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História Strange Effect - Capítulo 14


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Capítulo 14 - Quatorze.


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Quatorze (final).

A fama era uma coisa engraçada.

Desde que começara a se entediar com os assassinatos, Villanelle passara a não se esconder. Seu rosto era visto por testemunhas, suas impressões digitais ficavam no local, e vez ou outra ela deixava alguma assinatura no trabalho, como quando queria que Eve viesse persegui-la. Mas o assassinato de Tomás não tinha nenhuma daquelas conotações. Era seu último trabalho e ela não queria exatamente deixar pistas, embora não tivesse feito esforço para escondê-las.

Era uma babaca arrogante nata, como Eve costumava dizer, e adorava se exibir. A fama, porém, vinha com um preço, especialmente quando se passava de protegida dos poderosos para perseguida.

A ligação de Carolyn no dia anterior ao crime tinha sido um aviso. Alguns vídeos amadores tinham capturado cenas do estranho casal na festa de casamento de Tomás Alvarez. Um deles, particularmente constrangedor, era de Villanelle carregando Eve no ombro em direção ao estacionamento, enquanto todos os demais convidados corriam para tentar um vislumbre do corpo no quintal. Alguém – provavelmente a ex-noiva maluca – teria sugerido que Villanelle era a única pessoa que não deveria estar naquela lista de celebridades seletas, e o depoimento de um guarda particularmente emocionado sobre uma loura de cabelo curto que tinha uma mira excelente acabara com as dúvidas da imprensa. Três mortes em um casamento de gala?

Um verdadeiro massacre.

Rostos estampados em jornais locais. Relatos de convidados da festa com suas impressões sobre o assassinato do noivo. Condenações em massa. Especulações sobre o alcance da inteligência russa. Boatos de que uma guerra estava prestes a começar. E pior: Gente shippando o casal de mulheres que tinha fugido da festa em estilo Bonnie e Clyde.

Por isso a ligação de Carolyn: ela queria ter certeza de que sua melhor agente, a mulher de olhos curiosos cujo sonho era ser investigadora, estava ciente das condições e queria continuar. Ela ligara para saber se Villanelle valia a pena, e a resposta não a tinha surpreendido. Deste modo, não lhe custou nada entregar tudo que sabia sobre Eve para as autoridades internacionais, inclusive toda a investigação sobre Os Doze até o momento, que envolvia as diversas mortes provocadas pela assassina russa (e por tantos outros).

Carolyn não sabia que rumo aquilo tomaria quando Kenny começou a investigar as contas. De todos os cenários possíveis, não imaginava que seria Konstantin quem mataria seu filho e a obrigaria a virar as costas para a organização mais uma vez. Quando entrou em contato com Helene para negociar, a única coisa que quis em troca da localização delas foi o nome de quem tinha dado a ordem.

O movimento tinha sido bem planejado: o assassinato do noivo herdeiro de um império bancário na Espanha tinha despertado as atenções novamente para um grupo seleto de gente importante que era assassinada todo ano, e as investigações ganharam novo foco. Paul continuava no comando, mas agora todas as suas ações eram monitoradas. Os Doze continuariam agindo, ela continuaria brincando de investigar, o mundo voltaria a girar novamente.

E o dono da ordem estava morto.

Tudo que tinha feito até o momento era jogar xadrez. Ela tinha perdido a rainha no começo após um movimento distraído, mas se recuperara com o bispo e um peão muito bem posicionado.

Tinha perdido demais para chegar até ali, mas conseguira encurralar o rei.

Carolyn não se arrependeu por tê-las entregado, nem por um segundo. Ela sabia que Eve seguiria Villanelle até o inferno àquela altura, e acreditava no potencial da assassina para protegê-la. Ela não era estúpida, também. Sabia que um movimento errado de qualquer uma das duas poderia lhes causar a morte. Um relacionamento que havia começado entre assassinatos? Quão provável era aquilo dar certo?

Ainda assim, torcia por elas. Era um sentimento estranhamente reconfortante, torcer pela felicidade de alguém, quando se acreditava que a sua estava perdida há muito tempo.

Agora, tudo que desejava era que elas se divertissem, onde quer que estivessem.

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Quatorze era seu número da sorte, Eve lhe disse uma vez.

Então elas visitaram quatorze cidades em um período de quatorze meses, exatamente quatorze dias depois do incidente em Barcelona. Dizer que Villanelle tinha usado somente quatorze outfits seria absurdo, mas esse era um número bastante significativo para Eve.

Os primeiros dias foram difíceis por conta do ferimento ainda latente da loura, mas ela tinha dinheiro suficiente para lhes comprar conforto e privacidade, e as dificuldades eram bem menores quando se tinha dinheiro suficiente. Nenhuma das duas era ignorante para acreditar que o trabalho na Espanha tinha sido o último contato d’Os Doze para com sua principal assassina, então o medo era uma constante entre elas. E ainda havia o fato de que seus rostos eram agora publicamente conhecidos pela imprensa espanhola e, inevitavelmente, pela imprensa mundial, graças aos benefícios da conexão à internet.

Ainda assim, houve momentos divertidos.

 

A primeira cidade – mais precisamente, um vilarejo – foi Zaanse Schans, que fica a quarenta minutos de trem de Amsterdam. O vilarejo conta com moinhos, casas de fabricação de vinhos, chocolate e queijo, animais espalhados pelos campos, vitórias-régias nos lagos e muitos turistas. Gente suficiente transitando todos os dias para que ninguém desse a mínima para duas mulheres muito diferentes morando em uma das casas, e gente que não estava a fim de verificar as notícias nos dias de viagem. O local era aconchegante, apesar de pequeno, e Eve adorou o clima, parecido com Londres, porque garoava o tempo todo.

Villanelle quis visitar uma fábrica de tamancos e comprou boa parte dos souvenirs da loja, deixando a atendente bastante feliz. O sotaque holandês era engraçado, e Eve estava contente de apenas deixa-la falar, optando por ignorar deliberadamente o olhar curioso que ela cedia à algumas pessoas – principalmente mulheres.

Ela era uma romântica incurável, diriam os apaixonados.

− Quanto tempo você acha que isso vai durar? – Eve perguntou na última noite, enquanto trocava o curativo na perna da loura. Villanelle já podia fazer aquilo sozinha e o curativo precisaria ser refeito somente mais duas vezes, pelo seu cálculo, mas havia uma cumplicidade diferente naquele tipo de cuidado. Aquele toque com único propósito era acolhedor para ambas.

− Isso o que? – Ela perguntou, os olhos fixos nas mãos da mulher mais velha, embora já soubesse a resposta.

− Nós. Fugindo pelo mundo. Nos escondendo em vilarejos. – Eve ergueu o joelho dela para passar o esparadrapo em torno da gaze, ouvindo o suave barulho da chuva lá fora.

− Até nossos rostos saírem dos jornais. – Villanelle deu de ombros, distraída. Ela girava um dos chaveiros de tamanco entre os dedos. – Ou até você enjoar de mim. – Ela completou, vendo que não obteria resposta para a implicação. O tom era divertido, o sorriso era suave, mas o questionamento pairou no ar enquanto a morena delicadamente deslizava os dedos pelo curativo pronto.

Villanelle tinha aprendido a entender aqueles silêncios. Eve fez questão de se levantar, mas a loura alcançou seu pulso e a puxou de volta para a cama.

− Você acha que eu vou enjoar, não acha? – A suavidade pegou a morena de surpresa. Ela mordeu o lábio inferior, erguendo os olhos para Villanelle.

− Você se entedia com facilidade, disso eu sei. –

− Sim, mas nossos dias têm sido tudo, menos entediantes. Eu nunca tinha visitado uma fábrica de tamancos, muito menos passado a mão em um carneiro. – A facilidade com que as palavras deslizavam dos lábios da mais nova faziam as sentenças parecerem sinceras. Eve sorriu, recostando-se contra a cabeceira da cama.

− O que mais você quer fazer de diferente? –

− Hmmm... você pularia de paraquedas? –

− O que? Claro que não! Você sabe que eu tenho medo de altura. – Villanelle sabia, mas era um detalhe que ela optava por ignorar. Eve dissera ter desenvolvido o medo de altura depois de ver Kenny cair do telhado do escritório.

− Ok, mas você ficaria no helicóptero comigo? – Ela se inclinou na cama para pegar o controle da TV, ligando em um programa qualquer. Nenhuma das duas entendia holandês, então o barulho era apenas uma companhia ao suave ruído de chuva.

− Não, eu ficaria perfeitamente segura em terra firme, esperando você voltar. – Eve deu tapinhas no próprio colo e Villanelle prontamente deitou a cabeça ali, cruzando as mãos sob o peito e olhando para o teto.

− Jesus, Eve. Assim eu ficarei entediada. – Ela provocou, fazendo um bico, mas a morena somente riu. O momento de tensão havia passado tão rapidamente quanto viera.

− Pra onde vamos, amanhã? –

− Decidirei no aeroporto. Mas estou pensando na Alemanha. –

− Já realizou algum trabalho lá? –

− Em Berlim? Você sabe que sim. Mas poderíamos ir para algum lugar com castelos. – Os olhos cor de mel da assassina brilharam com a própria sugestão, e Eve se lembrou mais uma vez do quanto aquilo era precioso.

− Castelos, então. Você decide. – Villanelle arqueou uma sobrancelha, curiosa com o rumo da conversa. Ela ergueu a mão e tocou o queixo de Eve com o indicador.

− Eu nunca enjoaria de você, Eve. – Ela parecia bastante sincera novamente, e Eve decidiu acreditar nela. Tombou o rosto para beijá-la suavemente nos lábios.

− Vamos ver. –

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Conforme os meses passaram, também passaram as cidades. Heidelberg, Santorini, Queenstown, Uppsala, Vancouver, Medelin, Blackpool, Veneza, Marselha, Valparaíso, Waterford, Porto. Nunca capitais, mas cidades onde poderiam se camuflar com facilidade alugando um imóvel pequeno por temporada.

Na terceira cidade, Villanelle decidiu que continuaria seu negócio de perfumes. Como Eve suspeitava, ela precisava de algo concreto para fazer. Agora que não passava o tempo planejando assassinatos, a loura precisava de outra motivação. E uma hora o dinheiro acabaria. Decidiram, então, que Villanelle partiria para as capitais para vender seu produto assim que se estabelecessem nas cidades do interior. Ela ficava vários dias fora, e se comunicavam através do pré-pago que adquiriam em cada cidade diferente.

Eve começou a escrever. Alguns dias foram difíceis, é claro. Ela era apaixonada pela investigação, pela caça, e só quando passou a trabalhar para Carolyn que obteve algum reconhecimento e alguma liberdade. Obviamente, começar qualquer outro trabalho daquele tipo estava fora de cogitação, porque não poderiam se estabelecer em definitivo por enquanto. Villanelle a chamou para acompanha-la às capitais, mas Eve precisava de seu próprio tempo, e sabia que a loura também. Então começou a escrever.

Primeiramente, sobre Villanelle. Óbvio. Ela era a dona de seus pensamentos na maior parte do tempo, e havia tanto para escrever sobre ela! Escreveu sobre cada um de seus trabalhos também, conforme ela os relatava. Apesar de não querer mais fazer aquilo, a loura não apresentava nenhum tipo de remorso quanto aos assassinatos cometidos no passado, e seus relatos eram, no mínimo, divertidos. Eve também se lembrava com muita clareza da maioria dos passos dados nas investigações, então a escrita se tornou seu porto seguro, e os detalhes eram bastante ricos.

Na quinta cidade, Villanelle já tinha lhe ensinado a não deixar rastros na internet, e Eve fez a primeira publicação. Cada trabalho tinha virado um conto, e rapidamente apareceram vários seguidores curiosos. Era divertido ver as opiniões deles, mas não demorou muito para que alguém ligasse os assassinatos à sua assassina. Eve cogitou parar, com medo de serem rastreadas, mas a loura a incentivou a continuar.

− É uma delícia ver minha história sob seu olhar, Eve. – E ela disse aquilo com tanta convicção!

Aos poucos, tinha atraído a atenção de algumas editoras de publicação online, e então os contos foram compilados para um e-book. O rendimento era pequeno, comparado ao que Villanelle ganhava fazendo sua marca, mas era algo.

E havia os contratempos.

Uma tarde, na oitava cidade, a loura entrou na casa de um cômodo só com as mãos sujas de sangue. Eve estava fazendo café e ouvindo música quando ergueu os olhos para ela. Elas se encararam por alguns instantes em completo silêncio, até Villanelle soluçar alto. A coreana se adiantou e pegou nas mãos dela, puxando-a para o banheiro. Não perguntou nada até que as manchas vermelhas tivessem escorrido pelo ralo de vez. Preparou a banheira e a ajudou a tirar as roupas.

A água quente e alguns sais de banho sempre salvavam.

− O que aconteceu? –

− Eu matei um cara. –

− Porque? –

− Ele tentou me assaltar, apontando uma arma pra mim. Eu o desarmei e acertei a cabeça dele contra a parede. Várias vezes. –

A explicação veio permeada por soluços, mas ela não chorava. Àquela altura, Eve a conhecia muito bem, e Villanelle não precisava fingir emoções. Ela tinha se abalado, mas não era pela morte em si. Era pelo que aquilo significava.

− O monstro continua aqui, Eve. –

− Eu sei. –

E estaria sempre lá. O de Eve também.

               

                Elas transavam. Muito. Villanelle conhecia todas as posições possíveis e era praticamente insaciável na maioria dos dias. Ela gostava de levar Eve à exaustão e de fazê-la implorar para que parasse. A cama era o único lugar em que ela deixava seus demônios brincarem agora, e tinha que fazer com que o tempo valesse a pena.

Eve não se importava. Ela alimentava seus próprios demônios com os de Villanelle, e quando conseguia satisfazê-los o suficiente, ela via Oksana. E então era sua hora de brincar, de experimentar um pouco daquele poder inebriante.

O cigarro permanecia na cabeceira da cama, mas ela só fumava em duas ocasiões: quando terminava um conto e depois de transar. O cigarro tinha adquirido uma nova associação, vinculado unicamente à satisfação, e esse era o melhor jogo que poderia formar com as cartas que tinha na mesa.

As vezes ainda engasgava com a fumaça, é claro. A toxina estava lá, entrando em seus pulmões, e em algumas ocasiões se tornava difícil respirar.

Mas não havia nenhum arrependimento.

 

A décima quarta cidade foi Anchorage, no estado do Alasca, EUA.

Villanelle ficou deslumbrada com a natureza selvagem. Havia alces e ursos e águias de cabeça branca, e ela quis subir no pico mais alto da América do Norte, localizado no Parque Nacional de Denali. Eve não conseguiu escapar do passeio.

No mesmo parque é possível ver as luzes do norte, que produzem um espetáculo no outono. Ambas usavam grossos casacos de frio, touca e meias, e Villanelle envolvia Eve nos seus braços compridos.

− Nós deveríamos ter feito isso antes. – A coreana comentou, olhando para a confusão de cores no céu estrelado. A loura balançou a cabeça em negação, os olhos igualmente presos nas luzes do norte.

− Se tivéssemos partido aquele dia, não chegaríamos até aqui. – Havia uma segurança reconfortante na voz da loura, uma certeza que nenhuma delas seria capaz de alcançar dois anos antes, quando tudo que possuíam era caótico e devastador. – Você ainda pensa no passado? –

Essa era uma pergunta frequente entre elas. Eve geralmente respondia que sim. Escrever sobre o passado tinha libertado algo dentro dela, e a necessidade de revisitá-lo diminuía a cada dia. A sensação era inebriante, poderosa.

Naquela noite ela não pensava no passado. Não mesmo.

− Não hoje. Só estou pensando no nosso futuro. – A implicação na voz de Eve fez Villanelle apertá-la ainda mais nos braços. O vento castigava os rostos delas, mas o espetáculo era bonito demais para se afastarem dele.

− Eu ainda sou o rosto que você vê no futuro? – Ela sussurrou contra a orelha da mulher mais velha, e aguardou em expectativa.

− O mais bonito, sim. – Eve respondeu, tombando a cabeça de encontro com o ombro de Villanelle a tempo de ver seu semblante mudar para um sorriso. – E agora? –

Aquele era o último dia do mês. Quatorze meses em quatorze cidades.

− Não sei. – Villanelle respondeu, sentindo as pernas começarem a endurecer. Duas calças e três meias aparentemente não eram suficientes para o frio do Alasca. Deveria ter seguido o conselho de Eve e colocado três calças também. – Eu só quero aproveitar o Alasca mais um pouco. –

Eve assentiu. Era tudo que ela queria também.

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Notas Finais


Bem, é isso. Foram 68 páginas e dois meses de história. Fiquei feliz demais com o resultado e espero que vocês gostem também <3 Um agradecimento especial às minhas meninas que me perturbaram com a atualização da fic e me incentivaram a todo o tempo. Aos demais que estão acompanhando, todo o meu amor! Vou responder cada um dos comentários.
Aproveitando pra divulgação, eu tenho outras duas one-shot de Villaneve nesse perfil: Never let me go e Something Real. Se quiserem ler, está no meu perfil! Vocês podem me encontrar no instagram, tumblr e twitter @vihllanelle, os links também estão no perfil.
Obrigada por terem acompanhado a fic! Cada comentário significa o mundo pra mim. Até mais!


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