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História Stigma - Scorbus - Capítulo 48


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Capítulo 48 - Novos Feitiços, Novas Teorias


  Scorpius já havia visto na televisão trouxa que, quando havia algum acidente com eles, as pessoas que haviam testemunhado ou se machucado levemente durante o acidente, ficavam sentadas na parte de trás das ambulâncias, com cobertores sobre os ombros e detalhando sua experiência para um policial. E, pensando bem, sua situação não era muito diferente. Ele estava sentado em um poltrona acolchoada que há muito tempo havia perdido seu estofamento, com um manto preto sobre os ombros enquanto encarava uma mancha no tampo de madeira da escrivaninha do escritório dos Riddle. Apesar dos seus olhos estarem focados na mancha, sua visão periférica permitia que ele visse a imagem borrada de Harry Potter andando inquietamente do outro lado, como um tigre enjaulado. Scorpius percebera que ele não chorara pelo filho ainda, que estava se mantendo firme apesar de ter o segurado nos braços quando entrou no salão. Scorpius, por sua vez, havia chorado, desmaiado, e agora se encontrava em um estado que ele não sabia descrever bem. Não conseguia chorar, não conseguia sentir, e a sensação era como se fosse um peso de papel, segurando a si mesmo para que seus sentimentos não saíssem voando com uma brisa. 

  Dentro do escritório, além do som dos sapatos de Harry, tudo estava em completo silêncio. Scorpius tinha a breve noção que seu pai devia estar em alguma parte daquele cômodo, mas não conseguia localiza-lo sem se virar para procurar, e no momento Scorpius não tinha energia nem pra bater os olhos. 

   Harry andou por mais uns minutos, até que finalmente parou perto do cadeirão que estava do lado oposto de onde Scorpius estava sentado.

  -Eu soube de algumas coisas. -disse Harry. -Coisas que eu não sei se entendo, nem se gostaria de entender. 

  Scorpius assentiu, sentindo a cabeça pesada. 

  -Você pode me explicar o que aconteceu naquele salão? -Harry insistiu.

  Scorpius ergueu os olhos para ele lentamente.

  -Ele não tinha chance. -Scorpius conseguiu dizer, com a voz rouca do choro. -Eram dois contra um. 

  Harry franziu a testa.

  -Eram três contra um.

  -Não. -Scorpius riu, mas não havia alegria no seu rosto. -Eram dois contra um. Eu tentei salvá-lo.

  -Salvá-lo? -uma voz fria perguntou às suas costas. 

  Logo, James entrou no seu campo visual e ficou ao lado do pai. Olhando assim, pai e filho, eles eram bem parecidos. Albus era menos musculoso que o irmão, já que ele não havia se preparado a vida toda pra ser jogador de quadribol como James. Albus também tinha suaves olhos verdes, que as vezes pareciam azuis ou de um cinza escuro, dependendo da luz, os olhos de James eram castanhos. Ele também tinha um sinal escondido sob a mandíbula, Scorpius gostava de se gabar de ser o único a saber sobre ele. Em geral, Albus e James não se pareciam muito, mas ambos pareciam com o pai ao mesmo tempo, e isso era intrigante. Albus teria se parecido com Harry quando ficasse mais velho? Scorpius sentiu um aperto na garganta. Nunca saberia disso.

  James ainda o olhava com ira queimando no fundo dos seus olhos. Era compreensível, Scorpius pensou, suspeitava que se estivesse no seu lugar talvez até tivesse o atacado. 

  -Você não tentou salvá-lo. -James pontuou. -Você apontou para ele. Eu vi, Scorpius. Você não tentou acertar a Delphi, nem a outra garota. 

  Scorpius se virou para James, vendo a expressão dele abrandar. Talvez ele tivesse visto no seu rosto que Scorpius estava tão abalado quanto ele mesmo.

  -Eu sei o que eu fiz, James. Você acha que essa cena não fica se repetindo o tempo todo na minha cabeça? Acha que eu não estou me perguntando se eu conseguiria fazer outra coisa? -ele respirou fundo. -Vocês deviam estar preocupados com Voldemort, Delphi estava o trazendo de volta...

  -Rose o matou. -interrompeu Harry. 

  Scorpius piscou os olhos para ele, como se aquela fosse uma cena improvável de acreditar.

  -Rose?

  -Sim, ela era uma das únicas que sabia onde ele estava escondido e o matou antes que Delphi mandassem o trazer. 

  Em outra situação ele teria deixado o queixo cair, mas agora, tudo que conseguia fazer era encarar de volta a mancha na mesa. Sentia-se grato por Rose ter feito aquilo, ou teriam mais problemas, ao mesmo tempo que um rancor começava a nascer no seu peito. As coisas estavam se encaixando nos seus lugares não era? Logo, sairiam nos jornais sobre isso. A Volta da Herdeira de Sonserina, Scorpius quase riu ao imaginar a reportagem com o título em letras garrafais. Ele contaria sobre Delphi e sua morte por um plano incrível feito por Lily, a filha de Harry Potter, e Luke, o filho de ex-comensais da morte que teria visto o bem acima de tudo; falariam sobre James, Clary, Susan e Rick em sua luta durante o período que passaram sequestrados; também não deixariam de falar de Simon, o capitão de quadribol que fora envenenado e implantado na escola como um espião de Delphi; falariam de Rose... como a jovem heroína, filha da Ministra da Magia teria enganado a vilã, filha do Lorde das Trevas, e posto um fim na história; por fim, falariam sobre Albus, lamentariam falsamente sua perda, então diriam que Scorpius Malfoy, porque óbvio que tinha que ser um Malfoy, tinha contribuído para a morte do garoto que acreditava amá-lo. Ou talvez pulassem essa parte romântica, homosexualidade não era um tópico recorrente do jornal bruxo. 

  Scorpius respirou fundo. 

  -Se eu tivesse chegado antes... -então sua voz morreu, dando luz a outra chama de remorso. -Se vocês não fossem um bando de covardes tolos e tivessem aceitado as coisas de um jeito mais fácil...

  -Scorpius! -a voz do seu pai ecoou.

  -Só estou falando que a culpa não é inteiramente minha, é? -Scorpius se virou, vendo o pai parado perto de uma janela velha o suficiente para ser feita quase só de farpas. -Eu tentei salvá-lo. Era a única chance que ele tinha, não é minha culpa se não funcionou. 

  -Para quem amava ele, você parece bem indiferente. 

  Scorpius ouviu as palavras com muita cautela. Elas haviam sido ditas em tom baixo, sarcástico apesar de triste, por James Potter. O irmão que nunca havia feito esforço para se aproximar de Albus, que não se importava em parecer superior ao irmão o tempo todo, e que ignorava o fato de que, se não fosse Scorpius, Albus seria ainda mais solitário. 

  Scorpius se levantou, virou para James, que estava do outro lado da mesa, enquanto o silêncio parecia apitar nos seus ouvidos. Ou talvez fosse a ira.

  -Eu duvido que você esteja sentindo metade do que eu estou sentindo, James. -Scorpius disse, a voz controlada apesar de sentir como se seu coração fosse explodir. -Eu duvido que, durante toda a vida dele, você tenha significado dez porcento do que eu signifiquei. -Scorpius viu quando James engoliu em seco, o rosto se tornando uma máscara de raiva, indignação e tristeza ao mesmo tempo. -Eu era o melhor amigo dele e o namorado dele. Enquanto você era apenas o irmão ridículo dele que fingia ser o rei do mundo e ignorava o quanto ele se sentia infeliz naquela sua casinha de bonecas que vocês chamam de lar. -Scorpius sentia a voz se erguendo quanto ficava mais difícil de respirar. -Eu era o único que sabia que, o motivo dele ser tão fechado dentro daquela maldita casa era porque ninguém ouvia o que ele falava! -ele respirou fundo. -Se ainda acha que eu estou indiferente quanto a ele é porque eu sei que eu fiz o melhor que eu pude para nunca deixar ele sozinho, mesmo que no final eu tenha feito isso por uma boa causa. Eu posso ter chegado tarde para salvar ele, mas ao menos eu tentei salvar ele. Por que você não se jogou em Delphi para tentar pará-la? 

  A sala ficou em um silêncio fúnebre, o que cabia ao momento propriamente. James parecia ter levado um soco no estômago. Harry olhava para baixo, parecendo lutar com algum demônio interno. E Draco continuava olhando pela janela com uma expressão fria. 

  Scorpius voltou a se sentar pesadamente na cadeira. Ele apertou o manto ao seu redor, querendo sumir dentro dele. Suas mãos tremiam tanto que nem aperta-las nas beiradas do manto as fazia parar. 

  -Vamos acalmar os ânimos. -disse Draco, caminhando até a cadeira do filho. -Apesar de ser um momento difícil, ainda existem coisas que precisam se resolver hoje e agora. -ele se voltou para o olhar vidrado de raiva de James. -Não desonre seu irmão brigando de forma irracional, Potter. Faça isso amanhã de quiser. 

  James baixou a cabeça. Ao seu lado, Harry assentiu para Draco, seus olhos cheios de veias vermelhas. 

  -Scorpius, -chamou Malfoy. -Como você achou que fazer aquilo poderia salvar Albus? 

  Scorpius ergueu a cabeça do manto, enxugou algumas lágrimas e se recostou na cadeira. 

  -Eu... posso ter tido acesso a biblioteca do meu avô. 

  Draco ergueu as sobrancelhas. Seus lábios se transformaram em uma linha rígida e parecia que ele gostaria de sacudir Scorpius. 

  -Quem falou para você disso?

  -Eu descobri sozinho, faz uns dois anos. -Scorpius fungou. -Consegui um feitiço de passagens secretas e consegui entrar. 

  Draco mal piscava enquanto olhava o filho. 

  -Nada que existe naquele lugar presta, Scorpius. 

  -Foi assim que eu criei o Saoen. 

  Draco estava pasmo. Harry e James não sabiam ao certo do que eles estavam falando. 

  -Magia das trevas, é esse o seu passatempo na casa dos seus avós? 

  -Eles não sabiam, tá? -Scorpius se levantou, inquieto. -Eu li alguns livros. Alguns livros eram novos até. Tinham teorias que ninguém nunca tinha usado antes. 

  Os olhos de Draco só faltavam sair das órbitas. Scorpius baixou a vista para os seus sapatos, lembrando-se do primeiro plano que pensara em orquestrar, mas que havia saído de uso assim que ele percebera a traição de Simon.

  -Eu... li, em um dos livros que reuniam artigos e teorias sobre uma possível forma de fugir do feitiço da morte. -ele olhou rapidamente para Harry, que sem querer franziu a testa, como se para sentir a cicatriz. -Ele dizia que existe mais de uma forma. 

  -E como seria? -Draco disse, quase sem mexer os lábios. 

  -Feitiços são palavras usadas com a intenção de focar nossa mágica na intenção do que queremos. Portanto, cada feitiço significa o efeito que ele quer causar de fato. A maldição da morte descende de uma palavra Aramaica, abhadda kedhabhra, que significa 'desapareça com essa palavra', mas em outra versão, pronunciada de forma muito parecida, avra kedabra, significa 'criarei conforme falo'. -Scorpius parou, vendo os rostos lívido dos outros três, mas continuou. -Nos acostumamos a ouvir esse feitiço como um feitiço de morte, a intenciona-lo para a morte, mas antes ele era usado como um feitiço de cura. 

  -Você só pode estar brincando... -James riu.

  -Estou falando muito sério. 

  -Você apostou a vida do meu irmão em um teoria que você leu em um livro?! -James gritou. 

  -Eu não tinha escolha! -Scorpius gritou de volta. 

  Quando a sala voltou a mergulhar no silêncio, Scorpius se sentiu incomodado. Mas demorou um pouco para perceber que não era pelas suas palavras terem sido questionadas...

  Estava um silêncio profundo...

  Do lado de fora. 


***


  Por que tudo estava tão abafado?

  O som. A luz. O ar.

  Tudo parecia sufocante. Onde estava? Tinham pessoas chorando por ali. Era um choro lamentoso que ecoava e era respondido por mais choro ou fungados. 

  Então houve um estalo na sua mente e ele se lembrou. 

  Albus ficou paralisado. Estava... Vivo? Delphi havia o matado, tinha certeza. Sentira os feitiços se enraizando pela sua pele, a dormência, os sentidos sumindo, tudo. Era para estar morto. 

  Ele sentiu com a ponta dos dedos que estava deitado sobre cerâmica. Pelo som das vozes, que ecoavam, devia ainda estar no chão da casa dos Riddle. Isso era bom. Preferia acordar ali do que em seu funeral. Albus arriscou abrir os olhos. Estava coberto por um tecido preto, nem tão grosso, e dava para ver a luz passando por suas pequenas costuras. Haviam sombras passando para lá e para cá. Albus se perguntou se seriam os agoureiros, se Delphi havia enfim vencido. 

  Mas agoureiros não choravam. E não teriam a decência de cobri-lo com um lenço para que não encarassem seu rosto morto. 

  Era possível eles terem ganhado? 

  Albus mexeu os dedos dentro dos sapatos, mordeu a ponta da língua, apertou os olhos, tudo para checar se realmente estava ali. Ainda podia ser um fantasma preso ao seu corpo, porque estar vivo era impossível. Ninguém, além do seu pai, sobrevivera a uma maldição da morte, e ele apenas fizera isso porque sua mãe havia se jogado na frente. Albus sentiu um aperto no estômago. E se alguém tivesse se sacrificado por ele? Impossível. Ele havia sentido o feitiço o atingido na barriga, na cintura e... nas costas. E havia um tecido preto cobrindo seu rosto, então era óbvio que achavam que ele estava morto. E por isso, não podia se mexer ainda. Que caos seria caso simplesmente se sentasse. 

  Ele ouviu um fungado, seguido por passos de uma bota se aproximando.

  -Eu não consigo acreditar. -disse a voz falhada de um rapaz. -Eu sei que ele estava triste com a morte do Scorpius, mas... se ele soubesse. 

  Albus queria se levantar e perguntar do que não sabia, mas esperou, com o coração palpitando. 

  -Ele deve ter partido feliz querendo encontrá-lo. -disse a voz de uma garota, que Albus reconheceu imediatamente, era Susan. Ela arfou, como se segurasse o choro, e disse com a voz abafada de emoção. -É ruim que eu sinta pena por ele não encontrá-lo?

  Outra batida errada fez o coração de Albus disparar ainda mais. Como assim não encontrá-lo? 

  -Não, não. -disse a outra pessoa, que Albus percebeu ser Rick, sua voz tinha um tom reconfortante. -Você só queria que ele se sentisse feliz. 

  -Isso quer dizer que ele partiu triste? 

  -Não! -ele pausou. -Bem, se ele partiu pensando que ia encontrar o Scorpius, então ele deve ter ido feliz. 

  -Mas então ele vai passar a eternidade infeliz, ou vai vir nos assombrar. 

  Albus estava achando aquela conversa incrivelmente confusa. Por que ele estaria infeliz? Albus ansiava para saber o que estava acontecendo, mas eles estavam muito próximos e assusta-los assim não seria bom. Então ele esperou. 

  Outros passos se aproximaram. Era muito estranho ouvir saltos de sapatos se aproximando tanto do seu rosto, parecia até que a pessoa ia pisa-lo.

  -Vocês olharam para ele?

  Lily. 

  Albus gelou. Saberia que voltar a vida depois a alegraria, mas não agora. Lily talvez desmaiaria. Ela tinha uma péssima recepção quanto a morte. Havia desmaiado até com a morte acidental de um passarinho que batera com força na janela da sala de estar um dia. Ele quase desejou que estivesse realmente morto para não ter que passar por essa situação.

  -Não. -Susan respondeu, com um fungado. -Só... quando tudo aconteceu. 

  -Eu mal percebi que era ele. -disse Lily, com a voz embargada. -Meu irmãozinho. 

  Albus sentiu os olhos arderem. 

  -Se... se eu tivesse colocado o plano em prática antes... 

  -Não, Lily. -disse Susan.

  Albus ouviu os sapatos dela o contornando e indo até sua irmã conforta-la. 

  -Você não poderia ter impedido nada. Quando... Ele entrou pela porta... parecia que ele já estava determinado a fazer aquilo. 

  -Será que foi uma maldição imperius?

Ele quem?, Albus queria perguntar. Que plano?

  -Não, acho que não. -disse Susan, com o tom de pesar. -Como está a Clary?

  -Não parou de chorar ainda. 

  Albus sentiu outro murro no peito. 

  Precisava acabar com aquilo agora. Por mais que as pessoas se assustassem. Não podia deixar seus amigos em luto por mais tempo. 

  Ele respirou fundo. E ao seu redor, ele sentiu que os três ficaram muito quietos.

  -Vocês viram isso? -perguntou Rick, andando um passo para trás.

  -N-Não. Foi o vento. 

  -Eu vi o lenço se movendo. -disse Lily.   

  Era hora. Eles já haviam percebido um movimento mínimo. 

  Albus não queria começar com um movimento brusco, mas aparentemente sua ideia foi a pior de todas. Assim que mexeu os dedos, os três saíram correndo e gritando. 

  -Ele virou um zumbi! -gritou Rick enquanto se afastavam. 

  Agora não tinha mais jeito. 

  Albus se sentou e jogou o cobertor de lado. A luz da janela queimou seus olhos, deixando manchas brancas na sua vista enquanto ele se levantava cambaleante, sem ver o chão. Um arquejo coletivo silenciou o salão que a poucos minutos estavam barulhento com lamentos e gritos de ordem.

  Albus olhou ao redor. Os três que, anteriormente, lamentavam sua morte, estavam parados perto de pilares, com olhos arregalados e boquiabertos. Por todo o salão, pessoas desconhecidas e alguns conhecidos olhavam-o da mesma forma. Albus reconheceu Simon perto da porta, Neville Longbotom amparando a filha sentado no chão ao seu lado, um grupo de homens e mulheres bem vestidos que pareciam mais chocados que todos, como se soubessem que aquilo era impossível. Os agoureiros pareciam ter sido retirados da sala, pois não via mais nenhum rastro deles. Albus viu um amontoado escuro no chão. A sua direita, a alguns metros, havia um corpo coberto por um manto preto, cabelos loiros com mechas azuis espreitavam sob o tecido, espalhados no chão e tingido de vermelho em algumas partes por causa da imensa poça púrpura que fluía do corpo. Aquela não podia ser... 

  Delphi?

  Então ela havia mesmo morrido?

  -Albus? -uma voz hesitante o chamou. 

  Ele se virou e viu sua mãe saindo do meio da multidão, o rosto cansado e inchado de chorar, andando com cautela e parando distante dele. 

  -Você consegue me ouvir?

  Albus assentiu. 

  -Consigo.

  -Como...? 

  -Eu não sei. -ele respirou fundo.

  Por um instante todos ficaram calados, a maioria olhando surpresa para o rapaz que estava morto há poucos minutos.

  -Alguem pode me explicar o que aconteceu? 

  Em meio ao silêncio, passos vieram apressados pelo corredor. Pareciam vir de mais de uma pessoa. De repente, quatro pessoas irromperam dentro do salão. 

  Albus não acreditou nos seus olhos a princípio. Se ele estava ali então... aquilo era algum tipo de sonho pós morte? Era possível, não era? Estava vivendo seus últimos minutos como gostaria que realmente fosse. Delphi morta, Scorpius vivo. 

  Se era possível, o silêncio se aprofundou. Albus deu um passo para trás quando seus olhos se encontraram com o do outro rapaz do outro lado da sala. Scorpius também parecia tão chocado que não conseguia se aproximar. 

  -O que está acontecendo aqui? -Albus perguntou, mais para si mesmo. -Que brincadeira sem graça é essa?

  -Não é uma brincadeira. -Scorpius respondeu. 

  Mas não podia ser Scorpius. Ele tinha caído das costas do pegasus, essa hora ele era uma massa disforme em algum lugar do mapa. 

  -Você devia estar morto. -Albus disse, com a voz trêmula.

  -Você também. 

  -Ela te matou. -Albus apontou para o corpo de Delphi. -Eu vi você caindo! Eu estava lá. 

  -Eu sei.

  Scorpius deu um passo à frente, mas Albus recuou. 

  -Saiam do salão! -disse a voz alta de Harry Potter, agitando as mãos para chamar a atenção dos olhos curiosos. -Por favor. Saiam. 

  Albus viu com os cantos dos olhos as pessoas saindo de má vontade. Quem não gostaria de ver aquele espetáculo?

  -Querido, você está se sentindo bem? -perguntou Gina, parecia aterrorizada. 

  As portas duplas do salão foram fechadas, e apenas poucas pessoas ficaram dentro.  

  Os olhos de Albus estavam focados em Scorpius, tentando achar algo que o denunciasse como uma ilusão. 

  -Estou, mãe. -Albus respondeu, sem conseguir desviar os olhos ainda. -Eu acho. 

  -Você precisa me escutar. -disse Scorpius. 

  -Eu não quero escutar. Em algum momento eu vou acordar disso e... e eu vou para algum lugar. 

  -Você não morreu. -Scorpius insistiu, os olhos enchendo de lágrimas.

  -Então por que você está aqui?

  -Porque eu também não morri.

  Aquilo era demais. Como assim não tinha morrido? Albus respirou fundo, sentindo os olhos encherem de lágrimas. Ele esfregou o rosto e andou em círculo, tentando por os pensamentos em ordem. Por fim, ele se sentou no chão, sentindo que as pernas estavam fracas demais para se manter em pé. Ele cobriu o rosto com as mãos, pedindo para acordar daquilo. Não podia viver em um ilusão. Por que parecia tão real? Ele sentira a morte o levando. Viu o raio o atingir. Não fazia sentido! 

  Ele sentiu alguém se aproximar, e no outro segundo, uma mão havia pousado no seu braço. Um toque quente e real. Ele afastou as mãos do rosto, vendo dedos pálidos envolvendo seu pulso. 

  -Você não pode ser real, você não entende? -Albus sussurrou, sem conseguir olhá-lo nos olhos. 

  -Eu entendo. -Scorpius se sentou de frente para ele, mas Albus ainda evitou olhá-lo. -Você me viu cair, mas não viu quando o Saoen me salvou.

  Albus franziu a testa.

  -O Saoen te salvou?

  -Sim. 

  -E quanto a mim?

  Ele ouviu Scorpius engolir em seco. 

  -Posso te explicar depois o que aconteceu? Parece que você vai desmaiar a qualquer instante. 

  Albus lentamente ergueu os olhos para o rosto de Scorpius. Ele estava bem mais próximo agora, e quando seus olhos se encontraram, Scorpius arfou. 

  -Seus olhos...

  -Por que você não me contou que não ia morrer? -Albus interrompeu.

  Scorpius riu, com os olhos tornando a encher de lágrimas.

  -Porque eu não sabia que ela ia tentar me matar. Por sorte o Saoen me alcançou, não foi um plano exatamente. 

  Albus balançou a cabeça e respirou fundo, sua respiração soou tremida e quando ele expirou, se misturou a sua vontade de chorar. Ele deu um pequeno soluço. 

  -Você me desculpa? -Scorpius sussurrou. -Eu não queria fazer você passar por isso. Não queria fazer ninguém passar por isso.

  Albus ergueu os olhos para Scorpius e deixou sair um breve suspiro. 

  -Eu sei que não queria. 

  -Então você me desculpa? 

  Apesar da sua expressão permanecer hesitante, Albus sabia que nunca conseguiria não desculpar Scorpius por aquilo. Seu coração batia forte com a raiva e toda a emoção que estava o envolvendo, mas sua parte racional sussurrava das reentrâncias da sua mente que se não fosse por isso talvez todo o resto tivesse dado errado. Se ele acreditasse que Scorpius não havia morrido, então Delphi tentaria o deixar ainda mais deprimido matando seus amigos. 

  Seus amigos. 

  Albus olhou ao redor, assustado.

  -Estão todos bem. -antecipou Scorpius. -No máximo um desmaio. 

  -Meus irmãos...

  -Estamos aqui. -respondeu uma voz  feminina acompanhada por um fungado.

  Albus desviou o olhar de Scorpius e viu Lily e James parados a poucos metros, perto da sua mãe e do seu pai, os quatro pareciam pálidos e ansiosos. James, especialmente, estava de cabeça baixa, como se não conseguisse olhar o irmão. Já Lily tinha chorado tanto que ela ainda soltava soluços e tentava cobrir a boca com a mão. Harry e Gina estavam se apoiando, um pouco inclinados como se estivessem esperando o momento que fossem correr para o filho. 

  Albus tinha a impressão que aquela era a primeira vez que via sua família tão preocupada com ele. Os cantos dos seus lábios se ergueram ao vê-los bem, mas ele logo se voltou para Scorpius. Olhando-o nos olhos pela primeira vez, vendo que ele ainda parecia cheio de palavras para explodirem do peito, mas que as segurava firmemente. 

  -Conversamos depois. -disse Scorpius, em voz baixa. -Vá ficar com a sua família. 

  -Eu... -Albus começou, sem saber exatamente como terminar. Só sentia a necessidade de não deixar a conversa entre eles acabar. 

  -A noite, se você quiser, podemos conversar, agora vão ter muitas perguntas. -disse Scorpius, antes de levantar e abrir espaço para que Albus fosse envolvido pelos familiares. 

  Albus olhou sobre os ombros que o abraçavam, e viu Scorpius, seguido do pai, saindo do salão. Um grupo de ministros seguia atrás deles.


Notas Finais


Opa!!!
A explicação foi o suficiente?

Fun Fact: Se vocês olharem o capítulo anterior, vão perceber que o Scorpius não diz “Avada Kedavra” quando lança o feitiço... não foi um erro ortográfico. 🤭


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