História Stay - Capítulo 1


Escrita por:

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Categorias Bangtan Boys (BTS)
Personagens Jeon Jungkook (Jungkook), Min Yoongi (Suga), Park Jimin (Jimin)
Tags Drama, Jikook, Morte, Oneshot, Romance, Sadfic
Visualizações 6
Palavras 8.587
Terminada Sim
NÃO RECOMENDADO PARA MENORES DE 18 ANOS
Gêneros: Drama (Tragédia), Ficção Adolescente, Fluffy, LGBT, Slash, Universo Alternativo, Yaoi (Gay)
Avisos: Homossexualidade
Aviso legal
Os personagens encontrados nesta história são apenas alusões a pessoas reais e nenhuma das situações e personalidades aqui encontradas refletem a realidade, tratando-se esta obra, de uma ficção. Os eventuais personagens originais desta história são de minha propriedade intelectual. História sem fins lucrativos, feita apenas de fã para fã sem o objetivo de denegrir ou violar as imagens dos artistas.

Notas do Autor


Olá gentee
Quanto tempo faz que eu não posto nada aqui, e meu deus como demorou pra eu postar isso aqui, mas finalmente saiu.
Não vou enrolar muito aqui, porque sei como é chato, e como a maioria nem lê.

Enfim boa leitura, espero que gostem.
Até as notas finais.

AVISO DE CONTEÚDO SENSÍVEL: menção de morte; luto;

Capítulo 1 - Golden stars


Todos os presentes estavam aos prantos. Pessoas que eu nunca tinha visto uma vez sequer, choravam pela perda.

 

Perda.

 

De vez em quando meu olhar passava sobre o seu corpo deitado dentro daquela armação de madeira, e o nó presente em minha garganta se apertava mais. Meu coração falhava uma batida todas as vezes que eu encontrava seu rosto sereno, e ele não estava sorrindo para mim.

 

É engraçado como você só percebe que alguém é importante para você, quando esse alguém se torna tão importante quanto, respirar, se mexer ou sentir. Bem, ele era esse meu alguém.

 

Quando assisti sua mãe levantar do banco de madeira e andar até o pedestal, seu nariz vermelho e seu rosto ainda molhado, pude perceber que sua dor duraria muito mais que aquele único dia, talvez até que sua dor se transformasse em nostalgia e saudades de um tempo que nunca poderá voltar. Mas de certo só deixaria de sentir qualquer coisa sobre isso quando ela descansasse como seu filho fazia agora. Ela puxou um papel do bolso de seu casaco e o desdobrou.

 

—Meu filho era um menino de ouro...bondoso e gentil com todos ao seu redor... —sua voz embargada voltou quando nossos olhos se encontraram pela primeira vez naquele dia, seus soluços recomeçaram, dando fim a qualquer outro som que pudesse ser feito naquele local, meus olhos arderam e lágrimas silenciosas voltaram a descer pelo meu rosto, eu sentia empatia por aquela senhora— Ele tinha muita coisa para viver de fato, mas já tinha vivido muito até agora, feito muitas coisas e tocado muitas pessoas. Ainda me lembro de 5 anos atrás quando ele apareceu depois de uma tempestade, com um filhote de cachorrinho todo sujo nos braços, implorando para que ficássemos com ele, lembro que eu gritei com ele, e ele implorou um pouco mais, e eu cedi, no fundo eu sabia que iria ceder em algum momento, porque ele era meu ponto fraco... —ela deu um risinho, mas não era um som feliz, era triste. Ela fungou e amassou o papel que estava em sua mão, e quando voltou a falar, não seguia mais nada escrito.

 

"Ele se foi muito cedo, e eu daria de tudo para estar no lugar dele. Meu príncipe merecia conhecer o mundo, viajar, e ajudar as pessoas como ele tanto queria. Acho que se ele estivesse aqui agora, estaria me repreendendo por estar chorando tanto, me diria para ser feliz, e com toda certeza do mundo me confortaria, porque essa era uma das coisas que ele fazia de melhor. Quando o vi pela primeira vez, eu chorei de felicidade e de medo, ele era um ser tão pequeno e inocente, e eu só queria protegê-lo de tudo. Eu sinto muito filho, por ter falhado nisso..."

 

E então toda a estabilidade que ela havia tentado construir durante todo o discurso, se desmoronou em segundos quando ela voltou a soluçar alto, com as mãos tampando o rosto e os cabelos caindo para a frente. Sua mãe, que eu conhecia sendo a avó dele foi acudi-la andando devagar até lá e abraçando a filha, tirando-a da frente das pessoas, protegendo ela em seu momento mais fraco, cumprindo o dever de uma mãe.

 

Logo após a saída das senhoras, um homem voltou para o pedestal, anunciando que agora seria o sepultamento do jovem, e que deveríamos todos nos encaminhar para o lugar onde aconteceria.

 

Então todos levantaram e seguiram para o lado de fora, onde o céu azul e o sol quente não condiziam com a ocasião que acontecia no momento. A despedida de muitos para um único alguém.

 

Quando nos reunimos perto de onde aconteceria, enquanto eu assistia tudo acontecer, meus ouvidos estavam tampados, os sons chegavam abafados até mim. Eu não estava realmente presente.

 

Não sei quanto tempo demorou para que todos falassem, sei que só voltei a prestar atenção quando alguém ao meu lado me cutucou, falando que eu deveria pegar um punhado de terra para jogar no caixão.

 

Quando o fiz, a terra estava gelada e úmida, e isso começou a me deixar incomodado enquanto esperava a minha hora.

 

Eu era um dos primeiros entre as pessoas que jogariam a terra, após anos ao lado dele, era compreensível que todos me considerassem alguém importante.

 

 Quando chegou minha vez, me aproximei do caixão, a terra ainda incomodando minha pele, entrando em minhas unhas, escapando pelo espaço entre os meus dedos. Observei sua feição tranquila, ele parecia dormir. E eu queria que estivesse.

 Andei até sentir meu corpo bater contra a madeira, levei minha mão livre até seu rosto, e quando senti o contato gelado, não pude evitar o leve susto que tomei.

 

 Ele era quente, sempre tinha sido calor, e agora ele estava frio, agora era morte. Lágrimas rolavam pelo meu rosto, e eu não sabia quando tinham voltado a aparecer, mas sabia que continuariam ali. Quando aproximei meu rosto dele e deixei um leve selar em sua face agora mais pálida que antes, sabia que estava me expondo demais, sabia que deveria recuar, mas então sua voz apareceu na minha cabeça, me dizendo que deveria parar de me importar com o que os outros pensavam.

 

Quando me afastei, acariciei seu rosto uma última vez, o encarei uma última vez e fechei os olhos, gravando aquela imagem nas paredes da minha mente. Andei até o meu lugar de antes de cabeça baixa, sei que todos estariam me olhando, ele não estaria mais aqui para ver o que aconteceria com as pessoas depois de ver uma demonstração tão íntima, mas eu sofreria as consequências.

 

Depois daquele momento, permaneci com a cabeça abaixada, ouvindo os murmúrios e sussurros das pessoas ao redor. Só levantei a cabeça quando a cerimônia estava quase acabando. Era o momento de todos jogarem a terra na sepultura, e então tudo acabaria.

 

Andei até o caixão quando minha vez chegara, jogando a terra devagar na sepultura.

 

—Vou sentir sua falta... —minha voz estava rouca, pelas muitas horas que eu estava sem falar, minhas cordas vocais ardiam e apenas esse sussurro que eu havia soltado já era doloroso o bastante. Mas nada seria mais forte que a dor que eu sentia no peito, dor essa que aquele buraco —que só crescia— proporcionava.

 

Depois de assistir seu caixão, agora fechado, ser coberto pela terra, não esperei mais, saí andando para longe, mas não tão longe que eu não pudesse mais sentir sua presença. Agora era ali que eu poderia encontrá-lo, então seria ali que ficaria.

 

Subi a leve inclinação que o terreno do cemitério possuía, parando só quando encontrei uma mureta, no topo do morrinho. Me sentei ali, observando a paisagem, me desligando do mundo e repassando todos os momentos vividos com ele.

 

Não sei quanto tempo fiquei ali e nem se ainda tinha alguém lá embaixo, foi só quando senti uma movimentação ao meu lado que desviei a minha atenção da paisagem para olhar o que era.

 

O garoto sorria minimamente, mas mesmo assim senti meu interior aquecer com a visão.

 

—Você devia parar de se martirizar tanto, você sabe que não foi sua culpa... —ele começou a falar, enquanto se sentava ao meu lado, revirei os olhos e voltei a olhar para frente.

 

—É claro que você iria falar isso —resmunguei, e ouvi um risinho vindo do garoto— Aliás, o que você está fazendo aqui Jungkook? Você não deveria...

 

—Eu vi que você estava triste, e vim aqui te consolar. Você sabe que é o que mais importa para mim —ele não deixou que eu terminasse de falar. Um silêncio se instalou entre nós dois e ambos sabiam o que suas palavras significavam— Você sabe o que tem que fazer a partir de agora, não sabe?

 

—Como assim? Depois do que aconteceu hoje? —questionei mesmo que soubesse a resposta, vi o garoto anuir e olhei para baixo, sem saber o que fazer.

 

—Você tem que seguir a sua vida, ser feliz, e não se importar com o que os outros pensam de você —ele diz exatamente o que eu sabia que ele iria querer que eu fizesse. Uma súbita coragem me tomou com o seu incentivo.

 

—Tem razão...o que acha de passarmos o dia todo juntos? —me levantei e ofereci minha mão para o garoto, vendo um sorriso lindo e contagiante surgir em seu rosto, me fazendo sorrir também.

 

—Acho uma ótima ideia —nossas mãos se apertaram uma na outra e nossos dedos entrelaçaram, e tudo parecia muito certo.

 

O puxei para o estacionamento do cemitério onde minha picape estava parada, do jeito que eu tinha deixado naquela manhã. Fui até o lado do motorista e abri a porta me sentando no banco e me ajeitando. O vi abrir a porta do carona e se jogar com tudo no banco, fazendo o carro balançar levemente.

 

—Ficou maluco? Quer quebrar o meu carro? —reclamei e ele gargalhou, fechando a porta e colocando o cinto. Coloquei o cinto também e logo dei partida, ouvindo o motor do veículo fazer um barulho alto e potente.

 

—Para onde vamos? Tem alguma ideia ou eu posso escolher? —perguntou mexendo no meu celular, dando uma olhada nas opções.

 

—Para onde você quer ir? —perguntei olhando para ele pelo canto dos olhos, enquanto entrava na avenida.

 

—Eu quero ver o mar... —sorriu bloqueando o celular e o colocando no porta-luvas.

 

—Tudo bem, aqui vamos nós —olhei para ele rindo e acelerei o carro, dirigindo tranquilamente.

 

—Mas como a gente vai entrar no mar vestido desse jeito? —ouvi seu questionamento já sabendo do que ele se referia.

 

—A gente não pode entrar na água, se você não lembra, estamos no inverno, e a água do mar fica congelada de tão fria —retruquei, e sabia que ele estava revirando os olhos.

 

—Mas hyung, eu queria entrar na água... —olhei para o lado rapidamente e pude ver o bico que se formava em seus lábios.

 

—Não quero morrer de hipotermia não, e se a gente estragasse esses ternos, sua mãe nos mataria —eu tinha um bom ponto de vista, e sabia que tinha razão. Jungkook também sabia.

 

—Olha já estamos chegando! Ai olha, eu amo o mar... É tão bonito... —ele parecia uma criança com o rosto colado no vidro da janela, tentando enxergar mais pedaços azuis no chão.

 

De fato já estávamos chegando, porque o mar de alguma forma era perto do cemitério que aconteceu o funeral. Não sabia se a escolha tinha sido proposital, mas ao menos tentaria procurar saber, algum outro dia.

 

Quando estacionei o carro perto da praia, ele pulou para o lado de fora correndo até a areia e eu ri do seu entusiasmo. Antes de me afastar do carro, tirei meu paletó e a gravata que incomodava meu pescoço. Arranquei os sapatos sociais e joguei tudo dentro do carro, correndo em direção ao menino que agora estava parado encarando o mar que parecia infinito. Ficamos um tempo em silêncio, observando a tranquilidade das ondas que quebravam, e sentindo o cheiro do mar.

 

—Você já quis sair daqui? —ele se virou para mim, o vento bagunçando todo o penteado que devia ter sido feito meticulosamente— Ir para bem longe, para um lugar onde nós não fôssemos errados?

 

Pensei um pouco em seu questionamento. Eu conseguiria largar tudo que eu tenho aqui para construir minha vida em um outro lugar, somente com a promessa de ser mais feliz?

 

—Você iria comigo? —perguntei de volta, o encarando nos olhos, tendo que levantar um pouco o rosto para fazê-lo.

 

—Sempre vou estar com você —ele respondeu quase de imediato, e então eu percebi que faria qualquer coisa se estivesse com ele, porque ele era meu tudo.

 

—Então eu iria até o espaço se fosse com você —sorri de felicidade, o buraco que estava em meu peito se contraindo aos poucos, se tornando menor.

 

Sua mão primeiro tocou meu rosto, fazendo uma carícia em minha bochecha, tão familiar, mas tão diferente todas as vezes. Então ela desceu pelo meu pescoço, então meu ombro e foi escorregando por meu braço, até que nossos dedos estavam entrelaçados. Fortalecendo nossa conexão.

 

Nossos olhos se encontraram, e eu sorri, sem nem conseguir evitar. Seus olhos enrugaram e seus dentes ficaram à mostra. Quando senti seu puxão levei um susto, mas logo fui tranquilizado quando senti seus braços me envolverem em uma abraço terno.

 

Ficamos alguns segundos assim, ou talvez minutos, não sabia ao certo porque o tempo nunca passava da forma que deveria quando eu estava com ele.

 

Depois de um tempo estávamos sentados na areia e conversando sobre as banalidades da vida.

 

—Qual é o seu sonho? —ele agora me encarava, acho que estava criando expectativas em relação a minha resposta. Não acho que deveria.

 

—Se você me perguntasse isso uns dias atrás, eu responderia que meu sonho é ter uma vida tranquila. Com estabilidade financeira e uma família bem estruturada, um trabalho seguro. Uma vida sem riscos —pausei minha fala para pensar um pouco no resto de minha resposta— Mas agora, depois de tudo o que aconteceu? Eu já não sei mais...Mas e qual é o seu sonho?

 

—Qual deles? Meu sonho seguro ou meu sonho corajoso? —ele sorria, como se falasse uma coisa que apenas ele entenderia, em seu próprio mundo— Bom...meu sonho seguro, seria eu me formar na faculdade de Medicina Veterinária, e abrir uma clínica aqui na cidade... E meu sonho corajoso, seria tentar uma vida de escritor. Viajar pelo mundo e escrever sobre pessoas, sobre histórias que tocassem as pessoas. Mas essas eram possibilidades, agora nada disso é possível, não depois do que aconteceu.

 

—Por que em todo esse tempo você nunca me mostrou nenhum manuscrito seu? —minha indignação era evidente pela afinação da minha voz.

 

—Não acho que você seria digno dos meus manuscritos... —eu sabia que ele estava brincando mas parti para cima dele mesmo assim, ele de alguma forma também sabia que nada daquilo era sério.

 

—Ah é?! Então é assim agora? —resmunguei e dei-lhe uns socos fracos no estômago e peito, simulando uma briga, mas logo desisti e sentei novamente, virando-me para o outro lado, de costas para ele.

 

—Você sabe que eu estava brincando, não é? —ele cutucou meu ombro, e eu o afastei. Fiquei um tempo parado e estranhei a falta de movimento.

 

Quando me virei para procurá-lo, não precisei concluir o ato, porque ele já vinha em minha direção, me atacando com cócegas.

 

No momento que nos embolávamos na areia, um casal com duas crianças chegavam à praia. Tentava me afastar, falando que as pessoas olhavam estranho para aquela cena, mas logo suas mãos estavam em mim novamente, me fazendo rir descontroladamente.

 

Só depois que as pessoas estavam longe de nós, que Jungkook me deu uma trégua e se afastou um pouco.

 

—Você devia parar de se importar com essas pessoas preconceituosas que não aguentam ver duas pessoas serem felizes, sem estarem no padrão —seu discurso sempre na ponta da língua foi jogado ao ar, como uma cobrança, mas também como uma decepção.

 

Ele se decepcionava comigo todas as vezes que eu me importava mais com o que as outras pessoas pensariam, do que com o que eu sentiria. Decepcionava-se quando eu escolhia as coisas pequenas, e não as coisas grandiosas que fazem a vida valer a pena. Por mais que ele nunca falasse, eu percebia quando encarava seus olhos.

 

—Desculpa...eu tento, mas é uma coisa difícil de passar por cima assim... —busquei por suas mãos, suas mãos quentes que me passavam confiança— Eu vou fazer isso, por você. Eu vou conseguir. Quer saber, hoje eu não vou ligar para nada, nem ninguém, só para você.

 

Ele sorriu e apertou minha mão em retorno, como um carinho. Eu sentia que ele não havia terminado, mas pareceu que ele não queria prolongar o assunto, porque logo estava de pé e me puxando para cima junto.

 

—Vamos eu estou cansado de ficar aqui sem fazer nada —reclamou me puxando pela areia, em direção a parte que era feita de concreto— Quero tomar sorvete!

 

Enquanto eu abria a porta do motorista do carro, ele entrava pela janela do carona. Resmunguei com ele sobre o carro ainda ter uma porta, e que era para ele usá-la.

 

—Entrar assim não tem graça nenhuma —o biquinho que ele fez com os lábios era até fofo, mas não me deixei levar.

 

—Sabe o que mais não vai ter graça? Os tapas que eu vou te dar se você fizer isso de novo —fiz cara feia e ele me respondeu mostrando a língua. Não pude evitar de rir.

 

Girei a chave do carro, ouvindo o barulho do motor trabalhando, acelerei e assim saía do pequeno estacionamento que havia perto da orla.

 

Íamos em direção a cidade que ficava perto do litoral. O centro era até que razoavelmente grande, possuía um pequeno prédio que podiam chamar de shopping, e algumas lojas interessantes na rua principal.

 

Estacionei duas ruas antes do centro comercial, onde era um pouco mais vazio, e eu conseguiria uma vaga. Fomos andando de mãos dadas pela calçada, analisando as fachadas procurando uma em específica.

 

Não era a primeira vez que visitávamos a cidade. Ela era nossa válvula de escape em dias difíceis. Íamos até lá, andávamos um pouco, e lá éramos pessoas diferentes. Diferente do que sempre éramos naquela cidade onde nascemos.

 

Quando encontramos o letreiro colorido, com um sorvete gigante do lado, logo paramos e entramos na loja com estilo dos anos 60 por dentro.

 

—O mesmo de sempre? —perguntei ao menino que já estava sorrindo novamente, e ele concordou apenas com um movimento de cabeça.

 

Fui até a fila do caixa, onde haviam duas pessoas na minha frente, uma delas já pagava o seu pedido, enquanto a outra continuava a mexer no celular. Era um garoto que devia ter mais ou menos a mesma idade que a minha.

 

Esperei um pouco, e logo minha vez tinha chegado. Fiz o pedido sem muita complicação, afinal não era a primeira vez que vinhamos àquela sorveteria. Quando me direcionei para o balcão, esperando que o meu pedido ficasse pronto, parei ao lado do garoto que estava na minha frente na fila do caixa.

 

O garoto que mexia no celular, levantou os olhos da tela para me analisar, sorrindo simpaticamente logo em seguida. Retribui o sorriso e olhei para a frente, vendo pelo canto dos olhos quando o menino pegou seu pedido e foi embora.

 

Olhei para o lado novamente, meus olhos dessa vez indo até Jungkook que sorria para mim daquele jeito doce de sempre. Senti meu interior esquentar, e um sorriso mínimo apareceu em meu rosto involuntariamente. 

 

 Quando minha atenção foi chamada pelo balconista, um sorriso —mesmo que menor— continuou em meu rosto. O rosto estranho estava olhando para Jungkook, e sua testa estava enrugada. 

 

Será que ele percebeu que somos...

 

Não, não é nem possível afirmar isso só de olhar.

 

Afastei esses questionamentos enquanto meus pés batiam firmes no chão, no caminho de volta para a mesa. Jungkook observava a janela quando me sentei de frente para o seu banco.

 

–O que tanto olha? –estendi o sorvete em sua direção, enquanto finalmente recebia atenção de seus olhos negros.

 

–Para algumas pessoas. Algo importante têm que acontecer para que elas dêem valor a vida, você não acha? –seu queixo estava apoiado em uma de suas mãos, o deixando com um ar infantil. Ele negou o sorvete apenas com um movimento de cabeça.

 

–Você está muito filósofo hoje, não? Você não vai querer o sorvete? —perguntei incrédulo, crente de que tinha gastado meu dinheiro desnecessariamente— Você não queria comer sorvete? Foi por isso que viemos aqui.

 

 Jungkook pareceu achar graça do que eu falava, porque de seus lábios saiu uma risadinha, só não conseguia distinguir se ele estava debochando de mim ou apenas achando engraçada a minha reação.

 

—Fala sério Jimin, nós dois sabíamos que você iria comer o meu sorvete depois que acabasse o seu, eu só te poupei de ter que esperar o outro ficar pronto, nem precisa me agradecer —o sorriso convencido em seu rosto foi espelhado no meu em uma expressão fechada.

 

—Eu te dou... muita...confiança sabia? —as palavras saíam da minha boca entre as colheradas de sorvete. Jungkook riu logo depois levando sua mão até a minha que estava em cima da mesa, apertando-a em um carinho leve.

 

Meu polegar automaticamente se moveu contra sua pele, acariciando e retribuindo o gesto. Não pude deixar de sorrir, o encarando como o bobo apaixonado que era.

 

 Em certo momento, senti meu rosto esquentar, e a vergonha me atingir com força ao perceber o tempo que nossos olhos passaram conectados. Rapidamente minha visão já estava focada em meu sorvete, e então ao levantar a cabeça para olhar ao redor avistei dois funcionários sussurrando um para o outro, ambos encaravam minha mão acariciando a mão de Jungkook em cima da mesa, pude ver o exato momento em que seus lábios se moveram.

 

"Estranho".

 

Era o que ele havia falado para o colega. Logo tirei minha mão de cima da mesa, parando com ela em meu colo, apertada em punho. Poderia ouvir meus dentes rangendo tamanha era a força que meu maxilar fazia para permanecer pressionado, impedindo que eu começasse a gritar sobre como aquilo que estavam fazendo era errado. Afinal são apenas duas pessoas que se amam, demonstrando o carinho que sentem uma pela outra.

 

 Não matamos ninguém, não roubamos, nem vandalizamos nada. É apenas amor, e não deveria ser nada mais que isso. Porém eu sei que onde vivo, amar certas pessoas, ser quem realmente é, deve ser sinônimo de vergonha e ódio, raiva e fereza. Sinônimo também de maldade.

 

 Perdido em meus pensamentos, nem percebi quando Jungkook começou a me encarar preocupado, porém quando percebi o sorvete já estava escorrendo por entre meus dedos e pingando na mesa porque o recipiente onde estava anteriormente não passava mais de um copinho destruído.

 

—Hey Jimin, está tudo bem? O que aconteceu? —sua serenidade me fazendo desviar o olhar dos dois, que agora pareciam encarar Jungkook com expressões intrigadas, para encarar seu rosto, suavizando um pouco o vinco que estava formado entre minhas sobrancelhas.

 

—Tudo bem, só uma gente babaca —não pude deixar de olhar em volta para verificar se ninguém mais estava curioso sobre nós dois— Vem vamos sair daqui.

 

 Antes que pudesse ao menos ser contestado puxei-o pela mão, entrelaçando seus dedos nos meus que estavam limpos, e arrastando-o para fora da sorveteria, não sem antes olhar uma última vez para os funcionários e jogar os dois sorvetes que não prestavam mais no lixo. Quando a porta fechou atrás de nós, todos no estabelecimento nos encaravam, e eu conseguia sentir um orgulho de mim crescendo em meu interior.

 

—Fico feliz que você tenha tomado finalmente uma atitude —por suas palavras já conseguia imaginar perfeitamente o sorriso que estava formado em seu rosto— Estou orgulhoso por você finalmente ter priorizado sua felicidade. Agora vem, a gente precisa achar um banheiro para você lavar essa mão suja.

 

Instintivamente comecei a seguir seus passos. Chegamos em um banheiro e apressadamente lavei as mãos, ansioso para o que iríamos fazer em seguida.

 

—Você já foi a um daqueles cinemas de carros? —quando a pergunta foi feita, sorri e neguei, precipitando qual seria a diversão da vez— O que acha de irmos? Vi uns panfletos falando sobre o evento que vai ter hoje a noite na cidade. Nós podemos ir ao mercado agora e comprar coisas para um piquenique, ver o filme e depois nós podemos ir para algum lugar afastado para comer e conversar. O que me diz?

 

—Pode ser —respondi quase que de imediato, e recebi um olhar desconfiado em troca, rindo em seguida— É sério, vamos lá. Vai ser divertido!

 

Bati meu ombro no seu de propósito, fazendo seu corpo chegar para o lado para que eu pudesse pegar papel, secando as mãos e jogando o papel usado no lixo.

 

—Licença se usa sabia? —quando olhei para ele, seus braços estavam cruzados em frente ao peito, como se fosse brigar comigo, comecei a rir de sua cara.

 

—Que foi? Vai começar a chorar, bebê? —imitei uma cara de choro, e desatei a rir de novo, levando um susto ao ser puxado contra seu corpo.

 

—Você é um bobo, sabia? —ele falou enquanto me esmagava entre seus braços em um abraço de urso.

 

—Ai me solta! Você quer me matar asfixiado? —reclamei e quando finalmente me vi livre de seus braços, mais fortes do que eu me lembrava, me virei para ele apontando para o meu rosto— Posso ter um rosto de boneco mas eu não sou um brinquedo, entendido?

 

—Pode até não ser um boneco, mas o tamanho é bem parecido —quando tive a oportunidade de me sentir ofendido, ele já saía do banheiro gargalhando.

 

—Nossa! Minha altura sério? Como você é super criativo, não é? Não tem nada melhor para tentar me atingir? Porque esse insulto já está bem ultrapassado… —falei passando direto por ele, como se o ignorasse, e fui em direção a rua, parando em frente a faixa de pedestres.

 

Assim que parei na calçada, esperando que o semáforo ficasse vermelho para os carros, para que assim eu pudesse atravessar, senti um braço em meus ombros. Quando olhei para o lado, Jungkook encarava o supermercado à nossa frente com certa curiosidade.

 

—Eu acho que nunca vim nesse supermercado antes… —ele comentou, enquanto andávamos sobre a faixa de pedestres.

 

—Acho que… eu já tive que comprar um guarda-chuva aí, naquela vez que a gente veio passar o dia e começou uma tempestade —comecei a me lembrar da ocasião enquanto íamos em direção às portas do supermercado.

 

—Você pega o carrinho, vou te esperar aqui.

 

 Fui até onde estava uma fileira de carrinhos, puxando um deles, tendo que fazer um pouco mais de força, já que aparentemente ele estava agarrado ao da frente. Fui empurrando-o até a porta automática, sentindo o jato de ar vindo da parte superior da porta e logo apreciando que o ambiente estava fresco, e não congelando como lá fora, por causa dos climatizadores.

 

 Passei pelos caixas, passeando pelos corredores procurando pela seção que me interessava. Analisando as prateleiras com cuidado, olhei de volta para Jungkook.

 

—O que devemos comprar para comer? —questionei, sem ideias para o que levar para o piquenique que o garoto tanto queria fazer.

 

—Vamos levar suas comidas favoritas, um consolo por ter enfrentado seus medos hoje —ele falou sorrindo para mim, e senti meu coração esquentar igualzinho acontecia todas as vezes que seus dentes perfeitamente  brancos davam o ar da graça.

 

—Eu deveria desconfiar do fato de você estar sendo generoso demais comigo hoje? —olhei para ele que já começava a andar ao longo do corredor apontando para os pacotes enquanto eu pegava as embalagens e colocava dentro do carrinho.

 

—Se eu não for agora, quando que eu vou ser? —ele se virou de costas, ainda andando, mas dessa vez enquanto me encarava, ele deu de ombros, um sorriso terno aparecendo em seus lábios— É assim que a vida funciona, Jimin. Sempre faça agora, o que puder fazer agora, nunca se sabe o dia de amanhã.

 

 Quando iria lhe responder, vi o carrinho de uma mulher com uma criança dentro ser empurrado em direção à Jungkook. A mulher olhava para o lado, sem prestar atenção no que fazia. Antes que o carrinho de metal colidisse com o corpo de Jungkook, dei um grito de aviso.

 

—Ei cuidado! —na mesma hora que minha voz foi jogada ao ar, os dois pararam, a mulher me encarando como se eu fosse um tipo de aberração, e Jungkook saindo do caminho do carrinho. 

 

 A criança que fazia um passeio dentro do carrinho começou a chorar desesperadamente, seu rosto ficando tão vermelho que achei que sua cabeça pudesse estourar a qualquer momento.

 

—Maluco —a mulher murmurou ao passar por mim, empurrando o carrinho enquanto tentava acalmar a pobre criança que tinha levado um susto enorme.

 

Olhei para trás a tempo de ver a mulher virando o carrinho no corredor principal, e saindo da vista de nós dois.

 

—Que mal educada, nem pediu desculpas —resmunguei enquanto voltava a andar com o carrinho, terminando de pegar as coisas que queria— Está tudo bem, certo?

 

—Está sim, não se preocupe —pude observar pelo canto dos olhos ele encarar o chão rapidamente e soltar um suspiro logo em seguida.

 

 Bem se ele não queria falar sobre isso, tudo bem.

 

—O que você acha que devemos levar para beber? —perguntei e me encaminhei para a geladeira enorme que havia no mercado— Estava pensando entre chá gelado ou algum suco. O que acha?

 

—Acho que chá gelado está bom para mim. —respondeu, e logo abri a porta da geladeira, sentindo o vento frio causar arrepios por meus braços, puxei uma garrafa da bebida e fechei a porta com um barulho sendo ouvido.

 

—Meu deus você quer morrer de frio mesmo, não é? —comentei me referindo à sua escolha.

 

Depositei a garrafa dentro do carrinho, e corri meus olhos pelos produtos que estavam ali dentro. 

 

—Acho que já temos tudo o que precisamos, não é? —indaguei, pegando um pacote de balinhas e juntando às outras embalagens.

 

—Na verdade eu acho que aqui tem comida até demais, mas tudo bem. Vamos logo para o caixa —falou andando, revirei os olhos e o segui. 

 

 Para nossa sorte um caixa acabava de ficar disponível, enquanto Jungkook ia correndo para que ninguém pegasse nossa vez, eu corria atrás, rindo de sua expressão de desespero.

 

 O caixa tinha a cara fechada enquanto passava os produtos pelo leitor de código de barras, somando seus valores ao total que eu pagaria. 

 

—Dinheiro ou cartão, senhor? —o garoto perguntou enquanto levantava finalmente seus olhos sem expressão para me fitar.

 

—Cartão —respondi após checar a carteira, não tinha levado dinheiro algum, levando em consideração a minha programação pela manhã, era compreensível.

 

—Débito ou crédito —parei para pensar um pouco sobre, e no final acabei por responder que seria no débito.

 

 Após digitar a senha na maquininha, enquanto ambos esperávamos a compra ser concluída, passei meus olhos pela pele extremamente branca —porém nada incomum— do caixa, meu olhar logo parando na plaquinha com seu nome.

 

Yoongi.

 

O nome parecia combinar com ele, eu sentia que sim. Algum tipo de intuição esquisita me dizia.

 

Quando voltei a prestar atenção no mundo real, percebi que o menino estava com a mão estendida, segurando meu cartão, esperando que eu o pegasse.

 

 Rapidamente peguei o cartão, guardando ele em minha carteira e as compras em duas bolsas. Saindo do mercado com um Jungkook sorridente ao meu lado.

 

—Olha! Daqui a pouco vai anoitecer, o filme já deve ter começado… —falou, então segurou em minha mão e me puxou, meu corpo sofrendo um solavanco enquanto seguíamos correndo.

 

 Agradeci internamente aos deuses que o sinal fechou quando fomos atravessar, meus ouvidos abafados, os barulhos da cidade baixos ao fundo do som principal que era sua gargalhada, esta que parecia ecoar em meu interior.

 

 Após alguns bons minutos correndo, quando fomos parar na rua atrás da parte movimentada da cidade, avistei meu carro estacionado na lateral da rua. O ritmo de nossas passadas foi diminuindo até que estivéssemos ao lado da picape.

 

—Vamos logo! Já devemos ter perdido meia hora de filme! —Jungkook reclamou enquanto entrava no carro, acompanhado de mim.

 

Coloquei as bolsas de compra em seu colo e levantei um pouco o tronco para pegar as chaves do carro no bolso da calça, me jogando com tudo no banco logo em seguida.

 

—Isso vai ser interessante —comentei girando a chave e ouvindo o barulho do carro em funcionamento.

 

O lugar onde iria acontecer o cinema de carros não era muito longe de onde estávamos, então em menos de cinco minutos tínhamos chegado.

 

 E realmente, o filme já havia começado, e parecia que estava na metade já. Me lembrei que o filme começaria às 16h, olhei para o visor do carro, que indicavam ser 17h, revirei os olhos enquanto me afundava no banco.

 

—Chegamos depois da metade do filme —resmunguei, enquanto pegava uma das sacolas e pegava uma caixinha com palitos de chocolate.

 

—Você podia parar de reclamar um pouco né? Só aproveita Jimin, nunca ouviu falar em Carpe diem? —retrucou, enquanto pegava na minha mão, e entrelaçava seus dedos aos meus— É um ditado que significa "Aproveite o dia", quer dizer, aproveite o hoje, não deixe para fazer nada amanhã.

 

—É um ditado legal —comentei enquanto comia um palitinho e me aconchegava em seu peito.

 

—É verdade —ouvi sua resposta, e logo após senti seu nariz se arrastando pelos meus cabelos— Já estava com saudades do seu cheiro sabia?

 

—Mas você fez isso ontem mesmo… —rebati, fechando os olhos só para apreciar o momento em que estávamos.

 

—Eu sempre vou estar com saudades —falou e apertou o braço ao meu redor, em um meio abraço.

 

—A gente nem está vendo o filme, parou para perceber? —comentei enquanto o olhava de cima.

 

—Faz parte —ouvi sua risada, e comecei a rir também, o som morrendo aos poucos, até que o silêncio se instalasse dentro do carro, e só fosse ouvido o som do filme que ainda passava na enorme tela —e que parecia já estar no final.

 

 Ficamos quietos assistindo o final do filme, onde o mocinho conseguia dar a volta por cima apesar de tudo e ia ser feliz com seu par romântico. Senti sua mão apertar a minha levemente, e senti minha pele esquentar onde nos tocávamos.

 

 Quando os créditos apareceram na tela, muitas pessoas já buzinavam em seus carros, impacientes com a demora para outros manobrarem. Plantei um beijo em sua bochecha antes de me afastar e tomar o volante em mãos, girando a chave de ignição.

 

 Estávamos saindo daquela confusão de carros juntos, fugindo do engarrafamento enorme que aquele centro comercial viraria.

 

—O Sol já vai se pôr, vamos para um lugar? Quero te mostrar… —Jungkook disse, e logo já estava apontando uma direção— Eu te guio.

 

No fundo eu sabia que aquela frase tinha mais do que somente aquele sentido, por isso que concordei sem antes pestanejar.

 

 Fui dirigindo tranquilamente, sendo seguido pelo grande astro rei que deixava seu reinado, para voltar no dia seguinte. 

 

 Quando chegamos em uma subida parecida com a do cemitério, Jungkook fez um sinal para que parasse o carro. Estávamos perto de um bosque, e onde subíamos no exato momento era uma colina, que dava uma esplêndida vista da nossa cidade.

 

 —Vem, senta aqui —me chamou, enquanto se sentava sem nenhum cuidado com o terno —agora já amarrotado pelo dia cheio— e batia com a mão no espaço ao seu lado.

 

Coloquei as sacolas ao meu lado no chão, e me sentei onde ele tinha indicado. Parei um minuto para olhar para a frente, e senti minha respiração ficar presa e meu coração palpitar. 

 

 As luzes da cidade aparecendo em contraste com os tons escuros que pincelavam o céu, ao mesmo tempo que próximo a linha do horizonte, manchas de laranja e vermelho se mesclavam, demonstrando que em algum momento o Sol havia passado por ali.

 

 Sabia que aquele momento ficaria gravado na minha memória, como um quadro que você vê e te enche de emoções e significados.

 

—É bonito né? —olhei para seu rosto de repente, sua expressão estava indecifrável, até mesmo depois de todos esses anos, e todas as emoções que já tinha visto passar por sua face, aquela era nova para mim— Sabe, você pode vir aqui sempre que quiser desestressar um pouco. Se afastar daquela cidade, quando estiver de saco cheio dela.

 

 Conseguia sentir algo em meu âmago, alguma coisa que eu não conseguia identificar, com um nó na garganta assenti, concordando com o que ele falava.

 

—Sei que você já planejou toda a sua vida nesse lugar, mas sabe, eu te amei muito, e sempre vou amar, por isso que estou falando isso agora. Vai para longe daqui, vá para uma faculdade em Seul, faça o que você realmente quer fazer. Eu ia te contar sobre meus planos no mês que vem, eu pretendia sair da cidade, construir minha vida em outro lugar, porque isso aqui não é para mim. Precisava de um lugar que eu pudesse ser feliz, e você também precisa. —suas duas mãos seguraram as minhas, e quando encarei-as, senti algo molhado correr pela minha bochecha, limpei correndo a lágrima que logo pingaria na minha blusa.

 

 Algo implícito em suas palavras fazia meu coração doer, e eu estava mais perdido do que nunca em suas palavras.

 

—Você vai embora? Vai me deixar aqui? —perguntei, mais lágrimas se juntavam a outra, num choro silencioso.

 

—Jimin, olha para mim. —ele pediu, e como se eu vivesse para atender seus pedidos carinhosos como aquele, nossos olhos se encontraram— Eu nunca te abandonaria aqui, nunca mesmo. Mas você sabe que não foi escolha minha dessa vez. Se eu pudesse, ficaria para sempre ao seu lado. 

 

—Ontem… eu não queria que aquilo tivesse acontecido… foi culpa minha, eu sei. Você… você estava preocupado comigo, você não viu quando ele chegou... —de repente o choro antes singelo e silencioso, tinha se transformado em uma tempestade turbulenta dentro do meu peito, que tenta escapar pelos meus olhos.

 

—Não foi culpa sua, é claro que não foi. Como você iria adivinhar que o carro passaria exatamente naquela hora? A culpa foi minha, eu fui descuidado. Eu deveria ter olhado antes de atravessar correndo. Você não tem culpa de nada, ok? —suas mãos largaram as minhas, para então se direcionarem ao meu rosto, acariciando minha pele agora encharcada. 

 

 Puxei sua blusa social para perto, e seu corpo veio de encontro ao meu. Rapidamente rodeei meus braços ao seu redor, fazendo seu corpo tremer a cada solavanco que o meu dava, causados pelos soluços que saíam incessantemente.

 

—Me desculpa, me desculpa… —eu pedia como se aquelas palavras fossem consertar a situação que eu me encontrava.

 

 Senti seus braços me rodearem, e seu queixo se apoiar no topo da minha cabeça.

 

—Hey… você sabe que eu te amo muito mesmo, não é? Não precisa pedir desculpas por nada. Todos os momentos que eu passei do seu lado só serviram para provar o quão incrível você é. —senti suas mãos voltarem para meu rosto, dessa vez fazendo uma leve pressão para que eu retornasse a olhar em seus olhos.

 

 E foi aí que eu vi a coisa mais linda que meus olhos já capturaram. O céu estrelado estava todo refletido em seus olhos escuros, e seu sorriso parecia me tranquilizar, porque depois que avistei-o, minha respiração se estabilizou.

 

—Jimin, eu precisei ir embora, mas você vai ter que continuar sem mim, tudo bem? Ontem foi o fim da linha para mim, mas não para você, entende? Você não pode parar de seguir em frente. Você precisa. Vou estar sempre te observando de onde eu estiver, te acompanhando. Você precisa seguir sua vida, se apaixonar, construir uma família. —minhas mãos agora cobriam as suas, como se eu procurasse alguma prova de que aquilo tudo era real, e não somente minha imaginação pregando uma peça em mim— Se lembre, você tem muita coisa para viver ainda. E eu te amei muito enquanto eu estive aqui vivo

 

—Eu também te amo muito, mas por favor não vai embora… —implorei, uma lágrima escorrendo atrás da outra, minha visão um pouco embaçada.

 

 E a última coisa que eu vi foi seu sorriso doce, e as palavras "eu te amo" serem proferidas uma última vez, antes de um vento soprar, e levar meu mundo de mim, até que não sobrasse mais nada. Agora minhas mãos estavam vazias, e só permanecia eu ali, como todo o dia havia sido.

 

 No fundo eu sabia que nada daquilo tinha sido real. Eu só não queria acreditar que tinha mesmo acabado.

 

 No início do dia, quando o corpo de Jungkook estava sereno dentro do caixão, minha cabeça deu um jeito de que aquela não fosse a última visão que eu tivesse dele.

 

 Todas as pessoas que me encaravam durante o dia, não passavam de pessoas que estranharam um garoto andando e falando sozinho.

 

 De repente uma outra corrente de ar frio passou por mim, e me vi encolhido para tentar manter a temperatura corporal. Olhei para o céu, vendo uma única estrela brilhar mais forte que todas as outras. E naquele momento eu soube que Jungkook agora era uma estrela, e com toda a certeza, era a mais brilhante delas.

 

 Na volta para casa passei no centro da cidade, que agora parecia um pouco deserta demais. Parei perto de uma loja de conveniência, comprando uma garrafa de soju, porque eu realmente precisava.

 

 Quando passei no caixa para pagar, percebi que estranhamente era o mesmo menino do caixa do mercado. Agora ele lia um livro de astronomia, que falava sobre estrelas. Sorri, achando engraçado a coincidência do destino.

 

 O menino que eu sabia se chamar Yoongi me olhou com a mesma expressão meio entediada, meio cansada de antes. Quando nossos olhos se encontraram rapidamente, acho que ele percebeu minha exaustão, e se compadeceu, porque quando eu estava no carro, ainda estacionado perto da lojinha, bebendo a garrafa que eu havia comprado, achei uma barrinha de chocolate dentro da sacola.

 

 A chuva agora parecia mais forte do que quando eu havia parado ali, o que era incomum considerando a estação que estávamos. E ela parecia maltratar o teto do carro e qualquer um que se atrevesse a sair na rua.

 

 Enquanto terminava a garrafa de soju, vi o menino do caixa saindo da loja de conveniência. Seu moletom sendo a única coisa que o protegia da chuva. 

 

 Decidi colocar a garrafa vazia dentro da sacola, e colocar em qualquer outro lugar que não o banco do passageiro, ligando o carro e seguindo o menino pela rua. Buzinei antes que ele atravessasse a rua, atraindo seu olhar para mim.

 

—Hey! Quer que eu te dê uma carona? Tá chovendo muito! —gritei para que ele ouvisse, assim que abaixei o vidro do carro. Pensei, e essa seria a coisa que Jungkook faria naquele momento.

 

 Vi o menino hesitar, ele parecia ponderar se pegar carona com um estranho na rua seria a melhor alternativa a ser tomada. Depois de um longo minuto de indecisão, vi ele continuar  andando, e um suspiro saiu da minha boca sem que eu ao menos percebesse.

 

 Talvez o modo de viver de Jungkook só funcionasse com ele…

 

 Enquanto eu acompanhava o menino com os olhos pelo retrovisor, vi ele passar um pouco da picape em que eu estava, até ele parar do nada e voltar andando rápido até o outro lado, abrindo a porta do passageiro e entrando sem cerimônias.

 

—Obrigado —ele murmurou somente depois de eu ter voltado a andar com o carro. Sorri e fiquei em silêncio por um tempo.

 

 Estendi um casaco que eu tinha guardado dentro do carro para que o menino não ficasse doente usando as roupas molhadas com que ele estava. Ele só aceitou depois de muita insistência minha.

 

 Depois de deixar ele em um ponto de ônibus que ficava à algumas quadras da loja de conveniência, parti de volta para o lugar que eu menos queria ir naquele momento, mas que afinal era minha casa.

 

 Quando adentrei a minha rua naquela noite, não foi em frente a minha casa que parei o carro. 

 

 A casa de Jungkook estava do mesmo jeito que eu me lembrava ser, de todas as vezes que eu já tinha estado lá. Simples e acolhedora.

 

 Quando bati na porta, foi a avó dele que atendeu, e quando eu entrei, dando de cara com a sala bem decorada da Senhora Jeon, parecia que faltava alguma parte muito importante ali.

 

 A mulher veio correndo me abraçar, porque é isso que as pessoas fazem quando não sabem o que fazer, procuram ajuda nos outros. 

 

 Depois de alguns minutos abraçado à mulher, pedi licença para todos, e perguntei se poderia passar a noite ali. Acho que ninguém negou, pois todos sabiam que doía muito, e que cada um procurava seu jeito de preencher o buraco que tinha sobrado.

 

 Quando abri a porta, tudo estava no mesmo lugar que sempre estivera, arrumado como sempre foi. Como se a qualquer momento o dono do quarto fosse voltar e se jogar na cama para tirar mais uma noite de sono bem dormida.

 

 Mas todos sabiam que aquilo nunca aconteceria novamente.

 

 Fechei a porta com cuidado, meus pés descalços contra o chão frio de madeira, meus olhos vasculhando todos os cantos, gravando cada pequena parte. Respirei fundo, ainda sentindo a fragrância do seu perfume no ar, impregnado em tudo o que havia ali. 

 

 Fui até sua escrivaninha, abrindo uma das gavetas e encontrando seu fiel caderno lá dentro. Era até engraçado como ele andava com aquela coisa para todo lado. Peguei o caderno com capa de couro, e fechei novamente a gaveta, caminhando até a cama que continuava forrada, provavelmente desde a hora que ele havia levantado no dia anterior.

 

 Me deitei com cuidado, como se tudo fosse desmoronar ao meu redor, ao menor sinal de brusquidão. Abri o caderno, folheando as páginas e analisando o conteúdo que parecia ter sido colocado com todo o cuidado do mundo ali. 

 

 Havia desenhos, textos, poemas, letras de músicas e até pequenas anotações feitas com pressa em uma página ou outra. E depois de analisar tudo, durante horas, acabei pegando no sono. Ali, sentindo o seu cheiro, e com todo o seu interior em palavras, bem nas minhas mãos, tive a certeza de que:

 

Nunca esqueceria Jeon Jungkook.

 

☆ 

 

2 anos depois

 

 Estava correndo tanto naquela semana, que finalmente poder sentar e respirar era quase um privilégio.

 

 Ouvi o barulho alto de dois passarinhos e abri os olhos, olhando para o lado, vendo um ninho em uma das árvores do parque. Sorri, e dei uma olhada ao redor.

 

 Perto do banco onde estava sentado havia um parquinho, onde crianças brincavam como se não existisse o amanhã. Suas risadas me trazendo um sentimento morno dentro do peito.

 

 Jungkook gostava de lugares assim, se ele visse esse parque, perto do meu novo apartamento em Seul, ele enlouqueceria com certeza.

 

 Fazia um tempo que não pensava nele, não porque havia esquecido de sua existência, mas sim porque a vida de um universitário era tão corrida que não tinha tempo para pensar em mais nada além de trabalhos para entregar e matérias para aprender.

 

 De repente comecei a recordar-me sobre as primeiras semanas após ele ter partido, e lembro como foi difícil seguir adiante.

 

 Havia dias que eu só queria parar de viver, porque ele era tudo o que mais importava para mim, e tinham tomado ele de mim. Dias em que eu só conseguia pensar em como queria que ele estivesse ali comigo.

 

 Houveram os dias em que eu não sentia nada além de um vazio tão grande que parecia me consumir de dentro para fora, parte por parte. Um sentimento tão inexplicável que palavras não eram possíveis descrever.

 

 Luto é uma das coisas mais difíceis que alguém pode passar, existe um ponto que achamos que nada tem mais propósito.

 

 Porém o tempo vai passando, e com isso novas pessoas surgem. Pessoas que te ajudam a ser feliz também. E bem o vazio continua lá, ninguém nunca vai conseguir preencher o buraco que ficou, mas o amor vai deixando ele menor.

 

 Tão pequeno que para de doer, e a única coisa que irá sentir ao lembrar que aquele buraco ainda existe, é saudade, nostalgia.

 

 De vez em quando eu lembro do sorriso que ele costumava me dar e isso me faz sorrir também.

 

Me assustei quando meu celular começou a tocar, quebrando a distração em que estava. Olhei o visor e sorri, deslizei o dedo pela tela, atendendo a ligação.

 

—Oi —falei enquanto observava uma criança andando fora do parquinho.

 

—Hey bae, já estou indo pra aí —ouvi a voz ofegante do outro lado, e um risinho escapou pela minha boca. Ele provavelmente estava andando de bicicleta, ou melhor, correndo— Desculpa o atraso, você sabe como é, a faculdade tá me atolando até o pescoço de trabalho, e ainda tem o TCC-

 

—Tudo bem babe, não tem problemas —interrompi sua fala antes que desse mais desculpas, ri imaginando a cena dele com seu rosto todo vermelho e desesperado para chegar o mais rápido possível ao meu encontro.

 

—Você tem certeza? Juro que quando chegar vou te recompensar ok? Vou te pagar um daqueles sorvetes que você tanto gosta, e… —ele voltou a falar, e eu voltei a rir.

 

—Hummm… isso parece tentador. Não vou recusar o sorvete, agora vou desligar para você prestar atenção na rua… —sorri, e já ia tirando o celular do ouvido quando ele começou a falar novamente— Yoongi, presta atenção na rua! Vem com cuidado, até mais. Te amo.

 

 Antes que ele pudesse dizer alguma coisa desliguei a ligação, soltando um suspiro. 

 

 Ele não aprendia mesmo, estava sempre tentando fazer duas coisas ao mesmo tempo, quando ambos sabíamos que ele não conseguia.

 

 Sem que eu tivesse tempo de reagir, uma bola veio em minha direção e acertou meu rosto em cheio. Para minha sorte, a bola era leve, e veio fraca.

 

 Olhei para o remetente da jogada, e vi uma criancinha correndo até mim com seu jeitinho desengonçado. 

 

 Deixei uma risada sair pelos lábios ao ver a carinha preocupada do menininho direcionada à mim. 

 

Diculpa, eu fiz dodói? —a criancinha veio perguntar para mim, estendendo a mãozinha em minha direção. Neguei com a cabeça, enquanto um sorriso tomava meus lábios.

 

—Tudo bem pequeno, não me machucou —respondi, enquanto entregava a bola de volta para o garotinho. Seus bracinhos curtos rapidamente envolveram a bola, segurando para que não caísse.

 

 Vi uma mulher jovem se aproximar correndo, com uma expressão um pouco transtornada. Ela parecia ter mais ou menos minha idade, e ela pegou o menininho nos braços com uma rapidez que me surpreendeu.

 

—Desculpe senhor, parei um momento para atender o celular e ele já foi arrumar problemas pelo visto. Sabe como é, não pode dar mole. —a jovem falou um pouco ofegante, provavelmente por causa da correria.

 

—Tudo bem, nem machucou, a bola é leve. —respondi dando de ombros, então avistei Yoongi caminhando ao longe, em nossa direção.

 

—Ai, viu o que você me fez passar? Meu filho, você tem que tomar cuidado, mamãe já te disse que não pode ir para longe —agora a jovem se dirigia à criança que encarava a mãe com um olhar culpado— Ai Jungkook, você às vezes quase me mata do coração.

 

 Assim que o nome foi jogado ao ar, eu paralisei. Encarei a mulher que estava com o garotinho no colo, incrédulo do que tinha ouvido.

 

—Jungkook? —perguntei, mais por curiosidade. Será que o mundo era tão pequeno assim?

 

—Ah, é um nome bonito não é? —a mulher comentou, olhando para o alto, como se lembrasse de alguma coisa naquele momento— Foi o nome de um menino que eu conheci quando estava grávida. Ele era do interior, era um menino muito bom, e me ajudou muito quando fui expulsa de casa. Ele faleceu muito jovem. Uma pena… tinha tanta coisa para viver ainda. Sou realmente grata a ele, porque graças a ele, meu filho é saudável.

 

 Meu queixo estava caído, e minha cabeça não queria acreditar naquilo. Não era possível, era?

 

 Olhei por trás da mulher, encarando Yoongi que permanecia parado, com um sorriso cúmplice nos lábios. Retribui o sorriso, sentindo uma felicidade crescer dentro de mim.

 

 Jungkook conseguiu realizar o sonho dele, de ajudar pessoas. E naquele momento eu queria que ele estivesse ali para ver como a vida agia.

 

 Era realmente inacreditável.

 


Notas Finais


Então gente, essa é uma história muito especial pra mim, e eu venho escrevendo ela com muito cuidado.
Espero que vocês tenham tido uma boa experiência lendo, e que tenham gostado.

Stay é uma história sobre luto, e sobre lidar com a morte de uma perspectiva diferente.

Perdi duas pessoas que fizeram parte da minha vida esse ano, e realmente luto é um sentimento indescritível. Então queria dedicar essa história a todo mundo que perdeu alguém, seja essa pessoa um parente, um amigo, um amante ou até só um conhecido.
Espero que todos eles tenham se tornado estrelas brilhantes que iluminam nossa noite todos os dias.

É isso pessoal, até a próxima. E o obrigada por lerem até aqui.


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