser difícil e particularmente ele tinha gostado muito do resultado. E a produção do programa também, porque ele foi chamado para a segunda seleção, e então eles descobriram que Simon era surdo e enlouqueceram.

Simon tinha a impressão de que ele poderia ter cantado qualquer besteira que os produtores iam aprová-lo só para ter uma boa história e viralização na internet. Ainda assim, ele fez seu melhor e cantou Stronger Than Me, da Amy Winehouse, uma de suas músicas favoritas de uma das suas artistas favoritas.

Dito e feito, ele passou. Ele não só surtou, como fez Clary surtar também. E não era para menos: ele seria o primeiro cantor surdo a aparecer naquele programa. Mesmo se todo mundo o odiasse e o achasse um deficiente imbecil e sem talento, o país inteiro ia ficar ciente do seu trabalho e alguém teria que gostar. Se todos os Estados Unidos odiassem, talvez fosse hora de seguir uma nova carreira.

De qualquer maneira, durante a empolgação ele puxou Clary por todos os cantos do apartamento, não conseguindo decidir o que cantaria e que instrumento tocaria. Eles passaram pelo violão (desistindo por já ter apresentados duas músicas acústicas), pela guitarra e pelo piano. Tocando poucas notas de cada, cantando qualquer besteira sem realmente se decidir o que queria. Ele tinha um pouco mais de três semanas para preparar uma apresentação e viajar para Los Angeles para mostrar seu talento para o mundo inteiro.

Simon achava que ia vomitar.

Ele estava sentado no piano no canto da parede do apartamento que ele dividia com Clary teclando levemente uma música de Leonard Cohen quando a luz da campainha se acendeu e ele se distraiu.

No geral ele era bem atento, ele tinha passado mais da metade de sua vida surdo e seus outros sentidos (tirando sua visão) eram ótimos. Infelizmente naquela hora seus sentidos aguçados o deixaram na mão; ele não notou que Clary tinha ido até ele para tocar junto.

Ele não notou que as mãos dela estavam no piano. Nem teve controle quando a tampa do piano escorregou de sua mão e foi com tudo em cima dos dedos de Clary

E ele não teria notado que tinha fechado o piano com a mão de Clary em baixo se não fosse pela cara horrorosa de dor que ela fez assim que ele se recuperou do choque que tinha sido perder a tampa do piano.

Simon entrou em desespero, correndo de um lado para o outro no apartamento, buscando as chaves de sua van, colocando os sapatos, mas no fim nada daquilo foi necessário. Foi Jace quem salvou o dia, como já era de se esperar.

Foi Jace quem arrombou a porta do apartamento e entrou correndo, gritando palavras que Simon nunca conseguiu entender o que significavam e olhando feio para ele, levando Clary para fora do apartamento. Simon conseguiu acordar a tempo e correu atrás deles, conseguindo alcançar Jace e gesticulando para a van, porque Jace não dirigia.

Jace também não falava a língua americana de sinais, mas entendeu o que Simon queria dizer e os três foram para o hospital. Muito caos, confusão e Simon tendo um colapso nervoso depois, Clary finalmente foi liberada com as duas mãos engessadas. Quatro dedos quebrados e quatro lesionados. Apenas os dedões se salvaram.

E agora os dois estavam ali, discutindo o que Simon faria da vida dele em relação ao programa agora que sua intérprete não podia mais o interpretar. Por que tudo em sua vida tinha que ser tão difícil? Quer dizer, ele já não era muito alto e nem era atlético e era desastrado. Azarado tinha que ser um de seus atributos.

Ele sentiu outro cutucão em seu joelho e levantou os olhos para Clary, que parecia mais animada. Mais que isso, ela estava quase quicando no lugar. Simon estranhou o ato.

— Eu acabei de me lembrar. Tem alguém que pode me ajudar.

— Quem? — Simon perguntou em voz alta. Geralmente ele não falava muito, ele não lembrava direito de como sua voz era e a vibração que saia da sua voz era sempre estranha. Ele preferia usar a voz só para cantar, mas estava tão animado com a nova esperança que ele não conseguiu evitar.

— Jace.

A face de Simon despencou na hora.

Sem querer ser chato, mas seu namorado exaustivamente talentoso não sabe ASL, Clary.

— Não, mas ele conhece alguém que sabe e que pode nos fazer um favor.

Simon assentiu, sentindo o coração se aquecer por Clary sempre se referir aos dois como um time. Por muito tempo ele achou que gostava dela como algo a mais, porém lá pelos dezesseis anos ele desencanou – e não só porque a ruiva conheceu Jace e ele achou que seu coração tinha se partido em mil pedaços; eles foram criados juntos desde que Simon era uma criança, ela foi a primeira a aprender ASL para que ele se sentisse mais confortável no novo ambiente, ela que o ajudou a entrar em termos com sua surdez.

Clary era a irmã que ele não tinha. Bem, a irmã que ele deveria ter... Simon preferia não pensar em Rebecca.

Ok. Vou ao mercado enquanto você fala com Jace.

— Nada disso — ela sorriu maquiavelicamente — Você vai segurar o celular enquanto eu faço vídeo-chamada com ele. É o mínimo, afinal você quebrou meus dedos.

Simon revirou os olhos, mas discou o número de Jace e assim que ele atendeu, mostrou a Jace um sinal que com certeza o loiro entenderia. Jace falou alguma coisa que Simon não conseguiu traduzir em leitura labial, mas que também não fez muito esforço para entender, geralmente o namorado de Clary passava o tempo dizendo que era lindo; sobre o cabelo loiro; ou alguma tatuagem nova que tinha feito; ou sobre o quanto ele amava Clary e, apesar de também amar muito a ruiva, esse não era um assunto que sustentava muita conversa.

E ele conhecia Jace há quantos anos? Oito? De qualquer jeito, hoje eles eram quase amigos apesar do loiro não conseguir usar os dedos para falar.

Jace e Clary ficaram quase uma hora no telefone e, lá para o final da ligação, Simon já estava com o braço dormente e quase cochilando. Ele não sabia o que os dois tanto falavam, mas ficava muito contente por ser surdo já que boa coisa não seria.

— Problema resolvido, Jace virá mais tarde com nossa salvação.

Amém, Jace.

(...)

Simon não sabia exatamente o que ele esperava, mas ainda assim foi um choque conhecer aquela mulher. Maravilhosa talvez fosse pouco para descrevê-la. Seus cabelos negros e longos estavam presos em um rabo de cavalo alto que deixava todo seu rosto lindo à mostra. Seus lábios cheios estavam em um tom de vermelho intenso, o que a deixava mais bonita, talvez de um jeito perigoso. Aquela mulher ao lado de Jace lembrava algumas das deusas guerreiras dos jogos que Simon adorava.

Ela era alta e usava botas de salto, o que a deixava ainda mais alta, quase que na mesma altura dele. Para completar ela usava um vestido curto preto que deixavam algumas tatuagens aparecendo. Ela não tinha tantas como Jace (que tinha os braços cobertos e mais por várias outras partes do corpo – de acordo com Clary), mas Simon podia ver pelo menos umas seis espalhadas pelos braços e a ponta de uma na coxa direita aparecendo na barra do vestido.

Clary se apressou e a abraçou levemente, mostrando que elas se conheciam. Simon ficou de perguntar depois para sua melhor amiga por que diabos ela nunca tinha apresentado os dois. Não que Simon tivesse coragem de flertar ou de olhar na mesma direção que ela em situações normais.

Ele só tinha coragem agora porque ele estava desesperado e aquela mulher era sua salvação.

Simon se aproximou do trio e acenou para chamar a atenção da moça. Sou S-I-M-O-N, ele soletrou, Simon. Ele mostrou a ela como se fazia o sinal para o nome dele, a palma esquerda estendida e a direita passando por cima como se estivesse folheando uma revista, mas ao invés da mão estar aberta ela estava fechada em punho representando a letra S. Era o sinal para música com a letra S.

Simon, ela repetiu, sou I-S-A-B-E-L-L-E.

Eu não consigo descrever o quão grato eu estou por você ter concordado em fazer isso. Você literalmente está salvando minha vida.

Ela parecia confusa com todos os sinais e com a velocidade com que Simon os fazia.

— Vai com calma, por Deus. — Simon leu os lábios dela. — Tem muito tempo que eu não uso língua de sinais, estou um pouco enferrujada.

A última parte Isabelle traduziu em ASL simultaneamente para Simon entender. Ela errou o sinal para enferrujada, mas ele não a corrigiu. Ela já estava lhe fazendo um grande favor para ele ainda ficar cobrando muito.

— Não se preocupe, Isabelle. Se tem uma coisa que Simon é, essa coisa é devagar — Jace disse e Isabelle traduziu com dificuldade.

Babaca.

— Hã... — ela parecia sem jeito, apesar de levemente risonha.

— Eu sei o que isso quer dizer — ele passou a mão pelos cabelos — Mas na língua de sinais do Jace, isso significa que eu sou muito legal e extremamente bonito.

Simon se preparou para falar, mas Clary colocou a mão engessada em cima das dele.

— Simon, eu e Jace vamos dar um pouco de privacidade para você e Isabelle para discutirem como isso vai funcionar.

Clary puxou Jace e os dois entraram para o quarto da ruiva, deixando Simon e Isabelle na sala sozinhos. Simon apontou o sofá para ela, que sorriu e se sentou com ele a acompanhando.

Eles vão transar. Simon suspirou, eles sempre vão transar.

Nem me fale, ela concordou, eu moro com Jace e é sempre a mesma coisa. A sorte é que eu quase nunca estou em casa.

Eu queria que eles parassem com isso e fossem morar juntos, mas Clary acha que eu vou morrer se morar sozinho.

— Você trabalha com o que? — ela perguntou e ele teve que ler os lábios — Desculpe, eu não consigo me lembrar do sinal para trabalho.

— Tudo bem — ele falou e ela arregalou os olhos.

— Você é oralizado — ela falou, mas gesticulando também.

Sou, eu não nasci surdo e eu sempre pratico, Simon sorriu para ela, mas sempre é esquisito falar então eu não o faço muito. Aqui, esse é o sinal para trabalho.

Ele reproduziu para ela, que reproduziu com perfeição.

— Então — ela sinalizou enquanto falava — Com o que você trabalha? — ela usou o sinal que Simon tinha a ensinado.

Eu sou professor, ensino ASL para crianças. Não é o que eu mais amo fazer, mas é incrível ensinar.

Era mais que incrível para ser sincero, mas Simon não tinha palavras em língua nenhuma que conseguisse descrever o prazer que ele sentia ao lecionar crianças. Era imensurável a satisfação que ele tinha ao ver uma criança que nunca tinha ouvido conseguir entender as primeiras palavras e ver que ela podia se comunicar tanto quanto qualquer outra pessoa, ou ensinar para uma criança que tinha acabado de perder a audição que tinha uma maneira nova de ouvir e falar com o mundo.

Simon trabalhava especialmente com crianças que vinham de lares de ouvintes, porque ele sabia que essas sempre eram os piores casos. Muitos eram tratados como retardados pelos pais o ou como inválidos e ele amava mostrar para crianças, e muitas vezes para os pais, que o mundo era muito mais do que a caixinha em que eles viviam.

— É bom se trabalhar com o que gosta. Eu tatuo no estúdio do Jace. A gente começou o negócio juntos, na verdade.

Você é a sócia do Jace? Eu conheço o cara há anos, como a gente nunca se conheceu?

— Eu também não sei — ela riu — Poderia dizer o mesmo. Clary vive falando do irmão adotivo dela e nunca fomos apresentados.

Até agora.

— Até agora. — Isabelle repetiu — Então, Jace me disse que eu iria aparecer na televisão, mas ele não me explicou mais nada.

Sim, quer dizer, eu vou aparecer em A Nova Voz da América e preciso de uma intérprete, já que eu quebrei os dedos de Clary. Teríamos que viajar para Los Angeles por uns dias, é um problema para você?

— Não, eu já esperava isso. Você vai dar algum depoimento para algum participante? É isso?

Simon franziu o cenho, confuso com a gesticulação dela e com o tom em seu rosto.

 Não, ele balançou a cabeça, eu vou participar.

— Mas você é surdo — ela constatou como se ele ainda não tivesse descoberto.

Que coisa, eu jurava que meus ouvidos funcionavam.

Ela revirou os olhos, começando a parecer irritada. Simon, no entanto, já estava irritado há muito tempo. Ele não sabia se queria Isabelle junto com ele naquela viagem, ainda mais pensando como toda pessoa ouvinte.

— Você me entendeu, Simon — ela sinalizou — É que se você não pode ouvir, como vai cantar? Quer dizer, é incrível que você seja oralizado, realmente é, mas cantar e tocar... Como é o sinal para instrumentos? — ela apontou para o piano e para o violão encostados na parede.

Simon sinalizou. As duas mãos estendidas indo para esquerda se fechando em punho. Isabelle franziu o cenho confusa com o sinal.

— Isso não é sinal para instrumentos, é sinal para...

Isso mesmo, ele a interrompeu. Saia. Saia da minha casa.

— Simon, não creio que isso seja necessário — ela tentou racionalizar.

— Saia agora! — ele falou para ver se verbalmente a morena entendia.

Ela esticou as mãos em sinal de rendição, falou alguma coisa que ele não entendeu, e bateu a porta. Simon não podia ouvir, mas jurava que ela tinha batido com força, pois logo em seguida Jace e Clary saíram do quarto – vestidos, graças ao anjo – e olharam para Simon como se ele tivesse acabado de cometer um crime terrível.

— Simon, o que você fez? — Jace perguntou.

Sua amiga, assim como você, é imbecil.

Simon deixou os dois na sala e voltou para seu quarto, totalmente ciente de que estava ainda mais ferrado do que antes.

(...)

A r r e p e n d i m e n t o: desgosto; remorso; lamentação; reconsideração. Em ASL era representado como o dedão e o mindinho esticados e os outros fechados, como hang loose. O dedão encostado no queixo e o mindinho descendo até a altura da clavícula.

Simon podia ou não estar arrependido de ter expulsado Isabelle de sua casa. Não que ele achasse que estava errado, até porque ele não estava, mas agora faltava uma semana para sua apresentação, três dias para a viagem e ele ainda não tinha ninguém. Ele tentara pedir ajuda para alguns professores da escola onde ele trabalhava, mas a maioria era igualmente surda e os ouvintes tinham compromissos inadiáveis. Simon achava que o batizado do filho de um deles não era tão importante quanto sua audição.

No entanto, Simon sabia que Isabelle estava arrependida também. Provavelmente. Quando ele estava prestes a ligar para ela e pedir que ela o interpretasse (ele tinha chegado à conclusão que as pessoas ouvintes eram sim em maioria imbecis, mas ele podia ajudar uma a deixar de ser), ele recebeu uma ligação dela. Como ele estava no banho e não pode atender, Simon só viu depois a ligação e a mensagem de voz que ela deixou e ficou tão irritado que Isabelle teve a audácia de mandar uma mensagem de voz que deletou antes mesmo que Clary pudesse ouvir e repetir para ele.

Depois disso, ela deixou algumas mensagens de texto e vídeo pedindo desculpas por ser insensível e por tratá-lo mal, mesmo tendo sido ele a expulsá-la, que ia ser uma honra interpretá-lo no programa e que eles pudessem conversar sobre o mal entendido.

Sinceramente, Simon estava cansado e desesperado muito mais do que estava amargurado e irritado com Isabelle. Então por fim ele apenas mandou uma mensagem para ela dizendo JFK, 22/10. O vôo sai às 13h40. Ele não esperou a resposta, apenas foi ensaiar sua música para não passar mais vergonha do que já passaria em rede social.

Ele piscou com a luz sendo jogada em seu olho e se virou para a origem dela, vendo Clary segurando desajeitadamente o celular entre os dedos quebrados.

— Simon, você está bem? Você parece que vai vomitar — ele leu os lábios dela.

Não, eu estou bem. Falei com Isabelle.

— E ela vai com você?

Não sei, ele deu de ombros tentando parecer desinteressado e não desesperado, ela ainda não respondeu.

Nesse momento, o celular dele vibrou e a luz do flash piscou duas vezes, indicando que havia recebido uma mensagem. Clary avançou para pegá-lo, mas Simon fez um sinal de pare para ela.

Depois eu vejo isso, Clary. Agora preciso mesmo ensaiar.

Clary assentiu e saiu do quarto, deixando Simon sozinho. Ele mordeu os lábios, tentado a pegar o celular e olhar. Era só uma mensagem confirmando ou não uma viagem, não era nenhum pedido de casamento. Por fim ele resolveu apenas focar em sua música, era a apresentação de sua vida.

Três dias depois ele estava tomando café em um Starbucks do aeroporto quando ele a viu chegando. Ela estava toda de preto e tênis de corrida, os cabelos soltos descendo pelo casaco aberto e óculos de Sol. Dessa vez não estava de batom vermelho, mas de alguma maneira ela estava ainda mais bonita do que da primeira vez que ele a viu.

Ela o notou no café e acenou para ele, dando um sorriso e indo em sua direção. Ela carregava uma mala pequena, que ela colocou no mesmo carrinho em que a dele estava.

Obrigada por me deixar participar, ela sinalizou sorrindo.

Sem problemas, eu realmente preciso de ajuda, o sorriso dela diminuiu um pouco. Simon não queria ser grosseiro, mas era a verdade. Ele não recorreria a Isabelle se não fosse estritamente necessário.

Eu ouvi suas músicas, Isabelle comentou e, quando Simon a olhou horrorizado, ela acrescentou: Jace me mostrou. Elas são incríveis. Ela fez o sinal para incrível, as duas mãos em frente ao rosto abrindo e fechando duas vezes. Simon notou que ela tinha melhorado a sinalização e agora não dependia mais do inglês verbal para que Simon a entendesse. Isso, junto ao fato de ela ter ouvido suas músicas e as achado boas, tinha aquecido o coração de Simon em relação à Isabelle.

Ele sorriu para ela.

É isso que eu pretendo mostrar ao mundo.

Desculpe-me por ter sido totalmente rude naquele dia. Eu mais que ninguém sei que pessoas surdas são tão capazes quanto ouvintes, eu só fui pega de surpresa. Sinto muito mesmo.

P e r d ã o: desculpa; absolvição; remissão. A mão direita estendida com a palma para cima, os dedos da mão esquerda acariciando a outra mão duas vezes. Simon tinha o coração mole e nunca conseguia ficar com raiva de ninguém por muito tempo. Ele tinha perdoado Rebecca por não querer contato com ele, ele tinha perdoado a mãe por ter o deixado surdo. Por que não perdoaria Isabelle que cometeu um erro – quase – honesto?

Obrigado, Isabelle. Ele sorriu para ela, vamos? Temos um voo para pegar.

(...)

Eles conversaram o voo todo, tentando descobrir coisas em comum apenas para chegarem a conclusão de que não tinham absolutamente nada, o que não era um problema. Simon gostava do fato de que ele poderia aprender coisas novas e ensinar coisas novas a ela.

Ele também a “batizou”. Ele não gostava de ter que soletrar o nome de Isabelle toda vez e achava que já estava na hora de ela receber o próprio nome. Na comunidade surda apenas outros surdos podiam dar o nome para as pessoas, fossem ouvintes ou não ouvintes e não podiam se autonomear. Originalmente Simon tinha nomeado Isabelle – sem ela saber – de arrogante com a letra I. Mas vendo agora a pessoa que ela era: uma mulher forte, leal, amigável e boa, ele não achava que ela merecia mais esse nome. Talvez ele mudasse o de Jace, Simon considerou.

Originalmente o sinal seria primeiro o dedo indicador passando pela testa, logo depois o indicador se juntando com o dedão e os outros dedos abertos ao lado da cabeça, encostando-se ao cabelo. Ele utilizou o mindinho na vertical para fazer a parte da testa, pois representava a letra I. Era o sinal para cabelos negros. Simon provavelmente não era muito criativo já que ele sempre nomeava as pessoas pelos cabelos dela, mas realmente era uma das coisas mais marcantes em Isabelle Lightwood.

Eu sempre quis fazer uma tatuagem, Simon disse ao notar as duas datas tatuadas uma em cada pulso de Isabelle.

Ela encarou as duas tatuagens por tempo demais antes de perguntar para Simon por que nunca fez?

Não sei, ele suspirou, tatuagens são coisas permanentes e além de Clary e a surdez, eu nunca tive nada permanente em minha vida. Acho que é muito delicado escolher algo para ficar na pele para sempre.

Do que você gosta, Simon? Ele ficou tão distraído com o sorriso que ela lançou para ele que quase se perdeu no que ela dizia.

Música, Star Wars, a pizza vegetariana do Joe’s. Gosto de ensinar, gosto de me sentir útil.

Gosto do Sol quando está se pondo, gosto de café fresco, gosto da sensação de ir a uma sinagoga, gosto de sentir o cheiro do ar puro do sítio de Luke, porque ele achava que sentia cheiros muito bem, gosto de conversar com pessoas que me façam sentir válido. Como você.

Mas ele não falou isso para ela, pois era pessoal demais e ele não queria assustar Isabelle. Ela o analisou, talvez vendo que ele estava sendo raso de propósito. Por fim ela sinalizou, você não está me dando muito para trabalhar, mas vou fazer um milagre.

Como assim?

Quando voltarmos, vou desenhar uma tatuagem para você de presente.

Simon arregalou os olhos, sacudindo a cabeça e as mãos em negativa.

— Não, não, não. — Ele inclusive falou para ver se Isabelle desistia da ideia.

Não funcionou.

— Sim, sim, sim — ela completou com língua de sinais: eu faço questão.

Isabelle, eu agradeço, mas sei o trabalho que é para fazer uma tatuagem. Não precisa fazer isso por mim.

— Simon — ela falou e gesticulou ao mesmo tempo. Simon pensou que se ela não estivesse de batom vermelho ele ficaria menos hipnotizado pelos lábios dela, porém ele percebeu que estava equivocado — Quero fazer isso por você, além de ser ótimo para portfólio. Se você não gostar, não precisa fazer, mas não esquete a cabeça com mais nada, ok?

OK.

Ótimo.

O assunto depois continuou mais ou menos o mesmo, Isabelle contou para ele como tinha virado tatuadora. Ela contou que sempre amou moda e desenhar croquis e pensava que queria trabalhar com isso, até Jace abrir o negócio quando tinha dezoito anos (ninguém achava que Jace era uma pessoa com todos os neurônios por isso, mas como ele era rico e impulsivo, ninguém se opôs). Isabelle estava matando o tempo no estúdio desenhando qualquer coisa quando um freguês viu o desenho e decidiu que queria tatuar aquilo.

O resto era história, ela fez alguns cursos, encheu Jace de tatuagens até ele se convencer que ela já estava pronta para ter uma cadeira. Ela se apaixonou completamente por aquilo. Ela amava ouvir as histórias por trás de cada tatuagem e a emoção das pessoas quando viam o trabalho feito. Os desenhos dela começaram a atrair mais clientes e, como ela também era rica e impulsiva, ela injetou dinheiro para eles abrirem um estúdio maior e desde então os negócios estavam indo muito bem.

Isabelle contou que seu projeto favorito era de tatuar mulheres que fizeram mastectomia e que sofreram abuso físico. Quando Simon contou sobre a oficina que ele fazia para ensinar música para as crianças surdas da escola onde ele trabalha e Isabelle se ofereceu para ajudar mesmo tendo zero conhecimento musical, Simon quase derreteu no assento.

Era oficial, Simon nunca esteve tão atraído por uma pessoa antes. Mulheres fortes e independentes que não davam a mínima para ele eram exatamente o tipo de Simon.

O resto da viagem passou como um borrão. A partir do momento que desembarcaram e um motorista e um assistente do programa esperava pelos dois, A-L-D-E-R-T-R-E-E ele se apresentou. Aldertree era um homem jovem, alto, negro e extremamente mal educado. Em todo momento em que ele explicava como funcionaria a participação no programa, ele olhava para Isabelle, ignorando completamente Simon, que era quem de fato participaria do programa. E não, Simon não estava com ciúmes, era rude Aldertree o ignorar quando era com ele que o assistente estava falando, não Isabelle.

Simon detestava quando ouvintes faziam isso. Isabelle também parecia não ter gostado de Aldertree, porque toda vez que ele se virava ela fingia vomitar e quando ele falava algo que Isabelle julgava irrelevante, ela dizia eu sou Aldertree, um babaca pretensioso com um emprego medíocre ou coisas do tipo. Simon ficou contente de saber que babacas pretensiosos não eram o tipo de Isabelle (isso não dizia que ele era o tipo dela, mas isso Simon resolveu ignorar).

Aldertree explicou que nos próximos três dias ele ensaiaria a música no estúdio onde o programa era gravado para ele poder se acostumar com o piano deles e com a acústica do lugar. Simon quase riu, pois ele não podia ouvir, então não fazia muita diferença para ele. Era nessa hora, que Isabelle entrava, ela era a responsável por ajudá-lo a entrar no tom certo (na verdade ela só interrompia a música e dizia para ele cantar mais alto ou mais baixo, mas Simon estava grato mesmo assim).

Ele só precisaria gravar qualquer coisa no quarto dia, portanto nos três dias em que ele ensaiou sem parar, ele e Isabelle entraram em uma rotina engraçada. Talvez rotina não fosse a palavra certa, mas eles passaram a se entender muito fácil. Bastava um sinal para que Simon soubesse o que tinha que fazer e eles tinham piadinhas internas em ASL que vinham bem a calhar quando Aldertree ia perturbar os dois – Isabelle principalmente. Pretensioso com A era o sinal que ele tinha dado a Aldertree, o que Simon depois se arrependeu, porque ele também podia mudar o nome de Jace para pretensioso que cairia bem.

Os dias passaram voando e, quando Simon se deu conta, era a madrugada de sua apresentação e ele estava começando a entrar em pânico. Até então ele não tinha pensado em como seria; com todo o estresse de não saber se conseguiria um intérprete, depois o estresse em conseguir cantar perfeitamente nos ensaios, ele não tinha pensado em como seria a apresentação em si. Ele estava prestes a cantar em rede nacional para milhares de pessoas e ser julgado por isso; as pessoas iam dizer que ele era um lixo sem ao menos se importar com a música, ou pior, iam apenas aceitá-lo e gostar dele porque era surdo e não porque sua música era boa.

O pensamento embrulhava o estômago de Simon a ponto de ele querer vomitar.

Ele olhou para Isabelle, que estava na outra cama de solteiro ao lado da dele. Ela parecia estar dormindo, mas Simon já a conhecia bem ao ponto de saber que ela ainda não estava apagada. Ele piscou a lanterna do celular duas vezes e ela abriu o os olhos, sentando-se na cama e acendendo o abajur.

Na luz fraca, Simon mal podia ver as mãos de Isabelle.

— Pode parando com esses pensamentos negativos, Simon — ele pode ver os lábios dela se mexendo junto com as mãos.

Como sabe que eu estou pensando algo negativo? Ele perguntou.

— Porque eu conheço você, Simon.

Simon resistiu ao impulso de dizer que ela não o conhecia nem um pouco, o que era verdade. Eles só tinham passado a se falar nos últimos dias e ele ao sabia muita coisa sobre ela, assim como ela não sabia nada sobre ele. Entretanto, de algum jeito, ele sentia que a conhecia. Ele já sabia quando ela estava feliz, ou pensativa, e ela sempre mexia no cabelo quando estava com raiva. Ele já sabia identificar os detalhes no rosto dela quando ele fechava os olhos.

— E de qualquer modo — ela continuou — É normal estar nervoso em situações assim. Mas vai dar tudo certo.

Ele mordeu o lábio, desviando o olhar do dela.

Eu nunca cheguei a perguntar, ele começou, mas o que te levou a querer aprender língua de sinais?

Ela pareceu nervosa e um pouco irritada, e Simon se arrependeu um pouco da pergunta. Ela passava os dedos nervosamente nas tatuagens nos pulsos, mas por fim ela suspirou e disse:

— Meu irmão Max nasceu surdo. Minha mãe teve uma gravidez complicada, mas Max era a maior benção que poderíamos ter. Eu fui a primeira a aprender para me comunicar bem com ele e, por consequência, eu e ele éramos muito próximos. Eu era a intérprete dele, da mesma forma que Clary é a sua.

Ele assentiu, prevendo como aquela história acabaria. Nada bem, uma vozinha disse no fundo de sua cabeça.

 Você não precisa me contar nada, Isabelle, ele disse, não é da minha conta.

            — Não é o fim do mundo, Simon. Já tem bastante tempo — ela suspirou novamente — Max faleceu quando tinha nove anos. Eu tinha o levado para um parque e me distraí. Ele foi para o meio da rua para buscar a bola que ele estava jogando e não ouviu quando o carro que vinha buzinou. Foi fatal.

            Os dois ficaram em silêncio por tempo demais, Simon absorvendo a informação e Isabelle dando a ele o tempo necessário. Então ele fez o impensável: ele pulou de sua cama e abraçou Isabelle de surpresa. Ele não pensou que ela fosse retribuir, mas os braços dela o cercaram, aprofundando o abraço.

            Eles perderam a noção de quanto tempo eles ficaram abraçados, mas Simon não se importava. Naquele momento, estar com Isabelle era o que importava, romântica e platonicamente. Parecia certo.

            Ele se separou dela, que fungava levemente, porém não tinha lágrimas nos olhos. Simon se perguntou como ela conseguia carregar aquele fardo, se ela não se sentia culpada pelo que aconteceu, como ela lidou com aquilo. Se ela estava bem. Mas ele não perguntou nada daquilo, pois ele sabia que teriam mais tempo depois e se ela quisesse desabafar com ele, ela iria.

            — Vá dormir, Simon. Amanhã é um dia cheio.

Ele voltou para sua cama e Isabelle apagou a luz. Dessa vez, ele apagou rapidamente.

(...)

— Qual o seu nome? — ele olhou para Isabelle enquanto ela traduzia rapidamente um dos jurados.

— Simon Lewis. — ele falou e gesticulou ao mesmo tempo.

            Eram quatro jurados na mesa e o da ponta olhou para Isabelle, que estava ao lado dele.

— E quem é essa? — ele perguntou.

— Essa é Isabelle, minha intérprete.

Isabelle e Raphael, o jurado, trocaram cumprimentos.

— Eu assumo que você seja surdo então.

— Sim — ele respondeu — Eu perdi a audição com seis anos

— E quantos anos você tem agora, querido? — a jurada ao lado de Raphael perguntou.

— Vinte e quatro, sou surdo há dezoito anos.

Ele já tinha passado por aquela pequena entrevista. Pela manhã, antes de Jocelyn e Luke chegarem, ele e Isabelle gravaram a parte onde Simon se apresentava para as pessoas e contava sua história para as pessoas de casa. Ele não contou tudo, foi bem breve, mas ainda assim Isabelle o olhou com uma cara desconfiada e disse que depois da apresentação eles conversariam. Ele não se importou, sentia que era hora de contar a Isabelle sua história de verdade.

— Se me permite perguntar, como foi que você ficou surdo?

— Eu tive meningite quando era mais novo. Não foi tratada a tempo, então eu tive a surdez como sequela.

Para ser sincero, ele não lembrava muito daquela época. Ele se lembrava de suar muito, e das dores que ele sentia, mas tudo era muito borrado em sua mente. Ele se lembrava de coelhos gigantes comendo alface, porém essa parte devia ser alguma alucinação.

Contudo, ele se lembrava de sua mãe chorando a beira de sua cama, parecendo sóbria pela primeira vez em muito tempo. Ele não sabia o que ela dizia, pareciam desculpas. Naquela hora, Simon já tinha perdido a audição e não sabia. Ele se lembrava de Rebecca, com oito anos, chorando baixinho.

Foi uma das últimas vezes em que a viu.

            — O que você vai cantar para a gente hoje, Simon?

            — Uma música que eu compus, se chama Grandes Esperanças.

            Os jurados indicaram que ele poderia começar e ele foi até o piano.

Aquela era uma música com muito significado para ele. Ele a compôs logo que começou a procurar por Rebecca nas redes sociais depois de anos, apenas para descobrir que ela tinha o bloqueado em todas possíveis. Ela não quer contato com você, disse o namorado dela.

 Garrafas quebradas no lobby do hotel, parece que só estou com medo de nunca sentir isso novamente. Eu sei que é loucura acreditar em coisas tolas, mas não é tão fácil.


            Sua mãe começou a beber um ano antes da doença de Simon, quando o pai dele morreu com um infarto. Ela costumava pedir para ele ou Rebecca pegarem uma bebida na geladeira para relaxar do dia puxado, mas depois de um tempo, toda hora era uma hora puxada para Elaine e ela perdeu o controle. Ela nunca foi violenta, apenas relapsa. Ela não cuidava nem de si mesma, como cuidaria dos filhos? Ela demorou a notar que Simon estava doente, mesmo com Rebecca implorando para que ela levasse o irmãozinho ao médico.

Mas eu tenho grandes esperanças, isso me leva de volta para quando nós começamos. Grandes esperanças, quando você deixa tudo para lá, sai e recomeça. Grandes esperanças, quando tudo chega ao fim. Mas o mundo continua girando.

Elaine, apesar de apelar que ela estava passando por tratamento, perdeu a guarda dos filhos. Simon foi morar com Jocelyn e Luke e Rebecca foi para outro estado morar com parentes distantes que não queriam ter que lidar com uma criança surda.

Simon não se ressentia com a mãe ou com seus parentes. Sua mãe estava doente e seus parentes proporcionaram a oportunidade de Simon conhecer Clary e ganhar uma família nova que o amava e apoiava apesar das dificuldades. Que o incentivou quando ele disse que queria aprender a tocar violão mesmo sendo surdo. Sua vida era boa e ele era grato por isso.

Ele procurou pela mãe quando fez dezoito anos e a ordem de restrição que ela tinha perdeu a validade. Ela estava bem, estava sóbria e trabalhava como advogada. Eles conversaram um pouco, mas algumas coisas estavam danificadas além de conserto. Ele tinha a desculpado, no entanto isso não significava que ele não a culpava pelo que aconteceu.

— E nos meus sonhos, eu conheço os fantasmas de todas as pessoas que já vieram e se foram. Memórias, elas aparecem tão rápido, mas deixam você tão cedo. Ingênuo, eu estava olhando para o cano de uma arma e eu acredito nisso.

Quando perguntaram para Simon porque ele queria participar do programa, ele tinha dito que era pelos alunos dele. Ele queria mostrar para cada criança que ele ensinava que era possível viver bem com a surdez e que eles podiam ser o que eles quisessem. Era apenas parcialmente verdade.

Simon queria atingir Rebecca. Ele sabia que ela estava bem e que queria esquecer de vez a vida que teve até ir morar com os parentes. Isso incluía a mãe bêbada e o irmão deficiente. Principalmente o irmão. Ele não a via desde quando fora morar com Jocelyn. Ele quis ficar com ela, mas Rebecca simplesmente o deixou sozinho.

Simon tinha esperança de que um dia eles fossem se falar de novo. Talvez um dia eles voltassem a serem irmãos.

Ele queria olhar para Isabelle e ver o que ela estava achando, mas ele sabia que tinha que focar para não errar o tempo da música, como eles ensaiaram muitas vezes.

— Grandes esperanças, isso me leva de volta para quando nós começamos. Grandes esperanças, quando você deixa tudo para lá, sai e recomeça — ele repetiu o refrão — Sim, e o mundo continua a girando. Sim, o mundo continua girando.

Ele se arriscou e olhou para Isabelle, que parecia estar chorando e limpava as lágrimas discretamente. Era engraçado como as coisas funcionavam, porque nos ensaios ela sempre ouvia e nunca demonstrou emoção nenhuma. Às vezes era porque dessa vez Simon cantava com todo o coração, deixando todas as suas mágoas e desejos se manifestarem em sua voz.

 O mundo continua dando voltas — ele encerrou a música tocando mais algumas notas e as afastando um pouco para ver as pessoas aplaudindo vigorosamente.

Os jurados aplaudiam de pé e Isabelle sacudia as mãos levemente, que era como as pessoas surdas aplaudiam.

Depois disso tudo foi um borrão.

Simon mal prestou atenção nos jurados fazendo suas críticas, ele estava preso em um estupor. Ele tinha conseguido. Ele cantou em rede nacional. Em nenhum de seus sonhos mais insanos Simon pensou que aquilo um dia aconteceria.

Ele foi aprovado. Teria que voltar para Los Angeles em uma semana para começar a disputa pelo prêmio. Cantaria na próxima fase do programa.

Aldertree o levou para o backstage, onde Jocelyn e Luke aguardavam com o apresentador do programa. Ele correu para os pais adotivos, abraçando-os com força.

— Eu estou tão orgulhosa de você, meu filho —Jocelyn sinalizou — Clary deve estar surtando em casa.

— Ela está com Jace — ele disse — Aposto que eles estão...

— Mais respeito com sua irmã, garoto — Luke disse — Você estava maravilhoso lá em cima.

— Obrigado. Eu nem acredito que eu fiz mesmo isso!

Eles conversaram mais um pouco até que Luke apontou para um ponto atrás dele. Simon se virou e deu de cara com Isabelle correndo na direção de deles.

Nem em um milhão de anos ele poderia prever que ela o beijaria.

Os lábios de Isabelle eram macios e quentes contra os dele, e ela o beijava como se eles já tivessem feito aquilo várias e várias vezes. Parecia natural estar com Isabelle. Simon colocou as mãos no rosto dela para trazê-la mais para perto e sentiu que ele estava molhado de lágrimas.

Quando eles partiram o beijo, Simon a encarou e não tinha tristeza nos olhos dela como ele imaginava. Os olhos de Isabelle estavam olhando para ele cheios de afeto.

A f e i ç ã o: apego; estima; carinho; ternura; admiração; amor. Na língua de sinais era reproduzido com as mãos fechadas e os braços cruzados batendo duas vezes contra o peito, quase simulando a batida do coração.

Simon descobriu que ele gostava de ser olhado daquele jeito por Isabelle. Ele esperava que ele estivesse demonstrando a ela a mesma coisa com os olhos.

— Uau — Simon sabiamente disse. Isabelle deu um soco em seu braço — Ai, sua maluca, por que fez isso?

— Você tem tanta coisa para me contar, Simon Lewis — ela disse e se virou para os pais de Simon — Olá, como vão vocês? Sou Isabelle, nova intérprete e futura namorada de Simon.

Namorada, é? Eu não estava sabendo dessa parte.

— Simon, cale a boca.

Vem calar, ele brincou pateticamente e Isabelle revirou os olhos.

— Temos que ir logo — ela olhou o relógio em seu pulso — Nosso voo sai ainda hoje à noite. Vocês voltam hoje para Nova York?

— Não — Luke respondeu — Vamos ficar um pouco, acompanhar Simon sem ter que ir e voltar de Nova York como malucos. Não é como se tivéssemos nada para fazer lá mesmo.

— E eu estou fazendo negócios com uma galeria aqui — Jocelyn complementou — Prefiro lidar com isso pessoalmente.

Boa sorte, Jocelyn. Ela agradeceu. No entanto ela ainda parecia machucada com o fato de que em quase vinte anos ele nunca fora capaz de chamá-la de mãe também.

Mais tarde, Simon e Isabelle estavam de volta no avião, ambos um pouco constrangidos com a situação. Simon queria beijar Isabelle de novo, mas não sabia como seria a reação dela. Ela poderia gostar, ou dar um soco nele e quebrar-lhe os dentes. Simon não queria arriscar.

Então, agora você tem que voltar comigo para Los Angeles mais algumas vezes. Ele disse.

Sim, ela respondeu, agora é esperar que Jace não leve a loja a falência.

E eu posso te levar a uns encontros também, já que agora você vai ser minha namorada.

Ela revirou os olhos e riu levemente.

Soa interessante. Posso me acostumar com isso.

Ele se inclinou e a beijou. A segunda vez parecendo ainda melhor que a primeira.

Simon não tinha tudo. Ele não convivia com sua família biológica, seus ouvidos eram um monde de cocô e frequentemente ele tinha que lidar com gente estúpida. Porém agora ele tinha pessoas incríveis a sua volta, estava em um reality show fazendo o que ele amava e de quebra tinha conseguido uma intérprete nova e possível namorada.

A vida podia ser bem pior.


Notas Finais




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