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  3. Capítulo Dez - Foi só imaginação

História Stranger Things 4 - Capítulo 13


Escrita por:


Notas do Autor


OIEEEEEEEEE
Cá estamos de quarentena, eu, autora, e você, leitorx (substitua o "x" pelo seu gênero). Sendo assim, resolvi desistir do hiatus e continuar a fic até o final.
Não sei quantos capítulos essa segunda fase vai ter, mas não deve passar de dez, então, sim, a fic está mais ou menos perto do fim :(
Também não vou mais dar datas. Pretendo postar de quinze em quinze dias, mas se o capítulo ficar pronto antes, vou postar antes. Se entreter na quarentena, né?
Enfim, gente, se vocês puderem NÃO SAIAM DE CASA, ok? Usem álcool gel e lavem bem as mãos porque essa doença é muito séria e precisamos acabar com ela.
Boa leitura e espero que gostem dessa nova fase da história <3

AVISOS: DEPRESSÃO, ANSIEDADE, HOMOFOBIA, AGRESSÃO, RELACIONAMENTO ABUSIVO, ESTUPRO

Capítulo 13 - Capítulo Dez - Foi só imaginação


Fanfic / Fanfiction Stranger Things 4 - Capítulo 13 - Capítulo Dez - Foi só imaginação


Duas semanas depois

 

Sam estacionou o carro em frente ao único colégio da cidade de Hawkins e observou a filha tirar o cinto de segurança.

Ele sorriu; sentia-se completo e aliviado por tê-la ali, viva e bem.

— Tchau, pai — beijou a bochecha dele. — Nos vemos mais tarde.

O homem tocou o braço dela.

— Querida, se cuide. Por favor. E se for sair depois da aula, fique perto dos seus amigos e não fique sozinha à noite. Eu te amo.

— Também te amo, pai — o abraçou. — Vou me cuidar, prometo.

Sam coçou a nuca.

— Bem… de todas as formas, sim?

Max franziu o cenho, sem entender o que o pai queria dizer.

— Como assim?

— É que… você está numa idade onde os hormônios estão à flor da pele. E está namorando. É bom se cuidar, né…

Max engasgou com a própria saliva e começou a tossir. Sam deu tapinhas nas costas dela, acalmando-a.

— Não! — falou ao melhorar. — Pelo amor de Deus, eu não vou fazer isso! Não agora.

— Sério? — Sam arregalou os olhos e limpou o suor da testa. — Ufa! Mas eu sinto que temos a obrigação de conversar sobre isso.

— Tchau, pai — despediu-se, corada. — Te vejo mais tarde.

Max bateu a porta do veículo e balançou a cabeça, visto que queria afastar as lembranças da conversa constrangedora.

Lucas, Dustin e Will a esperavam. Ela deu um beijo no namorado, que acenou para seu pai.

Erica, que estava perto do irmão, bufou.

— Que coisinha mais melosa — revirou os olhos e saiu.

Os quatro ainda ficaram do lado de fora por mais um tempo para encontrarem Mike antes do início das aulas, mas ele não apareceu.

Quando todos já estavam na sala, arrumados em seus lugares, ele chegou. Usava várias blusas e um grosso casaco, além de mais de uma calça.


Terry dirigia por Bloomington cheia de ânimo e vigor. Nada poderia deixá-la triste desde que encontrara a filha. Finalmente, estava próxima de dar adeus a todas as suas angústias.

No banco do passageiro, Becky não sentia tanta felicidade. Há semanas, a irmã buscava uma casa nova — mesmo que tivesse uma fora de Hawkins — para viver sozinha com Jane.

Ela temia que a menina se revoltasse e não quisesse mais ficar sob custódia da mãe. Além do mais, criá-la era um tiro no escuro: que coisas uma jovem com poderes telecinéticos podia fazer?

— Não acha que está se precipitando um pouco? — decidiu perguntar. — Quero dizer, você e a Jane podem ficar na minha casa sem problema algum. Ou podem ficar na cabine.

Não. Repita. Isso — repreendeu pausadamente. — Eu não vou ficar em Hawkins, não há possibilidade alguma de isso acontecer. E também gostaria de dar uma vida perfeita à minha Jane sem precisar de migalhas suas. 

Becky bufou e esfregou o rosto com as mãos. Terry, em resposta, afagou a perna dela.

— Por favor, não fique brava comigo. Não quis dizer que odeio ficar na sua casa, mas queria ter a minha privacidade com ela. Você entende, não é?

— Entendo, Terry. Eu só… — ela mesma se interrompeu. Sabia que tocar naquele assunto de repente a faria levar uma patada gigante.

— Só… — Terry pediu por uma continuação.

Becky soltou uma longa lufada de ar.

— E se pedisse a opinião dela? Ela tem tantos amigos em Hawkins, um namorado… Talvez ela preferisse ficar lá mesmo.

— Nunca! — gritou. — Se eu ficar, vão ficar também as lembranças ruins do laboratório e do desgraçado que continua atrás dela.

— Por isso mesmo, Terry! — Becky se exaltou. — Ele não sabe onde vocês estão. Se ele fez questão de te manter em estado vegetativo durante todos esses anos, deve estar monitorando. Brenner pode saber que você acordou!

Terry urrou e socou o volante, deixando o carro ir em zigue-zague durante uns segundos.

— Ele não sabe de nada!

Becky revirou os olhos.

— Você tem medo que ela prefira ficar com ele, admita.

— E você acha que ela ficaria com um desconhecido em vez de querer a mãe dela?

— Talvez, já que a mãe dela simplesmente quer mudar a vida dela inteira.

— Cale a sua boca, idiota!

Becky riu ironicamente contra o vidro do veículo.

— Eu sinto muito pela sua cegueira em relação a isso, Terry. Ela não é uma bebê que você pode moldar, ela é uma adolescente com opiniões e valores. Não é afastando-a de quem a salvou que ela passará a te amar. Pense nisso, idiota.

Terry ignorou a irmã e prestou atenção no caminho.


Era hora do almoço quando Mike, Lucas, Dustin, Will e Max se reuniram em volta de uma mesa e começaram a conversar sobre muitas coisas.

Eles sentiam falta de estarem daquele jeito, juntos e sem brigas aleatórias. Sem Mundo Invertido por perto.

— Escutem, por quê não saímos um pouco hoje? Faz tanto tempo que não ficamos tranquilos e juntos desse jeito — sugeriu Dustin.

Max colocou a mão no queixo e pensou um pouco.

— Podíamos ir ver algum filme. É algo que todo mundo gosta.

Ignorando as falas dos amigos, Mike remexia com o garfo em seu prato quente de macarrão. Parecia analisar a comida e imaginar se valia a pena colocá-la para dentro.

O ruído em sua mente o fez fechar os olhos.

— E também devíamos chamar a El para ir com a gente — Max completou uma frase qualquer de Dustin e chamou a atenção de Mike.

Ele ergueu a cabeça abruptamente e a fitou.

— Sim! — Will animou-se. — Posso ir até a casa dela depois da aula.

A garota, martelou a voz da consciência de Mike.

— Ei, Mike — chamou Lucas. — Não vai comer nada? Nem tocou no seu prato hoje.

Mike piscou repetidas vezes.

— Sim — afirmou. — Sim, sim, eu irei.

Ele encarou o alimento de novo antes de enrolá-lo no garfo e mastigá-lo.

Muito quente.

Mike empurrou o prato de porcelana — que só não caiu porque Max o segurou — contra o meio da mesa e se levantou.

Teve vontade de gritar, mas ele não permitiu.

— Mike, está tudo bem? — Lucas indagou.

— Não… — interrompeu a si mesmo. — Sim. Eu só acho que estou com febre. Vou para fora tomar um ar.

— Tem certeza que não quer ir à enfermaria? — Will foi prestativo. — Posso ir com você.

Não — grunhiu. — Eu só preciso de um ar.

Mike pegou a mochila, apressou os passos e alcançou o corredor. Sua respiração era profunda e ofegante, como consequência de seu esforço interno em tentar se sobressair a ele.

Sentiu o suor pingar em sua nuca e correu o mais rápido que pôde até o estacionamento, onde acomodou-se embaixo de uma árvore média.

Abrigado contra o sol, tirou o blusão e mais cinco blusas de lã de seu corpo, restando apenas uma regata.

Ele abriu a mala e dela tirou uma pequena bolsa térmica e um copo. Jogou refrigerante gelado no copo e o encheu numa quantidade absurda de cubos de gelo.

Num instante, bebeu tudo.

Mike apoiou-se no tronco e deixou que um raio de sol iluminasse seu ombro. Uma dor enorme latejou e, quando percebeu, viu uma queimadura horrível enfeitar sua pele.

Mike gritou e colocou as roupas de novo, entrando na escola e escondendo a bebida.


A aula de Educação Física nem estava sendo tão pesada para as garotas naquele dia. Tudo que tinham que fazer era correr dez vezes em volta da quadra e esperar na arquibancada pelo jogo de basquete dos meninos.

Na quarta rodada, Nancy percebeu a visão escurecer um pouco e apoiou as mãos sobre os joelhos.

— Ei, senhorita Wheeler, vamos! — apitou o professor.

Robin, que estava do outro lado do ambiente, voou até a amiga para ampará-la.

— Nance, você está bem?

— Não. Acho que eu vou vomi…

Ela nem teve tempo de ir para o banheiro. O seu café da manhã e seu almoço saíram pela sua boca num único segundo.

— Nancy! — Jonathan gritou e saiu do banco de reservas, onde esperava com o resto do time. — Você precisa de ajuda? O que aconteceu?

— Nada demais, eu só devo ter comido algo de errado — mentiu.

— Tem certeza?

Nancy lançou um olhar tristonho para Robin, que entendeu que deveria despistar Jonathan.

— Nance, por quê não ligamos para a sua mãe?

— Eu posso fazer isso! — exclamou Jonathan.

— Não, gente, não precisa. Eu… não quero preocupá-la.

Nancy se apoiou em Robin e as duas seguiram até a enfermaria. Jonathan, que ficou para trás, não conteve a preocupação.

Nancy se sentou nas cadeiras da sala de espera enquanto Robin descobria pela recepcionista que a médica estava em horário de almoço.

— Ela não está agora — colocou-se ao lado dela, que deitou a cabeça em seu ombro. — Nance, você precisa se cuidar mais. Não pode fazer tanto esforço — murmurou.

— Mas se eu não fizesse aula, as pessoas iriam começar a desconfiar. Além do mais, isso acaba hoje à noite.

Robin respirou fundo.

— Escute — Nancy continuou. —, não precisa me acompanhar se não quiser. Não quero que falte ao trabalho e desperte ainda mais o ódio do Keith.

Elas riram.

— Keith odeia o Steve e qualquer um que veja simpatia nele. E eu quero te ajudar nesse momento. 

— Mas…

— É estranho — admitiu. — Você mexia na sua barriga, conversava com o feto se chamando de mamãe e agora quer abortar. E isso faz, tipo… cinco dias.

Nancy suspirou pesadamente.

— Eu sei, mas… tenho medo. E se o Jonathan me abandonar e não quiser assumir? Não estou preparada para criar uma criança sozinha.

— Podíamos recorrer à Justiça.

— Sim, Robin, mas você sabe onde isso vai dar. Eu serei a adolescente que não deveria ter feito sexo antes do casamento e deveria ter se protegido e não se atentou às consequências que agora precisa aguentar tudo sozinha. E ele sairia impune. Eu sou mulher, e você sabe como é.

— Sim. Infelizmente, eu sei — ela sorriu para Nancy e pegou a mão dela. — Eu estou aqui, com você.


Eleven terminava de aspirar a casa cantando os versos finais de Material Girl, da Madonna.

Já havia perdido as contas de quantos dias passara fazendo faxina por puro tédio ao ficar sozinha. Não sabia onde a mãe ia todas as tardes e também não fazia questão de perguntar.

Ela se deitou no sofá ao se dar conta de que não existia mais poeira em nenhum lugar e encarou o teto.

Sentia-se culpada pelas próprias emoções e tentava repreendê-las sempre que vinham. Só que, às vezes, elas não iam embora; a forçavam a pensar e imaginar como as coisas seriam.

Eleven não podia negar: tinha saudade de Hopper. Do pai protetor, do amigo, do cozinheiro, do contador de histórias. Tinha saudade até dos pedidos para que a porta ficasse oito centímetros aberta.

Porém, ao mesmo tempo, não queria magoar Terry. Ela sabia o quanto a mulher sofrera para recuperá-la e gostava de vê-la feliz.

Eleven estava renunciando à sua própria felicidade por causa da mãe.

A batida secreta na porta a alarmou e a fez pensar, por poucos instantes, que podia ser Hopper. Mas ele não vinha; nunca. Terry não gostava muito dele.

Ela abriu a casa com a mente e se deparou com um Will sorridente.

— Oi, El.

— Oi, Will! — o abraçou com força ao se levantar. — O que faz aqui?

— Nada demais — afirmou. — É que nós vamos ao cinema daqui a pouco e gostaríamos que fosse com a gente. Não é como o que tinha no shopping, mas ainda é um cinema legal.

— Sim, é claro que eu vou. Eu só… vou trocar de roupa — corou.

— Estava limpando a casa de novo? — Will riu.

— Ficar sozinha é muito entediante! — gritou em resposta ao trancar-se no quarto para mudar as vestimentas.


Hopper observou o último cliente deixar a loja e ajeitou a farda, ainda dentro do carro. Pigarreou, borrifou um spray na boca e um perfume no corpo todo. Em seguida, pegou os enormes cinco buquês de rosas vermelhas e os carregou com dificuldade, quase tropeçando nos buracos da calçada.

Desengonçado, chutou a porta do estabelecimento e foi entrando. Joyce, que estava atrás do caixa, levou uma mão à boca, sem saber se ria ou sentia vergonha.

— Boa tarde, flor mais linda dos jardins de Hawkins — berrou. — Quero dizer, Hawkins, não, de todo o Universo onde existem jardins. É, o que eu sinto por você com certeza é motorista.

Joyce pegou os buquês calmamente, colocando-os na mesa ao lado do caixa.

— Motorista? — perguntou, sem entender as intenções de Hopper.

— Claro, porque passageiro não é.

Joyce engoliu a seco, uma tentativa de esforço para que ela não risse.

— E então, Joyce? Quer viver esse sentimento motorista comigo? — continuou, sem perceber o quão ridícula aquela cantada tinha sido.

Joyce contraiu o rosto e respirou fundo.

— Bem, Hop, por quê não vamos com calma? — enrolou uma mecha de cabelo no dedo.

Hopper abaixou a cabeça e parou de estufar o peito, o que entortou sua postura. A expressão dele era de pura decepção.

— Qual é o problema comigo?

— Nenhum, Hop — ela foi para perto dele. 

— Então? — arregalou os olhos. 

Ela piscou algumas vezes.

— Eu tenho medo da reação do Will e do Jonathan, sabe? As coisas ainda estão caminhando. É como se elas — gesticulou. — estivessem voltando ao normal depois de uma tempestade imensa e entrando nos eixos novamente. Eu não queria destruir esses eixos, entende?

— Você tem vergonha de mim porque sou um grosseirão feio, não é mesmo?

Joyce resmungou e lhe deu um beijo acolhedor, tocando sua bochecha. Hopper pegou na cintura dela quando ela parou o gesto.

— Não, seu idiota — acariciou a pele dele. — Além do mais, eu amei a surpresa. Eu só preciso de um tempo.

Hopper assentiu e a beijou de novo. Depois, lhe deu um abraço e a aninhou em seu peito.


— Eu não entendo! — entrou gritando e dando tapas na coxa.

Só depois de seu pequeno surto, Hopper se deu conta da quantidade de funcionários na casa de Murray. Muito provavelmente, eram para a campanha dele à prefeitura, que ia bem até demais.

— Oi, Jim! — ele o cumprimetou e o ofereceu vodca, mas ele recusou. — Sente-se aqui.

Hopper sentou no sofá à frente da poltrona onde o amigo estava.

— Ela disse que amou a surpresa.

— Eu sabia, Jim. Sou um verdadeiro gênio do amor.

— Só que não quis me namorar.

Murray desfez o semblante alegre.

— Ué, mas por que?

— Eu também não sei! — passou as mãos pelos cabelos e se levantou, caminhando por toda a sala. — Eu fiz tudo do jeito que você me aconselhou.

— Acalme-se, Jim — fez sinal de pare. — Você só precisa dar um tempo a ela, ser mais romântico e mais leve. Assim, ela ficará caidinha por você, vocês se casarão e eu serei o padrinho. 

Hopper parou em seu lugar e começou a reclamar:

— Qual será o meu problema? É porque eu sou policial?

Murray negou.

— Não.

— É porque eu casei antes?

— Não, ela também se casou antes.

— É porque eu não tenho filhos?

— Não, você teve duas filhas.

— É porque eu sou feio e grosseirão?

— É, talvez seja isso.

Hopper fuzilou Murray com o olhar. Murray ergueu as mãos, rendendo-se.

— Você está brincando comigo, Murray? — gritou.

— Eu só estou sendo realista. Não que eu te ache feio, até porque feio é uma concepção do cérebro humano que depende de gostos e valores.

Hopper coçou a cabeça.

— É porque eu fiquei careca e meu cabelo ainda está crescendo?

— Ei, ei, ei, ei, ei — bateu palmas. — Ser careca não é sinônimo de feiura; existem carecas bonitos e carecas feios. Eu, no caso, sou um exemplo de careca bonito, enquanto você é um claro exemplo de careca feio.

Hopper fez menção de ir embora e bufou, mas Murray ficou de pé e o impediu.

— Se quiser conquistar a Joyce, fique calmo. Faça o que ela te pede, espere que ela se dê a liberdade de amar novamente. Mostre a ela o quanto a ama.

Hopper balançou a cabeça positivamente.


Billy observava a paisagem pela janela do ônibus, um pouco de vento batia pela fresta aberta. Naqueles momentos, inegavelmente, sentia falta do Camaro azul. Nele, chegaria em casa num tempo muito menor que usando transporte público.

Apesar das mudanças absurdas, a felicidade começava a ser uma realidade da vida do garoto. Poder entrar no apartamento sem medo de apanhar ou ser abusado, estar perto de Steve, de Max e, em especial, de Veronica eram fatores que o deixavam mais leve.

Billy notou um toque suave em seu braço e virou-se para encarar a mãe, sentada no banco ao lado dele. Ele sorriu e segurou a mão dela.

— Me desculpe, querido — Veronica abaixou o olhar. — Sei que posso estar sendo um pouco invasiva, mas eu gostaria de saber como as coisas vão. As consultas, a terapia…

— Não está sendo invasiva, mãe — garantiu.

Veronica respirou fundo.

— É que eu ainda me sinto mal por tudo. Sinto que não tenho direito algum de perguntar sobre isso por causa de tudo e também…

— Mãe, por favor — pediu. — Você teve os seus motivos e eu entendo. O que importa é que está aqui, agora. Simplesmente mudou a sua vida toda para ficar numa cidade que sequer conhecia por minha causa — beijou os dedos dela e mudou de assunto. — Acho que tudo está surtindo efeito. A terapia ajuda porque canaliza os meus sentimentos e os remédios diminuem as crises. Mas eu penso demais em tudo e às vezes é mais difícil — admitiu.

Veronica passou as mãos pelos cabelos e suspirou.

— Eu sinto muito, filho — encostou na bochecha de Billy e a voz se embargou. — Nada disso teria acontecido se eu tivesse ficado, prestado atenção aos sinais.

— Mãezinha, não. Não é culpa sua — acariciou a mão dela. — Eu não sei por que fiquei desse jeito, não sei… — a forma como Billy gesticulou e a singela lágrima que escorreu por sua pele entregou que uma crise estava por vir. — Eu não queria precisar tomar remédios tão caros, eu não queria te preocupar, eu…

Veronica o abraçou com força.

— Shhh, meu amor… — afagou os cachos loiros do filho. — Está tudo bem em tomar remédios. Eles te fazem melhorar, cuidam da sua mente — ela beijou os cabelos dele. — Eu te amo independentemente de qualquer circunstância. 

Billy concordou com a cabeça e fechou os olhos.

— Eu te amo demais, mãe — murmurou. — Obrigado por estar aqui.

No silêncio de seus pensamentos, Billy tentava acreditar na completa sinceridade das palavras da mãe. Parte deles, no entanto, o avisava de que, assim que Veronica soubesse sobre sua sexualidade, o esqueceria para sempre.


Nancy demorou mais tempo que o necessário no banho. Passou o sabonete azul pela barriga — ainda invisível — várias e várias vezes, tentando entender a mudança que aquele serzinho faria em sua vida.

Secou-se com a toalha e sentou-se na cama. Escolheu uma roupa qualquer e terminou de pegar todos os documentos que precisava levar até a clínica.

Ela desceu as escadas disposta a passar despercebida pela família. Karen, porém, não a deixaria concretizar sua vontade.

— Para onde está indo, filha? — indagou. — Não vai jantar?

— Na verdade, não, mãe — admitiu. — Estou indo estudar com a Robin.

Karen sorriu e beijou Nancy no rosto.

— Obrigada por existir, Nance. Eu te amo muito — segurou as mãos dela. — Sabe, eu era muito jovem quando engravidei e cheguei a pensar que abortar era a melhor opção. Mas o seu pai me apoiou tanto que decidi levar a gravidez adiante.

Nancy riu, meio nervosa.

— O papai? Sério?

— Por incrível que pareça — enfatizou. — E você é a maior bênção que aconteceu em toda minha vida.

— Eu te amo, mãe.

As duas se abraçaram e Nancy saiu de casa.

No jardim, enquanto esperava por Robin, refletiu sobre o que acabara de ouvir.


Lucas, Dustin, Will, Eleven e Max estavam na porta do cinema há uns minutos. O horário da sessão era dali a pouco, o que os deixava ansiosos.

— Caralho, mas que merda! — Lucas deu um tapa forte na própria coxa, grunhindo de dor em seguida. — Nós vamos perder esse filme se o Mike não chegar logo!

— Acho melhor alguém entrar na sala, só para garantir que ninguém irá pegar nossos lugares. A sessão está muito cheia — sugeriu Max. — O resto espera até que ele chegue.

Eleven fitou todos os lados, em busca do namorado.

— Tenho certeza de que ele vai vir. Vamos esperar mais um pouco, por favor.

Dustin encarou Lucas e bufou, colocando a mão na cintura. Com medo que alguma briga acontecesse, Will afagou o ombro do amigo e sorriu.

Antes que uma nova discussão se iniciasse, Mike subiu a rua com sua bermuda e uma regata. 

Mesmo sem comentarem nada, foi impossível os cinco não perceberem as roupas de verão que ele usava numa noite um tanto quanto fria.

— Perdão pelo meu longo atraso, amigos — falou ao se aproximar. — Fiquei tanto tempo escolhendo minhas vestimentas que perdi a noção do próprio. Mil perdões, mais uma vez.

Will franziu o cenho e cruzou os braços. Desde quando Mike utilizava tanta formalidade ao falar?

— Credo, Mike — Dustin deu tapinhas nas costas dele. — Quando está um sol de rachar, você se capota de blusas. E, nesse frio, olhe só para você — passou os braços em frente ao corpo dele. — Parece um vampiro.

Mike gargalhou de maneira avassaladora, acompanhado de um sorriso assustador.

Mike abraçou Eleven pelas costas — bem forte — e a encheu de beijos, fazendo-a corar.

Eles adentraram ao local e Will avisou que ficaria na fila da pipoca que, infelizmente, estava muito cheia. Demorou, mas ele conseguiu os dois sacos grandes para dividirem entre si.

Ele passou pelo corredor escuro que levava até a sala de filmes. As luzes, antes apagadas, piscavam à medida que Will passava por elas.

Will chegou à porta e, com dificuldade, a chutou. Surpreendentemente, não havia nada atrás dela.

As luzes voltaram a piscar e, daquela vez, ele encontrou a sala que queria; contudo, a tela era coberta por gosmas pretas e larvas rastejantes que se estendiam numa paisagem grotesca e reconhecida por Will.

Mundo Invertido.

— Gente? — chamou. — Vocês estão aí?

Ninguém respondeu e o garoto se virou para trás.

— Gente?

Will deu um pulo no lugar ao se deparar com Mike à frente dele, o encarando.

— Mike? O que aconteceu?

Não confie em mim.

Will arqueou as sobrancelhas.

— O quê?

Mike abriu um sorriso de orelha a orelha que não saiu de seu rosto. Assustado, Will começou a andar de costas até sentir uma mão tocar seu ombro. Ele tremeu e se viu de volta ao cinema.

— Will? Você está bem? — perguntou Dustin.

Atrás deles, onde estava exatamente na visão de Will, Mike os observava com a mesma expressão apavorante.

— É — Mike chegou mais perto. — Voltamos porque ficamos muito preocupados com a sua demora.

Will balançou a cabeça e seguiu Dustin, tentando ignorar a presença de Mike ali e o fato de sua nuca ter se arrepiado.


As duas estavam na estrada há mais de uma hora, mas não pareciam entediadas. Não conversavam muito porque Robin prestava atenção no caminho e Nancy ainda formulava uma decisão.

— Obrigada por me acompanhar, Robin — Nancy quebrou o silêncio. — Eles exigem alguém depois do procedimento.

Robin sorriu.

— Ah, não precisa me agradecer, Nance. Está tudo bem.

Nancy fitou as unhas, quase completamente roídas.

— Eu me sinto muito culpada por abortar.

— Você não está errada e muito menos é uma pessoa ruim — a confortou. — Embora as pessoas nos ensinem isso, nem todas as mulheres nasceram para ser mães. Nem todas as mulheres desejam um filho e está tudo bem. Cada uma é cada uma.

Nancy respirou pesadamente.

— Não é como se eu tivesse nascido para a maternidade, Robin. Longe disso. Mas confesso que gostaria de saber como seria o rosto dele ou dela, se ele ou ela seria sorridente, se ele ou ela se pareceria mais comigo ou com o Jonathan. Ou com nenhum dos dois, se puxaria mais a Joyce ou minha mãe ou meu pai ou o Mike…

Robin se virou para Nancy por um único instante.

— Tem certeza de que quer fazer isso? Quero dizer, às vezes você parece convicta sobre o aborto e outras parece querer ser mãe.

— Você abortaria, não abortaria?

— O que eu faria é algo meu, Nance. Você deve fazer o que acha correto. A decisão é sua e de mais ninguém.

Robin passou rápido por um local e Nancy mudou o foco:

— Ei, volte. Você passou reto, é ali — apontou para uma casa que mais parecia abandonada.

Robin deu ré no carro e estacionou em frente ao lugar. 

Ela arregalou os olhos diante do que viu: uma fachada escura, sem manutenção, sem indicação ou aparência de clínica cheia de teias de aranha.

Isso é a clínica? 

Nancy concordou com a cabeça e Robin arqueou as sobrancelhas.

— Isso aqui é legal?

— S-sim — gaguejou.

Desconfiada, Robin mudou a pergunta:

— Essa coisa podre é ilegal, não é?

— Não — gritou. — Quero dizer, talvez… É.

Robin bateu no volante e piscou repetidamente.

— Nancy, meu Deus, você deveria ter procurado um lugar seguro. Olha só para isso! 

Ela começou a desviar, mas Nancy a impediu.

— Robin, por favor, me escute! — suplicou. — As clínicas legais exigem a presença dos pais para quem é menor de idade e tudo que eu menos quero é que eles saibam sobre essa gravidez! Por favor, eu preciso fazer isso.

Robin soltou uma lufada de ar, mas aceitou o pedido da amiga.

As duas entraram e se depararam com um rato, que passou sobre os pés delas e seguiu pelo corredor sujo. Algumas baratas passeavam pelo piso azulejado.

Nancy foi até a mesa improvisada e entregou seus documentos à uma mulher de cabelos lisos despenteados e sujos. Ela mascava um chiclete e sorriu ironicamente antes de abrir a agenda velha e conferir os dados.

— Nancy Wheeler, é você?

Nancy assentiu.

— Dezessete anos. Você me parece nova demais para saber como se faz um bebê — gargalhou. 

Nancy corou com a frase.

A senhora mexeu nos armários perto dela e estendeu uma camisola para que ela vestisse.

— Tem um banheiro na porta dos fundos à direita. Pode se trocar ali.

Nancy se virou para Robin e a abraçou.

— Você me espera aqui?

— Claro que sim, Nance.

Nancy andou para longe enquanto Robin se sentou na cadeira bamba de plástico. Ao passar o dedo pelo braço do objeto, viu poeira e fez uma expressão de nojo.

— Escuta, por quê não sai daqui já que está tão incomodada? — bufou a recepcionista.

Robin apoiou a cabeça nos braços e fitou-a.

— Porque eu estou ajudando a minha amiga — enfatizou. — Inclusive, é melhor que ela saia daqui inteira ou você estará em apuros  — sorriu de maneira falsa.


Dentro da cabine, Nancy tirou a blusa com uma tranquilidade que sequer existia. Pendurou-a num pino de metal grudado na parede e puxou a camisola que lhe fora entregue.

Havia um espelho pequeno ali, e ela conseguiu ver sua barriga. Ainda que não aparentasse a presença de um bebê nela, Nancy sabia que ele estava ali.

Passou levemente as mãos sobre a pele, sentindo uma emoção que nunca imaginou ser possível.

As palavras de Karen ecoaram por sua mente: você é a maior bênção que aconteceu em toda minha vida.

Nancy recolocou a blusa e, chorando muito, correu até a entrada, onde Robin a esperava.

— Não conte para ninguém, por favor — a abraçou, aos prantos. — Eu preciso criar coragem de contar para o Jonathan.

Robin ficou de pé e retribuiu o gesto.

— Nance, o que aconteceu? Você não…

— Eu não posso fazer isso — resmungou. — Eu quero esse filho. É uma parte de mim, eu não consigo… Me leva embora daqui, por favor.

Robin murmurou pedidos de calma enquanto a levou para fora da clínica.


Billy e Heather saíram entediados de mais um dia de curso. Não havia nada de interessante para fazerem ou coisas que eles não soubessem.

Só havia os dois deixando a Piscina Pública quando Heather rompeu o silêncio:

— Um garoto da escola vai fazer uma festa. Não é na casa dele, é num lugar aleatório e eu não queria ir sozinha — sorriu e piscou rapidamente.

Billy riu e coçou a cabeça.

— É injusto fazer isso comigo, Heath — deu uma cotovelada leve nela. — Sabe que eu adoro festas, mas agora… Eu não vou resistir à tentação de beber e eu não posso misturar meus remédios com álcool. 

Heather respirou fundo e se sentou à beira da piscina, molhando os pés. Billy a seguiu e fez o mesmo.

— Como você está?

— Bem, acho — estranhou a resposta que deu. — Não sei se esse é o jeito certo de expressar como estou me sentindo porque nunca fiquei bem antes — fitou a água e balançou a perna, refletindo sobre o que acabara de dizer. — Mas estou mal, ao mesmo tempo. É meio esquisito falar sobre isso, só que você é a minha melhor amiga e a única pessoa que sabe disso. Eu ainda não consegui… com o Steve… Acho que deu para entender, não é?

Heather se aproximou e tocou na mão dele.

— É normal, Billy — garantiu. — Depois de tudo que você passou, vai levar um tempo até que transar seja algo simples para você. Sua sorte é estar perto de alguém que te apoia e te entende. Isso vai mudar, acredite em mim.

Billy esfregou o rosto e voltou a observar a água.

— Eu não me sinto atraente de nenhum jeito. Meus traumas me deixaram tão medroso, chorão, desconfiado… E essas cicatrizes que o Devorador de Mentes deixou em mim pegam toda as minhas costas e minha barriga. Elas são… horríveis. Horríveis, Heath. Eu acho melhor deixar as coisas livres para o Steve. Ele não merece alguém tão… quebrado.

Heather chutou a piscina, jogando água por todos os cantos.

— Não comece com essa história de novo, Billy. Eu não te aguentei apaixonado por meses para você desistir do Steve assim. Se permita ser feliz por pelo menos uma vez.

Billy sorriu e a abraçou.

— Você também, Heath. Se permita ser feliz, mesmo que a felicidade venha com uma mulher. Convide a Robin para a festa.

Heather ficou pensativa. Uma série de perguntas inundou sua mente e ela decidiu afastá-las.

Heather se desvencilhou do abraço e empurrou Billy para dentro da piscina. Ela gritou e pulou na água logo depois.

Rindo, os dois se jogaram água.


Os seis deixaram o cinema conversando e animados. Quer dizer, os cinco, visto que Will caminhava a passos apressados e à frente dos amigos.

O ocorrido horas antes o havia amedrontado de uma forma absurda. Arrepios percorriam o seu corpo e ele sequer assistira ao filme.

Will sentiu um braço passar por suas costas e tremeu.

— Ah, Will — era Mike. — Nossa conexão é algo que durará para sempre. Isso não é magnífico?

Will olhou para ele.

— Como assim? — franziu o cenho.

— Estaremos juntos eternamente, meu caro — sorriu. — Você é tão ingênuo. A nossa relação nunca acabará. Por mais que tente, por mais que se esforce… nós sempre estaremos aqui.

— Eu não quero que a nossa amizade acabe, Mike — afirmou.

Mike deu tapinhas nas costas dele.

— Não iremos te deixar em paz, Will — reforçou. — Nós cumpriremos a promessa que fizemos para Eleven.

Will arqueou as sobrancelhas.

— Que promessa? 

— Nós nunca sairemos de perto de você. E ele sempre estará à frente dos seus passos.

A nuca de Will se arrepiou novamente e ele se desvencilhou de Mike, que começou a gargalhar alto.

— Estou brincando, idiota.

Will andou mais rápido e sem olhar para trás.


Robin e Nancy chegaram ao hospital e ficaram esperando durante algum tempo. Leram revistas, conversaram e entraram na sala de exames juntas quando Nancy foi chamada por… doutor Owens.

Às vezes, parecia que não existiam médicos em Hawkins e nas proximidades que não fossem Owens.

Ele fez o exame de sangue e confirmou a gravidez.

— Por favor, doutor, não conte isso a ninguém — ela pediu. — Eu sei o quão próximo o senhor é da Joyce, mas ainda não sinto segurança para dizer tudo.

O médico suspirou e encarou as duas, sentadas à frente dele. Sabia que aquilo ia contra o código de ética que jurou seguir, mas a situação era diferente. Nancy era adolescente e filha de uma família tradicional, além de haver chances de Jonathan não a apoiar.

— Está bem, mas precisa prometer que fará acompanhamento médico adequado.

Nancy balançou a cabeça, concordando.


Mike já tinha ido embora quando Lucas, Dustin, Will, Eleven e Max sentaram-se na escadaria do cinema à espera de alguém para buscar Max. Era tarde e ela não podia ir para casa sozinha.

— Podem ir, se quiserem — pediu. — Eu posso esperar aqui.

Lucas negou.

— Nada disso, ficaremos aqui — Lucas avisou.

— Mas Hawkins é perigoso também. Mundo Invertido, se esqueceram?

Dustin riu.

— Nós vamos sair juntos. Qualquer monstro do Mundo Invertido não é páreo para nós — levantou o braço como se fosse um super-herói.

— Exatamente! — apontou Eleven. — Por mais que nos peça, não deixaremos você sozinha, Max — abraçou a amiga.

Jane! — o grito estridente na voz inconfundível de Terry os alarmou.

— Mãe? O que faz aqui?

A mulher subiu os degraus com a mão na cintura e chegou até Eleven.

— Você ficou maluca? É muito perigoso ficar aqui, alguém pode te descobrir!

Com força, Terry puxou a filha pelos cabelos.

Lucas, Dustin e Max seguraram Eleven enquanto Will a afastou de Terry.

Ninguém vai descobrir, senhora Ives — Will a defendeu. — Mas se vier aqui, em público, fazer escândalo, as pessoas vão desconfiar. 

Pare de defender minha filha como se ela fosse alguma coisa sua, porque ela não é, seu moleque insolente!

Terry empurrou Will e pegou o braço de Eleven. Envergonhada, ela gritou e a mãe caiu das escadas e parou no chão. Não tinha sido por querer, sabia que a mulher não gostava quando ela usava seus poderes.

— Mãe! — correu para ajudá-la. — Mãe, me desculpe. Eu…

— Já chega, Jane! — urrou. — Eu não quero que use isso comigo, ouviu bem?

Terry se levantou e levou a filha embora. Antes, lançou um aviso aos quatro:

— E nem tentem bancar os heróis. Vocês não fazem bem algum para a minha Jane.

A indignação deles não os permitiu prestar atenção no homem que pegou um radinho ao observar toda a cena.

— Doutor Brenner, é ela. Theresa Ives acordou — sussurrou contra o objeto.


Lucas, Dustin, Will e Max permaneceram no cinema, conversando sobre a atitude absurda de Terry.

— Eu nunca pensei que ela fosse assim — Max admitiu. — Foi tão… grosseiro. Ela não respeitou a El. Quero dizer, eu entendo que ela se preocupa e essas coisas, mas a Terry colocou tudo em risco. Alguém poderia ter notado.

— A El obviamente está passando por uma situação difícil e nós não podemos fechar os olhos para isso — Dustin avisou. — Não da maneira como fizemos com você, Max.

Will bufou.

— Foi aterrorizante o modo como ela puxou a El para longe de nós e como ela nos ofendeu. Eu fico bravo porque minha mãe e o Hopper fizeram muitas coisas pela El e a Terry vive dizendo que só fazemos mal a ela.

— Se o Mike tivesse visto isso, com certeza teria gritado com a Terry. Aí sim estaríamos bem perto de uma guerra — Lucas completou.

Will arrepiou-se só de pensar no que Mike falara anteriormente e decidiu ficar em silêncio.

Billy atravessou a rua e parou há alguns metros de distância do cinema. Ele deu um leve aceno para todos, gesto que foi retribuído.

— Tenho que ir — Max se levantou. — Meu irmão chegou.

Ela se despediu de Will e de Dustin com um abraço. Depois, deu um beijo terno em Lucas.

— Obrigada por terem esperado — agradeceu. 

Lucas sorriu ao ver Max descer as escadarias e dar um abraço apertado em Billy e seguiu de bicicletas com os amigos.

Billy passou o braço pelas costas de Max e seguiu com ela até o ponto de ônibus mais próximo.

— E aí? — ele perguntou. — Como foi o filme?

Max deu de ombros.

— Foi legal, até. Mas eu esperava um pouco mais — confessou. — E a terapia?

Billy suspirou.

— Acho que estou melhorando — omitiu.

Max arqueou as sobrancelhas e cruzou os braços.

— Mas ainda está preocupado se a sua mãe vai reagir mal quando descobrir sobre você e o Steve. Acertei?

Billy ergueu as mãos em sinal de rendição.

— Sim, pirralha — brincou. — Acertou.

Max mostrou a língua para Billy e deitou a cabeça no ombro dele.

— Você quer contar, não é?

Ele respirou fundo e começou a afagar o cabelo da irmã.

— Muito — confessou. — Só que o medo é maior que a vontade.

— Não é. Você só está pensando no que aconteceria antes. Só que a sua mãe não é como seu pai e não vai agir do mesmo jeito. Acredite em mim — Max fitou Billy e fez um biquinho.

Billy riu e tocou no nariz dela, uma brincadeira que faziam quando eram mais novos.

— Eu te amo, sabia? — ele disse.

— Eu também te amo, babaca.


Terry bateu a porta e arrastou Eleven para a sala. A mulher revirou uma sacola de plástico, de onde tirou uma fechadura e algumas chaves de fenda. 

De repente, começou a mexer na porta e Eleven percebeu que ela estava trocando as trancas.

— Por que está agindo desse jeito? — indagou.

— Porque eu quero proteger você! — gritou. — Mas parece que é um fetiche seu sair de casa e correr perigo.

Eleven bufou e colocou as mãos na cintura.

— Eu me sinto presa perto de você! — alterou o tom de voz. — Eles são meus amigos e meu namorado! Ninguém quer me ver mal.

Terry segurou o braço da filha com força e tentou controlar a respiração alterada.

— Eu não vou tolerar malcriações da sua parte, Jane. Se aquele policial idiota não foi capaz de te dar uma educação decente, comigo será diferente.

— Não ouse falar sobre o meu pai! — berrou e apontou para Terry. — Ele salvou a minha vida e quase morreu fechando aquele maldito portal!

— Ele não é seu pai! — ela falou tão alto que, se elas tivessem vizinhos, pensariam que estavam numa competição de quem gritava mais. — Seu pai é o Andrew Rich, que morreu na Guerra do Vietnã.

— Eu nunca o vi! Como posso chamá-lo de pai?

— Agora você foi longe demais, Jane!

Terry empurrou Eleven para o quarto e a trancou lá dentro. A garota bateu na porta.

— Mãe, abre isso — socou a madeira. — Mãe, abre essa porta. Mãe!

— Você vai ficar aí dentro, sua malcriada! Vai ficar até aprender!

Eleven sentou-se na cama e abraçou os joelhos. Ela começou a chorar e ficar aos soluços. Seu corpo tremeu e ela deu um grito forte. Num instante, as janelas e qualquer coisa de vidro se tornaram cacos.

— Você é muito maluca! Se eu soubesse como você era, nunca teria lutado por você!

Eleven gritou novamente e chorou alto.


Will chegou em casa e deparou-se com Jonathan fazendo o jantar.

— Will — sorriu. — Chegou mais tarde do que eu imaginei.

— Sim — respondeu. — Nós esperamos o Billy chegar para a Max não ficar sozinha. Mas e a mamãe?

— Ela está num turno até mais tarde hoje e ligou pedindo para eu fazer a comida. Espero que não ponha fogo na casa.

Will sentou-se à mesa e suspirou.

— Bom, já que a mamãe não está, será que podemos conversar?

Jonathan parou de mexer o arroz e abaixou o fogo antes de se acomodar em frente ao irmão.

— Aconteceu alguma coisa?

— Não — balançou as mãos. — Quero dizer, não sei. Talvez. Mas, por favor, não conte nada à mamãe.

Jonathan respirou fundo.

— Depende.

— Eu tive outra crise. Sabe, como aquelas quando o Devorador de Mentes me pegou.

Ele arregalou os olhos.

— Como? — levantou-se. — Will, olha, pelo menos o doutor Owens deve ficar sabendo disso. 

— N-não — desconversou. — Quer saber? Foi só imaginação. É, só pode.

— Tem certeza?

— Absoluta. Acho que vou dormir um pouco antes de a mamãe chegar.

Jonathan fitou o irmão, preocupado.


Billy esperou do lado de fora do apartamento assim que o porteiro ligou avisando que Steve havia chegado.

Steve saiu do elevador e o abraçou, contendo o ímpeto de beijá-lo.

— Obrigado por ter me convidado — sussurrou contra o ouvido dele.

Veronica cumprimentou Steve e o recebeu da maneira mais doce possível.

Ninguém sabia sobre o que havia, de fato, acontecido dentro do Starcourt naquele quatro de julho, mas Billy disse à mãe que Steve o salvara do incêndio. Por isso, ela tinha um carinho especial por ele.

Steve seguiu Billy até o quarto dele e fechou a porta.

Billy sorriu e passou os braços pelo pescoço do namorado, beijando-o. Steve agarrou a cintura dele e os dois ficaram daquele jeito por muito tempo. 

O beijo se encerrou em selinhos e eles encostaram suas testas.

— Eu não aguento mais ter que me trancar aqui para beijar você — Billy admitiu. — Parece que estou sendo sufocado.

Steve acariciou o queixo de Billy.

— É por pouco tempo. Até você se sentir seguro, pelo menos.

Billy recebeu um beijo na testa encostou a cabeça em Steve.

— Obrigado por estar aqui — beijou o peito dele. — Eu te amo.

Steve o apertou contra si.

— Eu te amo, Billy. Tudo que eu mais quero é te ver bem.

Billy fechou os olhos, aproveitando aquele momento perfeito.


Nancy entrou em casa, ainda em êxtase por saber que as coisas se ajeitariam. Owens passou algumas vitaminas e remédios anti enjoos. 

Na sala, encontrou Mike sentado no sofá, de bermuda. Sem camisa, estava calmo diante de três ventiladores apontados para ele.

— Mike? — ela chamou, pois estranhou o comportamento do irmão.

Mike se virou para ela e sorriu sarcasticamente.

— Nancy — ele se levantou, empolgado, e abriu os braços. — Você chegou.

Mike a abraçou.

— Para quê tantos ventiladores? Não está com frio?

— É só um trabalho do senhor Clarke sobre temperatura do corpo.

Mike respirou fundo. Queria sentir o cheiro dela.

— Estranho — continuou.

Nancy afastou-o e o fitou.

— Como?

— Seu cheiro. Ele está… estranho.

Mike percebeu sua visão piscar e andou para trás. Ele conhecia a sensação. Os flashes dele em sua mente apenas reforçaram sua teoria.

Ela está grávida, a voz do seu inconsciente, dominada por ele, avisou.

— Não — ele sussurrou. — Não, não pode ser.

— Mike, está tudo bem? — ela estava preocupada.

Pegue-a. Traga-a para mim.

— Não — tropeçou e caiu no sofá.

— Mike?

Traga também o bebê para mim. Só a criança poderá vencer a garota.

— Não! — Mike cobriu as orelhas e gritou.

— Mike, o que aconteceu? — Nancy se aproximou.

— Dor de ouvido — mentiu. — Dor de ouvido!

— Está bem, está bem, quer que eu chame os nossos pais?

— Saia daqui! — urrou contra ela. — Agora!

Com medo, ela correu para o quarto, deixando para trás um Mike perturbado.

 


Notas Finais


Beijinhos, até no máximo dia 04/04<3


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