História Soundproof - Capítulo 14


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Categorias Red Velvet
Personagens Irene, Joy, Personagens Originais, Seulgi, Wendy, Yeri
Tags Irene, Red Velvet, Seulgi, Seulrene
Visualizações 197
Palavras 4.042
Terminada Não
NÃO RECOMENDADO PARA MENORES DE 18 ANOS
Gêneros: Drama (Tragédia), FemmeSlash, Ficção Adolescente, Fluffy, LGBT, Romance e Novela, Yuri (Lésbica)
Avisos: Álcool, Bissexualidade, Heterossexualidade, Homossexualidade, Insinuação de sexo
Aviso legal
Os personagens encontrados nesta história são apenas alusões a pessoas reais e nenhuma das situações e personalidades aqui encontradas refletem a realidade, tratando-se esta obra, de uma ficção. Os eventuais personagens originais desta história são de minha propriedade intelectual. História sem fins lucrativos, feita apenas de fã para fã sem o objetivo de denegrir ou violar as imagens dos artistas.

Notas do Autor


Primeiro de tudo, desculpem a demora, não ando nos melhores dias pra escrever. Segundo, esse capítulo tem pouquíssimo seulrene porque estamos entrando numa fase pra conhecer a personagem da Irene e como ela lida com as coisas que estão acontecendo na vida dela que vai ser muito importante pros próximos acontecimentos... Pra compensar, prometo tentar voltar o mais cedo possível.

Boa leitura <3

Capítulo 14 - Hasty Deductions


A manhã seguinte havia começado tão caótica quanto Irene esperava. Ver pessoas gritando, se empurrando e fazendo bagunça no refeitório não era uma novidade, mas talvez por ser o último dia de aula o tumulto parecia ainda maior.

Ela escolheu ignorar a iminente baderna, se concentrando no sanduíche que havia preparado antes de sair de casa, mas como era de se esperar, sua concentração não durou muito, pois logo que deu a primeira mordida uma figura familiar se sentou ao seu lado e tomou sua atenção.

— Krystal saiu mais cedo da Educação Física hoje. — Joy comentou casualmente, colocando sua bandeja ao lado de Irene. Ela nunca trazia lanche de casa desde que Irene a conhecera. Talvez por conforto, mas Irene não saberia dizer. — Soube que o nariz dela estava feio. Mais do que o seu até. — E apontou para o nariz de Irene, onde somente um leve tom arroxeado se fazia visível devido ao tempo. Ela arqueou a sobrancelha divertida, esperando que Irene percebesse o que ela estava insinuando.

Irene decidiu desconsiderar sua presença, esperando que ela fosse embora após soltar a informação que desejava, mas a morena permaneceu onde estava, começando a comer o lanche que havia comprado. Irene parou de mastigar no mesmo instante, encarando Joy com a maior expressão de choque que conseguia fazer na esperança de que a mais nova percebesse o quanto ela estava achando aquilo no mínimo esquisito.

Não era possível que Joy estivesse sugerindo que ela havia dado retorno à Krystal. Ou era?

Joy, porém, continuou impassível, fingindo não perceber a encarada sem pausas de Irene. Ela suspirou depois de alguns instantes, percebendo que teria que falar mais se esperasse que a mais baixa realmente a perdoasse.

— Próxima semana eu vou dar uma festa na minha casa e eu gostaria que você fosse. Vai ser como... — pensou por alguns segundos, a boca cheia ocupada em mastigar enquanto ela sinalizava. — Umas boas vindas às férias. — Ela nomeou, deixando seu lanche de lado e colocando ambos os cotovelos em cima da mesa.

Irene torceu o nariz. Ela sabia de diversos comentários e opiniões a respeito das festas de Joy, de como ninguém que ia se arrependia e até aquele momento nunca havia se imaginado presente em nenhuma delas. No entanto, Joy estava a encarando com uma seriedade que não deixava espaço para questionar se era ou não uma brincadeira de mau gosto e à essa altura ela não sabia em quem acreditar. Se na garota à sua frente, ou em sua mente insegura.

— Por quê? — Irene questionou timidamente.

Joy apenas deu de ombros.

— Eu só acho que seria legal que você fosse. — Ela esclareceu. — Não convidei muita gente. Eu tive uma conversa séria com alguém e percebi que algumas amizades simplesmente... Não valem à pena. — Joy continuou, dessa vez encarando Krystal novamente enquanto ela caminhava para dentro do refeitório com a cabeça erguida apesar do enorme curativo que estampava sua face. — Além disso, eu acho que...

— Não, eu não me referi a isso. — Irene interrompeu, ainda confusa. Joy parou o que dizia no mesmo instante, encarando a mais velha com uma linha em sua testa. — Eu queria saber... Por que você está sendo gentil comigo?

Joy engoliu em seco com a pergunta, sentindo um nó maior ainda se formar em sua garganta. Ela sabia que não havia sido sua melhor versão nos últimos anos, mas vendo de primeira mão o quanto Irene parecia vulnerável em sua frente, com os olhos brilhando em um claro e evidente sinal de nervosismo, ela sentia seu coração quase doer.

Como poderia ter sido tão insensível com a única amizade que podia confiar além de Wendy? Tudo por conta de um erro de interpretação mesquinho e irresponsável ainda mais, parecia um absurdo ver isso agora.

— Eu já disse que me arrependi, Irene. — Joy respondeu. — Pelo que houve no banheiro também, eu me esqueci de desculpar por aquele dia. — Ela admitiu, dessa vez parecendo mais indecisa. Irene estava surpresa. Não se lembrava de ter visto Joy desse jeito antes. — Eu realmente não queria falar nada demais naquele dia além te desejar boa sorte, mas meu subconsciente falou mais alto eu acho. Talvez pelo costume.

Joy mordeu o lado interno de sua bochecha com aquilo, se martirizando em segredo. Era repugnante até mesmo pensar em como havia se acostumado a ser cruel com alguém que não tinha más intenções desde o início.

— Ok. — Irene respondeu com um simples sinal, não sabendo se tinha forças para fazer mais do que isso.

Joy uniu suas sobrancelhas, estranhando em como Irene havia cedido tão fácil. Claro, ela sempre foi uma pessoa empática e sempre havia a perdoado fácil quando ela errava, mas isso tinha acontecido anos atrás. Ela não esperava que Irene ainda fosse tão compreensiva assim.

— Ok? — Joy questionou com um leve sorriso, quase incrédulo. Irene apenas meneou a cabeça para confirmar, não confiando nas próprias mãos. Provavelmente estava tremendo de ansiedade. — Posso perguntar o que te fez ceder tão rápido? Você parecia bem irredutível antes.

— Talvez eu também tenha tido uma conversa séria com alguém e tenha percebido que às vezes é bom perdoar. E ser perdoada também. — Ela deixou no ar, se esforçando para sorrir de leve.

Joy sorriu, parecendo um pouco aliviada.

— Você não precisa ser perdoada porque não fez nada de errado, sabe disso, não sabe? — Ela questionou, um pouco preocupada.

Irene não pareceu convencida, mas não queria ter aquela discussão.

— Eu posso levar alguém? — Ela perguntou ao invés de insistir. — Para a festa.

Joy assentiu rapidamente.

— Claro, sinta-se à vontade.

Irene balançou a cabeça por reflexo.

— Eu tenho aula daqui a pouco, então preciso ir. — Joy disse, se despedindo e se levantando da mesa. Irene percebeu que ela deixou metade do seu lanche para trás e por reflexo entortou o nariz de leve, desaprovando a ação. — Claro, claro. Acho que algumas coisas nunca mudam mesmo. — Joy logo percebeu, sorrindo e pegando o resto da comida que havia deixado. Irene costumava reclamar o tempo inteiro que ela não deveria desperdiçar comida.

Joy acenou uma última vez, levantando-se da mesa definitivamente e parecendo se lembrar de algo de repente, ela encarou Irene outra vez.

— Quase esqueci. — Ela comentou, mais para ela mesma do que para Irene. Joy pegou um pedaço de papel que estava no seu bolso e colocou na mesa. — Te vejo depois. — E saiu, deixando Irene para trás com uma expressão confusa.

A garota pegou o papel rosa sem muita certeza, confusa sobre o que poderia ter escrito, mas sem conter sua curiosidade. Ela o desdobrou sem pressa, percebendo que era apenas o endereço da casa de Joy e todos os detalhes que ela precisava saber sobre a festa. No entanto, em letras menores e em um lugar mais reservado da folha, Irene viu um número de contato que duvidava ser o de Joy, até porque o dela estava em uma letra maior e na parte de cima. Olhando com mais atenção, Irene percebeu que embaixo do número, o nome ‘Wendy’ estava escrito.

Talvez aquele fosse o jeito torto de Joy sugerir que elas deveriam conversar quando Irene se sentisse pronta. Soltando um ar que não sabia prender, Irene redobrou o papel e o colocou no bolso novamente. Pensaria nisso mais tarde.

//

As bordas do papel rosa já estavam amassadas e desgastadas quando Irene chegou na porta de sua casa. Apesar do curto período de tempo que levava de sua escola até sua residência, o nervosismo não deixara Irene em paz durante todo o percurso e sem que percebesse, seus dedos não ficaram inquietos um minuto sequer enquanto segurava o pedaço da folha.

Ela encarou o objeto em sua mão, pensando no número extra anotado e o que Joy pensava que ela deveria fazer com aquilo. Decidindo mais uma vez ignorá-lo por algum tempo, Irene o devolveu ao bolso, de onde acreditava que não deveria ter saído para início de conversa, e alcançou a sua mochila para pegar a chave de casa. Porém antes que pudesse colocá-la na fechadura, ela conseguiu ver que a porta não estava realmente fechada, apenas mal encostada, e esperando pelo pior, a empurrou com passos hesitantes.

Não havia nenhuma cena dramática, diferente do que ela esperava. Nem garrafas espalhadas ou cheiros suspeitos como havia se tornado costume. Pelo contrário, tudo parecia calmo demais, até mesmo a figura próxima à parede mais distante da entrada.

Franzindo o cenho, Irene tentou entender o que havia de errado e porque sua mãe parecia tão apática ao mesmo tempo em que aparentava tão frágil ao abraçar seus joelhos no chão da sala de estar.

Ela se aproximou com passos cuidadosos, esperando alguma reação, mesmo que mínima, mas não havia nada.

— Mãe? — Irene chamou devagar, esperando que a Sra. Bae a olhasse, mas seus olhos ainda estavam distantes. Pela distância que estavam ela já conseguia ver os lábios ressecados e cortados, as pupilas dilatadas e as mãos trêmulas da mulher.

Quando sua mãe bebia ela ficava instável, violenta e muitas vezes delirante. A mulher à sua frente, quieta e não responsiva, parecia estranhamente sóbria. E pelas reações parecidas com as de uma abstinência alcoólica, Irene deduzia que sua sobriedade já durava alguns dias. Talvez por isso tivessem se visto tão pouco ultimamente.

— Mãe, está tudo bem? — Ela insistiu um pouco mais alto e pareceu ter funcionado, porque em poucos segundos os olhos castanhos tão semelhantes aos seus estavam nela.

Sra. Bae continuou calada, as sobrancelhas unidas no meio da testa. Irene se aproximou, ajoelhando-se ao seu lado e tocando a testa da mulher à procura de algum sinal de doença.

— A senhora está queimando de febre. — Ela declarou, não conseguindo evitar a preocupação em seu tom de voz. Apesar de tudo, ainda era sua mãe.

Ela se esforçou para levantar a mulher como fizera tantas outras vezes, mas havia se esquecido que apesar de ainda fraca, sua mãe ainda estava sóbria e não seria tão fácil assim. Quando estava quase conseguindo erguê-la, as mãos da Sra. Bae pousaram em seus ombros em um pedido silencioso de que a deixasse naquele lugar.

Irene cedeu, descansando em seu lugar e observando a mulher piscar lentamente. Seu peito doeu quando a viu descansar a cabeça em seu ombro, respirando com dificuldade antes de levantá-la outra vez e sinalizar com fraqueza.

— Joohyun... Sinto que estou perdendo o controle. — Ela disse, fraca e cansada.

Irene franziu o cenho, sem entender porque ela estava dizendo aquilo. Há tempos pensava que a mulher já tinha perdido o controle.

— Eu sinto tanto, Joohyun. — Ela continuou, mais delirante à medida que continuava a sinalizar. — Tudo tem se tornado borrões e eu... — Respirou fundo, parecendo perder suas palavras. — O que você fará, Joohyun? Eu já falhei tanto... O que você fará caso eu perca o controle de uma vez por todas?

Irene engoliu em seco, prendendo as lágrimas que nem percebera se acumulando. Prendendo uma mecha dos cabelos pretos de sua mãe atrás da orelha, Irene fitou os olhos sem brilho e dilatados. O rosto enrugado que já não carregava nenhuma expressão.

Sem saber o motivo, Irene a abraçou, tentando fazer sentido em sua mente do que estava acontecendo. Ela sentiu os dedos de sua mãe vacilarem na base de suas costas e a apertou mais ainda contra o próprio tórax, querendo tirar aquela angústia do peito da mulher tanto quanto do seu.

— Sabe que eu assumo por nós duas. — Sussurrou com esforço, tentando descobrir se queria convencer sua mãe em meio ao desespero, ou se ela mesma.  

//

Os dedos finos bateram trêmulos na porta da casa, forçando o contato com a madeira e fazendo as juntas da garota doerem um pouco pela força exagerada que havia exercido. Havia sido tão tomada pelo impulso que Irene sequer percebeu que talvez tenha sido exagerada e provavelmente fizera mais barulho do que esperava.

Ela tentou não dar atenção a isso, sentindo a ansiedade acumular na boca de seu estômago. Estava sendo assim nos últimos dias, uma sensação estranha de que algo estava fora do lugar e ela precisava com urgência descobrir o que era. O acontecido de poucas horas atrás apenas contribuindo para a situação piorar.

Para Irene, a única constante que tinha era Seulgi. Em meio a essa bagunça que sua mente assustada estava imersa, ela era a única que parecia ser capaz de diminuir aqueles pensamentos paranóicos de que algo daria errado e aquela preocupação. O medo de Joy estar a enganando, o medo de sua mãe se afastando da realidade, até medo de Seulgi estar enganada com o que sentia. Mas mesmo assim, ela ainda era única constante.

Alguns dias atrás, elas estavam enroladas embaixo dos lençóis de Seulgi enquanto Irene tentava, pelo que parecia ser a milésima vez e obviamente não a última, explicar para a mais nova sobre sua saga favorita sem rodeios. Naquela noite, fingindo estar caindo no sono, Seulgi deslizara sua mão para a cintura de Irene, trazendo-a para mais perto. Apesar da noite quente, ela podia sentir a ponta gélida dos dedos de Seulgi entrando em contato diretamente com sua pele e não conseguiu deixar de pensar que apesar de ser algo mínimo, significava muito para Seulgi. Um sinal palpável de que ela estava disposta a ultrapassar algumas barreiras que a incomodavam para que Irene soubesse que ela realmente queria tentar. Ou assim Irene pensava, porque aquelas tantas dúvidas, ela já não tinha certeza de mais nada.

Irene juntou suas mãos atrás das costas, mexendo inquieta em seu lugar quando percebeu que estava esperando há mais do que era esperado. Até pensou em bater mais uma vez, mas logo percebeu a maçaneta rodando devagar para que a porta se abrisse, revelando a Sra. Kim com uma expressão cansada e confusa.

— Irene, o que faz aqui essa hora? Não deveria estar na escola? — A mulher perguntou, suas sobrancelhas unidas no meio da testa deixando evidente que não entendia o motivo da garota aparecer em sua casa nesse horário. Especialmente com aquele olhar perdido.

Irene engoliu em seco, parecendo analisar o que responderia antes de erguer suas mãos trêmulas e se forçar a sinalizar algo.

— Seulgi está? — Ela perguntou devagar, ignorando as perguntas da Sra. Kim sem perceber e se esforçando para fingir que não havia nada de errado. Mas isso estava se tornando difícil quando aquela agonia e preocupação se misturavam em seu estômago, subindo por sua garganta e se tornando tão intensos que ela sentia que seria sufocada.

A Sra. Kim não pareceu surpresa, apenas não entendia o motivo da visita repentina. Mesmo que soubesse que sua casa era praticamente a segunda casa de Irene.

— Na verdade não. Ela me disse que voltaria um pouco mais tarde. Despedida do time, pelo que soube. — Ela respondeu, analisando o comportamento diferente de Irene e se questionando o que poderia ter acontecido. — Está tudo bem?

Irene estava pronta para dizer sim, mas por alguma razão, os olhos suaves da mulher que tanto lhe rememorava a figura materna que nunca teve a impediram e ela se sentiu congelada no lugar. Debatendo se deveria ou não incomodá-la com algo que ela poderia facilmente julgar como insignificante.

— Você quer entrar e me contar o que te incomoda? — A Sra. Kim perguntou, tomando cuidado para deixar Irene livre para decidir o que faria e não pressioná-la.

Ela viu o momento que Irene assentiu cuidadosa, como se ainda pensasse se realmente deveria, mas não parecendo disposta a ceder. A Sra. Kim se afastou da porta e a menina de cabelos pretos entrou na residência que lhe tanto era familiar sentindo um ar estranho. A sensação de estar ali sem Seulgi era diferente, mas não deixava de ser confortante.

Irene se sentou no sofá de couro e a Sra. Kim fez o mesmo, dando o tempo que a mais nova precisava para organizar seus pensamentos.

— As coisas estão... Confusas. — Irene afirmou, uma espécie de dor que a Sra. Kim lembrava claramente de ter presenciado em outras ocasiões. Pela primeira vez anos atrás, através dos olhos de uma garota beirando os oito anos de idade.

Irene pareceu não saber como continuar, sua cabeça rodando enquanto ela analisava e procurava saber o que fazer em seguida. Do que adiantava querer ajuda quando não sabia pedi-la?

— Em casa? — A Sra. Kim perguntou ao perceber que Irene estava tendo dificuldade em formular uma frase coesa.

— Também, mas... Acho que mais do que isso. — Irene continuou. Correu os dedos pelos cabelos, incerta do que deveria fazer quando notava a mulher mais velha encarando-a com tanta afeição e preocupação. Nunca havia recebido um olhar tão maternal antes.

A Sra. Kim percebeu o quanto Irene parecia duvidosa de suas próprias palavras e mordeu os lábios. Durante todos os anos trabalhando como assistente social e se voluntariando em diversos projetos para beneficiar quem mais precisa, ela nunca encontrou algum caso tão interessante quanto o de Irene. Pensava que não era justo uma criança como ela ter recebido tanto do lado ruim da vida ainda tão cedo e após ter consciência de sua situação em casa, o que mais desejava era poder fazer algo a respeito.

— Como a senhora se sentiria se alguém que te machucou voltasse de repente na sua vida? Pedindo perdão... — Irene foi direta, temendo que se cortasse no meio da frase e não terminasse de dizer o que queria.

A Sra. Kim parecia ter sido pega de surpresa, questionando-se sobre quem a morena estava se referindo.

Ela então refletiu mais uma vez quem poderia ser essa pessoa. Sabia que seu pai havia ido embora há anos e se lembrava brevemente de como ela ficara devastada ao perder suas duas únicas amigas alguns anos atrás.

— Se refere à Joy? Ou à Wendy? — Sra. Kim perguntou, escolhendo a segunda opção.

Sem olhar diretamente para ela, Irene assentiu.

— E se... — Mordeu o lábio, sentindo-se fraca para continuar a sinalizar. — E se Joy estiver pregando uma peça ou algo assim? Porque eu também a magoei. Seria justo caso ela quisesse revidar.

A Sra. Kim foi rápida em negar.

— Não tire conclusões precipitadas, Irene. Sabe que precisa conversar com ela. — A mulher disse sem rodeios. — E não se culpe tanto. Independente do que você tiver feito, não seria justo que ela revidasse. Ninguém merece isso.

— Seulgi disse a mesma coisa. — Irene sentiu seus ombros caírem um pouco. — É só... Estranho.

Ela coçou sua nuca, parecendo sem jeito.

— Eu ando preocupada com a minha mãe também. — Irene adicionou, fitando os olhos da Sra. Kim novamente. — Eu quase não a vi nos últimos dias e hoje ela voltou, mas estava diferente. Sóbria. Eu fiz uma promessa a ela, mas não sei se...

— Sua mãe não é sua responsabilidade. — A Sra. Kim soltou a verdade bruta, em partes imaginando que promessa teria sido essa e já esperando que Irene discordasse, mas pela primeira vez a garota ficou calada. — Você não pode se culpar pelo que ela faz ou não, Irene.

— Mas ela precisa de mim. E eu sou tão fraca, não sei se consigo... — Irene tentou, mas as palavras pareciam sumir à medida que ela falava mais.

— Você não é um caso perdido, sabe. — A Sra. Kim declarou de súbito, pegando Irene de surpresa por não saber que ela levaria nessa direção. Mas bem, há quase uma década ela conhecia a garota e esteve presente durante os momentos mais cruciais de seu crescimento. Ela supôs que o tempo havia feito a Sra. Kim perceber algumas coisas sobre ela também. — Você tem o costume de acreditar tão pouco em si mesma... Às vezes, eu sinto que você pensa demais em situações irreais e em certo ponto isso pode ser prejudicial.

— Eu sei. — Irene admitiu em uma voz baixa, imaginando se teria soado tão pequena e frágil quanto pensou.

A Sra. Kim a olhou simpática, correndo os dedos pelas costas da garota sentindo o próprio coração na mão.

Conhecia Irene há alguns anos e se lembrava claramente da figura frágil da garota aos oito anos de idade, correndo de um lado para o outro pela rua enquanto procurava alguém que pudesse lhe explicar porque sua mãe havia sumido por dias. Sra. Kim a agasalhou na noite fria e a levou para seu escritório, dando o máximo de apoio que seus bens limitados permitiam. Olhando para a adolescente que a menina se tornou, Sra. Kim pensou que não havia muita diferença entre aquela versão de Irene e a atual. Ela ainda aparentava um pouco perdida, talvez apenas por motivos diferentes.

Tinha uma ideia do que podia ser, mas até então, esperava uma confirmação direta da fonte. Nesse caso, a fonte podendo ser tanto Irene quanto Seulgi.

— Só tem que tomar cuidado para que esses seus pensamentos não te perturbem no futuro. Para evitar sofrer por antecedência. — A Sra. Kim prosseguiu, continuando a acariciar as costas de Irene.

Irene a encarou, se perguntando se por algum motivo a Sra. Kim tinha alguma ideia do que a incomodava.

— Você ainda é nova, Irene. Vai quebrar a cara muitas vezes. — A Sra. Kim afirmou indiferente. — E você sempre vai ter um lugar para correr quando isso acontecer.

Ela fez um gesto breve rodeando a sala de estar, querendo deixar claro que gostaria que Irene se sentisse em casa por mais que já acreditasse que isso já acontecia.

Por um breve momento e não pela primeira vez, Irene se sentiu mais do que acolhida.

//

Irene cambaleou de súbito quando pisou dentro de sua casa outra vez no mesmo dia, sendo recebida com uma escuridão que já lhe era familiar pela constante falta de energia. Ela suspirou, sentindo-se mais uma vez negligente por perceber que havia provavelmente esquecido de pagar a conta mais uma vez.

Pegando seu celular do bolso traseiro, Irene iluminou com a lanterna do eletrônico a sala de estar e tentou subir as escadas até o andar de cima, tão escuro quanto também já era de se esperar.

Sua mãe não estava em nenhum lugar à vista e acostumada com a situação, ela não se preocupou muito em pensar no motivo. Não sabia se ela estava no trabalho ou se havia saído para onde quer que ela tenha passado os últimos dias.

Tentando não insistir nesses pensamentos incômodos como a Sra. Kim havia sugerido que ela fizesse, Irene se jogou em sua cama e desligou a lanterna do celular, pronta para usá-lo.

Suas sobrancelhas se uniram no meio de sua testa quando ela percebeu algumas mensagens de Seulgi que ela não tinha visto antes assim que o desbloqueou. Depois que saíra da casa da garota porque a Sra. Kim disse não saber a hora que ela voltaria, Irene decidira que por mais que sentisse que precisava conversar com sua melhor amiga mais do que tudo, ser melhor dar um pouco de espaço a ela. Voltaria outro dia e usaria o restante daquele para dar uma volta pela cidade.

Irene clicou na notificação sem demoras e leu as mensagens com uma espécie de agonia confinada em seu peito.

“A Sra. Kim me ligou e disse que você foi me procurar. Está tudo bem?”

“Me desculpa não ter te avisado antes, as garotas do time pediram para eu ficar mais um pouco. Não sabia que demoraria tanto.”

Irene encarou as mensagens por alguns segundos, prestes a digitar algo quando percebeu que Seulgi também tinha começado a digitar algo. Ela parou no mesmo instante, esperando.

“Minho me chamou para sair com ele agora, então se eu não responder na hora é por isso. Podemos nos ver amanhã? Me desculpa :(“

Soltando uma risada sem humor, Irene se sentiu afundar mais ainda em sua cama.

Mas é claro. Ela estava com Minho.

Depois da conversa que tiveram voltando da reserva ela esperava que as coisas fossem mudar, mas aparentemente não seria tão fácil assim. Não quando Irene ainda não tinha certeza da posição de Seulgi.

Não era possível que ela acreditasse que todos os flertes de Irene fossem tão platônicos assim. Ou seria? Irene não fazia ideia. Especialmente por ter uma noção do quanto Seulgi era terrivelmente alheia aos próprios sentimentos ou aos dos outros.

Encarando a tela do celular por mais alguns minutos, Irene não se preocupou em responder as outras mensagens. Guardando toda amargura que sentia para si mesma, ela foi rápida em digitar uma resposta.

“Se divirta. :)”

Tanto por não sofrer por antecedência. Aparentemente não adiantaria nada agora.

 

 


Notas Finais


Críticas e xingamentos nos comentários, até o próximo!


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