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História Spectros - A invasão - Capítulo 3


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Notas do Autor


"E assim, desperto de uma profunda escuridão
Não há ira, lagrimas ou solidão.
Apenas a sombra de uma vida já esquecida
E uma nova, etérea, que rubra florescia"

Capítulo 3 - Após a Morte


Fanfic / Fanfiction Spectros - A invasão - Capítulo 3 - Após a Morte

Muitos não acreditam na vida após a morte... E ela realmente não existe. Uma vez que seu cérebro deixa de funcionar, sua consciência se desfaz e você deixa de existir. Suas memórias fragmentam-se e não resta mais nada além de um corpo vazio. Nós, porém, não nos limitamos ao plano terreno para viver. A humanidade nunca foi capaz de compreender o que somos, apelidando a mim e aos meus irmãos de Fantasmas.

Uma reencarnação maldita das pessoas que se foram durante a invasão, embora não seja verdade. Tudo que nós fazemos, nossa existência resume-se à ciência. Consciência, é isso que somos. Milhares delas para ser exata. Nós podemos sobreviver durante milhares de anos, apenas viajando pelo universo, até encontrarmos um lugar, um novo corpo para ocupar.

Eu já vivi inúmeras vidas, mas sinto como se essa fosse a primeira. Essas sensações, as lembranças que me invadem, nunca senti nada como isso. É aterrorizante e excitante, de certa forma. Este corpo - "o meu corpo", lembrei-me - era muito maior que qualquer outro que já estive. Tive que percorrer todo o caminho e esticar-me para alcançar todos os tendões e terminações nervosas que se estendiam ao longo dos membros.

Era difícil controlar meus movimentos, no início. Precisei primeiro instalar-me no cérebro, absorvendo cada lembrança e cada comando que ele já entendia. Eu precisava me tornar aquele ser e isso nunca era fácil... Quando finalmente assumi o corpo como sua nova consciência, não ousei tentar me mover. Lembrava-me perfeitamente do que meus irmãos haviam me contado sobre esses seres e sobre seu planeta. Sabia que seria melhor vasculhar a minha nova mente ao invés do corpo e acostumar-me aos poucos.

Mas, havia algo errado.

Eu podia sentir isso. Parecia que faltava uma parte de mim, alguma coisa que se perdeu no processo. Não poderia ser uma falha, porém - nós nunca falhávamos. Esperei vários minutos até que meus olhos, recém abertos, se acostumassem com a luz branca que quase me cegava. Era quase irônico eu sentir-me incomodada com a luz, afinal era disso que eu era feita.

- Seja bem-vinda, irmã - uma voz doce e saudosa ressoou ao meu lado.

Consegui ver a forma de uma mulher, ainda um pouco embaçada. Ela tinha longos cabelos negros, trançados para trás. Ela usava roupas brancas que pareciam misturar-se com a sala no mesmo tom. Conforme os detalhes tornavam-se mais nítidos, reparei que havia algumas sardas em seu rosto, formando pequenas constelações. Algumas poucas rugas indicavam uma idade já avançada, talvez quarenta, não saberia dizer. Mais o que mais chamava atenção eram os seus olhos que pareciam alternar entre âmbar e negro dependendo do ângulo em que se observava.

- Fique calma - tranquilizou-me ela. - Os olhos humanos não são como os das outras espécies. Precisará de um tempo até que se acostume. Consegue falar?

- Sim... - disse minha primeira palavra nesta vida. Ouvi a minha própria voz reverberando pelas cordas vocais tão semelhante quanto nas lembranças que tinha e não pude conter um sorriso, este era o primeiro ser capaz de emitir sons desta forma em que eu já vivi.

- Perfeito - respondeu a mulher, acompanhando meu sorriso. - E como estão seus músculos? Consegue se mover?

Senti os dedos dela tocando as costas das minhas mãos com delicadeza. Eu ainda estava deitada, sob um leito de hospital. Eu era capaz de sentir o tecido fino dos lençóis de seda cobrindo meu corpo nu até a altura dos seios. Meus braços estavam por cima, esticados do lado do meu corpo. Não havia nenhuma cicatriz neles, apesar das várias marcas que minhas memórias insistiam em me mostrar, marcas que um dia já estiveram ali.

- Consegue sentir isso? - perguntou ela mais uma vez.

Eu apenas acenei com a cabeça, um pouco atordoada com as lembranças do meu próprio sangue fluindo através dos cortes que só existiam nas minhas memórias.

- Tente se sentar - pediu a mulher, ajudando-me a levantar meu torço e acomodando minhas costas contra a cabeceira da cama. - Sente-se bem? Não está tonta?

- Não, estou bem - disse, embora ainda sentisse um pouco de náusea. Não era comum que nos fizessem tantas perguntas ou que precisássemos de alguém para nos ajudar durante o despertar. Geralmente, sabíamos exatamente o que fazer, nada de tontura ou dor, apenas acordávamos de um sono profundo.

- Certo - a mulher pareceu satisfeita com minha resposta e a vi pegar o que parecia ser uma prancheta de cima da escrivaninha que estava ao lado da cama. - Estou certa de que já ouvira falar da Terra antes de vir para cá, não é?

- Apenas rumores - disse insegura.

- Não precisa se acanhar - acalmou-me ela com um sorriso brando. - Nós sabemos bem o quando as consciências podem ser curiosas quando se trata de novos planetas. Ainda mais em um tão desenvolvido quanto à Terra. Pode ser sincera em dizer como está se sentindo.

- É... - comecei procurando palavras para descrever tudo que acabei de ver, das memórias que estão aqui e das que não estão, porém tudo que consegui dizer foi uma única palavra - Confuso.

- Imagino que sim - desta vez a expressão dócil da mulher tornou-se pesarosa. - A vida que esse corpo teve antes de ser assimilado pelos nossos sentinelas não foi fácil... Diga-me, como prefere ser chamada? O nome Elisabeth ainda lhe agrada?

"Meu nome". O nome antes do despertar. O mesmo que estava naquelas lembranças infelizes... Estremeci apenas por ouvi-lo. Não, aquele não seria mais o meu nome. Tentei buscar nas minhas memórias, aquelas que tinha antes de vir para Terra, dos outros mundos no qual estive. Não era certo fazer isso, eu sabia, normalmente preferíamos esquecer as outras vidas que tivemos antes da nova, porém eu precisava encontrar uma rota de fuga para toda àquela tortuosidade que me invadia.

Minha última vida era a única ainda fresca em minha curta memória. As consciência não tinham tanto espaço para guardar informações precisas em nossas mentes. Lembrávamos apenas do que era mais importante e crucial para nossa sobrevivência. Todas as memórias que criávamos por nós mesmas, deixávamos para trás assim que partíamos para uma nova vida. Vivíamos apenas das memórias de nossos corpos e nada mais...

O planeta em tons de carmim surgiu aos poucos na minha mente. Nós não enxergávamos como os humanos, não havia formas ou luz, apenas cores. Milhares delas. Que eram sentidas e não vistas. O ser que eu era, não media nem mesmo um quarto do tamanho de um ser humano. Não pronunciávamos palavras tão pouco. Meu nome seria ininteligível neste planeta. Soava como pura, delicada, eterna ou divina... Procurei palavras no curto vocabulário que conhecia e uma delas tornou-se tão clara quanto minha própria luz:

- Etérea - disse em voz alta, gostando da sonoridade que tinha -, este é meu nome.

- Uma escolha curiosa - observou ela. - Eu sou Amélie, serei aquilo que chamam de médica aqui para você. Já deve estar familiarizada com o termo, afinal já deve ter vasculhado as memórias deste corpo...

Ela fez uma pausa repentina ao mencionar isso, como se algo a tivesse aborrecido.

- Sim, eu o fiz - respondi hesitante. - Mas há algo errado...

- É claro que há! - ela exclamou de forma exaltada, parecia realmente incomodada com a situação. - Eu espero que saiba que era contra essa ideia, porém fizemos isso por um bem maior. Normalmente, uma situação como essa seria acompanhada de sentinelas, mas eu pedi para que não lhe perturbassem durante seu despertar. Sabia que precisaria de tempo até que estivesse habituada.

- O que quer dizer com "situação"? - perguntei sentindo um nó em meu peito. Parte de mim já sabia o que estava por vir, aquelas lembranças diziam muito sobre.

- Bem, este corpo pertenceu a um dos humanos "selvagens", por assim dizer - continuou ela com a maior calma que conseguia manter devido às circunstâncias. - Antes de ser assimilada pelos sentinelas, Elisabeth permaneceu foragida por quase oito meses, junto a um grupo de selvagens. Tentamos resgatá-la quando invadiu um prédio residencial, porém ela atirou na própria cabeça quando foi encurralada pelos nossos sentinelas.

Amélie tentava não me assustar, tentar não se aprofundar nos detalhes ruins que ainda eram claros nas minhas últimas lembranças. Eu apenas a escutava, sem interrompê-la, ainda que minhas expressões denunciassem a aflição que aquelas palavras causavam em mim.

- Apesar disso, o tiro não teve tempo o suficiente para tirar sua vida, pois foi imediatamente assimilada pelos nossos sentinelas. - Ela respirou fundo ao continuar. - Nosso sistema de assimilação e clonagem, porém, detectou diversos danos no cérebro que afetavam as memórias do corpo e havíamos decidido que não seria habitável para uma consciência...

- Mas por que eu estou aqui então? - questionei sentindo uma emoção forte tomar conta de mim. Raiva, indignação? Não sabia dizer ao certo qual era. - Por que me colocar em um corpo defeituoso?

- Isso não será permanente, eu lhe asseguro - tranquilizou-me Amélie imediatamente. - Esta vida, passará em um piscar de olhos, acredite. Logo poderá passar para seu próximo corpo, há dezenas de humanos assimilados em nosso inventário prontos para serem rematerializados e ocupados por uma nova consciência. Porém você foi convocada.

A palavra pareceu ecoar em minha mente. Já ouvi falar de consciências que eram postas em corpos apenas para buscar informações ou passarem-se por pessoas que ainda não haviam sido assimiladas para viver entre os selvagens e estudá-los. Mas isto acontecia apenas no início da invasão, quando os habitantes eram hostis e difíceis de controlar, não depois de tanto tempo e eu nunca havia sido uma das convocadas.

- Você viveu muitas vidas até chegar aqui, Etérea - explicou-me Amélie. - Sabemos que nunca participou diretamente de uma invasão, porém acreditamos que seja a mais experiente em lidar com formas de vidas tão voláteis. Seu sistema de adaptação é louvável. Acreditamos que, se ficar tempo o suficiente neste corpo talvez consiga reconstruir as lembranças e até mesmo reparar os defeitos.

Ela fez uma pausa esperando alguma reação minha, porém eu não tinha palavras para expressar o que sentia. Eu nem mesmo entendia... É claro que se eu não quisesse não precisaria ficar neste corpo defeituoso, porém ninguém jamais ignorou uma convocação. Isso era uma honra. Era meu dever como consciência servir a um bem maior, o melhor para todos. Eu não podia recusar.

- O que precisam que eu encontre? - perguntei, sentindo náusea só de pensar em tentar desbravar aquelas lembranças dolorosas outras vez.

- Não precisa fazer isso agora - Amélie pôs uma das mãos em meus ombros, como que tentando relaxar-me, porém eu já estava longe disso. Tinha desperto e queria começar minha nova vida o mais breve possível. Não em meu cargo como convocada, mas em um novo corpo, um não defeituoso e, para tal, precisava encontrar o que eles queriam. - Deve descansar, sua transição foi abrupta demais. Talvez possamos começar amanhã com a busca. Até lá, seria melhor...

- Não - interrompi-a de forma branda -, estou bem. Quero ajudar no que for preciso.

- E você ajudará - assegurou ela -, mas ainda não está pronta para tal. Uma consciência, em condições normais, com um corpo em perfeito estado, demora cerca de três a quatro dias para habituar-se com todos os comandos.

"Três a quatro dias" repeti o período tentando entendê-lo. Em minhas memorias, encontrei diversos rótulos de tempo: semanas, meses, anos. Eram todos contados a partir de ciclos, números de voltas no sol, quantas luas passaram-se... Era muito tempo para a adaptação. Os humanos eram realmente as criaturas mais complicadas que já vi, isso tinha que admitir.

Dando-me por vencida, apenas concordei com Amélie. Ela tinha razão, eu precisava de tempo para assimilar tudo aquilo. Nunca pensei que seria colocada em um corpo selvagem e era realmente angustiante passar por isso. Eu ainda podia sentir o amargor e a tristeza que habitavam naquelas memórias. Precisava me preparar para o que quer que os sentinelas fossem pedir.

Com um suspiro, voltei a fechar meus olhos e a remoer as poucas lembranças que restaram naquele corpo. Logo a antiga eu - Elisabeth - estava mais uma vez andando pelas ruas de Dixon, apenas uma hora antes da invasão.

"Estava muito frio naquela noite..."


Notas Finais


Então gente, eu sei que estou demorando bastante para atualizar minhas histórias e, como sempre, peço desculpas. Eu não tenho muito tempo livre desde o ano passado para me dedicar a escrever, mas o faço sempre que possível. É bastante provável que eu demore um pouco para postar os capítulos, mas não desistam de mim, por favor, pois eu farei o melhor para manter um cronograma.

Eu espero que tenham gostado do capítulo e, fiquem calmos, logo logo vocês entenderão tudo. Ainda tem muita história para ser contada. <3

Vejo vocês em breve.


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