História Stardust - Capítulo 1


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Categorias Bangtan Boys (BTS)
Personagens Jeon Jungkook (Jungkook), Jung Hoseok (J-Hope), Kim Namjoon (RM), Kim Taehyung (V), Min Yoongi (Suga), Park Jimin (Jimin)
Tags Amizade, Amor, Angst, Bts, Fluffy, Jeon, Jimin, Jungkook, Kim, Love, Min, Namjoon, Namkook, Park, Taehyung, Yaoi, Yoongi
Visualizações 40
Palavras 5.813
Terminada Sim
NÃO RECOMENDADO PARA MENORES DE 16 ANOS
Gêneros: Aventura, Drama (Tragédia), Fluffy, LGBT, Musical (Songfic), Poesias, Shonen-Ai, Slash, Universo Alternativo
Avisos: Homossexualidade
Aviso legal
Os personagens encontrados nesta história são apenas alusões a pessoas reais e nenhuma das situações e personalidades aqui encontradas refletem a realidade, tratando-se esta obra, de uma ficção. Os eventuais personagens originais desta história são de minha propriedade intelectual. História sem fins lucrativos, feita apenas de fã para fã sem o objetivo de denegrir ou violar as imagens dos artistas.

Notas do Autor


Eu espero que vocês gostem dessa história, ela tem sim umas análises muito específicas, espero que vocês consigam fazê-las, ou apenas divirtam-se.

Capítulo 1 - Em tons de verde


Há no mundo uma segregação, uma linha imaginária que separa pessoas, as qualifica e muitas vezes entiqueta, como a um objeto na prateleira ou uma embalagem para venda.

Sim, na maioria das vezes as pessoas são mesmo uma embalagem, porque você ainda não teve a oportunidade de abri-la, explorar e descobrir alguém é sempre um processo incrível e único, imagina a sensação de descobrir que a pessoa que é brilhante por fora, é ainda mais inacreditável por dentro?

Sobre essa atmosfera de divisão desnecessária, mas que muitas vezes resulta no que é belo, dois garotos cruzaram-se como quem cruza uma linha invisível, seus corpos tocaram-se com a delicadeza de uma singela flor, como a uma cortina que desce aos poucos e mostra o pano de fundo, do lado de lá do palco, belo quando não se estava esperando por tal beleza.

Nessas circunstâncias de atores de um romance com nem um pingo de comédia, foi que a nuvem conheceu o arco-íris.

Era hora do almoço no Colégio, o parque estava repleto de adolescentes jogados pelos gramados e nos parques de plástico, vivendo suas vidas de plásticos e tendo conversas descartáveis, como os jovens acabam fazendo em algum momento, Namjoon estava sentado no banco, afastado das pessoas comia um cachorro-quente, mesmo que tenha sido dia de sushi no refeitório. O garoto nunca gostou de comida marinha. O sol forte incidia nos cabelos loiros e coçava-lhe a pele, o couro cabeludo pinicando e ele não era do tipo que se importava com os fenômenos da natureza, pombos tentavam pousar ao redor e eram espantados pelos outros garotos que achavam engraçado jogar pedras no animal.

Ali sentado, ocasionalmente levantava o rosto para olhar ao redor e admirar a adolescência, o Kim, que sempre foi muito grato a tudo em sua vida, temendo que lhe fosse tirado caso o egoísmo lhe preenchesse, procurava em especial algo que lhe distraísse, o que não era tão difícil já que estava sempre com a cabeça no mundo da lua.

Do outro lado do parque, jogado debaixo de um pessegueiro havia um garoto, alto e de cabelos negros que lhes cabiam perfeitamente no rosto fino e de traços delicados, os lábios avermelhados estavam entreabertos e emitiam um chamado alto, enquanto os óculos redondos lhes escorregavam pelo nariz.

— Taehyung, não! Não roube nada de ninguém! Você sabe que não me incomodo quando eles me atingem. — O garoto alto falava para ninguém em especial, pelo menos não alguém que os outros estivessem vendo.

Há no mundo algo tão particular que algumas pessoas não possuem habilidade ou não adquirem, não sabem o que significa e talvez nunca venham a se interessar por tal, essa coisa chama-se Imaginação. Apesar de que naquele momento podia não ser o caso.

Namjoon chutava a areia com o all star marrom surrado, completamente entretido com o canto de um pássaro no topo do pessegueiro. Ele nunca estava compenetrado o suficiente, assim como aquele podia ser um pássaro comum para qualquer outra pessoa, naquele momento o animal chamou a atenção unicamente do garoto de cabelos loiros, foi especial para ele de alguma forma, uma única.

O garoto que vestia uma calça folgada, a qual todos achavam feia, porém ele não se importava nem um pouco com o que eles achavam, pegou os sacos plásticos dos alimentos que tinha comido e, segurando seu celular no alto da cabeça, preparando-se para tirar foto do pássaro que com seu canto guiava sua curiosidade e chamava sua atenção, parou de frente para a árvore imponente, que em plena primavera mostrava belos e suculentos pêssegos. Rosados e brilhantes.

— Jimin, você está muito bonito hoje, sabia? Deveria usar essa sua beleza para impedir o Taehyung de… Taehyung! — O garoto de cabelos negros passou correndo por Namjoon, fazendo a areia branca do parquinho em que o Kim estava de pé sobre, voasse em direção ao rosto de ambos.

O garoto de cabelos loiros virou seu rosto para ver quem e por que tinha passado tão rapidamente daquele jeito. Os olhos se demoraram num garoto de cabelos negros, moletom preto com o capuz cobrindo a cabeça, um dos lados do fone pendendo do capuz, a calça preta, em pé de frente para o brinquedo infantil que tinha uma parte alta, feita para descer deslizando numa superfície análoga.

— Taehyung, se você pular daí vai se machucar, sabia? Por que você nunca me ouve? — O garoto falava para o brinquedo.

Namjoon olhava do lugar para o garoto, do garoto para o lugar, mas não via nada e nem tinha nada para ser visto. Pensou inicialmente.

— Jimin, puxa o Taehyung! Eu vou chamar o Suga hyung, aliás, ele não apareceu hoje. — O garoto olhava para o alto do brinquedo e depois para o seu lado, por cima do ombro, conversando com alguém.

Namjoon sempre gostou de aventuras e tinha noção de que era um eterno curioso, quando pequeno queria ser um detetive de sucesso ou mesmo policial, investigador criminal, queria ser alguém importante que resolvesse crimes, ou que pudesse na verdade findar perguntas, fossem quais fossem.

Mas ele secretamente gostava mesmo era das perguntas sem respostas, às quais ele tinha de buscar em cinco ou dez livros por uma resposta e em cada trecho das páginas amareladas e que o cheiro de mofo não era mais do que a sensação de habitar um segundo lar, ele aprendesse mais do que esperava fazê-lo, e quando viu o garoto não foi diferente. O desejo da descoberta cobriu-o como quem se afoga, desejava saber quem eram aqueles que ele tanto falava e se aquilo era uma brincadeira, certamente que o Kim iria querer brincar também.

— Ei, do que está brincando? — Chegou próximo ao garoto, perguntando enquanto balançava sua mão direita.

Não sabia ao menos se deveria chamá-lo hyung ou não, aparentava ser mais novo porém, por isso Nam não importou-se com essas particularidades, e mesmo que fosse considerado velho demais para brincar de alguma coisa, ele nunca deixou que a idade ou a opinião das pessoas interferissem em sua felicidade, se ele quisesse brincar com 10 anos ou com 17, iria.

— Não Taehyung, hoje eu não sou o Jungkook, sou Nochu, o rei dos piratas e… Oh!— O garoto dos cabelos negros viu o momento em que Namjoon aproximou-se dele.

Jeon estava com a mão direita cobrindo o olho direito e a mão esquerda estendida como se segurasse uma espada, parou boquiaberto quando o garoto de cabelos loiros aproximou-se dele e sorria, demorou um tempo nas covinhas fundas nas bochechas do mais velho e riu, empurrando os óculos redondos, negros e com uma armação fina, para cima.

Apontou para o Kim.

— Olhem! Ele tem a lua nas bochechas! Que gozado! — O garoto disse e começou a rir, olhando para ambos os seus lados e parecia ver pessoas rindo também.

— Só porque a lua tem a superfície esburacada, não significa necessariamente que eu tenho a lua nas bochechas! — Namjoon exclamou, cruzando os braços para o garoto de cabelos escuros que no mesmo segundo parou de rir, virando-se para ele.

— Como você entendeu meu enigma secreto de pirata? — Jeon perguntou e o Kim ainda demorou-se um tempo em sua posição afetada, antes de sorrir de canto e virar-se para Kook.

— Ah, porque eu gosto muito de estrelas! Eu gosto do céu, já pensou o quanto dá para ser infinito se você desejar todos os dias andar até o céu e não para onde você tem que andar de verdade? — perguntou ao garoto e Jungkook deu uns pulinhos, batendo ambas as mãos.

— Sim! O Taehyung vive dizendo que eu não posso ser tão tímido, que preciso ser mais como ele, alegre, desinibido, ser um pouco mais como ele é o meu primeiro passo para a lua. Eu não falei com você! — falou a primeira parte olhando para Joon,virando-se para a frente do brinquedo em seguida e falando para algo. Ou alguém.

Kim ficava cada vez mais curioso com a situação, as reações de Jungkook em falar a todo momento como se realmente tivesse alguém ali era.… Admiráveis, afinal, falar sozinho é um bom jeito de memorizar coisas e é um ótimo estímulo para a mente, mas a pergunta era, ele realmente estava sozinho?

— Ei, com quem você tanto conversa aí? — Namjoon perguntou e Jungkook demorou um tempo para perceber que a pergunta era para ele.

Pareceu extremamente feliz e animado quando foi-lhe perguntado aquilo, como se estivesse muito próximo de mostrar seus mais belos troféus.

— Ah, são os meus melhores amigos! Você quer conhecê-los? — Jeon perguntou animado, dando pulinhos, o capuz escuro escorregando pelas madeixas de mesma cor.

Namjoon porém não via ninguém, nem amigos e nem nada além deles, pensou que o garoto poderia estar mesmo brincando de algo, ou poderia ter pessoas escondidas no brinquedo plástico à frente deles, e por curiosidade e vontade de desbravar, sorriu e positivamente, de forma frenética, balançou a cabeça.

— Sim! É claro que eu quero!

Jungkook então foi correndo para o brinquedo e levantou a mão, fez um movimento com a direita —como se agarrasse algo— e caminhou até o Kim como se trouxesse esse mesmo “algo” rendido.

— Esse daqui é o Taehyung. Ele é muito abusado, só vive brincando e provocando as maiores confusões, é um baderneiro, se me permite dizer. Totalmente ao contrário de mim. Taehyung, diga oi para o garoto grandão! — falou, olhando para o lado e os lábios formaram um bico, adorável a mescla de doçura e beleza nos avermelhados do garoto menor.

— Você não tem jeito mesmo, seu mal educado! Esse daqui é o Jimin! Ele é adorável, muito amável e afetuoso, geralmente é quem me abraça ou me acalma quando eu caio e ralo o joelho. Ele está sempre confortando-me e dando-me carinho, é dois anos mais velho, mas é o mais carinhoso entre todos. Ah! Ele e o Taehyung são gêmeos, dá pra acreditar? Acho que não, porque o cabelo do Jimin é rosa e do Tae é vermelho! Mas é quase igual e… — Namjoon perdeu-se nas palavras do garoto.

No começo ele realmente achava que Nochu —como tinha intitulado-se no começo, quando o Kim ainda nem fazia parte do diálogo— estava brincando e que havia pessoas, mas Namjoon não via ninguém e mesmo assim o garoto mais novo parecia acreditar piamente que havia pessoas ao seu lado, seus amigos, como dizia.

O sinal de volta às aulas e fim do intervalo tocou, fazendo com que Jeon se assustasse.

— Olha, eu preciso voltar! O Suga hyung deve estar dormindo em cima da mesa da professora e certamente que eu vou levar bronca por isso! Preciso correr! Ah, Taehyung disse que te achou muito bonito! — Namjoon riu, Jungkook deu as costas e foi-se como as folhas se vão no Outono, correndo e balançando o negrume de cabelos brilhosos, como se o mundo inteiro o pertencesse, porque era o seu mundo.

Nos dias que se seguiram, Kim permaneceu imensamente curioso acerca do garoto, agora mais do que antes quando não o conhecia, uma pessoa é um universo tão grande que quando conhecemos uma vasta parte, ainda não é a missa metade. Voltou para ao banquinho nos dias posteriores, chegando cada vez mais perto de Nochu, uma vez sentado no escorregador, outro na casinha ou no balanço, sempre a espreita, sempre procurando descobrir mais sobre o garoto.

Joon tinha curiosidade sobre os amigos de Jungkook e mais do que tudo, gostaria de poder vê-los, como se pareciam e se eram tão agradáveis quanto o garoto pálido e de aparência doce, era.

Queria saber se Jeon era apenas muito imaginativo ou se tinha superpoderes, talvez uma qualidade especial a qual Namjoon tinha passado dessa fase na pré-adolescência e agora só lhe restava o velho e simples Kim Namjoon de sempre. Via o garoto conversar tranquilamente com seus amigos e fazer o que parecia ser uma rede de segredos, contando no ouvido deles o passo para o próximo grande truque ou a próxima incrível brincadeira.

Jungkook parecia à parte do mundo, ficava pulando na areia e batendo palmas, olhava para o céu e admirava o sol como se esperasse um milagre, ou talvez ele fosse o milagre e gostasse de admirar a beleza dos pormenores, coisa que as pessoas não costumam fazer, nunca. Andava pelos batentes como se caminhasse pela prancha de um navio pirata e ria de tudo, às vezes parecia bravo e triste, então deitava-se no banco de pedra com os olhos fechados e ficava lá, ouvindo os pássaros cantando e deixando passar o horário em que deveria voltar para a aula, ele parecia ter um universo próprio, habitava um local mais propício do que aquela terra seca e, se for para comentar sobre qualidade de vida e felicidade, inóspita.

Um dia — mais ou menos duas semanas depois de observá-lo todos os dias sem intervalos—, Namjoon decidiu que iria até lá novamente, tinha curiosidade sobre os amigos, tinha curiosidade sobre ele.

Assim que saiu de sua sala no intervalo, correu até o banco em que o garoto costumava ficar sentado, conversando com Jimin e Taehyung — ou Chimmy e Tata, como certa vez ouviu chamá-los—, mas ao chegar ao jardim o garoto não estava lá, não estava em canto nenhum do parque, para falar a verdade.

O garoto de cabelos loiros saiu em busca do Peter Pan de cabelos negros e os seus três perdidos —e invisíveis— amigos, e tudo o que encontrou foi um aglomerado de pessoas na parte mais baixa da escola, olhando para cima, admirando o último andar.

— Ele vai pular! O menino maluquinho vai pular!— Ouviu uma garoto falar e começou a espremer-se por entre a multidão, para entender o que estava acontecendo.

— O que está acontecendo? O que está acontecendo? — perguntou para todas as pessoas ao redor.

— O menino maluquinho! — Outra garota gritou, apontando para cima.

Lembrava-se do desenho como um garoto que usava uma panela na cabeça e muito criativo, pensava se por um acaso teria algum tipo de peça teatral sobre ele ou algo assim, mas preferia que fosse isso quando se deparou com a cena.

Jungkook estava de pé no batente e segurava-se no detalhe de metal, os olhos fechados, parecia aspirar o vento, sorria com o canto dos lábios, tentando aos poucos abrir ambos os braços, mas não parecia conseguir ainda.

Kim pensou que se Nochu caísse dali certamente que morreria, quebraria vários ossos também, e mesmo que não conhecesse o garoto e nem tivesse conversado com ele mais do que alguns minutos aquele dia, ainda não queria que morresse, não queria que ele se fosse, para falar a verdade. Às vezes a proximidade que você tem com alguém não se baseia no tempo, nem mesmo tem a ver com o quanto dela você conseguiu conquistar, assim tinha sido com eles.

Num ímpeto de coragem ou algo muito parecido, Joon saiu correndo adentro à escola, subiu as escadas em disparada, passando por debaixo de braços estendidos de pessoas mais adultas do que ele, apenas para conseguir chegar ao andar de cima, para ajudar o Garoto da Imaginação. Alcançou o último andar e ultrapassou a professora que gritava da porta que ele não deveria ultrapassar porque o Menino maluquinho estava tendo um surto.

Namjoon não sabia exatamente o que aquilo queria significar, quer dizer, não com aquele menino em específico, mas não era aquilo que o incomodava no momento.

— Pare de chamá-lo assim! Ele não é maluco! — gritou para a mais velha e conseguiu chegar mais perto de Jeon.

Estava de costas para Namjoon e apesar de estar na ponta do batente, mesmo de olhos fechados, Kim sentia que Nochu não sentiria medo mesmo que os tivesse abertos, o garoto parecia obstinado no que pretendia fazer ali na ponta, por isso o garoto de cabelos loiros ficou tão preocupado.

— Ei Nochu, o que faz aí? — perguntou e o garoto abriu a boca, porém não fazendo o mesmo com os olhos.

— Eu não sou o Nochu! Hoje eu sou o Esmeraldo! — falou e calou-se, parecia que gostava daquilo naquele momento e que não faria diferente.

Namjoon lembrava-se daquele nome de algum lugar e buscou na mente, tentando recobrar na memória onde tinha ouvido aquele nome antes, talvez uma história infantil, uma música, algum folclore. E lembrou-se.

— Esmeraldo, como a cidade de O mágico de Oz? — perguntou para o garoto.

Jeon demorou um tempo, antes de balançar tranquilamente a cabeça.

— E por que você seria a cidade? — perguntou ao garoto e o mesmo virou para Namjoon, os olhos permaneciam fechados.

— Não sou a cidade, eu sou o mágico.

— Por quê? — O mais alto de cabelos loiros perguntou.

O silêncio que seguiu-se fez com que Namjoon pensasse que era estranho que nenhum adulto tinha tentado intervir naquilo até o momento, será que eles achavam que era a melhor escolha? Ou simplesmente não davam a mínima? Mas aquela era uma vida em risco, como poderiam os adultos não dar a mínima para uma vida? Era isso que significava tornar-se adulto verdadeiramente, importar-se apenas com o que lhe é conveniente e o que lhe diz respeito?

Ah, cruel!

Porém, Jeon abriu os olhos dessa vez.

— Eu sou o rei. Sou o mágico sem rosto, o monstro, o mote de chamas, sou muitos e não sou ninguém. É assim que eles me vêem, todos ao meu redor. Eles me vêem desse jeito, falando “com ninguém”, isolado e alheio aos seus assuntos supérfluos, apenas porque eles têm 11 anos e eu tenho 18. Eu não sou ninguém para eles, mas para mim eu sou muitos. Mas é tão doloroso. — Tinha feito uma pausa antes de falar a última parte, Namjoon tinha compreendido a importância das primeiras partes, mas não compreendia no todo como aquilo podia ser doloroso, por isso não segurou-se e fez o seu questionamento. Nunca deixaria de ser assim, um eterno curioso.

— Como isso pode ser doloroso? Se você pode ser muitos, não encaixa em você a monotonia de ser o mesmo todos os dias, não? — perguntou e Jeon sorriu.

Estava de perfil para o Kim, os cabelos negros voavam com o vento, o nariz arrebitado e o maxilar do outro um pouco sobressalente, parecia realmente mais bonito quando sorria daquele jeito. Só agora o garoto alto que admirava Jungkook tinha percebido que o céu estava amarelado, muito próximo do pôr do sol.

— Eu me odeio. Eles me olham como se eu fosse um louco, julgam-me como um doente e eu só estou tentando ser normal. Tentando ser eu. Eu não sou louco, dói-me quando dizem, mesmo que jure a Taehyung que não dói. Eu me odeio pois desejo machucar-me, desejo machucar aos outros, desejo machucar a todos que odeiam-me por ser eu. Eles me odeiam apenas porque não podem ver o mesmo que eu. Eu só queria poder viver como eu mesmo, por que minha realidade me é tão difícil? — perguntou e em seguida fechou os olhos.

E por um momento, Namjoon entendeu, entendeu a situação e entendia mais ainda o sentimento. Entendia o sentimento de ver coisas que mais ninguém vê.

Kim Namjoon é daltônico, Deuteranopia para ser mais exato, as cores verdes tornam-se marrons aos olhos do garoto, ele sabe muito bem o que significa ver algo que ninguém mais vê. Há tempos que ele compreendeu como o mundo funciona, como as pessoas tendem a julgar e repelir o que é diferente, apenas porque há um padrão pré-estabelecido, talvez haja um padrão para aqueles que não desejam conhecer a beleza além dos limites de um quadro.

Há artistas que pintam tão minuciosamente que os pormenores passam despercebidos para aqueles que se focam no centro do quadro, esquecem de olhar nas bordas e laterais, não se importam de há um garoto chorando no canto da pintura, porque há um casal dançando no centro. Namjoon sempre sentiu-se como um um segredo escondido numa pintura que ninguém viu, um código escrito num livro que ninguém leu, porém, com o tempo aprendeu a ver beleza nisso, ver beleza em não fazer parte de algo. Há coisas que não foram feitas para fazerem parte mesmo, no entanto, não tornam-se menos belas.

— Eu compreendo você. Compreendo o que é ver algo que ninguém mais vê. É estranho não é? As pessoas nos julgam por não compreendermos o mundo delas, mas isso não significa que somos estranhos, não devemos e nem precisamos ser estranhos, só significa que temos o nosso próprio muito.

— Eles chamam-me de louco, hyung! Eu me odeio! Queria só… — Jeon fez um movimento e Namjoon temeu o pior, mas o garoto pulou para trás, para mais próximo do garoto de cabelos loiros. — Eu tenho medo das pessoas e tenho medo de mim.

Era nítido o quanto o garoto parecia desamparado, Kim perguntava-se por quanto tempo ele deve ter omitido uma necessidade de ajuda, pensou se alguém o ajudava e se aquilo era realmente um problema, quer dizer, qual o problema de falar com alguém que ninguém vê? Desde quando é preciso ver a felicidade para saber que ela é real?

O garoto de cabelos loiros andou em direção a Jungkook —o mais próximo que já tinha chegado, observou em seguida—, e tocou suas mãos, o menor olhou para ele, os olhos diziam muita coisa, mas dos lábios de Joon ainda não tinha saído uma mísera palavra.

— Do que tem tanto medo? — perguntou para o garoto.

Os olhos castanhos de Nam sempre foram muito profundos, o formato deles contribuía para isso como todo o resto de seu rosto, as covinhas eram delicadas e os lábios grossos, em vez de dar ao rosto um impacto mais urgente, passava uma sensação de tranquilidade, ele inteiro era uma serenidade desmedida.

Sem motivo e como ninguém estava esperando —nem mesmo ele—, Jungkook jogou-se nos braços do Kim e o abraçou, de imediato o mais velho pôs a mão nos cabelos alheios, os quais há tempos se perguntava qual textura teria, quando tocados.

— De que eles nunca vejam o que eu vejo!

Jeon chorou, um choro doloroso, porém silencioso, Namjoon nem sequer notou que o mais novo estava chorando.

O que Nochu tinha medo era que as pessoas nunca pudessem ver Suga, Jimin e Taehyung e mais do que isso, que nunca aceitassem que Jeon não pertencia ao mundo deles, que desde que se entende como pessoa, ser humano, vê coisas que mais ninguém vê. Ele não desejava ser assim, nunca pediu para que lhe aparecessem sombras, no entanto, lá estavam os três ao redor do garoto, dando-lhe tapinhas nas costas, o que apenas ele via e mais ninguém.

Naquele momento, Jeon não perguntou o que Namjoon quis dizer quando disse que compreendia o que ele sentia acerca de não ver o mundo como os outros, não pensou que aquele poderia ter sido apenas um truque do mais velho para tirá-lo dali ou qualquer coisa, mas não importava no momento.

Ambos saíram dali com o passar de no máximo 2 horas, as pessoas olhavam para ambos, principalmente para Jungkook enquanto os garotos estavam lado a lado, os olhos julgando de forma tão descarada que Kim perguntava-se se as pessoas não tinham vergonha de julgar tanto as outras como faziam, olhou para todas enquanto passava, para que por um momento, percebessem o quão ridículas se pareciam, queria nem que por um momento, mostrar a elas que o que elas tentavam mostrar de Jungkook, o que elas julgavam “feiúra", nelas era tão feio quanto. Nunca enxergam sua própria feiúra no espelho, porém desejam deixar a mostra a dos outros.

Os garotos foram para o parque e o Kim que achou que poderia conversar com Jeon depois do que aconteceu, ao chegar perto do banco que costumava ficar sentado, onde ouviu a voz do garoto de cabelos negros pela primeira vez, o mesmo saiu correndo para longe gritando “Suga hyung!”. Joon percebeu que não deveria incomodá-lo mais, que deveria deixá-lo adquirir seu espaço, provavelmente estava precisando.

Porém, depois daquele episódio ficou ainda mais curioso acerca do garoto, queria saber quem ele era e por que odiava-se, tinha tanto medo dele próprio e de as pessoas nunca o compreenderem, queria conhecê-lo, desbravá-lo como a um mapa, como se o tesouro fosse descobrir por que ele via coisas que ninguém mais via, Namjoon mais do que ninguém queria enxergar o mundo de Jeon.

Continuou indo para o mesmo lugar no parque, todos os dias depois do intervalo, mesmo depois que a mãe de Jungkook foi chamada e ele ouviu atrás da porta da diretora a conversa. Na verdade, por causa disso.

Ouviu a diretora dizendo que da última vez ele quebrou toda a sala dela, que saiu jogando-se nas portas do prédio, querendo ultrapassá-las sem abrir, que dessa vez queria fazer algo pior e que se ele não fosse controlado, teria de ser convidado a retirar-se da escola. A mulher que deveria estar protegendo seu filho, estava desculpando-se e dando para ele adjetivos injustos e o condicionando a algo que com certeza não era, Nam ouviu uma mãe falando sobre seu filho algo que nenhuma mãe deveria falar, talvez por isso Jeon tivesse tanto medo de que as pessoas são enxergassem seu mundo, porque em casa as pessoas deveriam passar a maior parte do tempo tentando convencê-lo de que sua verdade é uma mentira.

Mas a verdade de um nem sempre é a verdade de todos, por que as pessoas não aceitam isso?

Depois de ouvir aquilo, o Kim foi correndo para onde Jeon sempre ficava, sendo petulante, pois não tinha certeza se o garoto gostaria de sua presença naquele momento ou em qualquer outro, e lá estava ele, sentado na parte de cima da casinha, escondido, só o viu pela risadinha que dava sempre que Taehyung fazia uma palhaçada. Observava o garoto há tanto tempo que tinha aprendido até mesmo quando ele ou os outros três faziam coisas, estava aprendendo coisas sobre o garoto.

— Taehyung, eu sei que eu deveria comer melhor, mas eu não gosto quando minha mãe está na cozinha. Você sabe, ela diz que você não existe e eu sei que você existe.

— Eu também sei que você existe. — Namjoon completou sem ser solicitado, subindo pelas escadas e chegando na casinha.

Ela era feita para crianças, e era óbvio que nenhum dos dois tinha tamanho para caber naquele espaço, no entanto, se Jeon estava ali, era onde Namjoon queria estar também.

Nochu olhou-o de olhos arregalados, perguntava-se se ele realmente enxergava Taehyung e riu, antes mesmo de completar seu pensamento.

— Você consegue enxergar o Taehyung? — perguntou, o sorriso enorme e aberto para ele.

Pensou por um segundo e não queria mentir para Jeon, queria ser verdadeiro, mas também não queria desapontá-lo, mas também não queria que ele pensasse que era realmente verdade que o mundo dele era exclusivamente dele e por isso era inválido. Nam abriu a boca para responder, mas Jeon o cortou, falando primeiro.

— Suga hyung disse que você não vê nada, mas pretende mentir para mim.

Os ombros do Kim caíram e ele soltou o ar. Bom ele tinha descoberto seu truque afinal.

— Pois bem, o Suga hyung é um mágico? — perguntou e Jeon riu, jogando o corpo para trás e encostando-se no brinquedo de plástico.

— Como sabe? O Suga hyung é o Mágico de Oz, o Taehyung é o cachorro, Totó, Jimin é o leão covarde e eu sou a Dorothy! — falou levantando os braços para cima.

A animação do garoto fez Namjoon sorrir, rindo sem emitir som.

— Você gosta mesmo de O mágico de Oz, hm? — questionou e o mais novo balançou a cabeça rapidamente e múltiplas vezes.

— Sim! Eu gosto do fato de que o mundo dela é cinza e ela acha um jeito de colori-lo com a ajuda de pessoas que certamente os adultos não veriam, porque não sentem. Eles vivem. Como o homem de lata. — Jeon fez uma alusão ao Homem que desejava ter um coração, ao fato dos adultos viverem tão mecanicamente que por vezes assemelhavam-se a robôs. Namjoon sorriu, pois além de achar incrível, concordava com tudo.

— Se eu fosse um personagem, quem eu seria? — perguntou e Jeon bateu palmas, o corpo foi para o lado, como se ouvisse alguém falando em seu ouvido.

—Essa é fácil! Você seria o espantalho, só que com uma diferença! Você tem um cérebro enorme!

Desde pequeno o garoto era reconhecido pelo seu enorme QI, sua inteligência era sempre muito comentada pelos outros, mas ninguém se importava com o que ele tinha a dizer realmente, era tudo sobre a posse do conhecimento, o status, mas isso não é o que parecia chamar a atenção de Jungkook.

— Por que diz isso? — perguntou ao garoto de cabelos negros e ele encolheu as pernas, abraçando-as em seguida.

— Suga hyung gosta de você. — Mudou de assunto, foi o que Namjoon pensou inicialmente.

— Por causa da minha inteligência? — Tentou manter a linha de raciocínio do assunto anterior e recebeu um aceno negativo de cabeça.

— Porque você vê o mundo como eu vejo. — falou, olhando para o garoto e sorrindo.

O sorriso sincero e inocente, digno de uma criança — o que já não era mais tanto assim—, fez com que Namjoon se sentisse acolhido, sentisse bem por ser ele mesmo. Parecia que seu desfalque, como ele mesmo gostava de pontuar, não era nem de longe parecido com o de Jeon, mas isso não significava que não compreendia muito bem o que era ser julgado por tentar ser ele mesmo, ou por viver a mercê de pessoas que não aceitavam que o que ele via não era o que eles vivam e ele não ia mudar por isso.

— O que você vê? — Namjoon perguntou e Jungkook sorriu, olhando para o chão de madeira do brinquedo.

— Eu vejo sombras, elas me sussurram e eu sussurro de volta, mas quando tenho os três, não parece tão assustador estar na minha cabeça. Sabe como é? Estar preso na própria mente não parece tão assustador, porque eles três estão aqui. — comentou e continuou mexendo na madeira.

— Hyung, o que você quis dizer aquele dia, quando disse que via o mundo como eu? — Nochu perguntou e o Kim sorriu, por perceber que o garoto não tinha esquecido mesmo o comentário anterior.

— Muito bonito seu uniforme marrom. — comentou e Jeon olhou para a roupa dentro do moletom preto com capuz que estava usando.

— Mas essa camisa é verde! — exclamou e em seguida Namjoon olhou-o e deu de ombros, sorrindo.

Ficou em silêncio olhando para o mais novo, como se esperasse que ele tirasse suas próprias conclusões.

Daltonismo não é um problema assim tão grande, mas estar entre pessoas que nunca seriam capazes de aceitar que às vezes as pessoas não enxergam o mundo segundo os seus olhos, era como uma martelada constante num problema simples.

— Ah, você é daltônico! — Jungkook exclamou depois de um tempo breve. — O suga hyung acabou de me contar! — responde em seguida e Nam sorriu.

— Suga hyung parece muito inteligente!

— Sim, ele é o meu cérebro! Taehyung é a minha voz e Jimin, o meu coração!

Por um segundo Namjoon questionou-se. Estando ele no último ano do ensino médio, no fim do ano teriam os exames para a faculdade e ele tinha a intenção de ingressar em Psicologia, assim, pensou se por uma caso Peter Pan e os meninos invisíveis, nesse caso O mágico de Oz e os aventureiros, por acaso não eram uma projeção dos próprios arquétipos de Jungkook, há apenas uma doença a qual as pessoas veem as coisas exatamente como são, não são enganadas pelos truques da mente, é assim e pronto. Uma linha tênue com a genialidade. Talvez Jungkook apenas se visse de forma clara e aqueles três garotos fossem ele, por isso ninguém mais via, era um aspecto único dele, que não dizia respeito a mais ninguém conhecer, nada mais do que os relances de sua existência.

Continuou pensando alto, até que o mais novo segurou sua mão.

— Você enxerga o verde como marrom, não é hyung? Justo o verde que dizem que é a cor da esperança… Ah, mas não se preocupe! Eu posso ser a sua esperança, não, melhor! Eu posso colorir o seu mundo.

Jeon jogou seu corpo para frente, ficando de frente para o mais velho. Tinha um cheiro doce suave, os cabelos negros escapavam do capuz e ele sorria, pela primeira vez Joon via-o de perto, seus dentes da frente eram levemente tortos, porém salientes como os de um pequeno coelho, os óculos de armação fina sempre escorregando pelo nariz, coisa que o garoto de cabelos loiros aprendeu a achar adorável com o tempo que passou admirando Jung.

Até aquele momento, não tinha admirado Jungkook pela beleza ainda, tinha visto-o apenas como um terreno a ser explorado Ah! Como o Kim gostava de um novo mistério e era o que Jeon significava para ele, até aquele momento, estava vendo as coisas se resolverem como a um episódio costumeiro de Scooby-Doo, sem contar que agora que essas coisas estavam aos poucos transformando-se em pano de fundo, ele era realmente uma gracinha.

— Taehyung está sussurrando que seus lábios são bonitos e que eu os deveria beijar, mas eu nunca fiz isso. — Era adorável, o garoto que via um mundo tão amplo, inacreditavelmente brilhante e totalmente diferente do habitual, nunca tinha experimentado o mundo normal, aquele separado entre claro e escuro, pureza e maldade. Incrível.

— Diz para ele que será um prazer.

Com toda a delicadeza que lhe cabia, Kim pôs a mão direita na cintura de Jeon e puxou-o para mais perto, fazendo com que o garoto se sentisse confortável em seu colo. Os capuz negro escorregou pelos cabelos de mesma tonalidade quando, depois de muito se observarem como se tentassem reconhecer a área, percebessem que era seguro avançar e fossem.

Quando os lábios se encostaram no mais suave dos toques, a mão de Namjoon que acariciava as costas de Jungkook era tão suave quanto, não queria assustar o garoto, não que o considerasse um filhote e tivesse medo de tocá-lo como se fosse quebrar, mas ele já tinha sido induzido ao estrago do mundo muito violentamente, queria apresentar a Jeon um pouco de calmaria, uma vez e por um pouco, mesmo se essa calmaria viesse de alguém que era caos da cabeça aos pés.

Tentaria, tentaria mostrar a calmaria para Jeon no calor de seus braços, pois, pensando sobre o que o mais novo tinha dito, percebeu que para alguém como ele —que tinha escondido-se do mundo por perceber o quanto dele eles realmente tinham desejo de conhecer—, Jeon demonstrar o desejo de colorir seu mundo era realmente significativo.

Por um momento, Kim Namjoon percebeu que eles nunca poderiam curar um ao outro, até porque ambos não tinham cura, mas juntos poderiam acalmar o caos, afinal, pela primeira vez Namjoon via na ausência das cores —devido aos olhos fechados pelo beijo—  a dádiva, e Jeon Jungkook não estava ouvindo vozes, pois estava ocupado demais ouvindo o som de ambas as galáxias colidindo.

Naquele momento era como se o caos de ambos estivesse colidindo e resultando em poeira de estrela.



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