História SPECTRUM - Entre sombras e segredos - Capítulo 6


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Categorias Histórias Originais
Personagens Personagens Originais
Tags Ação, Adulto, Demon, Hentai, Luta, Paixão, Romance, Sobrenatural
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Terminada Sim
NÃO RECOMENDADO PARA MENORES DE 18 ANOS
Gêneros: Ação, Hentai, Luta, Romance e Novela, Sobrenatural, Violência
Avisos: Álcool, Estupro, Nudez, Sexo, Violência
Aviso legal
Todos os personagens desta história são de minha propriedade intelectual.

Notas do Autor


Só para relembrar:

CDE-DM é a Central dos Demônios (Central de Detenção, Expiação e treinamento de demônios), também popularmente conhecido como inferno. :)

Capítulo 6 - Anjos e demônios


Fanfic / Fanfiction SPECTRUM - Entre sombras e segredos - Capítulo 6 - Anjos e demônios

De volta ao mundo dos homens, após alguns dias de ausência, Ricky decidiu sair à noite. Precisava arejar a cabeça e se divertir um pouco, por isso resolveu dar uma volta pela cidade. A noite paulistana era agitada, mesmo em uma quarta-feira; e nos arredores do hotel existiam muitos restaurantes, bares e boates para todos os gostos.

Entrou em uma delas; o público era bem variado, casais héteros, casais gays e solteiros de todo o tipo. A música tocava alto e o espaço para dançar estava lotado; as pessoas riam, bebiam e se divertiam. Algumas garotas o olhavam timidamente enquanto passava, outras, mais atrevidas, o encaravam descaradamente.

Sentou-se no bar e pediu um Mojito — uma bebida feita com rum, limão e hortelã; depois se virou para as pessoas para observar o movimento. Reparou que agora conseguia enxergar claramente as mudanças de cor na aura humana, a multidão era quase um arco-íris; conseguia perceber também as intenções e os sentimentos humanos, ou seja, se a pessoa estava feliz, triste, com raiva, com dúvida, entusiasmada, depressiva, irritada ou qualquer outra coisa.

Observou duas mulheres e um rapaz conversando, as garotas estavam rindo, aparentemente felizes; em seus íntimos, no entanto, queriam estapear uma a outra em uma competição de vaidades; o rapaz só queria transar com elas, com qualquer uma, ou com as duas. Ricky balançou a cabeça e sorriu, continuando a passar os olhos pelas pessoas. Notou que não eram apenas os homens que estavam com a libido alta, algumas mulheres ali também estavam atrás de algo apimentado; e uma delas, ruiva, de microvestido preto, se aproximou do demônio.

A conversa foi curta, Ricky mal conseguiu terminar seu drink, e em poucos minutos a garota e o demônio estavam se beijando. Foram, então, para um canto mais escuro da boate; beijos molhados e mãos ousadas deslizavam lascivamente pelo corpo um do outro; o demônio não demorou muito para convidá-la para ir para o hotel com ele e a garota aceitou sem hesitar. Duas horas depois, o caçador a colocava em um taxi. A ruiva sorriu, ele sorriu e eles nunca mais se viram. O nome da garota? Não importava...

Ricky voltou para o quarto; olhou para a cama desarrumada e decidiu se sentar no sofá. Era madrugada ainda e ele não estava nada cansado. Havia se divertido com a garota, mas, no fundo, sentia que faltava alguma coisa. Suspirou e jogou a cabeça para trás, fechando os olhos.

A imagem daquela moça morena do outro dia lhe veio à mente, a enfermeira. O demônio sorriu. Queria vê-la novamente, talvez o sexo com ela fosse mais interessante... Franziu as sobrancelhas, se incomodando com aquele pensamento. Não era aquilo, não queria vê-la por causa de sexo; queria conhecê-la melhor, conversar com ela... Conversar? Cobriu os olhos ainda fechados com as costas da mão, no que ele estava pensando? Ricky nunca conversava com as garotas, inventava algumas mentiras só para puxar assunto e partir para o que interessava, sexo! Sim, porque com as humanas era o que ele podia ter, apenas relações carnais. Nada mais!

O demônio abriu os olhos e se endireitou no sofá, aqueles pensamentos só o estavam instigando. “Júlia!”, ele se lembrava do nome dela, e se lembrava da aura dela; sorriu, ele poderia achá-la, se quisesse. As auras eram como impressões digitais, cada alma tinha sua aura. Assim, era possível encontrar qualquer demônio, anjo ou humano apenas mentalizando sua aura e tendo em mãos um simples DCU; e ele tinha!

Ricky pegou o celular e abriu o localizador; se concentrou, mentalizando a aura da garota, e logo apareceu um ponto no mapa. O demônio aproximou o ponto e viu que era um hospital, em algum lugar da região norte da cidade. Por um momento se alarmou, depois lembrou-se que enfermeiros davam plantão de madrugada, então ela provavelmente estava apenas trabalhando naquela hora. Sorriu, guardou o celular e se transportou para lá, mas não se materializou; não queria correr o risco de ser visto, apenas queria observá-la.

Encontrou-a no balcão da enfermaria, estava tranquilo por ali; os pacientes dormiam e Júlia lia um livro, de uniforme e cabelo preso, estava linda! O caçador se encostou no balcão e começou a apreciar a beleza da jovem, sua pele de pêssego, sua boca, suas mãos delicadas...

— O que faz aqui? — uma voz perguntou atrás dele. Ricky se sobressaltou.

Era a garota anjo. O demônio se recompôs e respondeu, com uma ruga de contrariedade na testa:

— Nada, só estava por aí... — Ricky a observou melhor, era jovem, de cabelos dourados e levemente cacheados, seus olhos eram verdes, como os dele; possuía uma aura azul clarinho, tinha um cristal pendurado em uma correntinha no pescoço e usava um vestido lilás, com uma blusinha branca por cima. — E você? É uma guardiã ou uma socorrista? — perguntou.

— Guardiã, dela! — disse a moça, apontado para Júlia. — Mas também ajudo como socorrista aqui no hospital enquanto ela está trabalhando.

— Entendo, mas por que ela precisa de uma guardiã?

— Foi o trabalho que escolhi, quando ela voltou para uma nova vida aqui na Terra. — A guardiã fez uma pausa, não tinha certeza do quanto devia falar. — Julia teve problemas depois de sua última encarnação, ela se perdeu, sabe? — tentou explicar. — Então resolvi ajudá-la.

— Se perdeu? Como assim?

— Se tornou uma vagante.

— Ah! Sei... — O caçador olhou para Júlia. — E você é parente dela?

— Sim.

A guardiã não queria falar muito, estava receosa que o demônio descobrisse alguma coisa e queria se livrar logo dele. Então disse:

— Por favor, deixe ela em paz!

— Por quê? — perguntou Ricky, com uma sobrancelha erguida.

— Porque você é um demônio e a alma dela ainda é frágil, não é o suficiente? — falou a guardiã firmemente.

O demônio sentiu que ela estava deixando de mencionar algo, mas não conseguia saber o quê. Olhou para Júlia e depois sorriu, acabava de encarar aquilo como um desafio.

— Não pode me impedir! — Ricky deu uma piscadela para a guardiã e se despediu com um aceno de dois dedos, desaparecendo em seguida. A jovem anjo suspirou, pensando em como poderia deixá-lo longe de sua protegida.

O caçador voltou para o hotel entre agitado e irritado. Não pretendia fazer mal à garota, mas tudo o que é proibido é mais desejado, e Júlia, de certa forma, tinha se tornado algo proibido, aquela ideia excitava-o e agora ele a queria mais do que nunca. No entanto, humanos não tinham guardiões à toa, provavelmente a enfermeira guardava algum histórico depressivo; de repente ficou com receio de machucá-la, afinal ela não fazia o tipo de mulher com quem estava acostumado a sair e dispensar; talvez ele devesse dar ouvidos à guardiã e deixar a garota em paz... Ricky se jogou na cama e afundou a cara no travesseiro. Infelizmente ele não poderia dar atenção a isso naquele momento, tinha outra prioridade, sua missão.

Dois dias se passaram e ninguém havia procurado Ricky ainda para falar sobre a missão. Ele já estava impaciente, mas se Zhao Hu havia falado para ele esperar, ele esperaria; além disso, não foi tão ruim ter esse tempo de descanso, depois do treinamento intensivo que teve, estava mesmo precisando de uma folga.

 Era sexta à noite e o demônio resolveu comer algo no bar do hotel, não estava a fim de sair e não estava a fim de sexo fácil; e isso era uma novidade... A verdade era que o demônio não conseguia tirar Júlia de seus pensamentos; então, não tinha vontade de sair com outras mulheres.

Ricky desceu até o bar, mas não quis ficar no balcão, o lugar estava cheio e as pessoas conversavam animadamente. Ele não se sentia muito sociável naquela noite, então se instalou em uma pequena mesa vazia no canto. Não estava com fome também e acabou pedindo apenas uma bebida; escolheu uma caipirinha tradicional de limão, queria experimentar algo local.

 Por um instante, gostaria que o álcool pudesse deixá-lo mais alegre, como nos humanos... Esses dois dias que passou sem nenhum compromisso e a dúvida sobre o que fazer com Júlia tinham deixado o caçador entediado e mal-humorado. Seu drink chegou. Doce, forte, saboroso... como ele gostava.

Estava mexendo o açúcar do fundo do copo, quando um homem jovem e bem vestido entrou no recinto e veio em direção à sua mesa. Ricky levantou os olhos para observá-lo.

Ele vestia um terno preto e camisa branca, não usava gravata e aparentava ter uns 30 anos; tinha os cabelos negros, curtos em um corte tradicional e alinhados. Sua aura era azul violáceo. Um anjo..., concluiu. Aquela guardiã... será que ela havia pedido para algum supervisor falar com ele? Ah, era só o que faltava! Uma ruga discreta surgiu entre suas sobrancelhas.

— Merda! — sussurrou, baixo o suficiente para não ser ouvido.

O anjo parou ao lado de sua mesa.

— Posso? — perguntou, apontando para a cadeira à frente do demônio.

Ricky assentiu com a cabeça, deixando o copo de lado.

— Fique à vontade — disse, indicando com a mão para ele se sentar. Recostou-se, então, na cadeira e cruzou os braços, visivelmente contrariado.

O anjo se sentou e o olhou com curiosidade. Ricky se sentiu incomodado, mas sustentou o olhar do anjo; observou que ele trazia em sua mão direita um anel de safira, de um azul profundo e brilhante que o demônio nunca vira; e levava um broche no terno, com uma insígnia que ele também não conhecia.

— Meu nome é William, creio que você estava me esperando... — disse o anjo.

— Na verdade, não... Por que eu esperaria um anjo? — A imagem da guardiã tagarelando com o elegante rapaz a respeito de seu interesse por Júlia passou pela sua mente. — Mas já que está aqui, em que posso te ajudar? — Ricky descruzou os braços e levantou a mão chamando o garçom. — Quer uma bebida? 

O demônio olhava o anjo com atenção, estava tentando analisar qual era a sua intenção, mas sua percepção não estava funcionando, justamente quando precisava... Seguiu-se uns dois segundos de silêncio, em que Ricky desconfiou que também estava sendo estudado. Então o anjo sorriu e disse:

— Entendo a confusão... Não me interessam seus assuntos pessoais, eu vim, na verdade, para falar sobre a sua missão. Zhao Hu te avisou sobre isso, certo? — Ele estava sério agora.

O caçador levantou uma sobrancelha. Pensamentos lhe passaram como um raio em sua mente. Zhao? Então ele não estava ali para falar sobre Júlia? Mas se não era por isso, como ele sabia sobre seus assuntos pessoais? Era dele que Zhao estava falando quando disse que alguém o procuraria? Ricky se endireitou na cadeira, cismado.

— Minha missão? Sei... é sério isso? — Estreitou os olhos, dando um sorriso incrédulo. — Eu não estava mesmo esperando um anjo! — Tamborilou os dedos na mesa. — Isso é bastante incomum... Um anjo querer se envolver em missões desse tipo. Estranho, eu diria!

O garçom se aproximou, interrompendo-os por alguns instantes e William pediu um suco de laranja. Se voltou, então, para o demônio novamente:

— É verdade, eu não costumo acompanhar casos assim. Porém, esta é uma missão difícil; que envolve uma situação que, infelizmente, acabou saindo do controle. Por isso, considerei assumi-la pessoalmente.

Ricky olhou o anjo com interesse e desconfiança. Assumir? Caçar espectros era uma função destinada exclusivamente aos demônios. Nunca tinha visto um anjo se meter em assuntos de demônios, muito menos assumir a responsabilidade de uma missão. E mais, isso significaria que ele seria seu supervisor, definitivamente isso era estranho, quase um absurdo...

— Desculpe, mas ainda não entendi por que você, um anjo, está assumindo isso. Por que não um demônio; um supervisor, ou alguém do CDE-DM?

William sorriu com a aparente indignação do demônio.

— As coisas chegaram onde chegaram porque o CDE-DM havia designado um caçador desqualificado para cá, porque o supervisor responsável fez vista grossa e porque eu não fiquei atento o bastante; quando eu percebi, a situação já estava complicada. Foi, portanto, uma falha minha também.

O anjo fez uma pausa, desviando sua atenção por um momento para o próprio anel e voltou a olhar para o caçador, continuando a explicar calmamente:

— Como eu sou o responsável por esta cidade e por esta região nas questões do plano espiritual, preciso tomar as decisões e decidir qual é a melhor maneira de resolver os problemas. Neste caso, chegou-se em um ponto tão crítico, que achei melhor me envolver diretamente e acompanhar de perto a missão.

Ricky soube, então, quem estava à sua frente, William era o diretor regional do DROPE. Ficou mudo por alguns instantes. Estava diante de um arcanjo, a mais alta classe dentre os anjos. Nunca tinha visto um arcanjo na vida... Por isso não conhecia a insígnia.

— Entendi... Você é o diretor daqui, Sr...?

— Só William, não me chame de senhor, por favor! — interrompeu o arcanjo sorrindo e pegando o suco que o garçom havia acabado de colocar sobre a mesa.

 — Okay! — O demônio respirou fundo. — Apenas me esclareça... Quando eu estive aqui alguns dias atrás, por que não me procurou? Devo dizer que foi um tanto... complicado... não saber onde eu estava me metendo. — Ricky baixou os olhos e revirou seu anel, ainda perturbado.

O arcanjo se inclinou para frente apoiando os antebraços sobre a mesa.

— Minhas sinceras desculpas, Sr. Fontaine! Eu não estava aqui quando chegou. Faço parte do Conselho de Arcanjos e às vezes preciso ficar um tempo fora. — O arcanjo passou o dedo na borda do copo de suco pensativo. — Não achei que você fosse aparecer aqui tão cedo! Quando falei com seus superiores, pedi a eles que lhe preparassem primeiro, por isso não imaginei que fossem te enviar antes...

— Pode me chamar só de Ricky! — disse, dando um meio sorriso. — Enfim, pelo menos a experiência serviu para eu entender o que está acontecendo por aqui. — O demônio voltou a encarar o arcanjo. — Como me achou? Quero dizer, por que me escolheu? — perguntou, curioso.

O demônio olhava dentro dos olhos de William, tentando buscar respostas, mas eles pareciam impenetráveis. Por mais que se esforçasse em usar sua percepção, não conseguia captar nenhum sentimento, nenhuma emoção, ou intenção. Era tão fácil com os humanos, eles eram como livros abertos, mas com aquele arcanjo...

William sorriu, mas Ricky não percebeu, estava concentrado nos olhos de seu interlocutor. São azuis, notou o caçador, como a safira do anel, ou o oceano... Um olhar intenso, sem dúvida, e profundo como um abismo; impossível desvendá-lo. Compreendeu, então, que havia algo errado, e subitamente o mundo à sua volta desapareceu, tornando-se escuro como o breu. “Nunca olhe nos olhos de um arcanjo!” Um antigo caçador havia lhe avisado há muitos anos atrás, mas era tarde.

O demônio sentiu um entorpecimento. Ainda via o arcanjo à sua frente, mas todo o resto havia sumido; não controlava seu corpo, nem seus pensamentos; a imagem do arcanjo também começou a se desvanecer e, de repente, Ricky se viu na sala de Társio Foster, o superintendente geral.

— Você não tem que fazer isso! — disse Társio ao arcanjo sentado à sua frente. Tinha os dedos cruzados sobre a mesa e mantinha a expressão fechada. — Não é sua responsabilidade! Deixe que nós cuidamos disso!

— Não, Társio! Já me decidi! Chegamos nessa situação crítica porque seu pessoal não fez o seu trabalho e porque não dei a atenção devida! — O arcanjo se mantinha sério e impassível. — Estão na minha área, logo, são de minha responsabilidade. — William se levantou. — Por favor, me envie alguns arquivos; quero analisá-los ainda hoje! — Despediu-se, então, do superintendente e saiu.

O cenário mudou, agora Ricky estava em um escritório, olhou pela janela, já conhecia aquela paisagem, era o prédio do DROPE. William estava sentado em sua mesa e uma tela gigante na parede mostrava os arquivos de alguns demônios. Reconheceu-os, eram caçadores como ele; eram bons caçadores, a maioria talvez de caráter duvidoso, mas eram bons. O arcanjo examinava-os um por um, passando cada arquivo individualmente, mas parecia impaciente; marcava-os com um X cada vez que lia algo que não gostava, ao final, todos os caçadores estavam marcados. O diretor desligou a tela do DCU e o cenário mudou novamente.

Desta vez foi parar no Centro de Treinamento, Zhao Hu e William andavam lado a lado pelo jardim bem cuidado.

— Então não gostou das indicações de Társio? Por quê?

— Não são bons o suficiente, preciso de alguém melhor, Zhao, de alguém em quem posso confiar. Você conhece bem os demônios, poderia me indicar algum?

— Hum... sim, sim! Sei de um, ele é melhor do que qualquer um desses aí, mas ele ainda é um Classe II, e teve alguns probleminhas com as regras gerais.

— Está me indicando um insubordinado? — William levantou uma das sobrancelhas.

Zhao Hu riu contidamente.

— Você pediu o melhor! Ricky não é insubordinado, acabou perdendo a cabeça em uma missão, mas já cumpriu sua sentença e é de confiança. Ainda guarda alguns valores, entende?

O arcanjo pensou por um momento.

— Você pode prepará-lo? Preciso de um Classe I, mas gostaria de ver o arquivo dele antes.

— Posso prepará-lo, com certeza. O problema será subi-lo de classe. Precisamos da anuência de Társio e ele não gosta muito do rapaz.

— Vou falar com Társio, me envie o arquivo.

Zhao Hu assentiu com a cabeça e despediram-se com uma reverência.

O cenário voltou a mudar, porém agora estavam de volta ao bar do hotel. Ricky sentiu uma leve tontura quando o contato visual foi quebrado e apoiou as mãos na mesa.

— O que você fez? — perguntou o demônio ao arcanjo, encarando-o novamente.

— Você queria respostas... — William sorria mais abertamente agora.

— E não podia ter feito isso de uma forma normal? Tipo, conversando? — Ricky permanecia sério, ainda com a sensação de ter sido invadido.

— Não, me desculpe por isso! Eu li o seu arquivo, mas há coisas que eu precisava saber sobre você que não estão escritas lá. Por isso, entrei na sua mente, e permiti que você entrasse na minha!

O caçador franziu as sobrancelhas.

— Você está dizendo que vasculhou minha mente enquanto me dava as respostas? O que queria saber?  Não achou que eu poderia responder, se você tivesse me perguntado?

— Não creio que você responderia adequadamente. Eu queria me inteirar do seu caráter Ricky, saber quem você realmente é, além do que me mostra.

O demônio encostou na cadeira e pegou o drink, que ainda estava pela metade. Refletiu sobre si próprio por alguns instantes... Quem ele realmente era? Ou melhor, no que ele havia se tornado? Não sabia o que pensar e não se atreveu a perguntar, talvez não quisesse saber a resposta, uma ruga se fez entre suas sobrancelhas.

— Não se preocupe com isso! — disse o arcanjo sorrindo apenas com os olhos.

— Ainda está lendo a minha mente? — perguntou Ricky, apreensivo. Colocou o copo vazio na mesa.

O arcanjo riu.

— Não. Estou só captando impressões, como você faz com os humanos. Certamente você compreende... não é algo que conseguimos controlar. Além disso... você não é do tipo que esconde suas emoções. — William o olhava de forma divertida. — Pode ficar tranquilo, não irei mais entrar na sua mente. Não é do meu feitio ser invasivo assim, só quando há necessidade.

Ricky sorriu, um pouco mais relaxado, desta vez. O arcanjo tinha razão, ele não sabia disfarçar suas emoções, não precisava ser nenhum ser sobrenatural para descobrir o que ele estava sentindo.

O clima entre os dois havia finalmente ficado mais leve e William estava satisfeito. Sua sondagem havia lhe confirmado a personalidade forte, porém generosa do caçador. Ele era teimoso, orgulhoso, desconfiado, debochado e um pouco mulherengo, mas também era íntegro, incorruptível e honrava sua palavra; tinha valores, como disse Zhao Hu... Justo, discreto e responsável, Ricky podia até ter se equivocado em algumas decisões e conduzido sua vida por caminhos tortos; contudo, ainda possuía moral e caráter; algo difícil de encontrar em um demônio.

O arcanjo deu um sorriso discreto, lembranças de um passado distante lhe vieram à mente... A vida seguia por caminhos curiosos, pensou.

— Certo! — O caçador tamborilou os dedos sobre a mesa; as explicações já haviam sido dadas, precisava se focar na missão agora. — Então... como vai ser? Por onde começo? — perguntou Ricky.  

— Venha até meu escritório segunda-feira, às 9:00h — respondeu o arcanjo. — Nesse meio tempo, quero que você me envie, o mais rápido possível, dois nomes de demônios à sua escolha, dois caçadores que irão trabalhar com você nessa missão; não importa a classe, mas eles devem ser de sua confiança e terão que passar por uma conversa comigo. Vou convocá-los para uma entrevista. Ricky, você irá liderar uma equipe, portanto escolha bem!

William terminou seu suco e se levantou.

 — Okay! Segunda... dois nomes — assentiu Ricky, se levantando também.

 A aura do arcanjo irradiava luz à sua volta, mesmo ele estando materializado em um corpo físico. O demônio ficou imaginando como ela deveria ser brilhante na forma espiritual. Despediram-se com um aperto de mãos. O arcanjo sorriu e saiu com a sensação de ter feito uma boa escolha, graças a Zhao Hu. Precisava agradecê-lo.

Ricky sentou-se novamente, observando-o ir embora; estava aliviado, teria uma equipe para trabalhar.  Reparou que todas as garotas que estavam no bar também olhavam para o arcanjo enquanto ele saia. Sorriu, realmente ele tinha uma presença notável. De aspecto agradável e postura elegante, William era mais alto do que ele, por volta de 1,85m, calculou; era bonito, simpático, olhos azuis intensos, como pôde comprovar, e sorriso cativante; sem dúvida, as mulheres provavelmente se derretiam por ele. De suas mesas ou do balcão do bar, elas viravam a cabeça e sorriam enquanto ele passava.

O caçador sentiu um pouco de inveja, e riu-se; normalmente quem causava esse tipo de reação era ele. Arcanjos e anjos não saiam com garotas, pelo menos não com as humanas, lembrou-se; estava em uma das regras do Regimento Geral. Olhou para as moças do balcão, agora elas olhavam para ele e trocavam risinhos umas com as outras. Sorriu para elas. Devia ser bem entediante ser um anjo, pensou. Levantou uma das mãos, chamando mais uma vez o garçom.

Um arcanjo! Ricky respirou fundo, erguendo as sobrancelhas; nunca imaginaria que um dia estaria sob as ordens de um.

O demônio deixou-se afundar na cadeira e pediu mais uma caipirinha ao garçom. Tocou seu anel de caçador e sorriu com os olhos. Estava com aquela sensação leve e agradável de quem acaba de passar por uma entrevista que deu certo.


Notas Finais


Obrigada pela leitura! ❤

****

Próximo capítulo em 11/08/18: Ricky tem um final se semana de folga e se sente inquieto, deve ele procurar Júlia?


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