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História Sr. e Sra. Bieber - Capítulo 8


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Capítulo 8 - The dinner


Justin

Os faróis do meu carro iluminaram a fachada de casa, o jardim, a garagem. Coisas para as quais eu sequer olhava mais, tudo tão familiar.

De repente, aquela casa perfeita, num dos melhores subúrbios de Nova York, pareceu-me o cenário de um novo seriado de TV chamado "Essa vida que não é minha".

Apaguei os faróis e olhei para a casa por um instante, com apenas uma pergunta em mente: que diabos Ashley serviria no jantar daquela noite?

Quando tentou me matar naquela montanha, será que sabia que era eu, o marido dela, quem estava ali? Ou achou que eu não passava de um agente inimigo que se metera no caminho dela?

Será que ela sabia sobre mim? Será que sabia que eu sabia sobre ela?

Meu Deus, como isto era possível: duas pessoas morarem na mesma casa, com tantos segredos importantes, e sequer suspeitarem da verdade?

Olhei pela janela da cozinha.

Nenhum sinal da minha querida esposa. 

Estaria ela planejando um jantar ou um assassinato?

Ao mesmo tempo apreensivo e furioso, forcei a aliança no dedo e abri a porta do carro.

A dobradiça chiou. Um cachorro latiu ao longe. Arbustos farfalhavam próximo à porta da frente.

Naquela noite, minha casa adorável parecia incrivelmente ameaçadora, semelhante a uma linda mulher com ideias malignas na cabeça.

Totalmente alerta, segui pela calçada e abri a porta da frente.

Com cautela, pisei no hall de entrada, uma das mãos carregando a maleta e a outra no bolso da calça, onde eu guardava minha coragem.

Estou falando da arma, e não da bebida.

Deixei a porta se fechar sozinha e segui em frente, olhos atentos para qualquer movimento. — Timing perfeito.

Pulei de susto, e quase mandei bala no meu próprio pé.

Ashley. Ela havia surgido do nada, sorrateira e fatal. Vestida para matar, por assim dizer. E trazendo nas mãos dois martínis gelados.

A mulher perfeita. Como nos velhos tempos. Como se o universo inteiro não tivesse virado de cabeça para baixo desde que eu havia deixado aquela casa pela última vez.

Olhei para os drinques e disse:

— Isso é novidade... — Ashley vivia no meu pé por causa da bebida.

— Uma novidade boa, eu espero — ela disse, com um sorriso sedutor. Depois empurrou a taça de cristal na minha direção, e, por mero reflexo, tirei a mão do bolso para pegá-la. Do bolso onde estava a arma.

Coincidência? Ou truque esperto de uma assassina experiente?

Ela ofereceu os lábios para um beijinho.

Beijei-a como de costume, mas sem fechar os olhos.

E então notei. Ela também não fechou os olhos.

— Voltou mais cedo — falou. Um desafio.

— Estava com saudades.

— Eu também.

Seria imaginação minha ou teria ela rapidamente espiado o curativo na minha orelha?

Mas Ashley não disse nada e, com o queixo, apontou para a sala de jantar.

— Vamos?

— Après vous — eu disse, o perfeito cavalheiro.

Com um leve movimento dos ombros, Ashley virou-se e seguiu na minha frente. Deixei que meus olhos passeassem pelo corpo dela, à procura de alguma pista, talvez de armas. A primeira vez, em muitos anos, que de fato a enxergavam.

Verdade seja dita: aquele vestido revelava muito mais do que escondia. Nenhuma arma a bordo. Pelo menos do tipo convencional.

Decerto eu teria me deleitado mais com a paisagem não fosse o receio de que, a qualquer minuto, Ashley pudesse estourar os meus miolos.

Quando entrei na sala de jantar, minha apreensão ficou ainda maior. O lugar estava todo emperiquitado, como se fôssemos receber a família real britânica em peso: flores, toalha de linho, talheres para todo lado.

"Fica esperto", alertei a mim mesmo. "A vadia vai aprontar a qualquer instante."

— Achei que você guardasse essas coisas para as ocasiões especiais — falei.

— E jantar com meu marido não é uma ocasião especial?

Ela chegou ao ponto de afastar uma cadeira para que eu sentasse.

Sentei-me devagar, meus olhos fixos nos dela, todos os sentidos atentos. Como se fosse o maftre de um restaurante sofisticado, Ashley retirou o guardanapo de linho de cima do meu prato, abriu-o com um gesto brusco e ruidoso — devo admitir que nesse momento senti um frio na espinha — e por fim estendeu-o em meu colo.

— Ora, ora, muito obrigado — eu disse, fazendo o jogo dela.

— Por você eu faço tudo — ela sussurrou.

Aposto que sim.

Aproveitei que Ashley estava atrás de mim e furtivamente escondi minha faca sob o guardanapo.

Aparentemente ela não notou; seguiu feliz para a cozinha, jogando um sorriso coquete por sobre o ombro antes de desaparecer.

Lutei para reprimir uma sonora gargalhada e peguei meu drinque.

Até que vi algo na cozinha, pouco antes da porta se fechar. Uma embalagem de soda cáustica sobre a bancada da pia.

Minha taça congelou no ar, a poucos centímetros da boca.

Caramba, como era mesmo o cheiro da soda cáustica? Farejei a bebida. Nenhum cheiro esquisito. Pensei. Quem sabe...

Mas isso não provava nada.

Sem tirar os olhos da cozinha, derramei o drinque num vaso de flores sobre a mesa, torcendo para que elas não explodissem.

Enquanto esperava, examinei a mesa à procura de... não sabia exatamente do quê: pistas, armas, armadilhas. Os talheres de prata brilhavam, ameaçadores, sob a luz das velas. O vinho se transformou num veículo para o veneno; o centro de mesa, num instrumento de estrangulação; o arranjo de flores, num possível esconderijo para uma granada.

Então minha mulherzinha voltou à sala, carregando um assado nas mãos e sorrindo como uma mistura de coelhinha da Playboy e dona-de-casa exemplar.

O assado tinha uma faca cravada no topo, uma faca de aparência sinistra.

— Humm... Carne assada. Meu prato predileto.

A lâmina cintilava sob a luz das velas enquanto Ashley afiava a faca, empunhando-a como se quisesse deixar bem claro que sabia cortar muito mais que um pedaço de carne.

Como se tivesse vida própria, minha mão rapidamente se fechou em torno do pulso dela.

— Não, não, não... — murmurei. — Você já teve trabalho demais preparando esta maravilha. Deixa que eu corto.

De início ela resistiu, mas, à custa de muito charme, acabou cedendo. Fez questão de se afastar da mesa assim que a faca, afiada como uma gilete, passou às minhas mãos.

Segurando a faca no ar, pronto para cravá-la na carne, vi o reflexo de Ashley sobre a lâmina.

Merda! Ela havia retirado outra faca, ainda maior que a primeira, do bolso de seu aventalzinho ridículo. Como foi que ela fez aquilo caber ali? O facão era grande o suficiente para abrir uma trilha no meio da floresta, mas ela usava-o para cortar ao meio as batatas assadas. Como se fosse a coisa mais natural do mundo.

Como uma desajeitada discípula de Martha Stewart.

A situação era sinistra. Nós dois ali, juntinhos, como se fôssemos recém-casados, talvez procurando meios para degolar um ao outro. Reparando em Ashley, fiquei abismado com a facilidade com que ela manejava uma faca. Diabos, por que nunca havia notado isso antes? Aquela mulher tinha as mãos de um samurai.

Perguntei a mim mesmo o que ela usava para treinar.

— Como vão as coisas no trabalho? — perguntei casualmente.

— Tudo em paz — ela respondeu. — Na verdade, tivemos um probleminha com uma comissão esta semana.

— É mesmo? — perguntei, todas as antenas levantadas.

— É. Duas empresas contratadas pra executar o mesmo serviço.

Servi uma fatia do assado no prato de Ashley.

— E as coisas se arranjaram depois?

Ela serviu uma batata no meu, a faca um pouquinho próxima demais de um pedaço da minha anatomia — de formato semelhante — que talvez ela não hesitasse em cortar também.

— Ainda não — ela falou. — Mas vão se arranjar.

Tudo bem, admito que até então eu vinha me comportando de maneira um tanto paranóica, procurando segundas intenções em cada detalhe sem importância. Mas agora eu tinha a nítida sensação de que conversávamos numa espécie de código, falando por enigmas.

Sentamos nas cabeceiras da mesa, fora do alcance físico um do outro. Ela bebericou o vinho e esperou que eu começasse a comer.

Olhei para o prato à minha frente, hesitante. E se a comida estivesse envenenada?

Depois percebi Ashley me observando com atenção. Não podia deixar que ela notasse meu pavor; portanto, como um guerreiro medieval, parti um enorme naco da carne e acintosamente cravei os dentes nele.

— Hummm... Delicioso — eu disse, refreando o impulso de cuspir tudo no chão. — Fez alguma coisa diferente?

Ela me encarou pela primeira vez naquela noite.

— Você sempre pergunta isso.

Ora, o que mais eu poderia dizer depois de mil e oitocentas refeições ao lado dela? Para virar o jogo, sorri entre dentes e disse:

— Sempre me esqueço de como esse prato é delicioso.

Ashley gostou do que ouviu e sorriu também. Eu brincava com a comida, na tentativa de ganhar tempo.

— Você pode me passar...

Zuuum! Algo veio zunindo na minha direção, e automaticamente lancei a mão na mesa para pegá-lo. O saleiro.

Fosse uma Lâmina qualquer, eu estaria morto antes que o sorriso chegasse aos lábios dela.

De certa forma, Ashley estava fazendo o que sempre fazia: sempre caprichava na arrumação da mesa; sempre servia um jantar legal, como aqueles que aparecem nas revistas; sempre corria atrás da inatingível perfeição.

Porra, era como se eu comesse no mesmo restaurante todo santo dia.

Mas naquela noite ela estava diferente. Não estávamos apenas num restaurante diferente. Estávamos em outro planeta.

Tudo parecia ter um subtexto. Seus gestos pareciam sutilmente diferentes.

Observei quando ela levou a mão ao copo de água. Seus movimentos pareciam seguros, deliberados; cada um deles, uma linha reta.

Como era possível que eu nunca tivesse percebido os músculos rijos que delineavam aqueles braços tão lindos?

Aquele seu jeito de andar, gracioso como o de uma ninja? O estado de alerta constante, a reação imediata a qualquer barulho?

Como uma verdadeira profissional, Ashley tinha consciência de cada um de seus movimentos, sabia que reflexos bem condicionados e movimentos seguros muitas vezes significavam a diferença entre a vida e a morte.

Talvez tivesse escondido todas essas coisas de mim. Ou talvez fosse eu que, entediado demais, preocupado demais ou estúpido demais, não tivesse tido olhos para enxergar o que estava bem debaixo do meu nariz aquele tempo todo.

— Como foi em Atlanta? — ela perguntou especificamente.

Sabia muito bem que eu não tinha estado lá.

— Tive uns probleminhas com uns números — respondi sem titubear. — Algumas coisas não batiam umas com as outras.

— Coisas importantes?

— Vitais.

Nosso olhar se entrecruzou sobre a mesa. Eu podia ver as chamas — talvez das velas — que ardiam em seus olhos.

— Mais um pouco de vinho? — ofereci. Antes que ela pudesse dizer qualquer coisa, adiantei — Deixe que eu sirvo; afinal, a garrafa está no meio da mesa.

Levantei-me da cadeira e fui servi-la.

Gostei de ver o medo subitamente brotar nos olhos dela.


Ashley

Olhem só para isto.

O filho-da-puta.

Sentado do outro lado da mesa, exatamente como vinha fazendo todas as noites por seis longos anos. Os mesmos gestos, as mesmas palavras, como um marido de brinquedo, movido a pilha. Sempre sorrindo. Sorrindo para mim. Sorrindo para tudo o que eu dizia. Sorrindo para o maldito pedaço de carne. Sem jamais enxergar o que quer que fosse.

E mentindo deslavadamente durante todo esse tempo.

Como foi em Atlanta, querido?

Tudo bem, fora uns probleminhas com uns números. Blá, blá, blá. Acontece, meu amor, que eu não estava em

Atlanta. Estava no deserto, tentando explodir os seus miolos com os meus CANHÕES!

E bebendo do cantil de prata que eu dera a ele e... e... comendo minha torta!

Por um instante fiquei ali, observando-o repetir o mesmo teatro de sempre. Será que pensava em mim quando não estava em casa? Será que riu da mulherzinha ridícula quando enfiou minha torta naquela boca imunda? Será que fazia piadas com o meu nome quando se jogava nos braços de uma agente qualquer, provavelmente uma femme fatale, nas noitadas pós missão cumprida?

Era por isso, então, que virava para o lado e dormia feito pedra sempre que passava as noites comigo. Não que lhe faltasse apetite. Mas gastava cada gota de sua energia vivendo aquela emocionante vida dupla! Outra pessoa dormia com James Bond; e eu dormia com Ward Cleaver, de Papai sabe-tudo.

A única coisa que me deixava acordada a noite inteira eram os seus roncos!

Canalha.

Agora vinha para o meu lado como se fosse Cary Grant, pronto para me servir mais uma taça de vinho.

De repente, meu coração parou. Não gostei nada daquele brilho em seu olhar. A questão era a seguinte: será que Justin sabia que era eu, sua mulher, quem ele quase havia apagado naquele desfiladeiro no deserto? E agora estava ali para terminar o serviço?

Talvez não soubesse. Nem soubesse que eu sabia. E no final das contas quisesse apenas me servir um pouco de vinho.

Ou talvez estivesse cansado da mulher enfadonha e quisesse dar cabo dela apenas para fugir com alguma agentezinha ordinária chamada Natasha!

Ele vinha na minha direção, casualmente carregando a garrafa na palma da mão, olhos sempre pregados nos meus.

Isso mesmo. Cary Grant.

Cary Grant, o serial killer.

Aquela garrafa me deixou tensa. Se quisesse, Justin não teria a menor dificuldade para espatifá-la no meu crânio.

Meus olhos procuraram a faca mais próxima. Prendi a respiração, cruzei as pernas, levantei minha taça.

Quando Justin se abaixou para me servir — ou matar —, percebi que ele parecia surpreso.

Meu vestido havia subido um pouco nas pernas, revelando meu joelho enfaixado e os hematomas adquiridos na queda sobre as rochas no deserto.

Justin deixou a garrafa escorregar da mão.

Num gesto rápido, estiquei o braço e peguei a garrafa em pleno vôo. Uma manobra brilhante. Reflexos excelentes.

Reflexos incomuns para uma dona-de-casa.

Que estupidez, a minha.

Justin lentamente abriu um sorriso.

Nosso olhar se cruzou outra vez.

Ele sabia. E sabia que eu sabia. E agora eu sabia que ele sabia que eu sabia.

Isso mesmo. De repente nos transformamos num casal que sabia demais.

Deixei a garrafa cair.

Vendo-a cair — aparentemente em câmera lenta — em direção ao nosso tapete perfeitamente branco, fui surpreendida por certas lembranças...

Nosso encontro em Bogotá. Justin sempre envolvido nas coisas. Nunca lhe perguntei o que estava fazendo por lá, nem por que saía em horários tão estranhos para supervisionar um projeto de construção. Só me interessavam aquelas horas abençoadas em que ele estava livre para passar em minha cama.

Quando não estava fazendo sexo com ele, cuidava das missões que me haviam levado até lá. Três assassinatos em apenas uma semana.

E ele? Decerto fazia exatamente o mesmo.

O canalha vinha mentindo para mim desde o início.

Com um barulho surdo, a garrafa se esborrachou no chão, espalhando vinho para todos os lados e cobrindo nosso tapete perfeito com uma terrível mancha vermelho-sangue.


Justin

Falamos ao mesmo tempo.

— Vou buscar uma toalha — disse Ashley.

— Deixa que eu busco — eu disse.

Uma desculpa. Nós dois precisávamos fugir.

Corri até meu escritório e fechei a porta, arfando, a mente funcionando a mil por hora.

Numa única noite, num único instante, o mundo inteiro havia mudado. Nenhuma palavra dita. Nenhuma bala disparada.

Mas nossos olhos haviam confessado tudo.

Ela sabia, eu sabia. Não havia caminho de volta.

Olhando nos olhos de Ashley enquanto o vinho se derramava, tive um pequeno flashback. Recordações de Bogotá.

Não tinha perguntado a ela o que fazia ali. Não tinha estranhado a facilidade com que tinha caído na minha cama.

Apenas havia ficado feliz, muito feliz, por tê-la ao meu lado. E entre um encontro e outro, quando eu dava um jeito de escapulir para cuidar das minhas missões — quatro assassinatos numa única semana —, ela escapulia para fazer a mesma coisa.

A vaca vinha mentindo para mim desde o início.

Já havia tentado me matar antes. Agora que estava ciente de que eu sabia de tudo, não tinha outra coisa a fazer senão me eliminar.

Ouvi uma porta bater em algum lugar e gelei. Colei o ouvido contra a porta, mas não ouvi nada. Fui até a escrivaninha e abri um compartimento secreto dentro de uma das gavetas.

Uma arma, um pente de balas e um silenciador.

Três movimentos rápidos, e as partes se encaixaram. A arma escondida nas costas, respirei fundo e saí para o corredor.

Varri com os olhos a sala de jantar. As chamas das velas cintilavam de maneira estranha. Como se Ashley tivesse acabado de passar correndo por elas.

— Ashley? — chamei. — Querida...?

Nenhuma resposta.

Talvez já não respondesse por esse nome.

Então ouvi um barulho do lado de fora. Imediatamente olhei pelas janelas.

A porta da garagem estava se abrindo. O carro... Ela estava fugindo de carro!

De um pulo atravessei a sala, saí pela porta da frente, cruzei o jardim e cheguei à garagem a tempo de vê-la engatar a ré para sair. Joguei-me no caminho, impedindo que ela continuasse.

— Pare o carro, Ashley!

Não parou. Em vez disso, pisou fundo no acelerador, jogou a traseira do nosso lindo Mercedes station-wagon contra a mureta externa e seguiu em disparada sobre a grama do jardim.

Sabia que não poderia alcançá-la simplesmente correndo atrás do carro. Mas talvez pudesse cortar caminho pelos quintais dos vizinhos...

Péssima ideia. Especialmente no escuro. O quintal dos Coleman foi fácil, mas, depois, saltei por cima de uns arbustos e... Merda! Aterrissei sobre um brinquedinho infantil qualquer. Depois de abrir caminho entre as gangorras,pulei para o quintal seguinte e dei de cara com um cachorro que não parava de latir. Em seguida...

Bem, digamos que tive de enfrentar toda a parafernália dos quintais suburbanos até chegar ao fim da corrida.

Teria sido engraçado se fosse um filme.

Por fim, cheguei ao outro lado do quarteirão e subi numa cerca segundos antes de Ashley dobrar a esquina.

Não é todo dia que encontramos uma mulher capaz de dobrar uma esquina sobre duas rodas.

Nossos olhos se encontraram.

— Alguma coisa que você queira me contar? — berrei.

A expressão no olhar dela teria incendiado até mesmo um boneco de neve, e talvez por isso a cerca onde eu me encontrava tivesse escolhido justo aquele momento para desabar. E lá fui eu, meter a cara numa poça de lama. O que já teria sido uma desgraça. Mas então...

Bum! Com o impacto, acidentalmente disparei minha arma.

— Merda!

As balas são assim: não há como chamá-las de volta. De certa forma, são como o sexo. Quando aquele martelo bate e diz "é agora", pronto, a venda já foi feita.

E, tanto num caso como no outro, acidentalmente nunca é uma coisa boa.

Mas há algo ainda pior do que acidentalmente disparar uma arma.

É quando a bala escolhe — entre uma infinidade de alvos possíveis — acertar o pára-brisa do carro da sua mulher.

Caralho. Se Ashley já não estivesse morta... decerto viria atrás de mim.


Ashley

Talvez Justin quisesse continuar em casa e brincar de polícia e ladrão. Caubói e índio. Espião x espião.

Mas eu já estava farta de jogar. E não ficaria naquela casa nem por mais um segundo. Então fugi.

— Seis anos... — sussurrei, enquanto atabalhoadamente tirava o carro da garagem. — Seis anos...

Saí cantando pneus pela rua e dobrei uma esquina. De repente, como dois holofotes, os faróis do carro iluminaram Justin, enca-rapitado no alto de uma cerca feito um ladrão em fuga. Provavelmente tinha cortado caminho através dos quintais dos vizinhos.

Ele berrou um insulto qualquer, que não pude entender, e respondi com um olhar de poucos amigos. Então a cerca onde ele se encontrava desabou, jogando-o na lama, e antes que eu pudesse fazer qualquer coisa...

Uma bala atravessou o pára-brisa do meu carro!

Mal pude acreditar. O canalha estava tentando me matar!

Instintivamente fechei os olhos e meti o pé no freio, já preparada para o impacto.

Precisei de alguns segundos para constatar que a bala havia passado raspando pela minha cabeça.

Suspirando de alívio, olhei através do furo no pára-brisa, e lá estava ele, o assassino.

Nas horas vagas, meu marido.

— Canalha! — gritei.

Justin ficou de pé; estava coberto de lama.

— Calma, querida, muita calma! — ele berrou, correndo como um louco na minha direção e acenando com a arma— Não tive a intenção de...

Mas eu estava furiosa demais para raciocinar. Sabia apenas que não queria mais ouvir suas mentiras.

Embiquei o carro na direção da fivela do cinto dele — e pisei fundo.

— Isso mesmo! — Justin gritou. — Libere a raiva!

Mas depois percebeu que eu não estava brincando.

— Ashley! — berrou. — Pare esse carro!

— Sinto muito, querido — murmurei para mim mesma. — Você não diz mais o que eu devo ou não devo fazer.

Uma das muitas coisas que Justin não sabia a meu respeito era o fato de que, ao longo dos anos, eu já havia passado por toda espécie de desafio e jamais havia perdido. Muitos grandalhões poderiam atestar minha coragem se já não estivessem debaixo da terra.

No último segundo, Justin saltou sobre o capo e depois, para cima do teto.

Dei uma olhadela para trás para ver onde ele havia caído. Tudo bem, para ver se ainda estava vivo.

Nenhum sinal de Justin.

O que não poderia significar outra coisa a não ser...

Ele ainda estava no teto!

Meio segundo depois, uma das janelas de trás explodiu com um chute vigoroso de Justin, que em seguida se jogou no banco coberto de estilhaços.

Uma manobra radical, devo admitir.

— Ashley, escuta... — ele começou a dizer, inclinando-se sobre o banco da frente.

Mas eu já estava a meio caminho da minha própria manobra radical: abri a porta do carro e pulei fora, rolando no asfalto até subir num gramado macio.

Caro Justin — eu gostaria de ter dito depois de pular —, adeus. Nosso casamento acabou.

Pode ficar com o carro.

Mas ele não teria ouvido. Berrava alto demais.


Justin

Caralho!

Ela pulou do carro... E eu estou aqui, no banco de trás!

Não restava dúvida. Ela ainda não havia perdoado o tiro acidental!

Olhei pela janela e vi Ashley, já de pé, limpando a sujeira da roupa como se nada tivesse acontecido.

E senti o carro — tumm! — bater no meio-fio.

— Ashley! — berrei, os pneus já fora do chão. — A gente precisa conversaaaaar!

Não sei como, mas naquela mesma noite fui bater — sujo de lama, machucado, mas sem nenhum osso quebrado — na porta do Eddie.

Fisicamente eu estava bem.

Mas o coração e a mente nem tanto. O primeiro acabara de levar uma surra, e a segunda estava prestes a explodir.

Era tarde, mas eu precisava de um amigo. Um amigo de verdade, não de um companheiro de churrasco como Martin Coleman.

Eddie abriu uma brecha e espiou para fora. Depois escancarou a porta, dizendo:

— Que diabos aconteceu com você? — Mancando, atravessei a soleira.

Minha mulher.



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